19- AS CRUZADAS

Prolegômenos
16 de julho de 2018 Pamam

A seguir, resta saber agora, quem dos dois espíritos obsessores que se encontram decaídos no astral inferior é o mais poderoso: se Jeová, o deus bíblico, ou se Lúcifer, ou Alá, o deus alcorânico. Essa guerra ferrenha travada no astral inferior entre as inúmeras falanges desses espíritos obsessores, revestidos da única pretensão de serem o único deus da nossa humanidade, para que assim possam formar um ambiente fluídico trevoso favorável às suas ações e das suas falanges, obviamente repercutiu diretamente entre os seres humanos, na forma daquilo que os historiadores denominam de Cruzadas.

As Cruzadas, do espanhol cruzado, que significa marcado com a cruz, abrangeram o período de 1095 a 1291, constituindo o ato culminante do drama medieval e o acontecimento mais belicoso na história da Europa e do Oriente Próximo, tudo sob os auspícios do astral inferior. A disputa travada no astral inferior entre as falanges do deus bíblico e as falanges do deus alcorânico, finalmente, depois de séculos de disputa, os dois grandes credos, o catolicismo e o islamismo, chegaram ao arbítrio final dos homens, na suprema corte da guerra travada entre ambos os lados. Todo o desenvolvimento medieval, toda a expansão do comércio e da falsa cristandade, todo o fervor das crenças credulárias, todo o poder do feudalismo e a magia da cavalaria chegaram a um clímax em uma guerra de duzentos anos pela alma do homem e por lucros comerciais. A nossa humanidade, em todos os tempos da história desta nossa civilização, agiu em conformidade com os espíritos obsessores quedados no astral inferior.

Segundo os historiadores, que nem sonham com as ações do astral inferior, a primeira causa próxima das Cruzadas foi o avanço dos turcos seljúcidas, considerando que o mundo havia se ajustado ao controle muçulmano no Oriente Médio. Os fatimitas, tribo que constituiu o império do Magrebe, em Marrocos, só que nessa época ramificado no Egito, tinham governado com brandura na Palestina, e excluindo algumas exceções, as seitas ditas cristãs dali gozavam de ampla liberdade de culto. Em 1010, Al-Hakim, o califa louco do Cairo, destruiu a igreja do Santo Sepulcro, mas os próprios muçulmanos contribuíram para a sua restauração, tanto que em 1047 o viajante muçulmano Nasir-i-Khosru a descreveu da seguinte maneira:

É um edifício muito espaçoso, capaz de conter 8.000 pessoas e construído com a máxima habilidade. Interiormente, a igreja está adornada em toda parte com brocado bizantino, trabalhado em ouro… E retrataram Jesus — a paz esteja com Ele! — cavalgando em um burro”.

A igreja do Santo Sepulcro não passava de uma das muitas igrejas ditas cristãs em Jerusalém, já que muitos peregrinos que se consideravam cristãos tinham livre acesso aos lugares considerados santos, pois uma peregrinação à Palestina constituía uma forma de devoção ou de penitência, já há muito tempo. Em toda parte na Europa se encontravam romeiros que usavam folhas de palmeiras cruzadas da Palestina, como sinal da peregrinação realizada.

Mas em 1070, os turcos tomaram Jerusalém aos fatimitas e os peregrinos começaram a trazer para as suas terras narrativas de opressão e profanação. Em 1088, conta-se que um caminhante, Pedro, o Eremita, trouxera ao papa Urbano II uma carta de Simeão, o patriarca de Jerusalém, que pormenorizava relatos da perseguição dos ditos cristãos nessa cidade e implorava o auxílio pontifical.

A segunda causa próxima das Cruzadas, segundo os historiadores, foi o perigoso enfraquecimento do Império Bizantino. Durante sete séculos ele havia estado na encruzilhada da Europa e da Ásia, rechaçando os exércitos asiáticos e as diversas hordas que eram próprias das vegetações rasteiras de clima frio e seco. As suas discórdias internas, as suas heresias intermitentes, o seu isolamento do Ocidente pelo cisma de 1054, deixaram-no demasiado fraco para cumprir com a sua tarefa histórica. Enquanto os búlgaros, os patzinaks, os cumans e os russos assaltavam as suas portas europeias, os turcos estavam desmembrando as suas províncias asiáticas. Em 1071, o exército bizantino quase foi aniquilado em Manzikert. Em 1085, os turcos seljúcidas tomaram Edessa e Antioquia, assim como também Tarso e até mesmo Niceia, e olhavam para a própria Constantinopla através do Bósforo. O imperador Aleixo I, período de 1081 a 1118, salvou uma parte da Ásia Menor, assinando uma paz humilhante, mas não tinha meios militares para resistir a novos ataques. Caso Constantinopla caísse, toda a Europa Oriental ficaria vulnerável aos turcos, com a vitória antes obtida em Tours, em 732, tendo sido em vão.

Aleixo I, então, esquecendo o orgulho teológico com Roma, enviou delegados ao papa Urbano II e ao Concílio de Piacenza, solicitando que a Europa latina o ajudasse a derrotar os turcos, sob o argumento de que seria mais prudente combater aos infiéis no solo asiático do que esperar que eles atacassem as capitais ocidentais, através dos Balcãs.

A terceira causa próxima das Cruzadas para os historiadores, foi a ambição das cidades italianas Pisa, Gênova, Veneza e Amalfi, que pretendiam estender o seu crescente poder comercial. Quando os normandos tomaram a Sicília dos muçulmanos, período de 1060 a 1091, e exércitos ditos cristãos reduziram o domínio muçulmano na Espanha, no ano 1085 e seguintes, como se Jesus, o Cristo, tivesse algum exército, como é praxe de Jeová, o deus bíblico, que mantém os seus exércitos no astral inferior, o Mediterrâneo ocidental ficou livre para o comércio “cristão”, as cidades italianas, como portos de saída para os produtos internos e transalpinos, tornaram-se ricas e fortes, e planejaram acabar com a ascendência muçulmana no Mediterrâneo Oriental, abrindo o mercado do Oriente Próximo às mercadorias da Europa Ocidental.

A decisão final partiu do próprio Urbano II. Outros papas haviam alimentado tal ideia. Gerberto, como Silvestre II, havia apelado para a falsa cristandade no sentido de salvar Jerusalém, tendo uma fracassada expedição desembarcado na Síria, em cerca de 1001. Gregório VII, em meio à sua fatigante luta com Henrique IV, exclamara: “Preferia expor a minha vida na libertação dos lugares santos a reinar sobre o universo”. Era o reflexo da guerra travada no astral inferior entre as falanges obsessoras que se posicionavam ao lado do catolicismo e as falanges obsessoras que se posicionavam ao lado do islamismo.

Em março de 1095, a disputa ainda estava aquecida quando Urbano II presidiu o Concílio de Piacenza. Ele apoiou o apelo dos legados de Aleixo I no conclave, mas aconselhou uma espera até que uma assembleia mais amplamente representativa pudesse considerar uma guerra contra o islã, estando mais bem informado para considerar como certa a vitória em um empreendimento tão distante, pois que um fracasso prejudicaria seriamente o prestígio da Igreja Romana em todo o Ocidente, mas sonhava em trazer a Igreja Oriental novamente sob o domínio papal, com Roma mais uma vez se destacando como sendo a capital do mundo.

De março a outubro de 1095, Urbano II percorreu a Itália do norte e a França do sul sondando chefes e assegurando apoio. Em Clermont, na Auvergne, reuniu-se o concílio histórico, e embora fosse um novembro frio, milhares de pessoas vieram de centenas de comunidades, instalaram as suas tendas ao ar livre, reuniram-se em uma vasta assembleia que nenhum salão poderia abrigar e, assediados pelos espíritos obsessores, vibraram de emoção quando o seu compatriota francês, Urbano II, levantou-se em uma plataforma erguida no meio deles e se dirigiu a eles em francês, no discurso de maior influência da história medieval, cujo teor foi o seguinte:

Ó raça de francos! Raça amada e eleita de Deus!… Dos confins de Jerusalém e de Constantinopla nos chegou uma notícia dolorosa, a qual diz que uma raça amaldiçoada, inteiramente afastada de Deus, invadira violentamente as terras desses cristãos e as despovoara com pilhagem e fogo. Essa raça levou uma parte dos cativos para a sua própria terra e matou a outra por meio de cruéis torturas. Eles destroem os altares, depois de os profanarem com a sua impureza. O reino dos gregos está agora desmembrado e privado de um território tão vasto que não pode ser atravessado em dois meses.

Sobre quem repousa então a tarefa de vingar esses afrontas e de reconquistar esse território se não sobre vós, a quem, acima de todos os outros, Deus conferiu uma notável glória em armas, grande bravura e força a fim de humilhar as cabeças daqueles que vos resistem? Que os feitos de vossos ancestrais vos encoragem, a glória e a grandeza de Carlos Magno e outros monarcas vossos. Que o Santo Sepulcro do Nosso Senhor, o Salvador, agora na posse de nações impuras, faça-vos erguer e aos santos lugares que se acham agora manchados com poluição… Que nenhuma de vossas posses vos atenha, nem a ansiedade pelos vossos assuntos familiares. Pois esta terra onde habitais, cercada de todos os lados pelo mar e pelas montanhas, é agora demasiado pequena para a vossa grande população; mal fornece suficiente alimento para os seus cultivadores. Eis porque vós vos matais e devorais uns aos outros, porque desencadeais guerras e muitos de vós pereceis em lutas intestinas.

Façamos, portanto, com que o ódio vos abandonem, que vossas disputas terminem. Entrai no caminho para o Santo Sepulcro, arrebatai aquela terra de uma raça perversa e a submetei a vós próprios. Jerusalém é uma terra mais frutuosa do que todas as outras, um paraíso de delícias. Aquela cidade real, situada no centro da terra, implora que vades em seu socorro. Empreendei esta viagem seriamente para a remissão dos vossos pecados e estejais certos da recompensa, da glória imperecível no Reino do Céu”.

Nota-se aqui claramente o reflexo sobre o papa na guerra travada no astral inferior, com ele amaldiçoando a raça dos muçulmanos, revoltado com a destruição de altares, que foram inventados pelo astral inferior para que os chefes de falanges, com pretensões de serem deuses pudessem ser reverenciados. A intenção do papa, demonstrada clara e literalmente, era de vingança contra as ações islâmicas. E assim, deveras influenciado pelos espíritos obsessores, vem afirmar que o deus bíblico conferiu glórias aos seus instrumentos encarnados, através das armas, para humilhar aqueles que resistissem a avalanche da massa que eram dominados pelo credo católico. Sendo o papa ignorante ao extremo, considerava que o local onde Jesus, o Cristo, havia sido sepultado, era sagrado, estando na posse de impuros, quer dizer, daqueles que não seguiam ao credo católico, ignorando completamente que o corpo do nosso Redentor havia sido retirado do seu local de origem por Maria Madalena, pondo-o em local mais distante, cobrindo-o de pedras. No entanto, o papa não pregou o abandono por completo do ódio, mas apenas entre os católicos, desviando a sua direção contra os muçulmanos, incitando a que os seus arrebanhados arrebatassem as terras do islã, denominando aos arrebanhados desse credo de perversos, quando, na realidade, ele mesmo estava sendo perverso, ao incitar o ódio entre os povos. Por fim, o papa vem demonstrar que também queria se apoderar da terra dos muçulmanos, considerando-a um paraíso de delícias, pelo que incita a que todos para lá se dirigissem, lançando mão da matreirice e do ardil sacerdotais, apontando para a remissão dos pecados e para a recompensa do reino do céu para os que para lá se dispusessem a caminhar, ignorando que não existem pecados e que o reino do céu é o astral inferior.

O discurso inflamado do papa foi obra da intuição do astral inferior, que ao mesmo tempo agia no sentido de também inflamar a multidão, que estando fortemente influenciada pelos espíritos obsessores se ergueu em uma grande exclamação: “Deus o quer!“; ou seja, o deus bíblico quer sangue derramado, pois que ele mesma se julga o deus dos exércitos, conforme consta na própria Bíblia, em Gênesis 2:1, que diz: “Assim foram acabados os céus, e a terra, e todo o seu exército”; como também em muitas outras passagens bíblicas. O papa Urbano II ficou ainda mais inflamado com o apoio frenético da multidão, e assim o “representante” de Jesus, o Cristo, na Terra, conclamou a assembleia a tomar o grito da multidão como sendo o próprio grito de guerra contra os muçulmanos. Eis aí um dos mais trevosos ambientes fluídicos formados na Terra!

Estando declarada a guerra contra os muçulmanos, o papa Urbano II determinou àqueles que iriam empreender a Cruzada que usassem uma cruz na testa ou no peito, cujo símbolo representava o ponto riscado das falanges obsessoras que se encontravam em prol do catolicismo. Foi tão intensa a ação dos espíritos obsessores sobre a multidão, que Guilherme de Malmesbury veio afirmar que “Imediatamente alguns nobres, lançando-se aos pés do papa, ofereceram-se e as suas propriedades ao serviço de Deus”; quer dizer, do deus bíblico. Milhares de pessoas do povo comum se comprometeram do mesmo modo. Foi uma verdadeira avalanche de obsessão. Até os monges e eremitas abandonaram os seus retiros e se dispuseram a se tornar soldados de Jesus, o Cristo, como se o Nazareno tivesse algo a ver com o deus bíblico e necessitasse da formação de exércitos, ele que veio a este mundo para nos mostrar na prática a existência do verdadeiro amor, que é de natureza espiritual, ensinando-nos a amar uns aos outros, como a nós mesmos. E muitos ainda se consideram cristãos. Que barbaridade!

A influência dos espíritos obsessores sobre o papa Urbano II foi tamanha, que ele passou a percorrer outras cidades conclamando ao povo para a guerra, como Tours, Bordeus, Tolosa, Montpellier, Nimes, e outras, passando nove meses pregando as Cruzadas, que inflamou praticamente toda a Europa. Quando retornou para Roma, após dois anos de ausência, foi entusiasticamente aclamado pela cidade, assumindo sem nenhuma oposição de maior importância, a autoridade de livrar os cruzados de obrigações que viessem a prejudicar os seus engajamentos nas Cruzadas, tendo assim libertado os servos e os vassalos da lealdade dos seus senhores, conferindo a todos os cruzados o privilégio de serem julgados por cortes eclesiásticas, ao invés das cortes feudais, e garantindo a proteção episcopal às suas propriedades durante as suas ausências na guerra.

As falanges de espíritos obsessores quedados no astral inferior que se encontravam divididas no seio do falso cristianismo se uniram entre si, o que proporcionou uma trégua entre os falsos cristãos que lutavam entre si, tendo sido estabelecido um novo princípio de obediência acima do código da lealdade feudal, possibilitando a que a Europa se tornasse una. Desta maneira, o papa Urbano II se tornou o senhor da Europa, sendo assim aceito por todos os soberanos europeus. A sede de sangue contra os muçulmanos era febril, com todos os católicos se preparando assim febrilmente para a guerra. Esta é apenas uma das facetas malignas que os credos e as suas seitas proporcionam aos seres humanos.

 

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