19.07- A Sétima Cruzada

Prolegômenos
16 de julho de 2018 Pamam

Os papas demonstravam se encontrar ensandecidos em afirmar a supremacia papal em todo o mundo, profundamente revoltados com a situação que não lhes favorecia em nenhum aspecto, tanto que o papa Inocêncio IV passou a pregar uma cruzada até contra Frederico II, oferecendo a todos aqueles que combatessem o imperador na Itália a mesma graça e privilégios concedidos aos que serviam na considerada Terra Santa, enquanto Luiz IX, rei da França, ocupava-se em organizar a Sétima Cruzada.

Logo depois da queda de Jerusalém para os turcos, o rei francês tomou a cruz e persuadiu aos seus nobres que procedessem do mesmo modo, a alguns que relutavam em tomar a cruz, ele tentou agradar, presenteando-os no natal com roupas custosas contendo uma cruz tecida por dentro, enquanto, ao mesmo tempo, trabalhava para reconciliar Inocêncio IV com Frederico II, para que assim a Europa unida pudesse apoiar a mais uma Cruzada.

Mostrando-se bastante soberbo e rancoroso, Inocêncio IV recusou a reconciliação com Frederico II, e, em lugar da reconciliação, enviou Giovanni de Piano Carpini, que era um frade, ao Grande Cã, título dado ao imperador dos mongóis, que havia herdado o império conquistado por Gengis Khan, que havia falecido em 1227, propondo uma união de mongóis com os falsos cristãos contra os turcos. O Grande Cã replicou pitorescamente propondo a submissão de toda a falsa cristandade ao poder muçulmano. E aqui se pode ter uma pequena ideia da insanidade mental dos papas, em razão das suas tremendas obsessões.

Em 1248, finalmente, Luiz IX partiu com os seus cavaleiros franceses para a Sétima Cruzada, levando consigo João, senhor de Joinville, que narraria as proezas do seu rei em uma crônica que se tornaria famosa. A expedição alcançou Damieta e logo a conquistou, mas a inundação anual do Nilo, que havia sido esquecida no planejamento da campanha, teve o seu início assim que os cruzados chegaram, tendo o país ficado mergulhado sob as águas de uma tal maneira que eles ficaram confinados a Damieta durante o período de seis meses, embora sem muitas lamentações. João, o senhor de Joinville, assim se expressou:

Os barões começaram a oferecer grandes festas… e o povo comum a dormir com mulheres impudicas”.

Em 1250, quando o exército reiniciou a sua marcha, estava enfraquecido pela fome, doença e deserção, estando também debilitado pela indisciplina. Em Mansurá, a despeito de haver lutado corajosamente, foi derrotado e debandou em um tropel selvagem. Dez mil católicos foram feitos prisioneiros, inclusive o próprio Luiz IX, que havia desfalecido de disenteria, tendo sido curado por um médico árabe, depois de um mês de atribulações, tendo conseguido a liberdade, mas somente em troca da entrega de Damieta e de um resgate de 500.000 livres. Quando Luiz IX concordou com esse grande resgate, o sultão resolveu reduzi-lo a um quinto do valor original e fiou ao rei a metade não paga, demonstrando assim a sua generosidade.

Luiz IX, então, levou o remanescente do seu exército para o Acre e ali permaneceu durante quatro anos, conclamando ingratamente a Europa, mas em vão, para que cessasse as suas guerras intestinas e os católicos fossem se unir a ele em uma nova campanha. Enviou o monge Guilherme de Rubruquis ao Grande Cã mongol para que o seu enviado renovasse o convite de Inocêncio IV, mas o seu enviado obteve o mesmo insucesso do enviado do papa. Em 1254, estando profundamente desiludido pelo seu imenso fracasso, Luiz IX regressou para a França.

Durante os anos em que esteve no Levante — termo geográfico um tanto impreciso que se refere, historicamente, a uma grande área do Oriente Médio, ao sul dos Montes Tauro, limitada a oeste pelo Mediterrâneo e ao leste pelo Deserto da Arábia setentrional e pela Mesopotâmia —, Luiz IX conseguiu ali acalmar um pouco do facciosismo dos falsos cristãos, tendo a sua partida reanimado a esse facciosismo.

No período de 1256 a 1260, desencadeou-se uma guerra civil dos venezianos contra os genoveses, em que nos portos sírios arrastou todas as facções e cansou as forças ditas cristãs na Palestina. Aproveitando essa oportunidade, Baibars, o ex-escravo sultão do Egito, marchou pela costa e tomou as cidades ditas cristãs, uma após a outra. Cesareia, em 1265. Safad, em 1266. Jafa, em 1267. E Antioquia, em 1268. Os falsos cristãos foram mortos ou aprisionados e tornados escravos, e a Antioquia ficou tão devastada com os saques e os incêndios que nunca mais conseguiu se recobrar dessa tragédia.

Em 1267, já na sua velhice, Luiz IX foi tomado de um novo fervor pelas Cruzadas, resolvendo tomar a cruz pela segunda vez, tendo o seu exemplo sido seguido pelos seus três filhos. Mas a nobreza francesa repeliu veementemente os seus planos, considerando-os como sendo quixotescos, recusando-se definitivamente em aderir aos seus planos de campanha. O próprio João, o senhor de Joinville, que o amava tanto, não quis saber por nenhuma hipótese da sua oitava Cruzada.

Desta vez o rei Luiz IX, que era um tanto prudente no governo, mas um tolo nos entranhamentos da guerra, desembarcou as suas inadequadas forças na Tunísia, esperando converter o seu soberano ao catolicismo, e assim poder atacar o Egito do ocidente. Mal tinha acabado de tocar o solo africano quando caiu doente de fluxo no estômago, tendo morrido com a palavra Jerusalém nos lábios, em 1270.

Um ano depois, o príncipe Eduardo, da Inglaterra, desembarcou no Acre, e corajosamente dirigiu algumas sortidas inúteis, tendo logo se apressado em regressar para a sua terra natal, a fim de receber a coroa inglesa.

O desastre final ocorreu quando alguns aventureiros ditos cristãos assaltaram a uma caravana muçulmana na Síria, enforcaram 19 mercadores muçulmanos e saquearam várias cidades que pertenciam ao islã. O sultão Khalil exigiu satisfações. E não recebendo nenhuma satisfação, marchou para o Acre, que na ocasião era o mais poderoso posto avançado “cristão” da Palestina, tomando-a após um cerco de 43 dias, em 1291. Ele então permitiu que os seus homens massacrassem ou escravizassem 60.000 prisioneiros. Logo depois foi a vez das quedas de Tiro, Sidon, Haifa e Beirute.

E assim o reino latino de Jerusalém manteve uma existência espectral durante algum tempo, sem os efeitos reais de uma soberania efetiva, tendo por base apenas os títulos dos potentados cobertos de vaidade, pompa e soberbia. Desta maneira, durante dois séculos, uns poucos aventureiros ou alguns poucos entusiastas encetaram alguns esforços esporádicos e fúteis para reiniciar qualquer tentativa relativa a esse grande conflito sangrento de natureza credulária. Mas a Europa sabia perfeitamente que as Cruzadas haviam chegado ao seu fim.

 

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