18.04.01- O califado Omíada: período de 661 a 750

Prolegômenos
15 de julho de 2018 Pamam

Muawiya havia conquistado a sua força pelo seu próprio mérito, primeiramente como governador da Síria, ao ser nomeado pelo califa Omar, depois conduziu uma reação contra o assassinato de Otmã, em seguida adotando determinadas políticas que dispensavam o uso da força, por isso o seu caminho para o poder foi menos sangrento do que o da maioria daqueles que inauguraram e foram precursores de novas dinastias, cujas palavras por ele pronunciadas são suficientes para o entendimento:

Não uso a minha espada onde a minha chibata é suficiente, nem a minha chibata onde a minha língua basta. E quando há um cabelo me prendendo aos meus semelhantes não o deixo romper, quando eles puxam eu solto e se eles soltam eu puxo”.

Não era de natureza simples, pois tal como os demais usurpadores do poder sentiu o desejo de cercar o seu trono de pompas e cerimoniais, tomando para si o modelo dos imperadores bizantinos, que por sua vez tinham por modelo o Rei dos Reis persas, cuja persistência nesse padrão monárquico em todos os tempos, é a prova incontestável que a vaidade aflora em todos os seres humanos, e que todos giram em torno do universo que criaram para si mesmos, em função da imaginação, e que esse tipo de governo é a prova provada da inexistência da amizade espiritual neste mundo, que não permite que a solidariedade fraternal venha a prevalecer entre todos os seres humanos, em face de uma população menos assistida.

Nesse sentido, Muawiya passou a considerar que os seus métodos eram justificados pela prosperidade que se fez valer sob a sua administração, com o desaparecimento das lutas tribais e a consolidação do poderio árabe do Amu Darya, também denominado de rio Amu, mais conhecido pelo seu nome latino de Oxus, que é o principal rio da Ásia central, considerado nos tempos mais antigos como sendo a fronteira entre o Grande Irã e Turan, ao Nilo.

Na tentativa de evitar as lutas intestinas pelo poder de um califado eletivo, o califa decidiu que o princípio da hereditariedade seria a única solução, declarando assim como herdeiro presuntivo o seu filho Yezid, ao mesmo tempo em que impôs a todo o seu reino um juramento de fidelidade.

Em 680, todavia, quando o califa morreu, uma guerra de sucessão repetiu o início da história do seu reinado, pois os muçulmanos de Kufa fizeram chegar ao conhecimento de Husein, filho de Ali, que caso ele tornasse Kufa a capital do reino, eles lutariam pela sua elevação ao califado. Entusiasmado, Husein partiu de Meca com a sua família e 70 adeptos a ele dedicados, mas estando próximo, a uns 40 quilômetro de Kufa, a sua caravana foi interceptada por uma força das tropas de Yezid, sob o comando de Obeidallah, e embora Husein preferisse se submeter, os seus homens optaram pela luta, ocorrendo um verdadeiro massacre. Qasin, o sobrinho de Husein, de apenas 10 anos de idade, foi atingido por uma das flechas e foi o primeiro a morrer nos braços do tio, logo em seguida, um a um, os filhos, os irmãos, primos e sobrinhos tombaram sem vida, com os demais homens do grupo sendo todos mortos, sob os olhares aterrorizados das mulheres e crianças. Quando a cabeça degolada de Husein foi levada a Obeidallah, ele a virou indiferente com o seu bastão, sob os protestos de um oficial, que falou:

Com cuidado! Ele era neto do profeta. Por Alá! Eu vi esses lábios serem beijados pela abençoada boca de Maomé!

Em Kerbela, onde Husein e o seu grupo caíram, os muçulmanos shiitas ergueram um santuário em sua memória. Todos os anos eles repetem a tragédia em uma representação semelhante à Paixão de Cristo, cultuando por essa forma a memória de Ali, Hasan e Husein, o que caracteriza a essa seita islâmica.

Mas Abdala, filho de Zobeir, deu continuidade à revolta. Em 683, as tropas sírias de Yezid o derrotaram e o sitiaram em Meca, quando então as pedras lançadas pelas suas catapultas caíram sobre o recinto sagrado e partiram em três a Pedra Preta. A Caaba pegou fogo e ficou completamente queimada. No entanto, subitamente o cerco foi levantado, pois Yezid morrera e o exército era necessário em Damasco.

Passaram-se assim três anos de caos monárquico, com três califas ocupando o trono, até que Abd-al-Malik, filho de um primo de Muawiya, conseguiu pôr fim à desordem, tomado de coragem e crueldade, mas depois governou com relativa brandura, certa prudência e senso de justiça. O seu general Hajjaj ibn Yusuf subjugou Kufa. Em 692, retomou o sítio a Meca, quando então Abdala já contava com 72 anos de idade, que lutou com a bravura de um velho, estimulado pela mãe já centenária, tendo sido derrotado e morto, com a sua cabeça sendo enviada como uma prova para Damasco, enquanto o seu corpo, após ficar pendurado durante um certo tempo em um patíbulo, foi presenteado à sua mãe.

Durante a paz que se seguiu, Abd-al-Malik passou a escrever poesias, patrocinou as letras, tomou oito mulheres como esposas e teve 15 filhos, dos quais quatro lhe sucederam no trono, com o seu cognome significando Pai dos Reis.

O seu reinado de vinte anos preparou o caminho para as realizações do seu filho Walid I, período de 705 a 715, quando então a marcha da conquista árabe foi reiniciada. Em 705, Balkh foi tomada. Em 709, Bokhara. Em 711, a Espanha. Em 712, Samarkand.

Já nas províncias orientais, Hajjajj governava com eficiência e a sua já conhecida crueldade, com as zonas úmidas e encharcadas sendo drenadas, as terras áridas sendo irrigadas e o sistema de canalização restabelecido e melhorado. Ainda não satisfeito, o general, que havia sido um mestre-escola, revolucionou a ortografia árabe, introduzindo os sinais diacríticos.

O próprio Walid I se tornou um califa modelar, estando muito mais interessado na administração do governo do que propriamente na guerra, pois que passou a estimular a indústria e o comércio com novos mercados e melhores estradas, construiu escolas e hospitais, inclusive os primeiros leprosários de que se tem notícia, e também asilos para velhos, aleijados e cegos. Aumentou e embelezou as mesquitas de Meca, Medina e Jerusalém, erguendo em Damasco uma mesquita ainda maior, que existe até hoje. Enquanto administrava o governo, compunha versos, escrevia música, tocava flauta, ouvia com paciência aos outros poetas e músicos, e a cada dois dias se embriagava.

Suleiman, seu irmão e sucessor, período de 715 a 717, desperdiçou vidas e riquezas em vã tentativa contra Constantinopla. Contentava-se com uma boa alimentação e mulheres de baixa reputação, sendo mais lembrado pela história apenas por ceder o poder ao seu fanático primo Omar II, período de 717 a 720.

Omar II estava resolvido a remir em seu reinado toda a impiedade e a liberalidade dos seus predecessores omíadas, em que a prática e a propagação da fé credulária constituía o interesse maior da sua vida. Em seu fanatismo credulário, vestia-se com tanta modéstia como com tantos remendos, que nenhum estranho o tomava por um califa. Ordenou a uma das suas mulheres que entregasse ao tesouro público as suas caras jóias que o pai lhe havia dado e ela de imediato obedeceu. Declarou ao seu harém que os deveres do governo iriam absorvê-lo a tal ponto que iria neglicenciá-las, concedendo-lhes licença para que se retirassem. Ignorou os poetas, os oradores e os doutores que dependiam da corte, mas chamou ao seu conselho os elementos mais dedicados entre os sábios do seu califado. Fez as pazes com as outras nações, retirou o exército que sitiava Constantinopla e chamou as cidades muçulmanas que eram hostis ao governo omíada.

Enquanto os seus predecessores desencorajavam as conversões ao Islã, sob a alegação de que com isso menos recursos entrariam para os cofres do Estado, Omar II estimulou a aceitação do islamismo pelos falsos cristãos, zoroastrianos e judeus. E quando os agentes fiscais passaram a se queixar de que a sua política estava arruinando o tesouro, ele respondeu:

Ficarei grato, por Alá, em ver todos se tornarem muçulmanos, de modo que vós e eu tenhamos que cultivar o solo com as nossas próprias mãos para ganhar a vida.

Os seus conselheiros mais astutos e sagazes propuseram deter a onda de conversões, exigindo a circuncisão, contudo Omar II não aceitou a proposta e dispensou a essa cerimônia, mas sobre aqueles que se recusavam à conversão, ele impôs severas restrições, excluindo-os dos cargos públicos e os proibindo de construir novos templos. Desta maneira, após um reinado de menos de três anos, adoeceu e morreu, sucedendo-lhe Yezid II.

Yezid II, período de 720 a 724, o último dos filhos de Abd-al-Malik, vem com uma outra faceta do caráter e do costume muçulmanos, apaixonando-se perdidamente por Habiba, uma jovem escrava, que ele havia comprado por 4.000 peças de ouro, tendo o seu irmão Suleiman o compelido a devolver a jovem ao vendedor, quando ainda era califa, mas Yezid II nunca se esqueceu da beleza e da meiguice da escrava. Quando subiu ao poder, a sua esposa preferida lhe perguntou: “Meu amor, há alguma coisa mais que desejas neste mundo?”. Ele então respondeu: “Sim, Habiba”. Tentando satisfazer ao desejo do marido, a esposa preferida procurou por Habiba, encontrou-a e a mandou de presente para o marido, a seguir se retirou para a obscuridade do harém. Um certo dia, quando fazia uma refeição com Habiba, Yezid II fez uma brincadeira atirando um bago de uva na boca da mulher, que a seguir engasgou e morreu em seus braços. Uma semana depois o califa morria de tristeza.

Hishan, período de 724 a 742, governou com paz e justiça durante os anos do seu califado, melhorando a administração, reduzindo as despesas, e, ao morrer, deixou o tesouro repleto de riquezas, mas ele não era homem de guerra, tanto que os seus exércitos foram repetidamente derrotados, com rebeliões se espalhando nas províncias, ensejando a que o descontentamento se alastrasse em uma capital que ansiava por um califa que fosse mais pródigo e enérgico.

Os seus sucessores passaram a arruinar uma dinastia que até então era competente, passando a levar uma vida de luxo e neglicenciando do governo. Walid II, período de 743 a 744, não passava de um libertino, leu com satisfação a morte do seu tio Hishan, aprisionou o filho deste e se apossou das propriedades dos parentes do ex-califa, esvaziando o tesouro com uma administração relapsa e com gastos extravagantes. Os seus inimigos diziam que ele nadava em uma piscina de vinho e mitigava a sede ao nadar, que usava o Alcorão como alvo para a sua perícia em lançar flechas e que mandava a sua amante presidir as orações em seu lugar.

Yezid, filho de Yezid I, matou o mau governante, governando durante seis meses, quando então morreu. O seu irmão Ibraim ocupou o trono, mas não foi capaz de defendê-lo. Um hábil general o depôs e reinou durante seis trágicos anos, sob o título de Merwan II, tendo sido este general o último califa da dinastia Omíada.

Os califas omíadas estenderam as suas fronteiras políticas mais longe do que elas poderiam chegar em qualquer época, dando ao novo império um governo ordeiro e liberal, com a exceção de alguns intervalos obscuros. Mas a incerteza da monarquia hereditária colocou no trono, no século VIII, alguns incompetentes que exauriram o tesouro, entregaram a administração a eunucos e perderam o controle sobre a principal característica árabe, que era o individualismo dos seus líderes, o qual impedia um poder muçulmano horizontalizado.

A Arábia, o Egito e a Pérsia se ressentiam da autoridade de Damasco. E os orgulhosos persas, que se consideravam tão bons como os árabes, passaram a reclamar a sua superioridade e não mais toleraram o domínio sírio. As velhas inimizades tribais ainda persistiam como facções políticas, tanto que os hashimitas e os omíadas se odiavam mutuamente. Os hashimidas, descendentes de Maomé, ficavam constrangidos ao presenciarem no governo do Islã um clã omíada, do qual fazia parte o mais teimoso e o último convertido entre os inimigos do profeta, chocados com a moral fácil dos califas omíadas, embora sendo tolerantes, mas oravam pelo dia em que Alá enviasse algum salvador para redimi-los do governo humilhante. Tudo o que essas forças hostis ao califado necessitava era de uma personalidade bastante poderosa e enérgica que tivesse a iniciativa para lhes oferecer a unidade e a voz.

Abu al-Abbas, um tataraneto de um tio de Maomé, assumiu a chefia de local oculto da Palestina, organizou a revolta nas províncias e conquistou o anseio contido do povo, assegurando  o apoio dos nacionalistas persas shiitas. Em 749, proclamou-se califa, em Kufa. Merwan II enfrentou as forças rebeldes sob o comando de Abdala, que era tio de Abu al-Abbas, no rio Zab, tendo sido derrotado. Um ano depois Damasco capitulava ao cerco. Merwan II foi aprisionado e morto, com a sua cabeça tendo sido enviada a Abu al-Abbas. Mas o novo califa não estava satisfeito, declarando o seguinte:

Se eles tivessem bebido o meu sangue, este não lhes teria mitigado a sede, nem tampouco a minha ira se abrandou com o sangue deste homem.”

Passou então a se chamar de al-Saffah, o Sanguinário, ordenando que todos os príncipes da estirpe dos omíadas fossem caçados e mortos, a fim de impedir qualquer soerguimento da dinastia decaída, ao tempo em que nomeou Abdala governador da Síria, que conseguiu se desincumbir bem da tarefa. Proclamou anistia aos partidários dos omíadas e, para confirmá-la, convidou oitenta dos seus membros mais importantes para um jantar. Enquanto eles comiam, a um sinal seu, os soldados, que se encontravam escondidos, passaram todos a fio de espada, com os mortos sendo encobertos com tapetes, para que a festa prosseguisse sobre os corpos dos inimigos, com a música se misturando com os gemidos dos moribundos. Era tamanha a fúria, que os corpos de vários califas omíadas foram exumados, esqueletos quase descarnados foram açoitados, pendurados em forcas e queimados, com as suas cinzas sendo atiradas ao vento.

Para aqueles que são independentes, isentos de qualquer submissão à fé credulária, que procuram fazer valer o seu raciocínio acima de tudo, portanto, raciocinando com racionalidade, podem aqui constatar claramente o tanto que os credos são prejudiciais aos seres humanos, assim como as suas seitas. Se toda essa patifaria, essa sórdida vilania, encontra-se registrada nos anais da história em relação ao credo islâmico; não menos patifaria, não menos sórdida vilania, encontra-se registrada nos anais da história em relação ao credo católico.

Isso tudo representa a guerra astral entre os espíritos obsessores, cujos chefes das falanges alimentam a pretensão de serem o deus único da nossa humanidade, em que os mais poderosos são Jeová, o deus bíblico, e Alá, ou Lúcifer, o deus alcorânico. Mas tratemos antes do califado Abássida, para depois podermos adentrar mais diretamente nessa guerra astral renhida travada entre esses dois deuses do astral inferior, com reflexos diretos nos seres humanos.

 

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