15.03.02.11- O caso Galileo Galilei

Prolegômenos
4 de julho de 2018 Pamam

A realidade é que em todos os tempos, inclusive nos tempos atuais, os seres humanos sempre ignoraram a natureza do verdadeiro papel das religiões no seio da nossa humanidade, sem saberem que elas são as grandes responsáveis por captar os conhecimentos que dizem respeito às parcelas do Saber e por serem as fontes das ciências, que devem se utilizar, necessária e obrigatoriamente, desses conhecimentos específicos para que assim possam realizar as experiências correspondentes a eles. Assim, como as religiões são as fontes das ciências, os seres religiosos são também as fontes dos seres cientistas. Isto implica em dizer que o catolicismo não foi, não é, e jamais será uma religião, não passando de um simples credo, o mais perigoso, o mais pernicioso e o mais nefasto de todos os credos, assim como os milhares e milhares de outros credos e seitas que campeiam por esse mundo afora, semeando a ignorância no seio da nossa humanidade, acretinando a todos os seres humanos que se dispõem a segui-los, por ocasião das suas práticas e das suas táticas de arrebanhamentos.

Daí o fato dos estudiosos considerarem o caso Galileo Galilei como sendo o mais paradigmático dos conflitos entre a religião e a ciência, considerando a Igreja Católica como se esta fosse de fato alguma religião, por isso os historiadores, equivocadamente, veem o caso como algo mais complexo do que apenas um confronto entre religião e ciência.

Galileo Galilei encarnou em Pisa exatamente no dia da desencarnação de Miguel Ângelo, em 18 de fevereiro de 1564, e também no mesmo ano em que encarnou Shakespeare. Na Itália ainda ardia a chama da Renascença que havia inspirado a modificação da cultura e proporcionado uma onda de intelectualidade. Aos dezesseis anos foi enviado à Universidade de Pisa, para estudar Medicina e Saperologia. Um ano depois fez a sua primeira descoberta científica, ao observar que o balanço de um pêndulo, independentemente da sua largura, toma tempo igual, assim, ao estender ou ao encurtar o braço de um pêndulo, pôde retardar ou apressar o ritmo das oscilações até sincronizá-lo com o do seu pulso, com essa pulsologia podendo medir com exatidão as batidas do seu coração.

A esse tempo, ouviu um professor ensinar geometria aos pajens do grão-duque da Toscana, com a lógica da Matemática lhe parecendo bem superior à da saperologia escolástica e aristotélica, cujos ensinamentos recebera na escola. Então, clandestinamente, com os Elementos de Euclides na mão, seguiu as lições do professor aos pajens. O professor se interessou tanto por ele que lhe deu lições particulares. Em 1585, ele deixou a Universidade de Pisa sem se diplomar, mudou-se para Florença e, sob a orientação do seu professor, entregou-se completamente ao estudo da Matemática e da mecânica. Um ano depois inventou uma balança hidrostática para medir pesos relativos de metais em uma liga, e foi elogiado pelo jesuíta Clavius por um ensaio sobre o centro de gravidade dos corpos sólidos.

No entanto, esgotaram-se os recursos do pai, e Galileo Galilei se viu obrigado a ganhar o seu próprio pão. Candidatou-se a um cargo de professor em Pisa, Florença e Pádua, mas foi recusado por ser demasiado jovem. Mas em 1589, quando ele e um amigo projetavam ir à procura da fortuna em Constantinopla e no Oriente, ouviram ambos que a cadeira de Matemática, em Pisa, ficara vaga. Galileo Galilei se candidatou a ela, mesmo sem esperanças de consegui-la, pois ainda estava com vinte e cinco anos de idade. Foi nomeado para exercê-la durante três anos, ganhando sessenta escudos por ano. Com isso podia até passar fome, mas poderia demonstrar o seu grande valor como cientista.

Galileo Galilei era um cientista extremamente criativo, pois logo iniciou uma guerra contra a física de Aristóteles, valendo-se da sua cadeira de professor. Segundo a física aristotélica, a queda de uma massa de ouro ou chumbo, ou de qualquer outro corpo dotado de peso, torna-se mais rápida em proporção ao seu peso. Lucrécio e Leonardo da Vinci exprimiam essa mesma hipótese. Mesmo na antiguidade, Hiparco já havia contestado a hipótese aristotélica sobre os corpos arrastados para baixo pelo peso. E Joannes Filopono levantou a hipótese de que a diferença de tempo na queda de dois objetos, um dos quais pesando o dobro do outro, seria nula ou imperceptível. Surge aqui, então, uma história célebre e controvertida sobre uma das primeiras biografias de Galileo Galilei, escrita pelo seu amigo Vincenzo Viviani, em 1654, doze anos após a sua desencarnação, afirmando que se baseava no relato verbal do próprio Galileo Galileo, ao dizer o seguinte:

Para desalento de todos os filósofos, Galileo Galilei provou, por meio de experiências e sólidas demonstrações, serem falsas muitas conclusões de Aristóteles…, como, entre outras, que a velocidade dos corpos do mesmo material, de pesos desiguais, caindo pelo mesmo meio, não mantinha, mutuamente, a mesma proporção do seu peso conforme ensinara Aristóteles, mas  sim que todos eles se movimentavam com a mesma velocidade, demonstrou-o em repetidas experiências do alto do campanário de Pisa, na presença de outros mestres e filósofos e de todos os estudantes reunidos… Sustentou a dignidade daquela cadeira profissional com tão grande fama… que muitos filósofos, seus rivais, movidos pela inveja, levantaram-se contra ele”.

É óbvio que esses saperólogos a quem Vincenzo Viviani se refere não eram saperólogos, na realidade, mas apenas simples estudiosos. Além do mais, os historiadores reputam tal história como se fosse uma lenda, portanto, também o ressentimento desses estudiosos. No entanto, Galileo Galilei deixou essa universidade em 1592 e foi para a Universidade de Pádua, lecionar geometria, mecânica e Astronomia, transformando a sua morada em um laboratório que os alunos e os amigos frequentavam ao seu convite. Em Pádua, evitou o casamento, mas conquistou uma amante que lhe deu três filhos.

Nessa cidade de Pádua, realizou pesquisas e experiências que somente reuniu em fins da sua vida nos Diálogos Concernentes a Duas Novas Ciências, que ele se refere à estática e a dinâmica. Essas pesquisas e experiências foram contribuições básicas e fecundas, apesar de prejudicadas pela falta de instrumentos adequados. No entanto, desde Arquimedes, nenhum ser humano fez tanto pela Física quanto ele.

Nos últimos tempos da sua estada em Pádua, dedicou cada vez mais o tempo à Astronomia. Em 1596, em uma carta que escreveu a Kepler, que era sete anos mais moço do que ele, agradecendo-lhe a remessa da obra Mysterium Cosmographicum, expressou-se da seguinte maneira:

Considero-me feliz por ter um aliado tão grande em vós, nos estudos em busca da verdade… Vou ler o vosso trabalho… com a maior disposição ainda porque fui, durante muitos anos, partidário da teoria de Copérnico e porque ela me revela as causas de muitos fenômenos naturais inteiramente incompreensíveis à luz das hipóteses geralmente aceitas. Para refutar estas últimas, reuni muitas provas; mas não ao público, porque me sinto impedido pela sorte que teve o nosso mestre Copérnico, o qual, embora tivesse conquistado, como alguns outros, uma fama imortal, foi ridicularizado e condenado por inúmeras pessoas (pois é muito grande o número de tolos). Ousaria publicar as minhas ideias se existissem mais pessoas como vós”.

Eis aqui, portanto, a prova provada da existência das imensas quantidades de seres vulgares que riem e zombam com incredulidade quando os espíritos mais evoluídos lhes apresentam algo fora dos seus cotidianos, longe do alcance das suas compreensões. No entanto, não se deve pensar como Galileo Galilei, deve-se sim, reunir todas as provas acerca do Saber, por excelência, e mostrar diretamente ao público, embora seja muito grande o número de tolos, como ele mesmo assim se expressa, pois quanto maior é o impacto das novas ideias sobre as mentes dos seres humanos mais atrasados, tanto maior será o impacto revolucionário que se obterá com elas no seio da nossa humanidade, modificando por completo o seu atraso cultural, principalmente no âmbito da espiritualidade, já que temos por obrigação sacudir as almas, tirá-las do torpor em que se encontram, com vistas às suas evoluções espirituais.

Quando a nossa humanidade tomar ciência dos rumos que nós, os espíritos do Astral Superior, daremos a este mundo Terra no contexto universal, poderá constatar plenamente que não brincamos em serviço, já que tudo realizamos em prol da sua evolução espiritual, e que, portanto, as incredulidades, os risinhos de deboche, os motejos, as ridicularizações, e tudo o mais que se refira ao raciocínio rasteiro e supérfluo, pela absoluta falta de uma inteligência mais elevada, deverão também ser todos extintos do nosso meio, para que assim os grandes espíritos não venham a se ressentir em face do ambiente hostil que aqui irão encontrar, assim como também da falta do apoio em prol das suas ideias inovadoras, que são essenciais ao progresso humano. Nós que nos situamos nas cumeeiras da nossa humanidade sabemos disso mais do que ninguém, por isso não nos abalamos com tanta ignorância e muito menos com tanta falta de raciocínio e inteligência, pelo contrário, cada vez mais lutamos pelo progresso dos seres humanos, mas os espíritos que se situam um pouco mais abaixo se ressentem com isso, daí o fato dos seres humanos acordarem e receberem a esses espíritos neste mundo como sendo os verdadeiros promotores do progresso religioso e científico de que tanto carecem os meios culturais.

Assim, Galileo Galilei manifestou a sua crença na hipótese de Copérnico em uma preleção em Pisa, em 1604. Em 1609, fez o seu primeiro telescópio, realizando uma demonstração aos funcionários e magistrados de Veneza. Vejamos as suas palavras:

Muitos nobres e senadores, embora já entrados em anos, subiam mais de uma vez ao topo da igreja mais alta de Veneza (a igreja de São Marcos), a fim de verem os barcos… então tão distantes que passavam duas horas antes que pudessem ser vistos sem a minha luneta…, pois o efeito do meu instrumento é tal que faz com que um objeto, a 90 quilômetros, pareça tão grande como se estivesse apenas a 9 quilômetros. O Senado, conhecendo a maneira com que o servira durante dezessete anos, em Pádua, ordenou a minha eleição para o cargo de professor vitalício”.

E ele aperfeiçoou tanto o seu telescópio, que conseguiu aumentar os objetos mil vezes. Dirigindo-o para o céu, maravilhou-se ao descobrir um novo mundo de estrelas, em número dez vezes maior que as que tinham sido catalogadas até a época. Viu então que as constelações encerravam grande número de estrelas invisíveis a olho nu, que as Plêiades eram trinta e sete, a Via Láctea aparecia não como uma massa nebulosa, mas como uma floresta de estrelas grandes e pequenas. A Lua não era mais de superfície lisa, porém cortada de montanhas e vales, e a vaga claridade da sua parte não ensolarada podia ser explicada, em parte, como devido à luz do Sol refletida da Terra. Em 1610, ele descobriu quatro das nove luas ou satélites de Júpiter, afirmando que esses novos corpos celestes se movimentavam em torno de outro astro muito grande do mesmo modo que Mercúrio e Vênus, e talvez os demais planetas conhecidos girem em torno do Sol. Tudo isso e muito mais.

Parece até inacreditável, mas não é, pois Galileo Galilei, em uma carta a Kepler, afirmou que os professores de Pádua se recusaram a dar qualquer crédito às suas descobertas, e até mesmo de contemplar o céu através dos seus telescópios. Então, cansando-se de Pádua e esperando encontrar um ambiente mais intelectual em Florença, que passava da fase artística para a científica, mudou-se para esta cidade, após ser nomeado por Cosimo como o Primeiro Matemático da Universidade de Pisa e o Primeiro Matemático e Filósofo do Grão-Duque, com o salário de mil florins e sem a obrigação de lecionar.

Embora na qualidade de um grande cientista, em cujo degrau tem que primeiro se pisar para somente então depois poder ascender e pisar nos degraus da Saperologia, Galileo Galilei insistiu no título de saperólogo, bem como no de matemático, pois almejava entrar nos domínios da Saperologia e também nos das ciências, pois que as compreendia como sendo o estudo e a interpretação da natureza em todos os seus aspectos, que tinham se refugiado em Aristóteles, por isso havia chegado o tempo de repudiar aqueles quarenta volumes gregos e encarar o mundo com ampla liberdade de visão.

Era tão desenvolvido o seu intelecto, e tão grande o seu poder criador, que o caracterizava como sendo um verdadeiro cientista, e não um religioso, que por intermédio do criptoscópio percebe e capta conhecimentos, por isso demonstrando a sua natureza de um autêntico experimentador, assim se expressou:

Para demonstrar aos meus oponentes a verdade das minhas conclusões, fui forçado a lhes provar uma variedade de experiências, se bem que, para satisfazer a mim mesmo, jamais tivesse julgado necessárias tantas”.

Antes de enfrentar a Inquisição, Galileo Galileo teve muitos amigos na Companhia de Jesus. O jesuíta Cristóvão Clavius confirmara as suas observações, outro jesuíta, elogiando-o, declarara que ele era o maior astrônomo da época, e uma comissão de jesuítas letrados, nomeada pelo cardeal Bellarmine para examinar as suas descobertas, pronunciou-se favoravelmente sobre todos os pontos por ele abordados. E era tão grande a receptividade jesuítica para com Galileo Galilei, que quando ele foi a Roma, em 1611, foi hospedado no Collegium Romanum, tendo sido homenageado pelos dignatários da Igreja, com o papa Paulo V lhe afiançando que tinha para com ele a maior boa vontade. Ele então escreveu o seguinte:

Permaneci junto aos padres jesuítas e eles constataram a existência real dos novos planetas e, constantemente, estiveram os observando durante dois meses; comparamos as anotações e descobrimos que as suas observações concordavam exatamente com as minhas”.

Estando convencido de que somente poderia explicar as suas descobertas se baseando na teoria de Copérnico, Galileo Galilei começou a comentá-la como já estando provada. Os astrônomos jesuítas não fizeram qualquer objeção em considerá-la como sendo uma hipótese. Scheiner transmitiu a ele as suas objeções sobre a teoria de Copérnico em uma carta conciliatória, dizendo o seguinte:

Se desejais apresentar argumentos contrários de forma alguma nos sentiremos ofendidos; ao contrário, examiná-los-emos com prazer, na esperança de que tudo isso auxilie a elucidação da verdade”.

Muitos teólogos eram de parecer que a astronomia de Copérnico era de tal forma incompatível com a Bíblia que, caso ela prevalecesse, o livro tido como sagrado perderia toda a sua autoridade e o próprio mundo dito cristão sofreria com isso. Ora, o que tem que prevalecer: a realidade ou essa Bíblia mentirosa e nociva? Neste ponto, é de se indagar: o que aconteceria com a crença sobrenatural que era fundamental para que os ditos cristãos pudessem acreditar que o seu deus bíblico havia escolhido ao planeta Terra para a sua morada humana, com este planeta ficando agora destituído da sua primazia e dignidade, deixada livre entre planetas muitas vezes maiores do que ele e entre uma infinidade de estrelas?

No entanto, Galileo Galilei enfrentou a questão com absoluta firmeza, já que não tinha a mínima pretensão de abir mão das suas convicções científicas. Então resolveu escrever ao padre Castelli, em 1613, sobre as passagens bíblicas, dizendo o seguinte:

Exige uma interpretação que difere do sentido real das palavras (como quando fala sobre a ira, o rancor, o remorso, as mãos e os pés do deus bíblico), parece-me que, como autoridade em controvérsias matemáticas, falta-lhe todo apoio… Creio que os processos naturais que percebemos, através de meticulosas observações, ou deduzimos por meio de demonstrações convincentes, não podem ser refutados por passagens extraídas da Bíblia”.

Tais palavras revestidas de uma racionalidade contundente calou fundo na mente sobrenaturalística do cardeal Bellarmine, ensejando a que ele ficasse deveras alarmado, então resolveu advertir claramente a Galileo Galilei, por intermédio de amigos comuns, ao que aproveitou o ensejo para escrever a Foscarini, discípulo do astrônomo, o seguinte:

Parece-me que ficaríeis bem avisados se vós e Galileo não falásseis em termos absolutos (sobre a nova teoria astronômica como estando provada), porém ex suppositione, como, estou convencido, o fez o próprio Copérnico”.

Em 21 de dezembro de 1614, Tommaso Caccini, um pregador dominicano, começou o ataque católico contra Galileo Galilei, tomando como texto uma passagem bíblica contida em Atos 1:11, que diz o seguinte:

E estes disseram: Homens da Galileia, por que estais parados aí olhando para o céu? Este Jesus, que dentre vós foi acolhido em cima, no céu, virá assim da mesma maneira em que o observastes ir para o céu”.

E logo se pôs a tentar demonstrar que a teoria de Copérnico estava em absoluto conflito com a Bíblia. Enquanto isso, outros combatentes de menor porte enviaram reclamações à Inquisição.

Em 20 de março de 1615, Tommaso Caccini apresentou uma acusação formal contra Galileo Galilei perante a Congregação do Santo Ofício, a Inquisição. O monsenhor Dini escreveu a Galileo Galilei afirmando que ele não seria molestado se introduzisse em suas publicações algumas sentenças declarando que a teoria de Copérnico era apenas uma hipótese, mas ele se recusou a tratar a questão com moderação.

Em uma carta dirigida à grã-duquesa da Toscana, publicada em 1615, escreveu com a sua peculiar convicção:

Quanto à disposição das partes do Universo, sustento se achar o Sol imóvel no centro da revolução dos corpos celestes, ao passo que a Terra gira em torno do seu eixo e em volta do Sol”.

E prosseguiu com uma heresia ainda muito maior, quando de maneira notável assim se expressou:

A natureza é inexorável e imutável, jamais as leis impostas sobre ela são transgredidas, e pouco se lhe dá que os seus métodos de operação e as suas razões obscuras sejam compreensivas aos homens. Por esse motivo, parece que coisa alguma física — que a experiência dos sentidos coloca diante dos nossos olhos ou que as demonstrações necessárias nos provem — deve ser posta em dúvida e muito menos ser condenada com base no testemunho de passagens da Bíblia, cujas palavras podem conter significados diferentes”.

Mas apesar dessas suas palavras, prometeu se submeter ao jugo da Igreja Católica, quando emitiu a seguinte declaração:

Declaro, e a minha sinceridade neste ponto é bem clara, que não somente desejo me submeter livremente a vós e renunciar a quaisquer erros em que possa cair nesta questão, ao ignorar problemas relativos à religião, como também não desejo travar debates com quem quer que seja sobre tais assuntos. O meu objetivo é um só: se, entre os erros que possam abundar nessas considerações sobre matéria fora da alçada da minha profissão, há alguma coisa que possa servir à Santa Igreja ao tomar uma decisão relativamente ao sistema de Copérnico, seja ele aceito e utilizado da maneira que melhor parecer aos superiores. Caso contrário, seja o meu livro rasgado e queimado, porquanto não tenciono e nem tenho a pretensão de obter dele qualquer fruto que não seja piedoso e católico”.

No entanto, por intermédio da demonstração de uma racionalidade impressionante, ousou acrescentar o seguinte:

Não me julgo obrigado a acreditar que aquele mesmo Deus, que nos dotou de sentidos, razão e inteligência, tencionasse que nos abstivéssemos do uso desses atributos”.

Como se pode claramente constatar, Galileo Galilei tinha uma boa noção acerca do verdadeiro Deus, daí a razão pela qual ele criticava tanto a essa Bíblia mentirosa e nociva, inspirada pelo deus bíblico e por outros espíritos obsessores quedados no astral inferior.

Em 3 de dezembro de 1615, Galileo Galilei, por sua livre e espontânea vontade, foi a Roma munido de cartas amistosas do grão-duque a prelados influentes e ao embaixador de Florença no Vaticano. Em Roma, empreendeu a tarefa de converter os funcionários eclesiásticos, um de cada vez, defendendo o sistema de Copérnico em todas as oportunidades, o que fez com que logo todo o mundo em Roma começasse a discutir sobre os astros.

Em 26 de fevereiro de 1616, a Inquisição ordenou ao cardeal Bellarmine o seguinte:

Chamasse à sua presença o referido Galileo, advertindo-o para que abandonasse ditas opiniões e, caso recusasse, sugerisse-lhe, perante um notário e testemunhas, que se abstivesse de ensinar ou defender as referidas teorias e até mesmo de discutir sobre elas. Se Galileo não concordasse em fazê-lo, deveria ser preso”.

Galileo Galilei compareceu perante o cardeal Bellarmine nesse dia e declarou que se submeteria à ordem. Em 5 de março, o Santo Ofício publicou o seu édito histórico, no qual deixa transparecer toda a sua ignorância e crença nesse livro mentiroso e tido como sagrado, quando diz:

A teoria de que o Sol permanece imóvel no centro do Universo é tola, filosoficamente falsa e completamente herética, porquanto é contrária à Sagrada Escritura. A de que a Terra não é o centro do Universo, e mesmo a de que tem ela uma rotação diária, não deixa de ser filosoficamente falsa; é, pelo menos, uma crença errada”.

A Congregação do Índex, na mesma data, proibiu a publicação ou a leitura de qualquer livro que advogasse as doutrinas condenadas, e, no caso do De Revolutionibus Orbium Coelestium, de Copérnico, publicado em 1543, proibiu o uso desse livro até que fosse corrigido. Em 1620, permitiu aos católicos lerem as edições das quais haviam sido eliminadas nove sentenças que representavam a teoria como realidade.

Galileo Galilei regressou para Florença e passou a viver isolado, dedicando-se totalmente aos estudos, em sua vila Bellosguardo, mantendo-se completamente afastado da controvérsia com a Igreja Católica, pelo menos até 1622. Em 1619, o seu discípulo Mário Guiducci publicou um ensaio no qual incorporou a teoria de Galileo, que estava sendo rejeitada, de que os cometas são emanações da atmosfera da Terra, ao mesmo tempo criticando vigorosamente as teorias do jesuíta Orazio Grassi. Este, ficando muito enfurecido, publicou sob pseudônimo um ataque contra Galileo Galilei e os seus adeptos. Em 1622, Galileo Galilei enviou ao monsenhor Cesarini, em Roma, o manuscrito de O Ensaiador, respondendo ao jesuíta Orazio Grassi e rejeitando, em termos científicos, toda a fonte autorizada, exceto as observações, a razão e as experiências. Alguns membros da Academia Dei Lincei, com o consentimento do autor, amenizaram certos trechos do manuscrito. Com isso, Urbano VIII aceitou a dedicatória que lhe foi feita e aprovou a publicação do manuscrito, em outubro de 1623. Esta é a mais brilhante composição de Galileo Galilei, uma verdadeira obra-prima da prosa italiana, que encerra uma hábil controvérsia. Consta que o papa apreciou o trabalho, mas os jesuítas ficaram se roendo de despeito.

Em janeiro de 1624, estando encorajado com a receptividade, Galileo Galilei partiu novamente para Roma, esperando converter ao novo papa às ideias de Copérnico. Urbano VIII o recebeu cordialmente, concedeu-lhe seis longas entrevistas, deu-lhe muitos presentes, ouviu os argumentos sobre Copérnico, mas se recusou a levantar a proibição feita pela Inquisição. Galileo Galilei voltou para Florença. No entanto, estava consolado com a declaração de Urbano VIII ao grão-duque, que dizia:

Há muito tempo temos estendido a nossa afeição paternal a esse grande homem, cuja fama resplandece no céu e marcha sobre a terra”.

Em 1626, Galileo Galilei se animou com a nomeação de Benedetto Castelli, seu discípulo, para o cargo de matemático do papa, e com a nomeação do padre Niccolò Riccardi, um outro discípulo, para a função de principal censor da imprensa. Apressou-se, então, a concluir a sua principal obra, uma exposição de sistemas copernicanos e do que lhe era contrário. Em maio, levou o manuscrito a Roma, mostrou-o ao papa e obteve o imprimatur eclesiático para a sua publicação, porém, com a condição de tratar do assunto como sendo apenas uma hipótese. De volta para Florença, Galileo Galilei reviu a obra e a publicou, em fevereiro de 1632, com um título por demais extenso. A obra teria trazido a Galileo Galilei um menor tormento e até mesmo um menor renome caso não fossem o seu começo e o seu final. Ao leitor esclarecido, dizia o seu prefácio o seguinte:

Há muitos anos se publicou em Roma um benéfico édito que, a fim de neutralizar as perigosas tendências da nossa época atual, impôs um razoável silêncio sobre a teoria de Pitágoras de que a Terra gira. Havia os que afirmavam, imprudentemente, que esse édito teve origem não em estudos judiciosos, mas na veemência daqueles que não se achavam muito bem informados. Ouvir-se-iam queixas de que conselheiros completamente inexperientes em observações astronômicas não deveriam cercear as asas de inteligências ponderadas por meio de inconsideradas proibições”.

Destinava-se isso, na realidade, a notificar ao leitor de que a forma dialogada era um artifício para iludir a Inquisição. No diálogo, dois personagens, Salviati e Sagredo, nomes de dois dos mais íntimos amigos de Galileo Galilei, defendem o sistema de Copérnico, enquanto que um terceiro personagem, Simplício, rejeita-o, porém, com evidente sofisma. Próximo ao fim do trabalho, Galileo Galilei coloca nos lábios de Simplício, quase que literalmente, a declaração que Urbano VIII insistiu fosse acrescentada, que dizia o seguinte:

Deus é Todo-Poderoso; todas as coisas são, portanto, possíveis para Ele; ergo, as marés não podem ser alegadas como prova necessária do duplo movimento da Terra sem que isso limite a onisciência de Deus”.

É então que Salviati comenta com sarcasmo:

Um argumento admirável e verdadeiramente evangélico”.

Os jesuítas, em que vários dos quais foram rudemente tratados no Diálogo, uma vez que as representações imaginativas de Scheiner foram consideradas vãs e tolas, ressaltaram ao papa que a sua declaração havia sido colocada nos lábios de um personagem que, em toda a obra, fazia um papel simplório. Urbano VIII, então, nomeou uma comissão para examinar o trabalho, a qual, em seu relatório, informou que Galileo Galilei havia tratado do sistema copernicano não como se fosse uma simples hipótese, mas como sendo realidade, e que conseguira o imprimatur graças a uma hábil deturpação dos fatos. Acrescentaram os jesuítas, previdentemente, que os sistemas de Copérnico e Galileo Galilei eram mais perigosos para a Igreja do que todas as heresias de Lutero e Calvino.

Em agosto de 1632, a Inquisição proibiu que se continuasse a vender o Diálogo, ordenando o confisco de todos os exemplares que ainda restavam. Em 23 de setembro, intimou Galileo Galilei a comparecer perante o seu delegado em Roma. Os seus amigos alegaram os seus sessenta e oito anos de idade e as suas muitas enfermidades, sem que nada conseguissem de concreto. A sua filha, então, uma freira fervorosa, enviou-lhe tocantes cartas lhe pedindo que se submetesse à Igreja. O grão-duque o aconselhou a obedecer à Inquisição, ofereceu-lhe a sua liteira e arranjou com o embaixador florentino para hospedá-lo na embaixada. Galileo Galilei chegou a Roma no dia 13 de fevereiro de 1633.

Em 12 de abril, a Inquisição o chamou ao seu palácio. Foi acusado de haver quebrado a promessa de obediência ao decreto de 26 de fevereiro de 1616 e instado a confessar a sua culpa. Galileo Galileo, um raro homem de princípios, recusou-se a fazê-lo, protestando haver apresentado a teoria de Copérnico apenas como hipótese. Foi mantido prisioneiro no palácio da Inquisição até 30 de abril. Adoeceu ali. Não o submeteram a torturas, mas parece que o levaram a temê-las.

Ao comparecer pela segunda vez perante a comissão, confessou humildemente que enunciara a questão mais em favor de Copérnico que contra ele, oferecendo-se para corrigir o fato em um diálogo suplementar. Permitiram-lhe que voltasse para a casa do embaixador. Foi novamente inquirido em 10 de maio, no que se propôs a cumprir uma pena, pedindo que levassem em consideração a sua idade e a má saúde. Em 21 de junho, já em uma quarta inquirição, sobre o decreto de 1616, afirmou o seguinte:

Desapareceram do meu espírito todas as dúvidas, e sustentei e ainda sustento como absolutamente verdadeira e incontestável a teoria de Ptolomeu, segundo a qual a Terra está imóvel e o Sol é que se movimenta”.

A Inquisição contraveio, dizendo que os diálogos de Galileo Galilei deixavam bem claro que ele aceitava a teoria de Copérnico, no que o astrônomo insistiu que era contra ela desde 1616. O papa se manteve a par da inquirição, sem, no entanto, assistir pessoalmente a ela. Galileo Galilei esperava que o papa Urbano VIII fosse em seu auxílio, mas o papa se recusou a intervir.

Em 22 de junho, a Inquisição o declarou culpado de heresia e desobediência, ofereceu-lhe absolvição sob a condição da completa abjuração. Então o sentenciou a “prisão neste Santo Ofício por um período que nos aprouver determinar”, ordenando, como penitência, a recitação de sete salmos diariamente durante os três anos seguintes. Fizeram-no se ajoelhar e repudiar a teoria de Copérnico, e acrescentar o seguinte:

Com a sinceridade do meu coração e da minha religião, abjuro, maldigo e detesto os referidos erros e heresias, e, em geral, todos os demais erros e heresias contrários à Santa Igreja, e juro que jamais, no futuro, direi ou afirmarei qualquer coisa que possa causar suspeitas similares sobre mim; e que, se souber de algum herege ou algum suspeito de heresia, denunciá-lo-ei a este Santo Ofício. Peço a Deus que me ajude e também a estes Seus Santos Evangelhos em que pouso as minhas mãos”.

A sentença foi assinada por sete cardeais, mas não recebeu a ratificação do papa. A história de que Galileo Galilei, ao deixar a sala de julgamento, murmurou desafiadoramente: Eppur si move!, que quer dizer: e, apesar disso, ela se move!; é tida pelos estudiosos como se fosse uma lenda da qual se teve notícia somente depois de 1761, mas que não é lenda.

Após três dias na prisão da Inquisição, foi-lhe permitido, por ordem do papa, ir para a vila do grão-duque em Trinità dei Monti, em Roma. Uma semana depois, foi transferido para um confortável aposento no palácio do seu antigo discípulo, o arcebispo Ascânio Piccolomini, em Siena. Em dezembro de 1633, deram-lhe permissão para se mudar para a sua própria vila em Arcetri, próxima a Florença. Tecnicamente era ainda um prisioneiro, proibido de passear fora da sua propriedade, mas com liberdade para prosseguir os seus estudos, lecionar, escrever livros e receber visitas. Em 1638, ali o visitou Milton, a sua filha freira passou a morar com ele e tomou para si a tarefa de cumprir a pena que lhe fôra imposta, qual seja, a de recitar os salmos todos os dias.

Aparentemente era um homem alquebrado, derrotado e humilhado por uma Igreja que se julgava petulantemente a guardiã da fé credulária, das esperanças e da moral da humanidade, quando, na realidade, esta última jamais se instalou verdadeiramente no Vaticano. A sua abjuração, após meses de prisão e dias de inquirição que teriam esmagado até o espírito e a vontade de um jovem guerreiro, era perdoável em um velho que se lembrava da desencarnação prematura de Giordano Bruno na fogueira da Inquisição trinta e três anos atrás. Não se achava, porém, realmente derrotado. O seu livro se espalhou pela Europa, através de uma dezena de traduções, e não abjurou.

Sobre as suas experiências científicas de contemplações astronômicas, ele disse o seguinte:

Este Universo que eu aumentei mil vezes está agora reduzido, para mim, ao círculo estreito do meu próprio corpo. Assim Deus o quer; é, portanto, assim que, então, devo morrer”.

Em 1639, sofrendo de insônia e de muitas dores, foi-lhe permitido, pela Inquisição, visitar Florença sob severa vigilância, consultar um médico e ouvir missa. Novamente em Arcetri, ditava alguns trabalhos a Viviani e a Torricelli e tocava alaúde. Fê-lo até que começou também a perder o sentido da audição, como já havia perdido a visão, em 1638. Em 8 de janeiro de 1642, com quase setenta e oito anos, desencarnou nos braços dos seus discípulos.

Em 1616, a Inquisição romana declarou o heliocentrismo como sendo “falso e absurdo do ponto de vista filosófico e formalmente herético”, por estar em contradição com a interpretação literal de certas passagens da Bíblia. Apesar das suas provas experimentais e teóricas não serem totalmente conclusivas, Galileo Galilei nunca abandonou as suas ideias e chegou mesmo a reinterpretar e usar várias passagens bíblicas para defender a veracidade do heliocentrismo. Com o tempo, porém, que é o senhor das elucidações acerca de tudo, já que a evolução se fazer valer em todos os setores da vida, a Igreja Católica foi obrigada por força da realidade a rever a sua posição quanto ao heliocentrismo, acabando por aceitá-lo.

Em 1758, a Igreja Católica foi também obrigada a retirar as obras heliocêntricas do Index Librorum Prohibitorum. Em 1979, o papa João Paulo II lamentou os sofrimentos de Galileo Galilei causados pelos católicos e os organismos eclesiásticos da Igreja. E mais uma vez ele defendeu que as duas verdades de fé e de ciência nunca podem se contradizer, acabando por também citar uma afirmação de Galileo Galilei, da seguinte maneira:

Procedendo igualmente do verbo divino a escritura santa e a natureza, a primeira como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como executora fidelíssima das ordens de Deus”.

Como se a sublimidade da natureza tivesse algo a ver com tantas inverdades expostas por esse Bíblia mentirosa e nociva, nociva e perniciosa, sendo imensamente perigosa para os incautos que acreditam em suas baboseiras.

No ano 2000, finalmente, o papa João Paulo II decidiu emitir um pedido formal de desculpas por todos os erros cometidos pelos católicos nos últimos 2000 anos da história da Igreja Católica, incluindo o julgamento e as torturas morais impostas a Galileo Galilei pela Inquisição. Ora, se a Igreja Católica cometeu assim tantos erros, e graves erros, aliás, gravíssimos, deveria o papa João Paulo II ter abolido de vez a esse credo nocivo, de natureza sobrenatural, que tantos e tantos males praticou no seio da nossa humanidade, recomendando a todos os seus prosélitos que fossem em busca da verdade verdadeira, a qual Luiz de Mattos e os seus seguidores transmitiram no seio da nossa humanidade, para que todos abandonassem a estupidez dessa fé credulária irracional e pudessem ser autênticos racionalistas cristãos, espiritualizando-se e sendo conhecedores da vida fora da ilusória matéria, para que posteriormente pudessem também ser antecristãos, como era a sua obrigação e o seu dever, caso tivesse um pouco mais de racionalidade e decência em seu espírito.

Mas não, o papa João Paulo II assim não procedeu, pois a intenção do seu pedido de desculpas por todos os malefícios que a Igreja Católica praticou em nome das suas crenças estúpidas, que ele tentando abrandar o impacto desses malefícios denomina de erros, foi o de maliciosamente ser desculpado pelos seus fiéis, e, assim, poder continuar a imperar por todo o mundo, como se tal credo tivesse algo a ver com o verdadeiro cristianismo, que somente daqui a quatro mil anos poderá ser implantado no seio da nossa humanidade, tendo ela nesse período que antecede à vinda do seu próprio Cristo da outra humanidade que nos segue na esteira evolutiva do Universo, obrigatoriamente, que ser antecristã, para que assim, nesta condição, possa desenvolver uma solidariedade fraternal neste mundo, em que todos deverão produzir a amizade espiritual, possibilitando a formação de um Estado Mundial, propício à vinda do seu próprio Cristo, que deverá mostrar a todos a produção do verdadeiro amor, que é de natureza espiritual, conduzindo os rumos da nossa humanidade para o verdadeiro Deus.

 

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