16.01- Estêvão VI

Prolegômenos
9 de julho de 2018 Pamam

Por volta dos séculos IX e X, os pontífices se encontravam armados apenas com uma fraca milícia, a suntuosidade do seu cargo e o terror da sua crença, estando prisioneiros de uma ciumenta aristocracia e da massa de cidadãos cuja piedade era influenciada pela proximidade do trono papal. Os romanos eram demasiado orgulhosos para serem impressionados pelos reis e demasiado familiares para serem amedrontados pelos papas, pois viam que esses homens eram sujeitos, como eles próprios, às doenças, aos erros, aos crimes e às derrotas, chegando a considerar o papado não como sendo uma fortaleza da ordem e um campo destinado à salvação das almas, mas sim como sendo um conglomerado de sacerdotes, através do qual o dinheiro da Europa podia prover a subsistência de Roma. De acordo com a tradição da Igreja Católica nenhum papa podia ser eleito sem o consentimento do clero, da nobreza e do povo romanos.

Os governantes de Spoleto, Benevento, Nápoles e Toscana e a aristocracia de Roma estavam divididos em facções como no passado, e qualquer facção que predominasse na cidade usava de intrigas para escolher e orientar ao papa. Eles próprios, no decorrer dos séculos IX e X, pelas disputas entre si, colocaram o papado no nível mais baixo de toda a sua história. Em 878, o duque Lamberto de Spoleto entrou em Roma com o seu exército, aprisionou o papa João VIII e tentou matá-lo pela fome, a fim de favorecer a ascensão de Carlomano ao trono imperial.

Em 6 de outrubro de 891, foi eleito o papa Formoso, que morreu em 4 de abril de 896. Ele nasceu em Óstia, na Itália, tendo sido excomungado pelo papa João VIII quando ainda era cardeal, por ter coroado Arnulfo como rei da Itália, que mais tarde foi imperador da Alemanha. A ele se deve a conversão dos búlgaros, mas desordens políticas na França, na alemanha e na Itália prejudicaram a Igreja Católica durante o seu pontificado. O seu sucessor foi Bonifácio VI, que governou por apenas quinze dias.

Em 896, tendo morrido Bonifácio VI, o partido dos duques de Spoleto elevou ao trono pontifício o romano Estêvão VI, filho do papa João IX, quando então passou a imperar em Roma o poder de Lamberto de Spoleto, cuja mãe, a terrível Ageltrudes, fez com que Estêvão VI reconhecesse a Lamberto de Spoleto como único imperador e reprovasse a todos os atos do finado papa Formoso, que havia coroado Arnulfo da Alemanha.

Sendo Estêvão VI um simples cativo dos nobres de Spoleto, obediente a eles, pois que havia sido posto no trono papal pelos seus duques, os partidários de Lamberto instituíram um tribunal que passou para a História com a denominação de Sínodo do Cadáver, pois, em 897, Estêvão VI mandou exumar o cadáver mumificado do papa Formoso, vesti-lo com o manto púrpura, assentá-lo em um trono e julgá-lo perante um concílio eclesiástico, que contou com as presenças de Lamberto e da imperatriz-mãe, sob a acusação de haver infringido certas leis da Igreja, inclusive do grande crime por haver aceitado ser papa, quando já era bispo do Porto, pois que os papas são bispos de Roma.

O papa Estêvão VI, então, vejam só, acreditem, intimou ao papa Formoso a se defender das acusações que sofria, que logicamente nada respondeu, a não ser a sua alma que se encontrava quedada no astral inferior, que de lá depois respondeu de modo atroz ao ultraje sofrido, como veremos a seguir, tendo sido condenado por todos os crimes de que era acusado nesse seu macabro julgamento. Nessa farsa grotesca sem precedentes, o papa Estêvão VI andava para frente e para trás aos gritos com o cadáver, declarando-o culpado. Quanta obsessão!

A seguir, o papa Formoso foi despojado das suas insígnias pontificais, cortaram-lhe os dedos da mão que havia abençoado as multidões, tendo sido esfolado, mutilado e jogado no rio Tibre, cuja correnteza, mais piedosa que o perverso e excêntrico Estêvão VI, levou-o rio abaixo e o depôs junto à igreja do Porto, onde o povo já o aguardava com carinho e admiração, dando-lhe uma sepultura provisória na pequena igreja de Santa Inês.

Do astral inferior o papa Formoso deu a sua resposta a Estêvão VI, ao irromper uma revolução política em Roma que lhe arrancou do trono papal, fazendo com que ele acabasse sendo aprisionado pelos seus amigos, agora ex-amigos, terminando por fim sendo estrangulado na prisão em que se encontrava encarcerado. O papa Sérgio III lhe erigiu um mausoléu contendo uma inscrição em que se conta o seu trágico fim, ao qual ele culpou exclusivamente à ingerência de partidos políticos civis, como se esse perverso e abominável papa não fosse o senhor das suas próprias ações. Quanto ao papa Formoso, o seu maltratado corpo foi sepultado por Teodoro II entre os papas, tendo a sua memória sido defendida plenamente por João IX.

 

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