15.03.02.04- O contexto da Inquisição

Prolegômenos
29 de junho de 2018 Pamam

A partir de 1231, Gregório IX e os sucessores passaram a nomear um número cada vez maior de inquisidores especiais para perseguir aos hereges, sendo geralmente escolhidos para essa tarefa os membros das novas ordens de mendicantes, em função do exemplo da vida simples que levavam e pelas suas devoções à Igreja, além do mais eles não podiam depender dos bispos, porém nenhum inquisidor deveria condenar um herege a uma pena grave sem o consentimento episcopal. Eram tantos os dominicanos empregados como inquisidores, que o povo passou a chamá-los de domini canes, ou seja, os cães de deus, que sendo do deus bíblico não poderia ser diferente.

Esses inquisidores eram os maiores instrumentos do astral inferior, que tendo a eles sob o seu domínio, faziam com que aparentassem uma falsa moral, a tão conhecida moral utilitária, pois que as suas características principais eram as totais ausências da piedade e da misericórdia, sendo esta última cantada em verso e prosa pelos credulários em relação ao seu deus bíblico, sendo esses inquisidores tão belicosos quanto o próprio Jeová, tanto que eles não se consideravam como se fossem juízes que pesavam na balança da justiça de maneira imparcial as provas contra e a favor que se lhes eram apresentadas em relação ao réu, considerando-se como se fossem guerreiros que perseguiam aos inimigos de Jesus, o Cristo, neste caso, o tipo de guerreiro mais covarde que pode existir.

De qualquer maneira, haviam alguns inquisidores que eram mais zelosos com as suas vítimas, como Bernardo Gui, enquanto outros eram estupidamente sádicos, como Roberto, o Dominicano, o qual havia sido um herege patarino, que sob a influência do astral inferior se deixou converter ao catolicismo, sendo tão sádico, que em 1239, somente em um dia, enviou 180 prisioneiros para a fogueira, inclusive um bispo das suas próprias hostes, o qual em um julgamento realizado pelo inquisidor, havia dado muita liberdade aos hereges. Esse seu sadismo exacerbado chegou ao conhecimento de Gregório IX, que o suspendeu das suas funções de inquisidor e o condenou à prisão perpétua, afinal ele não respeitava sequer os seus próprios corregilionários, querendo lançar todo mundo na fogueira.

Há que se ressaltar aqui, que as jurisdições dos inquisidores eram restritas apenas aos ditos cristãos, para que as seitas católicas heréticas não viessem a prosperar, não sendo estendidas aos judeus e aos muçulmanos que também eram credos, assim como o catolicismo, salvo se eles fossem conversos relapsos. De qualquer maneira, os dominicanos se esforçaram ao máximo para converter aos judeus, mas recorrendo apenas aos meios pacíficos. Ao que tudo indica, as falanges obsessoras deram uma trégua entre si, com as falanges católicas tratando apenas de preservar os seus adeptos, pois em 1256, quando alguns judeus foram acusados de ritos assassinos, os monges dominicanos e franciscanos se arriscaram para salvá-los da sanha da multidão enfurecida. Uma bula expedida pelo papa Nicolau III, em 1280, exprime com clareza o objetivo e o alcance da Inquisição:

Por este meio excomungamos e anatemizamos todos os hereges — cataristas, patarinos, os ‘pobres de Lyon’… —, e todos os demais, sejam quais forem as suas denominações. Quando condenados pela Igreja, deverão eles ser entregues ao juiz secular a fim de serem punidos… Se qualquer um deles, depois de preso, arrepender-se e desejar se penitenciar, poderá o mesmo ser condenado à prisão perpétua… Todos os que acolherem, defenderem ou ajudarem pessoas heréticas serão excomungados. Será proscrito aquele que permanecer sob excomunhão um ano e um dia… Serão excomungados aqueles que, suspeitos de heresia, não puderem provar a sua inocência. Não terão direito de apelar da sentença. Todo aquele que fizer um sepultamento cristão de herege, ficará excomungado, até que dê as devidas satisfações por que o fez. Não será absolvido enquanto não tiver desenterrado, com as suas próprias mãos, os corpos dos heréticos e espalhado as suas cinzas… Proibimos a todos os leigos que discutam sobre questões relacionadas com a fé cristã, será excomungado o que assim proceder… Todo aquele que conheça hereges ou saiba do lugar onde eles se reúnem secretamente ou conheça os que não concordam em todos os respeitos com a fé ortodoxa, deve disso dar conhecimento ao seu confessor ou a algum outro, o qual informará ao bispo ou inquisidor. Será excomungado todo aquele que não o fizer. Os hereges e todos aqueles que os acolherem, protegerem ou auxiliarem, e todos os seus filhos até à segunda geração não serão admitidos na função eclesiástica… Privaremos para sempre a todos esses de tais benefícios”.

O processo inquisitorial poderia começar com a prisão sumária de todos os hereges, assim também com a de todos os suspeitos. Os inquisidores poderiam intimar toda a população adulta de uma localidade para que comparecesse à sua presença, a fim de ser submetida a um interrogatório preliminar. Havia um período de “graça” inicial por cerca de 30 dias, dentro do qual, aqueles que confessassem ser hereges e disso se arrependessem, seriam libertados após uma breve prisão ou trabalho em alguma instituição credulária católica.

Os hereges que se recusavam a confessar, mas que eram descobertos nesse primeiro interrogatório, ou por espiões da Inquisição, ou mesmo por outros, eram intimados a comparecer diante do tribunal inquisitorial. Esse tribunal geralmente consistia de doze homens que eram escolhidos pelo governante secular local de uma lista que lhe era apresentada pelo bispo e pelos inquisidores, sendo esse tribunal, portanto, tendencioso à condenação, havendo ainda dois notários e vários servidores. Se o acusado se dispusesse a aproveitar a essa segunda oportunidade para confessar o “crime” de heresia, a pena que lhe seria imposta variaria de acordo com o seu grau de culpabilidade, caso negasse, seria de imediato condenado à prisão. O mais interessante de toda essa perturbação com grau de loucura, era que os acusados podiam ser julgados mesmo quando ausentes, à revelia, ou mesmo após a sua morte. E como Jeová, o deus bíblico, assim determinou, seriam necessárias duas testemunhas, aceitando-se como testemunhas os hereges que há haviam confessado os seus “crimes” de heresia. Até as esposas e os filhos podiam depor contra os esposos e os pais, desde que não fossem a favor.

Todos os acusados de uma localidade podiam ver uma lista de todos os seus denunciantes, mas nessa lista não eram especificados os nomes das pessoas que os haviam acusado, para que assim os acusados não tomassem represálias contra os denunciantes, nem tampouco os seus parentes e amigos, pois muitos denunciantes foram assassinados pela simples suspeita de terem denunciados alguns acusados. Geralmente se pedia aos acusados que revelassem os nomes dos seus inimigos, pois estaria claro que estes poderiam testemunhar falsamente contra eles, mesmo sendo severamente punidos os que prestassem falso testemunho. Até o ano de 1300, não era permitido aos acusados qualquer ajuda legal. Após o ano de 1254, um decreto papal exigiu que os inquisidores submetessem as provas recebidas não somente ao bispo, mas também a homens que tivessem boa reputação na localidade, boa reputação esta aos olhos da Igreja, cujas provas deviam ser julgadas de acordo com os votos de todos, às vezes sendo convocada uma junta de peritos para revê-las, cujos peritos eram versados na doutrina católica e nas heresias. Embora os inquisidores tivessem instruções de que seria preferível deixar escapar um culpado a condenar um inocente, isto não acontecia, em função da parcialidade dos acusadores e do ódio que eles tinhas pelos hereges.

É sabido que a legislação romana autorizava que se obtivessem confissões por meio de tortura, que não foi utilizada nos primeiros anos da inquisição papal. Mas em 1252, porém, Inocêncio IV autorizou a utilização do método de tortura quando os juízes estavam convencidos da culpa do acusado, e este não confessava o crime de heresia, com os outros pontífices aceitando a sua aplicação, embora aconselhando que se aplicasse a tortura apenas em último recurso e uma única vez, “porém não ao ponto de causar a perda de um membro ou trazer perigo de morte”. Sendo sádicos, os inquisidores interpretaram a expressão uma única vez como significando uma vez para cada interrogatório, quando então interrompiam a tortura para recomeçar o interrogatório, sentindo-se assim livres para aplicá-la novamente.

A tortura era aplicada em vários casos, a fim de obrigar as testemunhas a deporem ou induzir um herege a revelar os nomes de outros. As formas usuais de tortura eram o açoite, a queimadura, o cavalete, com a utilização de instrumentos como tesouras, alicates, garras metálicas, que destroçavam seios e mutilavam órgãos genitais, chicotes, instrumentos de carpintaria adaptados e barras de ferro aquecidas, ou apenas a prisão em celas escuras e estreitas. Queimavam-se lentamente os pés do acusado com brasas ou o amarravam a um cavalete em forma de triângulo, quando então lhe puxavam os braços e as pernas por meio de cordas presas a um molinete. Às vezes, limitava-se a alimentação do prisioneiro para lhe enfraquecer o organismo e a vontade, tornando-o assim sensível à tortura psicológica, como a de lhe prometer o perdão ou ameaçá-lo de morte. Mesmo sabendo que sob tortura os acusados seriam capazes de confessar qualquer coisa que os seus torturadores quisessem, os tribunais inquisitórios não se manifestavam para acabar com a sua prática, limitando-se a remover a essa dificuldade fazendo com que os acusados confirmassem três horas mais tarde as declarações que haviam feito quando estavam sendo torturados, caso eles se recusassem a fazê-lo, estariam sujeitos a ser torturados novamente.

Tudo isso foi realizado por aqueles que se consideram cristãos, sob a determinação do seu chefe maior, o papa, ou os papas, cujos seres humanos falsos e mentirosos, vaidosos e empavonados, repletos de astúcia e malícia, ignorantes ao extremo, em que o materialismo exacerbado se encontra impregnado em seu todos os seus ossos, para que através deles possam sentir os prazeres da carne, consideram-se o representante de Jesus, o Cristo, na Terra.

Pode o querido leitor ao menos imaginar o nosso Redentor autorizando ou compactuando com a prática da tortura? Pode o querido leitor ao menos imaginar o nosso Redentor autorizando ou compactuando com a prática de se queimar na fogueira os nossos semelhantes? Pode o querido leitor ao menos imaginar o nosso Redentor autorizando ou compactuando com o cerceamento da liberdade de pensamento, ele que foi o maior dos democratas?

É difícil de se acreditar, mas existem determinados seres humanos que se comprazem com os sofrimentos dolorosos dos seus próprios semelhantes, enquanto existem outros que sentem um imenso prazer em eles mesmos causarem sofrimentos dolorosos aos seus próprios semelhantes. É terrível, mas é assim mesmo!

Em 1286, os funcionários de Carcassonne enviaram a Filipe IV, da França, e ao papa Nicolau IV, uma carta reclamando contra o abuso com que o inquisidor João Galand aplicava as suas torturas, fazendo com que os prisioneiros fossem isolados em celas completamente escuras durante longos períodos, com alguns ficando de tal forma amarrados, que tinham de ficar sentados sobre as suas próprias fezes, podendo se deitar apenas sobre uma laje fria, enquanto outros sofriam tais torturas no cavalete, quando perdiam completamente o uso dos membros superiores e inferiores, com muitos chegando até a morrer durante a tortura. Filipe IV se limitou apenas em condenar tais crueldades. Somente em 1312, o papa Clemente V recomendou que os inquisidores moderassem os seus métodos, mas as suas recomendações jamais foram atendidas pelos sádicos inquisidores.

Os prisioneiros que em duas oportunidades haviam se recusado a confessar o crime de heresia e eram julgados mais tarde, e os que tornavam a cair em heresia, após haverem se retratado, eram condenados à prisão perpétua, sendo obrigados a jejuar, ficando acorrentados, mas geralmente eram condenados à morte na fogueira. A cobiça e o egoísmo extremos faziam com que os inquisidores confiscassem os bens dos acusados, sendo que parte dos bens confiscados eram entregues ao governo secular da província, e a outra parte entregues à Igreja, configurando-se assim em uma verdadeira prática de latrocínio. Na Itália, a terça parte dos bens confiscados eram dados ao delator, para incentivar as delações. Na França, era a coroa quem ficava com todos os bens do acusado. Tudo isso fazia parte das artimanhas e dos ardis sacerdotais para estimular as pessoas e o Estado a colaborarem uns com os outros na caça aos hereges, provocando inclusive os julgamentos dos mortos, pois que se podia tomar os bens de qualquer pessoa inocente sob a acusação de que o testador havia morrido em estado de heresia, cujos abusos os papas jamais sequer condenaram, tanto que o bispo de Rodez se vangloriou de que havia arrecadado 100.000 soles em uma única campanha contra os hereges em sua diocese, gabando-se assim da sua própria índole de ladrão.

Os inquisidores anunciavam periodicamente, em uma cerimônia geral, todas as suas condenações e penalidades, quando então os penitentes eram colocados em um tablado, no centro da igreja, eram lidas as suas confissões e lhes pediam que as confirmassem e repetissem uma fórmula abjurando a heresia, quando então o inquisidor celebrante absolvia alguns da excomunhão e depois anunciava a outros as várias sentenças. Aqueles que deviam ser “soltos” eram entregues às armas seculares, dispondo de um dia para a conversão, enquanto os que haviam confessado ou se mostravam arrependidos, mesmo que sob tortura, eram condenados à prisão perpétua, já os impenitentes eram queimados na fogueira em praça pública.

Na Espanha, esse processo de cerimônia geral e execução era denominado de ato de fé, ou auto de fé, pois que se destinava a fortalecer a ortodoxia do povo e reafirmar a sua fé credulária na Igreja, com os sacerdotes sempre exteriorizando os seus ardis e as suas astúcias, sendo tão infames, tão falsos, tão hipócritas, que eles mesmos se recusavam a aplicar a pena de morte na fogueira, afirmando descaradamente o seu antigo lema de ecclesia abhorret a sanguine, quer dizer, repugna à Igreja o sangue, como se fosse proibido ao clero o derramamento de sangue, por isso os inquisidores entregavam às armas seculares aqueles que eles mesmos haviam condenado como hereges, mas exigiam das autoridades do Estado que infligissem a divina pena: a morte na fogueira; precavendo-se assim contra o derramamento de sangue. Ora, mas esses verdadeiros assassinos, em suas perversidades extremas, eram sabedores que sendo mortos queimados na fogueira obviamente não havia derramamentos de sangue. Somente depois do pontificado de Gregório IX foi que a Igreja e o Estado passaram a concordar em que não se devia considerar de modo literal tal precaução e que o condenado devia morrer sem derramar sangue: queimado na fogueira. Mas assim sempre foi.

Nenhum historiador sabe ao certo quantas pessoas foram mortas queimadas na fogueira ao longo do tempo pela Inquisição como um todo, pois que haviam a inquisição informal e a inquisição oficial da Igreja, mas se estima que foram milhares e milhares. Somente Bernard de Caux, que foi um dos sádicos e perversos inquisidores, deixou um longo registro dos casos que foram por ele julgados, tendo somente ele condenado 930 hereges, dos quais 45 foram queimados na fogueira. No ano de 1310, em apenas uma cerimônia geral, em Tolosa, 65 pessoas foram condenadas à prisão perpétua e 18 à morte. Não são apenas as penas de morte, as prisões perpétuas e as torturas que denigrem e retratam o retrato fiel da Igreja, as grandes tragédias da Inquisição ainda jazem ocultas nos calabouços inquisitoriais.

A Igreja Católica fala muito do cordeiro do seu deus bíblico, aquele que tira os pecados do mundo, com o papa sempre aparecendo para o público com ares de inocente, com um sorriso estampado na face acenando para todos, no que é acompanhado pelos seus sacerdotes, onde se pode comprovar toda a hipocrisia deste mundo. Eles são lobos vorazes em pele de cordeiro, como depois mostrarei através de imagens verdadeiras as faces horrorosas dos credos e as duas faces sacerdotais, mas, por enquanto, a imagem abaixo mostra a verdadeira imagem da Igreja Católica Apostólica Romana.

Não se pode pôr a mínima dúvida sobre a truculência dos inquisidores e o medo que a Inquisição gerava no seio da população em geral nas aldeias, nas províncias e nas cidade, quando os agentes da Inquisição entravam em suas localidades, agindo segundo os seus próprios desejos bestiais, os quais armados com a bula papal que autorizava o líder das forças papais a servi-los, caminhavam até a parte central da aldeia, província ou cidade, amparados por soldados fortemente armados, liam a declaração papal, quando então os soldados começavam a prender os hereges, aqueles que discordavam da Igreja de Roma. As gravuras da época retratam bem essas situações constrangedoras contra a nossa própria humanidade.

Um das mais baixas patifarias sacerdotais encontradas na Inquisição, diz respeito ao fato dos sacerdotes ameaçarem as suas penitentes no confessionário, pois caso não fizessem sexo com eles seriam entregues aos inquisidores. E tão constante e efetiva era essa ameaça, que em 1710 um desses sacerdotes, pouco antes de morrer, já agonizante, confessou que “por essas persuasões diabólicas elas estavam ao nosso comando, sem medo de revelar o segredo”, cuja confissão foi revelada por um sacerdote, o padre Givens, em Master-Key to Popery, a página 36.

 

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