19.03- A Terceira Cruzada

Prolegômenos
16 de julho de 2018 Pamam

A posse das cidades de Tiro, Antioquia e Trípoli deixou nos falsos cristãos alguma margem de esperança na guerra contra os muçulmanos. As forças italianas ainda controlavam o Mediterrâneo e estavam dispostas a levar novos cruzados em conformidade com o preço. Guilherme, arcebispo de Tiro, retornou para a Europa e narrou às suas assistências na Itália, França e Alemanha, a queda de Jerusalém. Em Mogúncia, o seu apelo comoveu tanto a Frederico Barbarroxa, que o imperador partiu incontinenti com o seu exército, em 1189, mesmo contando com 67 anos de idade, e toda a falsa cristandade o aclamou como se fôra um segundo Moisés que abriria o caminho para a Terra Prometida.

Cruzando o Helesponto em Gallipoli, em uma nova rota, a nova hoste formadora da Terceira Cruzada incidiu nos mesmos erros da Primeira Cruzada. Bandos turcos embaraçaram a sua marcha e cortaram os seus abastecimentos, provocando a morte por fome de centenas de homens. Como que por capricho do destino, mas provocada por espíritos obsessores, Frederico Barbarroxa se afogou no pequeno rio Selef, na Cicília, em 1190, e apenas uma pequena parte do seu exército sobreviveu para participar do cerco de Acre.

Ricardo I, o Coração de Leão, que havia sido recentemente coroado rei da Inglaterra, aos 31 anos de idade, resolveu medir forças com os muçulmanos. Mas temeroso de um ataque francês sobre as possessões inglesas na França, durante a sua ausência, insistiu que Filipe Augusto o acompanhasse na Cruzada, tendo o rei francês de apenas 23 anos concordado. Então os dois jovens monarcas receberam a cruz de Guilherme de Tiro em uma emocionante cerimônia em Vézelay. Como poucos ingleses tomaram parte nas Cruzadas, o exército de normandos de Ricardo I partiu de Marselha, enquanto o exército de Filipe Augusto partiu de Gênova, para um encontro na Sicília, em 1190, onde os reis brigaram e se divertiram durante seis meses. Tancredo, o rei da Sicília, ofendeu a Ricardo I, que em represália tomou Messina, restituindo-a em troca de 40.000 libras de ouro.

Assim, estando provido de recursos, enviou o seu exército para a Palestina. Alguns dos seus navios naufragaram na costa do Chipre, com os seus tripulantes sendo aprisionados pelo governador grego. Mas Ricardo I conquistou Chipre e a deu a Gui de Lusignan, o rei de Jerusalém, que era um rei sem reino. Em junho de 1191, alcançou o Acre, uma ano depois de deixar Vézelay, mas Filipe Augusto o havia precedido, e o cerco do Acre pelos cruzados já estava durando 19 meses e custaria milhares de vidas. Poucas semanas após a chegada de Ricardo I, os muçulmanos se renderam. Os vencedores exigiram 200.000 peças de ouro, 1.600 prisioneiros escolhidos e a restituição da Cruz Verdadeira. Saladino confirmou a exigência e a população muçulmana do Acre teve a permissão de se retirar com as provisões que pudessem carregar, com a exceção dos 1.600 prisioneiros. Nesse ínterim, Filipe Augusto, doente e com febre, retornou para a França, deixando no local uma força francesa de 10.500 homens. E assim Ricardo I se tornou o único chefe da Terceira Cruzada.

A partir daí, começou uma campanha peculiar em que os golpes e as batalhas travadas se alternavam com cumprimentos e cortesias de ambas as partes, enquanto o rei inglês e o sultão muçulmano ilustravam algumas das mais altas qualidades das suas civilizações e crenças, uma vez que Ricardo I já era ciente da fidalguia que Saladino antes havia demonstrado aos cruzados. No entanto, ambos eram influenciados pelo astral inferior, em maior proporção o rei inglês, que era o invasor e não tinha a mesma dignidade de Saladino.

Quando os chefes do Acre sitiado demoraram em cumprir os termos do acordo de rendição, Ricardo I mandou decapitar 2.500 prisioneiros muçulmanos diante das muralhas da cidade, com a intenção de que os seus chefes se apressassem em cumprir logo o acordo. Quando Saladino soube desse massacre, em represália, ordenou a execução de todos os prisioneiros que fossem feito daí em diante na guerra contra o rei inglês. Arrefecendo o seu ânimo, Ricardo I propôs pôr termo às cruzadas, casando a sua irmã Joana com o irmão de Saladino, al-Adil. Mas a Igreja Católica vetou a proposta de casamento, e o plano foi esquecido.

Ciente do temperamento guerreiro de Saladino, Ricardo I reorganizou o seu exército e se preparou para marchar cerca de 100 quilômetros para o sul, ao longo da costa, a fim de salvar Jafa, que estando novamente nas mãos dos cruzados, encontrava-se sitiada pelos muçulmanos. Muitos nobres se recusaram em acompanhá-lo, preferindo ficar para trás, em Acre, a fim de que pudessem conspirar pela conquista do trono de Jerusalém, esperando que Ricardo I sitiasse e tomasse a cidade. Não estando dispostas a um novo esforço de guerra, as tropas germânicas regressaram para a Alemanha, enquanto o exército francês passou a desobedecer às ordens de Ricardo I, frustrando a estratégia do rei britânico. Depois de um demorado sítio, um cronista cruzado relatou o seguinte:

Os cristãos vencedores se entregaram à indolência e a luxúria, não queriam abandonar uma cidade tão rica em confortos, isto é, os melhores vinhos e as mais belas donzelas. Muitos, por terem conhecido demasiado intimamente esses prazeres, tornaram-se dissolutos até que a cidade ficou poluída pela sua luxúria, e a sua glutonaria e lascívia envergonharam os homens prudentes”.

Eis aí a moral dos arrebanhados católicos sob a influência maléfica dos espíritos obsessores, que agem no sentido de torná-los a todos credulários, igual à moral dos sacerdotes, e, por extensão, à moral dos cardeais e dos papas.

Ricardo I tornou a situação ainda mais difícil, mas tomou a decisão acertada, quando ordenou que nenhuma mulher deveria acompanhar o exército, exceto lavadeiras que não constituíssem causas que denegrissem a moral. E assim ele conseguiu dotar o seu exército de um pouco de moral, suprindo aos anseios dos seus guerreiros com a excelência das suas qualidades de general, da sua engenharia militar e das suas estratégias nos campos de batalha, tendo superado a todos os outros chefes católicos das Cruzadas, igualando-se a Saladino.

Em 1191, sob a sua liderança, o seu exército encontrou o de Saladino em Arsuf, tendo conquistado a vitória, embora não decisiva. Saladino o desafiou para uma nova batalha, mas Ricardo I decidiu retirar os seus homens e colocá-los no interior das muralhas de Jafa. O soberano muçulmano, então, enviou-lhe uma mensagem de paz. Mas durante as negociações, Conrado, o marquês de Montferrat, que mantinha a cidade de Tiro, entrou em confabulações particulares com Saladino, propondo se tornar o seu aliado e retomar o Acre para os muçulmanos, caso Saladino concordasse que ele tomasse posse de Sidon e Beirute. Apesar de tal oferta, Saladino mostrou a sua real dignidade, autorizando a que o seu irmão assinasse com o rei britânico uma paz, cedendo aos cruzados todas as cidades costeiras que estavam ocupando e metade de Jerusalém, em 1192. Ricardo I ficou tão satisfeito que em uma cerimônia solene conferiu ao filho do embaixador muçulmano o título de cavaleiro. Mas pouco depois, ao tomar conhecimento de que Saladino estava enfrentando uma revolta no Oriente, revogou o tratado de paz, sitiou e tomou Darum, marchando até Jerusalém, ficando cerca de 20 quilômetros da cidade.

Saladino, então, que já havia dispensado as suas tropas para o inverno, chamou-as de volta às armas. Nesse ínterim, irromperam dissenções no campo dos cruzados, com os batedores informando que os poços da estrada de Jerusalém haviam sido envenenados e que o exército nada teria para beber. Em função dessa ocorrência, um conselho se reuniu para traçar a estratégia a ser adotada, o conclave decidiu por abandonar Jerusalém e marchar em direção ao Cairo, que ficava cerca de 400 quilômetros de distância. Mas Ricardo I, um tanto desgostoso e desalentado, decidiu se retirar para o Acre e pensou em retornar para a Inglaterra.

Mas quando ouviu a informação de que Saladino havia atacado novamente Jafa e a tomado em apenas dois dias, a sua vocação de general falou mais alto. Em 1192, reuniu as suas tropas e marchou em direção a Jafa. Chegando ao porto gritou a plenos pulmões: “Pereçam os mais covardes!”; ao mesmo tempo saltando para o mar, afundando até a altura da cintura. Brandindo o seu famoso machado dinamarquês, foi derrubando a todos que lhe resistiram, levando os seus homens para a cidade e a livrando das forças muçulmanas, quase antes de Saladino saber o que realmente havia ocorrido.

O sultão muçulmano, então, convocou o seu exército principal para que viesse socorrê-lo, o qual superava em muito o número de componentes do exército do rei inglês, que era de apenas 3.000 homens, mas mesmo assim a coragem e o destemor quase temerários do rei venceu a batalha, tendo ele perdido a sua cavalgadura. Vendo Ricardo I desmontado, Saladino lhe mandou dizer que era uma vergonha que um guerreiro tão valoroso lutasse a pé, e os seus soldados lhe censuraram por haver anteriormente poupado a guarnição de Jafa, que agora estava lutando novamente.

Mas no dia seguinte a sorte mudou, pois chegaram os reforços de Saladino. E Ricardo I, tendo adoecido novamente e sem o apoio dos cavaleiros do Acre e de Tiro, mais uma vez pediu a paz, tendo em sua febre solicitado por fruta e bebida refrescante. Saladino lhe mandou peras, maçãs, neve e também o seu próprio médico.

Em 2 de setembro de 1192, os dois generais assinaram uma paz de três anos, dividindo a Palestina entre si. Ricardo I ficaria com todas as cidades costeiras que havia conquistado, do Acre a Jafa, com os “cristãos” e os muçulmanos tendo passagem livre para os territórios de ambos os lados, com os peregrinos sendo protegidos em Jerusalém, mas esta cidade ficaria em poder dos muçulmanos. Segundo os historiadores, os mercadores italianos persuadiram Ricardo I a ceder Jerusalém em troca da área costeira, pois que estavam interessados no controle dos portos dessas cidades. A paz foi celebrada com festas e torneios.

Ao embarcar em seu navio para a Inglaterra, Ricardo I enviou uma última nota de desafio a Saladino, prometendo voltar dentro de três anos e tomar Jerusalém. Saladino replicou que se tivesse que perder as suas terras, ele o faria com a maior boa vontade para Ricardo I, bem mais do que para qualquer outro homem vivo.

A grandeza demonstrada por Saladino conseguiu ofuscar até o brilho, a bravura e a arte militar de Ricardo I. A unidade e a fidelidade dos chefes muçulmanos triunfaram sobre as divisões e as deslealdades dos chefes feudais, que eram os invasores. Um ponto fundamental nessa guerra credulária foi a estratégia de Saladino em estabelecer uma linha curta de abastecimento na retaguarda das suas tropas, que se mostrou muito mais eficiente do que o controle dos mares pelos cruzados. O sultão muçulmano demonstrou ser gentil para com os fracos, misericordioso para com os vencidos e tão superior aos seus inimigos em fidelidade à sua palavra, que os cronistas ditos cristãos ficavam admirados, perguntando-se como uma teologia tão diversa da sua, considerada como sendo errada, podia produzir um homem tão fino. Até aos criados ele tratava com gentileza, e ele mesmo ouvia pessoalmente todas as petições. Era tão desprendido com dinheiro, que deixou apenas um dinar no seu tesouro pessoal.

Na verdade, Saladino era um espírito superior, que encarnou neste nosso mundo-escola com a missão de impedir que a sanha decorrente da intolerância católica, dita cristã, viesse a dizimar aos muçulmanos, não permitindo que o belicoso e genocida credo católico viesse a imperar soberano sobre toda a face da terra, à custa do derramamento de sangue de inocentes, que apenas exigiam os seus direitos de liberdade de pensamento, adotando as crenças que bem quisessem e entendessem como se fossem a certa, como assim demonstrou a sua natureza assassina e intolerante através da Inquisição. Em todo caso, Jeová, o deus bíblico, não poderia sair vitorioso sobre Lúcifer, ou Alá, o deus alcorânico, para que assim a vida na Terra não corresse um grave risco de destruição. Por isso, fazia-se necessário fazer frente a Ricardo I, que era um grande general.

Disse o grande Antônio Vieira: “O corpo se retrata com o pincel. A alma, que é tudo, com a pena”. Vejamos, então, a alma de Saladino através da sua própria pena, quando em suas instruções ao filho, assim escreveu:

Meu filho, recomendo-te ao mais alto Deus… Faze a Sua vontade, pois nisso repousa a paz. Abstém-te do derrame de sangue… porque o sangue derramado nunca descansa. Procura conquistar o coração do teu povo, e vigia a sua propriedade; pois é para assegurar a sua felicidade que és nomeado por Deus e por mim. Tenta ganhar o coração dos teus ministros, nobres e emires. Se me tornei grande foi porque conquistei o coração dos homens por meio de bondade e gentileza”.

Esse grande espírito desencarnou em 1193, com apenas 55 anos de idade.

 

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