15.03.02.12- As consequências da Inquisição

Prolegômenos
4 de julho de 2018 Pamam

A Inquisição, em seu período medieval, teve como consequências a eliminação do catarismo na França, a redução dos valdenses a uns poucos credulários, a restauração da ortodoxia católica no sul da Itália e a protelação por três séculos do desmembramento do falso cristianismo do Ocidente. A França perdeu a sua supremacia na Europa em favor da Itália, porém a monarquia francesa, engrandecida pela aquisição do Languedoc, tornou-se forte o suficiente para dominar o papa Bonifácio VIII e aprisionar Clemente V.

Na Espanha, o papel exercido pela Inquisição foi menor antes de 1300. Em 1232, Raimundo de Peñaforte, confessor de Jaime I de Aragão, convenceu-o  a que aceitasse a Inquisição. O estatuto de 1233 tornou o Estado o principal beneficiário das confiscações feitas aos hereges, reprimindo assim as condenações por parte dos inquisidores, cujos interesses eram também gananciosos, em busca das riquezas das suas vítimas. No entanto, nos séculos seguintes, essa prática se constituiu em um forte estímulo para os monarcas, que assim aliaram a Inquisição com a aquisição de riquezas, em detrimento das vítimas.

Mas mesmo assim, continuou a existir no norte da Itália um grande número de dissidentes católicos, quer dizer, de hereges. No entanto, como a maioria dos ortodoxos católicos era demasiado indiferente às suas crenças dissidentes, os hereges não eram perseguidos. Alguns ditadores independentes, como Ezzelino, em Vicenza, e Pallavicino, em Cremona e Milão, protegiam os hereges de modo clandestino, ou mesmo abertamente.

No ano de 1245, em Florença, o monge Ruggieri organizou uma milícia de nobres ortodoxos católicos para apoiar a Inquisição, cuja milícia travou lutas sangrentas com os patarinos nas ruas, sendo estes derrotados. Depois disso, os hereges florentinos deixaram de se manifestar. A Inquisição não causou apenas as mortes de milhares e milhares de pessoas em suas condenações por heresia ou feitiçaria, mas também em sangrentas batalhas contra os hereges.

Em 1252, o inquisidor frei Piero de Verona foi assassinado por hereges em Milão. A sua canonização como Pedro, o Mártir, muito contribuiu para reprimir a heresia no norte da Itália, ainda mais do que toda a severidade e truculência dos inquisidores.

Tomando conhecimento que Ezzelino e Pallavicino protegiam os hereges, o papado organizou cruzadas contra esses ditadores. Em 1259, Ezzelino foi derrubado do poder. Em 1268, foi a vez de Pallavicino. E assim o triunfo da Igreja na Itália se tornou completo. Estava a Igreja Católica seguindo os ensinamentos de Jesus, o Cristo?

Mas a Inquisição não se tornou completa na Inglaterra. No entanto, Henrique III, querendo demonstrar a sua ortodoxia em suas controvérsias com Becket, flagelou e estigmatizou 29 hereges em Oxford, no ano de 1166, mas poucos eram os hereges declarados que havia na Inglaterra antes de Wycliff.

Na Alemanha, a Inquisição floresceu somente durante um curto espaço de tempo, depois desapareceu do cenário alemão. Em 1212, o bispo Henrique de Strasburgo lançou na fogueira 80 hereges em um só dia, sendo que a maioria deles era valdense, que tinha como chefe o sacerdote João, que havia proclamado não acreditar em indulgências, purgatório e celibato dos sacerdotes, sustentando o seu ponto de vista que os sacerdotes não deviam possuir propriedades. Ora, não possuir propriedades era a maior das heresias para os sacerdotes. Em 1227, o papa Gregório IX nomeou um sacerdote de Marburgo, por nome de Conrado, o chefe da Inquisição na Alemanha, encarregando-o não somente de exterminar a heresia, mas também de reformar o clero, cujas propriedades tinham sido denunciadas pelo papa como sendo a causa principal do enfraquecimento da fé credulária na Igreja. Conrado desempenhou ambas as tarefas com uma rara crueldade, ordenando a todos os hereges que escolhessem: ou confessassem as suas heresias para serem punidos, ou então negassem a culpa, quando então morreriam na fogueira. Quando se entregou à tarefa de reformar o clero, tanto os ortodoxos como os hereges se uniram para lhe opor resistência, tendo sido morto pelos amigos das suas vítimas, em 1233, tendo os bispos alemães chamado para si a jurisdição da Inquisição, adotando processos menos injustos nos julgamentos. Muitas seitas, algumas heréticas, outras simplesmente místicas, sobreviveram ainda na Boêmia e na Alemanha, tendo como consequência preparado o caminho para Lutero proceder com a Reforma.

A Inquisição deve ser julgada, em seus fundamentos, tendo por base as ações dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, que faziam dos sacerdotes os seus instrumentos encarnados, formando o ambiente propício para intuir as populações a cooperarem com todas essas atrocidades, que ferem a dignidade humana. Essa truculência sacerdotal denominada de Inquisição, que perdurou por séculos a fio, foi uma verdadeira guerra entre a Igreja Católica e os hereges, em que se destaca a intolerância, a natural companheira da fé credulária muito exacerbada, uma vez que a tolerância somente pode ser praticada e desenvolvida à medida que a fé credulária vai enfraquecendo.

Posteriormente, até aos dias de hoje, as ações dos espíritos obsessores quedados no astral inferior têm a sua continuidade, sob outras formas de morticínio, cujas ações têm matado mais pessoas nas guerras e eliminado mais vidas inocentes, sem os devidos processos legais, do que todas as guerras e perseguições de César e Napoleão.

Alguns críticos que não atentam para o princípio de que “não queiras para os outros aquilo que não queres para ti”, defendem estupidamente os métodos da Inquisição quando praticados pelos Estados modernos, pois que os métodos dos inquisidores, inclusive a tortura, foram adotados nas legislações de muitos governos, por isso a tortura de muitos suspeitos que se faz secretamente ainda em nossos tempos é uma consequência direta da Inquisição, e não das leis romanas, pois comparada com a perseguição dos cristãos pelos romanos, nos primeiros três séculos depois de Cristo, esta pode ser considerada até benigna e até mais humana, em relação à Inquisição, que os próprios historiadores passaram a inserir no rol das manchas mais negras de que há registro na História, ressaltando a demonstração de uma ferocidade que se desconhece até em animais selvagens.

Foi com base na Inquisição, suprimindo os pensamentos divergentes com base na tortura e nos assassinatos, notadamente queimando seres humanos vivos na fogueira, que a Igreja Católica conseguiu se firmar como sendo o principal credo do Ocidente, formando um verdadeiro império, o que lhe possibilitou a formação de exércitos que guerreavam contra os demais Estados, adquirindo assim a supremacia em toda a Europa.

O acúmulo de riquezas por parte da Igreja Católica possibilitou a que ela estrategicamente enveredasse pelo caminho do ensino, notadamente através do jesuítas, propiciando a que assim os seus sacerdotes pudessem moldar o espírito juvenil ainda em formação aos moldes da sua doutrina sobrenatural, tendo por base a fé credulária. Essa estratégia vaticana possibilitou a que o seu credo se tornasse tradição em todo o Ocidente, cuja tradição passou a se tornar hereditária, sendo transmitida de pais para filhos, e assim impregnada no corpo mental das pessoas, que nada entendem da sua doutrina, mas que mesmo assim seguem os seus cultos, acompanham as suas liturgias.

Mas a Inquisição ainda não foi extinta, apenas mudou de nome e o seu modo de operar, sem mais a truculência quando ainda conservava essa denominação, modernizando-se, como se diz no linguajar corrente, devendo ser extinta justamente com o próprio credo católico.

A Congregação Para a Doutrina da Fé é considerada a mais antiga das nove congregações da Cúria Romana, um dos órgãos da Igreja Católica, que substitui a Inquisição, englobando a Comissão Teológica Internacional e a Pontifícia Comissão Bíblica, cuja função é difundir a doutrina católica e defender os pontos de vista de suas tradições que se encontram em perigo, em decorrência de novas doutrinas que surgem no dia a dia, que não são aceitas pela Igreja Católica. De acordo com o artigo 48 da Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana, denominada de Pastor Bonus, promulgada pelo papa João Paulo II, em 28 de junho de 1988, está escrito o seguinte:

A tarefa da Congregação para a Doutrina da Fé é promover e salvaguardar a doutrina sobre a fé e a moral católica em todo o mundo: Por esta razão, tudo aquilo que, de alguma maneira, tocar este tema cai sob a sua competência”.

E aqui se deve indagar: mas que moral?

 

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