15.03.02.01- Os primórdios da Inquisição

Prolegômenos
29 de junho de 2018 Pamam

Por volta do século XI, a riqueza da Igreja era tão imensa quanto a extensão das suas funções malévolas que se espalhavam pelo mundo, tornando-se em função disso as principais causas das heresias desse tempo. Arnoldo de Bréscia anunciou ao mundo que iriam para o inferno todos os sacerdotes que ao morrer tivessem propriedades. Os bogomilos, os valdenses, os paterinos e os cátaros granjearam muitos partidários ao condenarem a imensa riqueza que havia sido auferida por aqueles que se consideravam os seguidores de Jesus, o Cristo, que em contradição a toda essa riqueza havia vivido na mais extrema pobreza. Com o acúmulo cada vez maior de riquezas por parte da Igreja, já no século XIII uma sátira favorita dizia que o “Evangelho era de acordo com as moedas de prata”.

Haviam muitas queixas por parte de todos os credulários católicos, tanto sobre a riqueza como da avareza dos sacerdotes, que constam em quase toda a literatura desse tempo, como no Fabiaux, Chansons de Gestes, no Roman de la Rose, nos poemas dos mestres errantes, nos trovadores, em Dante, e até mesmo nas crônicas dos próprios mosteiros, pois que Mateus Paris, um monge inglês, denunciou a venalidade dos prelados ingleses e romanos, dizendo que eles “viviam suntuosamente às custas do patrimônio de Cristo”, como se Jesus, o Cristo, tivesse algum outro patrimônio que não fosse no âmbito espiritual, que é o único que realmente tem valor, pelo fato de ser eterno, enquanto que o patrimônio material é efêmero, com o seu detentor dele se desfazendo completamente no momento da desencarnação.

Hubert de Romans, superior da ordem dominicana, escreveu sobre o fato de “pessoas terem subornado prelados de tribunais eclesiásticos”. Pedro Cantor, um sacerdote, contou histórias de outros sacerdotes que vendiam missas e rezas, o que não é novidade, pois que até hoje essa prática é constante. Becket, arcebispo de Cantuária, atacou em público a corte do pontífice, taxando-a de venal, citando Henrique II por se ter vangloriado de estar ao seu soldo todo o colégio de cardeais. Assim, a própria Igreja criticava a coleta excessiva do seu clero, tentando refrear a cobiça e o luxo, em face da opinião pública desabonadora das atividades sacerdotais, que poderia influir negativamente nos seus desígnios, portanto, na sua doutrina.

São Pedro Damião, São Bernardo, São Francisco, o cardeal de Vitry e até mesmo simples monges se esforçaram por atenuar a esses abusos sacerdotais, sendo por intermédio dos seus escritos que os historiadores chegaram a conhecer a todas essas ocorrências. Nessa época, as ações dos espíritos obsessores ainda não era tão intensa como na época atual, porém mais belicosa, havendo uma parte de sacerdotes que acreditava realmente na doutrina católica, pelo que algumas ordens monásticas tentaram uma reforma de conduta em relação aos seus colegas mais degenerados, fornecendo para tanto o bom exemplo das suas próprias condutas. E isso teve alguma repercussão, pois o papa Alexandre III e o Concílio de Latrão, de 1179, condenaram a exigência de emolumentos para ministrar batismos, extrema-unções e celebrar casamentos. Em 1274, Gregório X fez realizar um concílio ecumênico em Lyon, unicamente para tomar medidas relacionadas com a reforma da Igreja.

A corrente anticlerical atingiu o seu auge ao final do século XII, com a organização de grupos credulários carregados de misticismos que se ressentiam da organização católica assim posta para o mundo. Agregando-se a esses ressentimentos, ondas de misticismos vindas do Oriente invadiram o Ocidente, que foram trazidas por aqueles que voltavam das Cruzadas. Essas ondas de misticismos formaram correntes que já se encontravam na Pérsia, vindas através da Ásia Menor e dos Balcãs, como o dualismo maniqueu e o comunismo masdeísta. Da Ásia, vieram as correntes de hostilidade às imagens com os iconoclastas, um obscuro fatalismo e a repulsa pelos sacerdotes. Além do mais, o fracasso das Cruzadas originou dúvidas quanto a origem da Igreja, por conseguinte, o apoio divino que a ela se julgava existir. Ora, era uma guerra de credo contra credo, portanto, decorrente de uma guerra astral, entre as falanges de espíritos obsessores que serviam ao catolicismo e as falanges de outros espíritos obsessores que serviam ao islamismo e outros credos, mas provocada pelas falanges que serviam ao catolicismo.

Os paulicianos, pelo fato de haverem fugido para o Ocidente, em função da perseguição que lhes moviam os bizantinos, levaram através dos Balcãs para a Itália e a Provença o seu desdém pelas imagens, pelos sacramentos e pelos sacerdotes. Aonde agora eles se encontravam, passavam a dividir o Universo em um mundo espíritual criado pelo seu deus e um outro mundo material criado por Satanás, identificando a este com Jeová, o deus bíblico, que se mostra bem pior do que essa figura lendária inexistente.

Foi assim que os bogomilos, ou seja, os amigos de quem eles julgavam ser deus, surgiram na Bulgária, espalhando-se depois pela Bósnia, cuja corrente representava uma resposta à estratificação social ocorrida como resultado da introdução do feudalismo e como uma forma de movimento político em oposição ao Estado búlgaro e a Igreja. Para os bogomilos, o seu deus criador do espírito se diferenciava claramente do deus criador da matéria, seguindo assim a mesma doutrina pregada pelos paulicianos, pelo que pregavam a igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza. Note-se aqui, que mesmo nessa época, alguns já tinham a clarividência do domínio repulsivo dos sacerdotes sobre os povos. No século XIII, como foram várias vezes atacados a ferro e a fogo pelos soberanos búlgaros e pelos imperadores bizantinos, os bogomilos se espalharam por toda a Europa Central e Ocidental, onde foram alvo de repressão por parte das autoridades católicas, sempre se defendendo dos ataques de repressão com tenacidade, até que em 1463 decidiram se render, não aos ditos cristãos, mas sim aos islamitas.

Por volta do ano 1000, apareceu em Tolosa e em Orleãs uma seita que negava a veracidade dos milagres, a virtude regeneradora do batismo, a presença de Jesus, o Cristo, na eucaristia, e a eficácia das preces aos santos. Pode-se aqui constatar claramente que durante todos os tempos da existência do catolicismo, sempre encarnaram espíritos com a missão de desmistificar as crenças católicas sobrenaturalísticas, apesar de também medrarem no âmbito do sobrenatural, tendo por base a doutrina católica. De início, a Igreja não lhe deu muita atenção, mas depois passou a condená-la. E assim, tem início a Inquisição, pois treze dos membros dessa seita morreram queimados na fogueira, em 1023.

Mas o combate a esse credo católico de características horripilantes teve a sua devida continuidade, surgindo depois outros hereges com características semelhantes, os quais provocaram várias desordens no seio do credo católico, contrariando as suas malévolas e inconfessáveis intenções de domíno geral dos povos, mais especificamente nas cidades de Cambrai e Liege, em 1025, Goslar, em 1052, Soissons, em 1114, Colônia, em 1146, e outras.

Bertoldo, de Regensburgo, calculou em 50 o número de seitas heréticas durante o século XIII. Algumas delas eram apenas grupos inofensivos que se reuniam para ler a Bíblia e expor a sua própria interpretação sobre as questões controversas. Várias delas, como a dos humiliati, na Itália, a dos beguinos e beghards, nos Países-Baixos, eram ortodoxas em tudo, salvo em um ponto que defendiam ardorosamente: o dos sacerdotes viverem na pobreza. Mas isto era frontalmente oposto à prática sacerdotal. A ordem dos franciscanos surgiu como uma dessas seitas, e quase foi denominada de herege.

Por volta do ano  1170, Pedro Valdo, que era um rico mercador de Lyon, contratou alguns eruditos para traduzirem a Bíblia no sul da França. Ele estudou com disposição a tradução e chegou à conclusão de que os ditos cristãos deveriam morrer tal como os apóstolos, sem a posse de riquezas e propriedades. A seguir, doou metade da sua fortuna à sua própria esposa, distribuiu o restante entre os pobres e deu início a uma pregação sobre as virtudes da pobreza. Deste modo, ele conseguiu reunir em sua volta um pequeno grupo, denominado de Os Pobres de Lyon, cujos integrantes se vestiam como monges, viviam castamente e andavam com sandálias, às vezes até descalços. Tudo o que eles arrecadavam era destinado ao bem comum. Tanta humildade assim demonstrada não foi objeto de maiores atenções por parte dos sacerdotes católicos, que permitiam até que os valdenses lessem e cantassem em suas igrejas. No entanto, quando Pedro Valdo entrou de vez na seara católica, observando literal e rigorosamente os Evangelhos, foi logo advertido pelo arcebispo de Lyon, que lhe fez ver que somente aos bispos era permitido pregar. E aqui se observa claramente a intenção sacerdotal de manter o povo sob o seu domínio, pois já nessa época não se permitia qualquer pensamento alheio aos ditames doutrinais católicos. Em 1179, tendo ficado insatisfeito com a advertência do arcebispo, Pedro Valdo foi a Roma e solicitou ao papa Alexandre III uma licença para pregar, tendo o papa concedido a licença, contanto que tivesse a permissão e a supervisão do clero local.

Assim, Pedro Valdez recomeçou a pregar os Evangelhos, mas sem a permissão e a supervisão do clero local, pois ele era ciente de que os seus pensamentos eram antagônicos aos pensamentos do clero local. E aqui é de se indagar: qual dos dois pensamentos eram realmente os bens intencionados, mesmo sendo ambos credulários? Os seus adeptos se entregaram ao estudo da Bíblia, da qual decoravam grandes trechos. Sendo os valdenses bem intencionados, logo o movimento formou uma corrente contrária à corrente católica, assumindo uma forma antissacerdotal. Daí, passaram a não mais reconhecer qualquer autoridade do clero católico. Em seguida, passaram também a negar a validade dos sacramentos ministrados pelos sacerdotes da Igreja, que foram todos considerados como sendo pecadores, e deram a todos os crentes em estado de santidade o poder de perdoar os pecados. O sobrenaturalismo exacerbado da doutrina católica passou a ser repudiado, quando então os valdenses passaram a desprezar as indulgências, o purgatório, a transubstanciação e as preces aos santos, formou-se um grupo que pregava que “todas as coisas deviam ser propriedade comum a todos”, tal como sendo precursor do comunismo, outro grupo identificou a Igreja como sendo a mulher escarlate do Apocalipse.

Sendo dissidente do catolicismo, a seita foi condenada pela Igreja, em 1184. Em 1206, uma pequena parte dela, denominada  de os católicos pobres, foi aceita pela Igreja por Inocêncio III. Mas a maioria persistiu em sua heresia, espalhando-se pela França, Espanha e Alemanha. Em 1229, um Concílio que se realizou em Tolosa, com a finalidade de impedir a esse movimento herético, decretou que nenhum leigo deveria possuir livros das Escrituras, exceto o Saltério e as Horas, os quais consistiam principalmente dos Salmos, tampouco podia ler estes últimos, a não ser que fosse em latim, em face de nenhuma tradução para o vernáculo haver sido ainda examinada e autorizada pela Igreja. Durante a supressão dos albigenses, milhares de valdenses morreram queimados na fogueira, menos Pedro Valdez, o seu precursor, que morreu na Boêmia, em 1217, ao que parece de morte natural.

Em meados do século XII, havia um considerável número de seitas heréticas na Europa Ocidental, e tantas eram essas seitas que um bispo, em 1190, veio a declarar: “As cidades estão repletas desses falsos profetas”. Sozinha, Milão contava com dezessete novas seitas. Lá, os principais hereges eram os patarinos, cuja denominação se originou da Pataria, que era um quarteirão pobre da cidade. Daí a razão pela qual o movimento havia se iniciado como protesto  contra os ricos, e como os sacerdotes católicos acumulavam muitas riquezas, logo esse movimento se transformou em anticlericalismo, passando a condenar a sodomia, a riqueza e o concubinato do clero católico, com a proposta de um dos seus chefes afirmando:

Que se apropriassem da riqueza do clero e a vendessem em leilão, e que saqueassem as casas dos sacerdotes que opusessem resistência, enxotando da cidade a esses bastardos”.

Outros grupos anticlericais surgiram em Viterbo, Orvieto, Verona, Ferrara, Parma, Piacenza, Rimini, e outras cidades. Tornando-se fortes, chegavam a dominar as assembleias populares, apoderavam-se do governo da cidade e obrigavam o clero a pagar um tributo em prol dos empreendimentos civis. Inocêncio III deu instruções ao seu emissário na Lombardia para que exigisse de todas as autoridades municipais o juramento de que não nomeariam hereges para as funções públicas. Em 1237, porém, em Milão, uma multidão “blasfemando e injuriando” veio a profanar várias igrejas, com uma baixa torpeza, pois que, na realidade, a luta maior se processava no astral inferior, entre as falanges católicas e as falanges anticatólicas.

Dentre essas seitas heréticas, a que se tornou mais poderosa foi a dos cátaros, oriunda dos Balcãs, também denominados de albigenses, em face da cidade francesa de Albi.

As doutrinas e as práticas cataristas, em uma parte, eram ligadas às primitivas crenças e costumes dito cristãos, em outra, uma vaga lembrança da heresia ariana que havia prevalecido no sul da França, quando sob o domínio dos visigodos, assim como também um resultado do maniqueísmo e outras crenças do Oriente. Eles tinham os seus próprios sacerdotes e bispos, que eram denominados de perfecti, os quais usavam mantos pretos. Ao serem ordenados, faziam votos de deixar os parentes, as companheiras e os filhos, passando a se dedicar unicamente ao deus bíblico e aos Evangelhos, sem jamais tocarem em uma mulher, matar um animal e comer carne, ovos e laticínios, alimentando-se apenas de peixes e verduras. Os crentes eram os adeptos que prometiam fazer mais tarde tais votos, sendo-lhes permitido que comessem carne e que se casassem, mas deles se exigia que renunciassem definitivamente à Igreja Católica, procurando atingir uma vida perfeita, e que, ao cumprimentarem qualquer um dos perfecti, que o fizesse reverentemente com três genuflexões.

Esses cataristas, ou albigenses, foram descritos pelos seus oponentes como sendo uma seita que não acreditava em sacramentos, missas, adoração aos santos, Trindade e concepção da Virgem. Para eles, Jesus, o Cristo, era um anjo e não o mesmo que Deus. Repudiavam a instituição da propriedade privada e queriam os bens para todos. O Sermão da Montanha era a essência da sua moral. Aprendiam a amar os inimigos, a cuidar dos doentes e dos pobres, a jamais blasfemar e a manter sempre a paz. Para eles, a força física jamais poderia fazer parte da moral, até mesmo contra os infiéis, com a punição capital sendo um crime. Deviam contar sempre com o triunfo de Deus sobre o mal, e jamais recorrer a medidas condenáveis. Não havia inferno ou purgatório em sua teologia, todas as almas deveriam ser salvas, mesmo que fosse através de muitas transmigrações purificadoras.

A Igreja se conservava um tanto indiferente a essas heresias, e talvez assim permanecesse, caso não tivessem os cátaros se empenhado em atividades contra a sua doutrina, criticando-a. Nessas críticas, eles negavam que ela fosse a Igreja de Jesus, o Cristo, que Pedro tivesse ido a Roma e fundado o papado, em que nisto se encontravam absolutamente corretos. Para eles os papas eram os sucessores dos imperadores romanos, e não dos apóstolos. Diziam que Jesus, o Cristo, não tinha sequer um lugar para repousar, enquanto o papa vivia em um verdadeiro palácio, que o Nazareno não tivera propriedades, nem dinheiro, e, no entanto, os sacerdotes ditos cristãos eram ricos, dizendo que “Esses grandes senhores bispos e arcebispos, esses sacerdotes mundanos e monges bem nutridos, sem dúvida, eram os antigos fariseus que haviam resssuscitado”, pelo que afirmavam que a Igreja romana era a “cortesã da Babilônia”, o clero a sinagoga de Satanás, o papa um Anticristo, acusando de assassinos os que pregavam as Cruzadas, com muitos ridicularizando as indulgências e as relíquias.

Os sacerdotes católicos e as forças seculares do sul da França toleraram os cátaros durante algum tempo, dando a entender que se permitia ao povo escolher entre o credo católico e a nova seita, das duas a que mais lhe convinha. Teólogos católicos e cataristas travavam debates em público. Em 1167, vários ramos cataristas realizaram um concílio, ao qual compareceram representantes de vários países, quando discutiram e regularam a doutrina, a disciplina e a administração cátaras. A nobreza julgava que se devia enfraquecer a Igreja no Languedoc, pois ela era muito rica e possuía muitas terras, enquanto que os nobres eram relativamente pobres, por isso começaram a se apoderar das suas propriedades. Tudo isso não passava de manobras astrais entre as falanges antagônicas para se transformar em sangue.

Em 1198, ao assumir o papado, Inocêncio III viu nesses acontecimentos uma ameaça à Igreja Católica, embora reconhecendo que certas críticas a ela tinham lá os seus fundamentos, mesmo assim considerou que não podia permanecer inativo quando a grande organização eclesiástica estava sendo atacada em seus próprios fundamentos, sendo ridicularizada com blasfêmias, principalmente sendo expoliada dos seus bens, que era o fator principal, pois assim como a Igreja, o Estado também havia cometido pecados e sustentado a corrupção e funcionários indignos, mas somente os loucos é que poderiam se atrever a destruí-lo. O catarismo pareceu a Inocêncio III um acervo doutrinário que envenenaria as almas mais simples, que se encontravam sob o seu domínio pleno. Que adiantaria uma cruzada contra os infiéis da Palestina, quando aqueles infiéis albigenses estavam se multiplicando no seio de toda a dita cristandade? Assim, escreveu ao arcebispo de Auch, na Gasconha, dizendo o seguinte:

O pequeno barco de São Pedro está sendo sacudido por muitas tempestades no mar, porém o que mais me compunge é o fato de estarem surgindo agora, cada vez mais livres e injuriosos, ministros que cometem erros diabólicos e tecem armadilhas às almas simples. Com as suas superstições e mentiras estão pervertendo o significado das Sagradas Escrituras, procurando destruir a união da Igreja Católica. Uma vez que esse erro pestilento se está desenvolvendo na Gasconha e territórios vizinhos, desejaria que vós e os vossos bispos resistissem a ele com toda a energia. Damo-vos ordens peremptórias para destruirdes todas essas heresias e repelirdes de vossa diocese todos os que estiverem contaminados por elas, empregando para isso todos os meios que puderdes. Se necessário, podereis obrigar os príncipes e o povo a suprimi-las com a espada”.

O arcebispo de Auch, conhecendo o povo da sua região, não tomou qualquer iniciativa no sentido de suprimir as heresias. O arcebispo de Narbonne e o bispo de Beziers opuseram resistência aos emissários que Inocêncio III enviara a fim de pôr em execução os seus decretos. Nessa ocasião, seis senhoras da nobreza, que eram dirigidas pela irmã do conde de Foix, converteram-se ao catarismo, em uma cerimônia pública em que compareceram muitos nobres.

Em 1204, Inocêncio III resolveu então substituir os emissários que haviam fracassado nas suas determinações por Arnaldo, o qual demonstrava ser um agente mais resoluto, que era superior dos monges cistercienses, dando-lhe poderes extraordinários para fazer inquisições em toda a França, encarregando-o de oferecer indulgência plenária ao rei e aos nobres da França em troca do seu auxílio na supressão da heresia catarista. A Filipe Augusto, em troca desse auxílio, o papa ofereceu as terras de todos aqueles que deixassem de participar da cruzada contra os albigenses, tendo ele hesitado em aceitar a proposta, pois havia acabado de conquistar a Normandia. Raimundo VI, de Tolosa, concordou em se servir dos argumentos de persuasão junto aos hereges, mas se recusou a tomar parte em uma guerra contra eles, tendo sido então excomungado, pelo que, com medo, prometeu fazer o que o papa queria, tendo sido absolvido, e mais uma vez adotou a atitude anterior. Ao receber ordens de um emissário do papa para expulsar de suas terras os cataristas, um cavaleiro afirmou:

Como poderíamos agir? Fomos criados com essa gente, temos parentes no meio deles e muitos vivem honradamente”.

Surge em cena, então, São Domingos, vindo da Espanha, que pregou pacificamente para os hereges, trazendo muitos deles de volta à ortodoxia, com o exemplo da sua vida correta. E caso assim tivesse continuado essas pregações, desde que devidamente acompanhada de uma reforma no clero, sem que não tivesse sido assassinado Pedro de Castelnau, um emissário do papa, por um cavaleiro que depois ficou sob a proteção de Raimundo VI, o papa Inocêncio III talvez tivesse suportado por mais tempo o malogro dos seus planos, posto que suportou durante dez anos, quando então recorreu a medidas extremas. Excomungou Raimundo VI e toda a sua gente, interditou as suas terras e as ofereceu a todos os “cristãos” que delas pudessem se apoderar, ao mesmo tempo que chamou os “cristãos” de todos os países para fazerem uma cruzada contra os albigenses, sendo seguida a sua determinação, pois chegaram muitos contingentes para essa cruzada, procedentes da Alemanha e da Itália, já que havia sido prometida a mesma indulgência plenária que havia sido prometida àqueles que levaram a cruz para a Palestina, nas Cruzadas. E assim o credo católico, que tanto prega a humildade, penitenciou em público a Raimundo VI, que com medo antes havia pedido perdão à Igreja Católica, humilhando-o na frente de todos, tendo sido ele flagelado seminu na igreja de são Gilles e, depois, mesmo assim, ainda se alistado na guerra santa, em 1209.

A maioria da população de Languedoc, tanto os nobres como a gente do povo, resistiu aos cruzados, pois sabia que o ataque dos barões do norte e dos seus soldados não passava de uma tentativa para se apoderarem das terras que lhe pertenciam, sob a capa do zelo credulário. Assim, até mesmo os “cristãos” ortodoxos do sul combateram os invasores do norte. E aqui continua os primórdios da Inquisição, pois antes vários há haviam sido queimados na fogueira, tudo a mando do papado, o legítimo representante de Jeová, o deus bíblico, na Terra, em que esse deusinho safado e belicoso, ou outro em seu lugar, encontrava-se quedado na sua atmosfera, chefiando falanges de espíritos obsessores.

Ao se aproximarem de Belziers, os cruzados propuseram poupar a cidade dos horrores da guerra, desde que lhes entregassem todos os hereges mencionados em uma lista que havia sido feito por um dos seus bispos. Os principais chefes da cidade se recusaram dignamente em aceitar a proposta, afirmando valentemente que preferiam resistir ao cerco, nem que fossem obrigados a comer os seus próprios filhos. Os cruzados, então, escalaram as muralhas, conquistaram a cidade, e massacraram 20.000 habitantes, não poupando sequer as mulheres e as criancinhas, assim mesmo como ordena o próprio Jeová, o “misericordioso” deus bíblico, como veremos mais adiante em outro tópico, tendo trucidado, inclusive, aos que procuraram abrigo nas suas próprias igrejas, esses antros da perdição, que somente os loucos podem frequentar.

Cesário, de Heisterbach, um monge cisterciense, que escreveu a respeito desse massacre vinte anos mais tarde, passou a ser a única fonte desse genocídio credulário católico que se passou contra a heresia. Quando perguntaram a Arnaldo, o agente papal, se se devia poupar pelo menos os católicos, ele respondeu: “Matai-os a todos, pois deus sabe quais são os seus”, obedecendo aos ensinamentos de Jeová e, ao mesmo tempo, precavendo-se que os derrotados viessem a se declarar ortodoxos na ocasião, unicamente para não serem mortos.

Tendo reduzido a cinzas a cidade de Beziers e massacrado toda a sua população, sendo conduzidos pelo vil Raimundo VI, os cruzados avançaram para atacar a fortaleza de Carcassone, onde o conde Rogério de Beziers, sobrinho de Raimundo VI, opôs uma última resistência, tendo a fortaleza sido também conquistada.

O mais fanático dos chefes dessa cruzada foi Simão de Montfort, nascido na França, por volta do ano de 1170, filho mais velho do grão-senhor de Montfort, nas proximidades de Paris, tendo se tornado conde de Laicester por parte da sua mãe, que era inglesa, o qual, em seu fanatismo credulário, ouvia missa todos os dias, sendo célebre pela sua castidade e por haver se distinguido na campanha da Palestina. Sendo estimulado pelo agente papal, ele marchou com o seu exército atacando cidade por cidade, vencendo todas as resistências que lhe foram oferecidas, ordenando às suas populações que escolhessem: ou a obediência à fé credulária católica romana, ou então a morte como hereges. Enquanto milhares fizeram votos de fé credulária católica romana, centenas de outros dissidentes preferiram mesmo a morte impiedosa a se submeterem ao catolicismo.

Simão de Montfort prosseguiu em suas campanhas durante quatro anos, devastando quase todo o território do conde Raimundo VI, exceto Tolosa, que em 1215 finalmente se rendeu a ele. O conde Raimundo VI então foi deposto por um concílio de prelados que se realizou em Montpellier e Simão de Montfort se apossou do seu título e da maior parte das suas terras. Depois Inocêncio III concedeu mercê a Raimundo VI e lhe deu uma anuidade, deixando a Igreja a zelar por uma parcela de suas propriedades em favor do seu filho.

A briga era originalmente astral, mas para os agressores essa cruzada contra os hereges tinha apenas no topo a figura de acabar com a heresia, sendo, na realidade, um verdadeiro latrocínio, pois os seus integrantes se apropriaram dos bens que pertenciam a homens que não eram culpados de heresia, além de praticarem os mais diversos tipos de roubos e assassinatos, demonstrando a máxima crueldade para com os seus próprios semelhantes.

Em 1218, Raimundo VII, ao completar a maioridade, reconquistou Tolosa, tendo Simão de Montfort morrido no segundo dia do cerco da cidade. Com a morte de Inocêncio III, a cruzada foi suspensa, quando então os albigenses que haviam sobrevivido se entregaram novamente à prática das suas crenças cataristas, desta vez sob o governo complacente de Raimundo VII, o novo conde de Tolosa.

Em 1223, Luiz VIII, da França, ofereceu-se para depor Raimundo VII e esmagar a todos os hereges no território do novo conde de Tolosa, caso o papa Honório III permitisse que ele ficasse com toda a região. Ao que parece a resposta do papa foi positiva, pois que se deu início a uma nova cruzada. Em 1226, Luiz VIII se encontrava praticamente vitorioso, quando morreu em Montpensier. Raimundo VII, então, aproveitou a oportunidade para fazer a paz com Branca de Castela, regente de Luiz IX, oferecendo a mão de sua filha Joana a Afonso, irmão de Luiz VIII, para cujo casal reverteriam as suas terras, quando ele, Raimundo VII morresse. Atendendo às exigências dos rebeldes nobres, Branca de Castela aceitou o noivado, com que o papa Gregório III concordou, sob a condição de que Raimundo VII suprimisse todos os hereges. Em 1229, assinaram um tratado de paz em Paris, e as guerras contra os albigenses chegaram a um fim, após trinta anos de devastações. Os católicos triunfaram, mas se tornaram ainda bem mais intolerantes do que eram antes.

Em 1229, o Concílio de Narbonne proibiu que os leigos mantivessem consigo qualquer parcela da Bíblia. O feudalismo tomou um maior vulto e a liberdade dos municípios entrou em declínio. Em 1271, Joana e Afonso, que haviam herdado todas as propriedades de Raimundo VII, morriam sem descendentes, e o grande condado de Tolosa passou para as mãos de Luiz IX, ou seja, para a coroa francesa. A França central ficou com escoadouros comerciais completamente livres no Mediterrâneo, dando um grande passo para a sua união, em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade. Isto, juntamente com a Inquisição, foram os principais resultados das cruzadas contra os albigenses.

O Importante agora é saber quais são as causas verdadeiras dos ataques aos albigenses e o desencandear de todos os crimes cometidos pela Inquisição.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Romae