16.08- Leão X

Prolegômenos
10 de julho de 2018 Pamam

A avidez da Igreja Católica por recursos tirados dos seus fiéis à força e por outros meios já era de há muito criticada por todos, inclusive pelos membros do seu próprio clero, tanto que o alto prelado espanhol Álvaro Pelayo já proclamava ao mundo que “Os lobos têm o controle da Igreja e se alimentam do sangue cristão”. Eduardo III da Inglaterra, sendo ele mesmo adepto dos impostos, lembrou a Clemente VI que “O sucessor dos apóstolos foi designado para conduzir o rebanho do Senhor ao pasto, e não para tosquiá-lo”.

Os próprios católicos leais à Igreja dos séculos catorze e quinze afirmavam que ela amava o dinheiro muito além da conta, e o possuía em quantidade exagerada, tanto que uma das causas da queda da Igreja na Alemanha reside nas suas riquezas extravagantes, cujo crescimento malsão despertou tanto a inveja como o ódio dos leigos, e, segundo Pastor, em sua obra História dos Papas, tendo também um efeito deletério nos próprios ministros da Igreja. Em 1522, os Cem Agravos formulados contra a Igreja pela Dieta de Nuremberg, afirmou que ela possuía a metade da riqueza da Alemanha, mas um historiador católico admitiu a parte da Igreja como sendo apenas um terço da riqueza da Alemanha e um quinto da riqueza da França, enquanto que um procurador-geral do Parlamento calculou, em 1502, que três quartas partes de toda a riqueza da França era eclesiástica. Na Itália, um terço da península pertencia naturalmente à Igreja como Estados Papais, que ainda possuía ricas propriedades no resto do país. John Bromyard, um dominicano do século XIV, disse dos seus colegas frades o seguinte:

Aqueles que deviam ser os pais dos pobres cobiçam as comidas requintadas e apreciam o sono matinal. Muito poucos condescendem em prestar presentes às matinas ou às missas. Estão gastos de glutoneria e embriaguez, para não dizer de sujeira, e por isso agora as reuniões de clérigos dão a impressão de bordéis de gente lasciva e congregações de atores de teatro”.

Sempre houve a degeneração e a depravação no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, tanto que Erasmo repetiu a acusação um século depois, ao afirmar:

Muitos conventos de homens e de mulheres pouco diferem de bordéis públicos”.

Em 1490, Johannes Trithemius, abade de Sponhein, dá-nos um retrato da Igreja Católica, ao denunciar os monges, sem a utilização de hipérboles, quando diz:

Os três votos da religião são tão pouco respeitados por esses homens como se nunca tivessem prometido cumpri-los. O dia inteiro se passa em conversações imundas, empregam todo o seu tempo no divertimento e na glutoneria. Em indisfarçada posse de propriedade privada, cada um mora na sua própria habitação particular. Nunca temem nem amam a Deus; não têm um pensamento para a vida futura, preferindo seus desejos carnais às necessidades da alma. Desprezam o voto de pobreza, desconhecem o da castidade, repudiam o da obediência. A fumaça de suas imundícies se eleva pelas adjacências”.

Em 1503, Guy Jouenneaux, comissário papal enviado para reformar os mosteiros beneditinos da França, comprova que o Vaticano sempre preferiu viver na orgia, mas queria demonstrar uma falsa impressão ao povo em geral através dos seus sacerdotes, determinando que eles levassem uma vida digna, sem que dessem o exemplo para tanto, como comprova o seu relatório um tanto sombrio, que diz:

Muitos monges jogam, blasfemam, frequentam hospedarias, usam espadas, juntam riquezas, fornicam, levando a vida de bacanais, sendo mais mundanos do que os simples mundanos. Se eu quisesse descrever todas as coisas que me caíram sob os olhos, faria um relato comprido demais”.

Ninguém pode pôr em dúvida que a Igreja Católica Apostólica Romana sempre foi um antro de perdição em todos os tempos, daí a razão pela qual os católicos são adoradores de Jeová, o deus bíblico, adorando, cultuando, dobrando os joelhos e temendo a esse patife, que não passa de um espírito tremendamente obsessor, e ainda seguem aos seus sacerdotes, que também não passam de patifes, assim como todos eles dos demais credos e seitas também os são. Até o papa Leão X, patife como todos os papas, em 1516, afirmou o seguinte:

A falta de regulamento nos mosteiros da França e a vida sem recato dos monges chegaram a um tal abismo que nem os reis, os príncipes e os fiéis em grande maioria têm mais qualquer respeito por eles”.

O problema é que a grande maioria dos católicos não possui a disposição de ler sequer a receita que os médicos passam para si, enquanto que os poucos que leem acreditam piamente nas mentiras católicas, como quando chegam até a elogiar Urbano II por promover as Cruzadas, chamando-o de herói. Alguns raros que se dispõem a ler a verdadeira história da Igreja Católica e do papado, conseguem observar em seu seio a mais sórdida vilania, mas mesmo assim continuam medrando no meio de toda essa patifaria, como é o caso de um historiador católico recente, que quanto ao ano de 1490, resume o seguinte:

Leiam-se os inúmeros testemunhos desse tempo — anedotas históricas, censuras de moralistas, sátiras de eruditos e poetas, bulas papais, constituições sinodais — que dizem elas? Sempre os mesmos fatos e as mesmas queixas: o desaparecimento da vida conventual, da disciplina e da moral. É prodigioso o número de gatunos e depravados monásticos; para compreender as suas desordens temos de ler os pormenores revelados por inquéritos judiciais quanto ao estado interno das grandes abadias. Os abusos entre os cartuxos eram tão grandes que a ordem tinha má reputação em quase toda parte. A vida monástica tinha desaparecido dos conventos. Todos contribuíam para transformar esses asilos de oração em centros de dissipação e desordem”.

Em Norfolk, Inglaterra, de setenta e três acusações de incontinência — a incapacidade de conter os desejos intemperados, falta de continência, de comedimento nos prazeres sexuais, luxúria, impudicícia —, registradas em 1499, quinze foram contra sacerdotes; em Ripon, de cento e vinte seis, vinte e quatro; em Lambeth, de cinquenta e oito, nove; quer dizer, os faltosos clericais perfaziam uns 23% do total, embora o clero fosse menos de 2% da população. Alguns confessores pediam favores sexuais às suas penitentes. Milhares de padres tinham concubinas; na Alemanha quase todos. Em Roma os padres mantinham concubinas. E alguns relatórios calculavam em 6.000 as prostitutas da cidade, em uma população que não passava de 100.000 habitantes.

A queixa que finalmente desencadeou a Reforma foi a venda de indulgências. Através dos poderes delegados por Jesus, o Cristo, a Pedro, conforme consta em Mateus 16:19, o qual já foi devidamente explanado, e que nada tem a ver com a Igreja Católica, que considera que Pedro deu esse poder aos bispos e estes aos padres, tendo o clero autorização para absolver um penitente em confissão da culpa dos seus pecados e do seu castigo no inferno, mas não de fazer penitência por eles na Terra.

Um penitente absolvido, pagando tal soma, ou seja, fazendo uma contribuição em dinheiro para as despesas da Igreja, receberia uma indulgência parcial ou plenária, não para cometer pecados futuros, mas sim para se livrar de um dia, um mês, um ano do purgatório, ou todo o tempo que poderia ter de sofrer ali para completar a penitência para os seus pecados. Uma indulgência não cancelava a culpa dos pecados, os quais eram perdoados no confessionário, quando o padre absolvia um penitente contrito. A indulgência, portanto, era uma remissão de parte ou de todas as penitências temporais pela Igreja, que eram recebidas por pecados cuja culpa tinha sido perdoada no sacramento da confissão.

Esse procedimento ardiloso e artimanhoso engendrado pela classe sacerdotal, em face da simplicidade e da ignorância do povo, atrelado pela cobiça dos perdoadores encarregados de distribuir as indulgências, foi logo transformado em fonte de rendas. Como esses provedores tinham a permissão de ficar com uma porcentagem das receitas, evitavam insistir na contrição, na confissão e na oração, e deixavam o recipiendário livre de interpretar a indulgência como o dispensando de contrição, de confissão e de absolvição, dependendo completamente da contribuição monetária. Tanto que Thomas Gascoigne, presidente da Universidade de Oxford, queixava-se da seguinte maneira:

Os pecadores hoje em dia dizem: ‘não me importa quantos pecados eu faça pelo julgamento de Deus, pois eu posso arranjar facilmente uma remissão plenária de toda a culpa e penitência com uma absolvição e uma indulgência concedidas pelo papa, cuja permissão escrita comprei por quatro ou seis pences, ou ganhei como prêmio por um jogo de tênis com o perdoador’. Pois estes mercadores de indulgências perambulam pelo país, e dão uma carta de perdão, às vezes por dois pences, às vezes por um gole de vinho ou cerveja, ou até pelo aluguel de uma prostituta, ou por amor carnal”.

Em 1392, o papa Bonifácio IX. Em 1420, o papa Martinho V. Em 1478, o papa Sisto IV. Foram eles os únicos papas que condenaram esses abusos da fé credulária, mas apenas aparentemente, pois estavam muito necessitados de rendas, expedindo bulas tantas vezes e para uma variedade de causas tão confusa, que os homens de cultura perderam a sua fé credulária na teoria, passando a acusar a Igreja de explorar vergonhosamente a credulidade e a esperança humanas. Em alguns casos, como nas indulgências oferecidas por Júlio II, em 1510, ou por Leão X, em 1513, a redação oficial se prestava unicamente à interpretação puramente monetária. Um frade franciscano de alta linhagem descreveu, com indignação, como se colocavam caixas em todas as igrejas da Alemanha para receber pagamentos daqueles que não tinham podido ir a Roma para o jubileu de 1450, podendo agora obter a mesma indulgência plenária por meio do dinheiro colocado na caixa, advertindo aos alemães, meio século antes de Lutero, que a suas economias estavam sendo canalizadas para Roma, por meio das indulgências.

Giovanni di Lorenzo de Medici, era o segundo filho de Lorenzo de Medici, o governante mais famoso da República de Florença, o seu primo Giulio di Giuliano de Medici viria a lhe suceder como o papa Clemente VII. Ele foi o último papa que não era sacercote, tendo recebido o nome de Leão X, o qual subiu ao trono papal em 1513, tendo permanecido como papa até 1521, o ano da sua morte. Ele é conhecido por ter sido o último papa a ter visto a Europa Ocidental totalmente católica, em razão da Reforma Protestante.

A venda de indulgências por parte de Leão X se tornou notória quando os Fugger se viram obrigados a retirar das coletas os 20.000 florins que tinham emprestado a Albrecht de Brandenburgo para pagar ao papa por sua confirmação como arcebispo de Maiença. Essa cidade perdera três arcebispos em dez anos, período de 1504 a 1514, e pagara duas vezes pesados emolumentos de confirmação. Para livrá-la de pagar uma terceira vez, Albrecht de Brandenburgo fez um empréstimo aos Fugger. Leão X concordou que o jovem prelado dirigisse a distribuição das indulgências em Magdeburgo e Halberstadt, assim como em Maiença. Um agente dos Fugger acompanhava cada um dos pregadores de Albrecht de Brandenburgo, verificava as despesas e receitas, e conservava uma das chaves do cofre forte que guardava as quantias.

O principal agente de Albrecht de Brandenburgo era Johann Tetzel, frade dominicano que conseguira habilidade e fama como coletor de dinheiro. Desde 1500, a sua ocupação principal tinha sido dispor das indulgências. Geralmente, nessas missões, recebia o auxílio do clero local. Quando entrava em uma cidade, uma procissão de padres, magistrados e laicos piedosos o recebia com bandeiras, velas e cantos, com ele carregando a bula de indulgências sobre uma almofada de veludo ou de tecido dourado, enquanto os sinos das igrejas badalavam e os órgãos tocavam as suas músicas. Johann Tetzel, em uma fórmula impressionante, fornecia uma indulgência plenária àqueles que confessassem penitentemente os seus pecados e contribuíssem de acordo com os seus meios para a construção da nova igreja de São Pedro. Em relação ao fornecimento de indulgências por parte de Johann Tetzel, um historiador católico afirma o seguinte:

Não há dúvida de que Tetzel, segundo o que ele considerava suas instruções autorizadas, declarou como doutrina cristã que não se exigia nada além de uma oferta em dinheiro para se obter a indulgência para os mortos, sem que houvesse qualquer necessidade de contrição ou confissão. Também ensinava, de acordo com a opinião então vigente, que uma indulgência podia ser aplicada a qualquer alma com efeito infalível. Partindo deste princípio não há dúvida de que sua doutrina era virtualmente aquela do drástico provérbio: ‘Logo que o dinheiro soa, a alma do fogo do purgatório voa’. A bula papal de indulgência não dava qualquer sanção a este propósito. Era uma vaga opinião escolástica, e não uma doutrina qualquer da Igreja”.

O pontificado de Leão X foi marcado por heresias e cismas, especialmente a rebelião desencadeada por Martinho Lutero, sob o a denominação de Reforma Protestante, justamente em função das indulgências e das depravações da Igreja Católica.

Em 1517, em resposta aos procedimentos das indulgências e da má conduta do clero católico, Lutero postou as suas 95 teses na porta da igreja em Wittenberg. Leão X não havia ainda compreendido totalmente a imensa importância do movimento, tendo ele no ano seguinte se dirigido ao vigário-geral dos agostinianos para controlar os seus monges. Em 30 de maio de 1518, Lutero enviou uma explicação das suas teses ao papa. Em 7 de agosto ele foi intimado a comparecer a Roma, tendo sido realizado um acordo, com a petição tendo sido cancelada. Em outubro do mesmo ano, Lutero foi para Augsburgo a fim de se explicar ao legado papal. Um ano de negociações infrutíferas se seguiram, em cujo período a controvérsia se espalhou por todos os Estados alemães. A bula papal Exsurge Domine, de 15 de junho de 1520, condenou 41 preposições extraídas dos ensinos de Luteros, tendo sido levada para a Alemana por Eck, na sua qualidade de núncio apostólico. Leão X excomungou a Lutero pela bula de 3 de janeiro de 1521, tendo este em contrapartida excomungado ao papa.

Quando se tornou papa, ele falou para o seu irmão Giuliano o seguinte: “Desde que Deus nos deu o papado, vamos desfrutá-lo”. Isto indica claramente que Leão X não prentendia exercer propriamente as funções do papa, assim como esperavam os fiéis, mas sim usufruir dos seus benefícios, que se resumem em poder e riqueza. Não somente em função do seu defrute do papado, vários historiadores têm sustentado a tese que Leão X seria homossexual, pois que citam as cartas de Francesco Guicciardini, que aludem a ativas relações homossexuais por parte de Leão X, alegando que o conde Ludovico Rangone e Galeotto Malatesta seriam os seus amantes. Há inclusive quem exagere a essas afirmativas de orgias sexuais, afirmando que ele morreu na cama, envolvido em um ato sexual com uma jovem. Há também alguns setores que chegaram a sustentar que o papa seria ateu, embora não existam provas que venha a indicar o seu ceticismo.

No entanto, tudo isso indica claramente a falta de moral do papa, pois são muitos os relatos acerca da sua homossexualidade. Cesare Falconi sustentou o fato que Leão X seria apaixonado pelo nobre veneziano Marcantonio Flaminio, mas Pastor nega a essa acusação.

 

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