23.05- A mediunidade de incorporação

Prolegômenos
31 de agosto de 2018 Pamam

As conturbações do espírito, o seu abatimento e o seu desânimo, ocasionados pelas inúmeras e perenes dificuldades que o assoberbam no cotidiano da vida, são causas predisponentes às moléstias somáticas — próprias do organismo, considerado fisicamente —, em função do estado de languidez e pelas faltas da força e da energia do seu corpo fluídico, que não as comunica ao organismo para reagir sobre aquilo que o envolve. E nesta designação estão incluídos todos os agentes capazes de modificar o organismo ou alterar a saúde e aniquilar o ser humano, quer os de ordem material, quer os de ordem espiritual.

A mediunidade de incorporação é clara, visível e evidente para todos aqueles que possuem uma noção mínima acerca da espiritualidade, ou, pelo menos, que não sejam renitentes a ela, menos para os céticos organicistas ou materialistas, que não sabem identificar que ela é a causa das nevroses, das moléstias da alma, provocadas por espíritos obsessores quedados no astral inferior, que determinam o sofrimento do ser humano.

Em Medicina, dá-se a denominação de nevroses a estados mórbidos da alma, que consistem em perturbações funcionais, sem lesões materiais e sem causas físicas que venham a ser apreciáveis, que se observam principalmente na vida de relações sociais. Daí a razão pela qual o termo neurose passa a ser uma perturbação funcional em órgãos que se encontram intactos, considerada de origem nervosa, como, por exemplo, uma neurose cardíaca, ou mesmo um conjunto de problemas de origem psíquica que conservam a referência à realidade, ligam-se a situações circunscritas e geram perturbações sensoriais, motoras, emocionais e ou vegetativas, a psiconeurose.

Assim, a neurose passa a designar a psiquiatria de transtorno mental, em que o sujeito mantém a consciência do estado mórbido, do seu sofrimento psíquico. Com o agravamento desse estado mórbido por parte dos espíritos obsessores, a neurose passa para o estado denominado de psicose, que se caracteriza pelo fato do ser humano perder a consciência da alteração da sua percepção e da sua compreensão, desvirtuando o seu julgamento acerca da tudo aquilo que o rodeia, pois que os espíritos obsessores provocam ilusões ou alucinações, tornando inoperante qualquer tratamento terapêutico: é o estado da loucura.

A loucura, pois, na maioria dos casos, é uma obsessão, uma profunda depressão, às vezes simples alucinação dos sentidos, outras vezes desordem da inteligência ou mesmo perversão do senso moral, ocasionando o quase aniquilamento das faculdades psíquicas, por conseguinte, um verdadeiro embrutecimento do ser humano.

Esses estados de alma, causados pelas ações dos espíritos obsessores, às vezes até mesmo pelos espíritos encarnados, influi diretamente sobre os seres humanos de diversos modos, desde a simples sugestão, insistente, perene, tenaz, até a ação direta, enérgica, violenta, brutal, provocando os ataques, os denominados surtos psicóticos, que são episódios de dissociação da estrutura psíquica do ser humano, fazendo com que ele manifeste comportamentos socialmente estranhos e diferentes, devido à sua incapacidade de pensar racionalmente.

Os espíritos obsessores agem sob o influxo de diversos motivos, como o ódio, o desejo de fazer o mal, a zombaria, e outros, mas dominando a todas essas suas paixões, eles procuram captar a confiança das suas vítimas, por isso as suas ações são intensamente demoradas, assumindo um certo aspecto de brandura, incessante, mas delicada. Porém, se a paixão os domina, as agressões passam a ser violentas e brutais.

Assim se pode compreender e explicar o porquê das formas tão variadas, incontáveis até, das histerias — doenças nervosas caracterizadas por convulsões —, desde a simples tristeza ou alegria, sem as causas que as justifiquem, até à abstração, enlevo ou embevecimento e o êxtase, e até chegar à loucura; desde o estado em que a vítima canta ou dança, grita e chora, sem saber o porquê dessas suas manifestações, até aquele em que furiosa rasga as vestes, debate-se e cai por terra, convulsa, em contorções medonhas, horrorosas ou lúbricas, as quais, para serem explicadas racional e satisfatoriamente, só podem ser atribuídas à natureza do sentimento que anima, agita e impulsiona o espírito obsessor agressor.

E assim se pode compreender e também explicar as formas diversas de loucura, que não podem ser atribuídas a enfermidades do órgão da mentalidade, porque a autópsia praticada em indivíduos falecidos de moléstias intercorrentes, logo em começo de loucura, nunca revelou a mínima lesão material no cérebro, sendo certo, entretanto, que se encontram profundas alterações nos cérebros daqueles que sucumbem, após longo tempo de sofrimento ocasionado pela loucura, o que torna claro e patente que tais lesões são efeito e não causa das perturbações psíquicas.

Esses fatos podem ser observados e analisados por quem quer que seja. E aqueles que o fizerem sem ideias preconcebidas, sem sujeições à comunidade científica ou aos credos, portanto, livres de quaisquer peias, hão de reconhecer a sua veracidade.

É certo que existem várias mediunidades, mas a mediunidade de incorporação, sem qualquer sombra de dúvida, é a que se apresenta de modo mais evidente aos nossos olhos. O ser humano poderá até esconder a todas as outras suas faculdades mediúnicas, mas a mediunidade de incorporação ele não consegue.

Na mediunidade de incorporação o ser humano fica dominado por um ou mais espíritos obsessores, que deslocam o seu próprio espírito para o lado, assumindo desta forma o controle físico e mental da pessoa. A atuação do obsessor poderá se verificar de maneira mais calma ou mais violenta, em conformidade com os sentimentos do espírito atuante, não sendo necessário para isso que o atuado venha a se concentrar.

Quando um médium de incorporação fica dominado por espíritos obsessores ele se descontrola, apresentando gestos convulsivos e falando com uma voz estranha, emitindo inclusive sons tidos como se fossem sobrenaturais. Grande parte dessas manifestações espiríticas chega a ser confundida com ataque epiléptico, ou mesmo com doenças raras, pouco conhecidas da Medicina. Isto se deve em razão das ciências de nada saberem acerca da Espiritologia.

Podemos afirmar, sem incidir em qualquer erro, que a totalidade dos seres humanos que lotam os manicômios são médiuns de diversas naturezas, notadamente de incorporação. Em razão da ignorância a respeito da Espiritologia e, também, da ignorância dos profissionais que tratam desses infelizes, esses médiuns, tidos como sendo doentes mentais, na quase totalidade das vezes, terminam os seus dias nos antros de horrores que os ambientes dos manicômios proporcionam. Caso houvesse um pouco mais de esclarecimento espiritual, mais propriamente sobre a mediunidade que certos seres humanos trazem consigo, empregando a força e a energia com vontade forte dirigidas para a prática do bem, seria muito mais fácil normalizar a esses infelizes, livrando-os da loucura.

É comum se encontrar em livros, filmes, reportagens e até mesmo na justiça, casos de dupla personalidade, em que na maioria das vezes se apresentam em sentido oposto à personalidade do próprio ser humano, acontecendo de uma pessoa calma e tímida apresentar, de repente, uma segunda personalidade, um temperamento completamente oposto, irascível, explosivo e bastante extrovertido. Essas características reveladas pela segunda personalidade podem surgir em qualquer época da vida da pessoa. Ressaltando-se que a dupla personalidade não é um tipo comum de mediunidade de incorporação.

Existem casos gravíssimos em que uma pessoa boa se transforma em um delinquente, passando a cometer crimes hediondos. Testes científicos realizados com esses tipos de pessoas, no entanto, revelam que em grande parte do tempo elas são normais e boas, transformando-se como se fossem uma outra pessoa, em alguns momentos. Quem já teve a oportunidade de presenciar um caso de dupla personalidade, fica deveras espantado com as transformações que se processam na pessoa, em que ela se modifica por completo, inclusive com a sua voz e os seus gestos se tornando estranhos. Existem até os casos de artistas que na vida real são pessoas extremamente tímidas e recatadas, mas que, ao subirem em um palco, transformam-se completamente.

A explicação para tais casos não é tão difícil assim, uma vez que a dupla personalidade não passa de uma mediunidade de incorporação, em que o ser humano que se deixa dominar por espíritos obsessores fica atuado por eles, porém, sem perder a sua coordenação motora, ou seja, o ser animal permanece como se estivesse normal, permitindo ao espírito atuante  — que conseguiu afastar ligeiramente o espírito da pessoa encarnada para o lado — tomar conta do processamento cerebral desse corpo e fazer dele o seu instrumento. Em grande parte dos casos que ocorrem no cotidiano da vida, quando ocorre a incorporação, a pessoa sofre um ataque, perdendo os sentidos e o controle do seu corpo humano.

No entanto, na dupla personalidade, torna-se necessário que haja uma cumplicidade entre o espírito atuante e o espírito encarnado. Esse tipo de atuação casada, digamos assim, é tão prejudicial ao ser humano quanto qualquer outra coisa nociva, uma vez que tudo irá depender dos propósitos do espírito obsessor, que vê nesse ser humano a possibilidade de exteriorizar os seus atributos individuais inferiores e relacionais negativos.

É sabido que existem a lei da afinidade e o princípio da atração, o que torna necessário que o espírito obsessor decaído no astral inferior e o portador da mediunidade de incorporação sejam afins um ao outro, sintam-se atraídos um pelo outro. Por exemplo, no caso de um artista do sexo masculino se apresentar no palco com as características femininas, ele pode estar sendo atuado por um espírito cuja última encarnação foi feita em um corpo de mulher. Entretanto, torna-se necessário que o próprio artista tenha esse desejo, pois nenhum espírito encarnado faz aquilo que não quer, mesmo por imposição de um espírito obsessor, ou por quem quer que seja.

Para se ver livre desse mal e não se tornar um instrumento dos espíritos obsessores, torna-se necessário o autopoliciamento dos pensamentos, evitando que os sentimentos inferiores venham por eles a se exteriorizar. É imprescindível combater com coragem e determinação o seu próprio “eu” viciado, evitando assim entrar em sintonia, através da afinidade e da atração exercidas pelos pensamentos, com espíritos obsessores quedados no astral inferior e, consequentemente, com uma segunda personalidade.

O espírito obsessor que atua como uma segunda personalidade de um ser humano encarnado, pode ter desencarnado há pouco tempo, ou se encontrar no astral inferior há dezenas ou mesmo centenas de anos. Ele pode ter sido um assassino perverso, um sacerdote, um viciado, uma prostituta, ou mesmo um cantor, pintor ou poeta. Ele se apresentará atuando como sendo a segunda personalidade, em conformidade com a sua vida anterior como encarnado.

Na mediunidade de incorporação, as atuações mediúnicas podem ser mais ou menos violentas, de acordo com o espírito obsessor atuante, em contrapartida com a “cooperação” do atuado. Existem, ainda, substâncias que facilitam a incorporação e a apresentação de uma dupla personalidade, dentre elas podemos citar o álcool, os tóxicos e, também, alguns chás que são utilizados por diversas seitas, tidos como sendo milagrosos. A função dessas drogas é enfraquecer o espírito da pessoa e formar o ambiente fluídico propício, possibilitando o domínio do espírito obsessor impostor. A vida neste mundo se encontra repleta de seres humanos que choram, arrependidos por haverem cometido atos, os quais não teriam praticado, caso não fossem as ações dessas substâncias.

Nos centros espíritas kardecistas, são muito utilizados os médiuns de incorporação, mas com todos eles lidando com espíritos obsessores quedados no astral inferior. Isto se explica em razão dos seus praticantes ignorarem completamente a Espiritologia, embora considerem que o seu espiritismo seja científico, apesar de seguirem a Bíblia e serem adeptos do sobrenatural, pois observam a espiritualidade apenas por um único prisma, assim como se um espírito que tenha sido assassino, sacerdote, mentiroso, charlatão, ladrão, e tudo o mais que venha ser contrário aos ditames da moral e da ética, após a desencarnação, passem a fazer parte de um único conjunto de espíritos, juntando-se aos espíritos honrados, demonstrando um completo desconhecimento da lei da afinidade e do princípio da atração, quer dizer, eles ignoram completamente a existência do astral inferior, ensejando a que também ignorem a classe de espíritos com que estão lidando. Nestes ainda se pode encontrar pessoas honradas, mas completamente ignorantes.

Igualmente, nos terreiros de umbanda e de quimbanda, são também utilizados os médiuns de incorporação, mas com todos eles lidando com espíritos obsessores quedados no astral inferior, ainda mais atrasados do que os do kardecismo, pois que este pelo menos ainda prega a caridade, através dos seus dirigentes, enquanto que aqueles realizam trabalhos de magia negra para ajudar aos incautos arrebanhados, em troca de remunerações, ou mesmo para cangar aos inimigos, ou àqueles com quem antipatizam ou sentem inveja. Nestes se pode encontrar apenas patifes.

Observar a dupla personalidade à luz da Espiritologia, de modo racional e científico, torna-se até muito mais simples do que se pode imaginar, pois que comprovado está que se trata de uma simples mediunidade de incorporação.

Se o médium aceitar com normalidade a sua mediunidade de incorporação, concentrar-se para que a atuação venha a acontecer de comum acordo com o espírito atuante, sem jamais perder a consciência daquilo que está comunicando, fazendo-o dentro das correntes constituídas pelos espíritos que integram o Astral Superior, poderá esse médium, devidamente disciplinado, prestar relevantes serviços à nossa humanidade.

Para tanto, ele deverá ser esclarecido acerca da Espiritologia, sendo um estudioso acerca dos ensinamentos transcendentais ministrados pelo Racionalismo Cristão, e, antes de tudo, ser honrado e ter a sua vontade fortemente educada para o bem.

 

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