15.03.02.03- A Inquisição sob o controle dos papas

Prolegômenos
29 de junho de 2018 Pamam

No Ocidente, logo após a Idade da Fé, durante a Idade das Trevas, que se finda com os primórdios da Renascença, por isso engloba parte da denominada Idade Média, o falso cristianismo raramente era desafiado pelos seus próprios integrantes, notadamente por aqueles que eram médiuns ao serviço do catolicismo, com uma certa tolerância sendo praticada por parte dos seus sacerdotes, tanto que o papa Leão IX determinou que a excomunhão deveria ser o único castigo para a heresia.

No século XII, como a heresia ia se espalhando, alguns sacerdotes passaram a considerar que a excomunhão dos hereges pela Igreja deveria ser seguida de desterro e prisão pelo Estado. O restabelecimento das leis romanas em Bolonha, ensejou a que fossem criadas condições, métodos e estímulos para a inquisição credulária. Foram copiadas palavra por palavra a lei canônica da heresia do texto De Haereticis, do código de Justiniano. No século XIII, finalmente, adotou-se a lei segundo a qual a heresia devia ser punida com a morte.

Nessa época, era crença geral dos falsos cristãos, e até mesmo de muitos hereges, que a Igreja Católica havia sido criada por Jesus, o Cristo, sendo crença também que ele era filho de Jeová, o deus bíblico. Em função disso, qualquer ataque contra a fé credulária católica somente podia ser considerado como sendo oriundo de Satanás, com a finalidade de destruir o trabalho realizado pelo nosso Redentor, e que qualquer pessoa ou governo que tolerasse a heresia estaria servindo a Lúcifer. Note-se aqui a imensa influência dos espíritos obsessores sobre os seres humanos.

Considerando-se como sendo parte inseparável da moral e do governo político da Europa, a Igreja Católica passou a julgar a heresia do mesmo modo como o Estado julgava a traição, como se fosse realmente uma traição à sua doutrina e contrária aos fundamentos da ordem social por ela mesma estabelecida. Com base nesse fundamento, o papa Inocêncio III afirmou:

A lei civil pune os traidores com a confiscação de suas propriedades e com a morte. Por isso mesmo devemos excomungar todos os que traírem a fé cristã e lhes confiscar as propriedades, pois uma ofensa que se faça à majestade divina é crime infinitamente maior que o ataque contra a majestade de um soberano”.

Assim, para um estadista eclesiástico como Inocêncio III, um herege era configurado como uma criatura pior que um judeu e um muçulmano, cuja guerra com este último não passava de um reflexo da guerra astral travada entre as falanges obsessoras que lutavam em favor do islamismo e outras que lutavam em favor do catolicismo, por isso o herege era considerado como sendo um traidor que minava a união dos ditos cristãos empenhados em uma gigantesca luta contra o Islã. Além disso, os teólogos, que servem de instrumentos ao astral inferior, diziam que se qualquer um pudesse interpretar a Bíblia de acordo com a suas próprias luzes, que na realidade são luzes negras, e organizar a sua própria seita dita cristã, como atualmente surge em cada esquina uma seita protestante com fundo mercantilista, o credo católico que mantinha o fraco código moral da Europa ficaria logo reduzido a centenas de seitas e perderia a sua eficácia como fundamento social que serve de intermediação entre a sociedade e os homens, que são selvagens por natureza.

O astral inferior, agindo tanto por intermédio dos seus instrumentos encarnados, como diretamente por intermédio das suas intuições, conseguiu com que o próprio povo fosse o mais entusiasta dos perseguidores dos hereges, exceto no sul da França e no norte da Itália, onde vingavam outras correntes obsessivas, pelo que se dizia que “A turba há muito costumava linchar os hereges, antes mesmo que a Igreja tivesse começado a persegui-los”. Assim, estando dominada pelo astral inferior, a própria população ortodoxa se queixava de que a Igreja era demasiado complacente para com os hereges, por vezes chegando ao cúmulo, ao que se dizia na época: “Arrebatavam os seus sectários das mãos protetoras dos sacerdotes”. E tanto era assim que um sacerdote do norte da França escreveu a Inocêncio III o seguinte:

Nessa região, a devoção do povo é tão grande, que eles se mostram sempre prontos a mandar para a fogueira, não somente os hereges, mas também os que são suspeitos de heresia”.

Em 1114, o bispo de Soissons encerrou na prisão alguns hereges. Na sua ausência, o povo insuflado pelo astral inferior ficou descontrolado, considerando que o clero tinha sido condescendente com  eles, quando então arrombou a porta da prisão, arrancou dali os hereges e os queimou a todos na fogueira. Em 1144, em Liège, a população insistiu em queimar alguns hereges, aos quais o bispo Adalberto esperava ainda converter. Quando Pedro de Bruys declarou que “os sacerdotes mentem quando dizem que o corpo de Cristo está presente na eucaristia”, e, em seguida, queimou uma pilha de cruzes na Sexta-feira Santa, o povo o linchou no próprio local em que ele queimou as cruzes.

Embora com certa relutância, o Estado se associou à perseguição movida contra os hereges, pois receava ser impossível governar sem o auxílio da Igreja, que exigia a união de todas as crenças credulárias em uma única doutrina: a doutrina católica. Além disso, sendo também obsedados, os políticos passaram a pensar que a heresia credulária fosse apenas um véu que estivesse a cobrir o radicalismo político, obviamente que estando equivocados. No entanto, sendo geralmente avessos aos bens materiais, principalmente às riquezas sacerdotais, os bens destes podiam ser ameaçados e, por extensão, os bens do Estado.

Formou-se assim uma poderosa corrente obsessora contra os hereges que se posicionavam favoravelmente pela sua extinção, sempre por meios violentos. As classes superiores, exceto as de Languedoc, exigiam que se extirpasse a heresia a qualquer custo. Em 1194, Henrique VI, da Alemanha, ordenou que se punissem severamente os hereges e se confiscassem as suas propriedades. Editos semelhantes foram baixados por Oto IV, do sacro império romano-germânico, em 1210; por Luiz VIII, da França, em 1226; por Florença, em 1227; e por Milão, em 1228. O mais servero código de repressão contra os hereges foi decretado por Frederico II, do sacro império romano-germânico, em 1220-1239.

Os hereges condenados pela Igreja Católica tinham de ser entregues às autoridades seculares locais, para que morressem queimados na fogueira. Caso se retratassem, seriam condenados à prisão perpétua. Todas as suas propriedades eram confiscadas, os seus filhos eram deserdados, os quais não poderiam ser elegíveis para qualquer função remunerada, ou para qualquer cargo de destaque, salvo se resgatassem os pecados dos pais, denunciando outros hereges. Conforme a determinação de Jeová, o deus bíblico, contida no Velho Testamento, posta em tópico anterior, as suas casas teriam que ser destruídas, não podendo jamais serem reconstruídas, tendo Luiz IX inserido leis semelhantes nos estatutos da França.

Os sacerdotes combatiam a heresia com a severidade que lhes era peculiar. Em decorrência, o povo seguia aos sacerdotes, sendo ao mesmo tempo insuflado pelo astral inferior, enquanto que os reis, querendo a colaboração sacerdotal para se manterem no poder, e sendo intuídos pelos espíritos obsessores, resolveram em consonância tomar a iniciativa da perseguição e da aplicação da pena capital aos hereges. Em 1022, o rei Roberto, da França, mandou queimar na fogueira treze hereges em Orleans, tendo sido este o primeiro caso que se conhece de punição capital à heresia desde a execução de Prisciliano, em 385. Em 1051, Henrique III, da Alemanha, enforcou vários cataristas em Goslar, contra os protestos do bispo Wazo, de Liège, o qual considerava que a excomunhão já seria o bastante. Em 1183, o conde Filipe, de Flandres, em colaboração com o arcebispo de Reims, enviou para ser queimado na fogueira um grande número de nobres, clérigos, cavaleiros, aldeões, moças, mulheres casadas e viúvas, cujas propriedades foram confiscadas e divididas entre eles. Foi assim o começo da Inquisção, que depois os sacerdotes católicos tomaram as suas rédeas e prenderam, torturaram e queimaram na fogueira milhares e milhares de seres humanos, simplesmente porque os seus pensamentos era diferentes dos pensamentos da doutrina católica.

Antes do século XIII, tendo a Igreja Católica tomado as rédeas da Inquisição, esta geralmente ficava a cargo dos bispos, que não eram propriamente inquisidores, pois tinham como procedimento esperar que os boatos ou o clamor público apontassem os hereges, quando então os intimavam a virem às suas presenças, sempre tendo dificuldades em obrigá-los a confessar as suas heresias. Em função disso, quando não recorriam à tortura, recorriam ao julgamento do ordálio, como se o deus bíblico, ou qualquer outro espírito obsessor, fizesse algum milagre para proteger aos inocentes, tendo São Bernardo aprovado esse expediente. Em 1157, um concílio episcopal que se realizou em Reims, decretou que recorressem desse recurso como processo regular nos julgamentos dos hereges. Inocêncio III, porém, proibiu-o.

Em 1185, o papa Lúcio III, demonstrando uma intensa insatisfação com a negligência que os bispos estavam demonstrando na perseguição aos hereges, ordenou-lhes que visitassem as paróquias ao menos uma vez por ano, e lá prendessem todos os suspeitos, considerando culpados todos aqueles que não jurassem uma completa lealdade à Igreja, tendo sido nessa ocasião que os cataristas se recusaram a fazer qualquer juramento, sendo trucidados, e que também entregassem todos os recalcitrantes às armas seculares. Os emissários do papa tinham poderes de depor os bispos que se descuidassem do combate à heresia.

Em 1215, o papa Inocêncio III exigiu que todas as autoridades civis jurassem em público “expulsar de suas terras todos os hereges que haviam sido assinalados pela Igreja para a devida punição”, sob pena de interdição por heresia. O príncipe que se descuidasse dessa obrigação seria destituído e o papa eximiria os seus súditos de qualquer obediência a ele, com a punição aplicada consistindo penas em desterro e confiscação dos bens.

Em 1127, quando Gregório IX subiu ao trono papal, constatou que a heresia continuava a progredir, não obstante as perseguições do povo, governo e sacerdotes em conjunto, pois que a luta astral é medonha, e no astral inferior os espíritos obsessores não param de atuar. Os Balcãs, a maior parte da Itália e grandes regiões da França estavam de uma tal maneira impregnados de hereges que a Igreja, mesmo depois do grande poderio exercido por Inocêncio III, parecia condenada a se desintegrar em heresias. Para Gregório IX, com a Igreja lutando simultaneamente contra Frederico II e os hereges, a luta era para a sua própria sobrevivência, por isso tinha que tomar as medidas de um Estado em guerra, sem qualquer referência à sua doutrina sobrenatural tida como sendo espiritualista, tudo então girava em torno da matéria.

Gregório IX teve uma ingrata supresa quando soube que o bispo Filipe Paternon, cuja diocese se estendia desde Pisa até Arezzo, havia se convertido ao catarismo, o que o fez nomear uma junta de inquisidores, chefiada por um monge dominicano, com sede em Florença, para julgar aos hereges. E aqui se inicia propriamente a inquisição papal, embora os inquisidores ficassem oficialmente sob a jurisdição do bispo da cidade.

Em 1231, Gregório IX adotou para a legislação da Igreja as mesmas leis promulgadas por Frederico II, em 1224. Desse ano em diante, tanto a Igreja como o Estado concordaram em que a heresia impenitente seria considerada traição e deveria ser punida com a morte. E assim se estabeleceu então oficialmente a Inquisição sob o controle dos papas.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Romae