16.07- Júlio II

Prolegômenos
10 de julho de 2018 Pamam

Giulliano della Rovere nasceu em Savona, em 5 de dezembro de 1443, e morreu em Roma, em 1513, tendo sido papa no período de 1503 a 1513. Júlio II tinha um temperamento violento que o caracterizou desde o berço, tendo sido o papa que durante toda uma década manteve a Itália em guerra e tumulto.

Júlio II era sobrinho de Sisto IV, tendo atingido o cardinalato aos vinte e sete anos, levando uma vida agitadíssima durante trinta e três anos, quando então foi promovido para a posição que lhe parecia evidentemente sua por direito, pois que o trono papal é próprio dos patifes. Não respeitou os seus votos de celibato mais que os seus colegas, tanto que o seu mestre de cerimônias relatou mais tarde, vejam só, que ele não permitia que lhe beijassem os pés, porque se achava deformado pela sífilis. Tinha três filhas ilegítimas, mas vivia demasiado ocupado em lutar contra Alexandre VI para que pudesse encontrar tempo para dispensar aquela “afeição” paterna que o outro demonstrava abertamente. Detestava Alexandre VI, a quem julgava um intruso, não o reconhecendo digno do papado, chamava-o de trapaceiro e usurpador e fez tudo o que pôde para destroná-lo, chegando até a convidar a França para que invadisse a Itália.

Enquanto Alexandre VI era jovial e galanteador, Júlio II tinha o temperamente irascível, severo, prepotente, inflamado, impaciente, belicoso, e somente se sentia satisfeito quando se encontrava em plena luta. Enquanto Alexandre VI travava a guerra por intermédio dos seus comandados, Júlio II a conduzia pessoalmente, pois o papa sexagenário se sentia mais à vontade em uniforme militar do que nas vestes papais, tornando-se um soldado apaixonado pelos campos de batalha, vibrando com os cercos das cidades e com o estrondar dos canhões, ao desfechar os seus ataques. E enquanto Alexandre VI pensava em contemporizar, Júlio II pensava em se movimentar de uma empresa para outra, sem sequer pensar em descansar das batalhas, pois quando adoecia uma vez ou outra em suas campanhas bélicas, confundia os inimigos ao se restabelecer e ao atacá-los novamente.

Era tão contraditório, que à semelhança de Alexandre VI, teve que comprar alguns cardeais a fim de facilitar a sua ascensão ao papado, o que era praxe no Vaticano, porém denunciou tal expediente em uma bula que expediu em 1505. Mas ao vender benefícios e promoções eclesiásticos, seguiu o mesmo caminho de Alexandre VI. A concessão de indulgências contribuiu para a construção da basílica de S. Pedro e também para antagonizar a Alemanha. Permitiu que os Orsini e os Colonna tornassem a ocupar os seus castelos e procurou manter a lealdade dessas poderosas famílias por meio de casamentos com os seus parentes.

Ao subir ao trono papal, encontrou em polvorosa os Estados papais e desfeita a metade da obra que havia sido empreendida por Alexandre VI e César Bórgia. Em 1503, Veneza havia se apoderado de Faiença, Ravena e Rímini. Os Baglioni eram novamente os governantes de Perúgia e os Bentivogli de Bolonha, a perda das rendas dessas cidades ameaçava a solvência da cúria romana. Júlio II sabia que a independência da baixa espiritualidade da Igreja Católica exigia a posse contínua dos Estados papais.

Tal como o erro cometido por Alexandre VI, Júlio II começou pedindo o auxílio da França, da Alemanha e da Espanha, na luta contra os seus inimigos italianos. A França concordou em enviar 8.000 homens em troca da nomeação de três cardeais, enquanto Nápoles, Mântua, Urbino, Ferrara e Florença se comprometeram a contribuir com pequenos destacamentos. Em agosto de 1506, Júlio II deixou Roma e partiu para a guerra à frente de 400 cavaleiros, os seus guardas suíços e 4 cardeais. Guidobaldo, tendo sido restaurado no título de duque de Urbino, achava-se no comando militar das tropas papais, porém o papa vaidoso cavalgou à frente delas, um espetáculo que não se via durante muitos séculos, o “ministro” de Jesus, o Cristo, na Terra, indo para a guerra à frente das suas tropas. Giampaolo Baglioni, constatando que não podia derrotar tal coalizão, chegou a Orvieto, rendeu-se ao papa e lhe pediu perdão, que assim falou:

Perdoo os vossos pecados mortais, mas no primeiro pecado venial que cometerdes far-vos-ei pagar por todos eles”.

Confiando em sua autoridade credulária papal, Júlio II entrou em Perúgia acompanhado apenas de uma pequena guarda, antes mesmo que os seus soldados pudessem atingir os portões da cidade. Giampaolo Baglioni poderia ter ordenado aos seus homens que o prendessem e fechassem os portões, porém não ousou fazê-lo. Maquiavel, que se encontrava na cidade nessa ocasião, assim como a maioria dos italianos, era contrário ao poder temporal do papado e aos papas que também eram reis, tendo afirmado o seguinte:

Giampaolo Baglioni perdera uma oportunidade de praticar uma ação que teria deixado uma lembrança eterna. Ele teria sido o primeiro a mostrar aos sacerdotes como é pouco estimado o homem que vive e governa da maneira que o faziam. Teria praticado uma ação cuja grandeza teria sobrepujado toda a sua infâmia e todo o perigo que dela pudesse resultar”.

Júlio II perdeu pouco tempo em Perúgia, pois o seu verdadeiro objetivo era Bolonha. Conduziu o seu exército pelas estradas acidentadas dos Apeninos até Cesena, e dali investiu do leste contra Bolonha, enquanto os fraceses atacavam do oeste. Nessa ocasião, o papa reforçou o ataque ao expedir uma bula de excomunhão contra os Bentivoglios e os seus partidários, ao mesmo tempo em que ofereceu a indulgência plenária a todo homem que matasse qualquer um deles. Assim, a bula papal foi também utilizada para o assassinato, tornando-se como que uma nova espécie de guerra. Acossado pelo exército inimigo e pela bula papal, Giovanni Bentivoglio fugiu. Em 11 de novembro de 1506, Júlio II entrou na cidade sendo aclamado pelo povo, e fazendo valer a sua tremenda vaidade, ordenou que Michelangelo construísse uma colossal estátua sua para o portal de San Petronio, tendo depois regressado para Roma, não sem antes atravessar as ruas da cidade em um carro triunfal, sendo saudado como se fosse um César.

Porém, Veneza ainda mantinha sob o seu domínio Faiença, Ravena e Rímini, não tendo ainda aquilatado propriamente o espírito belicoso do papa. Arriscando toda a Itália para a conquista da Romagna, Júlio II convidou a França, a Alemanha e a Espanha para que o auxiliassem a subjugar Veneza, a Rainha do Adriático. Enquanto os seus aliados atacavam Veneza com os seus exércitos, Júlio II lançou contra ela uma das mais violentas bulas de excomunhão e de interdito da história do papado, saindo vencedor na guerra. Veneza devolveu as cidades que havia arrancado da Igreja e aceitou as mais humilhantes condições de paz, tendo os seus emissários recebido a absolvição e o cancelamento do interdito, em uma cerimônia que foi bastante demorada, que lhe fez sofrer os joelhos, em 1510.

Mas Júlio II se arrependeu do convite que havia feito aos franceses, modificando toda a sua política para expulsá-los da Itália, pois ele havia se convencido de que a modificação daquela sua política estaria vindo de uma inspiração do seu deus, no que ele realmente estava correto, pois que essa sua politica era uma inspiração advinda de Jeová, o deus bíblico, e dos seus anjos negros, por isso quando o embaixador francês lhe anunciou uma vitória dos franceses sobre os venezianos e acrescentou que aquilo fôra uma vitória do deus bíblico, Júlio II retrucou iradamente que não fôra a vontade do deus bíblico, mas sim do diabo. Neste caso, ele estava também servindo placidamente ao diabo!

Depois o papa voltou os seus olhos belicosos para Ferrara, a qual era reconhecida como sendo um feudo papal. Contudo, em função das concessões que Alexandre VI havia feito por ocasião do contrato de casamento com Lucrécia, Ferrara pagava ao papado apenas um tributo simbólico. Além disso, o duque Alfonso, depois de participar da guerra contra Veneza por ordem do papa, recusara-se a fazer a paz quando este último lhe ordenou, permanecendo assim aliado da França. Em 1510, Júlio II começou a campanha contra Ferrara com outra bula de excomunhão, pela qual o genro de um papa passou a ser para outro papa um “filho da iniquidade” e a raiz da perdição.

Com o auxílio de Veneza, Júlio II conquistou Módena sem muitas dificuldades. Na ocasião em que as suas tropas ali descansavam, cometeu o erro de ir a Bolonha, quando então lhe chegou subitamente a notícia de que um exército francês, o qual tinha recebido instruções para auxiliar ao duque Alfonso, achava-se às portas da cidade. As forças papais se encontravam muito distantes para que pudessem vir em seu auxílio, enquanto que dentro da cidade de Bolonha havia apenas 900 soldados, não se podendo contar com a resistência do povo contra os franceses, uma vez que esse mesmo povo havia sido oprimido pelo legado papal, o cardeal Alidosi. Estando enfermo no leito e com febre, o papa ficou desesperado e pensou até em beber veneno, obsedado como era, estando prestes a assinar uma paz humilhante com a França, quando então chegaram os reforços da Espanha e de Veneza. Os franceses bateram em retirada, tendo Júlio II lançado sobre todos eles a excomunhão.

Enquanto isso, Ferrara havia se armado fortemente, quando então Júlio II considerou que as suas forças eram inadequadas para fazer a sua conquista. Mas em 1511, para que ninguém ousasse retirar de si a sua glória militar, conduziu pessoalmente as suas tropas para o cerco de Mirandola, um posto avançado ao norte do ducado de Ferrara. Embora já estivesse com sessenta e oito anos, marchava pelos caminhos cobertos de neve profunda; violou um precedente, fazendo uma campanha em pleno inverno; presidiu conselhos em que se traçavam planos estratégicos; dirigiu operações e o assentamento de canhões; inspecionou as suas tropas, levando uma vida de soldado; e não deixou que ninguém o excedesse em praguejamentos e zombarias. Quando o fogo inimigo matou um dos seus serviçais que se encontrava ao seu lado, ele se transferiu para outro local, ao ser este também atingido pela artilharia de Mirandola, voltou para a posição anterior. Após duas semanas de resistência, Mirandola por fim se rendeu. Em sua “bondade papal”, Júlio II ordenou que se matasse todo soldado francês que fosse encontrado na cidade, mas não foi encontrado nenhum. A seguir, passou a alimentar e a financiar o seu exército vendendo oito novos cargos de cardeais.

Procurou descansar um pouco em Bolonha, mas logo se viu sitiado nessa cidade pelos franceses, quando então fugiu para Rímini, tendo os franceses restaurado os Bentivogli no poder, que foram aclamados pelo povo, os quais resolveram demolir o castelo que Júlio II havia construído e também destruir a estátua que Michelangelo dele fizera, vendendo-a como bronze velho a Alfonso de Ferrara, tendo o severo duque a fundido e a transformado em canhão, ao qual batizou de La Giula, em honra do papa Alexandre VI, pois que Giula Farnese havia sido a sua amante. Júlio II expediu outra bula papal excomungando a todos os que haviam participado da derrubada do poder papal em Bolonha. A essa bula papal, os franceses responderam retornando para Mirandola.

Era tamanha a belicosidade de Júlio II, que ao chegar em Rímini, encontrou afixado na porta do templo de San Francesco um documento assinado por nove cardeais, no qual se convocava um concílio geral em pisa, em 1° de setembro de 1511, para que se pudesse examinar a conduta do papa. Júlio II voltou para Roma já com a saúde abalada, mas não se dava por derrotado. Com o intuito de aparar o golpe sofrido pelos cardeais descontentes, o papa publicou a convocação de um concílio geral no Palácio de Latrão, o qual deveria ser realizado em 19 de abril de 1512. Nesse ínterim, trabalhou dia e noite para formar uma nova aliança com a França.

Em 17 de agosto de 1511, estava próximo por coroar a esse seu intento de pleno êxito, quando então foi acometido de uma grave doença, estando por três dias às portas da morte. Em 21 de agosto, ficou tanto tempo inconsciente, que os cardeais prepararam um conclave para escolher o seu sucessor. Nessa mesma ocasião, Pompeo Colonna, bispo de Rieti, apelou ao povo de Roma para que se levantasse contra o governo do papado na cidade e restabelecesse a república de Rienzo.

Porém, Júlio II restabeleceu a consciência no dia 22, contrariando aos seus médicos, bebeu vinho à vontade, e contrariou a todos, pois para muitos foi um desapontamento o seu restabelecimento. O movimento republicano não seguiu adiante. Em 5 de outubro, Júlio II anunciou que havia formado a Liga Sagrada do papado, com Veneza e a Espanha. Em 17 de novembro, Henrique VIII a ela se uniu em nome da Inglaterra. Com a adesão desses reforços, o papa depôs das suas posições os cardeais que haviam assinado a convocação para o concílio de Pisa e proibiu a sua realização, mas o senhor de Florença, atendendo a uma ordem do rei da França, deu a sua permissão para que o concílio se realizasse em Pisa. Júlio II então declarou guerra a Florença e planejou restaurar os Médici no poder.

Um grupo de 27 eclesiásticos, juntamente com representantes do rei da França e de algumas universidades francesas, reuniu-se em Pisa, no dia 28 de novembro de 1511, mas os habitantes da cidade se mostraram tão ameaçadores e Florença tão relutante, que os elementos que se propunham a realizar o concílio se retiraram para Milão, em 12 de novembro. Ali, sob a proteção da guarnição francesa, eles puderam suportar com segurança o clamor do povo. Note-se que por toda a história da humanidade, o povo sempre foi um instrumento do astral inferior, não passando de um joguete nas mãos dos espíritos obsessores.

Tendo ganho a essa batalha dos bispos, Júlio II se voltou para aquilo que mais gostava de fazer na vida: a guerra. Então comprou a aliança com os suíços, os quais enviaram um exército para atacar aos franceses em Milão, tendo o ataque fracassado e o exército suíço voltado para as suas terras. Em 11 de abril de 1512, em um domingo de páscoa, estando comandados por Gaston de Foix e auxiliados pela artilharia do duque Alfonso, os franceses venceram o exército da Liga Sagrada do papado, em Ravena, com toda a Romagna passando praticamente para o domínio da França. Os cardeais de Júlio II instaram para que ele fizesse a paz, mas belicoso como era o papa se recusou a atendê-los.

O concílio de Milão celebrou a vitória proclamando a deposição do papa, mas Júlio II não deu a mínima atenção à deposição. No dia 2 de maio, foi levado em sua liteira para o Palácio de Latrão, onde deu início aos trabalhos do V Concílio de Latrão. Deixou-o seguir a sua marcha vagarosa e se apressou para voltar àquilo de que mais gostava: a guerra.

Em 17 de maio de 1512, anunciou que a Alemanha se havia unido à Liga Sagrada papal contra a França. Os suíços foram comprados mais uma vez, entraram na Itália através do Tirol e avançaram, indo encontrar um exército francês desorganizado pela vitória e pela morte do seu comandante. Estando sobrepujados em número, os franceses abandonaram Ravena, Bolonha e até mesmo Milão, tendo os cardeais dissidentes se refugiado na França. Os Bentivogli tornaram a fugir e Júlio II se viu senhor da Bolonha e da Romagna, aproveitando a oportunidade para se apoderar também de Ferrara e de Piacenza, podendo agora nutrir as esperanças de conquistar Ferrara, pois que ela não mais podia confiar no auxílio da França.

O duque Alfonso se ofereceu para ir a Roma pedir absolvição e as condições de paz, caso Júlio II lhe desse o salvo-conduto, o qual foi concedido pelo papa. O duque Alfonso foi a Roma e recebeu a absolvição. No entanto, ao se recusar a trocar Ferrara pela pequena Asti, Júlio II declarou nulo o salvo-conduto e o ameaçou de encarceramento. Fabrizio Colonna, que havia levado o salvo-conduto ao duque, considerou que a sua própria honra estava em jogo, então auxiliou o duque Alfonso a fugir de Roma, que após chegar em Ferrara recomeçou a armar os seus fortins e as suas muralhas.

Finalmente o espírito belicoso e demoníaco se exauriu. No final de janeiro de 1513, recolheu-se ao leito acometido de uma complicação de doenças. Alguns diziam que o seu mal era decorrente da sífilis, enquanto outros diziam que tudo aquilo era proveniente da sua imoderação no tocante a alimentação e bebidas. Tendo malogrado qualquer tratamento médico, reconciliou-se com a morte, dando instruções para os seus funerais, aconselhando aos participantes do Concílio de Latrão a que prosseguissem em seus trabalhos sem interrupção, confessou-se grande pecador, pois que sabia dos seus crimes, despediu-se dos cardeais e morreu em 20 de fevereiro de 1513.

Não chegou a governar os Estados de maneira satisfatória, pois que toda a sua belicosidade era voltada apenas para a guerra, por isso não poderia ser jamais um bom administrador, porém as suas conquistas foram duradouras. Os Estados papais permaneceram dali por diante leais à Igreja, pelo menos até a revolução de 1870, quando então finalmente foi extinto o poder temporal dos papas.

Toda a população da Itália falava da sua “afeição” exagerada por Federigo, filho de Isabela d’Este, dizendo que ambos eram amantes. Além disso, alguns contemporâneos relatam acusação de sodomia, pois segundo o Concílio de Pisa, em 1511, ele era um sodomita “coberto de úlceras vergonhosas”.

 

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