19.04- A Quarta Cruzada

Prolegômenos
16 de julho de 2018 Pamam

A Terceira Cruzada havia conquistado as cidades costeiras do Acre a Jafa, mas havia deixado Jerusalém irredimida, sendo considerada um resultado desanimadoramente pequeno em relação às participações dos maiores reis da Europa. O afogamento desastroso de Frederico Barbarroxa, a deserção de Filipe Augusto, a acirrada disputa entre Ricardo I e Saladino, com o fracasso do primeiro, as intrigas inescrupulosas dos cavaleiros ditos cristãos na Terra Santa e a renovação da guerra entre a Inglaterra e a França, arrefeceram o orgulho europeu e enfraqueceram ainda mais a segurança teológica da falsa cristandade. No entanto, a morte prematura de Saladino e a fragmentação do seu império trouxeram novas esperanças para mais uma investida dos cruzados.

No início do seu pontificado, Inocêncio III veio a exigir um outro esforço, o que demonstra o quão obsedados são os papas, sendo eles instrumentos dóceis do astral inferior. Fulk de Neuilly, que era um simples sacerdote, passou a pregar a Quarta Cruzada tanto aos homens comuns como aos reis, mas os resultados foram desanimadores. O imperador Frederico II era apenas um menino de quatro anos de idade. Filipe Augusto considerava que uma cruzada já era o bastante para uma vida. E Ricardo I ria das exortações de Fulk, esquecendo-se da sua última nota a Saladino, antes de regressar para a Inglaterra.

Mas Inocêncio III persistiu em promover a Quarta Cruzada. Com a mente obsedada fervilhando pela cobiça, em função da influência dos espíritos obsessores que o assediavam, sugeriu que uma campanha contra o Egito poderia obter êxito pelo controle italiano do Mediterrâneo e ofereceria um meio de se aproximar de Jerusalém, tendo o rico e fértil Egito como base de operações dos cruzados. Após muitas negociações, desde que fosse mediante o pagamento de 85.000 marcos de prata, Veneza concordaria em fornecer embarcações para 4.500 cavaleiros e cavalos, 9.000 escudeiros, 20.000 homens de infantaria e abastecimento para nove meses, pelo que também forneceria 50 galés de guerra, mas sob a condição de que a metade dos despojos da conquista iria para a República Veneziana. Eis aí a guerra santa papal!

No entanto, os venezianos não alimentavam a intenção de atacar o Egito, pois ganhavam muito dinheiro todos os anos através da exportação de madeira, ferro e armas para esse país, além da importação de escravos, por isso não se propunham a pôr em perigo a esse comércio tão lucrativo com a guerra, ou mesmo dividi-lo com Pisa e Gênova. Em 1201, enquanto negociavam com a comissão de cruzados, fizeram um tratado secreto com o sultão do Egito, garantindo a esse país contra a invasão dos cruzados.

Em 1202, as novas hostes católicas se reuniram em Veneza, com a presença do marquês Bonifácio de Montferrat, o conde Luiz de Blois, o conde Balduíno de Flandres, Simão de Montfort, de fama albigense, e, entre muitos outros famosos, Godofredo de Villehardoin, marechal de Champague, o qual não somente desempenharia um papel importante nessa cruzada, mas conservaria como fator importante a sua história escandalosa em memórias destinadas a salvar as aparências que marcaram o início da literatura em prosa na França.

Como sempre, a França forneceu a maior parte dos cruzados. Todo homem foi instruído para trazer uma certa importância em dinheiro proporcional aos seus meios econômicos, a fim de que pudessem arrecadar os 85.000 marcos de prata a serem pagos a Veneza pelas suas despesas, mas faltaram 34.000 marcos de prata para completar o total, então Enrico Dandolo, com 94 anos de idade, propôs que o saldo não pago deveria ser perdoado, caso os cruzados ajudassem Veneza a tomar Zara, que representava o porto mais importante do Adriático, depois da própria Veneza. Zara tinha sido conquistada por Veneza em 998, tendo muitas vezes se revoltado e sendo subjugada, e na ocasião pertencia à Hungria, constituindo a única saída desse país para o mar, estando crescendo a sua riqueza e o seu poder, com Veneza temendo a sua competição no comércio Adriático.

O papa Inocêncio III condenou a proposta como sendo infame e ameaçou excomungar a todos os que dela participassem. Mas o papa, embora fosse muito poderoso, não podia jamais sobrepor a sua autoridade acima da cobiça e da ganância pelo ouro. Assim, as frotas atacaram Zara, tomaram-na em cinco dias e dividiram os despojos. Estando satisfeitas a cobiça e a ganância pelo ouro, os cruzados enviaram uma embaixada ao papa pedindo absolvição, sendo prontamente atendidos, pois que o interesse fundamental do papa era a supremacia católica em todo o mundo, e a excomunhão era de somenos importância, tanto que ele deu a absolvição, mas exigiu a restituição dos despojos, pelo que os cruzados encarecidamente agradeceram, mas nada devolveram aos despojados, ignoraram de todo a excomunhão e procederam com a segunda parte do plano: a conquista de Constantinopla.

As experiências com as cruzadas anteriores parece que não serviram de lição para a monarquia bizantina, pois que ela pouco ajudou e obteve muitos lucros, por isso olhava com imparcialidade o enfraquecimento mútuo do islã e do falso cristianismo ocidental, em sua luta irracional pela Palestina. Por volta de 1171, o imperador Manuel Comneno havia prendido milhares de venezianos em Constantinopla, acabando durante algum tempo com o privilégio comercial de Veneza naquela capital. Isaac Ângelo II, período de 1185 a 1195, não tivera nenhum escrúpulo em se aliar com os muçulmanos. Em 1195, ele foi deposto, preso e cegado pelo seu próprio irmão, Aleixo III. O filho de Isaac Ângelo II, também chamado de Aleixo, fugiu para a Alemanha, tendo se dirigido a Veneza, em 1202, e lá pedido ao senado veneziano e aos cruzados que socorressem e restaurassem o pai no poder, em troca prometeu tudo o que Bizâncio poderia fornecer para o seu ataque contra o islã.

Enrico Dandolo e os barões franceses fizeram uma dura barganha com o jovem bizantino, que foi persuadido a prometer aos cruzados 200.000 marcos de prata, equipar um exército de 10.000 homens para os combates na Palestina e submeter a Igreja Ortodoxa Grega ao papado romano. O papa Inocêncio III proibiu aos cruzados de atacar Bizâncio, sob pena de excomunhão, mas isso era apenas marketing papal, pois tal como Zara, ele sabia de antemão que a perspectiva de tomar a cidade mais rica da Europa se tornaria irresistível para os cruzados.

Em 1° de outubro de 2002, a grande frota com 480 navios partiu em meio a muito entusiasmo, enquanto os sacerdotes situados em castelos dos navios cantavam hinos credulários de louvores. Após uma longa viagem, a armada chegou diante de Constantinopla, em 24 de junho de 1203. Quando Villehardoin assim se pronunciou:

Podeis estar certos de que aqueles que nunca tinham visto Constantinopla abriam agora os seus olhos espantados, pois não podiam acreditar que pudesse haver cidade tão rica em todo o mundo. Quando viram as altas muralhas e as grandes torres com que ela se achava cercada e os magníficos palácios e as altas igrejas, tão numerosos que nenhum homem poderia crer sem vê-los e a extensão e a largura desta cidade que era a soberana de todas as outras. E sabiam que não havia entre nós nenhum homem tão ousado que a sua carne não estremecesse à sua vista, e nisso não havia nenhuma maravilha, pois nunca quaisquer homens compreenderam uma tarefa tão grande como este nosso assalto, desde o início do mundo”.

Um ultimato foi entregue a Aleixo III: deveria restituir o trono ao seu irmão cego ou então ao jovem Aleixo, que acompanhava a frota. Cego pelo poder, Aleixo III não atendeu ao ultimato. Então os cruzados desembarcaram as suas tropas, encontrando pela frente apenas uma débil oposição diante das muralhas da cidade, com o velho Enrico Dandolo sendo o primeiro a desembarcar e a tocar a terra bizantina. Aleixo III fugiu para a Trácia, tendo os nobres gregos escoltado Isaac Ângelo da prisão para o trono, e em seu nome enviado uma mensagem aos chefes latinos, dizendo que ele estava esperando para saudar ao filho.

Depois de obterem de Isaac Ângelo a promessa de que respeitaria os compromissos que o filho havia feito com eles, Enrico Dandolo e os barões entraram na cidade, tendo o jovem Aleixo sido coroado como co-imperador, adotando o nome de Aleixo IV. Mas quando os gregos ficaram sabendo do preço pelo qual ele havia comprado a sua vitória, voltaram-se contra ele. O povo passou a avaliar os impostos que deveriam ser necessários para se arrecadar o pagamento prometido aos seus salvadores, a nobreza se ressentiu da presença de uma aristocracia estranha aos seus costumes e da força armada dos invasores, enquanto o clero local rejeitava com fúria a proposta de que deveria se curvar perante o papado romano.

Nesse entrementes, alguns soldados latinos ficaram horrorizados por encontrar muçulmanos praticando o seu culto em uma mesquita de uma cidade dita cristã, e logo puseram fogo na igreja muçulmana, matando aos seus adoradores, tendo o fogo se alastrado pela cidade durante oito dias, em um raio de cerca de cinco quilômetros, transformando uma considerável parte de Constantinopla em cinzas. Indignado com a situação, um príncipe de sangue real dirigiu uma revolta popular, matou Aleixo IV, prendeu Isaac Ângelo, e ocupou o trono com o nome de Aleixo Ducas V, passando de imediato a organizar um exército para expulsar os latinos do seu acampamento de Galata. Mas os gregos não faziam jus às virtudes do seu nome romano. Em 1204, após um mês de sítio, renderam-se aos cruzados, tendo Aleixo Ducas V fugido, quando então os latinos vitoriosos invadiram a cidade como se fossem vorazes predadores.

É certo que estando sob a influência do astral inferior, os cruzados possuíam a clara intenção de aniquilar totalmente com os muçulmanos, para que assim o credo católico pudesse imperar soberano por todo o mundo. Mas pari passu com essa intenção, encontrava-se a cobiça e o anseio desenfreados pelas riquezas que existiam nas terras alheias.

O reflexo dessa cobiça e desse anseio desenfreados pelas riquezas das terras alheias, pode ser observado no tempo perdido em avançar sobre a sua presa principal e na submissão da rica cidade tornada presa a um saque sem limites, apropriando-se dos tesouros ali encontrados, com os nobres dividindo os palácios entre si, os soldados violando os lares, entrando nas igrejas e nas lojas, roubando todos os seus pertences, de uma maneira tal, como até mesmo Roma jamais havia sofrido dos vândalos ou dos godos, e isto tendo ocorrido em plena semana santa. O alvo decerto eram os muçulmanos, mas os cruzados mataram mais de 2.000 gregos, os quais professavam o seu mesmo credo, com a única diferença que não se encontravam sob o domínio da igreja romana. E para completar a essa cobiça e a esse anseio desenfreados, em meio a essa pilhagem desumana, bibliotecas foram rebuscadas e preciosos manuscritos foram arruinados ou perdidos, com dois novos incêndios consumindo bibliotecas e museus, bem como igrejas e casas. Das peças de Sófocles e Eurípedes, até então completamente preservadas, somente uma pequena parte sobreviveu. Milhares de obras-primas de arte foram roubadas, mutiladas ou destruídas.

Ninguém pode pôr em dúvida que no âmbito humano as Cruzadas foram obras papais, em primeiro plano, sendo secundadas pelos seus sacerdotes, que sob a influência perniciosa do astral inferior conseguiram pôr nas mentes das massas uma avidez desmedida por fazer jorrar o sangue daqueles que, na realidade, não eram os seus inimigos, apenas professavam um credo diferente, tendo as suas próprias crenças, cuja avidez desmedida das massas teve a colaboração direta e total do astral inferior. Somente uma ignorância estúpida, que beira as raias da loucura, associada com uma tremenda falta de raciocínio, pode ensejar a que os credulários católicos venham a reverenciar aos papas, dispondo-se a seguir fielmente aos sacerdotes que obedecem cegamente ao Vaticano, que fazem deles uns verdadeiros marionetes, acretinando-os a todos.

Em 1204, quando a fúria da rapina por parte dos cruzados se abrandou um pouco mais, os nobres latinos escolheram Balduíno de Flandres para a chefia do reino latino de Constantinopla, fazendo do francês a sua língua oficial. E assim o Império Bizantino passou a ficar dividido em domínios feudais, cada um sendo governado por um nobre latino. Ambiciosa e por demais desejosa em controlar as rotas de comércio, Veneza assegurou para si Adrianópolis, o Épiro, a Acarnânia, as ilhas Jônias, parte do Peloponeso, a Eubeia, as ilhas Egeias, Galipoli e três oitavas de Constantinopla. Os genoveses perderam as suas feitorias e os seus postos avançados em Bizâncio. E Enrico Dandolo, um velho quase centenário, tomou para si o título de Doge de Veneza, senhor de grande parte do Império romano, que logo depois morria no gozo completo do seu inescrupuloso êxito.

O clero grego foi em grande parte substituído por sacerdotes latinos, em muitos casos ingressando nas ordens sacras na própria ocasião. E o papa Inocêncio III, que aparentemente ainda protestava contra o saque, em face de toda essa riqueza não ter ido direto para as suas mãos, aceitou com entusiasmo a submissão da Igreja grega com a romana.

Após o massacre e a rapinagem dos cruzados na cidade de Constantinopla, a maior parte dos católicos regressou para a sua pátria de origem com os seus despojos. Estando ricos, qual seria então o sentido de guerrear contra os muçulmanos? Muitos se estabeleceram nos novos domínios. Apenas uns poucos restantes marcharam para a Palestina, mas sem qualquer resultado, como já era esperado.

As gerações seguintes presenciaram as lutas entre latinos e gregos, que foram minando pouco a pouco a vitalidade do Império Bizantino, que nunca se refez desse violento golpe sofrido. Ao longo de aproximadamente dois séculos, a tomada de Constantinopla pelos latinos serviu de preparação para a sua conquista pelos turcos. E assim, como se diz no linguajar popular, o feitiço virou contra o feiticeiro.

 

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