15.03.01.10- O modernismo

Prolegômenos
29 de junho de 2018 Pamam

O Modernismo é o apego a tudo aquilo que é considerado como sendo moderno, que se traduz no sistema e no gosto de seguir tudo o que seja moderno, entendendo-se como moderno tudo aquilo que seja recente, de pouco tempo, o atual, o presente, o de hoje, o que está em moda, o que não seja antigo em qualquer corporação ou em qualquer emprego. Há que se ressaltar que o termo moderno também é utilizado em oposição ao que é ultrapassado, podendo neste sentido ser sinônimo de contemporâneo, embora sob o ponto de vista histórico e cultural, as palavras moderno e contemporâneo abranjam contextos bastante diversos. Daí o nome comum de vários movimentos literários, artísticos e credulários dos séculos XIX e XX, por se terem apartado dos moldes tradicionais, tais como o Cubismo, o Dadaísmo, o Futurismo, o Expressionismo, o Superrealismo, etc. Em decorrência, o surgimento dos métodos e das tendências para reexaminar o dogma, a apologética, os textos ditos sagrados, etc., à luz da ciência e da crítica modernas, deixando para trás o tradicionalismo. Apesar de ser possível encontrar pontos de convergência entre os vários movimentos modernistas, eles geralmente se diferenciam e até mesmo se antagonizam.

O movimento modernista é o mais puro reflexo do plano de espiritualização da nossa humanidade, em virtude da aproximação do século das luzes, através da encarnação de muitos espíritos que vieram para este mundo tendo se não novas ideias a respeito da vida, já que a nossa humanidade ainda se encontra ainda na fase da imaginação, pelos menos novas representações imaginativas, novos pensamentos, em detrimento das formas tradicionais da literatura, do design, das artes plásticas, da organização social e da vida cotidiana que se tornaram ultrapassadas, pois já se fazia necessário deixá-las de lado e criar em seu lugar uma nova cultura.

Esta constatação apoiou a imaginação de se reexaminar cada aspecto da nossa existência, da vida cotidiana à Saperologia, já que a Veritologia ainda era desconhecida, tendo emergido neste mundo apenas através do Racionalismo Cristão, com o objetivo de encontrar o que seriam as tradições antigas e substituí-las por novas formas mais avançadas possíveis de se chegar ao progresso. Em essência, o movimento moderno argumentava que as novas realidades do século XX eram permanentes e eminentes, e que os seres humanos deveriam se adaptar às suas visões do mundo a fim de poderem aceitar que o que era novo era também melhor e mais belo, ou, pelo menos, feio em menor proporção.

No Brasil, os principais artifícios do movimento modernista não se opunham a todas as realizações artísticas anteriores às nossas. A grande batalha se colocava contra o passado, quer dizer, a tudo aquilo que viesse impedir a livre criação. Assim, pode-se dizer que a proposta modernista era de uma ruptura estética quase completa com o engrossamento da arte encontrado nas escolas anteriores e de uma ampliação dos horizontes dessa arte antes delimitada pelos padrões acadêmicos. Em paralelo à ruptura, não se pode negar o desejo dos escritores em conhecer e explorar o passado como fonte de criação, mas não como sendo norma para poder se criar. Como expressões dessas manifestações por ruptura, que ao mesmo tempo respeitavam as obras da tradição literária, temos o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, a obra Macunaíma, o retrato dos brasileiros através das influências cubistas de Tarsila do Amaral, a obra Casa Grande & Senzala, dentre inúmeras outras. As revistas da época também se dedicaram ao tema, tais como Estética, Klaxon e Antropofagia, que foram meios de comunicação entre o movimento, os artistas e a sociedade.

Na Europa, a primeira metade do século XIX foi marcada por uma série de guerras e revoluções turbulentas, as quais se traduziram gradualmente em um conjunto de doutrinas atualmente identificadas com o movimento romântico, focado na experiência individual subjetiva, na supremacia da natureza como um tema padrão na arte, nos meios de expressão revolucionários ou radicais e na liberdade do indivíduo. Entretanto, em meados do século, uma síntese destas representações imaginativas e formas de governo estáveis surgiram, já que um dos objetivos do plano de espiritualização da nossa humanidade era justamente a formação das diversas nações, com cada uma delas alojada em seu próprio território, para que assim houvesse as suas soberanias. Sendo denominada por vários nomes, esta síntese se baseava no pensamento de que o que era real dominou o que era subjetivo. Surgiram, então, várias representações imaginativas com as conotações saperológicas, como o Positivismo, uma doutrina veritológica idealizada pelo francês Augusto Comte, a qual me reportarei diretamente a ela quando da explanação da categoria A Era da Verdade, e normas descritas pela palavra vitoriano, que diz respeito à rainha da Inglaterra, período de 1819 a 1901, ao seu tempo, o apogeu do Reino Unido no seu reinado.

No entanto, o fundamental para esta síntese foi a importância das instituições, das noções comuns e dos quadros de referência, os quais se inspiraram em normas credulárias encontradas no falso cristianismo, em normas científicas da Física clássica e em doutrinas que pregavam a percepção da realidade básica externa através de um ponto de vista mais objetivo. Historiadores e críticos rotulam este conjunto de doutrinas como Realismo, apesar deste termo não ser ainda universal, e apesar de toda a nossa humanidade ainda viver na irrealidade da vida, por ignorar a verdadeira espiritualidade, principalmente as ações nefastas dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, que cometem crimes de todas as espécies. Na Veritologia, as doutrinas positivista e racionalista estabeleceram uma valorização da razão, apesar de ainda estarem um tanto longe do seu alcance.

Contra essas correntes modernistas estavam uma série de representações imaginativas, com algumas delas sendo continuações diretas das escolas românticas de pensamentos. Eram considerados como sendo notáveis os movimentos bucólicos e revivalistas nas artes plásticas e na poesia, a irmandade pré-rafaelita e a saperologia de John Ruskin. A doutrina do Racionalismo também manifestou respostas do antirracionalismo na Veritologia. Em particular, a visão dialética de Hegel acerca da civilização e da História gerou respostas de Friedrich Nietzsche e Kierkegaard, este sendo considerado pelos estudiosos como sendo o principal precursor do Existencialismo. Em adição, Sigmund Freud ofereceu uma visão dos estados subjetivos que envolviam uma mente subconsciente repleta de impulsos primários e restrições contrabalançantes, e Carl Jung combinaria a doutrina de Sigmund Freud com uma crença na essência natural para poder estipular um inconsciente coletivo, que era repleto de tipologias básicas que a mente consciente enfrentou ou assumiu. Porém, todas essas reações individuais reunidas ofereceram um desafio a quaisquer representações imaginativas confortáveis de certeza derivadas desta civilização, da História ou da razão pura, sendo esta alcançada somente agora por intermédio desta explanação de A Filosofia da Administração.

Na França, duas escolas gerariam um impacto particular. A primeira seria o Impressionismo, surgida a partir de 1872, uma escola de pintura que inicialmente se preocupou com o trabalho feito ao ar livre, ao invés dos estúdios, pois se argumentava que o ser humano não via os objetos, mas sim a própria luz refletida pelos objetos, o que realmente procede. O movimento reuniu simpatizantes, tornando-se cada vez mais influente, apesar das divisões internas entre os seus principais membros. Ele foi originalmente rejeitado pelas mais importantes exposições comerciais do período, pois o governo patrocinava o Salon de Paris, mas Napoleão III viria criar o Salon des Refusés, que iria expor todas as pinturas rejeitadas pelo Salon de Paris. Enquanto muitas obras artísticas seguiam o mesmo estilo padrão, mas por artistas considerados como sendo inferiores, os trabalhos de Manet atraíram uma grande atenção e abriu as portas do mercado da arte para o movimento.

A segunda escola seria o Simbolismo, marcado pela crença de que a linguagem é um meio de expressão simbólico em sua natureza, e que a prosa e a poesia deveriam seguir conexões que as curvas sonoras e a textura que as palavras pudessem criar. Tendo as suas raízes em As Flores do Mal, de Baudelaire, cuja obra foi publicada em 1857. Poetas como Rimbaud, Lautréamont e Stéphane Mallarmé seriam de particular importância para o que aconteceria dali para frente.

Ao mesmo tempo, forças sociais, políticas e econômicas estavam trabalhando de forma a serem usadas eventualmente como base para uma forma radicalmente diferente de arte e de pensamento.

Escabeçando a esse processo estava a industrialização, que produziu obras como a Torre Eiffel, que superou todas as limitações anteriores que determinavam o quão alto um edifício poderia ser, e, ao mesmo tempo, possibilitava um ambiente para a vida urbana notadamente diferente dos ambientes anteriores. As misérias da urbanização industrial e as possibilidades criadas pelo exame científico das disciplinas, seriam cruciais na série de mudanças que abalariam a civilização europeia, a qual se considerava naquele momento tendo uma linha de desenvolvimento contínua e evolutiva desde a Renascença.

A marca das mudanças que ocorriam pode ser encontrada na forma como tantas parcelas do Saber e artes são descritas em suas formas anteriores ao século XX pelo rótulo clássico, incluindo-se a Física, a Economia e o ballet clássicos.

Em princípio, o movimento pode ser descrito genericamente como sendo uma rejeição da tradição e uma tendência a encarar os problemas sob uma nova perspectiva, baseada em representações imaginativas e em técnicas mais atuais. Daí o fato de Gustav Mahler considerar a si próprio um compositor moderno e Gustave Flaubert ter proferido a sua famosa frase: “É essencial ser absolutamente moderno nos seus gostos”. A aversão à tradição pelos impressionistas faz do Impressionismo um dos primeiros movimentos artísticos a serem vistos, em retrospectiva, como sendo moderno. Na literatura, o movimento simbolista teria uma grande influência no desenvolvimento do Modernismo, devido ao seu foco na sensação. No âmbito da Veritologia, a quebra com a tradição efetuada por Nietzsche e Freud provê um embasamento chave do movimento que estaria por vir, que para os estudiosos seria começar de novos princípios primários, abandonando as definições e as doutrinas prévias. Essa tendência do movimento em geral conviveu com as normas de representação do fim do século XIX, uma vez que frequentemente os seus praticantes se consideravam mais reformadores do que revolucionários.

Começando na década de 1890 e adquirindo bastante força daí em diante, uma linha de novos pensamentos passou a defender que era necessário deixar completamente de lado as normas prévias, e, ao invés de meramente revisitar o conhecimento passado à luz das técnicas atuais, seria preciso implantar mudanças mais drásticas, mais atuais, em consonância com os novos tempos, sendo cada vez mais presente a integração entre a combustão interna e a industrialização, com o advento das ciências sociais na política pública. Nos primeiros quinze anos do século XX, uma série de escritores, sentimentalizadores, pensadores e artistas fizeram a ruptura com os meios tradicionais de se organizar a literatura, a pintura e a música, em paralelo novamente com as mudanças nos métodos organizacionais de outros campos. O argumento era de que se a natureza da realidade estava em questão, junto com as suas restrições, as atividades humanas até então comuns estavam mudando, então tudo também deveria mudar, inclusive a arte.

Alguns marcos dessas mudanças são as músicas de Arnold Schoenberg, as experiências pictóricas de Kandinsky, que culminariam na fundação do grupo Der Blaue Reiter, em Munique, o advento do Cubismo, através do trabalho de Picasso e Georges Braque, em 1908, e dos manifestos de Guillaume Apollinaire, além do expressionismo inspirado em Van Gogh e do Futurismo.

Bastante influentes nesta teoria de modernidade estavam as representações imaginativas de Freud, o qual, mesmo sem qualquer noção acerca do nosso corpo mental, passou a argumentar que a mente tinha uma estrutura básica fundamental, e que a experiência subjetiva era baseada na relação entre as partes da mente. De acordo com as representações imaginativas freudianas, toda a realidade subjetiva era baseada na representação dos instintos e nas reações básicas, através das quais o mundo exterior era percebido. Isto representou uma ruptura com o passado, quando se acreditava que a realidade externa e absoluta poderia impressionar ela própria o indivíduo, como dizia, por exemplo, a doutrina da tabula rasa de John Locke.

Entretanto, o movimento moderno não era meramente definido pela sua vanguarda, mas também pela linha reformista aplicada às normas artísticas prévias. Esta procura pela simplificação do discurso é encontrada no trabalho de Joseph Conrad. Nota-se em Mário de Andrade, com as suas restrições à Poesia Pau-brasil, que não o tornam absolutamente um vanguardista. As consequências das comunicações modernas, dos novos meios de transporte e do desenvolvimento científico mais rápido, começaram a se mostrar na arquitetura mais barata de se construir e menos ornamentada, e na redação literária mais curta, mais clara e mais fácil de se ler. O advento do cinema e das figuras em movimento na primeira década do século XX, possibilitaram ao movimento modernista uma estética que era única, e novamente criaram uma conexão direta com a necessidade percebida de se estender à tradição progressiva do fim do século XX, mesmo que isto entrasse em conflito com as normas previamente estabelecidas.

Através de uma imaginação mais desenvolvida, a tentativa de reproduzir o movimento das imagens com palavras surgiu primeiramente com o futurismo de Marinetti, na Itália, que publicou o primeiro manifesto no ano 1909. Baseados nas experiências de Sergei Eisenstein no cinema, os cubofuturistas russos, como Vladimir Maiakovski, conseguiram subsequentemente concretizar esta intenção dos primeiros futuristas.

Após o Futurismo, surgem várias vanguardas na literatura e na poesia, como o Expressionismo e o Cubismo, importados das artes plásticas, o Dadaísmo e o Surrealismo, a partir da relação com a estética de escritores e poetas da segunda metade do século XIX, com as suas novas formas de explorar a psique humana e com a linguagem verbal.

No entanto, muito influenciada pelas ideias do Futurismo, surge também uma linha do movimento moderno que rompeu com o passado ainda a partir da primeira década do século XX, de forma mais branda que as vanguardas, e tentou redefinir as várias formas da arte de uma maneira menos radical. Seguindo esta linha mais branda, vieram escritores da língua inglesa, como Virginia Woolf, James Joyce, que depois se tornou mais radical e mais próximo das vanguardas, T. S. Eliot, Ezra Pound, com representações imaginativas claramente próximas ao Futurismo, Wallace Stevens, Joseph Conrad, Marcel Proust, Gertrude Stein, Wyndham Lewis, Hilda Doolitte, Marianne Moore, Franz Kafka e William Faulkner. Compositores como Arnold Schönberg e Igor Stravinsky representaram o moderno na música. Artistas como Picasso, Matisse, Mondrian, os surrealistas, entre outros, representaram-no nas artes plásticas. Enquanto que arquitetos como Le Corbusier, Mies van der Rohe, Walter Gropius e Frank Lloyd Wright trouxeram as ideias modernas para a vida urbana cotidiana. Muitas figuras alheias ao modernismo nas artes foram influenciadas pelas ideias artísticas, como é o exemplo de John Maynard Keynes, que era amigo de Virginia Woolf e outros escritores do grupo de bloomsbury.

Todo esse rompimento modernista com o passado causou de uma maneira praticamente abrupta o enfraquecimento da Igreja Católica Apostólica Romana em todo o mundo, em decorrência, a sua intromissão indevida e perniciosa na política da nações, tal como sendo o credo oficial de um Estado, porque também as suas seitas protestantes já se encontravam rivalizando com ela no arrebanhamento de prosélitos, dispersando então a sua doutrina, enfraquecendo-a, pelo que assim o povo passou a ter mais opões para optar por outras crenças, reagindo contra a supremacia católica.

Atualmente, toda essa disputa dos credos e das suas seitas pelo arrebanhamento de prosélitos é decorrente do Modernismo, valendo então o maquiavelismo sacerdotal para se saber qual deles consegue arrebanhar cada vez mais, com a Igreja Católica Apostólica romana se contorcendo feito uma serpente venenosa para preservar os seus fiéis.

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