14.02- A Reforma no falso cristianismo

Prolegômenos
22 de junho de 2018 Pamam

Neste tópico destinado à Reforma no falso cristianismo, será considerada apenas a revolta de Lutero contra a Igreja, posto que ele seja considerado o principal reformador. Assim, espíritos como Wyclif, Johannes Janssen, Zwingli, Calvino e outros, devem ser pesquisados em obras que tratem especificamente do assunto, já que aqui existe como escopo fornecer apenas a visão clara do desenvolvimento do falso cristianismo realizada pelos sacerdotes, que como já visto no tópico anterior, formam a classe que mais malefícios trouxe à nossa humanidade, sendo completamente destituída de moral e de ética, portanto, de educação, em consequência, desenvolveram um falso cristianismo, cuja doutrina e o seguir bíblico nada tem a ver com a racionalidade e os ensinamentos estabelecidos por Jesus, o Cristo.

Toda a história da Reforma começa com as indulgências, que são as facilidades compradas para que se possam perdoar as culpas, os erros e os crimes. Os Fugger deveriam retirar das coletas os 20.000 florins que tinham emprestado a Albrecht de Brandenburgo para pagar ao papa por sua confirmação como arcebispo de Maiença. Infelizmente, essa cidade perdera três arcebispos em dez anos, período de 1504 a 1514, e pagara duas vezes pesados emolumentos de confirmação. Para livrá-la de pagar uma terceira vez, Albrecht de Brandenburgo fez um empréstimo. Leão X então concordou em que o jovem prelado dirigisse a distribuição das indulgências em Magdeburgo e Halberstadt, assim como em Maiença. Um agente dos Fugger acompanhava cada um dos pregadores de Albrecht de Brandenburgo, verificava as despesas e receitas, e conservava uma das chaves do cofre forte que guardava as quantias.

O principal agente de Albrecht de Brandenburgo era Johann Tetzel, frade dominicano que conseguira habilidade e fama como coletor de dinheiro. Desde 1500 a sua ocupação principal tinha sido dispor das indulgências. Nessas missões, recebia geralmente o auxílio do clero local. Quando entrava em uma cidade, uma procissão de sacerdotes, magistrados e laicos piedosos o recebia com bandeiras, velas e cantos, ocasião em que carregava a bula de indulgências sobre uma almofada de veludo ou de tecido dourado, enquanto os hinos das igrejas badalavam e os órgãos tocavam. Johann Tetzel oferecia, em uma fórmula impressionante, uma indulgência plenária àqueles que confessassem penitentemente os seus pecados e contribuíssem de acordo com os seus meios para a construção da nova igreja de São Pedro. Diz um historiador católico, que se é historiador, não se compreende por qual motivo seja católico, o seguinte:

Não há dúvida de que Tetzel, segundo o que ele considerava suas instruções autorizadas, declarou como doutrina cristã que não se exigia nada além de uma oferta em dinheiro para se obter a indulgência para os mortos, sem que houvesse qualquer necessidade de contrição ou confissão. Também ensinava, de acordo com a opinião então vigente, que uma indulgência podia ser aplicada a qualquer alma com efeito infalível. Partindo deste princípio não há dúvida de que sua doutrina era virtualmente aquela do drástico provérbio: ‘Logo que o dinheiro soa, a alma do fogo do purgatório voa’. A bula papal de indulgência não dava qualquer sanção a este propósito. Era uma vaga opinião escolástica… e não uma doutrina qualquer da Igreja.

Myconius, frade franciscano hostil aos dominicanos, ouviu Johann Tetzel agir, e contou ao seu respeito no ano de 1517:

“É incrível o que esse sacerdote ignorante disse e pregou. Deu cartas seladas que declaravam que até os pecados que um homem tencionava cometer seriam perdoados. O papa, dizia ele, tinha mais poder do que todos os apóstolos, todos os anjos e santos, mais até do que a própria Virgem Maria, pois estes eram todos subordinados a Cristo, mas o papa era igual a Cristo”.

Johann Tetzel teria escapado à história se não tivesse se aproximado demais das terras de Frederico, o Sábio, Eleitor da Saxônia. Frederico conseguira indulgência para os contribuintes à construção de uma ponte em Torgau, e contratara Johann Tetzel para fazer a propaganda dos benefícios dessa indulgência pontifical. Entretanto, retivera do papa Alexandre VI, em 1501, a soma levantada na Saxônia Eleitoral por uma indulgência para doações a uma Cruzada contra os turcos. Liberaria o dinheiro, disse ele, quando a Cruzada se materializasse, mas a mesma não se materializou. Frederico, o Sábio, conservou as quantias e as aplicou na Universidade de Wittenberg. Agora, levado pela relutância em deixar a moeda da Saxônia emigrar, e talvez devido ao que se contava das hipérboles de Johann Tetzel, proibiu a pregação da indulgência de 1517 em seu território. Mas Johann Tetzel se aproximou tanto das fronteiras que o povo de Wittenberg cruzava os limites para obter a indulgência. Vários compradores levaram essas “cartas papais” a Martinho Lutero, professor de Teologia na Universidade, e lhe pediram para atestar a sua eficácia. Ele recusou. A recusa chegou aos ouvidos de Johann Tetzel, que denunciou Lutero, e assim se tornou imortal.

O pai de Lutero, Hans, era um anticlerical severo, áspero, irascível. A mãe, Grethe, era uma mulher tímida e modesta, muito dada à oração. Martinho Lutero nasceu em Eisleben, em 10 de novembro de 1483. Hans e Grethe acreditavam no açoite como varinha de condão para administrar a justiça. Uma vez, contou Martinho, o seu pai o espancara tão aplicadamente que durante muito tempo foram inimigos declarados. Em outra ocasião, por ter furtado uma noz, a sua mãe lhe bateu até o sangue correr. Mais tarde, Lutero pensava que “a vida severa e dura que levava com eles foi o motivo por que mais tarde me refugiei no claustro e me fiz sacerdote”. O quadro da divindade que os pais lhe transmitiram refletia o seu próprio feitio: um pai duro e juiz severo, exigindo uma virtude sem alegria, pedindo reparação constante, e, por fim, condenando a maior parte da humanidade ao inferno eterno. Ambos acreditavam em feiticeiras, duendes, anjos e demônios de muitas espécies e especialidades, e Lutero conservou a maior parte destas superstições até o fim. Uma crença de terror em um lar de disciplina rigorosa contribuiu para formar a mocidade e a seita de Lutero.

Aos quatorze anos foi transferido para a escola de São Jorge, em Eisenach, e teve três anos relativamente felizes morando no lar confortável de “Frau” Cotta. Lutero nunca se esqueceu da observação que ela fez de que não havia no mundo coisa mais preciosa para um homem do que o amor de uma boa mulher. Foi uma graça que ele levou quarenta e dois anos para conquistar. Nessa atmosfera mais sadia desenvolveu o encanto natural da mocidade, era saudável, alegre, sociável, franco. Cantava muito bem e tocava alaúde.

Em 1501, o seu pai, que ia prosperando, mandou-o para a universidade de Erfurt. O curriculum vitae se concentrava em torno da Teologia e da Saperologia, que ainda era escolástica, mas o nominalismo de Ockham tinha triunfado ali, e é provável que Lutero tenha observado a doutrina de Ockham de que os papas e os concílios podiam errar. Considerou o escolasticismo, de qualquer maneira, tão desagradável que cumprimentou um amigo por “não ter de aprender o esterco que era oferecido” como saperologia. Havia alguns brandos humanistas em Erfurt, que proporcionaram a que ele fosse um tanto influenciado por eles, mas não se preocuparam com ele quando o viram preocupado com o outro mundo. Aprendeu também um pouco de grego e um pouco ainda menos de hebraico, porém leu os principais clássicos latinos.

Em julho de 1505, quando regressava da casa do pai para Erfurt, foi surpreendido por uma forte tempestade. Um raio brilhou perto dele e bateu em uma árvore próxima. Pareceu a Lutero um aviso do deus bíblico de que a menos que ele dedicasse os seus pensamentos à salvação, a morte haveria de surpreendê-lo sem confissão e condenado. Fez um voto a Sant’ana de que se sobrevivesse a essa tempestade se tornaria sacerdote. Havia vinte claustros em Erfurt. Escolheu um que era conhecido pela fiel observância das regras monacais, o dos Eremitas Agostinhos. Reuniu os amigos, bebeu e cantou com eles pelo que disse ser a última vez, e, no dia seguinte, foi recebido como noviço em uma cela do mosteiro.

Por volta de 1509, ficou impressionado com uma sentença da Epístola de São Paulo aos romanos: “O justo viverá pela fé”. Lentamente, essas palavras o conduziram à doutrina de que o homem se pode “justificar”, isto é, tornar-se justo e, portanto, salvar-se do inferno, não pelas boas obras, que nunca poderiam bastar para reparar os pecados contra uma divindade infinita, porém somente pela fé credulária completa em Jesus, o Cristo, e em sua expiação pela humanidade. Note-se aqui que os espíritos obsessores já o haviam dominado e inoculado em seu corpo mental o veneno da fé credulária, ensejando a que o reformador se voltasse até contra a própria razão, como veremos logo mais adiante.

Em Agostinho, Lutero encontrou outra representação imaginativa que talvez lhe tenha renovado o terror, a predestinação, em que o deus bíblico, mesmo antes da criação, destinara para sempre algumas almas à salvação e o resto ao inferno, e que o eleito tinha sido escolhido pelo livre arbítrio desse deus bíblico para ser salvo pelo divino sacrifício de Jesus, o Cristo. Desse incrível absurdo, repleto de ilogismo, voltou correndo para a sua esperança fundamental da salvação pela fé credulária.

Em 1515, atribuiu acertadamente a corrupção do mundo aos sacerdotes, que entregavam ao povo máximas e fábulas de invenções humanas em demasia, e não a palavra das Escrituras do deus bíblico, esta última completamente equivocada. Em 1516, descobriu um manuscrito alemão anônimo, cuja piedade mística apoiava de tal maneira a sua opinião de que a alma dependia absolutamente da graça divina para sua salvação, que o editou e publicou como Teologia Germânica. Censurava aos pregadores de indulgências por se aproveitarem da simplicidade dos pobres. Na sua correspondência particular, principiou a identificar o Anticristo da Primeira Epístola de João com o papa. Em julho de 1517, convidado pelo duque Jorge, da Saxônia Albertina, para pregar em Dresden, afirmou que a simples aceitação dos méritos de Jesus, o Cristo, garantia a salvação do crente. O duque lamentou que essa importância da fé credulária de preferência à virtude “só serviria para tornar o povo presunçoso e rebelde”. Três meses depois o estouvado teólogo e reformador desafiava o mundo a debater as noventa e cinco teses que apregoara na igreja de Wittenberg.

As teses se tornaram o assunto da Alemanha literata. Milhares de pessoas tinham esperado tal protesto, e o anticlericalismo reprimido de várias gerações vibrava por ter encontrado uma voz. A venda de indulgências diminuiu. Mas muitos campeões se ergueram para enfrentar o desafio. O próprio Johann Tetzel, com um pouco de auxílio profissional, respondeu em Cento e Seis Antíteses, em dezembro de 1517. Lutero respondeu a Johann Tetzel em um sermão sobre as indulgências e a graça, concluindo-o com um desafio característico, da seguinte maneira:

Se eu for chamado de herege por aqueles cujas bolsas sofrerem pelas minhas verdades, não me importarei muito com os seus gritos, pois só dizem isso aqueles cujo entendimento confuso nunca conheceu a Bíblia”.

Lutero compôs rapidamente em latim noventa e cinco teses, que intitulou Disputa Para o Esclarecimento da Virtude das Indulgências. Não considerava as suas proposições heréticas, nem elas eram indubitavelmente assim. Ele ainda era um católico fervoroso que não tinha a pretensão de transformar a Igreja. O seu objetivo era refutar as afirmativas extravagantes que se faziam a respeito das indulgências e corrigir os abusos que se tinham multiplicado na sua distribuição. Ainda não negava o “poder das chaves” papal para perdoar os pecados, admitia a autoridade do papa em absolver o penitente confesso das penas terrestres impostas pelos homens da Igreja, mas, na sua opinião, o poder do papa de livrar as almas do purgatório, ou de lhes diminuir o período de castigo nesse antro, dependia não do poder das chaves, que não ia além do túmulo, mas da influência intercessora das orações papais, que podiam ou não ser ouvidas, pelo que dizia:

“Esta pregação desenfreada de perdões transforma em problema nada fácil, até para homens sábios, salvar a reverência devida ao papa das perguntas astutas da laicidade, a saber: Por que o papa não esvazia o purgatório pelo amor sagrado e pela necessidade cruel das almas que ali estão, se ele redime um número de almas pelo dinheiro miserável com que construirá uma igreja”?

Ao meio-dia de 31 de outubro de 1517, Lutero afixou as suas teses na porta principal da igreja do Castelo de Wittenberg. Anualmente, em 1° de novembro, Dia de Todos os Santos, as relíquias reunidas pelo Eleitor eram ali exibidas, e se esperava uma grande multidão. O costume de anunciar publicamente as teses que o proponente se oferecia para defender contra todos os desafiadores era um velho costume das universidades desse tempo.

Em Roma, Silvestre Prierias, censor papal da literatura, publicou um Diálogo afirmando a supremacia absoluta do papa em termos não completamente isentos de exagero, desenvolvendo principalmente a sua teoria a um ponto insustentável no exame das indulgências. Em abril de 1518, Lutero replicou em uma brochura latina Resolutiones, da qual foram enviados exemplares ao seu bispo local e ao papa. O texto falava muito bem de Leão X.

Entretanto, como observaram os conselheiros de Leão X, as Resolutiones afirmavam a superioridade de um concílio ecumênico sobre o papa, falavam ligeiramente nas relíquias e peregrinações, negavam os méritos superiores dos santos e repeliam todos os acréscimos feitos pelos papas nos três últimos séculos à teoria e prática das indulgências. Como estas eram uma fonte importante do rendimento papal, e Leão X estava sem recursos para financiar as suas filantropias, divertimentos e guerras, assim como o programa de administração e construção da Igreja, o pontífice atormentado, que em princípio tinha posto de lado a discussão como uma discórdia passageira entre sacerdotes, agora abordava o assunto, e mandou chamar Lutero a Roma, em 7 de julho de 1518.

Leão X estava disposto à brandura. De fato, um historiador protestante atribuiu o triunfo da Reforma à moderação do Papa. Pôs de lado a ordem para o comparecimento de Lutero em Roma, em vez disso lhe ordenou que se apresentasse em Augsburgo perante o cardeal Cajetan para responder às acusações de indisciplina e heresia. Um perdeu a paciência com o outro. Lutero regressou impenitente para Wittenberg, Cajetan pediu a Frederico que o mandasse a Roma, e Frederico recusou.

Outro professor de Wittenberg, Andreas Bodesntein, conhecido pelo nome da sua cidade natal de Carlstadt, entrara para o corpo da universidade aos vinte e quatro anos, em 1504, aos trinta recebeu a cátedra de saperologia tomística e Teologia. Em 13 de abril de 1517, antecipou-se ao protesto histórico de Lutero publicando 152 teses contra as indulgências. Em princípio contrário a Lutero, logo se transformou em adepto ardoroso, “mais entusiasmado do que eu”, disse o grande rebelde. Quando o Obelisci de Eck desafiou as teses de Lutero, Carlstadt as defendeu em 406 proposições. Eck replicou com um desafio para um debate público. Carlstadt concordou prontamente, e Lutero tratou dos acordos.

Em junho de 1519, os dois debatedores se dirigiram para Leipzig, escoltados em carros do campo por 200 estudantes de Wittenberg armados, pois iam entrar em território hostil a Lutero. Em 27 de junho, Eck e Carlstadt iniciaram a justa. Depois de Carlstadt, durante dias, sofrer a habilidade da argumentação superior de Eck, Lutero subiu à tribuna por Wittenberg. Foi brilhante e vigoroso no debate, considerando a obscuridade do assunto. Negou enfaticamente a primazia do bispo de Roma aos primeiros dias do falso cristianismo, e lembrou o pequeno e antipático acordo que teve, tanto assim que a Igreja Ortodoxa Grega, muito difundida ainda, repelia a supremacia de Roma. Quando Eck declarou que a opinião de Lutero repetia a de Huss que o Concílio de Constança havia condenado, Lutero respondeu que até os concílios ecumênicos podiam errar, e que muitas doutrinas de Huss eram fundamentadas. Em 8 de julho, quando esse debate terminou, Eck cumprira o seu verdadeiro objetivo: fazer Lutero se condenar por uma heresia definida. Agora a Reforma progredia de uma discussão menos importante a respeito de indulgências para um desafio importante à autoridade papal sobre a falsa cristandade.

Em junho de 1520, Lutero escreveu a Spalatin, assim:

“Atirei os dados. Agora desprezo a ira dos romanos tanto quanto a sua proteção. Não me reconciliarei com eles por toda a eternidade… Eles que condenem e queimem tudo que me pertence; em retribuição farei o mesmo com eles… Agora já não tenho medo, e vou publicar um livro em língua alemã sobre a reforma cristã, dirigida contra o papa, em uma linguagem tão violenta como se me estivesse dirigindo ao Anticristo”.

Em 15 de junho de 1520, Leão X publicou uma bula, Exsurge Domine, que condenava quarenta e uma declarações de Lutero, ordenava a queima pública das obras em que estas haviam aparecido, e exortava Lutero a abjurar os seus erros e voltar ao aprisco. Depois de sessenta dias de recusa de ir a Roma fazer uma retratação pública, deveria ser eliminado da “cristandade” pela excomunhão, seria escorraçado como herege por todos os fiéis, todos os lugares em que aparecesse deveriam suspender os serviços credulários, e todas as autoridades seculares deveriam bani-lo dos seus domínios ou entregá-lo a Roma.

Lutero assinalou o fim deste período de graça, publicando o primeiro dos três livros que constituíam um programa de revolução credulária. Até ali escrevera em latim para as classes intelectuais, agora escrevia em alemão, e como patriota alemão, Carta Aberta à Nobreza Cristã de Nação Alemã sobre a Reforma do Estado Cristão. Lutero atacava os “três muros” que o papado erguera em volta de si, a saber:

  1. A distinção entre o clero e a laicidade;
  2. O direito do papa de decidir a interpretação da Escritura;
  3. E o seu direito exclusivo de convocar um concílio geral da Igreja.

Todas essas afirmações defensivas, dizia Lutero, deviam ser derrubadas.

A Alemanha, assim como também a Inglaterra, estava madura para um apelo ao nacionalismo, até então ainda não havia a Alemanha no mapa, mas havia alemães, cônscios de si mesmos como povo. Assim como Huss tinha estendido o seu patriotismo boêmio, assim como Henrique VIII repeliria não a doutrina católica, mas sim o poder papal sobre a Inglaterra, assim Lutero firmava agora o estandarte da revolta não nos desertos teológicos, mas sim no solo rico do espírito nacional alemão. Em qualquer parte que o protestantismo vencesse, o nacionalismo levaria a bandeira.

Em setembro de 1520, Eck e Jerome Aleander promulgaram a bula da excomunhão na Alemanha. Em 6 de outubro, Lutero revidou com um segundo manifesto, O Cativeiro Babilônico da Igreja. Dirigido aos teólogos e aos sábios, voltava ao latim, mas foi logo traduzido, e teve quase tanta influência sobre a doutrina “cristã” quanto a Carta Aberta tivera sobre a história eclesiástica e política. Assim como os judeus tinham sofrido um longo cativeiro na Babilônia, assim a Igreja fundada por Jesus, o Cristo, e descrita no Novo Testamento, sofrera mais de mil anos de cativeiro sob o papado em Roma. Durante esse período o credo de Jesus, o Cristo, tinha sido corrompido na fé credulária, na moral e no ritual.

A explicação para essa referência de Lutero, prende-se ao fato de que o nome Babilônia adquiriu gradualmente uma conotação negativa no mundo “cristão”, em função da imagem deixada pelos relatos da derrota e posterior deportação dos judeus para a Babilônia na época de Nabucodonosor II. Os textos dos padres da Igreja mostram o seu desconhecimento da história da cidade e de um desvio para a visão fantasiosa negativa sobre ela, que ficou enraizada na tradição “cristã” seguinte. Assim, a Babilônia se tornou um símbolo do pecado e da perseguição, em decorrência, Roma passou a ser identificada como sendo uma nova Babilônia na época da perseguição das primeiras comunidades “cristãs” e mais tarde quando os primeiros reformistas, tendo Lutero à frente, fizeram de Roma a cidade do pecado, retomando o topo da Grande Prostituta do Apocalipse. Na iconografia da Europa medieval, tanto no Ocidente como no Oriente, em Bizâncio e na Rússia, a imagem da Babilônia como sendo a cidade do mal é generalizada, notadamente sendo associada a uma serpente simbolizando o pecado.

Lutero, o “camponês, filho de camponês”, como se chamava a si mesmo orgulhosamente, de trinta e sete anos, escreveu uma carta não de desculpas, porém de conselho quase paternal ao “herdeiro” de São Pedro e dos Médici, Leão X, de quarenta e cinco anos. Exprimia o seu respeito pelo papa como indivíduo, mas condenava sem remissão a corrupção do papado nos tempos passados e da Cúria papal no presente. Com esta carta, Lutero enviou a Leão X o terceiro dos seus manifestos. Em novembro de 1520, deu-lhe o nome de Tratado Sobre a Liberdade Cristã. Aqui exprimia com moderação desusada a sua doutrina fundamental: que só a fé credulária, não as boas obras, faz realmente o verdadeiro “cristão”, salvando-o do inferno. Pois é a fé credulária que torna um homem bom, as boas obras derivam da sua fé credulária, já que “A árvore dá frutos, os frutos não dão a árvore”.

Quando Lutero soube que os enviados papais estavam queimando os seus livros, resolveu responder da mesma maneira. Enviou um convite aos “piedosos e estudiosos jovens” de Wittenberg para se reunirem fora da porta Elster da cidade, na manhã de 10 de dezembro. Ali, com as suas próprias mãos, atirou a bula papal em uma fogueira, junto com alguns decretos canônicos e volumes de teologia escolástica, em uma só ação simbolizou a sua rejeição do direito canônico da saperologia de Tomás de Aquino, e de qualquer autoridade coerciva da Igreja. Em 11 de dezembro, Lutero proclamou que nenhum homem poderia se salvar a menos que renunciasse ao domínio do papado.

Como se pode ver, um sacerdote ignorante e intolerante, mas raramente sério, tinha excomungado o papa! É ou não é um falso cristianismo? São ou não são aqueles que se dizem seguidores de Jesus, o Cristo, todos anticristãos?

Outro ator agora subia ao palco, e desse momento em diante desempenhou durante trinta anos um papel importante no conflito das teologias e Estados. O futuro imperador Carlos V começava com a hereditariedade real, embora maculada. Os seus avós paternos foram o imperador Maximiliano e Maria de Borgonha, filha de Carlos, o Temerário. Os seus avós maternos foram Fernando e Isabel. O pai era Filipe, o Belo, rei de Castela aos vinte e seis anos, morto aos vinte e oito; a mãe era Joana, a Louca, que endoidecera quando Carlos V tinha seis anos de idade, e viveu até ele ter cinquenta e cinco. Nasceu em Ghent, em 24 de fevereiro de 1500, foi criado em Bruxelas e permaneceu flamengo na língua e no caráter até o seu recolhimento final na Espanha. Nem a Espanha nem a Alemanha o perdoaram. Mas com o tempo aprendeu a falar alemão, espanhol, italiano e francês, e sabia também ficar calado em cinco línguas.

Aos dezesseis anos se tornou Carlos I, rei da Espanha, Sicília, Sardenha, Nápoles e América espanhola. Aos dezenove anos aspirava a ser imperador. O rapaz que aos dezenove anos se viu chefe titular de toda a Europa Central e Ocidental, exceto a Inglaterra, França, Portugal e os Estados Papais, já estava marcado pela saúde precária que viria a lhe aumentar as vicissitudes da vida.

Em 23 de outubro de 1520, Carlos V, não mais velho do que o próprio século, foi à Aachen de Carlos Magno para ser coroado imperador. O Eleitor Frederico se pôs a caminho para assistir à cerimônia, mas foi detido em Colônia pela gota. Nessa cidade, Aleander lhe apresentou outra petição para a prisão de Lutero. O Eleitor Frederico mandou chamar Erasmo e lhe pediu a opinião. Erasmo defendeu Lutero, observou que havia abusos gritantes na Igreja e argumentou que os esforços para os remediar não deveriam ser suprimidos. Quando o eleitor Frederico lhe perguntou quais eram os principais erros de Lutero, ele respondeu: “Dois: ele atacou o papa na sua coroa e os sacerdotes na barriga”; e ainda existem aqueles que seguem a classe sacerdotal. O Eleitor Frederico informou ao núncio que Lutero tinha apresentado uma apelação, e enquanto os seus resultados não fossem conhecidos, ele deveria permanecer livre.

O imperador deu a mesma resposta, tinha prometido aos eleitores, como condição da sua eleição, que nenhum alemão seria condenado sem julgamento justo na Alemanha. Entretanto, a sua posição tornava a ortodoxia imperativa. Estava estabelecido mais firmemente como rei da Espanha do que como imperador de uma Alemanha que se insurgia contra o governo centralizado, e o clero da Espanha não suportaria mais um monarca brando com os hereges. Além disso, aproximava-se a guerra contra a França, que seria feita com Milão como prêmio, ali o apoio do papa valeria um exército. O Santo Império Romano estava preso ao papado de muitas maneiras, a queda de um feriria profundamente ao outro. Como poderia o imperador governar o seu reino esparso e diverso sem o auxílio da Igreja Católica? Mesmo agora os seus principais ministros eram sacerdotes. E ele precisava dos fundos eclesiásticos para proteger a Hungria contra os turcos. Foi com esses diversos problemas em mente, mais do que a questão de um monge refratário, que Carlos V convocou uma Dieta Imperial a se reunir em Worms.

Era tão forte a simpatia que tinha por Lutero, que o confessor do imperador, o monge franciscano Jean Glapion, aproximou-se secretamente do capelão de Frederico, Georg Spalatin, em uma tentativa de conciliação. Observou que nenhum sistema de credo poderia se basear solidamente na Escritura, pois “a Bíblia é como cera mole, que qualquer homem pode torcer e esticar ao seu bel-prazer”. E isto é uma verdade, pois que vemos os sacerdotes fazerem isso em todos os momentos, inclusive na atualidade.

Em 26 de abril de 1521, o Eleitor Frederico iniciou a viagem de volta a Wittenberg, temendo que a polícia imperial tentasse prender Lutero, depois de expirado o prazo do salvo-conduto de 6 de maio. Combinou, então, que ele caísse em uma emboscada na viagem de volta como se tivesse sido por salteadores, e fosse então levado para o castelo de Wartburg para ficar ali escondido, com o consentimento relutante de Lutero.

Em 6 de maio, o imperador Carlos V apresentou à Dieta o Edito de Worms, que acusava Lutero. Dois dias depois da apresentação deste edito, Leão X transferiu o seu apoio político de Francisco I para Carlos V. A Dieta reduzida concordou com o edito, e em 26 de maio Carlos V o promulgou oficialmente.

Na solidão pouco criptoscópica por parte de Lutero, já que ele tinha praticamente muito pouco de desenvolvimento intelectual, as dúvidas e as alucinações o afligiram. Seria possível, perguntava a si mesmo, que ele estivesse certo e tantos eruditos estivessem errados? Seria sensato abater a autoridade do credo já estabelecido? O princípio do julgamento particular predizia o início da revolução e a morte da lei? Na história que ele contou no seu anedotário, foi perturbado no castelo por barulhos estranhos que podia explicar apenas como atividade de demônios. Como médium vidente e ouvinte que era, afirmava ter visto Satanás em várias ocasiões, que não era Satanás coisa nenhuma, sendo apenas espíritos obsessores quedados no astral inferior. Uma vez, jurava ele, o Diabo lhe atirou nozes, nozes fluídicas, diga-se de passagem, outra vez, conta uma lenda célebre, Lutero lhe atirou um vidro de tinta, mas errou o alvo, o que é claro e evidente, pois que não se pode atingir materialmente aos espíritos. Como se pode claramente constatar, os espíritos do astral inferior gostavam de perturbar e atormentar a vida de Lutero.

As numerosas obras literárias dos reformadores, transferiu a preponderância das publicações da Europa meridional para a setentrional, onde permaneceu daí em diante. A imprensa foi relevante para a Reforma, por isso Gutenberg tornou Lutero possível.

Embora fosse um caso raro de sacerdote correto e bem intencionado, a ignorância e a intolerância de Lutero não podiam aceitar a Bíblia e a razão, pois segundo ele uma ou outra devia ceder, pelo que afirmava:

A razão é o maior inimigo que a fé possui… Ela é a maior amante do Diabo… uma prostituta comida pela sarna e pela lepra, que deveria ser calcada aos pés e destruída, ela e a sua sabedoria… Atirai-lhe esterco na cara… afogai-a no batismo”.

Lutero condenava os estudiosos escolásticos por fazerem tantas concessões à razão, por tentarem provar racionalmente os dogmas, por tentarem harmonizar o falso cristianismo com a sabedoria daquele “amaldiçoado, presunçoso, velhaco pagão Aristóteles”.

Por isso, Lutero repeliu como uma forma de ateísmo as tentativas de Erasmo e outros estudiosos de harmonizar a Escritura e a razão por interpretações alegóricas. Como ele mesmo conseguira paz espiritual não através da Veritologia, mas sim através da fé credulária em Jesus, o Cristo, como a que era oferecida nos Evangelhos, apegava-se adredemente à Bíblia como sendo ela o último refúgio da alma.

Quase todos os elementos pagãos do falso cristianismo desapareceram quando o protestantismo tomou forma. A contribuição judaica triunfou sobre a grega. A concepção que Lutero tinha acerca do deus bíblico era judaica, como era básica nele a velha imagem do deus bíblico como iracundo e vingador, e, portanto, de Jesus, o Cristo, como o juiz final.

A crença no poder e na multipresença dos demônios, que nada mais eram que os espíritos obsessores quedados no astral inferior que o atormentavam constantemente, atingiu no século dezesseis uma intensidade não verificada em qualquer outra era, e a sua preocupação com Satanás adulterou muito da teologia protestante. A doutrina de Lutero foi mais tarde toldada pela consideração credulária de que o homem, por natureza, é mau e disposto ao pecado.

No entanto, Lutero não deixou de repetir a doutrina papal por ocasião da sua reforma do falso cristianismo, quando assim escreveu:

“Todos os povos que procuram e se esforçam por chegar até Deus por outro meio qualquer que não seja através de Cristo, como os judeus, os turcos, os falsos santos, os hereges, etc., caminham em escuridão e erro horríveis, e assim deverão morrer e se perder nos seus pecados”.

 Aqui, ressuscitado em Wittenberg, estava o ensinamento de Bonifácio VIII e do Concílio de Roma, em 1302, de que “fora da Igreja não há salvação”.

Em 1521, o antigo professor de Carlos V se tornara o papa Adriano VI. Em 1522, ele enviou a uma Dieta de Nuremberg um pedido de prisão para Lutero, e uma confissão dos erros eclesiásticos, de modo inesperado sim, mas patente, da seguinte maneira:

“Bem sabemos que durante muitos anos coisas merecedoras de repúdio se aglomeraram em torno da Santa Sé. As coisas sagradas foram profanadas, as ordenações desobedecidas, de modo que em tudo houve mudança para pior. Assim não é de surpreender que a doença tenha nascido da cabeça para os membros, dos papas para a hierarquia. Nós todos, prelados e clero, desviamo-nos do bom caminho, e durante muito tempo não houve um só que tenha feito o bem, não, nem um só (grifo meu)… Portanto… empregaremos toda a diligência para reformar antes de tudo a Cúria romana, de onde talvez se originaram todos esses males… O mundo inteiro anseia por tal reforma”.

Como se pode facilmente constatar, é o próprio papa quem confessa abertamente os crimes e os erros do papado e dos seus sacerdotes, afirmando que esses crimes e erros nasceram da cabeça para os membros, ou seja, dos papas para os seus sacerdotes, e, por extensão, para todos os seus arrebanhados, o que vem comprovar, sem qualquer sombra de dúvida, que os católicos, assim como os seguidores das suas seitas e dos demais credos, são todos anticristãos.

A assembleia concordou em pedir ao Eleitor Frederico que detivesse Lutero, mas perguntava por que Lutero deveria ser condenado por apontar abusos clericais agora tão peremptoriamente confirmados pelo próprio papa. Considerando que a confissão do papa era insuficientemente pormenorizada, enviou-lhe a sua própria lista de cem queixas da Alemanha contra a Igreja, e propunha que essas queixas fossem estudadas e sanadas por um conselho nacional a se realizar na Alemanha sob a presidência do imperador.

Para uma sessão posterior da Dieta de Nuremberg, em janeiro de 1524, um novo papa, Clemente VII, enviou o cardeal Lorenzo Campeggio com outros pedidos para a prisão de Lutero. As multidões apuparam o núncio em Augsburgo, que teve de entrar secretamente em Nuremberg para evitar as demonstrações hostis, e teve a humilhação de ver 3.000 pessoas, inclusive a irmã do imperador, receberem a Eucaristia sob as duas espécies de um pastor luterano. Advertiu a Dieta de que a revolta credulária, caso não fosse reprimida, em breve minaria a autoridade civil e a ordem. Mas a Dieta respondeu que qualquer tentativa de derrubar Lutero à força resultaria em “motins, desobediência, assassínio e ruína geral”. Enquanto continuavam as deliberações, a Revolução Social principiou.

Em meados de 1525, em meio da Revolução Social, Lutero lançou da imprensa de Wittenberg um panfleto intitulado Contra as Hordas Salteadoras e Assassinas de Camponeses. A sua veemência surpreendeu tanto ao príncipe como ao camponês, assim como ao prelado e ao humanista. Chocado pelos excessos dos rebeldes enfurecidos, temendo uma possível subversão de toda lei e governo na Alemanha, e mortificado pelas acusações de que os seus próprios ensinamentos tivessem provocado toda a maré, colocava-se agora sem reservas do lado dos senhores em perigo. Rejeitava a suposta garantia da Escritura para o comunismo.

Lutero comia demais, mas era capaz de se castigar a si mesmo com jejuns prolongados. Bebia demais, lamentando a bebida como um vício nacional, mas a cerveja era a água vital dos alemães, assim como o vinho também era dos italianos e dos franceses. No entanto, nunca ouvimos falar em que ele tivesse ultrapassado os limites para a embriaguez, tanto que dizia:

Se Deus pode me perdoar por tê-lo crucificado com milhares de missas durante vinte anos, também pode ser indulgente comigo por tomar às vezes um bom gole para homenageá-lo”.

Mas Jeová, esse deus bíblico, pode ser também comparado com Baco, já que pode ser homenageado com um bom gole, assim como os sacerdotes católicos também adoram um vinho em suas missas, tal como se estivessem bebendo o sangue de Jesus, o Cristo!

Os seus erros saltavam aos olhos e aos ouvidos. Orgulhoso no meio das suas constantes expressões de humildade, dogmático contra o dogma, desordenado no zelo, não concedendo uma parcela de benevolência aos seus adversários, agarrando-se às superstições, ao mesmo tempo em que ria da superstição, denunciando a intolerância e a praticando, não havia aqui nenhum modelo de coerência nem de virtudes, mas sim um homem tão contraditório quanto a própria vida humana, atanazado pela pólvora da guerra.

Conforme já dito acima, o intelecto de Lutero não era nada vigoroso, mas o seu criptoscópio não era assim tão pouco desenvolvido, embora estivesse carregado demais dos miasmas da juventude e demasiado preocupado com a guerra para produzir uma saperologia racional. Insistia em que a razão devia permanecer nos limites postos pela fé credulária.

A sua opinião era de que o sentimento, mais do que o pensamento, era a alavanca da história. Os sacerdotes que amoldam os credos movem o mundo, os saperólogos vestem de frases novas, geração após geração, a sublime ignorância da parte pontificando sobre o todo. Assim Lutero rezava, enquanto Erasmo raciocinava, e enquanto este cortejava os príncipes, aquele julgava que falava com o deus bíblico, ora imperiosamente, como alguém que tinha combatido sem descanso nas lutas do seu senhor e tinha o direito de ser ouvido, ora humildemente como uma criança perdida em um espaço indefinido. Confiante em que o deus bíblico estava do seu lado, ele enfrentou obstáculos intransponíveis, e venceu, pelo que dizia:

“Carrego comigo a maldade do mundo inteiro, o ódio do imperador, do papa e de todo o seu séquito. Pois bem, avante, em nome de Deus!”.

Teve a coragem de desafiar os inimigos porque não tinha o intelecto desenvolvido o suficiente para duvidar da sua verdade. Foi o que tinha que ser para fazer o que tinha que fazer.

É instrutivo observar como Lutero passou da intolerância para o dogma à medida que o seu poder e certeza cresciam. Entre os erros que Leão X, na bula Exsurge Domine, denunciou Lutero, estava o de que “queimar hereges é contra a vontade do Espírito Santo”. Em 1520, na Carta Aberta à Nobreza Cristã, Lutero decretava que “cada homem era um sacerdote”, com o direito de interpretar a Bíblia segundo o seu parecer particular e luz individual, e acrescentava: “Deveríamos vencer os hereges com livros, não com fogueiras”. Em 1522, no ensaio Sobre a Autoridade Secular, ignorando completamente que a consciência é a mãe da razão, a qual ele mesmo criticou em detrimento da fé credulária, ele escreveu o seguinte:

“Deus pode e quer que ninguém governe a alma a não ser ele mesmo… Desejamos tornar isto tão claro que todos o apreendam, e que os nossos Junkers, os príncipes e os bispos, vejam quanto são loucos quando procuram obrigar o povo… a acreditar em uma coisa ou noutra… Uma vez que a crença ou a descrença é uma questão de consciência de cada um… o poder secular devia se contentar em tratar dos seus próprios assuntos, e permitir aos homens acreditar em uma coisa ou em outra, segundo o que forem capazes e desejarem, e não oprimir ninguém pela força. Pois a fé é uma obra livre, para a qual ninguém pode ser obrigado… A fé e a heresia nunca são tão fortes como quando os homens se opõem a elas pela força pura, sem a palavra de Deus”.

Mas era difícil para um homem com o caráter vigoroso e positivo de Lutero defender a tolerância depois que a sua posição ficara relativamente garantida. Um homem que tinha a certeza de ter a palavra do deus bíblico como se fosse o verdadeiro Deus não podia tolerar a contradição. A transição para a intolerância foi mais fácil em relação aos judeus. Em 1537, quando o Eleitor João expulsou os judeus da Saxônia, Lutero repeliu um apelo judeu pela sua intercessão. Em sua Conversa à Mesa, uniu “judeus e papistas” como sendo “ímpios miseráveis… duas meias feitas com o mesmo pedaço de pano”. Nos seus últimos anos se entregou a uma fúria de antissemitismo, denunciou os judeus como “uma nação obstinada, incrédula, orgulhosa, má, abominável”, e pediu que as suas escolas e sinagogas fossem arrasadas pelo fogo. Temos aqui em Lutero um ensaio da perseguição nazista aos judeus, dentro da Alemanha.

No fim da vida, Lutero retrocedeu ao seu sentimento antigo para com a tolerância. No seu último sermão aconselhava o abandono de todas as tentativas de destruir a heresia pela força, católicos e anabatistas deviam ser tolerados com paciência até o Juízo Final, quando Jesus, o Cristo, encarregar-se-ia deles.

O dogmatismo intolerante dos reformadores, as suas violências de linguagem, fragmentação e animosidades sectárias, a destruição da arte credulária, a teologia predestinarista, a indiferença pelo saber secular e a insistência renovada sobre os demônios e o inferno, tudo isso contribuiu para afastar os humanistas da Reforma.

Willibald Pirkheimer, helenista e estadista, que apoiara tão abertamente Lutero quando este fôra excomungado no primeiro plano da bula Exsurge Domine, ficou deveras escandalizado com a violência da linguagem de Lutero, e por isso se afastou da revolta. Em 1529, embora ainda crítico da Igreja, escreveu o seguinte:

“Não nego que no princípio todos os atos de Lutero não parecessem inúteis, uma vez que nenhum homem bom poderia ficar satisfeito com todos os erros e imposturas que se acumularam gradativamente no Cristianismo (grifo meu). Assim, juntamente com outros, esperei que se pudesse aplicar algum remédio a tão grandes males, mas fiquei cruelmente decepcionado. Pois, antes que os erros antigos fossem extirpados, surgiram outros muito mais intoleráveis, que comparados a eles tornavam os antigos brinquedos de criança… As coisas chegaram a um ponto que os patifes papistas acabam parecendo virtuosos perto dos outros evangélicos (grifo meu)… Lutero, com a sua língua desavergonhada e descontrolada, deve ter caído em insânia, ou estar inspirado pelo Espírito do Mal”.

Reuchlin enviou a Lutero uma carta gentil, e impediu que Eck queimasse os livros de Lutero em Ingolstadt, mas repreendeu o seu sobrinho Melanchthon por adotar a teologia luterana, e morreu nos braços da Igreja. Em 1522, Johannes Dobenek Cochlaeus, em princípio ao lado de Lutero, voltou-se contra ele, e lhe dirigiu uma carta de censura:

“Supõe que desejamos desculpar ou defender os pecados e males dos sacerdotes? Deus nos livre! Haveríamos antes de ajudá-lo a extirpá-los, enquanto isso se puder fazer de maneira legítima… Mas Cristo não ensina os métodos que você está executando tão injuriosamente com “Anticristo”, “bordéis”, “antros do Diabo”, “latrinas”, e outros termos ofensivos desconhecidos, sem falar nas suas ameaças de espada, derrame de sangue e assassínio. Oh! Lutero, Cristo nunca lhe ensinou esse modo de atuar”.

Erasmo expressou a opinião geral dos humanistas, e nisso Melanchthon concordava tristemente, de que onde quer que fosse que o luteranismo triunfasse, as letras sofreriam o desgaste, isto é, a instrução e a literatura declinariam. Os protestantes retrucaram que isso era simplesmente porque o saber, para o humanista, significava principalmente o estudo dos clássicos e da história pagã.

Morando com Froben, Erasmo funcionava como conselheiro literário, escrevendo prefácios e publicando os sacerdotes. Entre 1523 e 1524, Holbein fez retratos célebres dele em Basileia. Um ainda se encontra lá; outro foi enviado ao arcebispo Warham, e estava na coleção do conde de Randnor; o terceiro, no Louvre, é a obra-prima de Holbein. De pé, diante de uma mesa, escrevendo, envolto em um pesado casaco forrado de pele, com um gorro que lhe chega até ao meio de cada orelha, o maior dos humanistas trai na sua velhice prematura — estava agora com cinquenta e sete anos — o tributo cobrado por uma saúde combalida, uma vida seguindo os ensinamentos de Aristóteles, e a solidão e os sofrimentos espirituais provocados pela tentativa de ser justo para com os dois lados nos conflitos dos dogmas do seu tempo. Aqui, em um dos maiores de todos os retratos, está a Renascença ferida pela Reforma.

Em 1523, o papa Adriano VI, cujas boas intenções ultrapassavam aos seus poderes, morreu do coração. Clemente VII, o seu sucessor, continuou a insistir com Erasmo para aderir aos que lutavam contra Lutero. Em 1524, quando por fim o sábio cedeu, não foi com um ataque pessoal a Lutero e nenhuma acusação geral à Reforma, mas sim com um estudo objetivo e cortês do livre arbítrio, De libero Arbitrio. Admitia que não podia penetrar o mistério da liberdade moral, nem a reconciliar com a onisciência e a onipotência divinas. Mas nenhum humanista poderia aceitar as doutrinas da predestinação e do determinismo sem sacrificar a dignidade e o valor do homem ou da vida humana. Nessa sua obra se encontrava outra divisão entre a Reforma e a Renascença.

Que combinação de forças e circunstâncias habilitou o protestantismo nascente a sobreviver à hostilidade tanto do papado como do império? A piedade mística, os estudos bíblicos, a reforma credulária, o desenvolvimento criptoscópico e a audácia de Lutero não eram suficientes, pois poderiam ter sido desviados ou dominados. Para os estudiosos, os fatores econômicos foram decisivos, tais como:

  • O desejo de conservar a riqueza alemã na Alemanha, de libertar a Alemanha do domínio papal ou italiano;
  • De passar as propriedades eclesiásticas para os usos seculares;
  • De repelir as intrusões imperiais na autoridade territorial, judicial e financeira dos príncipes, cidades e estados alemães.

E eles acrescentam certas condições políticas que permitiram o êxito protestante. O Império Otomano, depois de conquistar Constantinopla e o Egito, ia-se expandindo perigosamente nos Balcãs e na África, absorvendo metade da Hungria, sitiando Viena e ameaçando fechar o Mediterrâneo ao comércio “cristão”. Carlos V e o arquiduque Fernando exigiam uma Alemanha e uma Áustria unidas, com recursos e homens tanto protestantes como católicos para resistir a essa avalanche muçulmana. O imperador estava geralmente entregue aos assuntos da Espanha, da Flandres, ou da Itália, ou em conflito de morte com Francisco I, da França, assim não tinha tempo nem recursos para uma guerra civil na Alemanha. Concordava com o seu protegido Erasmo em que a Igreja precisava terrivelmente de reforma, estava intermitentemente em disputa com Clemente VII e Paulo III, mesmo ao ponto de permitir que o seu exército saqueasse Roma. Somente quando o imperador e o papa se fizeram amigos é que puderam combater eficazmente a revolução credulária.

Mas a realidade é que a Igreja Católica não podia se apropriar indevida e estupidamente sozinha do nome de Jesus, o Cristo, pois que o Cristo é uma instituição relativa a cada uma das humanidades, quando elas alcançam o estágio evolutivo adequado e requerido para que ele nela seja instituído, por conseguinte, não podia ser a detentora exclusiva da denominação de “cristianismo” em seu credo, e os seus arrebanhados como sendo cristãos. Daí a função do Protestantismo, que se considerando também parte desse “cristianismo”, e com os seus arrebanhados sendo também considerados como se fossem cristãos, batem nas mesmas teclas bíblicas, com poucas diferenças em seus resultados.

Assim, o credo católico e as suas milhares e milhares de seitas que pululam por esse mundo afora e que se consideram cristãs, mas que, na realidade, são todas anticristãs, não passam de engodos, de burlas, cujo objetivo principal é a riqueza, arrancada à força dos seus fiéis arrebanhados, com base na fé credulária, que eles preferem em detrimento ao poder racional, ignorando que estão servindo a um deus bíblico, o qual não passa de um espírito trevoso tremendamente obsessor. Então fica assim mais fácil para o explanador do Racionalismo Cristão demonstrar claramente a total inexistência de qualquer resquício do verdadeiro cristianismo, pois que esse falso cristianismo não passa de um mero  devaneio, por isso enganador, quando, na realidade, é um verdadeiro anticristianismo, enquanto que ora em diante o antecristianismo passa a ser uma realidade para todos os seres humanos, por ser compatível com o estado evolutivo da nossa humanidade, devendo todos eles se tornarem, necessária e obrigatoriamente, antecristãos.

Os príncipes que adotavam de bom grado o direito romano, o qual tornava o governante secular onipotente como delegado do “povo soberano”, viam no protestantismo um credo que não só exaltava o Estado como lhe obedecia, por isso eles agora poderiam ser senhores tanto espirituais como temporais, e toda a riqueza da Igreja poderia ser deles para administrar ou usufruir. Em 1525, João, o Constante, que sucedeu a Frederico, o Sábio, como Eleitor da Saxônia, aceitou definitivamente a fé credulária luterana, o que Frederico nunca fizera. E em 1532, quando João desencarnou, o seu filho, João Frederico, manteve a Saxônia Eleitora firmemente protestante. Em 1526, Filipe, o Magnânimo, “landgrave” de Hesse, formou com João a Liga de Gotha e Torgau para proteger e expandir o luteranismo. Outros príncipes também aderiram, tais como Ernesto de Lüneburg, Otto e Francisco de Brunswick-Lüneburg, Henrique de Mecklenburg, Ulrich de Württenberg. Em 1525, Alberto da Prússia, Grão-Mestre dos Cavaleiros Teutônicos, seguindo o conselho de Lutero, abandonou os votos monásticos, casou-se, secularizou as terras da sua ordem e se fez duque da Prússia. Lutero se viu, aparentemente pela simples força da sua personalidade e da sua eloquência, vencedor de metade da Alemanha.

Tendo concluído a paz com o papa Clemente VII, Carlos V voltou ao conservantismo natural de um rei, e ordenou à Dieta de Speyer que voltasse a se reunir em 1º de fevereiro de 1529. Sob a influência do Arquiduque que presidia e do Imperador ausente, a nova assembleia rejeitou a “Retirada” de 1526, e promulgou um decreto que permitia os serviços luteranos, mas exigia a tolerância dos serviços católicos nos estados luteranos e proibia inteiramente o sermão ou o ritual luterano nos estados católicos, impunha o Édito de Worms, e punha fora da lei as seitas zwinglianas e anabatistas por toda a parte. Em 25 de abril de 1529, a minoria luterana publicou um “Protesto” que declarava que a consciência lhes proibia a aceitação desse decreto, apelava para o Imperador por um concílio geral, no intervalo aderiria à Retirada de Speyer original a qualquer preço. O termo protestante foi aplicado pelos católicos aos signatários deste Protesto, e foi gradativamente entrando em uso para designar os alemães revoltados contra Roma.

Em 1525, o Eleitor João da Saxônia ordenou a todas as igrejas do seu ducado que adotassem um serviço evangélico como o formulado por Melanchthon, com a aprovação de Lutero. Outros príncipes luteranos tiveram procedimento semelhante. O serviço “divino” conservava grande parte do ritual católico, mas o sermão tinha um papel maior, e não havia orações à Virgem ou aos santos. As pinturas e as estátuas credulárias foram retiradas. A inovação mais agradável foi a participação ativa da congregação na música da cerimônia. Até os que eram desafinados tinham vontade de cantar, e agora todas as vozes podiam ouvir a si mesmas no anonimato protetor da multidão. Lutero se tornou poeta da noite para o dia, e escreveu hinos didáticos, polêmicos e inspiradores de força rude e masculina típica do seu caráter. Os fiéis não cantavam apenas esses e outros hinos protestantes, eram convocados durante a semana para ensaiá-los, e muitas famílias os cantavam em casa.

O envenenamento gradativo dos órgãos internos pelo tempo, pelos alimentos e pela bebida, deve ter alcançado e afetado o cérebro de Lutero. Nos seus últimos anos ele adquiriu uma obesidade incômoda, com as bochechas e o queixo cheios de dobras. No fim, em face das suas mediunidades, continuou a ter visões do diabo, e vez por outra, dúvida sobre a sua missão, quando então assim dizia:

O demônio me ataca dizendo que da minha boca saíram grandes danos e muito mal, e com isto ele muitas vezes me deixa veementemente perplexo”.

Em outros tópicos, nós veremos a luta acirrada travada entre os espíritos obsessores decaídos no astral inferior, notadamente entre Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico, daí a razão pela qual os espíritos obsessores atacaram Lutero, dizendo que ele havia causado grandes danos ao falso cristianismo, dominado pelo catolicismo, estabelecendo assim uma cisão entre os credulários.

Em 17 de fevereiro de 1546, Lutero jantou farta e alegremente. Na manhã seguinte, sentiu violentas dores no estômago. Enfraqueceu rapidamente, e os amigos que se reuniram à sua cabeceira não esconderam que ele estava morrendo. Depois disso, um insulto apoplético o privou da palavra, tendo ele desencarnado nesse estado, no dia seguinte. O corpo foi levado para Wittenberg, tendo sido ali sepultado na Igreja do Castelo, em cuja porta ele tinha pregado as suas Teses vinte e nove anos antes.

Durante o seu período estável, o protestantismo caiu na fragmentação sectária inerente aos princípios de julgamento privado e à supremacia da consciência obscurecida. Já em 1525, Lutero escrevia: “Há hoje em dia quase tantas seitas e credos quantas são as cabeças”. Os católicos apontavam jubilosos para as facções protestantes que se recriminavam mutuamente, e previam que a liberdade de interpretação e de credo levaria à anarquia credulária e à desintegração moral. E foi justamente isso o que aconteceu em relação à anarquia credulária, mas não em relação à desintegração moral, pois que esta nunca foi estabelecida, e isso até os dias de hoje, principalmente, pois atualmente presenciamos qualquer sacerdotezinho de “meia tigela” se dispor a fundar uma igreja, com os mais variados nomes, os mais ridículos, com o único objetivo de arrecadar fundos para engordar a sua pança insaciável.

O mais engraçado nesses “sacerdotecos” dessas igrejas evangélicas, é que eles são bem treinados para dar um entonação na voz por ocasião das suas pregações, que não chega a ser propriamente uma pregação, mas sim uma estratégia para a prática do estelionato, em que no Brasil a Igreja Universal do Reino de Deus é a campeã dos estelionatos, sendo comandada pelo mentiroso, safado, patife e perigoso Bispo Macedo, que além disso é matreiro, ardiloso e astucioso como poucos sacerdotes, que considera ter o dom da palavra, mas que só fala asneiras por cima de asneiras, mas todas elas adotam mais ou menos as mesmas estratégias, cujas principais são as seguintes:

  1. Exploram os sofrimentos alheios com a promessa de que sendo arrebanhados pelas suas seitas, todos os sofrimentos cessarão, através da interveniência direta do deus bíblico, que obra através de Jesus, o Cristo;
  2. Ao que tudo indica, os seus sacerdotes sabem da presença dos espíritos obsessores em suas igrejas e que os acompanham, pois muitos deles são médiuns videntes e ouvintes, assim como também sabem da importância dos fluidos pestíferos que esses espíritos obsessores espargem sobre os seus arrebanhados, tanto que determinam que estes ponham um copo com água ao lado, antes das orações, para que os seus espíritos obsessores venham a espargir os seus fluidos pestíferos sobre eles, quando então determinam que todos venham a beber a água poluída, sendo todos contaminados por esses fluidos pestíferos;
  3. Exploram os desentendimentos e os conflitos dos casais causados pelos espíritos obsessores, com a mesma promessa posta no item 1;
  4. Inventam alguns rituais que são mais ligados à magia negra do que aos seus próprios cultos, tais como: o de beber um copo com água, o de tocar em algum manto tido como se fosse sagrado, o de levar uma flor para reaver a esperança na vida, o de ser ungido por uma porção de óleo contido em um frasco, e muitos outros, por intermédio dos quais os seus arrebanhados serão profundamente protegidos e abençoados;
  5. Prometem a cura de doenças por intermédio do deus bíblico, sempre com a interveniência de Jesus, o Cristo, quando, na realidade, são os próprios espíritos obsessores que causam os sintomas das doenças e depois as retiram, ou, então, afastam outros espíritos obsessores que estavam causando os sintomas das doenças;
  6. Prometem a realização de milagres por parte do deus bíblico, quando aqueles que são mais raciocinadores sabem perfeitamente que não existem os milagres, pois que tudo é regido pelas leis espaciais, pelos princípios temporais e pelos preceitos universais;
  7. Prometem livrar as pessoas do uso de drogas ilícitas, geralmente o conseguindo, através do afastamento dos espíritos obsessores que estavam levando as pessoas às drogas, para logo serem obsedadas por outros espíritos obsessores;
  8. Afirmam que quanto mais os seus arrebanhados fizerem doações em dinheiro para as suas igrejas, tanto mais o deus bíblico os recompensará em maiores proporções.

Essas estratégias são apenas a ponta do iceberg das seitas protestantes, mas que podem ser consideradas como sendo os sete pecados capitais mais um, pois de todos os meios se utilizam esses sacerdotecos para arrebanhar e arrecadar cada vez mais, e o pior é que cretinos não faltam para serem as suas vítimas.

Eu estava certa vez conversando com um amigo meu, quando o assunto das espertezas desses sacerdotecos veio à tona. Assaz impressionado com tanta esperteza, associando a esta uma profunda malvadeza, em inteira conformidade com os seus próprios termos cotidianos utilizados na conversa, ele me contou o seguinte:

Rapaz, eu estava assistindo uma vez um culto dessas igrejas, quando um pastor mostrou uma caixa cheia de umas florzinhas, e disse:

— Quem quiser demonstrar agora a sua fé tem que comprar uma pequena flor por apenas R$ 50,00. O preço é muito barato em relação aos benefícios que ela trará.

É lógico que eu não comprei aquela florzinha por tanto dinheiro. Mas fiquei observando com atenção quem seria o “besta” que iria comprar. Pois não é que um bocado de gente puxou o dinheiro do bolso e comprou aquela porcaria! Eu fiquei impressionado. Mas o engraçado  é que depois que muita gente comprou, o pastor olhou para a plateia e disse:

— Aqueles que compraram fiquem em pé, e aqueles que não compraram permaneçam sentados em seus lugares.

Então um bocado de gente que havia comprado se levantou, e muitos ficaram sentados. Aí eu pensei: ‘Ah! Ele agora vai fazer uma caridade para os lisos’. Mas não, rapaz! Eu fiquei impressionado com a ‘inteligência’ do pastor. Sabe o que ele fez? Ele se dirigiu apenas para os que haviam comprado, e disse:

— Vocês que compraram e que têm mais recursos, façam agora uma caridade, comprem uma flor para os que estão sentados perto de vocês, e ajudem aos seus irmãos a se beneficiarem das bênçãos de deus, em nome de Jesus Cristo.

Rapaz, pois não é que um bocado de gente comprou de novo e deu a florzinha para quem estava sentado perto! Mas mesmo tendo vendido um bocado de florzinha, ainda tinha sobrado um bocado na caixa. Sabe o que o pastor fez? Ele olhou para todo mundo, e disse:

— Não pode sobrar uma flor, pois deus quer abençoar a todos vocês e ajudar a todos a ter sucesso na vida. Agora, todos os que estão com muito dinheiro e todos que estão com pouco dinheiro devem comprar uma flor, que agora só custa R$ 10,00. Aqueles que já compraram receberão as bênçãos de deus em dobro ou em triplo, e aqueles que não compraram chegou a hora de serem todos realmente abençoados, em nome de Jesus Cristo.

Pois não é, cara! O pastor conseguiu vender tudinho, não sobrou nem uma florzinha. O bicho arrecadou uma boa grana dos bestas. Arre égua! Como é que um cara pode ser tão esperto. Bicho, eu fiquei impressionado!

Há uma música do cancioneiro popular interpretada por Alcides Gerardi intitulada de Tem Bobo Prá Tudo, que se encaixa perfeitamente nessa cretinice de engordar os cofres dos credos e das suas seitas. É um fato, eu sei bem disso, mas difícil de aceitar, como é que um ser humano carente de recursos financeiros tira os seus parcos recursos do próprio bolso e entrega nas mãos desses sacerdotes estelionatários, em detrimento de uma vida mais digna para a sua própria família. E mais: acreditando piamente que esses recursos vão para o seu deus bíblico, não atentando fato de que estão enriquecendo aos seus próprios enganadores.

Um ex-colega meu de trabalho costumava frequentar uma paróquia aqui na cidade de Fortaleza, fazendo encontros de casais e algumas festividades com o objetivo de arrecadar fundos para a paróquia, em que tudo que era arrecadado era entregue nas mãos do sacerdote responsável pela paróquia. Ele e os seus amigos paroquianos levavam uma vida bem modesta, enquanto que esse sacerdote somente andava de carro de luxo importado. Eles então se reuniram e foram reclamar ao sacerdote, que lhes deu inteira razão, concordando que não devia andar de carro de luxo importado enquanto eles andavam de carro de segunda mão. Todos os paroquianos saíram satisfeitos com o resultado da conversa. No dia seguinte, o sacerdote comprou um carro novinho em folha para ele, só que nacional, deixando o carro de luxo importado apenas para os fins de semana. Eu então não pude resistir, quase morri de rir quando ele me contou essa história, pois que não deixa de ser hilariante.

 

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