15.03.01.06- O catarismo

Prolegômenos
28 de junho de 2018 Pamam

O termo catarismo é proveniente do grego katharos, que significa puro, tendo sido um movimento dito cristão de ascetismo extremo na Europa Ocidental entre os anos 1100 e 1200, estando estreitamente ligado aos bogomilos da Trácia. Esse movimento foi tão forte no sul da Europa e na Europa Ocidental, que a Igreja passou a considerá-lo como sendo uma séria ameaça ao seu credo ortodoxo. As principais manifestações do catarismo se centralizaram na cidade de Albi, motivo pelo qual os seus seguidores receberam também a denominação de albigenses.

Esse movimento teve as suas raízes no movimento pauliciano, na Armênia, e no bogomilismo, na Bulgária, o qual teve influências dos seguidores de Paulo de Tarso. A representação imaginativa da existência de dois deuses ou princípios, sendo um do bem e o outro do mal, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O deus do bem era o deus bíblico do Novo Testamento, tido como o criador do reino espiritual, em oposição ao deus do mal, que muitos cátaros identificavam como sendo Satanás, o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Note-se que aqui Jeová é comparado com o próprio Satanás, o que tem a sua procedência, com a diferença que este não existe, e aquele sim. Assim, toda a matéria visível foi criada por Satanás, quer dizer, por Jeová, tendo sido contaminada pelo pecado, o que incluía o corpo humano, sabendo-se que Jeová afirma ter feito o homem à sua imagem e semelhança, como se assim tivesse também um corpo humano, embora o tenha tido, quando se encontrava encarnado. Esse conceito é totalmente oposto ao da Igreja monoteísta, cujo princípio fundamental é que há somente um deus bíblico, o qual criou todas as coisas visíveis e invisíveis.

Os cátaros também pensavam que as almas humanas eram almas sem sexo, provenientes dos anjos, as quais estavam aprisionadas dentro da criação física de Satanás, que estavam amaldiçoados a ser reencarnados até os fiéis cátaros alcançarem a salvação, por meio de um ritual denominado consolamentum.

Desde o início do seu reinado, o papa Inocêncio III tentou se utilizar da diplomacia para acabar com o catarismo, mas mesmo assim sendo intolerante, por tentar impedir a liberdade de pensamento. Mas no ano 1208, o seu delegado Pierre de Casteinau foi assassinado, quando retornava para Roma, depois de pregar a fé católica no sul da França. Com a opção de enviar missionários católicos e juristas tendo sido descartada, o papa Inocêncio III declarou o seu delegado como sendo um mártir e lançou a Cruzada dos Albigenses, quando então a sua intolerância aingiu o ápice, com ele apelando para a guerra, obviamente que intuído pelos espíritos obsessores que o acompanhavam.

As crenças dos cátaros não são muito claras, sendo um tanto confusas, em função da sua doutrina haver sido estabelecida por falanges de obsessores rivais das falanges obsessoras católicas, mas a maioria dos estudos concordam que se originaram no Império Bizantino, principalmente através da rota de comércio e da propagação da Bulgária para a Holanda e a Espanha, esta última na Catalunha. O nome búlgaros foi também aplicado aos albigenses, com eles mantendo uma associação com o movimento similar dos bogomilos, os Amigos de Deus, da Trácia, que era tido como sendo cristão.

Os estudiosos afirmam que houve uma transmissão substancial de rituais e pensamentos do bogomilismo para o catarismo, estando essa transmissão além de qualquer dúvida que seja considerada como sendo razoável. As suas doutrinas têm inúmeras semelhanças com as dos bogomilos e mais cedo com as dos paulicianos, assim como os maniqueístas e os ditos cristãos gnósticos dos primeiros séculos depois de Cristo, embora muitos estudiosos, principalmente Mark Gregory Pegg, tenham apontado que seria errôneo extrapolar as conexões históricas diretas com base nas semelhanças teóricas percebidas pelos estudiosos modernos. Em sua obra Sobre Heresias, do século VIII, São João Damasceno escreveu notas sobre uma seita anteriormente denominada de cátaros, quando diz:

Eles rejeitam aqueles que se casam pela segunda vez e rejeitam a possibilidade de penitência, ou seja, o perdão dos pecados após o batismo”.

Nós temos apenas uma visão parcial e deturpada das crenças dos cátaros, em virtude dos seus escritos haverem em grande parte sido destruídos por causa da ameaça doutrinária percebida pelo papado, razão pela qual muitos dos nossos conhecimentos existentes sobre eles são derivados de textos provenientes dos seus adversários. As conclusões sobre a ideologia dos cátaros continuam a ser acirradamente debatidas, com os comentaristas regularmente acusando os seus adversários de especulação, distorção e preconceito. Existem alguns textos escritos pelos próprios cátaros que foram preservados pelos seus adversários, como o Rituel Cathare de Lyon, o qual dá uma visão do funcionamento interno da sua fé credulária, mas eles ainda deixam muitas perguntas sem respostas. O Livro dos Dois Princípios foi um grande texto que sobreviveu da destruição, o qual elabora os princípios da teologia dualista a partir do ponto de vista de alguns cátaros albanenses.

Está sendo geralmente aceito atualmente pela maioria dos estudiosos, que o catarismo histórico identificável não surgiu até pelo menos o ano de 1143, quando o primeiro relato confirmado de um grupo defendendo crenças similares é relatado ser ativo em Colônia pelo clérigo Eberwin de Steinfeld. O Conselho de Saint-Félix, realizado em 1167, em Saint-Félix Lauragais, com a presença de muitas figuras locais e também por Nicetas, o papa dos bogomilos, o bispo cátaro da França e um líder dos cátaros na Lombardia, foi um marco na história institucional dos cátaros.

Os cátaros formavam geralmente um partido antisacerdotal, em oposição à Igreja Católica, protestando contra o que consideravam ser a corrupção moral, espiritual e política do papado. Como se pode claramente constatar, desde os primórdios que os seres humanos mais observadores puderam constatar a depravação e a degeneração do Vaticano, sempre convictos das suas afirmações sobre as suas vilanias sacerdotais. G. K. Chesterton, um autor inglês, que era católico, afirmou o seguinte:

O sistema medieval começou a ser quebrado em pedaços intelectualmente, muito antes de mostrar o menor indício de estar caindo aos pedaços moralmente. As enormes primeiras heresias, como os albigenses, não tinham a menor desculpa de superioridade moral”.

No entanto, os relatos contemporâneos sugerem justamente o contrário, como é o caso de São Bernardo de Claraval, o qual, apesar da sua oposição aos cátaros, no Sermão 65 sobre o Cântico dos Cânticos, disse o seguinte:

Se você questionar a heresia sobre a sua fé, nada é mais cristão; se sobre a sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ele diz, ele provará por suas ações… No que diz respeito a sua vida e conduta, ele não engana a ninguém, não passa à frente de ninguém, não faz violência a ninguém. Além disso, as suas faces são pálidas de jejum, ele não come o pão da preguiça, ele trabalha com as suas mãos e, assim, faz a sua vida. As mulheres estão deixando os seus maridos, os homens estão deixando de lado as suas esposas, e todos eles  migram para a heresia! Clérigos e padres, o jovem e o adulto, entre eles, estão deixando as suas congregações e igrejas, e são encontrados frequentemente na companhia de tecelões de ambos os sexos”.

E quando o bispo Fulk, que era um dos principais líderes das perseguições anticátaros, execrou um Cavaleiro de Languedoc por não perseguir os hereges com mais diligência, ele recebeu a devida resposta, nos seguintes termos:

Nós não podemos. Fomos criados no meio deles. Temos parentes entre eles e vemos que levam uma vida de perfeição”.

Em contraste com a Igreja Católica, os cátaros tinham apenas um sacramento, o consolamentum, ou consolação, que envolvia uma breve cerimônia espiritual para remover todo o pecado do crente e lhe empossar para o próximo nível superior como sendo um ser humano perfeito. Ao contrário da penitência católica, o consolamentum só poderia ser tomado uma única vez na vida.

Em virtude disso, muito tem sido alegado que os cátaros acabariam por receber o consolamentum apenas quando a morte se aproximava, realizando o ritual de libertação em um momento em que as obrigações pesadas de pureza exigidas para ser um perfecti seriam temporalmente curtas. Algumas das pessoas que receberam o consolamentum em seus leitos de morte podiam, posteriormente, evitar comida ou bebida, a fim de acelerar a morte, com isso sendo denominado de deendura. Alegou-se por alguns escritores católicos, que quando um dos cátaros, após receber o consolamentum, começasse a mostrar sinais de recuperação, deveria ser sufocado, a fim de garantir a sua entrada no paraíso. Mas tais momentos de extremis têm pouca evidência para sugerir que esta seria uma prática comum dos cátaros.

Os cátaros também recusavam o sacramento católico da eucaristia, em que no dogma católico o corpo e o sangue de Jesus, o Cristo, estão presentes sob as espécies do pão e do vinho, sob a alegativa de que não poderia ser o corpo e o sangue de Jesus, o Cristo, no que, obviamente, estão cobertos de razão. Eles ainda se recusaram a participar da prática do batismo pela água. Bernard Gui, um inquisitor católico, pronunciou-se sobre as práticas e as crenças dos cátaros da seguinte maneira:

Em seguida, eles atacam e insultam, por sua vez, todos os sacramentos da Igreja, especialmente o sacramento da eucaristia, dizendo que ela não pode conter o corpo de Cristo, pois se mesmo que fosse tão grande quanto a maior das montanhas, os cristãos já a teriam consumido inteiramente. Afirmam que o hospedeiro vem da palha, que passa através da crina dos cavalos, a saber, quando a farinha é feita através de uma peneira, feita de crina de cavalo, para que do outro lado se torne o seu corpo e chegar a um fim vil, o que, dizem, não poderia acontecer se Deus estivesse dentro dela.

Sobre o batismo, afirmam que a água é material e corruptível, portanto é criação do mal, não pode santificar a alma, mas os clérigos vendem essa água por avareza, da mesma forma que vendem a terra para o enterro dos mortos e o óleo para o doente para ungi-los e, assim também eles vendem a confissão dos pecados como fazem os sacerdotes”.

Alguns estudiosos acreditam enfaticamente que a concepção cátara de Jesus, o Cristo, assemelhava-se, no Ocidente, ao sabelianismo, os adeptos de Sabélio, um heresiarca do século II, que considerava a Trindade como três aspectos da mesma pessoa e só considerava a natureza divina em Jesus, o Cristo, negando-lhe a natureza humana, e, no Oriente, ao adocionismo, os heréticos do século III, que negavam peremptoriamente a divindade de Jesus, o Cristo.

Já os biógrafos de Bernardo de Claraval e outras fontes, acusam alguns cátaros de arianismo, e alguns estudiosos veem a Cristologia dos cátaros como tendo traços de raízes arianas anteriores. De acordo com alguns dos seus inimigos contemporâneos, os cátaros não aceitavam a compreensão trinitária de Jesus, o Cristo, mas o consideravam a forma humana de um anjo semelhante à cristologia docética, uma heresia dos séculos II e III, que ensinava ter tido Jesus, o Cristo, somente corpo aparente e que passara pela Virgem como a água por um canal, sem dela receber qualquer partícula, e que também repudiava a eucaristia. Isto se explica em função de Jesus, o Cristo, haver aparecido em corpo fluídico aos seus apóstolos, para provar na prática tudo aquilo que havia ensinado em teoria, uma vez que o conhecimento tem que vir acompanhado da experiência.

Zoé Oldenbourg compara os cátaros a budistas ocidentais, porque ela considera que o ponto de vista que eles tinham da doutrina da ressurreição ensinada por Jesus, o Cristo, de fato, foi similar à doutrina budista da reencarnação. Os cátaros ensinavam que para recuperar o estatuto angelical a pessoa deveria renunciar completamente ao mundo material. Até que não estivesse preparado para fazê-lo, os seguidores estariam presos em um ciclo de reencarnações, condenados a viverem na Terra corrompida. Os supostos textos sagrados dos cátaros, além do Novo Testamento, incluem O Evangelho da Ceia Secreta, o Interrogatório de João e O Livro dos Dois Princípios. Como se pode constatar, mesmo imaginando, muitos seres humanos conseguiram apreender em seus corpos mentais a existências das encarnações, visto que é um preceito universal.

O papa Gregório IX, durante o concílio de Narbona, decretou a aplicação de penas muito duras a todos os seguidores, simpatizantes e colaboradores do catarismo, as quais incluíam a perda sumária dos bens patrimoniais e surras humilhantes em público. É assim que o papado e o catolicismo amam ao próximo como a si mesmo, conforme Jesus, o Cristo, ensinou a todos nós. Imaginem, então, se não amassem, o que mais seriam capazes de fazer. Tudo. Como realmente fizeram no decorrer da história do catolicismo. E esse credo perverso ainda ousa petulantemente abrir a boca para se dizer cristão, sem que tenha a mínima noção do que representa o instituto do Cristo para cada humanidade.

 

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