16.06- Alexandre VI

Prolegômenos
9 de julho de 2018 Pamam

É certo que o papa Alexandre VI foi considerado O Príncipe dos Devassos, pelo luxo e a suntuosidade em que vivia, principalmente pela sua depravação e pela sua degeneração, que se estendia por toda a corte papal, inclusive pelos seus filhos e a sua filha. Mas todas essas depravações e degenerações nunca foram exclusivas desse e de outros papas, mas sim de praticamente todos os sacerdotes católicos, pelo que aqui eu devo incluir os demais sacerdotes, inclusive as freiras. Assim, antes de eu adentrar propriamente na vida do papa Alexandre VI, vejamos, pois, um pouco das patifarias católicas que eram praticadas em períodos anteriores à sua elevação ao trono papal, em que essas patifarias perduram até aos tempos atuais.

Por volta de 1300, a Europa contava com um número de freiras igual ao número de monges. Na Alemanha, os conventos tendiam para um intenso misticismo. Na França e na Inglaterra muitos conventos eram refúgios de damas nobres que se haviam “convertido”, abandonando o mundo porque haviam ficado desiludidas com ele. A regra dos ancoritas revela a conduta que se esperava das freiras da Inglaterra, no século XIII, ao que tudo indica ela foi escrita pelo bispo Poore para um convento em Tarrant, em Dorsetshire, trazendo muita dissertação sobre os pecados, o inferno e alguns abusos da organização feminina, tornando-se fácil colher daqueles dez séculos alguns casos interessantes da imoralidade que havia nos conventos.

Certo número de mulheres tinha entrado para o convento contra a sua vontade, tornando-se assim mais difícil levarem uma vida casta e regrada. O arcebispo Teodoro de Cantuária e o bispo Egberto de York julgaram necessário proibir que os abades, sacerdotes e bispos seduzissem as freiras. O bispo Ivo de Chartres relatou que as freiras do convento de S. Fara exerciam a prostituição. Abelardo descreveu um quadro semelhante a respeito dos conventos franceses do seu tempo. O papa Inocêncio III declarou que o convento de Santa Ágata era um bordel que infeccionava com a sua devassidão toda a região que lhe era circunvizinha. O bispo Rigaud de Ruão fez um relatório mais favorável sobre os grupos credulários de sua diocese, porém mencionou um convento no qual de 33 freiras e 3 irmãs leigas, oito eram culpadas de fornicação, mencionando também que a prioresa se embriagava todas as noites.

Em 1300, Bonifácio VIII procurou melhorar a disciplina nos conventos, decretando o seu completo afastamento do mundo, mas o decreto não pôde ser posto em execução, pois quando um bispo apareceu em um convento da diocese de Lincoln para ali entregar essa bula papal, as freiras a atiraram em sua cabeça e afirmaram que jamais cumpririam tal ordem.

Inocêncio VIII, que antecedera a Alexandre VI, teve o seu papado marcado pela secularização, a sua absorção pela política, guerra e finanças, enchendo o colégio de cardeais e elementos que eram conhecidos pelo seu tino administrativo, influência política e capacidade de pagar o preço das suas posições. Não obstante a sua promessa de manter apenas vinte e quatro cardeais, Inocêncio VIII nomeou mais oito em seu jogo político e financeiro, como, por exemplo, conferiu o cardinalato a Giovanni de Médici, que contava com apenas 13 anos de idade, como parte de um negócio que fizera com Lourenço de Médici. Muitos deles eram francamente seculares, pois os seus deveres políticos, diplomáticos e fiscais exigiam que fossem homens do mundo. Alguns deles passaram a imitar os nobres de Roma, fortificando os seus palácios e assalariando homens armados para protegê-los contra os nobres, a população de Roma e também contra os demais cardeais. O historiador Pastor, que era católico, não se sabe por qual razão, realizou comentários sobre esses cardeais seculares, da seguinte maneira:

A baixa apreciação que Lourenço de Médici fez sobre o Colégio de Cardeais, ao tempo de Inocêncio VIII, infelizmente, tinha muito fundamento… dos cardeais mundanos, os que mais se destacaram foram Ascanio Sforza, Riario, Orsini, Sclafenato, Jean de la Balue, Giuliano della Rovere, Savelli e Roderigo Bórgia. Todos estes estavam profundamente infecionados com a corrupção que, na Itália, prevalecia entre as classes altas da era da Renascença. Cercados, em seus esplêndidos palácios, do mais requintado luxo de uma civilização altamente desenvolvida, tais cardeais levavam a vida de príncipes seculares e pareciam considerar as suas vestes sacerdotais meros adornos de sua posição. Caçavam, jogavam, davam suntuosos banquetes e reuniões, participavam de folguedos carnavalescos e se permitiam a maior liberdade em matéria moral. Foi esse, em especial, o caso de Roderigo Bórgia”.

A desordem nas altas camadas refletia o caos moral que avassalava Roma em função do papado. A violência, o roubo, o rapto, o suborno, a conspiração e a vingança eram a ordem do dia. Todas as manhãs se viam estendidos nas vielas homens que haviam sido assassinados durante a noite. Peregrinos e embaixadores eram assaltados e, às vezes, despojados das suas próprias vestes, ao se aproximarem da capital do falso cristianismo. As mulheres eram atacadas nas ruas e até em suas casas.

Estando Inocêncio VIII moribundo, os cardeais Roderigo Bórgia e Giuliano dela Rovere quase chegaram às vias de fato à beira do leito de morte do papa, que legou 48.000 ducados aos parentes e cerrou para sempre os olhos, tendo sido sepultado no templo de São Pedro, com Antônio Pollaiuolo tentando apagar os seus pecados com um suntuoso túmulo. E assim subiu ao trono papal Alexandre VI, talvez o papa mais devasso de toda a história, entre os muitos que foram devassos em toda a história papal.

Roderigo Borja nasceu na Espanha, em 1° de janeiro de 1431. Quando o seu tio se tornou cardeal e depois papa, recebendo o nome de Calisto III, abriu-se facilmente o caminho para as promoções do jovem na carreira eclesiástica. Mudando-se para a Itália, o jovem deu nova forma ao nome, passando a se chamar Bórgia. Foi nomeado cardeal aos vinte e cinco anos de idade e, aos vinte e seis, recebeu o vantajoso cargo de vice-chanceler, chefe de toda a cúria. Ainda não era sacerdote, mas iria sê-lo aos trinta e sete anos.

Roderigo Bórgia era considerado um homem bonito em sua mocidade, atraente na graça de suas maneiras, dotado de ardor sensual e espírito jocoso, tanto que as mulheres vulgares dificilmente podiam resistir aos seus encantos. Tendo se adaptado à moralidade fácil da corte papal, pois sabia que muitos clérigos e sacerdotes se entregavam a prazeres com mulheres, o jovem devasso de vestes purpúreas resolveu desfrutar de todos os dotes que tanto ele como as mulheres possuíam. Em 1460, Pio II o censurou por ter ido a “uma dança indecorosa e cheia de seduções”, mas acabou aceitando as suas desculpas e continuou a mantê-lo como vice-chanceler e auxiliar de confiança. Em 1464, ele acompanhou Pio II a Ancona, onde contraiu uma doença venérea “porque não havia dormido só”, explicou o médico. E em um consistório realizado em junho de 1486, o cardeal Bórgia censurou o cardeal Balue por se encontrar embriagado, ao que este respondeu chamando o futuro Alexandre VI de filho de uma meretriz.

Em 1460, nasceu Pedro Luiz, o primeiro filho de Roderigo Bórgia, ao que tudo indica também a sua filha Girolama, que se casou em 1482, mas não se sabe quem eram as mães. Pedro Luiz viveu na Espanha até 1488, chegou a Roma no mesmo ano e morreu logo depois.

Por volta de 1466, manteve uma ligação mais duradoura com Vanozza de Catanei, que contava com vinte e quatro anos de idade. Mas ela era casada com Domenico d’Arignano, que somente a abandonou em 1476. Em 1468, Roderigo Bórgia se fez sacerdote, quando então teve quatro filhos com Vanozza de Catanei: em 1474, Giovanni; em 1476, César; em 1480, Lucrécia; e, em 1481, Giofre. Esses quatro filhos foram atribuídos a Vanozza de Catanei na lápide do túmulo que guarda os depojos dela e reconhecidos, em certas ocasiões, por Roderigo Bórgia como sendo realmente seus filhos.

Ao lançar os seus olhos para o papado, Roderigo Bórgia tratou de arranjar um marido para Vanozza de Cantanei, dando a ela os meios necessários para levar uma vida próspera, tendo enviuvado duas vezes. Casou-se pela terceira vez e se recolheu a uma vida simples, alegrando-se por ver os filhos conquistarem fama e riqueza, depois que eles se separaram dela. Em 1518, após conquistar certo renome pelo seu espírito credulário, morreu aos setenta e seis anos, legando todas as suas propriedades substanciais para a Igreja. Leão X mandou que o seu camareiro acompanhasse os funerais.

O próprio Pio XII, antes de produzir alguns filhos das suas relações na mocidade, que antecedeu a sua carreira sacerdotal, havia certa vez advogado o casamento dos sacerdotes. Sisto IV tinha tido também vários filhos e Inocêncio III levou o seu para o Vaticano. Por isso, a opinião pública se encontrava mais complacente com as digressões sexuais do clero celibatário.

Em cinco administrações, Roderigo Bórgia havia se tornado o mais rico de todos os cardeais. No conclave de 6 de agosto de 1492, todos os cardeais estavam interessados em sua riqueza, com a exceção de d’Estouteville, esperando em receber presentes substanciais para que votassem nele, não tendo sido desapontados. Ao cardeal Sforza prometeu o cargo de vice-chanceler, vários benefícios profícuos e o palácio dos Bórgia em Roma; ao cardeal Orsini a diocese e as rendas eclesiásticas de Cartagena, as cidades de Monticelli, Soriano e o governo das Marcas; ao cardeal Savelli, Civita Castellana e o bispado de Maiorca; e outros mais. Infessura descreveu o caso como sendo a “distribuição evangélica dos bens dos Bórgia aos pobres”. Mas isso era um procedimento usual no papado, pois todos os candidatos o haviam adotado em muitos conclaves. Perguntaram-lhe qual o nome que desejava adotar como papa, tendo ele respondido: “O nome do invencível Alexandre”. Começa aqui o papado de Alexandre VI.

No primeiro mês do seu papado, conta-se que ocorreram duzentos e vinte crimes em Roma. O novo papa fez do primeiro assassino capturado um exemplo, mandando enforcar o culpado, juntamente com o irmão, e destruir a sua casa. A cidade aprovou a essa severa punição, restabelecendo-se a ordem em Roma.

O alemão Johann Burchard foi o seu magister ceremoniarum, o qual ajudou a perpetuar a fama e as infâmias do seu empregador, registrando no seu Diário tudo o que via, inclusive muitos fatos que Alexandre VI desejava que não fossem vistos.

Aos cardeais o papa deu o que havia prometido no conclave, mostrando-se ainda mais generoso para com os que foram por mais tempo os seus oponentes, como, por exemplo, o cardeal de Médici, e outros, sendo que dois eram escandalosamente jovens, Ippolito d’Este, que contava com apenas quinze anos de idade, e César Bórgia, seu filho, com apenas dezoito anos de idade. Ao irmão da sua amante Giula Farnese, Alessandro Farnese, o papa lhe fez cardeal. As línguas ferinas de Roma, não conseguindo prever que no futuro iram chamar Alessandro Farnese de papa Paulo III, chamavam-no il cardinale della gonnella, quer dizer, o cardeal das saias.

Giuliano della Rovere, que era o mais forte dos velhos cardeais, e que tinha sempre exercido certo domínio sobre Inocêncio VIII, ficou bastante aborrecido ao perceber que tinha pouca influência sobre Alexandre VI, que nomeara o cardeal Sforza para ser o seu conselheiro favorito. Em um acesso de cólera, retirou-se para o seu episcopado em Óstia, onde formou uma guarda de homens armados. Um ano depois, fugiu para a França e implorou a Carlos VIII que invadisse a Itália, convocasse um concílio geral que depusesse Alexandre VI, a quem chamava de papa simoníaco desavergonhado.

Algumas cidades haviam sido conquistadas pelas potências vizinhas, como, por exemplo, Nápoles, havia se apoderado de Sora e Aquila, em 1467, e Milão de Forli, em 1488. A primeira tarefa de Alexandre VI, pois, consistiu em trazer três Estados para o domínio do papado, centralizando-os, da mesma maneira que o fizeram os reis da Espanha, da França e da Inglaterra com as terras dos senhores feudais. Foi essa a missão que confiou ao seu filho, César Bórgia, o qual desempenhou com tal presteza e crueldade, que deixou o próprio Maquiavel assombrado.

Mais próxima de Roma e constituindo um problema ainda mais premente era a turbulenta autonomia dos nobres, os quais eram teoricamente subordinados ao papado, mas, na verdade, eram-lhe hostis e, portanto, perigosos. A fraqueza temporal do papado desde Bonifácio III, permitira que esses barões mantivessem uma soberania feudal medieval sobre os seus Estados, fazendo as suas próprias leis, organizando os seus próprios exércitos e se empenhando livremente em guerras cruentas, prejudicando assim a ordem e o comércio do Lácio.

Logo depois da subida de Alexandre VI ao trono papal, Franceschetto Cibo vendeu a Virginio Orsini, por 40.000 ducados, propriedades que lhe haviam sido legadas por seu pai, o papa Inocêncio VIII. Virginio Orsini era um alto oficial do exército de Nápoles, tendo recebido de Ferrante a maior parte do dinheiro para essa compra, pois assim Nápoles havia conseguido duas fortalezas estratégicas em território papal.

Alexandre VI reagiu formando uma aliança com Veneza, Milão, Ferrara e Siena, levantando um exército e fortificando a muralha entre o Vaticano e Sant’Angelo. Fernando II, da Espanha, temendo que um ataque combinado contra Nápoles desse fim ao poder dos Aragão na Itália, persuadiu ao papa e Ferrante a entrarem em negociações. Virginio Orsini pagou ao papa 40.000 ducados pelo direito de reter consigo a compra que fizera, e Alexandre VI prometeu em casamento o seu filho Giofre, nesse tempo com apenas treze anos de idade, a Sancia, a bela neta do rei de Nápoles, em 1494.

Foi assim que foi assinado o Tratado das Tordesilhas, assinado na povoação castelhana de Tordesilhas, em 7 de junho de 1494, pois em retribuição à feliz mediação de Fernando II, Alexandre VI lhe concedeu as duas Américas, uma vez que Cristóvão Colombo tinha descoberto o caminho para as Índias uns dois meses após a sucessão do papa e as havia presenteado a Fernando e Isabel. Portugal reivindicou o Novo Mundo por força de um edital de Calisto III, em 1479, o qual havia confirmado os seus direitos sobre todas as terras da costa do Atlântico. A Espanha replicou que o edital tinha em vista apenas o Atlântico oriental. Os Estados estavam prestes a entrar em guerra, quando Alexandre VI expeliu duas bulas, em 3 e 4 de maio de 1493, dando à Espanha todas as terras descobertas ao oeste e a Portugal todas as terras ao leste de uma linha imaginária traçada de um polo a outro, a cem léguas espanholas ao oeste das ilhas dos Açores e Cabo Verde, em cada caso, porém, com a condição de que as terras descobertas já não estivessem habitadas por “cristãos” e os conquistadores envidassem todos os esforços para converter os seus novos súditos ao falso cristianismo. Essa concessão papal, naturalmente, apenas confirmou a conquista da espada, porém preservou a paz entre as duas potências peninsulares, não ocorrendo a ninguém o fato de que os nativos não “cristãos” tivessem quaisquer direitos às terras nas quais já moravam. Na obra relativa à Finalidade, contida no site pamam.com.br, esse Tratado das Tordesilhas deverá ser explicado em sua verdadeira realidade.

Roma reprovava Alexandre VI pelos seus casos amorosos e mais vigorosamente por favorecer em demasia aos seus filhos, e ainda por ter ele nomeado para exercer cargos em Roma a uma legião de espanhóis, cujas feições e linguajar alienígenas irritavam aos italianos. Afluía para Roma uma centena de parentes do papa, tanto que um observador chegou a comentar que “dez papados não teriam bastado para todos aqueles primos”, tendo ele elevado dezenove espanhóis ao cardinalato, vivendo cercado de serviçais e auxiliares catalães, pelo que os italianos passaram a chamá-lo de “papa marrano”, dando assim a entender que ele era um descendente de judeu espanhol “cristianizado”.

Alexandre VI esperava que o seu filho Giovanni pudesse auxiliá-lo a proteger os Estados papais, mas Giovanni não queria saber de nada disso, pois havia herdado do pai a sensibilidade para com as mulheres, não tendo herdado a sua capacidade para governar os homens. Então o papa percebeu que dos filhos, somente César havia herdado a sua capacidade para fazer o jogo da política italiana naquela era tão violenta. Até mesmo a sua filha Lucrécia não passou de um instrumento da sua política, ao se ver promovida a governadora de uma cidade e ao leito de um potentoso duque.

A afeição que Alexandre VI tinha por Lucrécia ultrapassava escandalosamente as demonstrações de carinho que um pai pode dedicar à filha, tanto que o povo o acusava de incesto, e de que ela também mantinha relação com os irmãos, pois que o povo citava o próprio papa como sendo concorrente dos filhos ao amor da jovem. Outros papas, a fim de ocultarem as suas infâmias, costumavam chamar de sobrinhos aos seus próprios filhos, mas Alexandre VI sentia satisfação em deixar que todo o mundo soubesse que eles eram realmente seus filhos.

Além da relação incestuosa com a sua própria filha, a sua ligação amorosa com Vanozza e várias outras mulheres, o seu caso amoroso com Giula Farnese se tornou mais famoso pela extrema beleza da sua amante, sobretudo pelos seus cabelos dourados, que quando ela os soltava, deixando-os caídos até aos pés, era um espetáculo que poderia agitar até o sangue dos homens menos ardentes que Alexandre VI, tanto que os seus amigos a chamavam de La Bella. Tendo várias amantes, Sanudo a citava como sendo “a favorita do papa, uma jovem de grande beleza e compreensão, graciosa e delicada”.

Em 1492, Giula Farnese deu à luz uma filha que se chamou de Laura, tendo sido ela declarada oficalmente descender de Orsini, mas o cardeal Alessandro Farnese a reconheceu como sendo filha de Alexandre VI. Em 1493, Infessura conta haver Giula Farnese assistido ao banquete nupcial de Lucrécia no Vaticano, chamando-a de concubina de Alexandre VI. Matarazzo, o historiador de Perúgia, empregou também esse mesmo termo. Em 1894, um espírito jocoso de Florença a chamou de sposa di Cristo. O papa teve com outra mulher um filho tido como “misterioso”, nascido por volta de 1498, tendo sido conhecido no diário de Burchard sob o nome de Infans Romanus.

Em fevereiro de 1503, ao patrocinar um festival público no Vaticano, durante o qual se apresentou uma comédia, Alexandre VI não conteve o prazer de que se achava possuído, deleitando-se com a presença de belas mulheres ao seu redor, todas elas sentadas graciosamente em banquinhos aos seus pés, pois ele considerava que todos deviam desfrutar dos prazeres e das atribulações das companhias femininas, tanto que, sequioso por gozar a vida, dava boas gargalhadas ao ver da sua janela um desfile de mascarados com compridos narizes falsos na forma do órgão sexual do homem.

Precisando de recursos financeiros para o seu governo e as guerras, vendeu empregos, apoderou-se das propriedades dos cardeais mortos e explorou ao máximo o jubileu de 1500. Dispensas e divórcios eram concedidos como parte lucrativa das suas barganhas políticas, como, por exemplo, quando o rei Ladislau VII, da Hungria, pagou 30.000 ducados pela anulação do seu casamento com Beatriz de Nápoles. Quando o jubileu ameaçou redundar em um fracasso financeiro, em função dos supostos peregrinos haverem ficado em suas terras, pois que estavam receosos dos assaltos, da peste e da guerra, o papa tratou de seguir o precedente utilizado pelos pontífices anteriores, expedindo uma bula em 4 de março de 1500, detalhando os pagamentos pelos quais os “cristãos” podiam conseguir a indulgência do jubileu sem que fosse preciso irem a Roma, o custo pelo qual os penitentes podiam receber a absolvição nos casamentos consanguíneos e quanto devia um clérigo pagar para que lhe fossem perdoadas as simonias e outras irregularidades.

Em 28 de setembro de 1500, para maiores celebrações por ocasião do jubileu, Alexandre VI nomeou doze novos cardeais, os quais pagaram um total de 120.000 ducados pelas suas nomeações. Em 1503, nomeou mais nove cardeais a um preço exorbitante. No mesmo ano, criou oitenta novos cargos na cúria, os quais, segundo o embaixador veneziano Giustiniani, foram vendidos a 760 ducados cada um. Um satirista lançou na estátua de Pasquino os seguinte dizeres para lá de mordazes:

Alexandre VI vende as chaves, os altares e Cristo; tem direito de fazê-lo, pois também pagou por todos eles”.

Havia também os casos de envenenamento praticados por Alexandre VI e pelo seu filho César Bórgia, cujas vítimas eram altos eclesiásticos que levavam muito tempo para morrer. Como parte da sua luta contra os nobres de Campagna, o papa expediu uma bula, em 1501, expondo os crimes e os vícios dos Savelli e dos Colonna. Mas Mancione, em sua famosa Carta a Sílvio Savelli, sobrepujou em muito a todos os exageros contidos na bula papal, revelando os crimes e os vícios de Alexandre VI e César Bórgia, em todos os seus pormenores. Esse documento teve a mais ampla repercussão, contribuindo em muito para se criar a fama de que esse papa foi um monstro em matéria de corrupção, crueldade e orgias.

Alexandre VI amava muito ao seu filho Giovanni, tanto que ao morrer Pedro Luiz, o papa logo providenciou para que ele recebesse o ducado de Gandia, na Espanha, sendo esse seu filho tão ou mais mulherengo que o próprio pai. Em 14 de junho de 1496, Giovanni ceou como o seu irmão César e outros convidados na casa da sua mãe Vanozza. Na volta, Giovanni se separou dele e dos demais, dizendo que desejava visitar uma senhora de suas relações. Após esse encontro não mais foi visto. Ao darem pelo seu desaparecimento, perturbado pela ansiedade, o papa mandou que dessem buscas em toda parte. Um barqueiro confessou que tinha visto atirarem um corpo no rio Tibre, na mesmo noite do dia 14, não dando parte do caso porque já tinha visto centenas de casos iguais a esse, e aprendido a não se imiscuir em tais situações. Fizeram-se buscas no rio e encontraram o corpo do jovem apunhalado em nove lugares. Da rua se podia ouvir os gritos lamentosos do papa. O corpo havia sido retirado nas imediações do castelo de Antonio Pico della Mirandola, cuja bela filha, ao que se dizia, havia sido seduzida pelo duque filho do papa, por isso muitos atribuíram a sua morte a sicários que haviam sido contratados por aquele conde. Mas outros, inclusive os embaixadores de Florença e Milão, em Roma, atribuíram o crime a algum membro da família Orsini, naquele tempo em luta contra o papa. Mas o povo dizia que Giovanni tinha cortejado a sua irmã Lucrécia, tendo sido, por isso, assassinado pelos assalariados do marido, Giovanni Sforza.

Nessa época, ninguém ainda acusava César Bórgia de manter relações sexuais com a sua irmã e de haver sido o autor do assassinato. A primeira menção que se conhece de ter sido César o provável assassino do irmão aparece em uma carta de Pigna, embaixador de Ferrara, datada de 22 de fevereiro de 1498, oito meses depois do crime. Somente depois que César mostrou todo o seu caráter e toda a sua crueldade, é que a opinião pública começou a ligar o seu nome ao assassinato do irmão, foi então que Maquiavel e Guicciardini concordaram em lançar sobre ele a autoria do crime. Mas não se sabe ao certo.

Após se recuperar do tremendo golpe da perda do filho, Alexandre VI recebeu as suas condolências dos cardeais em um consistório realizado em 10 de junho de 1497, e disse aos cardeais que “amara o duque de Gandia mais que a qualquer outra criatura no mundo”, ao mesmo tempo em que atribuia aquele golpe, dizendo o seguinte:

Foi o mais pesado que havia caído sobre mim como castigo, a Deus como castigo dos meus pecados. De nossa parte estamos resolvidos a emendar o nosso modo de vida e a reformar a Igreja. Daqui por diante os benefícios só serão concedidos às pessoas que os merecerem e de acordo com os votos dos cardeais. Renunciamos a todo o nepotismo. Faremos a reforma, começando por nós mesmos, aplicando-a depois a todos os cargos da Igreja, até que todo o trabalho fique terminado”.

Alexandre VI agia como qualquer governante, considerando que os casamentos dos filhos haviam de melhorar os interesses do Estado, pelo que Lucrécia concordava com isso. Nessa ocasião, Nápoles era hostil ao papado, e Milão a Nápoles. Assim, o primeiro casamento de Lucrécia, em 1493, com apenas treze anos de idade, ligou-a a Giovanni Sforza, que tinha vinte e seis anos de idade, e que era o senhor de Pesaro e sobrinho de Lodovico, regente de Milão. Alexandre VI se conduziu “paternalmente” ao providenciar um belo lar para o casal no palácio do cardeal Zeno, logicamente que nas proximidades do Vaticano.

Como Giovanni Sforza tinha que viver em Pesaro uma boa parte do seu tempo, levou consigo a sua jovem esposa. Mas ela definhou naquelas paragens distantes, longe do seu “afetuoso” pai e da vida agitada e esplendorosa de Roma. Passados uns meses voltou para a capital, tendo Giovanni Sforza vindo se juntar a ela mais tarde. Mas passada a páscoa de 1497, passou a residir em Pesaro, e Lucrécia em Roma. Em 14 de junho, Alexandre VI lhe pediu que consentisse na anulação do casamento, alegando que ele era impotente, pois que este era o único motivo reconhecido pelas leis canônicas para se anular a um casamento válido. Para despistar os fomentadores de escândalos, Lucrécia se recolheu a um convento. Foi nessa ocasião que o seu irmãos Giovanni, duque de Gandia, foi assassinado, quando então o povo passou a comentar que ele havia sido morto por agentes de Giovanni Sforza, por tentar seduzir a Lucrécia. Mas o esposo negou que fosse impotente e acusou Alexandre VI de praticar o incesto com a sua filha. O papa, então, nomeou uma comissão chefiada por dois cardeais para investigar se o casamento havia sido realmente consumado. Lucrécia declarou, sob juramento, que o casamento não havia sido consumado, quando então os cardeais asseguraram ao papa que ela ainda era virgem. Lodovico propôs a Giovanni Sforza que demonstrasse a sua potência perante uma comissão, em Milão, da qual participasse o legado papal, mas ele rejeitou a proposta, com justa razão, mas acabou assinando uma confissão formal de que o casamento não tinha sido consumado, devolvendo a Lucrécia o dote de 31.000 ducados que havia recebido, tendo o casamento sido anulado em 20 de dezembro de 1497. O fato é que a terceira esposa de Giovanni Sforza deu à luz uma criança em 1505. Presume-se que ele era o pai da criança.

Procurando uma aproximação com o reino de Nápoles, que era um ferrenho inimigo do papado, Alexandre VI propôs ao rei Federico o casamento de Lucrécia, então com dezoito anos de idade, com Dom Afonso, duque de Bisceglie, então com dezessete anos de idade, que era o filho bastardo de Afonso II, herdeiro do rei Federico. O rei concordou, assinando-se o contrato de núpcias em junho de 1498. Em agosto, o enlace foi celebrado no Vaticano.

Mas Alexandre VI fez uma aliança com Luiz XII, da França, que era inimigo declarado de Nápoles. O jovem duque de Bisceglie se sentiu em situação embaraçada com uma Roma repleta de agentes franceses, então fugiu inesperadamente para Nápoles. Em agosto de 1499, Alexandre VI nomeou a filha regente de Spoleto, tendo Dom Afonso ido se juntar à esposa ali. Mas o papa foi visitar a filha em Nepi e trouxe o casal de volta para Roma, quando então Lucrécia teve um filho que recebeu o nome do seu pai: Roderigo.

No entanto, era mútua a antipatia entre César e Dom Afonso. Na noite de 15 de julho de 1500, alguns espadachins atacaram Dom Afonso ao sair da igreja de São Pedro. O jovem recebeu vários ferimentos mas conseguiu se recuperar. Um certo dia, Dom Afonso viu César caminhando em um jardim próximo da sua casa, pegou um arco e uma flexa e atirou para matar o cunhado, suspeito de manter relações com a própria irmã. César, então, chamou os seus guardas, que se dirigiram ao quarto de Dom Afonso e apertaram o seu rosto com um travesseiro até à morte, sob as vistas de Lucrécia. Alexandre VI aceitou a narrativa de César, mandou que se fizessem os funerais sem cerimônias e fez o que pôde para “consolar” a desventurada filha.

Lucrécia, então, passou a morar em Nepi. Em 1° de outubro de 1500, somente dois meses e meio após a morte de Dom Afonso, por mais estranho que possa parecer, César foi visitá-la em Nepi, hospedando-se em sua casa. Até o fim da sua vida, as muitas provas de “afeição” pelo irmão, assim como também as muitas provas de “afeição” pelo pai, continuaram a acusá-los de incesto, tendo um escriba a chamado concisamente de “filha, esposa e nora” do papa, cuja fama perdura até os dias de hoje.

Em 18 de agosto de 1503 o papa Alexandre VI morreu. Logo depois o corpo pretejou e começou a exalar um cheiro fétido. Os carpinteiros e carregadores, diz Burchard, “pilheriando e blasfemando”, tiveram dificuldade em fazer com que o seu corpo inchado entrasse no caixão que lhe prepararam. Correu o boato de que, na hora da morte do papa, havia sido visto um pequeno demônio carregando a alma de Alexandre VI para o inferno, mas o que ocorreu, de fato, foi que algum médium vidente viu espíritos obsessores na companhia da alma do papa, que com toda certeza ficou decaído no astral inferior.

 

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