15.03.02.05- A inquisição espanhola

Prolegômenos
29 de junho de 2018 Pamam

A inquisição espanhola foi uma instituição fundada em 1478 por Fernando II de Aragão e Isabel de Castela para manter a ortodoxia católica em seus reinos, que atuou no período de 1478 a 1834. Como se pode claramente constatar, a Inquisição foi uma instituição praticamente milenar. Segundo os estudiosos, a inquisição espanhola foi o resultado da reconquista da Espanha, que se encontrava sob o domínio dos árabes muçulmanos, e da política de conversão de judeus e muçulmanos espanhóis ao catolicismo, sendo considerada um importante instrumento na política denominada de “limpeza de sangue” contra os descendentes de judeus e de muçulmanos convertidos. Mas as verdadeiras causas da Inquisição, de acordo com a razão, já foram expostas em tópico anterior.

No século XV, a Espanha não era ainda um Estado unificado, configurando-se como sendo uma confederação de monarquias, cada uma delas com o seu administrador, como os reinos de Aragão e Castela, que eram governados por Fernando e Isabel, respectivamente. No reino de Aragão, que na verdade era uma confederação de Aragão, formada pelas Ilhas Baleares, Catalunha e Valência, havia uma inquisição local desde a Idade das Trevas, assim com também havia em outros países da Europa, porém ainda não havia no reino de Castela e Leão.

A maior parte da península ibérica estava sob o governo dos mouros, e as regiões do sul, mais especificamente Granada, estavam muito povoadas de muçulmanos. Até 1492, Granada ainda se encontrava sob o controle dos mouros, enquanto as cidades mais importantes como Sevilha, Valladolid e Barcelona, esta sendo a capital do reino de Aragão, tinham grandes populações de judeus em seus guetos, que tinham tradição em seus trabalhos, pois João II, o pai de Fernando, indicou Abiathar Crescas, um judeu, como astrólogo da corte, e, além dele, muitos judeus ocupavam postos de importância, tanto credulários como políticos.

Mas sendo intuído pelo astral inferior, o aragonês Fernando não pensava em utilizar o credo como meio de controlar o seu povo, desejando que os credos judaico e muçulmano fossem banidos dos seus domínios, tendo então adotado a Inquisição como meio para atingir aos seus fins. Há uma discussão entre os historiadores em relação a este fato, com uns considerando que Fernando queria enfraquecer os seus opositores principais do reino, havendo também uma motivação econômica, pois muitas financistas judeus forneceram os recursos que Fernando utilizou para se casar com Isabel, a rainha de Castela, e vários desses débitos seriam sanados se os financiadores fossem condenados. Tudo isto teve a sua real influência, mas, como se sabe, a causa fundamental é espiritual.

Vejamos agora a política papal.

O papa não demonstrava interesse em instalar a inquisição na Espanha, em função da mistura de judeus e muçulmanos que lá se encontravam. Mas Fernando insistiu, tendo persuadido a Roderigo Borgia, que nessa ocasião era o bispo de Valência, a usar da sua influência em Roma, junto ao papa Sixto IV, tendo ele êxito nesse desiderato. No entanto, quando a Inquisição foi instalada em 1478, em Sevilha, o papa foi contra. Fernando, então, ameaçou negar apoio militar à Igreja, com o papa sendo forçado a concordar, em função da sua política bélica, e assim Fernando conseguiu controlar sozinho a inquisição espanhola. Por outro lado, Roderigo Borgia teve o apoio espanhol à sua candidatura ao papado, sucedendo a Sixto IV, tornando-se o papa Alexandre VI, tendo se tornado bastante famoso sob o título de Príncipe dos Devassos, dando total apoio à inquisição espanhola.

Em 1481, Fernando e Isabel indicaram Tomás de Torquemada para investigar, condenar e punir os conversos, que eram os judeus e os mouros que diziam haver se convertido ao catolicismo, obviamente com medo da Inquisição, pelo que continuavam a praticar os seus antigos credos em segredo. Alguns judeus até se disfarçavam de padres e de bispos, para não causar suspeitas acerca das suas conversões. Os detratores passaram a chamar os judeus convertidos de marranos, uma expressão pejorativa, que tem a ver com porcos. No período de 1486 e 1492, os autos de fé ocorreram em Toledo, depois se estendendo por outras cidades, chegando a ser centenas deles, até 1826. Milhares e milhares de conversos foram julgados.

Tomás de Torquemada foi um dominicano inquisidor-geral espanhol no século XV, pois que era confessor da rainha Isabel, a Católica, tendo se tornado muito conhecido pela sua campanha contra os judeus e os muçulmanos convertidos da Espanha. Foram inúmeros os autos de fé durante o seu mandato como inquisidor, chegando aos milhares. E o interessante disso tudo é que ele era de origem safardita, termo utilizado para se referir aos descendentes de judeus originários da Espanha e de Portugal, que tem origem na denominação hebraica para designar a península Ibérica. Em 1832, o seu túmulo foi violado, os ossos foram roubados e incinerados, da mesma forma como ele ordenava que os seus subalternos fizessem com aqueles que eram condenados à morte, após as suas execuções.

É óbvio que eu sou plenamente a favor da liberdade de pensamento, partindo-se do princípio de que todos podem expressar livremente aquilo que pensam a respeito das coisas, dos fatos e fenômenos com que se deparam no cotidiano da vida. Agora vejam só, o cronista espanhol Sebástian de Olmedo, descreveu a Tomás de Torquemada como “O martelo dos hereges, a luz da Espanha, o salvador do seu país, a honra do seu fim”. Como se pode claramente constatar, o pensamento desse infeliz cidadão é análogo ao pensamento nazista de Hittler, o que leva fatalmente à conclusão que os dois se merecem um ao outro.

Na inquisição espanhola, tal como se fosse uma corte credulária, era operada por autoridades da Igreja Católica, mas se uma pessoa fosse considerada herege, a punição seria entregue às autoridades seculares, do mesmo modo que no restante da Europa. Mas na Espanha, além da tortura, da pena de morte e tudo o que de pervervidade se encontrava contido na Inquisição, foi adotado o procedimento de humilhar o ser humano em público, ao que foi denominado de vergonha pública, que era obrigar o acusado de usar o sambenito, uma roupa de penitente, usar uma máscara de metal com forma de burro, mordaça, até ser queimado na fogueira em praça pública, quando o crime era mais grave.

A inquisição espanhola foi também usada contra os primeiros focos de protestantismo, contra a disseminação dos pensamentos de Erasmo de Roterdã, contra o Iluminismo e, já no século VIII, contra o Enciclopedismo. Mas apesar das ações das outras inquisições em outros países da Europa contra a bruxaria, as mulheres consideradas como se fossem bruxas não eram o foco principal da inquisição espanhola, sendo elas geralmente qualificadas como loucas, pois que essas infelizes mulheres não passavam de médiuns de incorporação. Durante o governo de Napoleão Bonaparte, a Inquisição foi suspensa na Espanha, tendo sido reinstalada quando Fernando VII subiu ao seu trono. Pelo que se tem notícia, a última pessoa assassinada pela inquisição espanhola foi o professor Cayetano Ripoll, no dia 31 de julho de 1826, em Valência, tendo ela sido abolida finalmente em 15 de julho de 1834.

Como reflexo da inquisição espanhola, ela também foi instalada no México e no Peru. No entanto, quando esses dois países se tornaram independentes da Espanha, ela foi abolida.

Os homens de bem, aqueles que são realmente honrados, não aceitam, por hipótese alguma, que alguém pratique o mal contra os seus semelhantes, principalmente quando o mal é decorrente da supressão à liberdade de pensamento. É certo que dos males o menor, mas dentro dessa escala de valores, todos os males têm que ser combatidos, na medida que as ações forem se fazendo necessárias. Quero com isso dizer, que o mal praticado em torturar, execrar em público, prender perpetuamente, queimar na fogueira, ou seja lá o que for de tal natureza, umas tantas pessoas, não importando a quantidade, é um crime dos mais hediondos, caracterizando-se como crime de genocídio com requintes de perversidade, e que uma certa quantidade sendo mensurada e depois diminuída, não atenua um milímetro sequer a esse crime hediondo.

Pesquisas mais recentes, consideradas como sendo históricas, sendo apoiadas pela Igreja Católica, que também auxilia nas pesquisas, liberando os documentos que antes eram guardados em universidades católicas, para aprofundamentos e estudos mais minuciosos da inquisição espanhola, vêm contestando algumas considerações sobre esses fatos que enegrecem profundamente a história da nossa humanidade.

Em 6 de novembro de 1994, A BBC de Londres transmitiu o documentário The Myth of the Spanish Inquisition, que segundo o programa se baseia em anos de pesquisa em arquivos antes fechados, afirmando que a inquisição espanhola, tida como sendo a mais cruel e violenta, teve a sua imagem distorcida por protestantes que queriam minar o poder da maior potência mundial na época: a Espanha. O documentário tenta demonstrar que cada processo inquisitorial ocorrido foi registrado individualmente durante os 350 anos em que a inquisição espanhola esteve ativa, e que somente agora esses registros estão sendo reunidos e analisados adequadamente. Nesse programa, o professor Henry Kamen, que se julga especialista no assunto, apesar de nada saber acerca da espiritualidade, admitiu que esses registros são extremamente detalhados e que vêm trazendo à tona uma visão da inquisição espanhola diferente da que se encontrava na mente dos historiadores, inclusive da sua mente. Em 1999, o professor Henry Kamen lançou uma obra intitulada The Spanish Inquisition: A Historical Revision, que é uma revisão do seu trabalho antes realizado em 1966, à luz dessas novas descobertas.

Qual seria, então, o resultado prático desse trabalho? Nenhum. Caso ele raciocinasse mais um pouco, poderia constatar que é impraticável procurar determinar a quantidade de seres humanos que foram mortos na inquisição espanhola, principalmente porque existe limite de escopo para essa finalidade. Além do mais, uma quantidade a mais ou a menos não atenua um milímetro sequer a esse crime hediondo, como já dito. O que se poderia constatar realmente, no caso em questão, é a interferência do protestantismo para agravar o fato, o que também não aumenta a natureza do crime, apenas ressalta a luta ferrenha que se trava entre o credo católico e as suas seitas protestantes para o arrrebanhamento de prosélitos, com o catolicismo tendo sido mais nocivo no decorrer da história. No entanto, todos os credos e seitas são dirigidos por sacerdotes, que formam a classe mais nociva que existe. Assim, trocando em miúdos, como se diz comumente, comparando-se um com os outros, todos se igualam na mesma sórdida vilania.

 

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