15.03.01.09- O jansenismo

Prolegômenos
28 de junho de 2018 Pamam

O jansenismo é uma doutrina credulária inspirada nas representações imaginativas de Cornelius Jansen, um bispo de Ypres. No âmbito do movimento teve um caráter dogmático, moral e disciplinar que também assumiu contornos políticos. Desenvolveu-se principalmente na França e na Bélgica no seio da Igreja Católica, nos séculos XVII e XVIII, cujas representações imaginativas acabaram por ser consideradas heréticas desde 16 de outubro de 1656, através da bula papal Ad Sacram, subscrita pelo papa Alexandre VII. Em suma, essa doutrina defende uma interpretação das representações imaginativas de Santo Agostinho sobre a predestinação, contra as teses tomistas do racionalismo aristotélico e do livre arbítrio.

No jansenismo, podemos distinguir três diferentes aspectos, com cada um deles representado por uma personalidade importante em sua história, que são os seguintes:

  1. O dogmático:
    1. Representado pela obra Augustinus, de Cornelius Jansen, a qual incide principalmente na doutrina sobre a graça e o pecado.
  2. A moral:
    1. Que diz respeito, sobretudo, aos sacramentos, nomeadamente ao da eucaristia e ao da penitência, e nos quais encontramos em Antoine Arnauld o seu principal promotor.
  3. O disciplinar:
    1. Relativo, sobretudo, à relação com as autoridades eclesiásticas e que derivou em um sentido político, cujo principal defensor foi o abade de Saint-Cyran.

Os aspectos dogmáticos do jansenismo vão tendo uma grande importância à medida em que dão origem e sustentação às outras dimensões. Muitas das prescrições morais e disciplinares do jansenismo são consequências das suas posições dogmáticas. A doutrina jansenista se baseia em uma leitura crítica da teologia de Santo Agostinho e nas propostas do teólogo Miguel Bayo, apresentando um nítido parentesco com as doutrinas agostinianas que deram origem à Reforma Protestante, sobretudo nas doutrinas calvinistas sobre a graça,  a natureza humana e a predestinação. O ponto central e essencial é uma antropologia pessimista, que vê no pecado original a corrupção da natureza humana, doravante incapaz de qualquer boa obra e fatalmente inclinada para o mal.

Sendo intrinsecamente corrompido pelo pecado, o ser humano se torna um joguete de duas forças antagônicas: a concupiscência e a graça. Cada uma delas exerce sobre o ser humano uma determinação interna a que ele não pode resistir, quer dizer, assim como o homem que recebe uma graça age forçosamente segundo esta graça, assim também aquele a quem a graça não é dada segue fatalmente a concupiscência. Neste caso, a liberdade do ser humano poderia ser salvaguardada pelo fato de tanto a graça como a concupiscência apenas determinarem o ser humano internamente, deixando-o livre da coacção externa, sendo exatamente nisto que consiste a diferença em relação às seitas protestantes. A graça, portanto, é de tal modo determinante, que o ser humano não lhe pode resistir, uma vez sendo ela recebida.

As implicações desta doutrina são diversas. Por um lado, o pecado pessoal significa necessariamente uma privação da graça, pois quem peca é porque não tem graça, uma vez que se a tivesse agiria segundo os seus ditames. Por outro lado, o ser humano não tem mérito nas boas obras, pois elas são frutos da graça que interiormente o determina, e não da sua liberdade. Além disso, o ser humano privado da graça peca fatalmente e é incapaz de qualquer boa obra, pois segue sempre a concupiscência. E aqui a força de vontade é totalmente desprezada. Daí que as obras dos infiéis sejam sempre pecado, pois estão privados da graça eficaz proveniente da redenção de Jesus, o Cristo.

Uma outra implicação que surge desta doutrina é que o ser humano somente realiza boas obras por virtude da graça eficaz, já que tal graça não é sempre concedida, mas é o seu deus que com absoluta liberdade determina a quem a concede. Logo, é o seu deus quem determina quem são os que realizam boas obras e, consequentemente, aqueles que se salvam e aqueles que se condenam. A consequência lógica do jansenismo é a doutrina da predestinação. Temos aqui mais um forte ponto de contato com o calvinismo.

Por conseguinte, Jesus, o Cristo, não morreu na cruz por todos os homens, mas somente por aqueles que se salvam, que são os eleitos, que são os predestinados, e somente estes recebem a graça. Por trás de tudo isso, assistimos no jansenismo uma reação à Soteriologia, que em Teologia é a ciência dos últimos fins do homem, da sua salvação pelo Cristo, a qual foi determinada no Concílio de Trento, através da tentativa de restauração das doutrinas agostinianas no seio da Igreja Católica Apostólica Romana.

Todas as doutrinas do jansenismo estão presentes no Augustus, sendo todas elas condenadas diversas vezes por diversos papas. No entanto, não foi o aspecto dogmático do jansenismo que originou a sua grande difusão e popularidade, mas sim a sua doutrina moral, onde podemos encontrar um exemplo característico em Antoine Arnauld, em sua obra De la Fréquente Communion. Mas devemos buscar a doutrina moral do jansenismo também nas fontes anteriores, a começar pelo Augustinus. Nesta obra, no tomo II, encontramos os fundamentos da moral jansenista. Segundo o autor, a ignorância, apesar de ser considerada como sendo invencível, não escusa o pecado, porque tal ignorância é precisamente a consequência do pecado original. Além disso, o ser humano sem a graça peca necessariamente, pois a sua natureza o arrasta sempre para o pecado, de maneira irresistível, de tal modo que se o homem, por suas forças, pretender escapar a um pecado, fatalmente cai em outro, quer dizer, o pecado é inevitável na vida humana. Caso já se soubesse da existência do astral inferior e da força de vontade para repelir aos seus ataques, poderia-se constatar que não é a natureza quem arrasta o ser humano para erro, mas sim os espíritos obsessores que o integram. Daí todo o pessimismo jansenista em relação à natureza humana, que tanto leva ao desprezo por todas as obras dos pecadores e dos infiéis, ainda que aparentemente meritórias, como conduz a um extremo rigor no que diz respeito a qualquer possível maneira de ceder à natureza.

Saint-Cyran foi o iniciador da prática moral jansenista, em que a penitência para esta prática era tratada com um imenso rigor. Assim, ele dizia que a absolvição não perdoava propriamente os pecados, mas declarava que eles haviam sido perdoados pelo seu deus. Deste modo, era necessária uma contrição, ou seja, uma dor profunda pelas ofensas feitas ao seu deus, as quais procedem mais da existência de um imaginado amor e de uma possível gratidão pelo que eles julgam seja o seu criador que do temor ao castigo sobrenatural, cuja gratidão tinha que ser perfeita, para que assim a absolvição fosse válida. A consequência prática disto tudo era a recusa da absolvição aos pecadores reincidentes e àqueles em que não fosse certa uma perfeita contrição.

Em relação à comunhão, as condições exigidas eram também bastante rigorosas. Exigia-se a perfeição, de modo que acabava por ser considerado mais meritório o desejo de comungar, que era considerada a comunhão espiritual, do que a própria comunhão eucarística. Daí que um dos efeitos do jansenismo, através dos tempos, tenha sido precisamente o afastamento dos sacramentos.

Toda essa rigorosidade aparecia como contraposição ao laxismo, o sistema de teologia moral que aceita como lícita qualquer ação fundada em alguma razão, por mais fraca que ela seja, o qual os jansenistas personificavam nos jesuítas. De fato, um dos méritos atribuídos aos jansenistas foi precisamente a denúncia desse laxismo que imperava na vida dita cristã de muitos credulários. No entanto, o seu grande erro foi condenar, junto com ele, toda a preocupação pastoral, em favor de uma extremada rigorosidade idealista.

No âmbito disciplinar, o jansenismo advoga uma reforma total na Igreja que venha a eliminar as perniciosas novidades introduzidas desde os tempos dos antigos padres e os desvios operados por escolásticos e jesuítas, com isto sendo baseado na concepção da Igreja como sendo uma instituição imutável, de origem divina, e como tal isenta de qualquer mudança, por menor que seja.

Posteriormente, o que veio a acontecer é que se advoga um aumento da autoridade da hierarquia local, em detrimento da autoridade do papa, como sendo o fruto das sucessivas condenações de que o jansenismo foi vítima. Com o tempo, em virtude das perseguições, o jansenismo procura fazer alianças com as autoridades civis, a fim de melhor resistir, e neste aspecto assume um significado político, sobretudo a partir do século XVIII, ao se posicionar com a pretensão de independência em face da Igreja Católica Apostólica Romana, confundindo-se com a criação de igrejas nacionais.

A natureza da graça divina e as suas relações com a liberdade humana é um tema que desde cedo entreteve muitos teólogos ditos cristãos. Uma leitura extremada da posição de Santo Agostinho, que exalta o primado da graça sobre o mérito humano, em contraposição aos pelagianos, que defendiam o oposto, influenciou em primeiro lugar aos reformadores e teve um papel relevante na gênese e no desenvolvimento do jansenismo.

Uma das mais determinantes doutrinas de Lutero tem a ver precisamente com a sua visão do papel da graça na salvação do ser humano. Para este que pode ser considerado como sendo o principal reformador, o ser humano, após o pecado original, perdeu toda a sua capacidade de optar pelo bem, tendo sido a sua liberdade aniquilada pelo pecado, de modo que não podemos falar de livre arbítrio. Por conseguinte, por causa do pecado o homem somente pode seguir o caminho do bem através da graça do deus bíblico, sem a qual permanece totalmente incapaz. Para ele, a salvação é assim obra exclusiva da graça divina, sem que haja um lugar para qualquer colaboração humana. Então se explica aqui a razão pela qual Lutero defende o princípio de que apenas a fé credulária é necessária para a salvação, pois as obras humanas provêm apenas da determinação divina, sem terem significado como o acolhimento humano da salvação.

O fato é que outros reformadores também defenderam posições semelhantes à de Lutero, com os jansenistas tendo sofrido uma influência considerável por parte das posições assumidas por eles. Já a posição da Igreja Católica foi de reprovação desta doutrina. O Concílio de Trento, porém, não pôde resolver totalmente a questão, pelo que se ficou pela salvaguarda dos dois elementos essenciais: a graça do deus bíblico e a liberdade do homem. A maneira como se relacionam não foi determinada com rigor, pelo que a discussão estava em aberto, surgindo então várias propostas.

Foi justamente nesse contexto da discussão acerca da conciliação entre a liberdade e a graça, de querer reconciliar os reformadores com os católicos, que surgiu a posição de Michel du Bay, professor de Exegese Bíblica na Universidade de Louvain. Na leitura da doutrina de Santo Agostinho sobre a graça, marcada pela polêmica contra os pelagianos, Michel du Bay concluiu ao seu modo que em Adão, estando ele ainda no Paraíso, a graça santificante e a integridade faziam parte da natureza humana, e não eram dons sobrenaturais. Mas o fato é que para esses credulários pelo pecado original tudo isto se perde, ficando a vontade humana escravizada pela concupiscência e incapaz de qualquer obra meritória, por isso não é capaz de realizar o bem, mas ao ser salvo por Jesus, o Cristo, o ser humano recebe do deus bíblico a graça de fazer boas obras. Contudo, ao contrário do estado primitivo, agora a capacidade para as boas obras é de origem totalmente sobrenatural, é de uma graça pura. É evidente a semelhança desta doutrina com o pessimismo luterano. No entanto, Michel du Bay pretendia escapar da acusação de luterista, salvaguardando a ausência de coacção externa, mas não da coacção interna, na liberdade humana. As suas teses foram censuradas por diversas universidades europeias, entre as quais a de Paris e a de Salamanca.

Contudo, a disputa prosseguia de maneira acirrada, de modo que foi solicitada a intervenção de Roma. E foi justamente o que aconteceu, pois, em 1567, com a bula Ex Omnibus Afflictionibus, do papa Pio V, foram condenadas 79 proposições, com Michel du Bay declarando se submeter a ela, abjurando dos seus erros e, também, jurando fidelidade ao Concílio de Trento. Todavia, a discussão ainda se encontrava longe do seu fim, pois Michel du Bay continuou a defender algumas das suas representações imaginativas, pelo que o fez justificando a sua proveniência das escrituras tidas como sagradas e dos padres da Igreja, o que originou novos processos e novas condenações.

Mais uma outra discussão acerca da natureza da graça e da liberdade humana surgiu pouco depois, através do dominicano Báñez, que explicava a eficácia da graça pela sua natureza e pela determinação física que ela implicava. O jesuíta Molina, em sua obra publicada em Lisboa, em 1588, criticou esta doutrina, denunciando as suas semelhanças com o calvinismo e defendendo uma concepção que procurava conciliar o livre arbítrio humano com o conhecimento prévio que o deus bíblico tem dos atos humanos, que distinguia da predestinação. A discussão entre estes dois autores se transformou rapidamente em uma disputa entre as respectivas ordens credulárias, de modo que o papa decidiu entregar a questão a uma comissão de cardeais, que após condenações e protestos de uma parte e de outra, acabou por não decidir totalmente a questão, mas proibiu aos intervenientes de se atacarem mutuamente, continuando livres para ensinar cada um a sua doutrina. Neste contexto de controvérsias e de certa liberdade teológica, o jansenismo recebeu uma considerável contribuição para o seu aparecimento e desenvolvimento.

Com a atenção dada à cura das almas por ocasião do Concílio de Trento, desenvolveu-se a casuística, que em Teologia é a parte da moral que trata dos casos de consciência, o registro de casos observados, assim como também o processo de discutir e analisar os casos por meio de sutilezas e artifícios. Contudo, muitos autores consideraram a casuística no sentido de estudar as condições em que um determinado ato, em si mesmo sendo reprovável, poderia se tornar aceitável ou até lícito. Na tentativa de mostrar a sua argúcia de raciocínio, muitos casuístas se dedicaram a considerar não casos concretos, mas hipóteses arrojadas e até mirabolantes, com as quais conseguiam justificar as ações que o senso comum dos ditos cristãos reprovava.

A consequência disso foi a consolidação do laxismo hipotético, que reduzia grandemente o rol dos pecados e permitia hipoteticamente uma vida recheada de abusos e ações condenáveis. O historiador Giacomo Martina, observa com humor que “alguns teólogos do século XVI mereceram o elogio que receberam: ecce agnus dei, qui tollit peccata mundi…”, conforme se encontra em João 1:29, que diz “Eis o cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo”; isto pela sua habilidade em se fazer reduzir drasticamente os pecados do mundo.

Com essas doutrinas que se foram difundindo, apesar das condenações da Igreja Católica, os deveres ditos cristãos assim eram reduzidos ao mínimo, permitindo uma autêntica vida de mentira e hipocrisia. Mas neste aspecto, o laxismo hipotético muitas vezes veio apenas confirmar o estado prático das coisas naqueles tempos. O surgimento do jansenismo, sobretudo no aspecto moral, explica-se em grande parte como uma reação a esse laxismo hipotético e prático.

É sabido que a primeira grande figura do jansenismo que de tal modo deu o nome ao movimento foi o holandês Cornelius Jansen, o qual foi descrito como sendo um homem estudioso, com uma grande memória, perseverança e tenacidade, mas também como sendo detentor de um espírito duro, seco, gelado, ambicioso, e, ao mesmo tempo, tímido, tendo nascido em 1585, em Acquoy, no sul da Holanda. Estudou nas universidades de Utrecht e de Lovaina, onde toma contato com as doutrinas de Baio e se orienta para o agostinianismo, ao ouvir as lições do mestre Janson. Mais tarde, prosseguiu os seus estudos em Paris, em cuja cidade conheceu o seu grande amigo Jean Duvergier de Hauranne, mais conhecido por Saint-Cyran, permanecendo ambos em Bayonne, de 1611 a 1617, onde este possuía uma casa, para assim se dedicarem ao estudo e a pesquisa da antiguidade dita cristã. Foi nesse período que Cornelius Jansen teria lido por dez vezes as obras de Santo Agostinho e mais trinta vezes os escritos deste ser humano considerado como sendo santo pelo catolicismo, sobre a graça e o pelagianismo, segundo ele mesmo disto mais tarde se gabava.

Em 1638, em virtude de uma obra escrita contra os franceses, Cornelius Jansen foi promovido a bispo de Ypres, aonde depois veio a desencarnar em dois anos, mas não sem antes haver completado, corrigido e entregue aos seus amigos para publicação a grande obra da sua vida e a matriz do jansenismo, o Augustinus.

Desde que tomou contato com Santo Agostinho e a sua doutrina sobre a graça, que era muito marcada pela polêmica contra o pelagianismo, Cornelius Jansen pensou em escrever uma obra onde expusesse e defendesse com clareza a doutrina do mestre. Durante anos se ocupou da composição desta obra, que nunca cessou de rever e corrigir, ao longo dos anos, inclusive enquanto bispo de Ypres. Esta obra, intensamente burilada, após a sua desencarnação, foi entregue pelos seus amigos para ser publicada. Apesar da intensa oposição dos jesuítas, a obra foi efetivamente publicada na Holanda, em 1640, propagando-se com rapidez para a Alemanha e para outros países. Alcançou bastante sucesso e foi louvada inclusive pelos calvinistas, de tal modo que alguns chegaram a ver em seu teor a base de uma união entre o calvinismo e o catolicismo.

Essa obra de Cornelius Jansen apresenta um total de 1.300 páginas, em duas colunas de letras pequenas, dividindo-se em três tomos, da seguinte maneira:

  • Tomo I:
    • Constituído por oito livros, aonde se expõe a história do pelagianismo e do semipelagianismo, refutando cuidadosamente, com minúcia, todos os seus pontos, fazendo sub-repticiamente um paralelo entre os semipelagianos e os jesuítas.
  • Tomo II:
    • Constituído por nove livros, aonde após analisar as relações entre a doutrina e a teologia e criticar com dureza os escolásticos e a saperologia aristotélica, exaltando a autoridade de Santo Agostinho, peça fundamental do seu método teológico, o autor descreve o estado de graça e a liberdade do ser humano original, assim como a essência do pecado original e as suas consequências, notadamente a concupiscência e a diminuição do livre arbítrio. Em seguida, passa a negar a possibilidade do estado de natureza pura e declara a impossibilidade de o ser humano poder amar ao deus bíblico naturalmente.
  • Tomo III:
    • Constituído por dez livros, que contém a parte principal da obra, em que o autor reflete agora sobre o modo de sanar a natureza humana e de ela recuperar a liberdade através da redenção de Jesus, o Cristo. A este propósito, a tese do autor é a de que a graça é ativa e eficaz de modo infalível, sem que isso destrua, porém, a liberdade do ser humano. Nega ainda a vontade de salvação universal e a possibilidade de observar certos mandamentos. Ocupa-se também do livre arbítrio da conciliação entre a liberdade e a graça, da predestinação e das diferenças entre a doutrina de Santo Agostinho e a de Calvino. Termina com uma síntese dos erros de vários teólogos modernos, particularmente dos jesuítas, estabelecendo um paralelo entre estes e os hereges massilienses.

Com relação a Jean Duvergier de Hauranne, do qual Cornelius Jansen se tornou amigo em Paris, e ambos passaram alguns anos em Bayonne, o mesmo se tornou abade comendatário de Saint-Cyran, de onde provém o nome por que se tornou conhecido. As opiniões acerca da sua personalidade são díspares, mas no fundo revelam um personagem complexo e pouco linear. Por um lado, era fiel e generoso para com os seus amigos, cordial e simples, surgindo como um grande diretor dito cristão, imbuído de uma forte autoridade moral, que não poderia provir senão de uma sólida espiritualidade, sendo dotado de uma grande austeridade, que sublinhava ainda mais a sua autoridade. Contudo, outros que de algum modo o conheceram qualificaram-no também como sendo neurótico e megalômano, um tanto quanto perturbado, e até desequilibrado, com certa imprudência, cujo principal talento era o de se apropriar das almas dos que o escutavam, escravizando-as.

Segundo o historiador Giacomo Martina, as personalidades dos dois amigos eram complementares, pois enquanto Cornelius Jansen era o doutrinador, Saint-Cyran se orientava para a ação, para a realização, quer dizer, enquanto este trabalhava mais com o intelecto, mas sem tanta profundidade, aquele trabalhava mais com o criptoscópio, também sem tanta profundidade, pelo que faltou a ambos a luz para iluminar as suas consciências. Deste modo, se Saint-Cyran foi o verdadeiro fundador do jansenismo francês e o grande impulsionador da nova doutrina, Cornelius Jansen foi o primeiro grande doutrinador do jansenismo, o seu primeiro fundador.

Apesar da recomendação de Cornelius Jansen de que não se dedicasse à direção espiritual de credulários do sexo feminino, o que poderia distraí-lo da sua grande tarefa, Saint-Cyran compreendeu que a intervenção das credulárias poderia, ao contrário, ser bastante útil. Deste modo, tornou-se o diretor espiritual do mosteiro de Port-Royal, que tinha como superiora a madre Angélica Arnauld. Esta, durante alguns anos, deixou com outras monjas o convento de Port-Royal e dirigiu o convento das Filhas do Santíssimo Sacramento, filial daquele mosteiro, sob a orientação de Saint-Cyran, de onde se difundiam as representações imaginativas jansenistas.

Entretanto, o casal Richelieu, ministro do rei Luiz XIII, tornando-se preocupado com a rápida expansão dessas novas representações imaginativas, intuindo que logo poderia se formar um grupo tão temível e difícil de controlar como o dos calvinistas franceses, os denominados huguenotes, ordenou a prisão de Saint-Cyran no castelo de Vincennes, em maio de 1638. Todavia, a prisão de Saint-Cyran, ao invés de sufocar o novo movimento, antes acabou por lhe proporcionar um maior vigor, ao granjear para o seu difusor a fama de mártir, vítima da prepotência e da intolerância eclesiásticas e dos espíritos contrários à necessária reforma da Igreja Católica.

Em 1642, o cardeal Richelieu desencarnou. Pouco tempo depois, Saint-Cyran era libertado, mas havia de sobreviver apenas um pouco mais tempo, vindo também a desencarnar em outubro de 1643, três anos após a publicação do Augustinus. No entanto, apesar dessa desencarnação um tanto quanto precoce na história do jansenismo, a sua contribuição foi determinante na difusão dessa nova doutrina. Atribui-se a Saint-Cyran uma afirmação que bem expressa a atitude do jansenismo perante a Igreja, assim:

Deus me deu a sua luz para conhecer que há cinco ou seis séculos que a Igreja já não existe. Outrora, ela era um rio de águas limpas e transparentes. Mas hoje o que existe na Igreja é um pântano. O leito do rio é o mesmo, mas as águas são outras”.

Acerca do Concílio de Trento ele teria dito o seguinte:

Foi antes de mais nada uma assembleia de escolásticos, onde não havia senão intrigas, maquinações e parcialidades”.

E acerca de Calvino teria feito a seguinte afirmação:

Calvino sente o bem, mas o mal nele se encontra oculto”.

Ouvindo estas coisas, S. Vicente de Paulo, que foi seu amigo, decidiu dele se afastar e recomendou o mesmo aos que o cercavam.

Antoine Arnauld, que viveu no período de 1612 a 1694, foi discípulo de Saint-Cyran e o grande continuador da doutrina do jansenismo. Durante mais de cinquenta anos defendeu as suas ideias através dos seus escritos, que eram recheados de erudição e de bastante habilidade dialética. Na realidade, ele foi indiscutivelmente o grande chefe do jansenismo durante todo esse período. Sendo perito na arte da dissimulação, conseguiu difundir as suas representações imaginativas sem se comprometer verdadeiramente. Teve a sagacidade de propagar as suas representações imaginativas que eram novas sempre com a aparência de não serem mais do que as antigas imaginações recuperadas da antiguidade. Mas o que se pode constatar, na realidade, é que Antoine Arnauld pretendia ser um fiel intérprete e difusor das representações imaginativas de Santo Agostinho, assim como também outros defensores do movimento jansenista.

Assim, com uma grande tenacidade e uma incansável obstinação, dedicou-se a responder a todos os ataques, intervindo em todas as polêmicas causadas pelo jansenismo. Sendo deveras sagaz e dissimulado, Antoine Arnauld teve a arte de conseguir que os mestres da dissimulação fossem justamente os seus adversários. Contudo, apesar de todos esses defeitos, o jansenista era dotado de boa-fé, pois tinha a intenção de prestar um bom serviço à Igreja contra os seus inimigos, e tanto isto procede que a sua dedicação à Igreja lhe granjeou o respeito de várias pessoas, inclusive dos papas. Pela sua persistência e pela sua arte, Antoine Arnauld veio a ser uma das maiores figuras do jansenismo, com uma contribuição determinante na sua história, tendo escrito 43 obras, das quais a mais célebre é De la Fréquente Communion.

Em virtude do hábito de comungar ou não com frequência, Antoine Arnauld decidiu abordar o tema com uma obra sobre esta temática destinado ao grande público, tendo esta sido a sua primeira obra, que foi publicada em 1643, tendo por título justamente De la Fréquente Communion.

Na primeira parte da obra, o autor explica a prática da Igreja primitiva, que segundo ele os primeiros ditos cristãos somente comungavam diariamente enquanto conservavam intacta a graça batismal, sendo que, de modo inverso, os penitentes saíam da celebração eucarística, e os que cometiam pecado mortal se afastavam da comunhão durante muitos dias ou mesmo anos. Portanto, antes de comungar era necessário se afastar durante algum tempo e se purificar pela oração e pela penitência. A comunhão semanal requeria condições pouco comuns, pelo que o melhor era se manter afastado da eucaristia, com grande desejo de ser digno de recebê-la.

Na segunda parte da obra, ele expõe a forma de penitência anterior à comunhão. Enquanto os jesuítas defendiam que bastava a confissão, com comunhão logo em seguida, sem a necessidade de mais penitências e purificações, Antoine Arnauld defendia justamente o contrário, recordando que a regra dos santos padres se mantinha, o que devia ser tomado em conta por todos os diretores espirituais e pastores de almas, embora a Igreja tivesse tolerado uma prática diferente. Aos penitentes devia ser exigida uma verdadeira contrição prévia à comunhão. A consequência lógica de tudo isso é que a Igreja estava errada na sua prática atual da penitência, no contexto desse credo.

Na terceira parte da obra, ele fala dos frutos da comunhão. Receber a eucaristia deve resultar sempre em uma união mais perfeita com o deus bíblico. Assim, Antoine Arnauld vem afirmar o seguinte:

É preciso estar possuído por uma estranha cegueira, para não sentir pela própria experiência, e não cair pelo menos em algum temor, de que todas as nossas comunhões não sejam outros tantos sacrilégios, quando vemos sensivelmente que elas nunca produziram emenda alguma na nossa vida”.

A comunhão não é o remédio dos fracos e pecadores, alimento para conservar a vida da alma, mas sim um prêmio para uma vida santa. Portanto, a comunhão frequente era fonte de grandes males, dos quais os grandes responsáveis eram os jesuítas.

Essa obra teve grande sucesso, sendo louvada inclusive por teólogos e bispos. Tinha o mérito de apresentar em uma linguagem despojada de artifícios escolásticos um tema de grande atualidade para o credo dito cristão, permitindo a todos tomar conhecimento de uma matéria que até então estava reservada quase somente aos teólogos. Contudo, muitos a consideram uma obra desprovida de talento, exterior e vazia, imbuída de piedosa retórica

Em relação aos mosteiros, o de Port-Royal, que era das beneditinas, em dado momento ficou sob a orientação espiritual de Saint-Cyran. A madre era Jacqueline, a irmã de Antoine Arnauld, período de 1591 a 1661, tendo posteriormente adotado o nome de madre Angélica. Aos oito anos ela foi nomeada coadjutora da abadessa de Port-Royal-des-Champs, com direito de sucessão, e por morte da antecessora se tornou abadessa, ainda com a idade de onze anos. Ao que tudo indica, a jovem Jacqueline não tinha vocação credulária, tendo sido obrigada a seguir por esse caminho, uma vez que em Port-Royal entraram seis irmãs da família Arnauld com mais seis sobrinhas, com o mosteiro se tornando uma espécie de casa de campo da família. A vida credulária não tinha ali qualquer significado, pois não se observava a clausura e nem a modéstia no vestir.

Segundo os estudiosos, tudo mudou quando um capuchinho fez uma pregação no mosteiro, em 1608, após a qual a madre Angélica se sentiu convertida e interiormente transformada. Mas não foi a pregação do capuchinho que a converteu, mas sim as ações dos espíritos obsessores. Nos anos seguintes, ele se dedicou a reformar a comunidade por completo, o que incluiu o hábito rude e modesto, longos tempos de preces, silêncio e clausura rigorosos e toda a austeridade da antiga regra beneditina.

Com o seu exemplo e a sua persistência, conseguiu uma efetiva reforma do mosteiro, e sob a ação dos espíritos obsessores começaram a aparecer novas vocações, sedentas de uma autêntica vida credulária. Tanto sucesso obteve, que foi chamada a reformar outros mosteiros situados na zona. Em um deles, o Maubuisson, onde permaneceu de 1618 a 1622, recebeu a direção espiritual de S. Francisco de Sales, um ser humano considerado como sendo santo, mas de índole oposta ao jansenismo, que procurou lhe infundir as virtudes da humildade e da doçura, de que tanto carecia, em função dos espíritos obsessores. Contudo, após a desencarnação do dito santo, em 1622, deixou de receber os seus prudentes conselhos e reapareceu o seu orgulho. Segundo vem nos contar a tradição histórica, ela teria se sentido algo ofendida pelo fato do dito santo a tratar por “minha filha”, ao invés de a tratar por ‘reverenda madre”.

Mas sob a direção de Saint-Cyran, Port-Royal se tornou o grande centro do jansenismo. A vida espiritual daquelas credulárias passou a ser dominada por angústias e escrúpulos. Algumas se aproximavam do sacramento da penitência com terror, receosas de não estarem preparadas, e sequer se atreviam a receber a absolvição, com os mesmos temores rodeando a comunhão. O receio da severidade do deus bíblico como sendo o “divino juiz” foi as habituando a se aproximarem cada vez mais raramente da comunhão.

Uma das religiosas do mosteiro é a autora de um opúsculo destinado à adoração eucarística, escrito em 1633, o qual foi intitulado de Le Chapelet Secret du Saint-Sacrement. Esta obra propunha à meditação 16 atributos do Santíssimo Sacramento, entre os quais a santidade, a eminência, a inacessibilidade, a incompreensibilidade, a incomunicabilidade e o reinado, afirmando que nenhum deles fosse na verdade o amor, a bondade ou a misericórdia. Esta obra, ainda que não possa ser considerada jansenista em todo o seu rigor, portanto, não seja propriamente um documento essencial deste movimento, de qualquer modo serve para refletir bem o espírito que reinava em Port-Royal, em que preponderava a relação com o deus bíblico baseada no temor, e não no amor, como supostamente sempre o foi em todos os credos, em todos os tempos, pois normalmente não se pode amar aquilo que se desconhece, ainda mais sendo inferior e querendo ser superior, a não ser lá para as bandas de Jesus, o Cristo.

Associados a Port-Royal estiveram também os chamados solitários. Tratava-se de um grupo de homens que decidiram viver solitariamente, junto ao mosteiro, praticando uma vida de estudos e preces, sem votos credulários, com liberdade para entrar e sair e para deixar aquele modo de vida quando quisessem. Foram os grandes apoiadores de Saint-Cyran e da madre Angélica. Entre eles estiveram durante algum tempo Antoine Arnauld e Blaise Pascal, cujas intervenções foram importantes na história do jansenismo.

A publicação do Augustinus foi rodeada de intenso movimento dos jesuítas, logicamente com o sentido de impedi-la, tendo sido mesmo conseguida uma proibição do papa, mas que chegou tarde demais. Os jesuítas, que nesse ano comemoravam o centenário da fundação e receavam vir a ficar desacreditados, caso ressurgissem as disputas sobre a graça, não se resignaram e procuraram a todo o custo que a obra fosse condenada. Aqui, Ignácio de Loyola já se encontrava no astral inferior chefiando a falange dos espíritos obsessores que estavam agindo nesse sentido. Naqueles anos, sucederam-se publicações de uma e de outra parte que discutiam a exatidão doutrinária do Augustus e a sua fidelidade ao pensamento agostiniano.

Em 1641, um decreto do Santo Ofício condenava o Augustus, mas também as teses dos jesuítas e muitas publicações de ambos os lados, mas tal decreto não foi sequer publicado em Lovaina. No ano seguinte, o papa Urbano VIII escreve a bula In Eminenti, que foi publicada somente em 1643, em que condenava a obra de Cornelius Jansen por não respeitar a ordem de silêncio imposta por Paulo III e por sustentar teses afins à de Baio, condenadas já por papas anteriores. Contudo, em face da existência de variantes da publicação da bula pelos jesuítas, antes de chegada às autoridades holandesas, a autenticidade do documento foi posta em causa, e denominada de falsificação jesuítica, pelo que não chegou a produzir grande efeito.

Entretanto, a Sorbonne proibiu bacharéis e doutores de sustentarem as teses condenadas pela bula. Contudo, muitos não fizeram caso. Em 1649, um professor submeteu à apreciação da universidade cinco teses, que em sua opinião sintetizavam o conteúdo do Augustinus. Encabeçados por Antoine Arnauld, os jansenistas protestaram veementemente. Todavia, a discussão foi intensa, sem se chegar a qualquer concordância, pelo que uma assembleia do clero, reunida em torno do rei, considerou por bem enviar as cinco teses a Roma, para que o papa tomasse uma decisão. As cinco teses eram as seguintes:

  1. Alguns mandamentos do deus bíblico são impossíveis para os justos com as forças que têm no presente, embora queiram e se esforcem para cumpri-los, assim como também lhes falta a graça que os tornam possíveis;
  2. No estado de natureza decaída nunca se resiste à graça interior;
  3. Para merecer e desmerecer, no estado de natureza decaída, não se requer no homem a liberdade de necessidade, mas somente a liberdade de coacção;
  4. Os semipelagianos admitiam a necessidade da graça interior proveniente para cada um dos atos, mesmo para o início da fé, e nisto eram hereges, em quererem que essa graça fosse tal que a vontade humana lhe pudesse resistir ou lhe obedecer;
  5. É semipelagiano dizer que Cristo morreu e derramou o seu sangue por absolutamente todos os homens.

O papa Inocêncio X quis acompanhar os trabalhos e nomeou uma comissão de cardeais e consultores teólogos. Passados dois anos, a comissão chegou a uma conclusão e condenou como hereges, blasfematórias ou falsas as cinco proposições. O papa, que seguira de perto o processo, formalizou a condenação na bula Cum Occasione, em 31 de maio de 1653. Contudo, nessa decisão pesaram fortes motivos políticos. A bula foi aceita sem dificuldades em Flandres, pois agora o verdadeiro centro do jansenismo havia deixado de ser Lovaina, para passar a ser Paris.

Em face a esse grande golpe, parecia que os jansenistas estavam vencidos. Mas eis que logo eles encontraram uma airosa saída para continuarem a defender as suas representações imaginativas sem serem considerados hereges ou desobedientes ao papa. Alegaram que a Igreja era infalível ao condenar como hereges certas proposições, como aquelas cinco, e nisso todos concordavam. Porém, defendiam que o papa se enganara ao declarar que as cinco proposições se encontravam no Augustus e no sentido em que haviam sido condenadas. Com esta distinção, continuaram a propagar as suas doutrinas, insistindo sempre que as cinco proposições nunca haviam sido ensinadas por eles naquele sentido.

Tentando acabar de vez com as resistências, Alexandre VII, o sucessor de Inocêncio X, que como cardeal fizera parte da comissão que analisara as cinco proposições, sendo, portanto, um profundo conhecedor da questão, em 1656, publica a constituição Ad Sanctam Beati Petri Seden, na qual declarava que as cinco proposições constavam efetivamente do Augustus e que tinham sido condenadas no sentido utilizado pelo seu autor.

Ao tomar conhecimento desse documento, a assembleia do clero francês decidiu redigir uma fórmula de juramento de fé credulária contra o jansenismo, a qual denominou de Formulário. Esse Formulário deveria ser assinado por todos os rebeldes e por todos os eclesiásticos e mestres do país. Os jansenistas protestaram, considerando que não podiam subscrever o Formulário por questão de consciência. No entanto, a atitude dos rebeldes perante essa obrigação foi diversificada. Enquanto alguns se resignaram a assinar o documento, outros se recusaram terminantemente a abdicar das suas imaginações. Entre os que ofereceram mais resistência estavam as religiosas de Port-Royal.

Entre os jansenistas se estabeleceram vários partidos. Alguns resolveram obedecer. Outros, mais extremistas, consideravam que a bula equivalia à condenação do agostinianismo, pelo que era necessário se lhe opor, ainda que à custa de um cisma. Entre as duas tendências se apresentou uma espécie de partido moderado, representado por Antoine Arnauld, que defendia a condenação das teses, mas sustentava que o papa se tinha enganado ao atribuí-las a Cornelius Jansen. Graças à sua habilidade, foi esta tendência que acabou por triunfar, mesmo havendo alguns bispos entre os rebeldes.

Entretanto, surgiu um novo personagem, cuja intervenção na luta jansenista foi determinante. Trata-se de Blaise Pascal, grande matemático e considerado pelos estudiosos também como sendo saperólogo, mas sem o ser, que viveu curta vida de 1623 a 1662.

Em 1656, no cerne da controvérsia motivada pelas condenações pontifícias e pela expulsão de Antoine Arnauld da Sorbonne, Blaise Pascal se encontra com ele em Port-Royal e aceita o convite para pôr o seu talento literário ao serviço da causa. Assim, em 23 de janeiro de 1656, surge a primeira das Provinciais, com o título Lettre Écrite a un Provincial Par um de Ses Amis Sur le Sujet des Disputes Récentes de La Sorbonne, que aparecem sob a forma de cartas dirigidas a um amigo morador na província, sobre os acontecimentos em Paris. Blaise Pascal escreveu um total de 18 cartas Provinciais, sendo a última datada de 24 de março de 1657. Os estudiosos do assunto as dividem em dois tipos: As cartas 1-3 e 17-18 têm conteúdo dogmático e se dirigem contra a Sorbonne e a condenação das cinco proposições; as restantes são de conteúdo moral e elegem como adversários os jesuítas.

Em 1657, as Provinciais foram colocadas no Índex. Contudo, como protesto da consciência dita cristã contra os abusos do laxismo, o seu resultado foi o Santo Ofício, sob Alexandre VII, em 1665 e 1666, e sob Inocêncio XI, em 1679, que condenou um total de 110 proposições laxistas, 57 das quais provinham indiretamente das Provinciais.

Entre os rebeldes se encontravam alguns bispos que se recusaram a assinar o Formulário. Em 1667, sobe ao trono pontifício o papa Clemente IX, que desejava a paz e o fim das contendas, tendo trabalhado para esse fim. Após longas negociações cheias de controvérsias, motivadas pelas liberdades galicanas, cujas representações imaginativas são provenientes do galicanismo, uma doutrina francesa dos que contestavam, em certos pontos, a autoridade absoluta do papa, e defendiam certas liberdades da Igreja da França, em oposição ao ultramontanismo, a qual deixou de se manifestar depois que o concílio do Vaticano, em 1870, decretou como sendo dogma a infalibilidade do papa, conseguiu-se que os bispos assinassem, estabelecendo-se, assim, uma reconciliação oficial entre os rebeldes e a Igreja, cuja reconciliação foi selada em janeiro de 1669 por um breve do papa. Contudo, no momento da assinatura, os bispos não esconderam publicamente o fato de assinarem com reserva mental, continuando interiormente fiéis às representações imaginativas que antes defendiam. No entanto, mesmo estando cientes deste fato, tanto o papa como os bispos e as autoridades francesas não se dispuseram a prolongar as polêmicas, pelo que preferiram aceitar aquela reconciliação mesmo sendo precária. Tal reconciliação precária foi realizada também por Antoine Arnauld e as credulárias de Port-Royal.

Essa concórdia acabou por ser para muitos uma vitória do partido jansenista e uma artimanha por eles muito bem colocada, a fim de evitar a condenação papal. As controvérsias foram pacificadas durante quase trinta anos, em cujo período o mosteiro de Port-Royal pôde gozar de absoluta tranquilidade. Desse tratado de paz, digamos assim, fazia parte uma proibição de publicar escritos que continuasse a alimentar a polêmica. Assim, os jansenistas se dedicaram a temas mais pacíficos, publicando obras de algumas das suas figuras mesmo já desaparecidas, entre as quais os Pensamentos de Blaise Pascal e os escritos antigos de Saint-Cyran. Publicaram também algumas obras originais no campo da espiritualidade e divulgaram algumas tradições místicas, como a de Santa Tereza de Jesus e São João da Cruz. Tiveram ainda a meritória preocupação de colocar à disposição do público traduções dos textos bíblicos e se dedicaram, por fim, a traduções litúrgicas e a polêmicas com os calvinistas.

Evidentemente essa paz era sustentada por um tênue fio, o que foi atestado por vários acontecimentos. Luiz XIV, sabendo que os jansenistas continuavam a ser um foco de resistência ao seu absolutismo, e já tendo desaparecido alguns dos protetores de Port-Royal, decidiu acabar com este mosteiro e lhe retirou as escolas e alguns eclesiásticos, proibindo as credulárias de receberem noviças. Antoine Arnauld, pressentindo o perigo, fugiu do país. O papa Inocêncio XI quis lhe oferecer uma morada segura e até mesmo a suposta dignidade de cardeal, mas ele recusou, pois isso significaria nunca mais voltar para a França, por isso decidiu se estabelecer em Bruxelas.

Antoine Arnauld veio a desencarnar em 1694 e, segundo a sua vontade, os seus restos mortais foram transladados para Port-Royal. No entanto, já havia surgido aquele que haveria de ser o seu sucessor à frente da resistência jansenista, o qual veio a proporcionar um novo fôlego a uma polêmica que já se arrastava há mais de 50 anos. Esse novo jansenista se chamava Pasquier Quesnel.

Pasquier Quesnel encarnou em 1634. Após estudar em colégios jesuítas e na Sorbonne, foi ordenado sacerdote da classe dos oratorianos, que eram os clérigos da congregação do Oratório, uma antiga ordem monástica de São Filipe Néri. A partir dessa altura, começaram a se notar as suas tendências rigorosas e propensas ao jansenismo. Em 1685, foi recebido em Bruxelas por Antoine Arnauld, mantendo-se até a desencarnação deste como sendo o seu fiel companheiro. No entanto, mesmo pendendo para o agostinianismo, conhecia bastante bem a obra de São Tomás de Aquino, razão pela qual não apreciava a contento o rígido agostinianismo de Cornelius Jansen. Na realidade, em virtude da sua pouca estima por este, não quis se comprometer verdadeiramente em seu favor, pois além da sua formação tomista tinha também uma forte orientação galicana. Em todo esse contexto, era ainda muito mais político do que Antoine Arnauld, por isso se deve a ele, de fato, a transformação do jansenismo em um partido mais firme e coerente.

A partir de 1666, Pasquier Quesnel começara a redigir uma obra intitulada Réflexions Morales Sur le Nouveau Testament, impregnada de representações imaginativas jansenistas. No entanto, tais representações imaginativas estavam bem ocultas em contexto de piedade e de devoção, de tal modo que a obra conseguiu ser divulgada.

Em 1701, publica-se um escrito intitulado Um Cas de Conscience, que reacende fortemente a polêmica jansenista. Por este motivo, o rei Luiz XIV solicitou ao papa Clemente XI uma condenação. Em 1705, foi atendido com a bula Vinean Domini. No entanto, a bula tocava em pontos sensíveis no que dizia respeito às liberdades galicanas, pelo que encontrou alguma resistência na França. Porém, a principal resistência foi no mosteiro de Port-Royal, não exatamente por esse motivo, mas pelo fato das credulárias não quererem abdicar dos direitos auferidos na paz clementina.

A comunidade que há muitos anos vinha sendo impedida de receber noviças, estava reduzida a cerca de vinte credulárias de idade já bastante avançada. Luiz XIV, após tê-lo interditado em 1707, decidiu tomar uma resolução definitiva, então ordenou a dissolução da comunidade. Em 20 de outubro de 1709, as credulárias foram retiradas à força e dispersas por vários conventos. Mas como Port-Royal permanecesse como lugar de peregrinação dos jansenistas, o mosteiro foi destruído em 1711 e as ossadas de diversas personalidades, entre as quais Blaise Pascal, foram transladadas para outros lugares.

Em 1703, a obra Unigenitus Morales, elaborada por Pasquier Quesnel, havia sido denunciada em Roma. Após devidamente analisada, foi condenada pelo breve Dominici Gregis. Contudo, mais uma vez por causa das liberdades galicanas, o documento não foi aceito na França. Alguns bispos, porém, decidiram proibir a obra nas suas pastorais, tendo ainda imaginado uma pastoral conjunta. Contudo, outros bispos se opuseram. Vendo o perigo de uma cisão no episcopado, Luiz XIV mais uma vez solicitou ao papa uma condenação definitiva, o que veio a acontecer em 1713, com a bula Unigentus, em que se condenavam 101 proposições retiradas das Réflexions Morales.

Em 1719, com a desencarnação de Pasquier Quesnel, o jansenismo ficou sem o seu chefe. Assim, com a sua desencarnação e o fim de Port-Royal, podemos dizer que o jansenismo francês teve o seu fim decretado. Mantiveram-se ainda alguns bispos rebeldes, como o de Auxerre e o de Montpellier, assim como diversos sacerdotes e credulários. A partir daí o jansenismo deriva em duas direções: o jansenismo dogmático e moral, doravante privado dos chefes carismáticos que antes tivera, o qual degenerou em histerias e fenômenos pseudomísticos; e o jansenismo disciplinar e político, iniciado ainda com Saint-Cyran e com o impulso decisivo de Pasquier Quesnel. Assim, o jansenismo se converteu em movimento político intimamente ligado ao galicanismo. Mas se na França o jansenismo terminou, o mesmo não se pode dizer de outros países.

Na Holanda o jansenismo era visto com certa simpatia. O primeiro centro do movimento onde Cornelius Jansen defendera as suas ideias estava perto de Lovaina, que acolheu por diversas vezes alguns dos grandes nomes jansenistas, como Antoine Arnauld e Pasquier Quesnel, além de outros. Desde o início do século XVII, a Holanda, mesmo sendo um território de maioria protestante, era administrada eclesiasticamente por um Vigário Apostólico. Por ocasião das grandes polêmicas jansenistas, o vigário era Johan Neercassel, que exerceu esta função de 1663 a 1686, o qual também se notabilizou por certo rigorismo. O clero holandês era mais severo e exigente, e por isso olhava com simpatia para o jansenismo, tão diferente da falta de fervor verificada em muitos credos e seitas ditos cristãos. Os protestantes olhavam os católicos com desconfiança, mas de maneira contrária nutriam certa simpatia pelos jansenistas.

Com a desencarnação de Johan Neercassel, sucedeu-lhe como vigário Pedro Codde, que simpatizava com o jansenismo e acolheu entre o seu clero vários membros deste grupo de foragidos. Sendo denunciado ao Vaticano, Pedro Codde foi interrogado por uma comissão, que lhe exigiu que assinasse o Formulário. Ele de imediato recusou, pelo que foi suspenso das suas funções, em 1703. Contudo, Pedro Codde conquistara para o seu lado os fiéis holandeses e as próprias autoridades civis, que se recusavam a receber o seu sucessor. O capítulo de Utrecht, após governar a Igreja holandesa por algum tempo em sede vacante, elegeu como bispo Cornelius Steenhoven, em 1722, à revelia da Santa Sé. Estava assim estabelecido, então, o cisma.

Este cisma continuou fortemente e, após o Concílio Vaticano I, o grupo dos velhos católicos, ao procurar manter para si a sucessão apostólica, fez uma aliança com a Igreja jansenista holandesa. E ainda hoje este grupo dissidente se mantém firme em suas representações imaginativas, tendo em 1994 cerca de 1200 seguidores.

Na Itália, o jansenismo assumiu o significado quase exclusivamente político que já foi referido. Devendo-se observar apenas o famoso sínodo de Pistoia, realizado nesta cidade toscana, em 1786. Sob a direção do bispo Scipione de Ricci, com o apoio de jansenistas holandeses, franceses e italianos, e com a presença de 234 sacerdotes, este sínodo pretendeu realizar reformas e dar o impulso para a criação de uma igreja nacional.

Os primeiros decretos reafirmavam as doutrinas jansenistas sobre a graça, a predestinação e a moral, reprovando a devoção ao Coração de Jesus, os exercícios espirituais e as missões populares. Reconheciam-se os quatro artigos galicanos, em uma visão favorável ao consolo do Estado sobre a Igreja. A tendência era também a de aumentar o poder dos bispos em detrimento da autoridade do papa. No meio desses pontos negativos ressaltavam também algumas propostas meritórias, relacionadas com a purificação do culto e a participação dos fiéis na liturgia.

A condenação do sínodo de Pistoia, realizada em 1794 com a bula Auctorem Fidei, do papa Pio VI, deve-se ao seu contexto dogmático jansenista e à sua eclesiologia desviada, não a estas propostas tidas como salutares, que foram, aliás, substancialmente recolhidas pelo Concílio Vaticano II.

Considerado pelos estudiosos como sendo a maior controvérsia doutrinal do século XVII, o jansenismo exerceu uma influência em larga escala sobre a vida dos ditos cristãos, não tanto no seu aspecto dogmático, disciplinar e político, que acabaram por se extinguir, mas, sobretudo, no seu aspecto moral e sacramental. A rígida moral jansenista, avessa às questões de consciência que permitiam de algum modo diminuir a responsabilidade do sujeito moral, esteve longamente presente em muitos confessores e diretores espirituais, mas ao que parece disso eles eram inconscientes. O mesmo poderá se dizer da sua antropologia pessimista, inclinada a olhar com desconfiança todas as ações humanas não diretamente originadas por uma índole dita cristã.

Mas a espiritualidade jansenista, procurando escapar ao devocionismo para se centrar no essencial, acabou por transformar o deus bíblico em um ídolo, ao fazer dele um juiz terrível e poderoso, como se esse espírito obsessor fosse o dono absoluto do destino da nossa humanidade, quando, na realidade, o nosso destino estava dependendo de Jesus, o Cristo, que tendo retornado para a sua própria humanidade, encontra-se agora sob a dependência dos espíritos que formam a plêiade do Astral Superior, tendo Luiz de Mattos assumido a chefia da nossa humanidade, por determinação do próprio Jesus, o Cristo. Uma relação com tal espírito obsessor metido a deus se baseia sempre no temor.

A prática sacramental também se foi ressentindo, ao longo dos tempos, destas influências. A moral rigorosa, no que diz respeito às condições para se aproximar dos sacramentos da penitência e da eucaristia, foi muitas vezes responsável por uma noção incorreta desses sacramentos. O endurecimento das condições exigidas para a absolvição, ou a imposição de penitências exageradas, acabou por transportar os fiéis para uma noção do sacramento como um rígido tribunal tido como divino, e não a um encontro de misericórdia e reconciliação, no âmbito credulário.

Quanto à eucaristia, a verdade é que os fiéis foram se habituando também a comungar mais raramente, devido à exigência das condições rigorosas. Para alguns, a existência de pecados veniais, ou o simples não cumprimento dos preceitos católicos apostólicos romanos, como o do jejum eucarístico, podem ser a causa do afastamento da comunhão eucarística, o que contrasta com o constante ensinamento da Igreja e com as exortações dos pastores, sobretudo desde o papa Pio X.

O enaltecimento também da comunhão espiritual, até a colocar, por vezes, no mesmo nível, ou até mesmo além da comunhão sacramental, é uma proposta tipicamente jansenista. O mesmo poderá ser dito de muitos outros comportamentos perante a eucaristia baseados na produção de um sentimento de indignidade, originado na atitude espiritual assente no terror. Importa, porém, não classificar como jansenismo todas as manifestações de respeito e veneração para com a eucaristia por parte dos arrebanhados católicos.

 

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