15.03.16- O sofrimento para a doutrina católica

Prolegômenos
7 de julho de 2018 Pamam

A palavra sofrimento é proveniente da palavra sofrer, que por sua vez é proveniente do latim sufferre. Ela representa a forma de aprender a atividade básica exercida pelo ser humano, que é a forma de evoluir, quando ele evolui por intermédio da propriedade da Energia.

O sofrimento, pois, é o resultado de ações e estados por que passa o ser humano, sendo uma aplicação do espírito para aprender as experiências acerca de uma arte, através da música, da pintura, do teatro, do cinema, etc.; ou de uma parcela do Saber, através da Matemática, da Física, da Química, da Biologia, da Medicina, do Direito, da Economia, da Administração de Empresas, etc., por intermédio das suas respectivas ciências, que devem ter como sendo as suas legítimas fontes as religiões, em que na religião o estudo representa a forma de aprender a atividade básica exercida pelo ser humano, que é a forma de evoluir,  quando ele evolui por intermédio da propriedade da Força; ou, ainda, para com o estudo e o sofrimento entrar na apreciação e análise completas de uma matéria ou assunto especial, que diga respeito à vida. A outra forma de evoluir é o raciocínio, quando o espírito evolui por intermédio da propriedade da Luz.

Podemos afirmar, então, que o estudo diz respeito ao criptoscópio, que se liga diretamente à percepção e a captação dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade O sofrimento diz respeito ao intelecto, que se liga diretamente à compreensão e a criação das experiências físicas acerca da sabedoria. E o raciocínio diz respeito à consciência, que se liga diretamente à coordenação, para que possam ser coordenados o criptoscópio e o intelecto, por conseguinte, possam ser coordenados os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e as experiências físicas acerca da sabedoria. Ressaltando aqui que o estudo não deve ser confundido com a leitura, através da qual se transmite tanto os conhecimentos metafísicos, quer digam respeito à verdade, quer não, como as experiências físicas, quer digam respeito à sabedoria, quer não, pois que ele se liga diretamente às vibrações magnéticas.

Assim, a ciência é a atividade básica exercida pelo ser humano, cujos teores dessa atividade básica são as experiências físicas, as quais são adquiridas pelo sofrimento. O sofredor, então, é aquele que tem aplicação pela experiência, que sofre por gosto e amor às artes e as ciências, principalmente pela sabedoria, ou até a qualquer assunto fora destas citadas, com a atenção esmerada que as aprecia, por saber sabiamente experimentar.

O órgão mental de que se utiliza o ser humano para aprender a sua atividade básica exercida, ou a forma de evoluir, que é o sofrimento, é o intelecto, que por intermédio da compreensão cria as experiências existentes no tempo, ou mesmo em laboratórios, quando se trata de ciência, ou mesmo na própria existência, quando se trata da vida, analisa-os, submete-os ao crivo da consciência, por intermédio do raciocínio, para verificar a sua racionalidade, e os memoriza, formando um arquivo consolidado, para que então, se for o caso, possam ser transmitidos através de teorias “a posteriori”. O sofrimento, pois, liga-se diretamente às radiações elétricas, enquanto que o estudo e o sofrimento combinados se ligam diretamente às radiovibrações eletromagnéticas.

O sofrimento corresponde apenas aos efeitos das experiências existentes entre as coisas — estando incluídos entre estas os seres humanos —, que geram os fatos e os fenômenos, logicamente que havendo uma causa correspondente a esses efeitos. Por isso, quando os seres humanos passam por experiências provenientes de um estado ou de suas próprias ações praticadas, ou de ações praticadas por terceiros, ou mesmo de um fato ou de um fenômeno, sofrem os seus efeitos, que tanto podem ser dolorosos como prazerosos. Mas como a vida neste mundo está mais para as dores do que para os prazeres, os sofrimentos, geralmente, são associados com as dores e as infelicidades, e nunca com os prazeres, já que estes são comumente associados à carne, sendo olvidado o prazer sofrido pelo intelecto.

Quando, por exemplo, um pai e uma mãe amorosos perdem um filho querido, eles passam por uma experiência acontecida na realidade, sofreram os seus efeitos, que neste caso foram extremamente dolorosos, de infelicidade. No entanto, quando outrora este mesmo pai e esta mesma mãe receberam a esse mesmo filho querido, por ocasião do seu nascimento, eles passaram por outra experiência acontecida na realidade, sofreram também os seus efeitos, que neste caso foram extremamente prazerosos, de felicidade.

Aqueles seres humanos que têm muitos desejos e que buscam muitas vantagens indevidas neste mundo, por serem próprias do viver terreno, são passíveis de muitos sofrimentos dolorosos, para que através das dores e da infelicidade procurem temperar a esses desejos, substituindo-os pela vontade voltada para o bem, e busquem as vantagens devidas que sejam oriundas dos seus esforços, sem que venham a prejudicar a terceiros.

Buda diz que se um ser humano pretende a libertação do sofrimento doloroso, deve aprender a se contentar com o razoável, pois aquele que sabe se contentar com o razoável se sente bem, mesmo que tenha de se deitar sobre a terra. Entretanto, aquele que não sabe se contentar com o razoável, mesmo nos mundos celestes, permanecerá insatisfeito. Por isso, aquele que sabe se contentar com o razoável é rico, mesmo sendo pobre, ao passo que aquele que não sabe se contentar com o razoável é pobre, mesmo sendo rico.

Aristóteles diz que a excelência moral se relaciona com sofrimentos e prazeres, mesmo sem saber que ambos são formas de sofrimento. No entanto, ele diz que é por causa do prazer que praticamos más ações, e por causa dos sofrimentos que nos abstemos de ações nobres. Que por isso deveríamos ser educados de uma determinada maneira, desde a nossa juventude, como diz Platão, a fim de nos deleitarmos e de sofrermos com as coisas que nos devem causar deleite ou sofrimento, pois essa é a educação certa. Que é em razão dos sofrimentos e dos prazeres que os homens se tornam maus, quer dizer, evitando-os ou os buscando.

Farias Brito diz que o ser humano tanto mais sofre, quanto mais se aperfeiçoa, no que está absolutamente correto, uma vez que o sofrimento é a forma de se evoluir por intermédio da propriedade da Energia, desenvolvendo o intelecto e criando experiências, pois que esta é única maneira de se tornar um sábio.

Farias Brito diz também que devemos acreditar na elevação do nosso destino, nem outra coisa se pode supor, quando tudo demonstra e se sente que há perfeita conformidade dos nossos destinos para com o destino universal, pelo que o sofrimento, transformado em todas as formas de dor, deve ser considerado não como o fim, mas como meio tendente à realização do fim a que é destinada a natureza humana. E que como estamos acostumados a ver que as coisas valem tanto mais, quanto maiores são os esforços e os sacrifícios com que são obtidas, a consequência é que o destino da nossa humanidade é tanto mais elevado quanto mais profundos e mais dolorosos são os sofrimentos humanos, encontrando-se por esta forma a legítima explicação da verdadeira significação do sofrimento e da dor.

Huberto Rohden diz que sofrer não é o mesmo que ser infeliz. Que se a felicidade ou infelicidade viesse de fora, de algo alheio à vontade do ser humano, o mundo deixaria de ser um cosmos, um sistema de ordem e harmonia, acabando em um caos, confusão e desordem.

Antônio Cottas diz que é através do sofrimento que se adquire o progresso, mesmo aquele ocasionado pelo mau uso do livre arbítrio, pois através das dores decorrentes o ser humano tende a não repetir as más ações, que assim o espírito mais se depura e mais evolui.

Olga B. C. de Almeida diz que se um grande sofrimento reduzir o ânimo de um ser humano, ele deve se apoiar na vida espiritual, confiar e esperar, porque tudo tenderá a se normalizar, pois que não são as situações exteriores que causam sofrimento, mas sim o que se pensa a respeito delas.

Alheio e completamente ignorante em relação a tudo isso, vem o credo católico com a sua estupidez costumeira afirmar que o sofrimento é uma consequência do mal e que está associado à morte e as limitações humanas, e que ele nunca foi desejado pelo deus bíblico, portanto, que o sofrimento se encontra neste mundo à revelia desse deus. Ora, caso esse deus bíblico fosse o verdadeiro Deus, a Inteligência Universal, portanto, o Todo, em que tudo Nele se encontra contido, poderia ocorrer algo que nunca foi desejado, à sua revelia? Como se pode claramente constatar, o que existe em nossa humanidade é a carência de raciocínio.

No entanto, mesmo assim, contra o desejo do deus bíblico e à sua revelia, o sofrimento passou a ser uma realidade intrínseca ao homem, que estando associado somente às dores, e nunca aos prazeres, torna-se uma consequência do pecado original e, posteriormente, de todos os pecados cometidos pelos homens. Assim, para o catolicismo, o sofrimento está enredado à liberdade humana e ao conflito entre o bem e o mal neste mundo Terra.

Mas por causa do sacrifício redentor de Jesus, o Cristo, segundo a Igreja Católica, o sofrimento passou a ter um estranho sentido, assim:

Sentido verdadeiramente sobrenatural e humano, porque se radica no mistério divino da redenção do mundo e porque nele o homem se aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão”.

Em assim sendo, a Igreja Católica passou a considerar que o sofrimento passou a estar presente no mundo para desencadear o amor e para permitir a conversão e a reconstrução do bem, ignorando completamente que o amor em nada se liga ao mal, pois que ele se situa acima do bem e do mal, e que o mal existe para que o bem venha também a existir, pois que este é antecedido por aquele, quando então o bem passa a se contrapor ao mal, para que assim venha a ser produzida a amizade espiritual, fazendo emergir a solidariedade fraternal, quando então todo o mal é extinto de vez, pois que existe uma cota do mal para cada uma das humanidades.

Na concepção católica, tanto o sofrimento voluntário, como a mortificação, o trabalho e outros, como o sofrimento involuntário, e como as doenças e outros, mas que estas não são involuntárias, mas sim causadas pelos espíritos obsessores, passaram a ser uma peça fundamental na salvação da nossa humanidade, sob a forma de sacrifícios, quer dizer, mediante a participação pessoal e a união dos sacrifícios individuais ao supremo sofrimento de Jesus, o Cristo, na cruz, mesmo com esse credo sabendo que através de torturas ela provocou sofrimentos muito mais atrozes e dolorosos pelos quais passou o nosso Redentor, como são exemplos a Inquisição, as Cruzadas, as guerras papais e outros crimes praticados. E essa participação pessoal implica a aceitação tida como amorosa dos sofrimentos permitidos pelo deus bíblico na vida terrena.

Além disso, o deus bíblico utiliza o sofrimento para provar a perseverança e a confiança dos homens em sua pessoa, já que ele é personificado, bem como para tornar o homem mais maduro e mais forte em sua fé credulária, como no caso de Jó. Aliás, o próprio São Paulo, misturando sofrimento com mordomia, intitulando-se ministro da Igreja, pronuncia-se em Colossenses 1:24-25, da seguinte maneira:

Eu me alegro agora dos meus sofrimentos por vós, e, por minha vez, estou preenchendo o que está faltando das tribulações do Cristo na minha carne, a favor do seu corpo, que é a congregação. Tornei-me ministro desta congregação de acordo com a mordomia que me foi dada da parte de Deus, no vosso interesse, para pregar plenamente a palavra de Deus”.

É certo que geralmente aqueles que seguem a verdade são partidários do ascetismo, mas São Francisco de Assis, que viveu no período de 1182 a 1226, não era veritólogo, já que era um credulário, porém ele foi partidário do ascetismo, por isso a Igreja Católica o cita como sendo o exemplo maior de inúmeros sacrifícios, que ela confunde com sofrimentos. No entanto, ele experimentou a pobreza radical e a dor dos estigmas. E o Vaticano?

 

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