18.04.02- O califado Abássida: período de 750 a 1058

Prolegômenos
15 de julho de 2018 Pamam

Abu al-Abbas, que se chamou a si próprio de al-Saffah, o Sanguinário, viu-se senhor de um império que se estendia do rio Indo, no Paquistão, ao Atlântico, englobando Sind, no noroeste da Índia, Beluquistão, Afeganistão, Turquestão, Pérsia, Mesopotâmia, Armênia, Síria, Palestina, Chipre, Creta, Egito e África do Norte. A Espanha muçulmana, porém, repeliu a sua autoridade e Sind se livrou do seu domínio.

Sendo odiado em Damasco e se sentindo incomodado em Kufa, al-Saffah fez de Anbar, situada ao norte de Kufa, a sua capital. Os homens que o haviam ajudado a galgar o poder e que agora administravam o governo, eram predominantemente persas de origem ou de cultura, o que influiu significativamente para um certo refinamento e urbanismo persas nas maneiras da corte, depois que al-Saffah derramou muito sangue. E uma sucessão de califas mais esclarecidos pôs alguma dignidade no governo e promoveu o crescimento da riqueza, promovendo um significativo florescimento da arte e da literatura, da ciência e da sua saperologia. Assim, depois de um século a cultura pérsia passou a predominar sobre os seus conquistadores.

Em 754, al-Saffah morreu de varíola. O seu meio-irmão Abu Jafar o sucedeu no trono, tendo adotado o nome de al-Mansur, o Vitorioso, cuja mãe era uma escrava berbere. Dos 37 califas abássidas, todos foram criados por escravas, com a exceção de apenas três, em função da instituição do concubinato e da legitimação de sua prole. Deste modo, a aristocracia muçulmana era perpetuamente recrutada pela democracia em face da oportunidade e da fortuna do amor e da guerra.

O novo califa tinha 40 anos, era alto, magro, moreno, usava barba e era austero, não se deixava levar pela beleza feminina e nem era amigo do vinho e da música, mas era generoso com as letras, as ciências e as artes. Sendo extremamente habilidoso, era porém pouco escrupuloso, o que o levou pela sua firme qualidade de estadista a firmar uma dinastia que de outro modo teria se extinguido com a sua morte. Entregou-se com diligência à administração do governo, construiu uma bela capital em Bagdá, reorganizou o governo e o exército, estabelecendo uma estrutura duradoura, acompanhava de perto a todos os departamentos e grande parte das transações, e combateu a corrupção dos funcionários públicos, forçando-os a devolverem ao tesouro os frutos do peculato, inclusive com o seu próprio irmão, o que fez com que ele gastasse os fundo do Estado com parcimônia conscienciosa, ocasionando a que não granjeasse nenhum amigo, apenas o apelido de “Pai dos Vinténs”.

No início do seu califado estabeleceu uma instituição em conformidade com o padrão persa: vizirato; que iria desempenhar um grande papel na história dos abássidas. O vizir era um ministro e conselheiro de um sultão na antiga Pérsia, cujo termo significa ajudante, sendo agora adotado por um país islâmico, com os vizires passando a cumprir as ordens do califa, mantendo o monarca distante da execução das tarefas administrativas rotineiras, ao mesmo tempo em que assumia a responsabilidade dos atos do governo e preservava a reputação do califa, que era o governante temporal e espiritual do Estado.

Como seu primeiro vizir, al-Mansur nomeou Khalid, filho de Barmak, que passou a ser a linhagem dos barmaquidas. A família Barmak havia sido destinada a um importante papel no califado abássida. Trabalhando em conjunto e harmonia, os dois governantes conseguiram estabelecer a ordem e a prosperidade, cujos frutos iriam cair nas mãos de Harun al-Raschid. Após um salutar reinado de 23 anos, al-Mansur morreu durante uma peregrinação a Meca.

O seu filho al-Mahdi, período de 775 a 785, deu-se ao luxo de ser benevolente, perdoando a todos, com a exceção dos mais perigosos delinquentes, gastou prodigamente para embelezar as cidades, favoreceu a música e a literatura, e administrou o império com razoável competência. Como Bizâncio havia aproveitado a oportunidade da revolução abássida para recuperar o território da Ásia Menor, que antes havia sido conquistado pelos árabes, al-Mahdi enviou um exército sob o comando do seu filho Harun para a reconquista. Em 784, Harun fez os gregos recuarem até Constantinopla, ao ponto de ameaçar a essa capital. A imperatriz Irene então pediu a paz, comprometendo-se a um pagamento anual de 70.000 dinares aos califas.

Daí por diante, al-Mahdi passou a chamar ao jovem Harun de al-Raschid, Aarão o Justo. Anteriormente havia nomeado a um outro filho como herdeiro presuntivo do trono, mas então, vendo a capacidade muito superior de Harun, pediu a al-Hadi, o herdeiro, que desistisse dos seus direitos em favor do irmão mais novo. Al-Hadi, que comandava um exército no Oriente, recusou-se e desobedeceu à ordem de voltar a Bagdá. Al-Mahdi e al-Raschid partiram para prendê-lo, mas o califa, que contava com 43 anos de idade, morreu no caminho. Aconselhado por Yahya Barmak, filho de Khalid, al-Raschid passou a reconhecer al-Hadi como califa e ele próprio como herdeiro presuntivo.

De imediato al-Hadi pôs o irmão de lado, prendeu Yahya e proclamou ao seu próprio filho como sendo o seu sucessor. Em 786, pouco depois, morreu. Circularam rumores de que a sua própria mãe, que era favorável a al-Raschid, o havia sufocado com travesseiros. Al-Raschid subiu ao trono e fez de Yahya o seu vizir, dando início ao mais famoso reinado da história muçulmana.

As lendas ao seu respeito, principalmente as Mil e Uma Noites, retratam al-Raschid como um monarca alegre e culto, despótico e violento quando preciso, geralmente generoso e humano. Era um amante das boas histórias, sendo tão dedicado, que mandava registrá-las nos arquivos do Estado, chegando a compensar a uma contadora de histórias compartilhando do seu leito com ela. Todas essas suas qualidades aparecem na história, exceto a sua jovialidade, que parece não interessar aos historiadores, que o retratam como um pio e resoluto ortodoxo muçulmano, que restringiu severamente a liberdade dos que não eram muçulmanos, pois que fazia peregrinação a Meca a cada dois anos e realizava cem prostrações nas suas preces diárias. Bebia com frequência, mas sempre na intimidade dos poucos amigos escolhidos. Tinha sete esposas e várias concubinas, onze filhos e quatorze filhas, todos de escravas, exceto al-Emin, que era filho da princesa Zobeida. Quando o seu filho al-Mamun se apaixonou por uma das criadas do palácio, o califa lhe deu presentes, pedindo em troca apenas que compusesse alguns versos. Gostava tão intensamente de poesia, que em algumas ocasiões deslumbrava um poeta com presentes extravagantes, como quando deu ao poeta Merwan, por uma curta ode laudatória, cinco mil peças de ouro, um rico traje, dez jovens escravas gregas e um cavalo favorito.

Atendendo ao plano de espiritualização da nossa humanidade, pois que o credo islâmico teria que fazer frente ao credo católico, batendo de frente com ele, em igualdade de condições, uma vez que Jeová não poderia jamais se tornar o único deus dos seres humanos, dada a sua má intenção em destruir a vida na Terra, através do fogo, enquanto Lúcifer, ou Alá, pretendia apenas dirigir as nações, satisfazendo-se com isso, vários espíritos detentores de uma intelectualidade já bastante desenvolvida encarnaram para ajudar ao califado, o que ocasionou a que os historiadores viessem a declarar que jamais uma corte na história teve uma constelação mais brilhante de intelectuais, pois sendo contemporâneo da imperatriz Irene, de Constantinopla, e de Carlos Magno, da França, e um pouco posterior a Tsuan Tsung, de Chang-an, na China, al-Raschid superou a todos em riqueza, poder, esplendor e o adiantamento cultural que caracteriza e adorna ao governo.

Sendo atuante na administração do governo, conquistou a reputação de juiz íntegro e deixou no tesouro a soma colossal de 48.000.000 de dinares ao morrer. Comandou os seus exércitos pessoalmente no campo de batalha, mantendo intactas todas as fronteiras. Logo na sua ascensão, resolveu confiar a administração e a política da maior parte do seu império ao intelectual Yahya., dizendo-lhe:

Encarrego-o do governo dos meus súditos. Governe-os como desejar. Demita quem quiser, nomeie quem quiser, dirija todos os assuntos conforme achar melhor”.

E para ratificar as suas palavras, deu a Yahya o seu próprio anel, que era um ato de extrema confiança e aparente imprudência para um jovem de apenas 22 anos, considerado como se fosse imaturo para governar um reino tão extenso, mas era também um ato de gratidão àquele que havia sido o seu tutor, a quem chamava de pai e que havia estado na prisão por sua causa. Além do atributo da gratidão, ele provava também o seu talento administrativo, destacando-se como sendo um dos mais hábeis administradores da história, mostrando-se afável, generoso, judicioso e um trabalhador incansável, levando assim o seu governo ao máximo da eficiência.

Estabeleceu a ordem, a segurança e a justiça, construiu estradas, pontes, estalagens e canais, mantendo todas as províncias prósperas mesmo as tributando pessoalmente, a fim de prover o tesouro e a sua própria fortuna pessoal, pois que com ela patrocinava a literatura e as artes. Os seus filhos al-Fadl e Jafar receberam dele altos cargos, desincumbindo-se bem das suas funções, embora se locupletassem do erário público, tornando-se riquíssimos e construíssem palácios, mas mesmo assim patrocinavam aos seus próprios poetas, jograis e intelectuais.

Os historiadores não sabem ao certo as causas que tão repentinamente puseram fim ao poderio da linhagem dos barmaquidas, mas ibn Khaldum apontou a causa verdadeira na presunção do vizir Yahya em deter toda a autoridade na sua ciosa aplicação das receitas públicas, a tal ponto que al-Raschid às vezes era obrigado a pedir uma soma insignificante sem consegui-la, e assim, à medida que o jovem governante ia avançando em idade e não dava vazão completa à sua capacidade na consecução dos prazeres sensuais e das dissertações intelectuais, passou a se aborrecer do imenso poder com que havia dotado ao seu vizir. Certa vez mandou Jafar, filho do vizir, executar a um rebelde, tendo ele facilitado a sua fuga, ensejando a que al-Raschid nunca viesse a perdoar a tal negligência.

No entanto, al-Raschid era extremamente exigente em relação à sua linhagem árabe, tornando-se até perverso e implacável no intuito de preservá-la, pois havia jurado manter o sangue das suas irmãs tão puro como o dos árabes da melhor linhagem. A sua irmã Abbasa então se apaixonou por Jafar, que era persa. O califa até permitiu que eles se casassem, mas sob a promessa de não se encontrarem senão na sua presença. Ora, assim com os dois apaixonados e casados era como querer conservar juntos o fogo e a água, o que ocasionou o fato do casal logo infringir o acordo imposto pelo califa. Abbasa teve dois filhos de Jafar, os quais foram escondidos e criados em Medina, mas Zobaida, mulher de al-Raschid, descobriu tudo e contou ao marido. O califa então ordenou a Mesrur, o seu principal carrasco, que matasse Abbasa e a enterrasse no palácio, dirigindo pessoalmente a execução da sua ordem. Em seguida, mandou que Mesrur decapitasse Jafar e lhe trouxesse a cabeça, sendo cumprida a sua ordem. Como se não bastasse, mandou que trouxessem as crianças de Medina, conversou muito com os lindos meninos, admirou os sobrinhos e depois mandou matá-los, em 803.

Yahya e al-Fadl foram presos, tendo a permissão de manter as suas famílias e os criados, mas jamais foram postos em liberdade, tendo Yahya morrido dois anos depois do filho e al-Fadl três anos após o pai. Todas as propriedades dos barmaquidas foram confiscadas, as quais eram estimadas em 30.000.000 de dinars.

Quando Nicéforo I, imperador de Bizâncio, recusou-se a continuar os pagamentos que haviam sido prometidos por Irene e com bastante ousadia exigiu a devolução dos tributos já pagos, al-Raschid respondeu o seguinte:

Em nome de Alá, o Misericordioso, o Generoso. De al-Raschid, Comandante dos Fiéis, a Nicéforo, cão de um romano: tenho em mãos a sua carta, ó filho de uma mãe infiel. A resposta é para ser vista pelos seus olhos e não para ser ouvida pelos seus ouvidos. Salaam.

A seguir entrou imediatamente em ação, e da sua nova e estratégica residência de Raqqa, situada na fronteira norte, enviou para a Ásia Menor expedições tão impetuosas que Nicéforo I logo concordou em reiniciar o pagamento dos tributos, em 806.

Mesmo estando al-Raschid ainda com apenas 42 anos de idade, os seus filhos al-Emin e al-Mamun já disputavam entre si a sucessão, à espera da sua morte. Com o intuito de atenuar a disputa dos dois, o califa fez de logo al-Mamun herdeiro das províncias ao leste do Tigre e a al-Emin todo o restante, mas com a morte de um dos irmãos, o sobrevivente herdaria todo o império. Os dois irmãos assinaram o pacto, jurando a sua fidelidade diante da Caaba. No mesmo ano de 806, irrompeu uma grande rebelião no Khurasan, fazendo com que al-Raschid partisse com al-Emin e al-Mamun para sufocá-la, apesar de estar sofrendo de graves dores abdominais. Em Tus, no Irã oriental, não mais conseguiu suportar a tortura da dor, estando no fim a sua agonia quando Bashin, um chefe rebelde, foi trazido à sua presença. Estando possesso tanto de dor como de raiva, o califa o repreendeu severamente por forçá-lo a empreender essa fatal expedição, ordenando que o rebelde fosse retalhado membro por membro, assistindo a execução da sentença. No dia seguinte, al-Raschid morria aos 45 anos de idade, em 809.

Al-Mamun continuou em Merv e chegou a um acordo com os rebeldes. Enquanto isso, al-Emin retornou para Bagdá, nomeou ao seu filho ainda criança o herdeiro do seu poder, e exigiu de al-Mamun três províncias orientais, que lhe foram negadas, declarando-lhe a guerra. Tahir, general de al-Mamun, derrotou os exércitos de al-Emin, sitiou e quase destruiu Bagdá, a seguir mandou a cabeça de al-Emin para al-Mamun, que segundo o costume era inviolável. Em 813, al-Mamun, que ainda continuava em Merv, proclamou-se califa, mas a Síria e a Arábia continuavam a lhe resistir, pelo fato dele ser filho de uma escrava persa. Em 818, conseguiu entrar em Bagdá, na qualidade de governante reconhecido pelo Islã.

Al-Mamun figura ao lado de al-Mansur e de al-Raschid como um dos grandes califas da dinastia abássida. Embora houvesse sofrido a influência da fúria e da crueldade do pai, o novo califa era normalmente um homem de temperamento brando e tolerante. No seu conselho de Estado incluiu representantes de todos os maiores credos e seitas do califado, tais como maometanos, católicos, judeus, sabeus e zoroastrianos, garantindo a completa liberdade de culto e de crença, até os seus últimos anos. Durante certo tempo o pensamento era livre na corte de al-Mamun, tanto que Masudi descreve uma das tardes intelectuais do califa, assim:

Al-Mamun costumava realizar uma reunião todas as terças-feiras para discutir questões de teologia e de Direito… Os homens eruditos das diversas seitas eram conduzidos a uma sala forrada de tapetes. Mesas cheias de comidas e bebidas eram trazidas… Terminado o repasto, os criados seguravam braseiros de incenso e os convidados se perfumavam; eram então conduzidos à presença do califa. Este discutia com eles até certo ponto, com equanimidade e imparcialidade, tão diferentes das arrogância de um monarca quanto se possa imaginar. Ao pôr do sol uma segunda refeição era servida, e os convidados se retiravam para os seus lares”.

Sob o califado de al-Mamun o apoio real às artes, ciências, letras e saperologia se tornou mais variado e significativo do que no califado de al-Raschid, obtendo resultados muito mais profundos e expressivos, pois ele havia mandado procurar em Constantinopla, Alexandria, Antioquia e em outros lugares, os escritos dos sábios gregos, pagando a um corpo de tradutores para traduzir os livros para o árabe. Fundou uma academia de ciências e observatórios em Bagdá, e beneficiou a médicos, juristas, músicos, poetas, matemáticos, astrônomos, e outros, com a sua generosidade, inclusive escrevendo também poesias.

Em 833, aos 48 anos de idade, morria o califa, não sem antes haver infelicitado aos seus últimos anos de governo, com a perseguição da crença ortodoxa, influenciado pelas discussões intelectuais das suas tardes de terças-feira. O seu irmão Abu Ishaq al-Mutassim lhe sucedeu no trono, mas não compartilhou da sua boa vontade e nem do seu gênio.

Al-Mutassim se cercou de uma guarda pessoal de 4.000 soldados turcos, tal como os imperadores romanos haviam se apoiado na guarda pretoriana. E foi assim que tanto em Roma como em Bagdá a guarda pessoal, com o tempo, tornou-se o rei de fato. O povo da capital se queixava de que os turcos de al-Mutassim cavalgavam descuidadamente nas ruas e cometiam crimes que ficavam impunes. Com receio de uma revolta popular, o califa deixou Bagdá e construiu uma residência real em Samarra, a cerca de 50 quilômetros ao norte de Bagdá.

De 836 a 892, oito califas fizeram de Samarra os seus lares e os seus sepulcros: Al-Mutassim foi o califa de 833 a 842. Wathiq, de 842 a 847. Mutawakkil, de 847 a 861. Muntasir, de 861 a 862. Mustain, de 862 a 866. Mutazz, de 866 a 869. Muhtadi, de 860 a 870. E Mutamid, de 870 a 892, que poucos antes de morrer transferiu a sede do califado novamente para Bagdá.

Por cerca de 35 quilômetros ao longo do Tigre edificaram grandes palácios e mesquitas, e os seus funcionários construíram luxuosas mansões com murais, fontes, jardins e banhos. O califa al-Mutawakkil mostrou toda a sua fé credulária ardorosa gastando 700.000 dinares para construir uma grande mesquita congregacional, e toda a sua pomposidade gastando um pouco menos em uma nova residência denominada de Pérola e um Salão de Delícias cercados de parques e correntes de água. Para custear a essas construções, o califa elevou os impostos e vendeu cargos públicos a quem mais desse, assim como os papas em Roma passaram a vender o cardinalato. E para aplacar a ira de Alá, passou a defender a ortodoxia. O seu filho persuadiu os guardas turcos a matarem-no e assumiu o trono como al-Muntasir, “aquele que triunfa no senhor”.

As causas internas corromperam o califado antes que as forças externas o levassem à subserviência. Os excessos de bebidas, a volúpia, a luxúria e a preguiça degeneraram o sangue real, resultando em uma sucessão de fracalhões que fugiam das suas obrigações de governo para as delícias do harém. O crescimento da riqueza e do ócio, a concubinagem e a pederastia produziam efeitos semelhantes entre a classe dominante e estragavam as qualidades beligerantes do povo. De tamanha indisciplina não podia surgir a mão forte necessária para reunir uma conglomeração tão espalhada e diversa de províncias e tribos. As antipatias raciais e territoriais alimentaram repetidas revoltas, pois que os árabes, os persas, os sírios, os berberes, os falsos cristãos, os judeus e os turcos alimentavam entre si um desprezo recíproco. A fé credulária, que uma vez havia forjado a unidade foi dividida em seitas que expressavam e intensificavam as divisões políticas ou geográficas.

Tendo como a sua principal fonte de subsistência as irrigações, os canais que alimentavam o solo necessitavam de proteção e cuidados permanentes, algo que somente o Estado poderia proporcionar. Quando a administração oficial do sistema de canais se tornou incompetente, neglicenciando as suas tarefas, o abastecimento de gêneros alimentícios caiu abaixo do índice de natalidade e a morte pela fome teria que restabelecer o equilíbrio entre esses fatores básicos que fazem a história. Mas, mesmo assim, o empobrecimento do povo pela fome ou pelas epidemias raras vezes deteve a mão voraz do coletor de impostos. O camponês, o artesão e o mercador viam os seus ganhos serem absorvidos pelos gastos e pelas frivolidades do governo, perdendo assim o incentivo à produção, expansão ou empreendimentos. Por fim, a economia não pôde mais amparar o governo. As receitas caíram, os soldados não podiam ser pagos, por conseguinte, não podiam ser controlados adequadamente. Os turcos tomaram o lugar dos árabes nas forças armadas do Estado, assim como os germanos haviam substituído os romanos nos exércitos de Roma. E de al-Muntasir em diante, eram os capitães turcos que faziam e desfaziam, comandavam e matavam os califas. Uma sucessão de sórdidas e sangrentas intrigas palacianas tornou as últimas vicissitudes do califado de Bagdá indignas das lembranças da sua própria história.

O enfraquecimento da administração política e do poder militar no centro, resultou no desmembramento do reino. Governadores dominavam as províncias com apenas referências formais à capital, planejando tornar as suas posições permanentes e finalmente hereditárias. Em 756, a Espanha se declarou independente. Em 788, Marrocos. Em 801, Túnis. Em 868, o Egito. Nove anos depois, os emires egípcios resolveram conquistar a Síria e a governaram em sua maior parte, até o ano de 1076.

Al Mamun tinha recompensado o seu general Tahir confiando a ele e aos seus descendentes o governo de Khurasan. Esta dinastia tahirida, período de 820 a 872, governou a maior parte da Pérsia em um estado de quase soberania, até ser substituída pelos safaridas, período de 872 a 903. De 929 a 944, uma tribo de muçulmanos shiitas, os hamdanitas, conquistou a Mesopotâmia setentrional e a Síria, consolidando o seu poder tomando Mossul e Alepo, que eram relevantes centros da vida cultural. Assim, Sayfu’l-Dawla, período de 944 a 967, sendo ele próprio um poeta, acolheu na sua corte de Alepo al-Farabi, o famoso saperólogo, e a al-Mutanabbi, o mais popular dos poetas árabes.

Os buwayhidas, filhos de Buwayd, o chefe montanhês do Cáspio, tomaram Isfahan, Shiraz e, finalmente, Bagdá, em 945, e por mais de cem anos forçaram os califas a obedecer às suas ordens. Assim, o comandante dos fiéis ficou reduzido a pouco mais do que um chefe do islamismo ortodoxo, enquanto o emir buwayhida, um shiita, assumia a direção do decadente Estado. Adud al-Dawla, período de 949 a 983, o maior desses buwayhidas, fez da sua capital Shiraz uma das mais belas cidades do Islã, mas também gastou generosamente em outras cidades do seu reino. Sob o seu governo e os governos dos seus sucessores, Bagdá reconquistou um pouco da glória que havia conhecido no tempo dos grandes califas.

Em 874, os descendentes de Saman, um nobre zoroastriano, fundaram a dinastia dos samanidas, que dominou a Transoxiana e o Khurasan até 999. Sob o governo dos reis samanidas, Bokhara e Samarkand rivalizaram com Bagdá como centro do saber e das artes, tendo sido restaurada nessas cidades a língua persa, que se tornou o veículo de uma vasta literatura. A corte samanita protegeu ao grande Avicena, o maior dos saperólogos medievais, dando-lhe acesso a uma rica biblioteca. E al-Razi, o maior dos médicos medievais, dedicou a sua obra al-Mansuri, o seu imenso compêndio de Medicina, a um príncipe samanida. Mas em 990, uma avalanche turca conquistou Bokhara, acabou de vez com a dinastia samanida e lutou para impedir o fluxo mongol.

Em 962, um bando de aventureiros turcos procedentes do Turquestão invadiu o Afeganistão sob a direção de Alptigin, que era um antigo escravo, assenhoreou-se de Ghazni e estabeleceu ali a dinastia ghaznevida. Subuktingin, período de 976 a 997, primeiramente escravo, depois genro de Alptigin e a seguir o seu sucessor, estendeu o seu domínio sobre Peshawar e parte do Khurasan. O seu filho Mahmud, período de 998 a 1030, tomou toda a Pérsia, desde o Golfo até Óxus, e em 17 campanhas implacáveis adicionou o Pundjab ao seu império e muito da riqueza da Índia aos seu tesouro. Estando saciado com saques e aborrecido com o desemprego causado pela desmobilização, empregou parte dos seus bens e dos seus soldados na construção da mesquita congregacional de Ghazni, que um historiador narra da seguinte maneira:

Ela tinha uma imensa nave, em que 6.000 servos de Alá podiam cumprir os seus deveres sem se incomodarem uns aos outros. E Mahmud erigiu perto dela um colégio e o dotou com uma biblioteca e livros raros… E a essas paredes simples vinham estudantes, professores e sacerdotes… e das dotações do colégio eles recebiam o sustento diário e todos os requisitos essenciais, e um salário anual ou mensal.

É um erro de interpretação histórica considerar os conquistadores turcos como sendo bárbaros quando invadiram o Islã, assim como também os conquistadores germânicos de Roma. No século VI, movendo-se do lago Baikal para o oeste, os turcos da Ásia norte-central se organizaram sob a direção de um cã, título dado aos soberanos mongóis que reinaram na China. Fundindo o ferro encontrado nas suas montanhas, fizeram armas tão duras e inflexíveis como o seu próprio código, que punia com a morte tanto a traição como o assassinato, além do adultério e da covardia. A prolificidade das suas mulheres superou a mortandade das guerras.

Por volta do ano 1000, um ramo dos turcos conhecido pelo nome do seu chefe Seljug, os turcos seljúcidas, dominou a Transsoxiana e o Turquestão. Em 1029, Mahmud de Ghazni, pensando em deter o poder do seu rival turco, deteve um filho de Seljuq e o prendeu na índia. Sendo determinados e estando enfurecidos, os turcos seljúcidas, sob o comando do enérgico e hábil chefe Tughril, tomaram a maior parte da Pérsia e prepararam o caminho para futuros avanços, mandando ao califa al-Qaim de Bagdá uma delegação anunciando a sua submissão a ele e ao Islã. O califa esperava que esses destemidos guerreiros turcos fossem capazes de libertá-lo do jugo dos seus senhores buwayhidas, pedindo a a Tughril para vir em seu auxílio.

Em 1055, Tughril marchou em auxílio ao califa, tendo os buwayhidas fugido. Al-Qaim desposou uma sobrinha de Tughril. Em 1058, fez dele ”Rei do Leste e Oeste”. Uma por uma as pequenas dinastias do Islã asiático se submeteram ante o poderio dos turcos seljúcidas, passando a reconhecer novamente a supremacia de Bagdá. A partir daí os governantes seljúcidas assumiram o título de sultão, que significa senhor, e reduziram os califas a um papel meramente credulário, introduzindo no governo um novo vigor e uma maior competência, e o principal: um novo fervor da fé credulária ortodoxa. Rapidamente eles absorveram as culturas mais elevadas de todas as regiões, unificaram em um novo império harmônico os membros dispersos de um Estado que se encontrava moribundo e lhe deram a força necessária para suportar a todo e qualquer percalço ora em diante.

Como a nossa humanidade ainda não se encontra espiritualizada, estando dividida entre as ciências, que pregam a existência da ilusão da matéria, e os credos e as suas seitas, que pregam a existência do devaneio do sobrenatural, os historiadores jamais poderiam supor que toda a história desta nossa última e definitiva civilização não passa de um reflexo das ações e das guerras travadas em plano astral inferior, pois que supor a realidade da vida e da nossa existência eterna e universal não é dada à imaginação, e se não fossem as ações decisivas de alguns poucos instrumentos do Astral Superior para nortear o plano elaborado pelo espírito que se deslocou da sua humanidade para nossa, que em sua última encarnação neste nosso mundo-escola se chamou de Jesus, o Cristo, nós certamente não teríamos chegado ao esclarecimento espiritual necessário para que pudéssemos abandonar a fase da imaginação e adentrar na fase da concepção, alcançando finalmente a razão, através da união, da irmanação, da congregação, entre a verdade e a sabedoria, que ora está sendo concretizada por intermédio do Racionalismo Cristão.

Para que não reste a menor dúvida de que a história desta nossa civilização não passa de um simples reflexo daquilo que ocorre no astral inferior, pois que os seres humanos são todos obsedados pelos espíritos trevosos que lá se encontram decaídos, vejamos então esses reflexos nos seres humanos dessa tremenda luta astral travada entre Jeová, o deus bíblico, e Lúcifer, ou Alá, o deus alcorânico, a que os historiadores denominam de Cruzadas.

 

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