15.03.01.03- O arianismo

Prolegômenos
28 de junho de 2018 Pamam

O arianismo foi uma seita credulária que procurou adotar uma visão cristológica sustentada pelos seguidores de Ário, que era um presbítero, ou um sacerdote com ordens de missa, de Alexandria, nos primeiros tempos da Igreja primitiva, que negava a existência da consubstancialidade entre Jesus, o Cristo, e Deus, a qual os igualava, fazendo acertamente do nosso Redentor apenas uma criatura, embora a primeira e a mais excelsa de todas, em função do seu altíssimo valor, que encarnara como Jesus de Nazaré.

Segundo a visão do arianismo, Jesus, o Cristo, seria subordinado a Deus, e não o próprio Deus. Assim, para Ário só existe um Deus e Jesus, o Cristo, é o seu filho e não o próprio Criador. Mas ele, ao mesmo tempo, afirmava que Deus era um grande e eterno mistério, que se encontrava oculto em Si mesmo, e que nenhuma criatura conseguiria revelá-Lo, visto que Ele não pode revelar a Si mesmo. Com esta linha de pensamento, o historiador H. M. Gwatkin, em sua obra, The Arian Controversy, afirmou o seguinte:

O Deus de Ário é um Deus desconhecido, cujo ser se acha oculto em eterno mistério”.

Estava correto Ário e equivocado o historiador, pois que Jesus, o Cristo, é o filho de Deus, e não o próprio Criador, assim como todos seres igualmente são filhos. Mas não sendo Deus um grande mistério, pois que o mistério não existe. No entanto, Ele realmente se encontra oculto em Si mesmo, mas quando o espírito é realmente evoluído ele consegue revelá-Lo, pois que Deus se encontra contido em cada um de nós, em conformidade com o nosso estágio evolutivo, sendo desta maneira que Ele realmente pode ser revelado, assim como Jesus, o Cristo, revelou a Sua existência, chamando-O de Pai, como Luiz de Mattos revelou a Sua existência, através da natureza, conforme se encontra demonstrado em sua obra Vibrações da Inteligência Universal, como eu O organizei perante toda a nossa humanidade, e assim como outros espíritos evoluídos também revelaram a sua existência, sem confundi-Lo jamais com os deuses sobrenaturais, que não passam de espíritos obsessores decaídos no astral inferior.

Em 319, aproximadamente, Ário começou acertadamente a propagar que só existia um Deus verdadeiro, o Pai Eterno, que era o princípio de todos os seres. Mas escorregou fragorosamente ao dizer que o Cristo era o Logos que havia sido criado por Ele antes do tempo, como sendo um instrumento para a criação, pois a divindade transcendente não poderia entrar em contato com a matéria. Cristo, sendo inferior e limitado, não possuía o mesmo poder divino, situando-se entre o Pai e os seres humanos. Não se confundia com nenhuma das naturezas por se constituir em um semideus. Ário afirmava ainda, que o Filho era diferente do Pai em substância, no que estava completamente equivocado. Essa sua representação imaginativa se ligava ainda ao antigo culto dos heróis gregos, dentre os quais para ele Cristo sobressaía com sendo o maior, embora apenas possuísse uma divindade em sentido impróprio. Como meio de difusão mais abrangente das suas imaginações, compôs algumas canções populares, como se a música servisse para algo dessa natureza, como ainda para tal fim os credulários cantam em seus cultos, já que ela serve apenas para o nosso deleite sonoro, como um entretenimento para as horas de lazer.

Ário foi expulso da comunhão eclesiástica por ocasião de um primeiro sínodo, em Alexandria, mas dois outros concílios, fora o do Egito, condenaram aquela decisão, decidindo por reabilitá-lo. Ele, então, procurou o apoio dos companheiros que tal como ele haviam sido discípulos de Luciano de Antioquia, especialmente Eusébio, o bispo de Nicomédia, atual Izmit. A luta que se seguiu chegou a ameaçar tanto a unidade da Igreja como o próprio Império Romano, o que levou o imperador Constantino a enviar Ósio, o bispo de Córdoba, que era o seu conselheiro particular, como mediador da questão. Em 325, o insucesso da missão o levou a convocar um concílio universal em Niceia, atual Iznik. No Primeiro Concílio de Niceia, em 325, a maioria dos prelados, corroborada pelo próprio Constantino, o qual foi influenciado por Santo Atanásio, o criador do termo homoousios, que significa de substância idêntica, para descrever a relação de Cristo com o Pai, condenou as propostas arianas, declarando-as heréticas, obrigando a queima dos livros que as continham e promulgando a pena de morte para quem os conservasse. Definiu ainda o denominado Símbolo de Niceia, que representa a profissão de fé credulária dos 318 padres, em referência aos 318 bispos que participaram do primeiro Concílio de Niceia, cujo credo niceno é também denominado de Símbolo Niceno.

No entanto, várias dúvidas foram suscitadas no Concílio de Niceia, reacendendo as lutas, com os prelados se acusando mutuamente de hereges. Várias fórmulas dogmáticas foram ensaiadas para complementar a de Niceia, acentuando ainda mais as divisões internas, em um conflito que expôs cada vez mais as diferenças entre o Ocidente, que era latino, e o Oriente, que era grego, envolvendo disputas de primazia hierárquica e de política, enfatizando sempre a luta pelo poder sacerdotal. Dessa maneira, em um novo sínodo geral, o qual foi celebrado na fronteira dos dois impérios, os ocidentais se congregaram em torno do Símbolo de Niceia, e assim excomungaram os hereges. Os orientais, pelo seu lado, apoiaram-se firmemente nas ideias de Ário, e assim excomungaram não apenas os bispos que apoiaram o Símbolo de Niceia, como também o próprio bispo de Roma.

Em 334, ao chamado de Constantino, Ário retornou para Constantinopla, tendo desencarnado em 336, quando estava a caminho de receber novamente a comunhão. As suas representações imaginativas foram adotadas por Constância, período de 337 a 361, mas sem que elas fossem impostas à Igreja, tendo se difundido entre os povos bárbaros do Norte da Europa, quando da evangelização dos godos, pela ação de Ulfila, um  missionário enviado pelo imperador romano do Oriente. Os ostrogodos e os visigodos já chegaram à Europa Ocidental como se estivessem cristianizados, melhor dizendo, falsamente cristianizados, mas sendo todos eles arianos.

Uma carta de Auxentios, um bispo de Milão do século IV, referindo-se ao missionário Ulfila, apresentou uma descrição clara da teologia ariana sobre a divindade, definindo Deus, o Pai, como tendo nascido antes do tempo, e sendo o Criador do mundo era separado de um Deus menor, o Logos, Filho único de Deus, o Cristo, criado pelo Pai. Este, trabalhando com o Filho, criou o Espírito Santo, que era subordinado ao Filho e, tal como o Filho, era subordinado ao Pai. Há ainda outros autores que afirmam que para Ário o Espírito Santo seria uma criatura do Logos, tal como o Filho.

No entanto, a questão só seria finalmente debelada por ocasião do final do reinado de Teodósio, quando o catolicismo se tornou o credo oficial do império, com o dito cristianismo ortodoxo, sendo romano, afirmando-se em definitivo. Após o século V, em virtude das perseguições sofridas, o movimento iniciado por Ário foi desaparecendo gradualmente. Séculos mais tarde, o termo arianos foi utilizado na Polônia para se referir a uma seita dita cristã unitária, a irmandade polaca. Eles inventaram algumas teorias sociais radicais e foram os precursores do Iluminismo.

Desde então, o termo semiarianismo tem sido utilizado para denominar a outros grupos que discordam da Trindade, como as Testemunhas de Jeová e a Associação dos Estudantes da Bíblia Aurora. Alguns estudiosos afirmam que estes dois grupos estariam seguindo uma forma de arianismo, uma vez que não creem na Trindade e consideram Jesus como sendo o Filho de Deus. Mas as Testemunhas de Jeová discordam deste ponto de vista, afirmando que as suas crenças não se originam dos ensinamentos de Ário, e que por isso não adoram o Deus desconhecido de Ário. Já a doutrina espírita também compreende em Jesus o ser humano mais iluminado, que serve de guia e modelo padrão para a humanidade, mas não o confunde com Deus. Na pergunta 17 do Livro dos Espíritos há uma afirmativa que diz o seguinte: “Deus não permite que tudo seja revelado ao homem neste mundo”. Assim, ao que parece, o deus dos espíritas tem um prazer mórbido em conservar os seres humanos na eterna ignorância, ou, então, não consegue prover a nossa inteligência das condições necessárias para desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo. É uma pena!

As ideias de Ário acerca da Trindade fizeram também surgir outras seitas nos tempos atuais, apesar delas negarem não serem arianas, cada uma com as suas próprias representações imaginativas a respeito. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias também prega a separação de Deus, que é o Pai, Jesus, o Cristo, que é o Filho literal na carne, e o Espírito Santo, que é o que testifica aos seres humanos as coisas de Deus. Em consonância com a regra de fé credulária, da Primeira Regra de Fé, Joseph Smith Jr., considerado como sendo o primeiro profeta dessa seita, sendo um médium vidente e ouvinte, teve uma visão de alguns espíritos obsessores do astral inferior, que se lhe apresentaram todos empavonados, daí a razão dele ter afirmado que teve uma visão em que viu Deus e Jesus, o Cristo, lado a lado, no que é conhecida como a primeira visão. Mas o fato é que, caso Jesus, o Cristo, tivesse vindo bem antes, tanto Abraão como Moisés também teria tido a mesma visão, já que o deus bíblico lhes apareceu em pessoa.

E como os espíritos quedados no astral inferior nada podem realizar que tenha alguma utilidade para os encarnados, eles têm como única ocupação somente obsedar àqueles que se deixam levar pelas suas intuições, praticando sempre o mal, já que a maldade se encontra instalada em suas almas, ou então se divertindo às custas dos ignorantes que possuem mediunidades, notadamente as da visão e da audição. Por isso, não foi apenas Joseph Smith Jr., Abraão, Moisés e tantos outros médiuns obsedados que afirmam a visão de Deus, pois existem outros que também afirmam tal visão, tanto de Deus como de Jesus, o Cristo, como seres separados, um exemplo bíblico é o de Estêvão, conforme Atos 7:55-56, que relata o seguinte:

Mas ele, cheio de espírito santo, fitou os olhos no céu e avistou a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus, e disse: Eis que eu observo o céu aberto e o Filho do homem em pé à direita de Deus”.

A Igreja da Unificação, a Associação do Espírito Santo Para a Unificação do Cristianismo Mundial, uma seita fundada pelo Reverendo Sun Myung Moon, também prega e crê na separação entre as pessoas de Deus, Jesus, o Cristo, e o Espírito Santo. Segundo a teologia unificacionista, Deus, o Criador, encerra em Si mesmo as dualidades masculina e feminina, e que Jesus representa a masculinidade perfeita de Deus, enquanto que o Espírito Santo representa a femininidade perfeita de Deus. Com essa, ao invés de chorar em face da ignorância humana, dá até vontade de rir, caso esse reverendo ficasse frente a frente com Luiz de Mattos, o verdadeiro Espírito Santo, para que pudesse constatar pessoalmente essa sua afirmativa, quando então levaria um tremendo susto e tremeria todo, qual uma donzela emocionada.

No entanto, a crença é que, caso Jesus, o Cristo, não tivesse sido rejeitado pelos seus contemporâneos, ele constituiria a primeira família perfeita livre do pecado original, tal como se fosse Adão e Eva restaurados, reabilitados e aperfeiçoados. Assim, a sua esposa seria a feminilidade divina em substância, tal como ele seria a masculinidade divina em substância, com ambos refletindo a imagem perfeita de Deus na Terra. Mas como Jesus, o Cristo, morreu sem haver conseguido constituir essa família substancial, ele permaneceu como sendo a substância da masculinidade divina somente em espírito, ficando a realização no plano físico por conta da sua segunda vinda. Assim, para os unificacionistas, não é errada a crença de que Jesus é Deus e o Espírito Santo também é Deus, ou seja, que ambos são Deus, já que isto pode ser dito de um casal que consubstancialize as características dualísticas de Deus de forma substancial aqui na Terra, que era o ideal de Deus para com Adão e Eva. Em virtude disso, Jesus, o Cristo, era chamado de o último Adão, e também dizia que ele mesmo era Deus, ao mesmo tempo que O chamava de Pai.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Romae