15.03.02.10- O caso Giordano Bruno

Prolegômenos
4 de julho de 2018 Pamam

Giordano Bruno encarnou em Nola, distante vinte e cinco quilômetros ao leste de Nápoles, em 1548. Foi batizado com o nome de Filippo, mas quando ingressou no mosteiro dos dominicanos, em Nápoles, com a idade de dezessete anos, mudou-o para Giordano.

No mosteiro encontrou uma boa biblioteca, muito rica não somente em Teologia, mas também em clássicos gregos e latinos, em Platão e Aristóteles, e até mesmo em autores árabes e hebraicos que haviam sido traduzidos para o latim. A sua natureza racional, de logo, fê-lo se inclinar para a mitologia pagã, que se alojou em seu sentimento por muito tempo, após a teologia cristã lhe ter desvanecido o espírito. Ficou fascinado pelo atomismo de Demócrito, que foi estendido por Epicuro, e que Lucrécio expôs com maestria. Leu os muçulmanos Avicena e Averrois, assim como também o judeu Ibn Gabiro. Do pensamento de Bernardino Telésio ficou impressionado sobre a união dos contrários na natureza e em Deus. E também da visão de Nicola de Cusa sobre o Universo infinito, sem um centro ou circunferência, sendo animado por uma única alma. Admirou-se com os estudos médicos de Paracelso, os processos mnemônicos de Raimundo Lully e o esoterismo de Cornélio Agripa.

Todas essas influências benéficas serviram para moldar a produção do seu sentimento, incentivando-o e o tornando hostil a Aristóteles, ao escolasticismo e a Tomás de Aquino. No entanto, ele se encontrava em um mosteiro dominicano, e Tomás de Aquino era considerado uma espécie de herói dos dominicanos.

Tomou o hábito sacerdotal em 1572. No entanto, a sua natureza não era a de um sacerdote, pois ele era um raciocinador, já que não professava uma fé credulária cega, uma vez que os seus questionamentos mantinham agitada a sua alma. Como poderia haver três pessoas em um só Deus? Como poderia um sacerdote, pela eucaristia, transformar o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo? Dado os seus questionamentos, após a ordenação, foi por duas vezes formalmente censurado pelos seus superiores eclesiásticos.

Em 1576, sendo detentor de um espírito liberto das peias do catolicismo, que tornam os seus arrebanhados cada vez mais ignorantes e escravos dos seus sacerdotes, além de uns verdadeiros cretinos, subitamente fugiu do mosteiro, após servir onze anos como monge, ocultando-se em Roma durante algum tempo. Em seguida, desvencilhou-se do seu manto monástico, adotou novamente o nome de batismo, e procurou segurança e quietude no cargo de professor de uma escola para rapazes em Noli, próximo a Gênova.

Após quatro meses em Noli, mudou-se para Savona, depois para Turim, Veneza e Pádua, envergando novamente o hábito de monge para conseguir hospedagem nos mosteiros. Seguiu depois para Bréscia, dali para Bérgamo, em seguida, atravessando os Alpes, foi a Chambéry, onde um mosteiro de dominicanos o recebeu e o alimentou. Rumou posteriormente para Lion, depois para Genebra. Ali, na cidade do calvinismo, despojou-se novamente das vestes monásticas, passando a viver durante dois meses em paz, ganhando o pão de cada dia corrigindo provas e manuscritos. Entre estas correções figurava uma revisão da preleção que um teólogo calvinista fizera na Universidade de Genebra, tendo o revisor apontado vinte erros nesse trabalho, com o editor sendo preso e multado, e o próprio Giordano Bruno tendo sido chamado a julgamento perante o Consistório, tendo pedido desculpas, pelo que foi devidamente desculpado. Ficando um tanto quanto desapontado por descobrir que já havia escapado de uma censura para cair novamente em outra, deixou Genebra, voltou para Lion, e logo partiu para Toulouse. Nesta cidade, havia uma certa tolerância devido à rivalidade existente entre católicos e huguenotes e a influência dos judeus já convertidos procedentes da Espanha e de Portugal. De Toulouse foi para Paris.

Nessa época, Giordano Bruno já havia adquirido fama como filósofo, quando a denominação correta é saperólogo, embora fosse veritólogo, e como perito em mnemônica, que é a arte de ajudar as operações da memória por meios artificiais, imaginando fórmulas fundadas em fatos e combinações de letras, as quais naturalmente nos recordam por certas e determinadas referências aquilo que queremos reter na memória. Sabendo disso, Henrique III mandou chamá-lo e lhe pediu que o ensinasse o segredo para adquirir boa memória. O rei se mostrou satisfeito com as lições de Giordano Bruno, o que fez com que o nomeasse para professor do Collège de France. Embora tivesse o espírito agitado, a sua inquietude deu uma pequena trégua, o que permitiu que ele conseguisse tolerar por dois anos uma vida razoavelmente tranquila.

Em 1582, publicou uma comédia intitulada de O Archoteiro, na qual, com verve e furor, satirizou monges, professores, pedantes, e tudo o mais que lhe viesse e se encaixasse na sua mente, assinando-a com pseudônimo. Vejamos um trecho do seu prólogo:

Vereis, em grande confusão, sovinices, embustes sem fim, empreendimentos de velhacos; também delícias que, ao mesmo tempo, desagradam, doçuras amargas, tolas decisões, confianças em quem não merece, esperanças frustradas, esmolas mesquinhas… mulheres viris, homens efeminados… e, por toda parte, o amor pelo ouro. Daí procedem as febres intermitentes, o câncer do espírito, os pensamentos levianos, as loucuras que dominam… sabedoria progressiva, ação fecunda, atividades com finalidades certas. Vereis, por fim, por toda parte, nada seguro… pouca beleza e nada de bom”.

Em 1583, foi tentar a vida na Inglaterra. O rei Henrique III, que estava mais inclinado a recomendá-lo a outros do que a tomá-lo ao seu serviço, deu-lhe carta de apresentação ao embaixador francês em Londres, Michel de Castelnau. Durante dois anos Giordano Bruno viveu e comeu na mansão do embaixador, sendo este período uma das fases mais felizes da sua vida, pois estava livre das necessidades de ordem econômica, o que possibilitou a que ele gastasse o seu tempo escrevendo. Travou conhecimento com a própria rainha e a elogiou, utilizando termos que mais tarde foram usados contra ele pela Inquisição.

Ainda em 1583, Giordano Bruno solicitou à Universidade de Oxford o privilégio de fazer preleções em suas salas. Sendo-lhe dada a permissão, falou sobre a imortalidade da alma e a esfera quíntupla, o sistema planetário de Copérnico. Foi importunado com algumas perguntas, inclusive pelo reitor Lincoln College. Mais tarde, ele designou a Universidade de Oxford assim:

Uma constelação de pedantes e da mais obstinada ignorância e presunção, mesclada de rústica incivilidade que esgotaria até a paciência de Jó”.

Como se pode facilmente constatar, ele não primava tanto pela ética, sendo mais inclinado para o aspecto moral, apesar de ter um fraco pelas mulheres, sem conseguir resistir aos seus encantos femininos.

Tendo um espírito rebelde e sendo convicto naquilo que considerava como sendo correto, procurava investigar os astros e pouca importância dava às coisas terrenas, que para ele eram intoleráveis e insípidas, característica própria das inteligências voltadas para as religiões e para a Veritologia, com um desenvolvimento mais intensivo do criptoscópio. Tinha o entendimento de que o progresso que imprimira à astronomia de Copérnico constituía um desenvolvimento benéfico para a compreensão, e que ele era um crítico mordaz de todos aqueles que refutavam as suas teorias.

Sendo ciente da sua imensa capacidade investigativa em detrimento aos demais, muitos estudiosos o consideravam vaidoso, em virtude de ele dar a si próprio alguns títulos tidos como pomposos, quando, ao contrário, Flório o considerava calmo, delicado e urbano. Tinha tanto amor pelo conhecimento que dizia em alto e bom som: “Por amor à verdadeira sabedoria e zelo pelos verdadeiros estudos, canso, atormento e mortifico a mim mesmo”. Só que o seu amor era em relação aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, e não às experiências físicas acerca da sabedoria.

Em fins de 1585, retornou a Paris na comitiva do embaixador, que havia sido exonerado, fazendo preleções na Sorbonne e provocando com elas a hostilidade dos aristotélicos, o que comprova que ele não tinha papas na língua, como se diz comumente. A guerra da Liga contra Henrique III fez acender o seu espírito de andarilho, então ele foi ao encontro das universidades alemãs. Em julho de 1586, registrou-se na Universidade de Marburg, recusando o direito de fazer preleções, mas então atacou publicamente ao reitor. Em seguida, dirigiu-se para Wittenberg, onde lecionou por dois anos na universidade de Lutero, em que mais tarde, ao deixá-la, exprimiu a sua gratidão em um sublime discurso de despedida, se bem que a teologia dos reformadores não o atraísse. Indo para Praga, procurou a proteção de Rodolfo II, mas o imperador o achou muito excêntrico, sem que deixasse de lhe dar trezentos táleres e lhe permitindo lecionar na Universidade de Helmstedt, em Brunswick, onde passou apenas alguns meses felizes, pois o chefe da igreja anglicana logo acabou por excomungá-lo. Ele então se transferiu para Frankfurt, daí para Zurique, retornando em seguida, onde se instalou entre os anos de 1590 e 1591, para que lá pudesse publicar as suas obras em latim.

A visão que Giordano Bruno tinha acerca do Universo revela a sua aguçada percepção criptoscópica acerca do infinito, já que afirma ser o nosso planeta uma parte infinitesimal de uma grandeza incognoscível. Para ele, a Terra não era o centro do Universo, nem tampouco o Sol. Captando os conhecimentos ao se elevar ao Espaço Superior, já que em sua época não havia telescópios, ele afirmou que além do mundo que contemplamos havia outros, como os telescópios logo revelariam, e, além desses, outros, e mais outros, como os telescópios mais potentes haveriam de revelar, e assim por diante, indefinidamente, já que não podemos conceber um começo e nem um fim. Com isso, pode-se deduzir facilmente a existência de uma imensa quantidade de humanidades que habitam os seus mundos-escolas correspondentes, os quais rolam pelo espaço e pelo tempo sem começo e sem fim.

É impressionante o desenvolvimento do seu criptoscópio, pois ele concebeu que as estrelas não eram fixas, conforme julgava Copérnico, com elas mudando constantemente de lugar, uma vez que todas as coisas se movimentavam. Assim, no espaço não há centro nem circunferência, nem alto e nem baixo, o mesmo movimento difere quando apreciado de lugares ou astros diferentes, e como o tempo é a medida do movimento, é também relativo. Muitos astros são habitados por seres vivos e inteligentes, ao que indaga: algum Cristo teria morrido também por eles? Parece até que ele pretendia antever a existência do instituto do Cristo para cada humanidade. Como o Universo é infinito e não podem existir dois infinitos, o Deus infinito e o Universo infinito devem ser um só. Não há Agente Motor, como supunha Aristóteles, há sim movimento ou energia inerente em todas as partes do todo. E sobre Deus afirma o seguinte:

Deus não é uma inteligência exterior… É mais condigno para Ele ser o princípio interior do movimento, que é a Sua própria natureza, a Sua própria alma”.

Giordano Bruno era um veritólogo desgarrado, que não se encontrava ligado a nenhuma escola, pelo que assim conseguiu fazer uma ponte veritológica entre Lucrécio e Leibnitz, afirmando que o mundo é composto de mônadas, com a mônada devendo ser compreendida como sendo cada uma das unidades substanciais da natureza, onde aqui entra a teoria das substâncias, contida no capítulo em que eu organizo a Deus perante toda a nossa humanidade, as quais, agregando-se umas às outras pela lei da continuidade, formam, segundo Leibnitz, todos os seres. Em outras palavras, o mundo é composto de seres atômicos, que são partículas do Ser Total, os quais vão evoluindo constantemente, passando por todos os estágios evolutivos, até alcançarem o estágio da espiritualidade, como assim nós seres humanos nos encontramos. Então, para Giordano Bruno, cada partícula tem a sua própria individualidade, por representar um ser próprio, e, ainda assim, a sua liberdade não é proveniente da liberação de uma lei, porém da conduta segundo as leis e o caráter que lhes são próprios e inerentes. Assim, há um princípio de progresso e evolução na natureza, no sentido de que cada partícula se esforça para se desenvolver e progredir.

Para ele há opostos na natureza, forças contrárias, que parecem contradições, mas nas operações do cosmo inteiro, por meio da vontade de Deus, todos os contrários tendem a coincidir e a desaparecer, formando a harmonia. Em decorrência, os vários movimentos dos planetas formam a harmonia das esferas. Por trás da estonteante e fascinante variedade da natureza, encontra-se uma unidade ainda mais maravilhosa, na qual todas as partes aparecem como órgãos de um só organismo. Então ele assim se expressa:

É a Unidade que encanta. Por meio do seu poder, sinto-me livre se bem que escravizado, feliz na tristeza, rico na pobreza, vivo até na morte”.

E continua:

Embora eu esteja sujeito à lei, expresso a minha própria natureza; embora sofra, encontro consolo ao reconhecer que o mal da parte se torna insignificante na perspectiva do todo; embora eu morra, a morte da parte é a vida rejuvenescedora do todo”.

Daí o fato de que para ele o conhecimento da unidade suprema é o objetivo da ciência e da Saperologia, na realidade, da religião e da Veritologia, e o remédio salutar do espírito, traduzido em Spinoza como sendo o amor espiritual proveniente de Deus.

Giordano Bruno tinha a ilusão de que se regressasse à Itália e fosse interrogado pela Inquisição, poderia citar muitas passagens ortodoxas das suas obras, com o que poderia ludibriar a Igreja, fazendo com que ela acreditasse ser ele um filho extremoso. Esperava que a Itália não tivesse tido notícia da sua obra que havia publicado na Inglaterra sob o título A Expulsão da Besta Triunfante, na qual a besta a ser expulsa poderia ser interpretada como sendo o catolicismo ou a falsa cristandade ou os dogmas teológicos em geral. Caso todos os sacerdotes agissem assim como ele, saindo do sobrenaturalismo e ingressando no âmbito da natureza, este mundo-escola já seria outro, há muito tempo.

Assim, estando saudoso da Itália, aceitou com presteza o convite de Giovani Mocenigo, que pertencia a uma das famílias mais ilustres de Veneza, para ir ao seu encontro e lá ficar como sendo o seu professor e hóspede. Giovani Mocenigo professava o catolicismo, mas era também interessado em poderes ocultos, tendo sido informado de que Giordano Bruno era versado em todos os ramos da magia e possuía os segredos de uma fabulosa memória. Já havia algum tempo que a Inquisição havia declarado Giordano Bruno fora da lei e que deveria ser preso na primeira oportunidade, mas Veneza gozava da fama de proteger tais foragidos e desafiar os inquisidores.

Giovani Mocenigo progredia com lentidão em relação aos ensinamentos de Giordano Bruno, indagando a si mesmo se o seu professor estava ou não lhe ocultando alguns conhecimentos esotéricos da ciência e da magia, mas, ao mesmo tempo, encontrava-se assustado com as heresias que o loquaz veritólogo lhe expunha. Então resolveu perguntar ao seu confessor se deveria denunciar Giordano Bruno à Inquisição, pelo que o sacerdote, sagaz e astuto, assim como são todos os sacerdotes, aconselhou-o a esperar até haver arrancado do seu preceptor maiores detalhes. Giovani Mocenigo obedeceu ao conselho do seu confessor. Mas quando Giordano Bruno anunciou a sua intenção de retornar para a Alemanha, correu para notificar aos inquisidores. Em decorrência dessa traição para com o seu professor e hóspede, este se viu encerrado na prisão do Santo Ofício, em Veneza, no dia 23 de maio de 1592.

Em seu depoimento aos sacerdotes da Inquisição, Giovani Mocenigo explicou que havia agido compelido pela consciência e por ordem expressa do seu confessor, informando também aos inquisidores que Giordano Bruno era contrário a todos os credos, se bem que gostasse mais do catolicismo, mas que renegara a Trindade, a Encarnação e a Transubstanciação, acusando ao Cristo e aos apóstolos de terem ludibriado o povo com falsos milagres, dizendo ainda que todos os padres eram asnos a macularem a Terra com a sua hipocrisia, avareza e má vida, com os credos devendo ser substituídos pela Saperologia, e que a indulgência para com os prazeres carnais não era pecado, pois que o herético lhe dissera ter satisfeito as suas paixões em todas as oportunidades que tivera, pois as damas lhe agradavam bastante, se bem que não houvesse ainda atingido o número das mulheres de Salomão.

A Inquisição interrogou vagarosamente o prisioneiro, no período de maio a setembro de 1592. Giordano Bruno alegou em sua defesa ter escrito as suas obras como saperólogo, aproveitando-se da distinção que Pompanazzi havia criado entre as duas verdades, ou seja, aquela que como saperólogo se podia contestar como saperólogo, daquela cuja doutrina ele aceitava como católico. Admitiu natural e sinceramente as suas dúvidas sobre a Trindade, confessando que se considerava culpado de muitos erros. No entanto, como que ridicularizando a tremenda estupidez e obtusidade dos sacerdotes inquiridores, no que esperava assim alcançar ao seu intento, declarou-se enfermo, solicitando que fosse acolhido no seio da Madre Igreja, e que esta o provesse dos remédios para o seu tratamento, procedendo com misericórdia para com ele. Mas os inquisidores, intolerantes e ávidos por derramar o sangue alheio, não levaram em consideração nem a sua declaração e nem tampouco a sua solicitação, mandando-o para a prisão por mais dois meses.

Em 30 de julho, interrogaram-no mais uma vez, ouviram a sua confissão e o seu pedido de misericórdia, e logo o mandaram novamente para a prisão por mais dois meses. Em setembro, o chefe da Inquisição em Roma determinou aos inquisidores de Veneza que enviassem o prisioneiro para Roma. O governo veneziano logo se opôs, mas os inquisidores ressaltaram que Giordano Bruno era um cidadão de Nápoles, e não de Veneza, e que o senado consentia em sua extradição. Em 27 de fevereiro de 1593, Giordano Bruno foi deportado para Roma, para que lá fosse julgado.

Em Roma, fazia parte dos processos da Inquisição deixar o prisioneiro meditar na prisão durante longos períodos, tanto antes dos interrogatórios como em seus intervalos e depois, para que assim o acusado pudesse ser tomado de um imenso temor, com possibilidades de entrar em pânico, a fim de facilitar o interrogatório, pois com a mente estando abalada haveria naturalmente um cerceamento natural da sua própria defesa. Quanta barbaridade!

Após quase um ano no cativeiro, em abril, maio, setembro e dezembro de 1594, foi novamente torturado com perguntas. Em janeiro de 1595, os inquisidores se reuniram duas vezes para o estudo do processo. Meu Deus! Um credo ignorante e estúpido tomando a justiça nas suas próprias mãos em detrimento do verdadeiro Direito, o qual de há muito já havia sido desenvolvido no Império Romano e em outras nações, com os sacerdotes condenando os seres humanos à morte na fogueira! Como alguém detentor de alguma moral e de algum juízo pode se dispor a seguir a esse ignominioso, desonroso e infame credo, bem como também a todas as suas seitas?

Em março de 1595 e em abril de 1596, segundo os registros do processo, Giordano Bruno foi levado à presença dos abomináveis cardeais, os quais sempre pleitearam para si o título de eminência. Ora, com o título de eminência deveriam ser agraciados os espíritos de luz que para este mundo vêm com o objetivo de alavancar o progresso dos seres humanos, pelo fato desse título representar superioridade, que figurativamente destaca as alturas, os lugares elevados, as partes mais altas de quaisquer ambientes, pelo que mesmo assim os espíritos de luz dispensam tal tratamento, dadas as suas humildades; e não serem agraciados com tal título esses pomposos cardeais, desgraçados que são, em tudo e por tudo, os quais representam as inferioridades vaticanas, por se situarem nas partes mais baixas de todos os ambientes que frequentam, pois quanto mais elevado for na hierarquia vaticana, tanto mais baixo será na hierarquia da espiritualidade, sendo os grandes responsáveis por semear a ignorância no seio da nossa humanidade, além de serem também extremamente vaidosos, sem que tenham em suas almas qualquer indício de alguma superioridade que possam destacá-los em relação aos demais seres humanos, a não ser na mente dos mais atrasados. Esses cardeais também visitaram a sua cela e lhe ouviram as queixas relativas à alimentação.

Em 1597, foi levado à presença dos inquisidores, que novamente o ouviram em relação às suas necessidades, as quais os registros não dizem quais eram elas, mas as repetidas súplicas do prisioneiro dão a entender a angústia proveniente das suas provações, nestas não estando incluída a longa ansiedade provocada com o propósito de lhe apagar o espírito que sempre foi inflamado. Passou-se assim ainda outro ano.

Em 14 de janeiro de 1599, foi novamente chamado ao tribunal inquisitivo. Leram-lhe então oito proposições heréticas tiradas das suas obras, ordenando-lhe que as renegasse. Giordano Bruno defendeu o seu ponto de vista, mas concordou em aceitar a decisão do papa quanto às passagens citadas. Em 4 de fevereiro do mesmo ano, o papa Clemente VIII e a Congregação do Santo Ofício chegaram à decisão de que os trechos eram realmente heréticos. No entanto, nos documentos do processo não consta menção alguma sobre a teoria copernicana de Giordano Bruno, como em Galileo Galilei, que veremos logo a seguir, com as heresias dizendo repeito apenas à Encarnação e a Trindade. No entanto, deram-lhe mais quarenta dias para que pudesse reconhecer os seus erros.

Ouviram-no novamente em 18 de fevereiro, em abril, setembro e novembro. Em 21 de dezembro, ao invés do seu espírito estar decaído em face das angústias causadas pelos interrogatório, ele mostrou firmeza em suas convicções, declarando que não se retrataria. Em 20 de janeiro de 1600, dirigiu um memorial ao papa, afirmando que as proposições condenadas haviam sido erroneamente tiradas do seu contexto e se ofereceu para defendê-las contra quaisquer teólogos, manifestando mais uma vez a sua disposição em acatar a decisão do papa. Imediatamente o papa Clemente VIII decretou e ordenou que a causa fosse conduzida para as providências finais, pronunciando-se a sentença.

Em 8 de fevereiro, os inquisidores chamaram Giordano Bruno, repetiram as acusações e declararam que lhe haviam sido dados oito anos para se arrepender, que ele concordara em aceitar a decisão do papa sobre se as proposições eram ou não heréticas, que o papa havia decidido pela afirmativa, e que o prisioneiro persistia nas heresias se mantendo impenitente, obstinado e pertinaz. Com isso, dava-se agora a sentença de que ele seria entregue ao tribunal secular, ao governador de Roma, para que pudesse ser punido com a pena merecida. A sentença foi assinada por nove cardeais, inclusive por Bellarmine.

Segundo Gaspar Scioppius, um erudito alemão que havia se convertido ao catolicismo, havia pouco tempo, e que também havia passado a residir em Roma, quando o veredito foi lido a Giordano Bruno, este declarou com altivez aos juízes:

Talvez vós, que pronunciais a minha sentença, estejais mais atemorizados do que eu, que a estou recebendo”.

O que se explica pelo fato dele haver percebido a indecisão e o vacilo por parte dos seus julgadores, que estavam agindo assim por determinação e influência papal, já que este havia decidido pela afirmativa das heresias. Como se pode perceber, os sacerdotes são instrumentos do astral inferior.

Giordano Bruno foi imediatamente transferido para uma prisão secular. Em 19 de fevereiro, ainda impenitente, o corpo nu, a língua presa, foi amarrado a uma vara de ferro em uma pira na Piazza Campo de Fiori e queimado vivo, na presença de uma multidão alarmada. Estava com apenas cinquenta e dois anos de idade. Em 1889, como que a reprovar a decisão inquisitória e o grave erro cometido por esse credo católico, foi erigida no mesmo local uma estátua em homenagem ao veritólogo, por meio de uma subscrição popular proveniente de todas as partes do mundo.

E aqui se encerra o registro de mais um assassinato monstruoso desse credo católico, que consegue arrebanhar milhares e milhares de prosélitos por esse mundo afora, sem que os mesmos consigam ter a consciência da perniciosidade da sua doutrina, que é incongruente e sobrenaturalística, das suas ações sacerdotais, repletas de desvios morais, a começar pelos papas, e da pregação da esdrúxula salvação, com o seu deus bíblico metido a exterminador, mas sendo incapaz de enfrentar um espírito capaz de guerreá-lo com qualquer arma e em qualquer campo, vindo ele acompanhado ou não com toda a sua corja de anjos negros, que também são metidos a exterminadores.

 

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