24.04- A reencarnação para grandes vultos da nossa história

Prolegômenos
11 de setembro de 2018 Pamam

A reencarnação se constitui em uma ideia central em diversas doutrinas veritológicas e em diversos sistemas saperológicos, em que os seus grandes nomes tinham a convicção de que uma porção do ser em si podia subsistir à morte do corpo humano. Essa porção do ser denominada de espírito, alma, ou mesmo consciência, poderia ser capaz de se ligar sucessivamente a outros corpos para a consecução de um fim específico, o autoaperfeiçoamento, que, em outras palavras, é a evolução espiritual. Constitui-se também de uma ideia central em muitos credos e seitas, para a anulação do carma.

Não se deve confundir a reencarnação com a metempsicose. Na reencarnação o ser humano desencarna, quando então o seu espírito ascende ao Mundo de Luz que lhe é próprio, para que somente partindo de lá possa reencarnar em outro corpo humano. Já na metempsicose é admitida a possibilidade de o espírito encarnar em animais ou vegetais, embora nestes últimos não venha a ser propriamente uma encarnação, o que é um contrassenso, pois que o espírito nunca sofre involução, sendo ela uma crença amplamente difundida na pré-história e na antiguidade, sendo encontrada entre os egípcios, gregos, romanos, chineses e hindus.

É por isso que Heródoto menciona o instituto da reencarnação como sendo de origem egípcia, sendo que nessa concepção a reencarnação se processava instantaneamente, após a morte do corpo humano, passando a alma para um outro corpo humano que estava nascendo, percorrendo todas as criaturas um ciclo de três mil anos.

Pitágoras, o fundador da Escola Itálica, ou Escola Pitagórica, que veremos ainda neste site de A Filosofia da Administração, na categoria A Era da Sabedoria, que viveu no período de 570 a 495, era um veritólogo que tinha a espiritualidade bastante aflorada. Os pitagóricos eram convictos acerca da existência e da imortalidade da alma, por isso acreditavam racionalmente no instituto da reencarnação. Eram tão espiritualizados que tinham a autorreflexão como sendo um dever consciente e imprescindível para a espiritualização da vida, que também incluía estudos de Matemática, Astronomia e Música, o que lhes imprimiu um caráter religioso, pois é sabido que as religiões, sendo as fontes das ciências, são filhas legítimas da Veritologia, que por sua vez é a fonte da Saperologia, que tem as ciências como sendo as suas filhas legítimas.

Em sua obra Fédon, Platão nos fornece o testemunho de Sócrates acerca da reencarnação, quando nos diz o seguinte:

Várias vezes, no curso da minha vida, fui visitado por um mesmo sonho; não era através da mesma visão que ele sempre se manifestava, mas o que me dizia era invariável: ‘Sócrates’, dizia-me ele, ‘deves te esforçar para compor música!’ E, palavra! Sempre entendi que o sonho me exortava e me incitava a fazer o que justamente fiz em minha vida passada (grifo meu)”.

Já em sua obra A República, Platão nos fornece outro testemunho de Sócrates acerca da reencarnação, quando também nos diz o seguinte:

Eis aqui, meu caro Glauco, em meu sentir, a grande e arriscada prova para a humanidade. Por isso, deve cada um de nós, descurando-se das outras ciências, procurar obter a única que lhe fará descobrir e discernir as condições felizes e infelizes, e escolher sempre a melhor, repassando na mente a verdade de quanto havemos dito, as semelhanças e as distinções estabelecidas para o que interessa à moralidade da vida. Deve também saber que grau de beleza, misturado com certa porção de riqueza ou de pobreza, torna o homem mau ou virtuoso; que efeito deve produzir o merecimento ilustre e o obscuro, as dignidades públicas e a vida privada, a força e a fraqueza do corpo, a facilidade e a dificuldade de aprender; em uma palavra, as diferentes qualidades naturais ou adquiridas, associadas umas às outras, de sorte que, depois de haver feito todas estas reflexões, e sem perder de vista a natureza da alma (grifo meu), possa distinguir o gênero de vida que lhe for vantajoso do que lhe seria funesto, entendo por funesto o que lhe tornasse injusta a alma, por vantajoso o que a fizesse virtuosa, sem nenhum respeito a tudo o mais. Porque já vimos que é este o melhor partido a tomar, quer para esta vida, quer para a outra (grifo meu). Cumpre-nos, pois, a cada um de nós, conservar a alma inabalável e firme neste propósito, a fim de que não se deixe fascinar nem pela riqueza, nem por outros males desta espécie; nem se exponha, arrojando-se, ansiosa, sobre a condição de tirano ou sobre qualquer outra semelhante, a cometer grande número de males sem remédio e a sofrê-los ainda maiores; antes, pelo contrário, quando estiver de sua parte, deve saber se fixar para sempre em uma condição medíocre e evitar com cuidado os dois extremos, JÁ NA PRESENTE VIDA, JÁ EM QUALQUER OUTRA POR ONDE HAJA DE PASSAR (grifo e realce meus). Porque disto é que depende a maior felicidade do homem”.

Tomando por base que as almas humanas são derivações e partes da alma universal, cuja atividade anima os corpos, havendo, pois, uma atividade racional que anseia para o inteligível, para Plotino as almas humanas, quando em uma vida pré-mundana, ou seja, quando em seus Mundos de Luz, gozavam da intuição do Absoluto, daí decaem e são encerradas no cárcere do corpo humano, por serem culpadas e terem uma inclinação para a matéria. Aí o espírito, que constitui a essência inteligível do ser humano, duplica-se em uma alma inferior, por se encontrar precisamente preso ao corpo humano. Esta queda das almas não se realiza uma vez por todas, mas se repete ciclicamente.

Sabe-se que o peregrino é uma espécie de romeiro, aquele que viaja para os locais dignos de veneração, em longas jornadas, e isto por diversas vezes. Farias Brito, o maior saperólogo da modernidade, considera o espírito como sendo um peregrino neste mundo, assim como se tivesse viajado por diversas vezes do seu Mundo de Luz para este mundo-escola, é o que consta em sua obra Finalidade do Mundo – 2º Volume, a página 242, quando assim se expressa:

Há, pois, a luz, há a natureza e há a consciência. São os três momentos da natureza divina. A luz é Deus em sua essência (a Essência de Deus é o Ser Total, digo eu); a natureza é Deus representado; a consciência é Deus percebido. Pode-se dizer: a luz representando-se, é a natureza; a natureza sendo percebida, é a consciência, ou mais precisamente, o conhecimento. Deste modo, a luz é o princípio; a natureza é o meio; o conhecimento é o fim. A luz representa-se; quer dizer: Deus traduz o seu pensamento, aparecendo como natureza. A natureza é como um livro que fosse a tradução ou a repercussão do pensamento divino. Ora, dado um livro, se se pergunta: para que existe este livro? — a resposta é: para o conhecimento. Daí meu pensamento: o conhecimento é a finalidade do mundo.

Sendo assim, é fácil deduzir as leis de conduta. Antes de qualquer outra coisa, duas são as regras fundamentais da moral:

Primeira: conhece-te a ti mesmo.

Segunda: conhece a natureza.

Quanto ao mais tudo se desenvolve por dedução necessária e é de si mesmo evidente, sendo que se considera nessa peregrinação neste mundo como uma viagem eterna (grifo meu) e se pergunta: para onde vamos? A resposta é para o conhecimento; ou em outros termos: para a verdade, ou melhor, para Deus; ou ainda, e em síntese: Ad lucem”.

Tratando acerca de pessoas que ocupam o mesmo corpo durante todo o período da sua existência terrena, Alfred J. Ayer considera também a existência de pessoas que existiram e que continuam a existir sem corpos humanos, obviamente que postos no âmbito da espiritualidade, podendo se encontrar tanto no Astral Superior como no astral inferior, antes de chegar a ocupar um corpo humano. É o que vamos encontrar em sua obra As Questões Centrais da Filosofia, a página 153, quando o autor assim se expressa:

A regra… é a que exige que uma pessoa ocupe um e mesmo corpo durante todo o período de sua existência. Temos, entretanto, de considerar… que poderia haver de modo concebível pessoas que existiram, ou de qualquer modo continuaram a existir, sem ocupar quaisquer corpos em absoluto.

… tal estado de coisas é logicamente possível… Pode-se imaginar alguém acordando e descobrindo-se despojado de qualquer sentimento corpóreo ou de qualquer percepção de seu próprio corpo; pode-se imaginar alguém perambulando pelo mundo como um fantasma, intangível aos outros e somente ocasionalmente visível e após um período totalmente invisível, um espectador de um mundo do qual não participa… É muito menos fácil imaginar alguém… antes de chegar a ocupar um corpo (grifo meu) ou… num estado desencarnado. No entanto, não é logicamente necessário que as pessoas devam estar encarnadas (grifo meu), estas outras variações também devem ser possíveis”.

É sabido que Deus é formado de Substâncias, que se dividem em Essência e Propriedades. A Essência é o Ser Total. As Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total. Os seres são partículas do Ser Total, sendo, portanto, essências, que na espiritualidade evoluem por intermédio das propriedades da Força, da Energia e da Luz, o que implica em dizer que Deus se encontra contido em cada ser, em conformidade com o seu estágio evolutivo. Tratando acerca do assunto, da reencarnação e da encarnação, Huberto Rohden, em sua obra O Pensamento Filosófico da Antiguidade, as páginas 66 e 67, 68, 124 e 242, vem nos dizer o seguinte:

A alma humana é Deus mesmo, em forma individualizada. A alma é, pois, eterna em sua essência divina, embora seja temporal na sua individualização corpórea (grifo meu)

A existência do homem é anterior à sua encarnação — como também será posterior à sua desencarnação.

Caso um ser humano morra antes que os sentidos tenham podido despertar-lhe as ideias latentes, terá essa alma ensejo para atualizar as suas ideias embrionárias numa outra existência corpórea (reencarnação) (grifo meu).

A doutrina da reencarnação generalizou-se rapidamente, porque parecia permitir uma indefinida evolução da alma… o corpo era um instrumento de aperfeiçoamento da alma, através de sucessivas existências… era considerado… como um cárcere em que a alma se achava presa e do qual convinha libertar-se quanto antes.

Embora a mais deslumbrante encarnação do divino Logos se tenha realizado em Jesus de Nazaré, a encarnação do eterno Logos é um processo constante e ininterrupto no cenário do universo fenomenal; todos os dias e a cada instante, o eterno espírito de Deus se encarna ou revela em milhares de formas individuais; a gênese do universo não é um fato consumado, mas um processo continuado; não uma ação do passado, mas um ato permanente no presente, e o presente é a eternidade”.

Além de tudo o que já foi exposto nos tópicos anteriores e que ainda será exposto nos tópicos posteriores, sendo corroborado por essas e outras grandes mentalidades que influíram na história desta nossa última e decisiva civilização, moldando a cultura humana, que eram convictos acerca do preceito da reencarnação, torna-se evidente que assim esse instituto fica devidamente fundamentado do modo mais lógico e racional possível.

 

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