14.01- Os fundamentos do falso cristianismo

Prolegômenos
21 de junho de 2018 Pamam

No início, a Igreja havia conquistado alguns dos mais ilustres espíritos do Império Romano. Inácio, bispo de Antioquia, foi quem deu começo à poderosa dinastia dos sacerdotes post-apostólicos que deram uma doutrina ao falso cristianismo e venceram os seus adversários à força de argumentos, embora estes fossem considerados nada racionais e julgados totalmente improcedentes, principalmente para os dias de hoje.

Em 186, Irineu, bispo de Leon, desfechou um poderoso golpe em prol da unidade da Igreja no seu Adversus Haereses, lançado contra todos os heréticos. O único meio de salvar o falso cristianismo da desintegração em mil seitas, disse Irineu, era todos os “cristãos” aceitarem humildemente uma autoridade doutrinal: os decretos dos conselhos episcopais, ou dos bispos, da Igreja Católica.

O mais ardente lutador pelo falso cristianismo, nessa fase, foi Quinto Septímio Tertuliano, de Cartago. Nascido mais ou menos em 160, filho de um centurião romano, estudou retórica e durante anos advogou em Roma. Já em plena maturidade foi convertido ao falso cristianismo, desposou uma “cristã” e, segundo Jerônimo, ordenou-se padre. Todas as artes e recursos que aprendera da retórica e da advocacia ele os pôs ao serviço do falso cristianismo e com o ardor do converso. O falso cristianismo grego era teológico, sobrenaturalístico e místico; Tertuliano criou um falso cristianismo grego jurídico e prático.

No ano 197, enquanto os magistrados romanos em Cartago julgavam os “cristãos” por crime de deslealdade ao Império, Tertuliano dirigiu a um tribunal imaginário a mais eloquente das suas obras: o Apologeticus; em que nele assegura que os “cristãos” “andam sempre rezando por todos os imperadores… por uma sólida dinastia, bravos exércitos, um senado fiel e um mundo calmo”. Exaltou a grandeza do monoteísmo e apontou em escritores anteriores ao falso cristianismo passagens que o previam como “cristianismo”. Um ano mais tarde, passando da defesa persuasiva ao ataque violento, lançou o De Spectaculis, uma desdenhosa denúncia dos teatros romanos como cidadelas da obscenidade e dos anfiteatros como a culminância da desumanidade. E conclui com uma severa ameaça e uma enorme dose de intolerância e fanatismo, mesclada com muito sadismo, quando diz:

“Outros espetáculos virão e o último será o Dia de Juízo… quando todo este velho mundo e as suas gerações serão consumidos pelo fogo  (grifo meu). Que tremendo não será o espetáculo nesse dia! Como me regalarei, como me rirei e me rejubilarei de ver tantos reis, supostamente recebidos no céu, gemendo nas profundas das trevas! E os magistrados que perseguiram o nome de Jesus se derretendo em fogo mais violento que o que acenderam contra os cristãos! Sábios e filósofos se vexando diante de seus discípulos enquanto ardem juntos! … e atores trágicos urrando agora a sua própria tragédia, e lépidos foliões mais lépidos agora no fogo, e corredores de carro ardendo em carros de fogo!”.

Pode-se aqui perfeitamente constatar, com a maior das clarezas que seja possível, que esse Dia do Juízo, proclamado por Tertuliano, “quando todo este velho mundo e as suas gerações serão consumidos pelo fogo”, é uma das comprovações que o objetivo maior de Jeová, o deus bíblico, é destruir a vida na Terra através do fogo, com esse instrumento de Jeová e os seus anjos negros ainda se rejubilando em ver os seres humanos derretendo em fogo e os sábios “se vexando diante de seus discípulos enquanto ardem juntos… e lépidos foliões mais lépidos agora no fogo, e corredores de carro ardendo em carros de fogo”. Tudo isso não vem diretamente do autor, mas sim das intuições do astral inferior.

Tertuliano, no começo da velhice, sendo instrumento do astral inferior, volta-se ferozmente para a denúncia de todas as consolações que não fossem as da fé credulária e da esperança. Tratava a mulher da maneira mais rude possível, como se ela fosse a “porta por onde os demônios entram”, e dizia “que por causa delas Jesus morrera”; e este seu último dizer tanto é procedente como verdadeiro, em conformidade com a obra A Verdade Sobre Jesus, existente na biblioteca do Racionalismo Cristão, já que Jesus, o Cristo, foi crucificado por influência de Hanã, que havia sido amante de Maria Madalena, tendo ela o abandonado para seguir ao Nazareno.

Anos antes, porém, dera-se à Saperologia e escrevera obras como De anima, na qual aplicava ao falso cristianismo a saperologia estoica, mas agora renunciava a todo o raciocínio que não se prendesse à Revelação, rejubilava-se até da incredibilidade do seu credo, dizendo: “O filho de Deus morreu: isso é crível justamente porque é absurdo. Foi enterrado e ressurgiu: isso é certo justamente porque é impossível”. Mergulhado em um melancólico puritanismo, aos 58 anos repudiou a Igreja ortodoxa como sendo muito profana e abraçou o montanismo — que era a doutrina herética de Montano — como sendo o mais próximo dos ensinamentos de Jesus, o Cristo. Condenou a todos os “cristãos” que se tornavam soldados, artistas ou funcionários públicos; todos os pais que não impunham o véu às filhas; todos os bispos que chamavam à comunhão pecadores arrependidos; e, finalmente, acusou o papa de “pastor de adúlteros”, como se somente destes fosse ele o pastor, esquecendo-se de citar, principalmente, os ignorantes arrebanhados, os quais acreditam piamente que Deus, a Inteligência Universal, o Todo, como queiram, tal como um espírito decaído qualquer, assim como Jeová, nomearia um seu ministro na Terra para representá-lo, ainda mais sendo esse ministro um sacerdote, essa classe que mais malefícios causou à humanidade, e que ainda causa, até aos dias de hoje.

A despeito de Tertuliano, a Igreja prosperou na África. Sacerdotes hábeis, como o bispo Cipriano, tornaram a diocese de Cartago quase tão rica e influente como a de Roma. Já no Egito, foi mais moroso o crescimento da Igreja, e os seus princípios se perderam para a História. Nos fins do século II, ouvimos falar de uma Escola Catequista em Alexandria, que tentou conciliar o falso cristianismo com a saperologia grega e produziu dois sacerdotes da Igreja: Clemente e Orígenes. Os dois eram muito versados na literatura pagã, que seguiam à sua moda. E se houvesse prevalecido o espírito de ambos, a cisão entre o falso cristianismo e a cultura clássica grega teria sido menos destruidora.

Em 178, estando Marco Aurélio em luta contra os marcomanos, no Danúbio, o paganismo fez um vigoroso esforço para se defender. O fato é conhecido, unicamente, através do livro de Orígenes, Contra Celso, onde a obra denominada A Palavra Verdadeira de Celso é muitas vezes citada. Este segundo Celso que aparece em nossa história, considerava que a civilização existente estava na dependência da velha fé credulária romana nos deuses, e resolveu defender essa fé credulária por meio do ataque ao falso cristianismo, o seu maior inimigo. Celso fez um estudo tão profundo do novo credo, que chegou a espantar ao erudito Orígenes. Atacou com muita razão a credibilidade das Escrituras, o caráter de Jeová, a natureza dos milagres de Jesus, o Cristo, e a incompatibilidade entre a sua morte e a sua divindade. Atacou também com muita razão a fé credulária na conflagração final, no Dia do Juízo e na ressurreição dos corpos, e disse:

“Tolice supor que quando Deus, como um cozinheiro, acender o fogo o resto da humanidade será assada e só os sectários de Cristo irão escapar, e não apenas os vivos, mas também os já de longo tempo mortos, os quais se erguerão da tumba com a mesma carne que tiveram em vida. É a esperança dos vermes!… Só aos simplórios, aos insensatos, podem os cristãos persuadir — escravos, mulheres e crianças, remendões, a gente comum mais mal-educada… ou os loucos”.

Ao se referir a “Deus”, Celso está se referindo a Jeová, o deus bíblico. Aqui, pode-se constatar novamente que o objetivo maior de Jeová é destruir a vida na Terra através do fogo, pois a propagação desse seu intento malévolo já havia sido transmitida ao mundo por intermédio dos seus instrumentos encarnados, quando então compara Jeová, o deus bíblico, a um simples cozinheiro, mas um cozinheiro extremamente perverso, ao afirmar que quando esse cozinheiro “acender o fogo o resto da humanidade será assada”.

Celso se sentia indignado com a expansão do falso cristianismo e com o desprezo dos “cristãos” pelo paganismo, o serviço militar e o Estado. Um bom cidadão, dizia ele, deve se conformar com o credo do seu país e da sua época, o que importa é a fé unificadora que dá alicerces ao caráter e a lealdade cívica. A literatura pagã nem sequer o menciona, e Celso estaria completamente esquecido, se Orígenes não o houvesse refutado.

Em 202, estava Orígenes com dezessete anos, quando o seu pai foi preso como se fosse “cristão” e condenado à morte. Orígenes quis acompanhá-lo no martírio, e para sofreá-lo a sua mãe teve de esconder toda a sua roupa. Mandou então cartas de encorajamento ao pai: “Cuidado! Não mude de ideias por nossa causa”. Decapitado o chefe da família, coube ao jovem Orígenes tomar conta da viúva e mais seis crianças. Os muitos martírios que viu lhe exaltaram a piedade e o fizeram adotar a vida ascética. Jejuava muito, dormia pouco e no chão, completamente nu, andava descalço, sujeitava-se ao frio e à quase nudez. Por fim, vítima da própria ignorância acerca da verdade, foi assediado pelos espíritos obsessores, tendo se emasculado, vejam só, seguindo à risca uma interpretação de uma passagem de Mateus, que em 19:12 diz o seguinte: “Pois há eunucos que nasceram tais da madre de sua mãe, e há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens, e há eunucos que se fizeram por causa do reino dos céus. Dê lugar a isso aquele que pode dar lugar a isso”. E ainda hoje os sacerdotes extorquem dinheiro e bens dos ignorantes, seus arrebanhados, em abundância, sob a alegativa de que necessitam de recursos para pregar tais Evangelhos. Que tremendo estelionato pratica essa classe sacerdotal salteadora!

Em 203, Orígenes sucedeu a Clemente como chefe da Escola Catequista. Embora com apenas 18 anos de idade, a sua cultura e a sua eloquência atraíam muitos discípulos, tanto “cristãos” como pagãos, e a fama do jovem mestre se espalhou por todo o Império.

Muitos estudiosos da época admitem que os livros escritos por Orígenes chegaram ao número de seis mil, pela maior parte, sem dúvida, pequenos opúsculos. Mesmo assim, Jerônimo perguntou: “Quem pode ler tudo quanto ele escreveu?”. Infelizmente, apaixonado que era pela Bíblia, assim como também o seu escravo, que em menino tanto decorou e que a teve integrada em seu cérebro, despendeu vinte anos, ajudado de um corpo de estenógrafos e copistas, a dispor em colunas paralelas o texto hebraico do Velho Testamento, uma versão grega literal e as traduções gregas da Septuaginta, de Aquila, Simaco e Teodósio. Comparando essas diversas variantes e recorrendo ao seu conhecimento do hebraico, Orígenes deu à Igreja uma Septuaginta correta. E não contente, ajuntou comentários, alguns de grande desenvolvimento, a cada livro da Bíblia. Empreendeu demonstrar todos os dogmas tidos como sendo cristãos. E para aligeirar a tarefa recorreu ao método alegórico. A significação literal da Escritura, argumentava Orígenes, esconde dois profundos sentidos, o moral e o espiritual, que só uns poucos homens de cultura esotérica alcançam. Daí pôr em dúvida a interpretação literal do Gênesis. Orígenes explicava como símbolos os desagradáveis aspectos de Jeová nas suas relações com Israel, e descartava como lendas histórias tais como a de Satã levando Jesus, o Cristo, para o alto da montanha e lhe oferecendo o mundo. Às vezes, dizia ele, as narrativas bíblicas eram inventadas como meio de carrear alguma verdade espiritual.

Quanta estupidez nos é dado a observar! Ora, como se pode querer inventar algo para poder se trazer à luz algo relacionado à verdade? Somente na imaginação influenciada por espíritos tremendamente obsessores é que se pode admitir tal aberração intelectual.

Mas, felizmente, em Orígenes, por ser bem intencionado, Deus não é Jeová, mas sim o Primeiro Princípio de todas as coisas, e Jesus, o Cristo, não é a figura humana descrita no Novo Testamento, é o Logos ou a Razão que organiza o mundo, e como tal foi criado por Deus, o Pai, ao qual se subordinava. Mas em Orígenes, entretanto, a alma antes de chegar ao seu deus passa por uma sucessão de fases, mesmo as mais puras sofrem por algum tempo no Purgatório, mas no fim todas as almas se salvam. Depois da “conflagração final” sobreviverá outro mundo com a sua comprida história, e depois outro e mais outro. Cada mundo representará um aperfeiçoamento em relação ao anterior, e toda a vasta sequência lentamente realizará o desígnio do seu deus. Só faltou expressar mais claramente algum racionalismo, caso tivesse admitido a existência da evolução espiritual, dos mundos-escolas e dos Mundos de Luz que se movimentam pelo Universo.

Demétrio, bispo de Alexandria, em total desacordo com o dizer bíblico, o qual foi seguido ao pé da letra por Orígenes, recusou-se a ordená-lo, sob o pretexto de que a emasculação o desqualificava. Mas durante uma viagem pelo Oriente Próximo, dois bispos da Palestina o ordenaram. Demétrio, reunindo um sínodo de padres, anulou a ordenação de Orígenes e o baniu de Alexandria. Orígenes se mudou para Cesareia, continuando o seu trabalho de professor. Lá, escreveu a famosa defesa do falso cristianismo Contra Celsum, em 248, admitindo a força dos argumentos de Celso, mas respondendo que para cada dificuldade e improbabilidade na doutrina “cristã” havia incredibilidades muito piores no paganismo. Nesse raciocínio, não chegou a concluir que ambas as crenças eram absurdas e irracionais, mas sim que a fé credulária “cristã” oferecia um caminho mais nobre que o proporcionado por um credo idólatra moribundo.

No período de 235 a 270, trinta e sete seres humanos foram proclamados imperadores romanos, e, em 250, a perseguição de Décio atingiu Cesareia. Orígenes, então, já com 65 anos de idade, foi preso, submetido à tortura e com cadeias e coleira de ferro ao pescoço, conservado no cárcere por muitos dias. Nesse ínterim, morre Décio e ele é restituído à liberdade. Só viveu mais três anos. Porém, a tortura havia afetado mortalmente um corpo já enfraquecido pelo ascetismo. Morreu tão pobre como quando começou a ensinar, e com a fama do maior “cristão” do seu tempo. Quando as suas heresias começaram a ser divulgadas, a Igreja achou de bom aviso repudiá-lo. Em 400, o papa Anastácio condenou as suas “blasfemas opiniões”, e, em 553, o Conselho de Constantinopla o excomungou. Não obstante, quase todos os sábios “cristãos” dos séculos seguintes muito aprenderam com ele e muito recorreram às suas obras, e a sua defesa do falso cristianismo impressionou aos pensadores pagãos como nenhuma “apologia” o havia feito antes, em qualquer tempo.

O princípio da interpretação alegórica de Orígenes permitia, no âmbito que se restringe à imaginação que contém a interpretação alegórica, provar os seus argumentos, e assim ele restaurava o livre exame individual. Mas a Igreja Católica sentia a urgência da unidade e não podia se deixar dividir em cem partes incapazes, ficando ao sabor de todos os ventos do intelecto, dos heréticos desleais, dos profetas estáticos ou mesmo dos seus mais ilustres filhos. O próprio Celso havia, sarcasticamente, observado que os “cristãos” se encontravam “divididos em muitas facções, cada um desejando ter o seu próprio partido”. Lá por volta de 187, Irineu colecionou vinte variedades de “cristianismo”, e, em 384, Epifânio contou oitenta. Por toda parte as representações imaginativas estrangeiras estavam contaminando a fé credulária “cristã”, e os “cristãos” se deixavam atrair pelas novas seitas. Os sacerdotes que formavam a Igreja perceberam que a sua juventude experimental chegara ao fim e que a maturidade se aproximava, era preciso, pois, definir os seus termos e proclamar as condições a que tinham de se sujeitar os fiéis. Três passos eram indispensáveis e todos difíceis:

  1. O estabelecimento de uma Escritura padrão;
  2. A fixação da doutrina;
  3. A organização da autoridade.

A literatura “cristã” no século II era abundante em evangelhos, epístolas, apocalipses e “atos”. Mas claramente os fiéis diferiam na aceitação dessas fontes, com cada agrupamento se orientando pelas suas próprias preferências e culturas pessoais. Não se sabe ao certo quando foi que os livros do atual Novo Testamento foram determinados como canônicos, isto é, como sendo autênticos e inspirados, só podemos dizer que um fragmento latino descoberto por Muratori, em 1740, assinalado como escrito por volta do ano 180, faz-nos ver que por esse tempo os cânones já estavam fixados.

No século II, os conselhos eclesiásticos, ou sínodos, entraram a se reunir com progressiva frequência, mas no século III já se limitavam aos bispos, os quais foram reconhecidos no final desse século como os árbitros finais da fé credulária católica, isto é, do falso cristianismo universal. A ortodoxia sobreviveu à heresia porque satisfez à necessidade de um credo definido que pudesse moderar a disputa e acalmar a dúvida, e porque era sustentada pelos sacerdotes que detinham o poder da Igreja.

O problema da organização episcopal dependia da determinação do centro do poder da Igreja. Depois do enfraquecimento da sede mater em Jerusalém, as congregações individuais, não filiais ou protegidas por outras, eram autônomas. Mas a igreja de Roma alegava ter sido fundada por Pedro e citava as palavras atribuídas a Jesus, o Cristo, que diziam:

“Tu és Pedro (hebraico, Cephas; grego, Petros, digo eu) e sobre esta pedra (hebraico, cephas; grego, petra, digo eu) construirei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus; e o que desligares na terra, será desligado nos céus”.

Os primeiros ocupantes do “trono de S. Pedro” não deixaram marcas na história. O terceiro, o papa Clemente, aparece como o autor de uma carta escrita mais ou menos em 96 à igreja de Corinto, conclamando os seus membros à ordem e à harmonia. Nessa carta, o bispo de Roma fala autoritariamente aos “cristãos” de uma remota igreja. Os outros bispos, embora reconhecendo o “primado” do bispo de Roma, amiúde lhe desafiavam o poder de revogar as suas decisões. Policarpo, bispo de Esmirna, mais ou menos em 156, tentou convencer Aniceto, bispo de Roma, a adotar no Ocidente a data da Páscoa usada no Oriente, em represália à recusa, rejeitou o convite de Aniceto para que o Oriente aceitasse a data do Ocidente. Em 190, o papa Vítor repetiu o convite de Aniceto, mas autoritariamente, e os bispos da Palestina obedeceram, mas os da Ásia Menor não. Vítor mandou cartas às congregações “cristãs” excomungando as igrejas recalcitrantes, muitos bispos, mesmo no Ocidente, protestaram contra a severidade da medida e aparentemente o papa não insistiu.

Seu sucessor Zeferino, que governou no período de 202 a 218, era um homem simples e analfabeto. Para ajudá-lo na administração elevou ao arquidiaconato Calisto, um homem de mais inteligência que moralidade, e quando por morte de Zeferino, o mesmo subiu ao papado, Hipólito e outros padres o denunciaram e estabeleceram um papado rival, em 218. Calisto desejava readmitir na Igreja todos os que depois do batismo haviam cometido pecados mortais, tais como adultério, homicídio, apostasia, etc., desde que professassem a sua penitência. Hipólito, então, escreveu uma Refutação de Todas as Heresias, Calisto o excomungou e vigorosamente afirmou a autoridade suprema da sé romana sobre toda a “cristandade”. Eram os abomináveis sacerdotes se corroendo em brigas intestinas pela ânsia do poder. Em outros capítulos mais adiante, eu demonstrarei a tremenda guerra travada no astral inferior entre os espíritos obsessores que comandam falanges inimigas, notadamente entre Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico, que é nada mais nada menos que o próprio Lúcifer.

A sé romana foi gradualmente aumentando o seu poder. A riqueza de que já dispunha e as suas caridades ecumênicas lhe exaltavam o prestígio, de todas as partes do mundo “cristão” lhe vinham consultas sobre pontos de importância, e a igreja de Roma tomou para si o repúdio, o combate às heresias e a fixação canônica das Escrituras. Faltavam-lhe, entretanto, elementos como Tertuliano, Cipriano e Orígenes, e por esse motivo dava mais atenção à sua organização do que à sua própria teorização, passando a construir e a governar, enquanto as outras escreviam e falavam. Cipriano se rebelou, mas fôra ele que em seu De Catholicae Ecclesiae Unitate aclamou a sé ou a sede de Pedro como o centro e o vértice da “cristandade” e proclamou ao mundo aqueles princípios de solidariedade, unanimidade e persistência que têm sido a força da Igreja Católica. Lá pelo meio do século III, a posição e os recursos do papado já eram tão fortes, que Décio confessou preferir como rival um imperador romano a um papa. A capital do Império se tornou naturalmente a capital da Igreja.

A Igreja não se limitou apenas a tomar algumas formas e alguns costumes credulários da Roma anterior ao  falso cristianismo, como a estola e as outras vestes sacerdotais, mais afins às festas carnavalescas do que propriamente às solenidades credulárias, mas também o uso do incenso e da água benta nas purificações, os círios e a luz perpetuamente acesa nos altares, a adoração dos santos, a arquitetura da basílica, a lei romana como base da lei canônica, o título de Pontifex Maximus para o Supremo Pontífice, e no século IV o latim como a língua oficial da igreja.

O grande legado que Roma deu à Igreja foi uma vasta estrutura de governo advinda do seu Império, que quando a autoridade secular desabou veio a se tornar a estrutura do governo eclesiástico. Em breve os espertos e ardilosos sacerdotes, tais como bispos, em vez dos prefeitos romanos, seriam a fonte da ordem e a sede do poder nas cidades. Os metropolitanos, ou arcebispos, iriam sustentar, senão suplantar, aos governadores provinciais. E o sínodo dos bispos sucederia a assembleia provincial. A Igreja Romana seguiu nas pegadas do Estado Romano, conquistou as províncias, embelezou a capital e estabeleceu a disciplina e a unidade de fronteira a fronteira. Roma faleceu ao dar nascimento à Igreja. A igreja amadureceu com a herança e a aceitação das responsabilidades de Roma.

A queima de incenso diante da estátua do imperador se tornou um sinal de afirmação de lealdade ao Império. Por seu lado a Igreja se ressentia da ideia romana do credo subordinado ao Estado, via na adoração do imperador um ato de politeísmo e idolatria, e mandava que os seus fiéis resistissem. Disso concluiu o governo romano ser o falso cristianismo um movimento radical, designado a derrubar a ordem estabelecida.

Antes de Nero as duas forças ainda conseguiam viver lado a lado sem choques. A lei havia isentado os judeus da adoração do imperador, e os “cristãos”, que em princípio se confundiam com os judeus, gozavam do mesmo privilégio. Mas a falada execução de Pedro e Paulo e a queima de “cristãos” para iluminar os divertimentos de Nero transformaram aquela mútua tolerância em guerra aberta.

O conflito era profundo. A civilização romana se fundava no Estado, a civilização “cristã” se baseava na fé credulária. Para o romano o credo fazia parte da estrutura e operação do governo, e a moralidade culminava no patriotismo. Para o “cristão” a fé credulária era qualquer coisa à parte e superior à sociedade política. Os “cristãos” reverenciavam aos seus sacerdotes muito mais que à magistratura romana, e de preferência submetiam os seus casos às autoridades da Igreja, em vez de aos funcionários do Estado. Tertuliano aconselhou aos “cristãos” a se recusarem ao serviço militar, e que bom número deles aceitou o conselho temos a prova em Celso, no seu apelo para que cessassem a sabotagem ao Estado romano, e na resposta de Orígenes de que embora os “cristãos” não lutassem pelo Império, rezariam por ele.

A partir do tempo de Nero a lei parece ter marcado a profissão da fé credulária “cristã” como crime capital, mas sob a maior parte dos imperadores esta ordenação foi negligenciada. Quando se via acusado, o “cristão” podia se livrar queimando incenso diante da estátua do imperador, e feito isso era deixado em sossego na prática da sua fé credulária.

Adriano, imperador romano no período de 117 a 138, caracterizando-se como um cético, mandava que os seus agentes tratassem os “cristãos” ceticamente. Já Antonino Pio, imperador romano de 138 a 161, credulário que era, permitiu maior perseguição. As perseguições foram renovadas no reinado de Marco Aurélio, imperador romano de 161 a 180. Quando a fome, a peste, as inundações e a guerra caíram sobre um reinado até então feliz, espalhou-se o boato de que esses males eram todos devido à falta de veneração aos deuses romanos. Marco Aurélio cedeu diante dela, e, em 177, promulgou um rescrito, ou seja, resposta do imperador às questões propostas por governadores de províncias, juízes, etc., acerca das dificuldades que reclamavam solução, ordenando a punição das seitas que causavam perturbações, porque “excitavam os homens de espírito mal equilibrado” com novos ventos de doutrina. No reinado de Cômodo, imperador romano de 180 a 193, as perseguições cessam. Septímio Severo, imperador romano de 193 a 211, renova-as e até do batismo faz um crime, o que se não chega a tanto, não deixa de ser um malefício causado à criança, ou mesmo ao adulto.

Para que possamos compreender a perseguição no reinado de Décio ou de Marco Aurélio, temos de figurar uma nação no pleno tumulto da guerra, amedrontada com graves derrotas e a esperar a invasão. Em 249, uma onda de sentimento credulário varreu o Império, homens e mulheres apinhavam os templos e assediavam os deuses com preces. No meio dessa febre de patriotismo e medo os “cristãos” permaneciam de lado, sempre hostis ao serviço militar, com desprezo pelos deuses e interpretando os desastres do Império como o profetizado prelúdio da destruição da Babilônia e da volta de Jesus, o Cristo. Décio promulgou um edito mandando que se fizesse uma grande propiciação aos deuses de Roma. A maior parte dos “cristãos” acedeu. Mas os bispos de Jerusalém e Antioquia morreram na prisão e os de Roma e Tolosa foram executados, em 250. Centenas de “cristãos” romanos encheram as masmorras, alguns pereceram decapitados, outros queimados na fogueira, e uns tantos lançados às feras do circo. Ao cabo de um ano a perseguição arrefeceu e lá pela Páscoa de 251 estava já encerrada.

Seis anos mais tarde, Valeriano, em outra crise de invasão e terror, deu ordem para que “todas as pessoas se conformassem com os cerimoniais romanos”, e proibiu qualquer assembleia de “cristãos”. Como o Papa Xisto II resistisse, foi executado com quatro dos seus diáconos. O bispo Cipriano de Cartago foi executado e o de Tarragona queimado vivo.

Em 261, depois que os persas afastaram Valeriano da cena, Galieno lançou o primeiro edito de tolerância, no qual reconhecia o falso cristianismo como credo permitido e ordenava a restituição das propriedades confiscadas aos “cristãos”.

Em fevereiro de 303, decretaram os quatro governantes, Diocleciano e Maximiano como augustus, e Galério e Constâncio Cloro como césares, a destruição de todas as igrejas “cristãs”, a queima dos seus livros, a dissolução das congregações, o confisco dos seus bens, a exclusão dos “cristãos” dos cargos públicos e o castigo dos que forem encontrados em assembleia credulária. Um bando de soldados inaugurou o decreto com o incêndio da catedral de Nicomédia. Mas os “cristãos” já eram bastante numerosos para retaliar. Um movimento de revolta irrompeu na Síria, e na Nicomédia grupos de incendiários por duas vezes deitaram fogo no palácio de Diocleciano. Galério atribuiu o crime aos “cristãos” e estes o atribuíram a Galério, centenas de “cristãos” foram presos e torturados, sem que a questão ficasse devidamente esclarecida.

Em 311, Galério, atacado de uma doença mortal, convenceu-se do fracasso da política perseguidora e pediu à esposa que promovesse a sua reconciliação com o invencível deus dos “cristãos”, que como se sabe é Jeová. Promulgou um edito de tolerância, reconheceu o falso cristianismo como legal e rogou a prece dos “cristãos” em paga da “nossa altíssima clemência”.

Em começos de 313, Constantino teve um encontro com Licínio, em Milão, a fim de coordenar o governo, e lançaram o Edito de Milão, que confirmava a tolerância credulária concedida por Galério, estendia a todos os credos e ordenava a restituição dos bens confiscados aos “cristãos” durante as últimas perseguições. Depois desta histórica declaração, significativa da derrota do paganismo, Constantino volta para a Gália, enquanto Licínio segue para o leste, a fim de enfrentar Maximino, em 313. A morte de Maximino logo depois veio resolver parte da crise, deixando Constantino e Licínio como os indisputados regentes do Império. Licínio desposa uma irmã de Constantino, e o povo, exausto de lutas, rejubila-se com as perspectivas de paz.

Em 314, dá-se o rompimento. Constantino invade a Panônia, bate Licínio, e exige a submissão de todo o Império, com a exceção da Trácia. Licínio se vinga nos “cristãos”, renovando a perseguição na Ásia e no Egito. Constantino aguardava um ensejo não só de socorrer os “cristãos” do Oriente, como também anexar o Oriente ao seu governo. Esse ensejo ocorreu quando os bárbaros invadiram a Trácia e Licínio não pôde desbaratá-los. Constantino acudiu e os expulsou, mas Licínio protestou contra a sua entrada na Trácia, e a guerra civil irrompeu. O defensor do falso cristianismo, à frente de 130 mil homens, atacou os 160 mil homens do defensor do paganismo, primeiramente em Adrianopla e depois em Crisópolis. Venceu-os e se fez o único imperador, em 323. Licínio se entregou mediante a promessa de perdão, mas no ano seguinte foi executado, sob a acusação de estar conspirando. Os “cristãos” no exílio puderam voltar e reentrar na posse de tudo que lhes fôra confiscado. Constantino proclamou a plena liberdade credulária, declarou-se “cristão”, e convidou os seus súditos a abraçarem a nova fé credulária.

Um texto legal do seu reinado, questionável, mas não improvável, atribui aos sacerdotes “cristãos” a autoridade de juízes nas dioceses, outras leis isentavam a Igreja da taxação, davam personalidade jurídica às associações “cristãs”, permitiam-lhe possuir terras e receber legados e atribuía à Igreja as propriedades dos mártires sem testamento. Constantino auxiliou com dinheiro as congregações necessitadas, construiu diversas igrejas em Constantinopla e outros pontos e proibiu na nova capital a adoração de imagens. Esquecendo o Edito de Milão, proibiu reuniões de seitas heréticas e, por fim, ordenou a destruição dos seus pequenos conventos, como se em tais locais se dessem reuniões clandestinas de pessoas que maquinassem algum mal pior do que o mal praticado pelo falso cristianismo. Deu aos seus filhos uma educação “cristã” ortodoxa e financiou as caridades “cristãs” da sua mãe. Os sacerdotes católicos exultavam de contentamento, pois nunca haviam imaginado semelhante vitória. Eusébio se exalta em orações que são verdadeiros hinos de gratidão e louvor, e por todo o Império os “cristãos” se reuniam em festas de graças pelo triunfo.

No intervalo entre a perseguição de Décio e a de Diocleciano, a Igreja se tornara a mais opulenta organização do Império e, consequentemente, por uma espécie de prudência ardilosa, os seus sacerdotes já haviam atenuado os seus ataques contra a riqueza. Cipriano se queixava de serem os seus paroquianos loucos por dinheiro, das “cristãs” se embelezarem pintando o rosto, de haver sacerdotes ocupando rendosos lugares no Estado, fazendo verdadeiras fortunas, emprestando dinheiro a juros de usurário e negando a sua fé credulária ao menor sinal de perigo. Eusébio lamentava que os sacerdotes tanto brigassem na competição pelas promoções eclesiásticas. Assim, enquanto o falso cristianismo convertia o mundo à sua fé credulária, o mundo também convertia o falso cristianismo à mais extrema materialidade.

Um ano depois da conversão de Constantino, foi a Igreja vítima de uma cisão que quase a arruína na hora do triunfo. Donato, bispo de Cartago, assistido por um sacerdote do mesmo temperamento, insistia em que os bispos “cristãos” que durante as perseguições se tinham submetido à política pagã, não pudessem continuar como bispos; que os batismos e os demais atos de tais bispos eram írritos e nulos; e que a validade dos sacramentos dependia em parte do estado espiritual do ministrante. Quando a Igreja se recusou a adotar a esse rigoroso critério, os donatistas nomearam bispos rivais para as cidades em que existiam os do tipo condenado. Constantino, sempre a pensar no novo credo como instrumento de unificação, impressionou-se com o caos iminente e a possível aliança dos donatistas com movimentos radicais entre os camponeses africanos. Em 314, reuniu um concílio de bispos em Arles, confirmou a condenação episcopal dos donatistas, ordenou aos dissidentes que reentrassem na Igreja e acenou aos recalcitrantes com a perda dos direitos civis e das propriedades. Cinco anos depois, em um momentâneo retorno ao Edito de Milão, iria ele revogar a essas medidas e conceder aos donatistas uma condescendente tolerância. O cisma de Donato persistiu até ao tempo em que os sarracenos varreram com os “cristãos” do norte da África.

O Concílio de Arles acentuou uma convicção da maioria do clero: que a organização e a sobrevivência da Igreja requeriam certa fixidez de doutrina. E realizou aquela unanimidade fundamental da fé credulária que iria dar à Igreja medieval o nome de “católica”, do grego Katholikos, que significa universal. E, ao mesmo tempo, assinalou a substituição do paganismo pelo falso cristianismo como expressão credulária do Império, tornando definitiva a aliança do Imperador com a fé credulária triunfante. Uma nova civilização, baseada em um novo credo, muito embora adorador de um deus quedado no astral inferior, que não passa de um espírito obsessor, como Jeová, o deus bíblico, como todos os demais credos e seitas também o são, iria agora se erguer das ruínas de uma cultura exausta e de um credo moribundo. A Idade da Fé tomava cada vez mais o seu corpo maléfico em nossa civilização.

Um ano depois do Concílio, Constantino inaugurou, para grande tristeza de Bizâncio, a cidade de Nova Roma, que os pósteros iriam chamar de Constantinopla. Em 330, deu o imperador as costas a Roma e a Nicomédia e proclamou a nova capital.

Constantino foi um grande general, administrador, um habilíssimo estadista. Herdou e completou o trabalho de restauração de Diocleciano, e graças a ambos o Império viveu mais 1.150 anos. Graças ao seu concurso, fez-se no falso cristianismo tanto a Igreja como o Estado, que durante 14 séculos iriam moldar a vida e o pensamento da Europa. A Igreja agradecida e penhorada o considerou o maior dos imperadores.

Quando o falso cristianismo conquistou Roma, a estrutura eclesiástica da Igreja pagã, o título e as vestes do pontifex maximus, a adoração da Grande Mãe, a alegria ou a solenidade dos velhos festivais e procissões, passaram tudo para o novo credo, e a vencida Roma capturou o seu conquistador. As rédeas do governo foram transmitidas por um governo moribundo a um papado forte, e as províncias revoltadas, aceitando o falso cristianismo, de novo reconheceram a soberania de Roma. Através das longas lutas da Idade da Fé a autoridade da antiga cidade persistiu e cresceu, e no Renascimento, quando a cultura clássica emergiu do túmulo, a cidade imortal se tornou novamente o centro da riqueza, da vida e da arte no mundo.

Elevou-se a Nova Roma à capital do Império em 11 de maio de 330, uma data que foi depois celebrada anualmente com imponentes cerimônias. Terminou oficialmente com o paganismo. Prosseguia célere oficialmente, por assim dizer, a Idade da Fé triunfante. O Oriente vencera a sua batalha espiritual contra o Ocidente materialmente vitorioso e iria governar a alma deste último durante mil anos.

Naquele mundo do Mediterrâneo do século IV, onde o Estado muito dependia do credo, era tal a confusão reinante nas questões eclesiásticas, que o governo se viu obrigado a intervir até mesmo nos mistérios da Teologia. Em 325, o Concílio de Niceia não havia posto um paradeiro ao grande debate que se travara entre Atanásio e Ario. Muitos bispos, uma maioria no Oriente, ainda tomavam o partido de Ario pública ou secretamente, isto é, consideravam Jesus, o Cristo, o Filho de Deus, mas sem que fosse consubstancial e coeterno ao Pai. O próprio Constantino, depois de haver aceitado o decreto do Concílio e banido a Ario, convidou-o para uma conferência. Não considerou que ele fosse herético e recomendou que Ario e os arianos fossem repostos em suas igrejas. Atanásio protestou. Um concílio de bispos do Oriente, reunido em Tiro, o depôs da diocese de Alexandria. Ele viveu durante dois anos exilado na Gália. Ario tornou a visitar Constantinopla e professou a sua adesão ao credo niceniano, mas com sutis restrições. Não era de se esperar que um imperador pudesse compreendê-las. Constantino acreditou nele e ordenou a Alexandre, o Patriarca de Constantinopla, que o recebesse na comunhão. O historiador eclesiástico Sócrates descreve assim o doloroso episódio:

“Era um sábado e Ario esperava poder ir à reunião da congregação no dia seguinte, porém a Divina Providência o puniu pela sua ousadia criminosa, pois, ao sair do palácio imperial… e ao se aproximar do pilar de pórfiro, no Foro de Constantino, viu-se presa do terror e logo sentiu se relaxarem violentamente os intestinos… Inchou-lhe o ventre, seguindo-se às evacuações abundante hemorragia e a queda do intestino delgado; além disso, pedaços do fígado e do baço eram eliminados naquela perda de sangue, tendo assim morte quase imediata”.

Constâncio, filho de Constantino, levou a Teologia mais a sério que o pai. Fez as suas próprias investigações sobre a paternidade de Jesus, o Cristo, adotou o ponto de vista ariano e sentiu a obrigação moral de forçar toda a falsa cristandade a seguir tal ponto de vista. Em 339, Atanásio, que havia voltado para sua diocese depois da morte de Constantino, foi novamente expulso. Os concílios da Igreja, instalados e dominados pelo novo imperador, apenas confirmavam a semelhança de Cristo com o Pai, mas não a consubstancialidade. Os eclesiásticos fiéis ao Credo de Niceia foram afastados das suas igrejas. Em alguns casos foram delas violentamente arrancados pela turba amotinada. Durante meio século pareceu que o falso cristianismo seria unitário e iria abandonar a crença na divindade de Jesus, o Cristo. Naqueles dias amargos, Atanásio falava em si mesmo como sendo sozinho contra o mundo, e durante meio século, de 323 a 373, lutou pelo seu credo conforme havia o mesmo sido definido sob a sua liderança em Niceia. É principalmente a ele que a Igreja deve a doutrina da Trindade.

Em 340, Atanásio expôs o seu caso perante o Papa Júlio I, que o colocou novamente em sua diocese, mas o concílio dos bispos orientais de Antioquia, em 341, não quis reconhecer a jurisdição do papa e nomeou Gregório, um ariano, para ocupar o cargo de bispo de Alexandria. Quando Gregório chegou à cidade, as facções rivais se empenharam em sangrentas lutas, uma das muitas faces do falso cristianismo, nas quais muitos morreram. Em 342, Atanásio se retirou a fim de dar um paradeiro àquele derramamento de sangue. Luta semelhante se travou também em Constantinopla. Quando Constâncio ordenou a substituição do Patriarca ortodoxo Paulo pelo ariano Macedônio, uma multidão de adeptos de Paulo opôs feroz resistência aos soldados, e três mil pessoas perderam a vida no conflito. Provavelmente mais “cristãos” foram mortos pelos próprios “cristãos” naqueles dois anos, 342 e 343, do que em todas as perseguições que lhes fizeram os pagãos em toda a história de Roma. Eis aqui claramente como o falso cristianismo desenvolvido pelos espíritos do astral inferior e repassados por intuição ou por outro tipo de mediunidade sacerdotal se nos apresenta!

Constantino havia desencorajado as cerimônias e sacrifícios pagãos, mas não os proibira. Constante os proibiu sob a pena de morte. E Constâncio mandou fechar todos os templos pagãos no Império e cessar todos os seus ritos. Perderiam as suas propriedades e as suas vidas todos aqueles que desobedecessem. Tais penalidades eram extensivas também aos governadores de províncias que deixassem de cumprir o decreto. Contudo, subsistiram ilhas pagãs naquele mar de falso cristianismo que ia se espalhando por toda a parte. As cidades mais antigas, como Atenas, Antioquia, Esmirna, Alexandria e Roma, contavam com grande número de pagãos, principalmente nas escolas e entre os membros da aristocracia.

Flávio Cláudio Juliano, sobrinho de Constantino, nasceu em Constantinopla, em 332. O pai, o irmão primogênito e a maioria de seus primos foram vitimados no massacre que inaugurara o reinado dos filhos de Constantino. Mandaram-no para Nicomédia a fim de ser educado pelo bispo Eusébio. Em 341, por razões desconhecidas, Juliano e o seu irmão Galo foram banidos para a Capadócia, onde ficaram durante seis anos como que prisioneiros na fortaleza de Marcelo. Soltaram-no posteriormente. Em Constantinopla, a sua vivacidade de jovem, sinceridade e espírito o tornaram demasiado popular para que o imperador pudesse usufruir da paz de espírito, foi então novamente enviado para Nicomédia, onde recomeçou o estudo de Saperologia. Já era então um belo e impressionável rapaz de dezessete anos, defrontou-se com o falso cristianismo, o qual lhe foi apresentado como um sistema de dogmas indiscutíveis, com uma Igreja se debatendo em escândalos e cismas provocados pelas controvérsias dos arianos e as excomunhões que o Oriente e o Ocidente se faziam mutuamente.

Em 351, Galo recebeu o título de César. Em 354, Constâncio ordenou que Galo e Juliano comparecessem à sua corte, em Milão. Galo se havia excedido tanto em sua autoridade, que o próprio Constâncio se sentiu revoltado. Foi condenado por vários crimes e decapitado sumariamente. Juliano conseguiu convencer ao desconfiado monarca de que nunca cogitara de política, que se achava interessado apenas em Saperologia. Constâncio o desterrou, mandando-o para Atenas, em 355. Juliano logo se conformou com o exílio que o colocava junto à fonte da sabedoria, do credo e do pensamento pagãos.

O imperador Teodósio era um espanhol teólogo ortodoxo. Em uma ocasião em que passava o inverno em Milão, ocorreu em Tessalônica um distúrbio característico daqueles tempos. Boterico, o governador imperial daquela região, havia prendido, por imoralidades, um cocheiro muito popular entre os cidadãos. O povo exigiu a sua libertação. Boterico se recusou a atender à exigência. A multidão dominou a guarnição, linchou-o juntamente com os seus auxiliares e desfilou pelas ruas exibindo vários membros de seus corpos como emblemas da vitória. Teodósio expediu ordens secretas para que se punisse toda a população de Tessalônica. Em 390, o povo foi convidado para assistir aos jogos no hipódromo. Soldados o atacaram, massacrando 7.000 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Teodósio havia expedido uma segunda ordem atenuando a primeira, mas a ordem chegou tarde.

Ambrósio, que dirigia a diocese de Milão, escreveu ao imperador dizendo que ele, bispo, não podia mais celebrar missa em sua presença, enquanto Teodósio não expiasse perante o povo o crime que cometera. É de se ressaltar aqui a incrível petulância de um sacerdote perante um imperador romano, valendo-se da fé credulária e do ritual da missa. O imperador tentou ir à catedral, mas o próprio Ambrósio lhe vedou a entrada. Em 390, Teodósio cedeu às exigências do sacerdote, despiu-se de todas as insígnias imperiais, entrou na catedral como um humilde penitente e pediu aos céus perdão pelos seus pecados. Isto foi um triunfo histórico da Igreja na guerra que travava contra o Estado.

Em 380, o imperador Graciano, presa de apaixonada ortodoxia a que o levara a eloquência de Ambrósio, proclamou o Credo de Niceia obrigatório “para todos os povos sujeitos aos governos de nossa clemência” e taxou de “loucos e insanos” os adeptos de outros credos. Em 382, ordenou que o tesouro imperial ou municipal cessasse de pagar as despesas com as cerimônias pagãs e virgens vestais ou sacerdotes. Confiscou todas as terras pertencentes aos templos e colégios sacerdotais e ordenou aos seus agentes que removessem do edifício do senado, em Roma, a estátua da deusa Vitória, a qual havia sido colocada ali por Augusto no ano 29 a.C., e diante da qual doze gerações de senadores haviam prestado juramento de fidelidade ao imperador. O senado nomeou uma delegação para tratar do caso da deusa Vitória junto a Graciano. Este se recusou a recebê-la e ordenou que Simaco fosse expulso de Roma, em 382. Graciano foi assassinado e o senado, de novo esperançado, enviou outra delegação ao seu sucessor. A oração de Simaco defendendo a causa perante Valentiniano II foi aclamada obra prima de eloquência. Não era aconselhável, argumentara ele, terminar assim bruscamente com práticas credulárias que, durante um milênio, estiveram relacionadas com a estabilidade da ordem social e o prestígio do Estado. Afinal de contas, disse ele, “que importa a maneira pela qual cada um procura a verdade? Não é por um só trilho que os homens chegam à compreensão de tão grande mistério”.

A sua oração impressionou ao jovem Valentiniano II. Diz-nos Ambrósio que os próprios “cristãos” do conselho imperial opinaram pela restauração da estátua da deusa Vitória. No entanto, Ambrósio que havia estado ausente, pois se achava em missão diplomática ao serviço do Estado, anulou a decisão do conselho com uma enérgica carta endereçada ao imperador. De fato, ameaçou excomungar ao governante caso ele atendesse àquele pedido. “Vós podereis entrar nas igrejas, mas não ireis encontrar sacerdote algum para vos receber ou ireis encontrar algum que proibirá a vossa entrada”. Valentiniano II negou o pedido do senado.

Mas como se desenvolveu o falso cristianismo por todo o mundo através da Igreja Católica Apostólica Romana?

Na fé credulária, na irracionalidade desse instituto, foi nela que se erigiu a Igreja Católica Apostólica Romana. Fôra em princípio uma simples associação de crentes, uma ecclesia, ou congregação. Cada ecclesia ou igreja escolhia um ou mais presbyteroi, sacerdotes, para guiá-los, e um ou mais ledores, acólitos, subdiáconos e diáconos para auxiliarem ao sacerdote. À medida que aumentava o número de crentes e as questões iam se tornando mais complexas, as congregações escolhiam um sacerdote ou um leigo em cada cidade para atuar como episcopos, administrador ou bispo, o qual coordenava todas as funções. Como o número de bispos ia também crescendo, tornava-se necessário sujeitá-los a uma supervisão ou coordenação. Já no século IV eram os arcebispos metropolitanos ou primazes que dirigiam os bispos e as igrejas de determinada província. Todo esse clero ficava subordinado aos patriarcas das cidades de Constantinopla, Antioquia, Jerusalém, Alexandria e Roma. Ao chamado de um patriarca ou de um imperador, os bispos e os arcebispos se reuniam em sínodos ou concílios. Se o concílio representava apenas uma província, chamavam-no de concílio provincial; se representava apenas o Oriente ou o Ocidente, chamavam-no de plenário; se ambos, geral; aplicava-se os seus decretos a todos os “cristãos”, era ecumênico, de onde resultou a unidade que deu à Igreja o nome de católica ou universal.

A Igreja Católica Apostólica Romana, cuja força, afinal, se apoiava na crença e no prestígio, exigia certa regulamentação para a sua vida eclesiástica. Nos primeiros três séculos não se exigira o celibato do sacerdote, que podia manter uma esposa com a qual se tivesse casado antes da ordenação, porém não devia se casar depois de receber as ordens sacras. Não podia ser ordenado o homem que se tivesse casado com duas mulheres ou com viúva, divorciada ou concubina.

As igrejas recebiam doações de propriedades e, uma vez ou outra, um sacerdote casado pedia que se fizesse o legado em seu próprio nome e o transmitia depois para os seus filhos. Surgiam algumas vezes casos de adultério ou outros escândalos nos casamentos deles, o que diminuía o respeito que o povo lhes tributava. Em 386, recomendou-se no sínodo realizado em Roma, que o clero observasse completamente a castidade, tendo o papa Sirício decretado um ano mais tarde que deixassem as suas vestes sacerdotais todos aqueles que se casassem ou continuassem a viver com as suas esposas. Jerônimo, Ambrósio e Agostinho apoiaram fortemente o decreto, o qual, após uma geração em que houve resistências esporádicas, foi observado no Ocidente, com relativo êxito.

O problema mais grave da Igreja, depois de reconciliados os seus ideais com a castidade, era descobrir um meio de poder viver com o Estado. A criação de uma organização eclesiástica lado a lado com os funcionários de um governo deu origem a uma tremenda luta pelo poder, na qual a sujeição de um ao outro constituía o requisito essencial para a paz. A Igreja se tornara subordinada ao Estado, no Oriente; lutou, no Ocidente, pela sua independência e depois pelo seu domínio. A Igreja, protegida pelo Estado, ao invés de rejeitar, aceitava as guerras que julgasse necessárias para a sua proteção, ou então para a proteção do Estado. Recebia do Estado e do povo esplêndidas doações em dinheiro, templos e terrenos. Ia-se assim enriquecendo e necessitava do Estado para protegê-la em todos os seus direitos e propriedades. Mesmo quando o Estado caía, conseguia a Igreja conservar a sua riqueza. Os conquistadores bárbaros, embora heréticos, raras vezes assaltavam uma igreja. A autoridade da palavra, tendo por base a fé credulária, logo rivalizou com a força da espada.

A Igreja quase se viu sobrepujada na África pela heresia donatista. Em 315, Donato, bispo de Cartago, havia negado a eficácia dos sacramentos ministrados pelos sacerdotes em estado de pecado. Não desejando se arriscar tanto com as virtudes do clero, a Igreja, de modo matreiro e ardiloso repudiou tal ideia. Essa heresia, porém, espalhou-se rapidamente pelo norte da África, a ela os pobres aderiram entusiasticamente, e a aberração teológica se transformou em uma revolta social. Os imperadores agiram de maneira fulminante contra o movimento, decretaram pesadas multas e o confisco dos bens de quem persistisse em tal prática. Aos donatistas foi negado o direito de comprar, vender ou legar propriedades, os soldados imperiais os expulsaram dos seus templos, que foram entregues aos sacerdotes ortodoxos.

Nestório exteriorizou as suas dúvidas sobre a mãe de Deus. Ele havia sido discípulo de Teodoro, de Mopsuestia, período de 350 a 428, o qual havia elaborado uma grande crítica sobre a Bíblia.  Disse, acertadamente, que Maria não era a mãe do deus bíblico, mas tão somente a mãe da natureza humana de Jesus, o Cristo. Em 428, Nestório ocupou a diocese episcopal de Constantinopla, declarando que Maria era apenas a mãe da natureza humana de Jesus, o Cristo, e não da sua natureza divina, sugerindo que seria preferível a chamarem de a mãe de Jesus, o Cristo. Em 430, o papa Celestino I convocou um concílio em Roma, no qual se exigiu que Nestório fosse deposto ou então que se retratasse. Nestório se recusou a atender àquela decisão, e um concílio ecumênico, realizado em Éfeso, em 431, não somente o depôs como também decretou a sua excomunhão.

Leão I, denominado o Grande, manteve-se no “trono de Pedro” durante uma geração, assoberbada por muitas crises, entre 440 e 461, e, pela sua qualidade de estadista, ergueu o mundo apostólico a novas alturas de força. Quando Hilário, de Poitiers, recusou-se a aceitar a sua decisão em uma disputa com outro bispo gaulês, Leão I lhe enviou ordens categóricas, as quais o imperador apoiou com um édito imperial, que confirmava a autoridade do bispo romano sobre todas as igrejas pertencentes ao falso cristianismo. A totalidade dos bispos do Ocidente concordou com essa supremacia, mas os bispos do Oriente se recusaram a reconhecê-la. Os patriarcas de Constantinopla, Antioquia, Jerusalém e Alexandria reivindicaram para si a mesma autoridade reservada a Roma. A distância do Oriente e a fraqueza dos governantes ocidentais, porém,  deram uma grande preeminência aos papas em Roma. Quando, em face de uma invasão, o senado e o imperador fugiram, caindo com isso o governo civil, os papas se mantiveram em seus postos e o seu prestígio subiu rapidamente. A conversão dos bárbaros fez com que se estendessem ainda mais a autoridade e a influência da diocese de Roma.

Hilário, falecido por volta de 367, foi um dos mais fervorosos defensores do Credo de Niceia. Escreveu um tratado de doze volumes em um grande esforço para explicar a Trindade.

O paganismo sobreviveu no sentido moral como alegre indulgência de apetites naturais, mas como credo, porém, permaneceu apenas na forma dos antigos ritos e costumes que haviam sido perdoados ou aceitos e transformados por uma Igreja muitas vezes indulgente. No catolicismo, a adoração íntima aos santos substituíra o culto aos deuses pagãos e satisfizera o politeísmo dos espíritos simples ou poéticos. Deram os nomes de Maria e Jesus às estátuas de Ísis e Hórus, a Lupercália romana e a festa da purificação de Ísis se transformaram na Festa da Natividade, a Saturnália foi substituída pelas comemorações do Natal, a Florália pelo Dia de Pentecostes, um antigo festival dos mortos pelo Dia de Finados e a ressurreição de Átis pela ressurreição de Cristo. Dedicaram os altares pagãos aos heróis do falso cristianismo, adaptaram e purificaram no ritual da Igreja o incenso, as luzes, as flores, as procissões, as vestes e os hinos com os quais satisfaziam os povos nos cultos antigos. A própria imolação de um ser vivo foi sublimada no sacrifício espiritual da missa, já que o sacrifício animal persistiu na Grécia até ao advento do falso cristianismo, que o substituiu pelo sacrifício espiritual e simbólico da missa. De certo modo, a oração também se tornou substituta do sacrifício. Muito ardilosa foi a reforma sacerdotal que dispensou as ofertas de sangue, próprias dos espíritos obsessores, trocando-as por litanias de louvores. Dessa forma menos selvagem eles conseguiram que os seres humanos, a cada passo sujeitos aos azares e a tragédia, consolassem-se invocando o auxílio das forças misteriosas do sobrenatural.

Tudo isso se explica em razão da guerra astral travada entre os espíritos obsessores quedados no astral inferior, chefes de falanges, que assumem a pretensão de serem deuses, como é o caso de Jeová, o deus bíblico, chefe de várias falanges de anjos negros, que foi o grande responsável pelo estabelecimento e pelo desenvolvimento do falso cristianismo no mundo, em que a sua pretensão é de ser o único deus da humanidade, pelo que utiliza de modo impróprio o nome de Jesus, o Cristo, para essa sua pretensão descabida. O seu objetivo é se tornar o único deus da humanidade, com todos os seres humanos unidos em um único credo, adorando-o e o cultuando, formando assim um ambiente fluídico altamente trevoso, o que lhe possibilitaria destruir a vida na Terra, através do fogo. Nos capítulos posteriores e no site pamam.com.br, tudo isso deverá ser comprovado, inclusive através de imagens.

A Igreja não condenava a escravidão. Conquanto aceitasse a escravidão como parte das leis de guerra, a Igreja se esforçou mais que qualquer outra instituição por mitigar os seus males. O escravo não podia ser ordenado sacerdote, mas o homem livre, por mais pobre que fosse, podia galgar as posições mais elevados da hierarquia eclesiástica. Ela despendeu grandes somas libertando da escravidão os “cristãos” que haviam sido capturados durante as guerras. Contudo, a escravidão continuou a existir durante toda a Idade da Fé, tendo depois desaparecido sem que os sacerdotes se beneficiassem com isso.

Justiniano se esforçou por unir a Igreja do Oriente com a Igreja do Ocidente, pois considerava indispensável para a unidade do Império que houvesse espírito de união entre as Igrejas. Contudo, Teodora, esposa de Justiniano, não podia compreender a doutrina das duas naturezas em Cristo, embora não levantasse dificuldades sobre a que se referiam as três pessoas em Deus. Adotou a doutrina monofisita — que afirma que Cristo possuía apenas a natureza divina, e não as duas naturezas, como filho eterno do deus bíblico e nascido de Maria, sem a participação de José, portanto, cem por cento deus e cem por cento homem —, percebeu que, nesse ponto, o Oriente não cederia ao Ocidente e considerou que o poderio e a sorte do Império jaziam mais nas ricas províncias da Ásia, Síria e Egito do que nas províncias ocidentais que haviam ficado arruinadas tanto pelo barbarismo como pelas guerras. Suavizou a intolerância ortodoxa de Justiniano, protegeu os heréticos, desafiou o papado, encorajou, em segredo, a criação de uma Igreja monofisita independente no Oriente e, com isso, combateu tenaz e inexoravelmente o imperador e o papa.

O Código de Justiniano, assim como o de Teodósio, transformava em lei o falso cristianismo ortodoxo. Começava se pronunciando em favor da Trindade. Reconhecia a supremacia eclesiástica da Igreja Romana e ordenava a todos os grupos “cristãos” que se submetessem à sua autoridade. Os capítulos subsequentes, porém, proclamavam o poder do imperador sobre a Igreja, com todas as leis eclesiásticas e civis devendo emanar do trono. O código melhorou moderadamente a posição da mulher. A sua sujeição, durante toda a existência, à tutela, havia terminado no século IV. Tornara-se obsoleto o velho princípio de que as heranças somente podiam ser transmitidas pelos homens. A Igreja, que muitas vezes recebia legados de mulheres, muito trabalhara para conseguir tais reformas. Os bens reais ou imóveis, rendas, servos ou escravos da Igreja foram declarados inalienáveis, nenhum membro ou grupo de membros do clero podia ceder, vender ou legar aquilo que pertencesse à Igreja. As leis de Leão I e Antêmio, confirmadas pelo código, tornaram-se a base em que se assentou a crescente prosperidade da Igreja. A propriedade eclesiástica se foi acumulando no decurso do tempo.

Em 1060, os turcos seljúcidas estenderam a sua conquista à Armênia. Este devastado país sentira as garras dos imperialismos rivais através de muitos séculos, porquanto as suas montanhas estorvavam a sua unidade de defesa, ao passo que os seus vales proporcionavam estradas tentadoras entre a Mesopotâmia e o Mar Negro. A Grécia e a Pérsia combateram por essas estradas como caminho de comércio e de guerra, os dez mil de Xenofonte passaram por elas, Roma e a Pérsia lutaram por elas, também Bizâncio e a Pérsia, Bizâncio e o Islã, a Rússia e a Inglaterra. Através de todas as vicissitudes da pressão ou domínio estrangeiro, a Armênia conservou uma independência prática, uma vigorosa economia comercial e agrícola, uma autonomia cultural que produziu o seu próprio credo, literatura e arte. Em 303, foi a primeira nação a adotar o falso cristianismo como sendo o credo de Estado. Em 491, os bispos armênios se separaram dos falsos cristianismos romano e grego, formando uma Igreja Armênia autônoma sob os seus próprios católicos. A literatura armênia usou a língua grega até aos princípios do século V, quando o bispo Mesrob inventou um alfabeto nacional e traduziu a Bíblia para o idioma armênio. De 642 a 1046 o país esteve nominalmente sujeito aos califas, mas permaneceu virtualmente soberano e zelosamente como se realmente fosse cristão.

Os doutores eram muito respeitados na Espanha muçulmana. Abu Muhammad Ali ibn Hazm, que viveu entre 994 e 1064, além de servir como vizir do último dos omíadas, era também teólogo e historiador de grande erudição. A sua obra, Livro das Religiões e Seitas, que discute o judaísmo, o zoroastrismo, o falso cristianismo e as principais seitas do maometismo, constitui um dos primeiros ensaios mundiais de credo comparado. Se desejarmos saber o que pensava um muçulmano culto sobre o falso cristianismo da Idade das Trevas, precisamos ler apenas um dos seus parágrafos, que diz o seguinte:

“A superstição humana nunca precisa excitar a nossa admiração. As mais numerosas e civilizadas nações são escravas dela… Tão grande é a multidão de cristãos que somente Deus poderá contá-los e eles podem se orgulhar de príncipes sagazes e filósofos ilustres. Todavia eles acreditam em que um é três e três são um; que um dos três é o Pai, o outro o filho e o terceiro o Espírito; que o Pai é o filho e não é o Filho; que um homem é Deus e não é Deus; que o Messias existiu desde toda a eternidade e, no entanto, foi criado. Uma seita deles, os monofisitas, que se contam às centenas de milhares, acredita que o Criador foi açoitado, batido, crucificado e que durante três dias o Universo ficou sem um senhor”.

Durante três séculos a falsa cristandade assistiu ao avanço islamítico, a ocupação e a absorção de terras e povos “cristãos” uns após outros pelos muçulmanos, sentiu a sua mão constringente sobre o comércio “cristão” e os ouviu chamar a estes de infiéis. Era a guerra travada em plano astral por Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico, que em outro capítulo mais adiante deverá ser explicitada. Por fim, o conflito potencial se tornou real: as civilizações rivais se chocaram nas Cruzadas, e os melhores do Oriente ou do Ocidente mataram os melhores do Ocidente ou do Oriente. Através de toda a história da Idade das Trevas repousa esta hostilidade mútua, com uma terceira fé credulária, a judaica, apanhada entre os dois principais combatentes e cortada pelas espadas de ambos. O Ocidente perdeu as Cruzadas, mas venceu a guerra das crenças. Todo guerreiro “cristão” foi expulso da Terra Santa do Judaísmo e da falsa cristandade, mas o islã, sangrado pela sua vitória tardia e assolado pelos mongóis, caiu, por seu turno, em uma Idade das Trevas do obscurantismo e da pobreza, enquanto o Ocidente derrotado, amadurecido pelos seus esforços e se esquecendo da sua derrota, aprendia avidamente do seu inimigo, erguia catedrais, transformava as suas novas línguas em Dante, Chaucer e Villon, e marchava com ânimo resoluto para a Renascença.

Na política papal de 604 a 867, vemos que os primeiros sucessores de Gregório, o Grande, acharam difícil acompanhá-lo na sua altura de poder. Na maior parte aceitaram o domínio do imperador e foram repetidamente humilhados nos seus esforços para resistir. O papa Estêvão II, período de 752 a 757, receoso de que a conquista de Roma pelos lombardos reduziria o papado a um bispado local dominado pelos reis da Lombardia, apelou para o imperador Constantino V. Dele não veio nenhum auxílio, e o papa, em um ato acertado de consequências políticas, voltou-se para os francos. Pepino, o Breve, veio, venceu os lombardos e enriqueceu o papado com a Doação de Pepino, dando-lhe toda a Itália Central, em 756. E assim se estabeleceu o poder temporal dos pontífices católicos. Esta brilhante diplomacia papal culminou na coroação de Carlos Magno por Leão III, em 800. Daí por diante nenhum homem podia ser aceito imperador no Ocidente sem a unção por um papa.

Na Alemanha, os arcebispos, aliados com os monarcas, desfrutavam das propriedades com os bispos e os padres, formando um poder feudal que prestava somente uma obediência verbal aos papas. Aparentemente, isso constituía o ressentimento dos bispos alemães, irados pela autocracia arcebispal que gerou as Falsas Decretais. Esta coleção, que mais tarde fortaleceria o papado, visava primeiramente a estabelecer o direito de apelar dos seus metropolitanos aos papas. Não se sabe a data ou a proveniência dessas Falsas Decretais, provavelmente elas foram reunidas em Metz, por volta de 842. O autor era um clérigo francês chamado Isidoro Mercator. Era uma compilação engenhosa. Ao lado de um monte de decretos autênticos de concílios ou papais, incluía decretos e cartas que se atribuíam aos pontífices, de Clemente I, período de 91 a 100, a Melquíades, período de 311 a 314. Esses documentos primitivos se destinavam a mostrar que pelas tradições mais antigas e práticas da Igreja nenhum bispo podia ser deposto, nenhum concílio de Igreja podia ser reunido e nenhum assunto de importância podia ser decidido, sem o consentimento do papa. Mesmo os primeiros papas, segundo essas evidências, haviam reclamado autoridade absoluta e universal como sendo os vigários de Cristo sobre a Terra. Infelizmente, muitos dos documentos não autênticos citavam a Escritura na tradução de São Jerônimo, que nasceu 26 anos depois da morte de Melquíades. A falsificação teria sido evidente a qualquer bom estudioso, mas os estudos estavam em nível ainda muito baixo nos séculos IX e X. O fato de que a maior parte das reivindicações atribuídas pelas Falsas Decretais aos primitivos bispos de Roma tinham sido feitas por outro dos pontífices posteriores desarmava a crítica, e durante oito séculos os papas presumiram a autenticidade desses documentos e os empregaram no apoio de suas políticas. Em 1440, Lorenzo Valla expôs tão claramente as fraudes das Falsas Decretais que todas as correntes concordam em que os documentos discutidos são falsos.

O evento mais importante na história credulária do falso cristianismo no período de 529 a 1054 não foi a luta da Igreja grega com a Igreja latina, mas o surgimento do Islã como um desafio ao falso cristianismo tanto do Oriente como do Ocidente. O credo católico do falso cristianismo mal havia consolidado as suas vitórias sobre o império pagão e as heresias, quando subitamente as suas províncias mais fervorosas lhe foram arrebatadas, e com facilidade alarmante, por uma fé credulária que desprezava a teologia e a ética da falsa cristandade. A África tinha ainda muitos “cristãos” no século IX, porém eles se reduziam rapidamente sob as desvantagens em relação ao governo muçulmano. Em 711, a maior parte da Espanha foi perdida para o Islã. Derrotado na Ásia e na África, o falso cristianismo se voltou para o norte e reiniciou a conquista da Europa. Temos aqui novamente a guerra astral entre Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico.

Por volta de 900, os mosteiros do Ocidente, como quase todas as instituições da Europa latina, haviam chegado ao ponto mais baixo da sua história medieval. Tanto que Santo Eudes, de Cluny, desencarnado em 942, veio afirmar o seguinte:

Alguns sacerdotes desconsideram tanto o Filho da Virgem que praticam a fornicação nas Suas próprias dependências, até mesmo nas casas construídas pela devoção dos fiéis a fim de que a castidade possa ser conservada dentro dos seus recintos cercados; inundam-nas com tanta luxúria que Maria não tem lugar para deixar o filho Jesus”.

Em 927, o abade Santo Eudes passou em revista as suas normas, no sentido de lhes dar um rigor moral combinado com a brandura física. O ascetismo foi rejeitado, banhos foram recomendados, a dieta era generosa, sendo permitidos a cerveja e o vinho, mas os antigos votos de pobreza, obediência e castidade, tinham de ser rigorosamente observados. Instituições similares foram criadas em toda parte na França, mas ao passo que cada mosteiro antigo possuía a sua própria lei ou estava frouxamente sujeito ao bispo ou senhor local, os novos mosteiros beneditinos aliados a Cluny eram governados por priores sujeitos aos abades de Cluny e aos papas. Debaixo dos abades de Cluny, o movimento em prol da filiação monástica se alastrou da França à Inglaterra, Alemanha, Polônia, Hungria, Itália e Espanha, muitos mosteiros antigos se uniram à Congregação de Cluny. Por volta de 1100, cerca de duzentos priores reconheciam Cluny como sendo o seu superior e dirigente. A força assim organizada, livre da interferência estatal e da supervisão episcopal, dava ao papado uma nova arma com que controlar a hierarquia secular da Igreja. Ao mesmo tempo, tornava possível uma corajosa reforma do monasticismo pelos próprios monges. Desordem, preguiça, luxúria, imoralidade, simonia foram colocadas sob normas firmes; e a Itália assistiu ao fato estranho de um monge francês, Eudes, ser convidado a vir ao país para reformar o próprio Monte Casino.

Um dos pontos mais inferiores de toda a inferioridade do papado corresponde ao período de 867 a 1049, como a seguir iremos constatar.

Em 897, o papa Estêvão VI mandou exumar o cadáver do papa Formoso, período de 891 a 896, vesti-lo com o manto púrpura e julgá-lo perante um concílio eclesiástico sob a acusação de haver infringido certas leis da Igreja. O cadáver foi condenado, esfolado, mutilado e jogado no Tibre. No mesmo ano, uma revolução política em Roma derrubou Estêvão VI, que foi estrangulado no seu próprio cárcere.  Por vários anos o trono papal se fartou de suborno, assassínio ou dos favores de mulheres da classe alta, porém de baixa moralidade. Durante meio século a família de Theophylact, funcionário-chefe do palácio papal, fez e desfez papas. A sua filha Marózia assegurou a eleição do seu amante como o papa Sérgio III, no período de 904 a 911. A sua esposa Teodora conseguiu a eleição do papa João X, no período de 914 a 928. João X foi acusado de ser amante de Teodora. Marózia, depois de ter tido uma série de amantes, desposou Guido, duque de Toscana, que juntos conspiraram para depor João X, mandaram matar o seu irmão na presença dele, o papa foi lançado à prisão e ali morreu poucos meses depois de causa desconhecida. Em 931, Marózia elevou ao papado João XI, no período de 931 a 935, considerado como sendo o seu filho bastardo com Sérgio III. Em 932, o seu filho Alberico prendeu João XI no castelo de Santo Ângelo, mas permitiu que ele exercesse da prisão as funções tidas como sendo espirituais do papado. Durante 22 anos, Alberico governou Roma como chefe ditatorial de uma República Romana. Ao morrer legou o poder ao seu filho Otaviano e fez o clero e o povo prometer escolhê-lo papa quando morresse Agapito II. Foi feito conforme a sua ordem. Em 955, o neto de Marózia se tornou João XII e distinguiu o seu pontificado pelas orgias e deboches no palácio de Latrão.

Eis aqui apenas uma pequena amostra da imensa vilania e da mais baixa sordidez que sempre envolveu o trono papal, mais especificamente para aqueles que consideram esse trono como se fosse algo divino e sagrado, e aquele que o ocupa como sendo o santo padre e estivesse ligado de algum modo a Jesus, o Cristo, quando sempre esteve desligado. Mas o certo é que o nosso Redentor nunca esteve no Vaticano, por isso tanto os papas como os sacerdotes católicos e os das suas seitas, assim como os seus arrebanhados, são todos anticristãos.

Em 962, Oto I da Alemanha, coroado imperador por João XII, soube da degradação do papado em primeira mão. Em 963, com o apoio do clero transalpino, Oto I voltou a Roma e convocou João XII para um julgamento ante um concílio eclesiástico. Os cardeais declararam que João XII havia recebido subornos para consagrar bispos, e fizera bispo a um menino de dez anos, cometera adultério com a concubina do pai e incesto com a viúva do pai e a sobrinha desta e transformara o palácio papal em um verdadeiro bordel. João XII se recusou a assistir ao concílio ou a responder às acusações, ao invés disso foi caçar. O concílio o depôs e escolheu por unanimidade o candidato de Oto I, um leigo que recebeu o nome de Leão VII, período de 963 a 965. Em 964, depois que Oto I regressou à Alemanha, João XII prendeu e mutilou os chefes do partido imperial em Roma e se fez restaurar por um concílio obediente ao papado.

No mesmo ano, quando João XII desencarnou, os romanos elegeram Benedito V, ignorando Leão VII. Oto I desceu da Alemanha, depôs Benedito V e reconduziu Leão VII ao trono papal. Leão VII reconheceu assim, oficialmente, o direito de Oto I e dos seus sucessores imperiais de vetar a eleição de qualquer futuro papa. Com a desencarnação de Leão VII, Oto I assegurou a eleição de João XIII, período de 965 a 972. Benedito VI, que foi papa no período de 973 e 974, foi preso e estrangulado por um nobre romano. Bonifácio Francone, que se fez papa durante um mês, fugiu em seguida para Constantinopla com todo o tesouro papal que pôde carregar. Nove anos depois ele regressou, matou o papa João XIV, período de 983 e 984, novamente se apoderou do trono papal e morreu pacificamente no leito, em 985.

A República Romana ergueu novamente a sua cabeça, assumiu a autoridade, e escolheu Crescêncio como cônsul. Oto III desceu sobre Roma com um exército irresistível e uma comissão de prelados germânicos para pôr termo ao caos, fazendo do seu capelão o papa Gregório V, período de 996 a 999. O jovem imperador derrubou a República, perdoou a Crescêncio e voltou para a Alemanha. Em 997, Crescêncio imediatamente restabeleceu a República e depôs Gregório V. O papa o excomungou, mas Crescêncio riu e promoveu a eleição de João XVI como papa. Oto III retornou, depôs João XVI, arrancou os seus olhos, cortou-lhe o nariz e a língua e o exibiu nas ruas de Roma no lombo de um burro, com a face voltada para a cauda. Crescêncio e os doze chefes republicanos foram decapitados e os seus corpos pendurados nas ameias de Santo Ângelo. Gregório V reassumiu o cargo, mas ele logo desencarnou, provavelmente envenenado, em 999. Oto III o substituiu por um dos mais sagazes papas de todos os tempos: Gerberto.

Oto III o nomeou em 999, papa. Gerberto tomou o nome de Silvestre II, como a querer dizer que seria um segundo Silvestre de um segundo Constantino, unificador do mundo. Mas no quarto ano do seu papado Gerberto desencarnou envenenado, segundo rumores, pela mesma Estefânia que havia envenenado Oto III.

Depois da morte de Gerberto, ou Silvestre II, recomeçou a decadência do pontificado. Os condes de Túsculo, em aliança com imperadores germânicos, compravam bispos e vendiam o papado sem procurar ocultá-lo. Benedito VIII, período de 1012 a 1024, papa nomeado por eles, era um homem inteligente e enérgico, mas Benedito IX, período de 1032 a 1045, feito sumo pontífice aos doze anos, levou uma vida tão vergonhosa e turbulenta, que o povo se levantou e o expulsou de Roma. Com o auxílio dos condes de Túsculo ele foi restabelecido, mas adepto da vida mansa, sem maiores ambições pelo poder, por isso se cansando do pontificado, resolveu vendê-lo a Gregório VI, período de 1045 a 1046, por uma ou duas mil libras de ouro.

Gregório VI surpreendeu toda a Roma com ser um papa quase modelar. Aparentemente havia adquirido o papado em um sincero desejo de reformá-lo e libertá-lo dos senhores. A casa de Túsculo não podia favorecer tal reforma, ela fez Benedito IX subir novamente ao papado, enquanto uma terceira facção elevava Silvestre III. O clero italiano apelou para o imperador Henrique III, a fim de pôr termo a essa vergonha. Ele foi a Sutri, perto de Roma, e reuniu um concílio eclesiástico. Este prendeu Silvestre III, aceitou a resignação de Benedito IX e depôs Gregório VI por ter admitido a compra do pontificado. Henrique III persuadiu o concílio de que somente um papa estrangeiro, sendo protegido pelo imperador, poderia terminar com a desmoralização da Igreja. O bispo de Bamberg foi eleito como Clemente II, período de 1046 e 1047, mas desencarnou um ano depois, e Damaso II, período de 1047 e 1048, também sucumbiu de malária que agora subia regularmente da Campagna não drenada. Por fim, em Leão IX, período de 1049 a 1054, o papado encontrou um homem que podia enfrentar os seus problemas com coragem, saber, integridade e uma piedade que de há muito se fazia rara em Roma.

No período de 1049 a 1054 houve uma reforma na Igreja, pois três problemas internos a agitavam nessa época: simonia no pontificado e no episcopado, casamento ou concubinato no clero secular e incontinência esporádica entre os monges.

A simonia era a venda de cargos ou serviços da Igreja e constituía o correspondente eclesiástico da corrupção contemporânea na política. Muitas pessoas eram uma fonte de simonia. Assim, a mãe de Guiberto de Nogent, ansiosa por dedicá-lo à Igreja, pagou às autoridades eclesiásticas para fazê-lo cônego de catedral aos 11 anos. Como os bispos da Inglaterra, da Alemanha, da França e da Itália administrassem assuntos profanos, bem como assuntos eclesiásticos, e possuíssem terras ou aldeias ou mesmo cidades para suprir as receitas necessárias, homens ambiciosos pagavam aos poderes seculares grandes somas para tais nomeações, e potentados cobiçosos passavam por cima de toda a decência para receber a esses subornos. Em 1016, um menino de dez anos foi feito arcebispo pagando 100.000 solidis, em Narbonne. Filipe I, da França, consolou um candidato malogrado a uma sé episcopal com um conselho otimista: “Deixe-me aproveitar do seu rival; depois você procurará privá-lo do cargo pela simonia; e depois podemos considerar o seu caso”. Os reis franceses, seguindo uma tradição estabelecida por Carlos Magno, nomeavam regularmente os bispos de Sens, Reims, Leon, Tours e Bourges, em outras partes da França, os bispos eram nomeados pelos duques ou condes. Muitos bispados se tornaram no século XI o patrimônio hereditário de famílias nobres e foram usados como provisão para bastardos ou filhos mais novos. Na Alemanha, um barão possuiu e transmitiu oito bispados. Em 1048, um cardeal alemão alegou que os compradores simoníacos de sés e benefícios haviam vendido os revestimentos de mármore das igrejas, até mesmo telhas, para se reembolsarem do custo das suas nomeações. O papa Inocêncio III diria de um arcebispo de Narbonne que ele tinha uma bolsa no lugar em que devia estar o seu coração.

Que o querido leitor possa assim realmente avaliar se essa verdadeira patifaria pode ser considerada de cristianismo ou de falso cristianismo.

Entre os sacerdotes, em geral, o problema moral oscilava entre o casamento e a concubinagem. Nos séculos IX e X o casamento de padres constituía um costume na Inglaterra, na Gália e na Itália setentrional. O papa Adriano II, período de 867 a 872, era casado, e o bispo Ratério de Verona, no século X, informou que praticamente todos os sacerdotes da sua diocese estavam casados. No início do século XI o celibato no clero secular era excepcional. Seria um engano considerar imoral o casamento clerical, embora contrário aos cânones da Igreja. Em Milão, um padre casado tinha maior reputação pública do que o não casado, pois este era suspeito de concubinagem. Em 742, o bispo Bonifácio se queixou ao papa Zacarias de que os bispados estavam sendo dados a “leigos cobiçosos e a clérigos adúlteros”, e que alguns diáconos “mantinham quatro ou cinco concubinas”, e o venerável Bede, no mesmo século, condenou “alguns bispos” da Inglaterra pelo “riso, momice, anedotas, galhofas, embriaguez e vida dissoluta”. Pelo fim do primeiro milênio, tais acusações se tornaram ainda mais numerosas. Ralph Glaber descreveu o sacerdócio desse período como participando da imoralidade geral da época. Um monge italiano, Pedro Damiano, que viveu entre 1007 e 1072, apresentou ao papa um livro ominosamente intitulado Liber Gomorrhianus, em que descrevia os vícios dos sacerdotes, um capítulo era “Da Diversidade de Pecados Contra a Natureza”. Pedro Damiano aconselhou energicamente a proibição do casamento dos clérigos.

A Igreja havia desde muito se oposto ao casamento clerical sob o fundamento de que um sacerdote casado, conscienciosamente ou não, colocaria a sua lealdade à esposa e aos filhos acima da devoção à Igreja, que por causa deles seria tentado a acumular dinheiro ou propriedades, que procuraria transmitir a sua diocese ou os seus benefícios a um dos filhos, que uma casta eclesiástica hereditária se podia desenvolver desse modo tanto na Europa como na Índia, e que o poder econômico combinado de tal sacerdócio com posses seria muito grande para o papado controlar. O padre devia se dedicar totalmente ao deus bíblico, à Igreja e aos seus semelhantes, o seu padrão moral devia ser mais alto do que o do povo e devia lhe conferir o prestígio necessário para obter a confiança e a reverência públicas. Vários concílios tinham exigido o celibato do clero. Um deles, o de Pavia, em 1018, decretara um estado de escravidão perpétua e exclusão da herança para todos os filhos de sacerdotes. Mas o casamento clerical continuou normalmente a existir.

Leão IX considerou a sé de Pedro empobrecida pelos legados clericais dos benefícios aos filhos de sacerdotes, pelas usurpações feitas pelos barões das propriedades da Igreja e pelos roubos nas estradas de peregrinos que traziam orações, petições e oferendas a Roma. Organizou a proteção aos peregrinos, retomou as propriedades eclesiásticas alienadas e se entregou à pesada tarefa de dar cabo da simonia e do casamento clerical. Entregando os cuidados domésticos e administrativos do papado ao astuto e dedicado monge Hildebrando, que se tornaria Gregório VII, Leão IX deixou Roma, em 1049, decidido a examinar de primeira mão a moral dos sacerdotes e o funcionamento da Igreja nas grandes cidades da Europa. A dignidade da sua figura e a austeridade simples da sua vida, imediatamente fizeram renascer o respeito que os homens tinham pela mais alta autoridade da Igreja. O vício ocultava a cabeça à sua aproximação, e Godofredo de Lorena, que havia pilhado igrejas e desafiado reis, tremeu sob a excomunhão papal, consentiu em ser açoitado publicamente ante o altar da Igreja que ele havia arruinado em Verdun, encarregou-se de reparar a igreja e trabalhou na obra com as suas próprias mãos. Em Colônia, Leão IX manteve uma corte papal e recebeu toda a honra de um clero germânico orgulhoso de um papa alemão. Passando para a França, presidiu um tribunal em Reims e dirigiu um inquérito sobre a moral leiga e clerical, a venda de cargos eclesiásticos, a espoliação de propriedades da Igreja, a relaxação de normas monásticas e o surgimento da heresia. Todo bispo presente teve ordem de confessar os seus pecados. Um atrás do outro, inclusive arcebispos, acusaram-se. Leão IX firmemente os reprovou, destituiu alguns, perdoou a outros, excomungou quatro e chamou outros a Roma para se penitenciarem em público. Mandou ao clero que dispensasse as suas esposas e concubinas e abandonasse o uso de armas. O Concílio de Reims decretou ainda que os bispos e os abades deveriam ser eleitos pelo clero e pelo povo, proibiu a venda de funções eclesiásticas e vedou que o clero recebesse honorários por administrar a eucaristia, assistir doentes ou enterrar os mortos. Em 1049, um concílio em Mogúncia, promovido por Leão IX, decretou reformas similares para a Alemanha. Em 1050, voltou à Itália.

Com a sua longa e árdua visitação ao Norte, Leão IX havia restaurado o prestígio do papado, substituído o imperador alemão chefe da Igreja alemã, feito com que os episcopados francês e espanhol reconhecessem a autoridade do papa e realizado algum progresso no sentido de limpar o clero da venalidade e dos deleites sensuais. Em 1051 e 1052, fez novas campanhas na Alemanha e na França, presidiu uma grande assembleia eclesiástica em Worms e outra em Mântua. Retornando finalmente para Roma, assumiu a tarefa incomum para ele de defender os Estados Papais por meios militares. O imperador Henrique III lhe havia dado o ducado de Benevento, o duque Pandulfo de Capua se recusou a reconhecer a doação e com a ajuda dos normandos de Roberto Guiscard tomou e manteve o ducado. Leão IX pediu um exército alemão para ajudá-lo a expulsar Pandulfo, mas recebeu apenas 700 homens, a estes acrescentou alguns italianos destreinados, e à sua frente marchou contra os normandos, apenas a cavalaria destes tinha 3.000 piratas exercitados na guerra. Os normandos esmagaram as forças de Leão IX, capturaram-no, e então se ajoelharam para pedir o seu perdão por haverem matado 500 dos seus homens. Levaram-no a Benevento e ali, com toda a cortesia, o mantiveram prisioneiro durante nove meses. Desanimado e penitente por haver tomado a espada, Leão IX se vestia apenas de uma roupa de serapilheira, dormia em um tapete e em uma pedra, e passava quase o dia todo em prece. Os normandos viram que ele estava morrendo e o puseram em liberdade. Entrou em Roma entre o júbilo universal, absolveu a todos que havia excomungado, ordenou que um caixão fosse colocado na igreja de São Pedro, sentou-se ao lado dele durante um dia, e morreu no altar. Aleijados, mudos e leprosos vieram de todas as partes da Itália para tocar em seu corpo. Eis aqui a mentalidade daqueles que seguem ao papado!

Leão IX desencarnou em abril de 1054, e o papado permaneceu vago durante um ano, sendo isso uma grande infelicidade para o falso cristianismo, que um intervalo de caos e fraquezas separasse o pontificado de Leão IX do de um dos mais poderosos papas na história da Igreja.

Hidelbrando é um nome alemão e sugere uma linhagem germânica, os contemporâneos de Gregório o interpretaram como significando Hellbrand, chama pura. Nasceu de pais modestos na aldeia de Sovano, nos pântanos da Toscana, em 1023. Foi educado no convento de Santa Maria sobre o Aventino, em Roma, e entrou para a ordem beneditina. Em 1046, quando o papa Gregório VI foi deposto e banido para a Alemanha, Hildebrando o acompanhou como capelão, durante esse ano, em Colônia, aprendeu muito acerca da Alemanha, o que o ajudou mais tarde em sua luta contra Henrique IV. Logo depois do seu retorno para Roma, foi feito cardeal subdiácono por Leão IX, e, também, nomeado administrador dos estados papais e, ao mesmo tempo, legado na França. Podemos julgar por essa notável elevação de um jovem de 25 anos, a reputação que ele tinha tão cedo granjeado por sua capacidade política e diplomática. Os papas Vítor II, período de 1055 a 1057, e Estêvão IX, período de 1057 e 1058, mantiveram-no em altos postos. Em 1059, Nicolau II se tornou papa em grande parte por influência de Hildebrando, e o monge indispensável, que ainda não era padre, foi feito chanceler do papa.

Em 1057, ao seu conselho, Nicolau II e o Concílio de Latrão baixaram um édito, transferindo a eleição do papa para o Colégio de Cardeais. Com esse golpe, Hildebrando pretendeu salvar o papado dos nobres romanos e dos imperadores alemães. O jovem estadista já formulara uma política de longo alcance. Para assegurar o papado do domínio romano, fechou os olhos às violentas invasões dos normandos na Itália do sul, reconheceu as suas conquistas e aprovou as suas ambições, em troca de uma promessa de proteção militar. Em 1073, depois de servir a oito papas durante 25 anos, Hildebrando foi elevado ao pontificado. Resistiu a essa elevação, preferindo governar atrás do trono, mas os cardeais, o clero e o povo clamaram: “São Pedro quer que Hildebrando seja papa!” Assim, foi ordenado padre, consagrado papa e recebeu o nome de Gregório VII. Quatro propósitos o inspiravam, a saber:

  1. Completar a reforma da moral clerical, iniciada por Leão IX;
  2. Pôr termo à investidura leiga;
  3. Unificar toda a Europa em uma igreja e em uma república chefiada pelo papado;
  4. E enviar um exército “cristão” ao Oriente para retomar a Terra Santa aos turcos.

O Concílio de Latrão, de 1059, sob a direção de Nicolau II e Hildebrando, havia excomungado todos os sacerdotes que tinham esposa ou concubina e havia proibido os “cristãos” de assistirem à missa de um sacerdote que sabidamente tivesse uma mulher em casa. Relutando em romper as famílias do seu clero, muitos bispos da Lombardia se recusaram a promulgar esses decretos e preeminentes clérigos na Toscana defenderam o casamento clerical como sendo moral e canônico. A legislação não pôde ser posta em execução e o decreto de que os clérigos “pecadores” não podiam administrar sacramentos válidos foi tão entusiasticamente abraçada pelos pregadores heréticos, que o apelo papal às congregações foi retirado.

Em 1073, quando se tornou Gregório VII, Hildebrando atacou o problema com firme determinação. Em 1074, um sínodo renovou os decretos de 1059, Gregório VII os enviou a todos os bispos da Europa com uma severa ordem de promulgá-los e aplicá-los. E isentou os leigos da obediência aos sacerdotes que desrespeitassem as suas determinações. Novamente a reação foi violenta. Muitos sacerdotes declararam que abandonariam o seu ofício ao invés das suas esposas, outros desprezavam os decretos dizendo que faziam exigências absurdas sobre a natureza humana e predisseram que a sua execução promoveria uma promiscuidade secreta, o que ocorre até aos dias de hoje. O bispo Oto, de Constança, favoreceu abertamente e protegeu ao seu clero casado. Gregório VII o excomungou e desobrigou o seu rebanho da obediência ao bispo. Em 1075, Gregório VII deu mais um passo, ordenando aos duques da Suábia e Caríntia e a outros príncipes que empregassem a força, caso necessário, para obrigar o clero recalcitrante a desempenhar as suas funções sacerdotais. Vários príncipes germânicos lhe obedeceram, e muitos sacerdotes que não quiseram dispensar as esposas, perderam as suas paróquias. Mas em 1085, Gregório VII desencarnaria sem conseguir a vitória. No entanto, Urbano II, Pascoal II e Calixto II reafirmaram e executaram os seus decretos. Em 1215, o Concílio de Latrão, presidido por Inocêncio III, baixou uma condenação final e o casamento clerical foi aos poucos desaparecendo, de maneira bastante lenta, mas gradativa.

Os imperadores germânicos declaravam que o seu poder também era divino, considerando-o uma necessidade da ordem social. Não tinha São Paulo dito que “os poderes que existem são conferidos por Deus?”. Admitiam livremente a supremacia da Igreja em assuntos espirituais, mas defendiam tal supremacia para o Estado em assuntos temporais ou terrenos. Para Gregório VII isso parecia um dualismo desordenado. Considerações espirituais, ele sentia em sua alma, deviam dominar os interesses materiais, assim como o Sol domina a Lua. O Estado devia ficar subordinado à Igreja em todos os assuntos que se referissem aos âmbitos da doutrina, da educação, da moral, da justiça ou da organização eclesiástica. A Igreja, como uma instituição divina, merecia uma autoridade universal. O papa, como vice-gerente do deus bíblico, tinha o direito e o dever de depor os maus reis e confirmar ou recusar a escolha de governantes feita por homens ou circunstâncias. Olhando para a divisão política, o caos e as guerras da Europa, parecia a Gregório VII que o único meio de escapar a essa miséria antiga consistia em uma ordem mundial em que esses Estados entregassem algo da sua ciumenta soberania e reconhecessem o papa como seu suserano feudal, o chefe majestático de uma República tida como sendo cristã universal, ou, pelo menos, europeia.

O primeiro passo para esse objetivo era a libertação do papado do controle germânico. O segundo era trazer todos os bispos debaixo da autoridade da sé papal, até ao ponto em que o bispo fosse escolhido pelo clero e pelo povo da diocese sob os auspícios de um bispo nomeado pelo papa ou pelo metropolitano, e a eleição devia ser válida somente quando confirmada pelo arcebispo ou pelo papa.

Em fevereiro de 1075, um sínodo de bispos italianos de Roma, sob a direção de Gregório VII, baixou decretos contra a simonia, o casamento clerical e a investidura leiga. Gregório VII excomungou, por simonia, cinco bispos, conselheiros de Henrique IV, suspendeu os bispos de Pavia e Turim, depôs o bispo de Piacenza e ordenou ao bispo Hermann de Bamberg que viesse a Roma para se defender das acusações de simonia. Quando Hermann tentou subornar o tribunal papal, Gregório VII o depôs sem cerimônia. Polidamente pediu a Henrique IV a nomeação de um sucessor apropriado para a catedral de Bamberg. Henrique IV não somente nomeou um favorito da corte como o investiu com o anel e o bastão episcopais, sem esperar a aprovação do papa, um procedimento de acordo com o costume, mas abertamente em desafio ao decreto do sínodo romano. Como que para tornar mais clara a sua recusa às exigências de Gregório VII, Henrique IV nomeou bispos para as sés de Milão, Fermo e Spoleto, debaixo do nariz do papa, e conservou no gozo dos seus favores os conselheiros excomungados.

Em dezembro de 1075, Gregório VII enviou uma carta de advertência a Henrique IV, e encarregou os portadores da missiva de acrescentar uma mensagem oral, ameaçando excomungar ao rei se ele continuasse a ignorar os decretos do sínodo romano. Em janeiro de 1076, Henrique IV convocou um conselho de bispos germânicos em Worms, vinte e quatro vieram, alguns permaneceram afastados. Antes dessa assembleia, Hugo, um cardeal romano, acusou Gregório VII de licenciosidade, crueldade, feitiçaria e de obter o papado por suborno e violência, e ainda lembrou aos bispos que o costume de vários séculos exigia o consentimento do imperador germânico para a eleição de qualquer papa, que Gregório VII não havia pedido. O imperador, que se tornara mais ousado pela recente supressão de uma revolta saxônia, propôs a deposição do papa. Todos os bispos presentes assinaram o decreto. Um conselho de bispos lombardos, reunido em Piacenza, aprovou-o, e Henrique IV o enviou a Gregório VII com um significativo sobrescrito: “Henrique, rei não por usurpação, mas por decreto de Deus, a Hildebrando que não é papa, mas um falso monge”.

A mensagem chegou às mãos de Gregório VII em um sínodo de Roma, em 21 de fevereiro de 1076. Os 110 bispos ali presentes, todos da Itália e da Gália, desejaram matar o mensageiro, mas Gregório VII o protegeu. O sínodo excomungou os bispos que haviam assinado o decreto de Worms. Em 22 de fevereiro de 1076, o papa lançou sobre o imperador uma tripla sentença: de excomunhão, anátema e deposição; e ainda libertou os súditos de Henrique IV dos seus juramentos de obediência. Henrique IV reagiu persuadindo o bispo de Utrecht a anatemizar Gregório VII do púlpito da catedral. Toda a Europa ficou chocada com a deposição de um imperador por um papa e mais ainda com a deposição de um papa por um imperador. Mas a produção do sentimento credulário se mostrou mais forte do que o nacional, e o apoio público fugiu rapidamente do imperador. Quando Henrique IV convocou os bispos e os nobres do seu reino para os concílios de Worms e Mogúncia, o seu chamado foi quase geralmente ignorado. Pelo contrário, a aristocracia germânica, vendo na situação uma oportunidade para fortalecer o seu poder feudal contra o rei, reuniu-se em Tribur, em 16 de outubro de 1076, aprovou a excomunhão do imperador e declarou que, se ele não obtivesse a absolvição do papa até 22 de fevereiro de 1077, nomearia um sucessor ao seu trono. Combinou-se entre os nobres e legados papais em Tribur que uma dieta seria realizada em Augsburgo, em 2 de fevereiro de 1077, sob a presidência do papa, a fim de solucionar os assuntos da Igreja e do reino.

Henrique IV se retirou para Speyer derrotado e quase completamente abandonado. Acreditando que a projetada dieta confirmaria a sua deposição, enviou mensageiros a Roma, oferecendo-se para lá ir e pedir a absolvição. Gregório VII respondeu que como partiria logo para Augsburgo não poderia receber Henrique IV em Roma. A caminho do norte, o papa se hospedou em Mântua, na casa da sua amiga e partidária, a condessa Matilda, da Toscana. Ali soube que Henrique IV havia entrado na Itália. Temendo que o rei levantasse um exército entre a população antipapal da Lombardia, Gregório VII se refugiou no castelo fortificado de Matilda, em Canossa, no alto dos Apeninos, perto de Reggio Emília. Ali, em 25 de janeiro de 1077, no auge de um dos invernos mais rigorosos de que a Itália podia se lembrar, Henrique IV, diz um relato de Gregório VII aos príncipes alemães:

“Veio em pessoa a Canossa… trazendo consigo apenas uma pequena comitiva… Apresentou-se no portão do castelo, descalço e vestido apenas de roupas de lã, pobres, rogando-nos, com medo, a concessão da absolvição e do perdão. Continuou a fazê-lo durante três dias, enquanto que todos em torno de nós se apiedavam do seu estado, e intercediam por ele com lágrimas e preces… Por fim removemos a excomunhão e recebemo-lo novamente no seio da Santa Madre Igreja”.

O que a irracionalidade da fé credulária e o apego ao poder são capazes de fazer em detrimento do caráter, da honra e da postura digna de um ser humano!

Mas se Gregório VII hesitou tanto tempo, não foi por dureza de sentimentos, mas por estratégia, pois havia concordado em não fazer a paz com Henrique IV sem consultar os príncipes germânicos, e sabia que se Henrique IV fosse logo perdoado, poderia se rebelar novamente, com uma segunda excomunhão tendo efeito bem menor do que a primeira, e por isso receberia menos apoio da nobreza. De outro lado, o mundo “cristão” acharia difícil compreender por que o “vigário” de Jesus, o Cristo, na Terra recusava perdão a um penitente tão humilde. O evento constituiu um triunfo material para Gregório VII, mas uma “sutil” vitória diplomática para Henrique IV, que agora automaticamente reconquistava o trono, mesmo à mercê do seu caráter, da sua honra e da sua dignidade. Gregório VII, então, regressou para Roma.

Em 1077, todavia, os príncipes alemães proclamaram a Rodolfo de Suábia, rei da Alemanha, e a estratégia de Henrique IV pareceu ter fracassado. Mas agora, tendo-se libertado do anátema papal, encontrou uma nova simpatia em um povo que não se encontrava assim tão encantado pela nobreza. Um novo exército foi recrutado para a sua defesa, e durante dois anos os reis rivais assolaram a Alemanha com a guerra civil, ocasionada pelo falso cristianismo. Em março de 1080, após longa hesitação, Gregório VII deu o seu apoio a Rodolfo de Suábia, excomungou Henrique IV uma segunda vez, proibiu aos “cristãos” de servi-lo e ofereceu a absolvição dos pecados a todos que se alistassem sob a bandeira de Rodolfo de Suábia, utilizando-se assim do falso cristianismo para promover a guerra e a vitória do seu aliado, explorando ardilosa e matreiramente a fé credulária do povo.

Henrique IV agiu exatamente como antes. Convocou em Mogúncia um conselho de nobres e bispos que lhe eram favoráveis, o conclave depôs Gregório VII, e um conselho de bispos da Alemanha e do norte da Itália, reunido em Brixen, confirmou a deposição, declarou papa o arcebispo Guiberto de Ravena, que encarregou Henrique IV de executar os seus decretos. Em 15 de outubro de 1080, os exércitos rivais se encontraram nas margens do Saale, na Saxônia.  Henrique IV foi derrotado, mas Rodolfo de Suábia pereceu na luta. Enquanto os nobres rebeldes discutiam a questão de um sucessor para Rodolfo de Suábia, Henrique IV entrava na Itália, marchava sem encontrar resistência pela Lombardia e, recrutando outro exército pelo caminho, lançou o cerco a Roma. Gregório VII apelou para Roberto Guiscard pedindo ajuda, mas o normando estava longe. O papa apelou para Guilherme I, cuja conquista da Inglaterra sancionara e ajudara, mas o Conquistador não tinha certeza se ele desejava que Henrique IV perdesse aquela contenda real. O povo de Roma defendeu corajosamente o pontífice, mas Henrique IV conseguiu tomar uma grande parte da cidade, inclusive a igreja de São Pedro, e Gregório VII fugiu para o Castelo de Santo Ângelo. Em 24 de março de 1084, um sínodo reunido no palácio de Latrão, por ordem de Henrique IV, depôs e excomungou Gregório VII e consagrou Guiberto de Ravena como papa Clemente III, e uma semana depois Clemente III coroava Henrique IV imperador, que durante um ano foi o senhor de Roma.

Mas, em 1085, Roberto Guiscard, abandonando a sua campanha contra Bizâncio, acercou-se de Roma à frente de 36.000 homens. Henrique IV não tinha exército para resistir a tal força, e fugiu para a Alemanha. Roberto Guiscard entrou na capital, libertou Gregório VII, saqueou Roma, deixou a metade da cidade em ruínas e levou Gregório VII ao Monte Casino. A população de Roma estava tão furiosa contra os normandos que o papa, aliado deles, não podia permanecer ali com segurança. Clemente III retornou para Roma como papa aparente. Gregório VII se dirigiu para Salerno, reuniu outro sínodo, excomungou novamente Henrique IV, agora pela terceira vez, e então entrou em colapso físico e espiritual, dizendo: “Amei a justiça e odiei a iniquidade; por isso morro no exílio”. Tinha apenas 62 anos, mas o esforço nervoso de suas violentas controvérsias o havia esgotado. E a sua aparente derrota pelo homem que ele havia perdoado em Canossa não lhe deixou vontade nenhuma de viver. Ali, em Salerno, desencarnou, em 25 de maio de 1085. Inocêncio III, um século depois, realizaria grande parte do sonho de Gregório VII, um mundo unido sob a chefia do papado.

Hildebrando, ou Gregório VII, cingiu com os braços um espaço mais largo do que podia, mas elevara durante dez anos o papado a mais elevada altura e força por ele até então atingida. A sua inflexível luta contra o casamento clerical obteve êxito, preparando para os seus sucessores um clero cuja lealdade não dividida fortaleceu imensuravelmente a Igreja. A sua campanha contra a simonia e a investidura leiga conquistaria uma vitória tardia, mas no fim o seu ponto de vista prevaleceria, e os bispos da Igreja se tornariam os servidores voluntários dos papas a todas as paróquias da falsa cristandade. Por intermédio da sua iniciativa, as eleições dos papas estavam agora livres do domínio real. E dez anos depois da morte de Gregório VII, os reis e os nobres do mundo reconheciam Urbano II como o chefe da Europa nessa síntese de falsa cristandade, feudalismo e imperialismo que conhecemos pelo nome de Cruzadas.

O papa Gregório I libertou dois dos seus escravos com palavras admiráveis acerca da liberdade natural de todos os homens, mas continuou a empregar centenas de escravos nas propriedades papalinas, aprovando leis que proibiam aos escravos de se tornarem clérigos ou desposarem os “cristãos” livres. A Igreja condenou a venda de cativos “cristãos” aos muçulmanos, mas permitiu a escravização de muçulmanos e de europeus não convertidos ao falso cristianismo. Milhares de eslavos e sarracenos capturados eram distribuídos entre os mosteiros como escravos, e a escravidão nas terras da Igreja e das propriedades dos papas continuou até ao século XI. Era  assim que ia se desenvolvendo o falso cristianismo.

A lei canônica às vezes estimava a riqueza de terras da Igreja de preferência em escravos do que em dinheiro, pois tal como o direito secular, ela considerava o escravo um bem móvel, proibia que escravos da Igreja fizessem testamentos e decretou que qualquer economia que tivessem ao morrer deveria pertencer à Igreja. O arcebispo de Narbonne, no seu testamento de 1149, deixou os seus escravos sarracenos ao bispo de Béziers. A norma da Igreja de que as suas propriedades nunca deveriam ser alienadas, exceto no valor completo de mercado, era infeliz para os seus escravos e servos. A emancipação às vezes se mostrava mais difícil nas propriedades eclesiásticas do que nas seculares.

O declínio da escravidão não foi devido ao progresso moral da Igreja, que nunca a teve, pois sempre foi avessa à própria moral em si, já que a moral utilitária utilizada por ela até hoje é desabonadora da sua própria conduta, mas sim à transformação econômica. A produção sob a direta obrigação física se mostrou menos lucrativa ou conveniente do que a produção sob o estímulo do desejo de aquisição. A servidão continuou e o termo servus serviu tanto para o servo como para o escravo, mas, com o tempo, tornou-se a palavra servo. O servo típico cultivava um pedaço de terra de propriedade de um senhor ou barão, que lhe dava um arrendamento vitalício e proteção militar, enquanto pagasse um arrendamento anual em produtos, trabalho ou dinheiro.

Às vezes o senhor de um feudo era um bispo ou um abade. Embora muitos sacerdotes trabalhassem com as suas próprias mãos e muitos mosteiros e catedrais participassem dos dízimos da paróquia, o apoio adicional se tornava necessário para os grandes estabelecimentos eclesiásticos, e isso vinha em grande parte dos reis e nobres em doações de terras ou participações em rendas feudais. À medida que estes presentes se acumulavam, a Igreja se tornava o maior proprietário de terras na Europa, o maior dos suseranos feudais. O mosteiro de Fulda possuía 15.000 pequenas vilas, o de St. Gall 2.000 servos. Todos os sacerdotes, arcebispos, bispos e abades recebiam a investidura do rei, hipotecavam-lhe lealdade como outros feudatários, tinham títulos de duque e conde, cunhavam moeda, presidiam cortes episcopais ou abaciais e assumiam as tarefas feudais do serviço militar e da administração agrícola. Sacerdotes envergando armadura e lança se tornaram uma vista frequente na Alemanha e na França. Em 1257, Ricardo de Cornualha lamentava que a Inglaterra não tivesse tais “sacerdotes belicosos e animosos”. Assim embaraçada na teia feudal, a Igreja se tornou uma instituição política, econômica e militar, bem como credulária, as suas “temporalidades”, ou as suas possessões materiais, as suas “feudalidades” ou os direitos e obrigações feudais, tornaram-se um escândalo para os próprios “cristãos” que eram considerados como sendo mais rigorosos. Assim, o próprio feudalismo feudalizou a Igreja.

De onde vinha o dinheiro que financiava e expandia o comércio e a indústria? A maior fornecedora isolada era a Igreja. Era a maior potência financeira da falsa cristandade. Além disso, muitos indivíduos depositavam fundos particulares nas igrejas e monastérios, como medida de segurança. Da sua riqueza, a Igreja emprestava dinheiro a pessoas ou instituições que se achassem em dificuldade. Já em 1070, emprestava dinheiro aos nobres das vizinhanças, em troca da participação nos lucros produzidos pelas propriedades de tais senhores. Por meio desses empréstimos hipotecários, os mosteiros se tornaram as principais corporações bancárias da Idade das Trevas. A abadia de Santo André, na França, realizava tão produtivos negócios bancários que contratava agiotas judeus para dirigirem as suas operações financeiras.

Frederico, Senhor da Paz, ou Frederico I, que viveu no período de 1152 a 1190, tinha trinta anos de idade ao ser escolhido para rei. Era um homem pequeno e de pele delicada, cabelos muito loiros e uma barba ruiva que lhe conquistou, na Itália, o cognome de Barbarroxa. As suas leis penais fizeram a civilização progredir na Alemanha.

Ansioso por uma coroação papal, prometeu ao papa Eugênio III auxílio contra os romanos rebeldes e contra os impertinentes normandos, em troca do unguento imperial. Chegando a Nepi, próximo de Roma, o jovem e “altivo” rei encontrou o novo pontífice, Adriano IV, mas não cumpriu o rito habitual pelo qual o governante secular segurava as rédeas e o estribo da montaria papal, ajudando o pontífice a desmontar. Assim Adriano IV chegou ao chão sem auxílio algum, por isso recusando o “ósculo de paz” a Frederico I, bem como a coroa imperial, até que o rito tradicional fosse executado. Quanta vaidade, empáfia e soberbia tinha esse papa! Sem dúvida alguma, ele era merecedor de umas boas pancadas no traseiro, para assim aprender um pouco de humildade. Em decorrência, durante dois dias os membros da comitiva do papa e do rei discutiram a questão, ficando o império dependendo do ridículo protocolo. Frederico I cedeu. E vejam só, o papa então se retirou e fez uma segunda entrada a cavalo, tendo Frederico segurado as rédeas e o estribo da montaria papal, referindo-se a seguir ao Santo Império Romano, na esperança de que o mundo considerasse o imperador, bem como o papa, o vice-administrador do deus bíblico.

Thomas Becket nasceu em Londres, por volta de 1118, de pais normandos da classe média. O brilho precoce do seu espírito chamou a atenção de Teobaldo, arcebispo de Cantuária, que o enviou a Bolonha e a Auxerre, para estudar direito civil e canônico. Retornando para a Inglaterra, ele tomou o hábito, elevando-se logo ao posto de arcediago de Cantuária. Mas, como muitos credulários daquela época, ele era mais um homem de negócios do que propriamente um sacerdote, já que o seu interesse e a sua habilidade estavam na administração e na diplomacia, e demonstrou tal capacidade nesses setores que, com trinta e sete anos de idade, fizeram-no secretário de Estado. Durante algum tempo, ele e Henrique se deram bem. A sua mesa era a mais suntuosa da Inglaterra, sendo que a sua caridade para com os pobres era igualada pela sua hospitalidade para com os amigos. Em tempos de guerra, comandava pessoalmente 700 cavaleiros, lutava em combates simples e planejava campanhas. Quando foi enviado em missão a Paris, a sua luxuosa comitiva, composta de oito carros e 200 servidores, impressionou aos franceses, que ficavam a imaginar quão rico deveria ser o rei de tão opulento ministro. Tudo isso, em total conformidade com os “ensinamentos” de Jesus, o Cristo.

Em 1162, foi nomeado arcebispo de Cantuária. Como por meio de um mágico encantamento, mudou então, abrupta e completamente, de maneiras. Renunciou ao seu majestoso palácio, às suas vestes reais e aos seus amigos da nobreza. Apresentou a sua renúncia como chanceler. Passou a usar roupa grosseira e um tecido de crina sobre a pele, a viver de vegetais, cereais, água, e todas as noites lavava os pés de vinte mendigos. Tornou-se inflexível defensor de todos os direitos, privilégios e temporalidades da Igreja. Entre esses direitos, estava a isenção dos sacerdotes quanto a julgamentos por cortes civis. Mas tudo isso por vontade própria? Não. Sob a influência direta dos espíritos obsessores. Henrique, que aspirava a estender o seu domínio sobre todas as classes, encolerizou-se ao ver que crimes cometidos pelos sacerdotes não eram, frequentemente, punidos pelos tribunais eclesiásticos, dado o corporativismo que havia entre eles.

Em 30 de dezembro de 1170, quatro cavaleiros que ouviram desabafos de Henrique contra Thomas Becket, encontraram o arcebispo no altar da catedral de Cantuária, abatendo-o com as suas espadas. O povo o canonizava, proclamando que muitos milagres se haviam realizado em seu túmulo. A Igreja, oficialmente, declarou-o santo em 1172, sendo que, logo, milhares de pessoas começaram a fazer peregrinações ao lugar do seu sepultamento. Finalmente, também Henrique foi a Cantuária como peregrino e penitente.

Grande merecimento da lei inglesa é o fato de não adotar meios de tortura no exame de suspeitos ou de testemunhas. Quando Eduardo II, da Inglaterra, foi então induzido por Filipe IV, da França, a aprisionar os templários ingleses, não pôde ou não quis encontrar prova alguma que pudesse condená-los. Diante do que o papa Clemente V, sem dúvida forçado por Filipe IV, escreveu a Eduardo II:

“Sabemos que proibis a tortura, como sendo contrária às leis do vosso país. Mas lei alguma estatal pode se sobrepor à lei canônica, a nossa lei. Ordeno-vos, portanto, que, imediatamente, submetais esses homens à tortura”.

Eis aqui um dos gerentes do deus bíblico, que se diz ministro de Jesus, o Cristo, na Terra,  impondo a tortura aos infiéis a Eduardo II, que cedeu, mas a tortura não foi de novo usada no processo judicial inglês senão durante o reinado de Maria, a Sanguinária, no período de 1553 a 1558. Mas, mesmo assim, descaradamente, a Igreja alardeia o ensinamento de Jesus, Cristo, de amar ao próximo como a si mesmo. São ou não são anticristãos essa Igreja Católica, as suas seitas e todos os seus credulários?

Filipe Augusto II, da França, amavelmente inflexível e implacavelmente sensato, era o rei de que o seu país necessitava, em uma época em que entre a Inglaterra de Henrique II e a Alemanha de Frederico I, o Barbarroxa, a França poderia ter deixado de existir, caso essa nação não estivesse inserida no plano de espiritualização da nossa humanidade, para que no futuro pudesse desempenhar o seu papel no mundo como uma nação antecristã.

Os seus casamentos perturbaram a Europa. A sua primeira esposa, Isabela, morreu em 1189. Quatro anos após, contraiu matrimônio com Ingeborg, uma princesa da Dinamarca. Políticos como eram, tais casamentos proporcionavam mais propriedades do que romance. Ingeborg não era do gosto de Filipe Augusto II, que a abandonou depois de apenas um dia de casados, sendo que, decorrido um ano, persuadiu um conselho de bispos franceses a que lhe concedesse o divórcio. O papa Celestino III se recusou a confirmar o decreto. Em 1196, desafiando a Celestino III, Filipe Augusto II casou com Inês de Meran. O papa o excomungou, mas Filipe Augusto II continuou na sua obstinação, dizendo em um momento de ternura que “Preferiria perder a metade de meus domínios, a me separar de Inês”. Inocêncio III lhe ordenou que recebesse de novo Ingeborg e, tendo ele se recusado a recebê-la, o papa interditou os serviços credulários nos domínios de Filipe Augusto II. Este, enraivecido, depôs todos os bispos que obedeceram à interdição. “Feliz Saladino”, queixava-se ele, “que não tem papa algum acima dele!”. E ameaçou se tornar maometano. Após quatro anos de tal guerra espiritual, provocada pelo astral inferior, o povo logo começou a resmungar revoltado, com medo do inferno, por isso era o povo anticristão. Em 1202, Filipe Augusto II, então, despediu a sua bem-amada Inês.

Em 1215, o último triunfo de Inocêncio III foi quando, na qualidade de legislador e papa, presidiu ao Quarto Concílio Lateranense, realizado na igreja de São João Latrão, em Roma. Àquele décimo segundo concílio ecumênico, compareceram 1.500 abades, bispos, arcebispos e outros sacerdotes, bem como plenipotenciários de todas as importantes nações de uma falsa cristandade agora unida. O papa começou a sua oração com uma estranha e ousada confissão e desafio:

“A corrupção do povo tem a sua principal fonte nos próprios sacerdotes. Destes é que surgem os males que afetam a cristandade. A fé está desaparecendo, a religião se desfigurando… espezinham a justiça, multiplicam-se os hereges, os cismáticos estão sendo encorajados, os infiéis se vão tornando mais fortes e os sarracenos se cobrem de triunfos”.

A força e toda a inteligência da Igreja, ali reunidas, deixaram-se dominar completamente por um só homem. As suas decisões se transformaram em decretos do Concílio.

Tanto o Estado como a Igreja aceitavam a validez do casamento pela simples consumação de uma união seguida de uma troca de compromisso verbal entre os participantes, sem outra cerimônia, quer legal, quer credulária. Negou, porém, depois do século XII, a validez dos casamentos que se efetuassem sem a sanção eclesiástica e, depois do concílio de Trento, em 1563, exigiu a presença de um sacerdote na cerimônia. As leis seculares acolheram bem aos regulamentos eclesiásticos para o casamento. A Igreja fez do casamento um sacramento, tornando-o um contrato sagrado entre o homem, a mulher e o deus bíblico. Gradativamente foi ela estendendo a sua jurisdição sobre todas as fases desse contrato, desde as obrigações no leito nupcial até à última vontade e ao testamento do esposo ou da esposa. As suas leis canônicas elaboraram uma longa lista de “motivos que impediam a realização de um matrimônio”. A parte interessada devia se achar livre de qualquer laço matrimonial anterior e de qualquer voto de castidade. Era proibido o casamento com pessoa que não fosse batizada.

Contudo, havia muitos casamentos entre “cristãos” e judeus. Reconhecia-se a validez dos que eram efetuados entre escravos, entre estes últimos e as pessoas livres, entre “cristãos” ortodoxos e hereges, mesmo entre os fiéis e excomungados, à revelia da Igreja. As partes interessadas não podiam ter graus de parentesco até à quarta geração. Neste caso, a Igreja rejeitou a lei romana e aceitou a exogamia dos tempos primitivos, quando se temia a degenerescência da raça pelas uniões entre parentes. Mas era difícil evitar tais uniões nas aldeias. A Igreja tinha de fechar os olhos, como o fazia a muitas outras brechas existentes entre a lei e a “realidade” humana.

As virtudes intelectuais declinaram sem dúvida na Idade das Trevas. A consciência intelectual e a procura da verdade criptoscopial foram substituídas pelo zelo e pela admiração à santidade e, às vezes, por uma credulidade não muito verdadeira. O falso cristianismo lutou contra a inundação do barbarismo, esforçou-se por diminuir os julgamentos por combate e provações, colaborou na supressão dos torneios de gladiadores, proibiu a escravização dos “cristãos”, abrandou as penas impostas pelas leis dos romanos e dos bárbaros e acalmou o espírito dos homens quanto aos mistérios da vida e aos enigmas da natureza, embora desencorajasse com isso os avanços da Veritologia e da Saperologia, com as suas religiões e ciências, respectivamente.

Em 1246, Mateus Paris contou como o papa Inocêncio IV se surpreendeu com as vestes bordadas a ouro dos prelados ingleses que estavam de visita à cidade de Roma, ordenando que se fizesse o mesmo para os seus mantos e casulas papais. O peso das joias, fios de ouro e das pequenas placas de esmalte de algumas vestes sacerdotais era tão grande que o prelado mal podia andar. Quanta vaidade papal! É de se indagar: é esse aí o vigário de Jesus, o Cristo, na Terra? Um milionário americano pagou 60.000 dólares por uma veste sacerdotal conhecida pelo nome de Capa de Ascoli, mas sabendo que a capa tinha sido furtada, ele a devolveu ao governo italiano, contentando-se em receber uma medalha em paga da sua honestidade.

Nos séculos XII e XIII, as sucessivas traduções que se fizeram do árabe e do grego levaram para o Ocidente a revelação e o desafio das saperologias grega e árabe, as quais eram tão diferentes da doutrina “cristã”, que ameaçavam destruir toda a teologia do reino “cristão”, a não ser que este último formasse uma saperologia em oposição a elas. Mas tais influências mal teriam produzido uma saperologia “cristã” se o Ocidente tivesse continuado em uma situação de pobreza. O que deu vida a esses fatores foi o advento da riqueza com o cultivo das terras no Continente, a expansão do comércio e da indústria, e os trabalhos de ordem financeira. Esse ressurgimento econômico influiu na libertação das comunas, criação das universidades, renascimento da literatura latina e leis romanas, codificação de leis canônicas, glória da arte gótica, florescimento do romance e a alegre “ciência” dos trovadores; despertou também a ciência e ressuscitou a Saperologia para constituir a “Renascença” do século XII.

Com a invasão da Palestina e expulsos de quase todas as partes da Espanha, os muçulmanos transmitiram a sua ciência e a sua saperologia à Europa Ocidental, o que constituiu uma força desintegradora. Foram Avicena e Averróis, bem como Aristóteles, que infeccionaram beneficamente a falsa cristandade com os ingredientes salutares do racionalismo.

Com a mudança do papado para Avinhão, de 1309 até 1377, não ficaram meios econômicos para sustentar até mesmo aquele esplendor moderado que Roma conhecera no século XIII. A riqueza que chovia constantemente de centenas e centenas de bispados de uma dezena de Estados não mais fluía para a cidade. Nenhuma embaixada estrangeira mantinha ali palácios, e raro era o cardeal que aparecia entre as ruínas do império e da Igreja. Roma era agora a lastimável capital do mundo.

Em 1309, o papa Clemente V transferiu a corte pontifícia de Roma para Avinhão. Ele era francês, antigo bispo de Bordéus. Devia a sua elevação a Filipe IV, da França, que assombrou toda a falsa cristandade não somente derrotando o papa Bonifácio VIII, como também o prendendo, humilhando-o e quase o fazendo morrer à míngua. A vida de Clemente V estaria insegura em uma Roma que se reservava ao direito de maltratar um papa e se ressentia da insolente irreverência do rei. Mais ainda: os cardeais franceses tinham formado depois uma grande maioria no Sagrado Colégio e não queriam ser dominados pela Itália. Por isso, Clemente V permaneceu algum tempo em Leon e em Poitiers, depois, esperando ficar menos sujeito a Filipe IV, em um território que o rei de Nápoles possuía como sendo o conde de Provença, foi residir em Avinhão, do outro lado do Ródano da França, do século XIV. Pergunta-se: a prioridade do papa era espiritual ou terrena?

O imenso esforço do papado, desde Gregório VII, período de 1073 a 1085, até Bonifácio VIII, período de 1294 a 1303, no sentido de formar um caótico Estado Mundial, começando pela Europa, subordinando os reis aos papas, havia logicamente fracassado, com o nacionalismo tendo triunfado sobre o federalismo teocrático.

Essa tentativa de formar um Estado Mundial por parte do papado, não era proveniente do próprio papado em si, mas sim de Jeová, o deus bíblico, que sempre teve os papas como sendo os seus instrumentos encarnados. Essa tentativa de Jeová por estabelecer um único credo por toda a humanidade, com os seres humanos o adorando e o cultuando como se fosse um deus, era a sua pretensão para formar um ambiente fluídico extremamente trevoso que viesse a proporcionar o meio pelo qual ele poderia destruir a vida na Terra, através do fogo. E aqui sendo comprovado o imenso perigo da Igreja Católica para a nossa humanidade, assim como também o perigo de todos os credos e as suas seitas.

A formação de um Estado Mundial para a nossa humanidade teria que aguardar, obrigatoriamente, pelo Racionalismo Cristão, já que essa formação teria que ser arquitetada posteriormente com o advento da Era da Razão, consoante os ideais fixados pelo Antecristo, com todos os seres humanos estando devidamente esclarecidos acerca da vida fora da ilusão da matéria e do devaneio do sobrenatural, portanto, espiritualizados, quando então os segredos da vida e os enigmas do Universo seriam todos desvendados.

O período de 1305 a 1378 foi um papado continuamente de pontífices franceses, quase prisioneiros dos reis da França, que lhes emprestavam grandes somas de dinheiro para fazerem as suas guerras. Para a Alemanha, a Boêmia, a Itália e a Inglaterra parecia que o papado era uma potência hostil, já que era utilizado como sendo uma arma psicológica da monarquia francesa. Assim, esses países foram desprezando cada vez mais as suas excomunhões e interditos, e somente com uma crescente relutância é que lhe prestavam uma reverência que também já ia declinando.

Sob o reinado de Clemente VI, Avinhão se tornou a capital não somente do credo católico como também da política, cultura, prazeres e corrupção do mundo latino. Foi então que a máquina administrativa da Igreja tomou a sua forma definitiva, criando-se o seguinte:

  • A Câmara Apostólica: encarregada das finanças e dirigida pelo camareiro do papa que, depois do papa, era a figura mais eminente da corte;
  • a Chancelaria Papal: cujas sete agências, dirigidas por um cardeal vice-chanceler, lidavam com a complexa correspondência da Santa Sé;
  • o Judiciário Papal: composto de prelados e leigos versados em direito canônico, incluindo o Consistório, o papa e os cardeais atuando como a corte de apelação;
  • a Penitenciária Apostólica: o colégio do clero que tratava das dispensas matrimoniais, excomunhões e interditos e ainda ouvia as confissões das pessoas que procuravam a absolvição do papa.

A fim de abrigar ao papa e aos seus auxiliares, aos ministérios e agências e aos seus funcionários e serviçais, Benedito XII começou e Urbano V terminou o imenso Palácio dos Papas, um conglomerado de edifícios góticos, câmaras, salas de concílio, capelas e escritórios encerrando dois pátios e estes mesmos cercados de poderosas fortificações, cuja altura e largura e torres maciças sugerem que os papas, caso fossem atacados, não confiariam em milagre algum para defendê-los. Em volta desse palácio, em palácios menores, mansões, cabanas, etc., reuniam-se uma grande população de prelados, emissários, juristas, mercadores, artistas, poetas, servos, soldados, mendigos e prostitutas de toda espécie.

Podemos supor a quantidade de dinheiro que era necessário para manter esse complexo estabelecimento administrativo e tudo que o cercava, em decorrência as várias fontes de renda estavam quase esgotadas. A Itália, abandonada pelos pontífices, quase não enviava coisa alguma. A Alemanha, às voltas com João XXII, enviava metade dos tributos usuais. A França, mantendo a Igreja quase à sua mercê, apropriou-se, para fins seculares, de uma grande parte da renda eclesiástica dos franceses e tomou grandes quantias emprestadas do papado para financiar a Guerra dos Cem Anos. A Inglaterra restringiu fortemente a remessa de dinheiro a uma Igreja que era, na realidade, uma aliada da França. A fim de enfrentarem tal situação, os papas de Avinhão foram obrigados a criar toda a sorte de meios para conseguir renda, já que a riqueza e o poder eram os seus principais objetivos neste mundo, além do arrebanhamento de prosélitos, que é um dos grandes objetivos da Igreja.

Assim, cada bispo ou abade, fosse ele nomeado ou não pelo papa, ou então pelo príncipe secular, transmitia à cúria, como taxa inaugural, uma terça parte da renda que esperava obter durante um ano e pagava ainda somas de certo porte a numerosos intermediários que tinham apoiado a sua nomeação. Se fosse depois nomeado arcebispo, teria que pagar uma taxa substancial para o pálio arquiepiscopal, uma faixa circular de lã branca que se colocava sobre a casula como insígnia do seu cargo. Ao ser eleito um novo pontífice, todos os eclesiásticos que ocupavam cargos ou usufruíam benefícios tinham que lhe enviar toda a renda de um ano, que eram as anatas, e depois disso a décima parte da sua renda a cada ano que se fosse seguindo. Esperava-se de tempos em tempos que também se fizesse uma contribuição voluntária adicional. Ao morrer qualquer sacerdote, fosse ele cardeal, arcebispo, bispo ou abade, reverteriam para o papado todos os seus bens e títulos particulares. No período que decorria da morte e da instalação de um novo elemento para o cargo, os papas recebiam a renda do benefício e pagavam as despesas. Mas eles eram quase sempre acusados de dilatarem deliberadamente tal intervalo. Cada elemento eclesiástico que fosse nomeado ficava responsável pelas taxas dos seus predecessores que não tinham sido ainda pagas.

Como os bispos e abades, em muitos casos, eram proprietários de feudos recebidos do rei, eles tinham que lhe pagar tributos e lhe fornecer soldados, de modo que muitos encontravam grandes dificuldades em fazer face àquelas obrigações combinadas de eclesiásticos e seculares, e, como as exigências do papa eram mais severas do que as do Estado, vamos encontrar a hierarquia apoiando algumas vezes o rei na luta contra os papas. Os casos julgados no judiciário papal geralmente exigiam o auxílio dispendioso de advogados, os quais tinham que pagar uma taxa anual a fim de terem licença para tratar do processo nas cortes papais. Para cada sentença ou favor recebidos da cúria, esperava-se que se desse um presente em reconhecimento desse trabalho, até mesmo a permissão para se ordenar tinha que ser comprada. Os governos seculares da Europa encaravam com horror e encolerizados a máquina fiscal dos papas.

Surgiam protestos de toda a parte contra tal estado de coisas, e não menos vigorosamente dos próprios homens da Igreja. O prelado espanhol Álvaro Pelayo, conquanto completamente leal ao papa, escreveu A Lamentação da Igreja, na qual se queixou da seguinte maneira:

“Toda a vez que entrava nas câmaras dos eclesiásticos da corte papal, encontrava corretores e sacerdotes ocupados em pesar e calcular o dinheiro que jazia aos montes diante deles… Os lobos estão dominando a Igreja e se alimentam do sangue do rebanho cristão”.

Na Alemanha, coletores do papa eram perseguidos, aprisionados, mutilados e, em alguns casos, estrangulados. Em 1372, os sacerdotes de Colônia, Bonn, Xanten e Mogúncia se obrigaram por juramento a não pagar o dízimo exigido por Gregório XI. Avinhão seguia a mesma moral e maneiras das cortes reais. A venalidade ali era mais que notória. Guillaume Durand, bispo de Mende, relatou ao Concílio de Viena, o seguinte:

“Toda a Igreja poderia se reformar se a Igreja de Roma começasse por eliminar os maus exemplos de si mesma… pelos quais os homens ficam escandalizados e todo o povo como que infeccionado… Pois em todos os países… a santa Igreja de Deus e especialmente a santíssima Igreja de Roma tem má reputação; e todos clamam e divulgam no estrangeiro que em seu seio todos os homens, desde os mais altos até aos mais baixos, preocupam-se mais com a cobiça… Que todo o rebanho cristão segue os perniciosos exemplos de gula é claro e notório, uma vez que os referidos sacerdotes se banqueteiam mais luxuosa e esplendidamente, e com mais pratos, do que todos os príncipes e reis”.

E Petrarca, o mestre da palavra, esgotou o seu vocabulário de censura para estigmatizar Avinhão, como a seguir:

“A ímpia Babilônia, o inferno na terra, a cloaca do vício, o esgoto do mundo. Não há lá caridade, nem fé, nem religião, nem temor a Deus… Toda a sordidez e malvadez do mundo andam par a par em Avinhão… Os velhos se lançam nos braços de Vênus; esquecendo a idade, a dignidade e a autoridade, praticam toda a sorte de ignomínias, como se toda a glória deles consistisse não em honrar a Cristo, mas sim em se banquetear e se entregar à embriaguez e incontinência… A fornicação, o incesto, o estupro e o adultério constituem os deleites lascivos dos divertimentos sacerdotais”.

Está bom assim para os católicos e os adoradores e cultuadores de Jeová, o deus bíblico, o qual não passa de um espírito tremendamente obsessor, que se dizem e se consideram cristãos, mas que são verdadeiramente anticristãos, ou ainda querem mais? No caso de ainda quererem mais, então vamos em frente, até que tudo seja posto em pratos limpos.

Em 7 de novembro de 1377, Gregório XI voltou para Roma. Sentiu se aproximar a morte e receou que o conflito entre a França e a Itália pela posse do papado viesse a destruir a Igreja. Em 19 de março de 1378, tomou todas as disposições para a rápida eleição do seu sucessor. Oito dias depois desencarnava.

A grande maioria dos “cristãos”, em sua supina ignorância, acreditava que a Igreja havia sido instituída pelo filho do deus bíblico, no caso Jesus, o Cristo, e que havia sido este quem havia traçado a sua doutrina básica. Assim, quaisquer que fossem as faltas dos seus servidores humanos, qualquer movimento ativo para derrubá-la era considerado rebelião contra a autoridade divina, assim como traição contra o Estado secular, do qual a Igreja era o braço de suporte da falsa moral, ou da moral utilitária. Somente com esse pensamento no espírito é que podemos compreender a ferocidade com que a Igreja e os leigos “cristãos” se uniram para suprimir a heresia pregada por Dolcino de Novara e a sua graciosa e belíssima irmã Margherita.

Dolcino de Novara dividiu a história em períodos, dos quais o terceiro, partindo do papa Silvestre I, período de 314 a 335, até ao ano 1280, presenciou a gradativa corrupção da Igreja pela riqueza e pelo poder mundanos. Desde Silvestre I, disse Dolcino de Novara, todos os papas, com a exceção de Celestino V, tinham sido infiéis a Jesus, o Cristo, o que comprova plenamente a existência do falso cristianismo. Depois, sob o pontificado de Bonifácio VIII e de Clemente V, ela se transformara em uma das figuras vis do Apocalipse. Dolcino de Novara se fez chefe de uma nova irmandade, a dos Irmãos Apostólicos de Parma, que rejeitou a autoridade dos papas e herdou uma variedade de doutrinas dos patarinos, valdenses e franciscanos espirituais. Clemente V ordenou à Inquisição que os inquirisse, eles se recusaram a comparecer perante o tribunal, armaram-se e tomaram posição nas encostas dos Alpes piemonteses.

Os inquisidores dirigiram um exército contra eles, travaram-se sangrentas batalhas, a irmandade se retirou para os desfiladeiros, onde foi bloqueada e passou fome, tendo que comer ratos, cães, lebres e capim. Por fim, em 1304, a fortaleza foi tomada, mil deles tombaram combatendo e outros milhares morreram queimados na fogueira. Margherita, ao ser conduzida à fogueira, achava-se ainda tão bela, não obstante a sua palidez, que homens de alta posição lhe ofereceram casamento se ela abjurasse as suas heresias, ela se recusou a fazê-lo e foi então queimada. A Dolcino de Novara e a um seu companheiro chamado de Longino, foi reservado um tratamento especial. Conduziram-nos em uma carroça pelas ruas de Vercelli, ocasião em que lhes espicaçaram os corpos com tenazes incandescentes, arrancaram-lhes os membros e os órgãos genitais e finalmente os deixaram morrer.

Esse é o cristianismo a que uma imensa quantidade de seres humanos vêm seguindo há séculos, sem que consigam dar trato ao raciocínio para compreender que tudo isso é uma verdadeira burla, sendo, pois, um falso cristianismo, e que todos eles são anticristãos, pois que pregam o amor e praticam o ódio, a mentira, o desentendimento, a intriga, a guerra, a inveja, a inimizade, o egoísmo, a vaidade, a soberbia, e tudo o mais que seja correlato.

Como se pode facilmente constatar, o falso cristianismo praticado com a bandeira da Igreja Católica é ainda mais sanguinário do que todas as sanguinolências registradas pela História. E agora, quem pode ser realmente capaz de duvidar da existência do falso cristianismo? Quem dos seres humanos pode ser capaz de ignorar que, ao contrário de toda essa sanguinolência feroz e estúpida, Jesus, o Cristo, pregava a paz, o amor e a simplicidade entre os seres humanos? Então ele jamais poderia ter sido o precursor desse falso cristianismo, e, também, jamais aprovaria o trono papal como o seu representante na Terra.

S. Catarina de Sienase se horrorizou com o que viu na Itália e na França. Roma, imunda e desolada. A Itália, desertando da Igreja que fugira para a França. Os sacerdotes, cujas vidas mundanas, fizeram com que se perdesse o respeito dos leigos. E uma França já meio arruinada com a guerra. Confiante em sua missão divina, ela recriminou os cardeais e pontífices frente a frente, dizendo-lhes que somente poderiam salvar a Igreja se voltassem para Roma e passassem a levar uma vida decente. Ela mesma, uma mulher de vinte e seis anos, impossibilitada de escrever, ditava cartas severas em seu italiano simples e melodioso aos papas, príncipes e estadistas, e em quase todas as suas páginas aparecia a palavra profética da Reforma.

Marsílio devotou quase toda a sua vida à tradução das obras de Platão para o latim e ao estudo, ensino e debates acerca do platonismo. O falso cristianismo lhe parecia, naquela disposição, como apenas um dos muitos credos que ocultavam os elementos da verdade sob dogmas alegóricos e ritos simbólicos. Sócrates e Platão, explicou ele, tinham também recebido a revelação divina. Assim, na verdade, receberam-na todos os homens que se guiaram pela razão. Seguindo-lhe os passos, Lourenço e a maioria dos humanistas procuraram não substituir o falso cristianismo por outro credo, mas sim interpretá-lo novamente em termos que um saperólogo pudesse aceitar. De 1447 a 1534, durante uma ou mais gerações, a Igreja tolerou afavelmente o empreendimento, mas um dos mais fanáticos sacerdotes, chamado de Savonarola, denunciou-o como sendo um embuste.

As laboriosas conquistas da diplomacia ou das armas, escoadouros, guardiães e tributários do comércio veneziano, enfrentaram, por sua vez, a maré montante dos otomanos. Em 1416, em Galipoli, uma guarnição turca atacou uma frota veneziana. Os venezianos combateram com a sua costumeira coragem e conquistaram uma vitória decisiva. As potências rivais viveram, durante uma geração, em tréguas e mantendo uma amizade comercial que surpreendia a Europa, pois esta ansiava por que Veneza fizesse a batalha da Europa contra os turcos. Nem mesmo a queda de Constantinopla rompeu tal acordo, pois Veneza arranjou um tratado comercial tolerável com os turcos vitoriosos e trocou cortesias com o vencedor. Mas depois o acesso aos mercados lucrativos dos portos do mar Vermelho ficou dependente da permissão dos turcos, os quais logo impuseram limitações irritantes. Quando Pio II, interpretando os sentimentos dos “cristãos” e os interesses comerciais da Europa, proclamou uma Cruzada contra os turcos e recebeu garantias de armas e homens das potências europeias, Veneza atendeu ao brado, esperando repetir a estratégia de 1204. As potências, porém, não cumpriram o prometido, vendo-se Veneza a sós na guerra contra os turcos, em 1463. Lutou durante dezesseis anos, foi derrotada e despojada. Em 1479, pelo tratado de paz que assinou, cedeu Negroponto, Scutari e Moreia aos turcos, pagou 100.000 ducados como indenização de guerra e garantiu o pagamento de 10.000 ducados por ano pelo privilégio de comerciar nos portos turcos. A Europa a denunciou como tendo traído a falsa cristandade. Ao propor outro papa uma nova Cruzada, Veneza fez ouvidos de mercador, concordando com a Europa que o comércio era muito mais importante do que o cristianismo, quer dizer, desse falso cristianismo que em momento algum de toda a sua história seguiu aos ensinamentos de Jesus, o Cristo.

Bolonha se situava no principal cruzamento das rotas de comércio da Itália. Visando encher os seus cofres, os papas reivindicavam Bolonha como sendo um dos Estados pontifícios. Em 1360, o cardeal Albornoz, por algum tempo, havia insistido nessa reivindicação. Todavia, o cisma da Igreja entre papas rivais, no período de 1378 a 1417, reduziu o domínio papal a um mero ponto técnico. Uma família rica, a dos Bentivogli, passou a dominar politicamente, mantendo durante todo o século XV uma ditadura moderada, a qual observava as formas republicanas e reconhecia, porém, sem lhe dar qualquer atenção, a supremacia dos papas. Giovanni Bentivogli, como chefe do senado, governou Bolonha durante trinta e sete anos, de 1469 a 1506. Em 1506, o papa Júlio II avançou sobre Bolonha com um exército e exigiu a sua abdicação. Ele cedeu pacificamente. Permitiram-lhe que deixasse a cidade. Desencarnou em Milão dois anos depois. Júlio II concordou em que Bolonha, dali por diante, fosse governada pelo senado, porém, sujeita ao veto de um legado papal toda a legislação contrária à Igreja. Assim, Bolonha permaneceu um Estado papal, tanto de fato como no nome, até o advento de Napoleão Bonaparte, em 1796.

Gregório XI levara novamente o papado para Roma. Mas permaneceria, porém, ali? O conclave que se reuniu para nomear o seu sucessor era composto de dezesseis cardeais, dos quais somente quatro eram italianos. As autoridades municipais lhes entregaram uma petição, solicitando que elegessem um romano, ou, pelo menos, um italiano. Com o propósito de apoiar o pedido, uma multidão de romanos “cristãos” se reuniu nas imediações do Vaticano, ameaçando matar a todos os cardeais não italianos, caso o papa eleito não fosse romano. Não se sabe aqui quem são mais violentos e sanguinários, se os sacerdotes católicos, liderados pelo papa, ou se os fanáticos credulários que se consideram cristãos, ignorando completamente que são todos anticristãos. Em 1378, os cardeais do conclave, então, bastante atemorizados, elegeram às pressas, por quinze votos contra um, Bartolommeo Prignano, o arcebispo de Bari, que recebeu o nome de Urbano VI. Em seguida, fugiram, temendo por suas vidas. Roma, porém, aceitou a conciliação. Urbano VI anunciou a intenção de nomear um número suficiente de cardeais italianos a fim de dar à Itália a maioria no Colégio.

Os cardeais franceses se reuniram em Anagni e planejaram uma revolta. Em 9 de agosto de 1378, expediram um manifesto declarando invalidada a eleição de Urbano VI por ter sido feita sob a pressão da população de Roma. Todos os cardeais italianos se associaram a eles, e, em 20 de setembro, em Fondi, o Colégio inteiro proclamou Roberto de Genebra o verdadeiro papa. Roberto de Genebra, sob o nome de Clemente VII, passou a residir em Avinhão. Urbano VI continuou a sustentar o seu cargo. O cisma papal assim inaugurado foi mais um resultado do Estado nacional que surgia. Com efeito, foi uma tentativa da França para reter o auxílio vital do papado na guerra contra a Inglaterra e em qualquer outra futura contenda contra a Alemanha ou mesmo contra a Itália. A orientação da França foi seguida por Nápoles, Espanha e Escócia, mas a Inglaterra, Flandres, Alemanha, Polônia, Boêmia, Hungria e Portugal aceitaram Urbano VI, e a Igreja se tornou o joguete político dos campos rivais. A confusão atingiu um ponto tal que provocou a crítica escarnecedora do Islã, que já começava a se expandir. Metade do mundo “cristão” tachou a outra metade de herege, blasfemadora e excomungada.

S. Catarina, que foi um espírito de luz altamente evoluído, daí o fato de Joana D’Arc haver sido sua devota, denunciou Clemente VII como Judas, mas S. Vicente Ferrer aplicou o mesmo termo a Urbano VI. Cada facção sustentava que eram inválidos os sacramentos ministrados pelos sacerdotes do lado contrário, e que as crianças assim batizadas, os penitentes ouvidos em confissão e os moribundos então ungidos permaneceriam em estado de pecado mortal, seriam condenados ao inferno ou ao limbo, se a morte os colhesse. O ódio mútuo formado se igualou ao das mais acirradas guerras. Os novos cardeais planejaram aprisionar Urbano VI como elemento perigoso e incompetente, então, em represália, ele mandou prender, torturar e condenar à morte sete deles, em 1385. Como se pode denominar a toda essa patifaria de cristianismo?

Serem os papas ministros de Jesus, o Cristo, é uma aberração das maiores, mas serem ministros de Jeová, o deus bíblico, é uma realidade, por serem instrumentos do astral inferior. Eis, portanto, senhores católicos, seguidores do papismo, que se consideram cristãos, mas que são anticristãos, uma das tramas da sua Igreja!

Em 1389, a própria desencarnação de Urbano VI não resolveu a situação, pois os catorze cardeais que sobreviveram na sua esfera elegeram Piero Tomacelli, que como papa adotou o nome de papa Bonifácio IX, e as nações divididas prolongaram a cisão no papado. Em 1394, ao desencarnar Clemente VII, os cardeais de Avinhão nomearam Pedro de Luna para ser o pontífice Benedito XIII.

Em 1404, com a desencarnação de Bonifácio IX e a eleição de Inocêncio VII, rompeu uma nova revolta, tendo Inocêncio VII fugido para Viterbo. Em 1405, a população de Roma, chefiada por Giovanni Colonna, saqueou o Vaticano, enlameou os emblemas do papa e espalhou os registros papais e as bulas históricas pelas ruas da cidade. O povo achou depois que Roma, sem os papas, ficaria arruinada, fez as pazes com Inocêncio VII, o qual voltou em triunfo. Ele, porém, desencarnou poucos dias depois, em 1406.

O sucessor de Inocêncio VII, Gregório XII, convidou o outro papa, Benedito XIII, para uma conferência. Este último propôs resignar se ele fizesse o mesmo. Os parentes de Gregório XII o dissuadiram de concordar com tal proposta. Alguns dos seus cardeais se retiraram para Pisa e convocaram um concílio geral para se eleger um papa que fosse aceito por todo o mundo “cristão”. Novamente o rei da França instou para que Benedito XIII resignasse. Ao receber uma nova recusa por parte de Benedito XIII, a França renunciou à sua promessa de fidelidade e adotou uma atitude de neutralidade. Abandonado pelos seus cardeais, Benedito XIII fugiu para a Espanha. Os seus cardeais se uniram aos que tinham deixado Gregório XII e, juntos, convocaram um concílio, que seria realizado em Pisa, em 25 de março de 1409.

Realizou-se o Concílio de Pisa, conforme tinha sido anunciado. Reuniram-se na majestosa catedral vários sacerdotes, assim divididos: vinte e seis cardeais, quatro patriarcas, doze arcebispos, oitenta bispos, oitenta e sete abades, os gerais de todas as grandes ordens monásticas; além dos delegados de todas as grandes universidades, trezentos doutores em leis canônicas e embaixadores de todos os governos da Europa, exceto os da Hungria, Nápoles, Espanha, Escandinávia e Escócia. O Concílio se declarou canônico, quer dizer, válido nas leis da Igreja, e ecumênico, quer dizer, representando todo o mundo “cristão”, um título que ignorava as Igrejas Ortodoxas grega e russa. O Concílio requereu a presença dos papas Benedito XIII e Gregório XII, mas nenhum dos dois apareceu. Em 1409, declarou-os depostos e nomeou papa o cardeal de Milão, sob o nome de Alexandre V. Deram instruções ao novo papa para que convocasse um novo concílio geral antes de maio de 1412 e suspenderam então os trabalhos.

O Concílio esperara dar paradeiro ao cisma, mas como Benedito XIII e Gregório XII se tinham recusado a reconhecer a sua autoridade, o resultado foi ficar o mundo “cristão” com três papas, ao invés de dois. Em 1410, a desencarnação de Alexandre V não solucionou a questão, os seus cardeais então elegeram para sucessor João XXIII.

João XXIII protelou tanto quanto pôde a convocação do concílio que havia sido decretado em Pisa. Aconteceu que, em 1411, Segismundo se tornou rei dos romanos, e reconhecido por todos como sendo o chefe do Sagrado Império Romano, embora não tivesse sido para isso coroado. Ele obrigou João XXIII a convocar o concílio, escolhendo Constança para local, visto poderem todos ficar livres ali da intimidação por parte da Itália e sob a influência do imperador. Tirando a iniciativa da Igreja, à semelhança de outro Constantino, Segismundo convidou todos os prelados, príncipes, senhores e doutores do mundo “cristão” para que comparecessem ao concílio. Todo o mundo na Europa aceitou a convocação, menos os três papas e os seus membros. Quando, finalmente, João XXIII consentiu em iniciar os trabalhos, em 5 de novembro de 1414, havia chegado somente uma parte dos que deviam comparecer. Se todos tivessem comparecido, aquele concílio teria sido o maior da história e o mais importante desde o tempo em que o Concílio de Niceia, em 325, havia estabelecido o credo da Igreja.

Mal havia o concílio formulado o seu curso de ação, quando teve de enfrentar a deserção dramática do papa que o tinha convocado. João XXIII ficara surpreendido ao saber que os seus inimigos se preparavam para apresentar à assembleia um relatório sobre a sua vida de crimes e incontinência. Uma comissão o avisou de que se evitaria tal ignomínia se ele concordasse em acompanhar Gregório XII e Benedito XIII em uma abdicação simultânea. Ele concordou. Mas inesperadamente, porém, fugiu de Constança disfarçado de cuidador de cavalos, em 20 de março de 1415, indo se refugiar no castelo de Schaffhausen, com Frederico, arquiduque da Áustria e adversário de Segismundo.

Em 6 de abril, o concílio expediu um decreto: Sacrosancta. Muitos cardeais protestaram contra o decreto, temendo que ele pudesse terminar com os poderes do colégio de cardeais de eleger o papa, mas o concílio não deu atenção à posição deles e dali por diante eles exerceram um papel secundário em suas atividades.

O concílio enviou depois uma comissão a João XXIII a fim de lhe pedir que abdicasse. Não recebendo resposta definitiva aceitou, em 25 de maio, a apresentação de cinquenta e quatro acusações contra ele, como sendo pagão, opressor, mentiroso, simoníaco, traidor, libertino e ladrão. E o interessante é que dezesseis outras acusações foram suprimidas por haverem sido consideradas demasiado severas. Em 29 de maio, o concílio depôs João XXIII. Finalmente humilhado, João XXIII aceitou o decreto. Segismundo ordenou o seu encarceramento no castelo de Heidelberg durante todo o tempo da duração do concílio. Em 1418, foi posto em liberdade e encontrou asilo e amparo, já então muito velho, junto a Cosimo de Médici.

Gregório XII salvou o concílio por meio de um ato sutil, a saber: concordou em resignar, mas somente sob a condição de que lhe seria permitido convocá-lo novamente e legitimá-lo através da sua própria autoridade papal. Em 4 de julho de 1415, o concílio, novamente reunido, aceitou a resignação de Gregório XII, confirmou a validade das suas nomeações e o nomeou governador legado de Ancona, onde viveu tranquilamente os dois últimos anos de sua vida.

Benedito XIII continuou a resistir, porém os seus cardeais o abandonaram e fizeram as pazes com o concílio. Em 26 de julho de 1417, o concílio o depôs. Benedito XIII se retirou para a fortaleza da sua família, nas imediações de Valência, e ali desencarnou aos noventa anos de idade, vejam só, considerando-se ainda papa.

Em outubro, o concílio aprovou um decreto: Frequens; exigindo que se realizasse outro concílio geral dentro de cinco anos. Em 17 de novembro, um comitê eleitoral do concílio escolheu para papa o cardeal Oddone Colonna, que recebeu o nome de Martinho V. Toda a falsa cristandade o aceitou, chegando assim ao fim o grande cisma, após trinta e nove anos de caos, conflitos e confusões.

Eugênio IV, sucessor de Martinho V, adquiriu inimigos poderosos, os membros da família Colonna. Acreditando que Martinho V transferira muitas propriedades da Igreja para essa família, ordenou a restituição de grande parte delas, tendo mandado torturar o antigo secretário de Martinho V até que ele fornecesse as informações sobre o caso. Os Colonna abriram luta contra o papa. Ele os derrotou com os soldados que lhes enviaram Florença e Veneza, mas, com isso, provocou a hostilidade de Roma.

O Concílio de Basileia, que havia sido convocado por Martinho V, realizado no primeiro ano do novo pontificado, em 1431, propôs mais uma vez o estabelecimento da supremacia dos concílios sobre os papas. Eugênio IV ordenou a sua dissolução. Os seus componentes se recusaram a fazê-lo e o intimaram a comparecer à assembleia. Mandaram tropas milanesas a Roma para atacá-lo. Os Colonna se aproveitaram da oportunidade para se vingar. Eugênio IV fugiu, procurando refúgio em Florença e depois em Bolonha, e durante nove anos tanto ele como a Cúria ficaram exilados de Roma.

Eugênio IV foi salvo pelos turcos. Como os otomanos se aproximavam cada vez mais de Constantinopla, os bizantinos passaram a considerar que a cidade era digna das mesmas solenidades de Roma e que se tornava indispensável a união da falsa cristandade grega com a falsa cristandade romana como primeiro passo para se assegurar do auxílio militar do Ocidente. Eugênio IV enviou a sua própria embaixada, oferecendo auxílio, porém, com a condição de que aquela proposta de união fosse submetida a um novo concílio que ele convocaria em Ferrara.

A notícia de que o mundo “cristão”, que se achava dividido desde 1054 entre as Igrejas Romana e Grega, estava prestes a se unir, agitou toda a Europa. Em 8 de fevereiro de 1438, o imperador bizantino, o patriarca José de Constantinopla, dezessete metropolitas gregos e grande número de bispos, monges e eruditos gregos chegaram a Veneza. Eugênio IV os recebeu em Ferrara. Após a abertura do concílio, foram nomeadas várias comissões para reconciliar as divergências entre as duas Igrejas sobre a primazia do papa, vejam só, as divergências eram o uso do pão sem fermento, a natureza dos sofrimentos do purgatório e a procedência do Espírito Santo do Pai e do Filho, ou do Filho. Tanta ignorância e estupidez fez com que durante oito meses os eruditos travassem ingloriosos debates sobre esses pontos, mas não puderam chegar a um acordo sobre tanta irracionalidade. Nesse ínterim, rompeu a peste em Ferrara, Cosimo de Médici convidou o concílio a se transferir para Florença, onde lá ele e os seus amigos dariam hospedagem aos seus membros. Foi o que se fez. Alguns estudiosos dataram a Renascença da Itália como tendo partido do dia em que afluíram para Florença os eruditos gregos, em 1439.

Concordou-se ali que a forma aceitável para os gregos era que “o Espírito Santo procede do Pai através do Filho”. Em junho de 1439, chegou-se a um acordo sobre os sofrimentos do purgatório. Quanta ignorância não encerram essas crendices estúpidas! A primazia ou a preeminência do papa provocou acalorados debates. O imperador grego ameaçou dissolver o concílio. O arcebispo de Niceia conciliou a questão por meio de um acordo, no qual se reconhecia a autoridade universal do papa com reserva, porém, de todos os direitos e privilégios das Igrejas orientais que até então existiam. Essa fórmula foi aceita, e, em 6 de julho de 1439, foi lido em grego, por Bessarion, e, em latim, por Cesarini, na grande catedral que três anos antes recebera de Brunellesco a sua majestosa abóbada, o decreto que unia as duas Igrejas. Aqueles dois prelados se beijaram, e todos os membros do Concílio, com o imperador grego à frente, ajoelharam-se diante daquele mesmo Eugênio IV que, não fazia muito tempo, parecera um homem desprezado.

O imperador grego e a sua comitiva, ao voltarem para Constantinopla, foram acolhidos com insultos e linguagem obscena. Os sacerdotes e a população da cidade repudiaram aquela submissão a Roma. O patriarca Gregório, que tinha apoiado a união, fugiu para a Itália. Gregório conseguiu abrir caminho até Sófia, onde, em 1452, leu o decreto da união das duas Igrejas. O clero antiunionista anatematizou a todos os aderentes da união, recusou a absolvição aos que tinham ido ouvir a leitura do decreto e exortou os enfermos a que preferissem morrer sem os sacramentos a terem que os receber de um sacerdote unionista. Os patriarcas de Alexandria, Antioquia e Jerusalém repudiaram o “sínodo de salteadores” de Florença. Em 1453, Maomé II, fazendo de Constantinopla a capital da Turquia, deu aos “cristãos” uma plena liberdade de culto e nomeou Genádio para patriarca, que era um ferrenho adversário da união das duas Igrejas. No mesmo ano, Eugênio IV voltou para Roma. Mas durante a sua permanência em Florença, o papa havia se familiarizado com o desenvolvimento do humanismo e da arte sob o reinado de Cosimo de Médici.

Quando o papa Nicolau V subiu ao mais antigo dos tronos do mundo, rejeitando como lenda a alegada fundação da dinastia imperial japonesa, em 660 a.C., Roma era apenas uma décima parte da Roma que estivera encerrada entre as muralhas de Aureliano, no período de 270 a 275 d.C., e menor em área e população do que Veneza, Florença e Milão. A Cidade do Vaticano era um pequeno subúrbio que ficava do outro lado da cidade propriamente dita e se acotovelava junto ao templo de São Pedro em ruínas.

Lutou o papado durante séculos no sentido de preservar os seus territórios tradicionais contra a usurpação interna levada a efeito por condottieri e contra invasões de outros Estados italianos. Milão tentou repetidas vezes se apropriar de Bolonha. Veneza se apoderou de Ravena e procurou absorver Ferrara. E Nápoles tentou lançar os seus tentáculos sobre o Lácio. Para enfrentar tais ataques, o papado muito raramente recorria ao seu pequenino exército de mercenários, ao contrário, jogava os Estados ambiciosos uns contra os outros, em uma política danosa, esforçando-se por não os deixar se tornarem muito fortes, a fim de que não tragassem o território papal. Maquiavel e Guicciardini, muito acertadamente, descobriram a origem da desunião da Itália, como tendo partido, em parte, dessa política dos ardilosos papas.

O prestígio do humanismo já se tinha elevado tanto, o ímpeto do movimento neopagão se mostrava tão forte, os seus líderes já se achavam tão profundamente contaminados por tudo isso, que a Igreja teve que procurar um meio de acomodar tais evoluções na vida “cristã”, ou então se arriscar a perder as classes intelectuais da Itália, talvez, mais tarde, da própria Europa. Sob o pontificado de Nicolau V, ela abriu os braços ao humanismo. Durante um animado século, de 1447 a 1534, deu ao espírito da Itália tão ampla liberdade, que Roma se tornou o centro da Renascença e desfrutou uma das épocas mais brilhantes da história da humanidade.

Mas Eugênio IV desencarnou e os cardeais, vendo-se em um impasse entre as facções dos Orsini e dos Colonna, elevaram Tommaso Parentucelli ao papado, o qual havia gasto quase todos os seus rendimentos em livros, havia tomado dinheiro emprestado para comprar livros caríssimos e havia expressado a esperança de que algum dia os seus recursos seriam suficientes para reunir em uma só biblioteca todos os grandes livros do mundo. Foi nessa ambição que teve origem a Biblioteca do Vaticano.

Nicolau V, como então Tommaso Parentucelli se chamou, tinha três objetivos: 1) Ser um bom papa; 2) Reconstruir Roma; 3) E restaurar a literatura, os conhecimentos e as artes clássicas. Na busca desses objetivos, contratou Gianozzo Manetti e Jorge de Trebizonda para traduzirem as obras de Cirilo, Basílio, Gregório Nazianzeno, Gregório de Niceia e outras obras da literatura patrológica, ou seja, a que trata do estudo da vida e das obras dos sacerdotes da Igreja. Encarregou Gianozzo Manetti e auxiliares para fazerem uma nova versão da Bíblia do original hebraico e grego. Isso também foi frustrado com a sua desencarnação. Em relação ao fato, Filelfo assim escreveu: “A Grécia não pereceu; emigrou para a Itália, a qual, em outros tempos, tivera o nome de a Magna Grécia”. Gianozzo Manetti, cuja gratidão foi maior do que a sua precisão, calculou que haviam sido traduzidos mais autores durante os oito anos do pontificado de Nicolau V do que em todos os cinco séculos precedentes.

Quando chegou a Nicolau V a notícia de que os outros turcos haviam entrado em Constantinopla pisando os cadáveres de 50.000 “cristãos” e transformando o templo de S. Sofia em uma mesquita, em 1453, toda a glória do seu pontificado se lhe afigurou caprichosa vaidade. Apelou a todas as potências europeias para que se unissem em uma Cruzada a fim de reconquistarem aquela cidadela da falsa cristandade, que havia caído. Clamou por uma décima parte de todas as rendas da Europa ocidental para financiar a luta e empenhou uma décima parte também das rendas do papado, da cúria e de outras instituições do mundo eclesiástico. Declarou que devia cessar toda guerra entre as nações “cristãs”. A Europa mal lhe deu ouvidos. O povo se queixou de que o dinheiro levantado pelos papas anteriores para as cruzadas havia sido utilizado para outros fins. Veneza preferiu um acordo comercial com os turcos. Nicolau V se curvou diante daquela realidade, e o seu entusiasmo pela vida arrefeceu. Em 1455, estando cansado de toda aquela diplomacia considerada como sendo fútil e punido pelos crimes dos seus predecessores, desencarnou com a idade de cinquenta e oito anos.

A desunião da Itália determinou a eleição do papa que se seguiu a Nicolau V. As facções, impossibilitadas de concordar com a eleição de um italiano, escolheram um cardeal espanhol, Afonso Bórgia, que recebeu o nome de Calisto III.

Calisto III elevou ao cardinalato dois dos seus sobrinhos, Luís Juan de Mila e Roderigo Bórgia. Este, que seria futuramente o papa Alexandre VI, tinha ainda o inconveniente de ser indiscreto no tocante à sua amante, mas, mesmo assim, em 1457, Calisto III lhe deu o mais vantajoso cargo da corte papal, o de vice-chanceler. Naquele mesmo ano o nomeou também comandante-chefe das forças bélicas do pontificado. Assim começou e desenvolveu o nepotismo, pelo qual sucessivos papas concederam posições eclesiásticas a sobrinhos e a outros parentes, que, algumas vezes, acontecia serem os seus próprios filhos.

O incrível é que vendo todos esses procedimentos amorais, como é que se pode conceber um ser humano, que se diz racional, seguir tal papado! Deveriam pelo menos atentar para o que disse o grande historiador chamado de Pastor, que mesmo sendo seguidor do catolicismo, em seus comentários sobre os sacerdotes, que são nomeados cardeais, assim se expressou:

A baixa apreciação que Lourenço de Médici fez sobre o Colégio dos Cardeais, ao tempo de Inocêncio VIII, tinha, infelizmente, muito fundamento… Dos cardeais mundanos, os que mais se destacaram foram Ascanio Sforza, Riario, Orsini, Sclafenato, Jean de la Balue, Giuliano della Rovere, Savelli e Rodrigo Bórgia. Todos estes estavam profundamente infeccionados com a corrupção que, na Itália, prevalecia entre as classes altas da era da Renascença. Cercados, em seus esplêndidos palácios, do mais requintado luxo de uma civilização altamente desenvolvida, tais cardeais levavam a vida dos príncipes seculares e pareciam considerar as suas vestes sacerdotais meros adornos da sua posição. Caçavam, jogavam, davam suntuosos banquetes e reuniões, participavam dos folguedos carnavalescos e se permitiam a maior liberdade em matéria moral. Foi esse, em especial, o caso de Roderigo Bórgia.

É de se registrar e de se observar que em um consistório realizado em junho de 1486, o cardeal Bórgia censurou ao cardeal Balue por se achar embriagado, ao que este respondeu, chamando o futuro Alexandre VI de “filho de meretriz”.

Foi Alexandre VI, sem sombras de dúvidas, o mais interessante de todos os papas, talvez por ser o mais depravado de todos eles, se não de todos eles, pelo menos dos papas da Renascença. Ele nasceu em Xativa, na Espanha, em 1º de janeiro de 1431. Os pais eram primos entre si, ambos da família dos Borja. Ao se tornar o tio cardeal e depois papa Calisto III, abriu-se facilmente o caminho para as promoções do jovem na carreira eclesiástica. Mudando-se para a Itália, o jovem deu nova forma ao nome, passando a se chamar Bórgia. Foi nomeado cardeal aos vinte e cinco anos e, aos vinte e seis, recebeu o vantajoso cargo de vice-chanceler, chefe de toda a cúria. Não era ainda sacerdote, mas iria sê-lo aos trinta e sete anos. Foi tão bonito na sua mocidade, tão atraente na graça das suas maneiras e dotado de tal ardor sensual e temperamento alegre, bem como de eloquência persuasiva e de espírito jocoso, que as mulheres sem caráter dificilmente podiam resistir a ele. Percebendo que muitos clérigos e sacerdotes se entregavam aos prazeres com mulheres, resolveu desfrutar de todos os dotes que a natureza lhes dera, tanto a ele como às mulheres mundanas.

Por volta de 1466, Roderigo Bórgia teve uma relação mais estável com Vanozza de Catanei, naquela ocasião com vinte e quatro anos. Infelizmente, ela estava casada com Domenico d’Arignano, que somente a abandonou em 1476. Vanozza de Catanei deu quatro filhos a Roderigo Bórgia, que ficara sacerdote em 1468. Giovanni, César, Lucrécia e Giofre. Esses quatro filhos foram atribuídos a Vanozza de Catanei na lápide do túmulo que guarda os despojos dela e reconhecidos pelo próprio Roderigo Bórgia como sendo realmente seus. Tal ascendência persistente sugere uma união quase monógama, talvez se pudesse acreditar que o cardeal Bórgia, comparado com outros eclesiásticos, tivesse sido um tanto fiel e estável em sua vida doméstica. Ao lançar as suas vistas para o papado, Roderigo Bórgia tratou de arranjar um marido tolerante para Vanozza de Catanei, dando a esta os meios necessários para uma vida próspera. Ela enviuvou duas vezes. Casou-se pela terceira vez e se recolheu a uma vida simples.

Os cardeais que se reuniram no conclave de 6 de agosto de 1492, esperavam o recebimento de presentes substanciais àqueles que votassem no cardeal Roderigo Bórgia. Na verdade, ele não os desapontou. Ao cardeal Sforza prometeu o cargo de vice-chanceler, vários benefícios profícuos e o palácio dos Bórgia, em Roma. Ao cardeal Orsini a diocese e as rendas eclesiásticas de Cartagena, as cidades de Monticelli e Soriano e o governo das Marcas. Ao cardeal Savelli, Civita Castellana e o bispado de Maiorca, etc., etc. Infessura descreveu o caso como sendo a “distribuição evangélica dos bens de Bórgia aos pobres”. Não era um processo desusado, pois todos os candidatos o haviam adotado em muitos conclaves. O voto decisivo foi lançado pelo cardeal Gherardo, um velho de noventa e seis anos, que dificilmente estaria de posse das suas faculdades mentais, elegendo unanimemente Roderigo Bórgia, em 10 de agosto de 1492. Perguntaram-lhe qual o nome que desejava adotar como papa. Respondeu: “o nome do invencível Alexandre”. E assim recebeu o nome de Alexandre VI.

Alessandro Farnese deveu a sua elevação ao cardinalato à sua irmã Giulia Farnese, a amante do papa Alexandre VI, que algum dia iriam aclamar como papa Paulo III, chamavam-no “il cardinale della gonnella”, ou seja, o cardeal das saias. Como se pode facilmente constatar, sem a mínima dúvida, caso realmente existisse o Satanás, este, com certeza, faria do Vaticano a sua eterna morada!

Logo depois da subida de Alexandre VI ao trono, Franceschetto Cibó vendeu a Virgínio Orsini propriedades que lhe haviam sido legadas por seu pai Inocêncio III. Orsini era um alto oficial do exército de Nápoles, tinha recebido de Ferrante a maior parte do dinheiro para aquela compra. Nápoles conseguiu assim duas fortalezas estratégicas em território papal. Alexandre VI reagiu formando uma aliança com Veneza, Milão, Ferrara e Siena, levantou um exército e fortificou a muralha entre o Vaticano e Sant’angelo. Fernando II da Espanha, temendo que um ataque combinado contra Nápoles desse fim ao poder dos Aragão na Itália, persuadiu Alexandre VI e Ferrante a entrarem em negociações. Orsini pagou ao papa pelo direito de reter consigo a compra que fizera, e Alexandre VI prometeu em casamento o seu filho Giofre, naquele tempo com treze anos, a Sancia, a bela neta do rei de Nápoles, em1494.

Em retribuição à feliz mediação de Fernando II, Alexandre VI lhe concedeu as duas Américas. Colombo tinha descoberto as Índias uns dois meses após a sucessão de Alexandre VI e as havia presenteado a Fernando e Isabel. Portugal reivindicou o Novo Mundo por força de um edital de Calisto III, de 1479, o qual tinha confirmado os seus direitos sobre todas as terras da costa do Atlântico. A Espanha replicou que o edital tinha em vista apenas o Atlântico oriental. Os Estados estavam prestes a entrar em guerra quando Alexandre VI expediu duas bulas, em 3 e 4 de maio de 1493, dando à Espanha todas as terras descobertas ao oeste e a Portugal todas as terras ao leste de uma linha imaginária traçada de um polo a outro, a cem léguas espanholas a oeste das ilhas dos Açores e Cabo Verde, em cada caso, porém, com a condição de que as terras descobertas não estivessem já habitadas por “cristãos” e os conquistadores envidassem todos os esforços para converter os seus novos súditos ao “cristianismo”. Parece que não ocorreu a ninguém a ideia de que os que não eram considerados “cristãos” tivessem quaisquer direitos às terras nas quais antes já habitavam. Mas foi assim que Portugal ficou com o direito de colonizar o Brasil, como veremos mais detalhadamente quando explanarmos diretamente o Racionalismo Cristão, na obra relativa à Finalidade, contida no site pamam.com.br.

A cidade, que havia perdoado ao papa a sua ligação com Vanozza de Catanei, maravilhara-se depois com Giulia, a amante que se lhe seguiu. Giulia Farnese se sobressaía pela sua beleza, sobretudo pelos seus cabelos dourados, quando ela os soltava, deixando-os caídos até aos pés, era um espetáculo que teria agitado o sangue até mesmo dos homens menos ardentes que Alexandre VI. Os seus amigos a chamavam de La Bella. Em 1492, Giulia Farnese deu à luz uma filha, chamada de Laura, que foi oficialmente declarada descender de Orsini. Contudo, o cardeal Alessandro Farnese, o irmão de Giulia Farnese, e futuro Paulo III, reconheceu-a como sendo de Alexandre VI.

Em 28 de setembro de 1500, Alexandre VI nomeou doze novos cardeais, os quais pagaram um total de 120.000 ducados pelas suas nomeações. Tais promoções, diz Guicciardini, foram feitas “não baseadas no maior mérito, mas sim na importância maior que se oferecia”. Logo a seguir, em 1503, nomeou mais nove cardeais a um preço comensurável. Em 1503, um satirista lançou na estátua de Pasquino os seguintes dizeres mordazes: “Alexandre VI vende as chaves, os altares e Cristo; tem direito de fazê-lo, pois pagou por todos eles”.

Já em 1492, Alexandre VI fez de César Bórgia, o seu filho, arcebispo de Valência, e depois, em 1493, cardeal. Como as leis canônicas excluíam do cardinalato os bastardos, Alexandre VI, em uma bula que expediu em 19 de setembro de 1493, declarou-o filho legítimo de Vanozza de Catanei e d’Arignano. Foi uma inconveniência o fato de Sisto IV, em uma bula de 16 de agosto de 1482, ter descrito César Bórgia como sendo filho de “Rodrigo, bispo e chanceler”. Em 1497, César Bórgia insistiu junto ao pai para que lhe permitisse renunciar à carreira eclesiástica. Só havia um meio de libertá-lo das vestes sacerdotais, a saber: Alexandre VI teria que declarar francamente ao Colégio dos Cardeais que ele era seu filho ilegítimo. E foi o que fez, ficando assim invalidada a nomeação do jovem bastardo para o cardinalato, a partir de 17 de agosto de 1498, restabelecida assim a sua situação de filho ilegítimo.

O mais inacreditável dos casos escabrosos dos Bórgia aparece no diário de Burchard, o mestre de cerimônias de Alexandre VI, que era merecedor de crédito. Em 30 de outubro de 1501, o Diarium descreve um jantar no apartamento de César Bórgia, no Vaticano, durante o qual cortesãs nuas corriam atrás de nozes que eram atiradas no assoalho, uma cena que era assistida por Alexandre VI e Lucrécia Bórgia, sua filha. Essa história aparece também na narração do historiador de Perúgia Matarazzo, o qual evidentemente não se baseou em Burchard, pois o Diarium ainda era secreto, mas sim em comentários que se estenderam de Roma por toda a Itália. Perugia Matarazzo afirmou que “esse fato era conhecido em toda a parte”. Mas como entrou tal história no diário de Burchard? Ele não afirma que estivera presente àquela cena, nem era de esperar que lá estivesse, tratando-se de um homem de princípios severos, como era o seu caso. Normalmente, ele registrava somente os acontecimentos que realmente havia presenciado, ou então que lhe tivessem sido comunicados por elementos que fossem dignos de credibilidade.

Alexandre VI, assim como qualquer governante, considerava que os casamentos dos filhos haviam de melhorar os interesses do Estado. Sem dúvida, isso também parecia razoável a Lucrécia Bórgia. Naquela ocasião, Nápoles era hostil ao papado e Milão a Nápoles. Assim, em 1493, o seu primeiro casamento, na idade de treze anos, ligou-a a Giovanni Sforza, que tinha vinte e seis anos e era o senhor de Pesaro e sobrinho de Lodovico, regente de Milão. Alexandre VI se conduziu “paternalmente” ao arranjar um lar para o casal no palácio do cardeal Zeno, nas proximidades do Vaticano.

Contudo, Giovanni Sforza tinha que viver em Pesaro uma boa parte do tempo e por isso levou consigo a sua jovem esposa. Ela definhou naquelas paragens distantes, longe do seu “afetuoso” pai e da vida agitada e esplendorosa de Roma. Passados uns meses, voltou para a capital. Giovanni Sforza veio se juntar a ela mais tarde, mas, passada a páscoa de 1497, permaneceu em Pesaro, e a esposa, em Roma. Em 14 de junho, Alexandre VI lhe pediu que consentisse na anulação do casamento, alegando que era impotente, o único motivo reconhecido pelas leis canônicas para se anular um casamento válido. Lucrécia Bórgia, para despistar os fomentadores de escândalo, recolheu-se a um convento. O esposo negou que fosse impotente e afirmou que Alexandre VI praticara incesto com a filha. O papa, então, nomeou uma comissão, chefiada por dois cardeais, para investigar se o casamento chegara a ser consumado. Lucrécia Bórgia declarou, sob juramento, que não havia sido consumado, assegurando eles então ao papa que ela era ainda virgem. Lodovico propôs a Giovanni Sforza que demonstrasse a sua potência perante uma comissão, em Milão, da qual participasse o legado papal. Giovanni Sforza rejeitou a proposta, o que é naturalmente perdoável. Assinou, porém, uma confissão formal de que o casamento não tinha sido consumado, devolveu a Lucrécia Bórgia o dote de 31.000 ducados que ele recebera, tendo o casamento sido anulado em 20 de dezembro de 1497. A terceira esposa de Giovanni Sforza deu à luz uma criança, em 1505. Presume-se naturalmente que ele era o pai. Quanta ignomínia!

Alexandre VI, procurando uma aproximação com o mais azedo inimigo do papado, que era Nápoles, propôs ao rei Federigo a união de Lucrécia Bórgia com Dom Afonso, duque de Bisceglie, o filho bastardo de Afonso II, herdeiro de Federigo. O rei concordou, assinando-se o contrato de núpcias em junho de 1498. Em agosto, foi o enlace celebrado no Vaticano. Lucrécia Bórgia estava então com dezoito anos e ele apenas com dezessete. César Bórgia, irmão de Lucrécia Bórgia, que havia sido rejeitado em Nápoles, partiu para a França em busca de uma noiva, em outubro de 1498. Alexandre VI fez uma aliança com Luís XII, o inimigo declarado de Nápoles. Dom Afonso, o jovem duque de Bisceglie, fugiu para Nápoles. Lucrécia Bórgia ficou desolada. A fim de consolá-la, Alexandre VI a nomeou regente de Spoleto, em agosto de 1499. Dom Afonso foi se juntar a ela, ali. Alexandre VI os visitou em Nepi e a trouxe de volta para Roma. Lucrécia Bórgia deu à luz um filho, que recebeu o mesmo nome do pai, Roderigo.

Dom Afonso passou a detestar fortemente a César Bórgia, e este retribuiu também tal manifestação. Na noite de 15 de julho de 1500, alguns espadachins atacaram Dom Afonso ao sair ele da igreja de S. Pedro. Convencido de que tinha sido César Bórgia o homem que contratara os assassinos, Dom Afonso pegou um arco e um dardo e, apontando para César Bórgia, atirou para matar. César Bórgia chamou os seus guardas, com ordens de liquidá-lo. Eles apertaram um travesseiro sobre o rosto do jovem até ele morrer, ao que parece sob as vistas da esposa, a própria irmã do mandante. Alexandre VI aceitou a narrativa que César Bórgia lhe fez do caso, e fez o que pôde para “consolar” a desventurada Lucrécia Bórgia.

Lucrécia Bórgia foi morar em Nepi. Por mais estranho que pareça, César Bórgia foi visitá-la em Nepi, em 1.º de outubro de 1500, somente dois meses e meio depois da morte de Dom Afonso, e se hospedou, por um dia, em sua casa, outro caso misterioso da Renascença. Ao que parece, porque ele também, assim como o pai, a amasse com a intensidade do seu temperamento espanhol, as línguas ferinas de Roma, ou antes, da hostil Nápoles, continuaram a acusá-lo de incesto. E um escriba a chamou concisamente de “filha, esposa e nora” do papa.

Após um período de luto, foi a sua mão oferecida a um membro da família Colonna. Em novembro de 1500, é que se tem notícias de que Alexandre VI propôs ao duque Ercole de Ferrara o seu enlace a Alfonso, seu filho. O contrato de casamento somente foi feito em setembro de 1501. Alexandre VI se comprometeu a dar um grande dote e eximir praticamente Ferrara dos tributos anuais que esta vinha pagando ao papado.

Em agosto de 1503, Alexandre VI e César Bórgia, o papa e o filho, caíram de cama com febre e vômitos. Alexandre VI desencarnou em 18 de agosto. César Bórgia se restabeleceu lentamente da mesma doença que tinha matado o papa-pai e se viu emaranhado em uma dezena de perigos imprevistos.

O cardeal Giuliano entrou em Roma e chefiou, no conclave, as forças que eram hostis aos Bórgia. Em 22 de setembro de 1503, as facções rivais, no Colégio, elegeram o cardeal Francesco Piccolomini como o papa da conciliação. Ele recebeu o nome de Pio III, tinha sessenta e quatro anos e sofria de um abscesso na perna. Desencarnou em 18 de outubro.

Em uma entrevista particular que teve com Giuliano, César Bórgia, ao que parece, conseguiu uma reconciliação. Prometeu a Giuliano o apoio dos cardeais espanhóis, que lhe eram fiéis, e Giuliano prometeu também, caso fosse eleito, confirmar-lhe o título de duque da Romagna e o cargo de comandante das tropas bélicas papais. Giuliano comprou depois os votos de alguns cardeais. Foi eleito papa em 31 de outubro de 1503, tendo adotado o nome de Júlio II. A sua coroação foi protelada para 26 de novembro, porque os astrólogos haviam predito para aquele dia uma conjunção de estrelas que lhe seria propícia. Eis aqui um papa, como outros que houveram, que acreditava em astrologia e que por ela se guiava, ao invés de se guiar na fé credulária que deveria ter pelo deus bíblico!

Júlio II ordenou a César Bórgia que fosse a Ímola recrutar um novo exército a fim de proteger os Estados papais. César Bórgia concordou e seguiu para Óstia. Em Óstia recebeu uma mensagem do papa, que lhe ordenava que passasse a outrem a direção das fortalezas da Romagna. César Bórgia se recusou a fazê-lo. Júlio II lhe ordenou que regressasse a Roma. César Bórgia obedeceu. Quando chegou, ficou preso sob palavra. Ali, Guidobaldo, que havia sido restaurado em Urbino e nomeado comandante dos exércitos do papado, foi visitar o Bórgia caído. César Bórgia se humilhou diante do homem a quem havia deposto e espoliado, deu-lhe a senha das fortalezas e lhe pediu que intercedesse em seu favor junto a Júlio II. Este declarou que somente o libertaria se César Bórgia persuadisse os castelos da Romagna a se render ao papado. Finalmente César Bórgia deu a ordem de rendição aos seus leais defensores na Romagna. O papa lhe deu a liberdade, fugindo ele para Nápoles, em 19 de abril de 1504.

Vale aqui salientar que o papado tinha sempre o seu exército. Ora, é óbvio, pois todos os papas tinham que seguir rigorosamente a Bíblia, agindo exatamente igual ao deus bíblico, que em Gênese 2:1 criou todo o seu exército. Afinal, eles são ou não são os representantes desse deus bíblico na Terra?

Em Nápoles, César Bórgia foi bem recebido por Gonzalo de Córdoba, e a coragem lhe voltou mais cedo que o bom senso. Organizou, então, uma pequena força, quando logo foi preso pelo próprio Gonzalo de Córdoba que, neste sentido, recebera ordens de Fernando da Espanha. A mulher que ele abandonara pleiteou em favor dele junto ao irmão, Jean d’Albret, rei de Navarra. Preparou-se um plano de fuga, e, em novembro de 1506, César Bórgia se viu novamente livre, na corte de Navarra. Encontrou logo uma oportunidade de saldar a sua dívida para com Jean d’Albret. O conde de Lerin, um vassalo do rei, tinha-se rebelado. César Bórgia chefiou uma parte do exército de Jean d’Albret contra a fortaleza do conde de Lerin, em Viana. O conde de Lerin recebeu reforços. César Bórgia, apenas com um companheiro que ficara, resistiu até ser atingido por um golpe mortal, em 12 de março de 1507. Estava com trinta e um anos quando desencarnou.

Lucrécia Bórgia ainda achou tempo para dar ao seu terceiro marido quatro filhos e uma filha. Alfonso se sentia feliz com ela. Em 1506, tendo que se ausentar de Ferrara, nomeou-a regente, e ela cumpriu as suas obrigações com tão bom critério, que os habitantes se mostraram propensos a perdoar Alexandre VI por tê-la deixado uma vez encarregada do Vaticano. Em 14 de junho de 1519, deu à luz o sétimo filho, este nasceu morto. Não se ergueu mais do leito de dor. Em 24 de junho, com a idade de 39 anos, cerraram-se para sempre os olhos de Lucrécia Bórgia.

Júlio II demoliu a velha igreja de S. Pedro e deu ao mundo uma nova igreja de S. Pedro. Detestava Alexandre VI, a quem julgava um intruso, não o reconhecendo digno do papado, chamava-o de trapaceiro e usurpador e fez tudo o que esteve ao seu alcance para destroná-lo, chegando até a convidar a França para que invadisse a Itália. Vê-se aqui o quanto um sacerdote é capaz para conquistar o poder ou impedir que outro o detenha em seu lugar. Mas, à semelhança de Alexandre VI, teve que comprar alguns cardeais a fim de facilitar a sua ascensão ao papado, porém, mesmo assim denunciou tal expediente em uma bula que expediu em 1505. Quanta incoerência!

Lourenço de Médici destinou o seu segundo filho, Giovanni, desde a infância, para a posição eclesiástica. Em 1482, aos sete anos, o rapazote recebeu a tonsura, logo o dotaram com benefícios in commendam, isto é, fizeram-no beneficiário de propriedades da Igreja, conquanto delas vivesse afastado, delas recebendo o excedente das rendas. Com a idade de oito anos, deram-lhe a abadia de Font Douce, na França. Aos nove anos a rica abadia de Passignano. E, aos onze, a histórica abadia de Monte Cassino. Antes de ser eleito papa, Giovanni havia recebido dezesseis de tais benefícios. Aos oito anos, foi nomeado protonotário apostólico, ou membro de honra da cúria romana, e, aos quatorze, cardeal.

Cumpre lembrar que se podia ser cardeal sem ser sacerdote e que os cardeais eram escolhidos mais pela sua capacidade e relações políticas do que pelas suas qualidades credulárias de sacerdote.

Giovanni de Médici foi eleito Sumo Pontífice em11 de março de 1513, recebendo o nome de Leão X. Não era ainda sacerdote, mas essa falha foi remediada em 15 de março. Foi surpresa e, ao mesmo tempo, satisfação para todos. Após aquelas pesadas intrigas de Alexandre VI e César Bórgia, as guerras, turbulências e caprichos de Júlio II.

A própria cidade de Roma prosperava e se expandia à medida que Leão X ia colhendo o ouro que fluía pelas suas artérias econômicas. No decurso de treze anos, depois da sua ascensão, disse o embaixador, foram construídas dez mil casas em Roma, na maior parte por elementos que haviam chegado do norte da Itália, em seguida ao movimento da Renascença. Nela se aglomeraram particularmente os florentinos, para colher os frutos do pontificado de um patrício. Não era ainda uma cidade tão bonita como Florença ou Veneza, mas era, geralmente, considerada como sendo o centro da civilização ocidental.

Rafael, por ocasião de uma visita que dois cardeais fizeram à sua oficina, durante a qual os prelados se divertiam em apontar falhas em seus quadros, dizendo, por exemplo, que os rostos dos apóstolos estavam muito vermelhos, respondeu assim:

“Isto não é de causar surpresa a V. Eminências, pintei-os assim deliberadamente, não podemos pensar que eles se envergonhem no céu quando veem a Igreja governada por homens como vós?”.

Era lamentável que, em meio a toda aquela arte e literatura, Leão X tivesse que se entregar também à política. Ele era chefe de Estado e vivia em uma época em que as potências transalpinas tinham soberanos ambiciosos, grandes exércitos e estratégicos generais. Luís XII, da França, e Fernando, o Católico, da Espanha, podiam, a qualquer momento, entrar em um acordo para dividir a Itália como o tinham feito com relação ao reino de Nápoles. Com o propósito de enfrentar tal ameaça, e incidentalmente para fortificar os Estados papais e elevar a posição da família, Leão X planejou formar com Florença, a qual já tinha sido governada por intermédio do seu irmão Giuliano e o seu sobrinho Lorenzo, Milão, Piacenza, Parma, Módena, Ferrara e Urbino, uma nova e poderosa federação para ser governada pelos Médicis que fossem leais. De acordo com os seus planos, uniria esses Estados com os da Igreja, já então existentes. Maquiavel, que não alimentava preconceitos em favor do mundo “cristão” ou dos papas, aprovou calorosamente tal plano, pelo menos no que dizia respeito à unificação e proteção da Itália. Foi essa a ideia principal da sua famosa obra O Príncipe.

Francisco I, da França, para conquistar a amizade de Leão X, propôs um casamento entre Lorenzo, sobrinho do papa, que havia sido restaurado no ducado de Urbino, e Madeleine de La Tour d’Auvergne, a qual tinha uma bela renda de 10.000 coroas por ano. Leão X concordou com a proposta. Em 1518, Lorenzo seguiu para a França como o fizera outrora César Bórgia, e trouxe consigo Madeleine e o seu dote. Mas ela desencarnou um ano depois ao dar à luz Catarina, a futura rainha Catarina de Médici, da França.

Um dos generais de Leão X, Gianpaolo Baglioni, governante de Perúgia por graça do papado, tomara, juntamente com o seu Estado, o partido de Francesco Maria. Leão X o atraiu tempos depois a Roma, para o que lhe deu um salvo-conduto. Em 1520, condenou-o à morte. Em 1517, Gianpaolo Baglioni havia feito também parte de uma conspiração encabeçada por Alfonso Petrucci e outros cardeais, visando o assassinato do papa. Os cardeais tinham feito tais exigências a Leão X que este, não obstante a sua liberalidade, não pôde satisfazê-las. Alfonso Petrucci se tinha revoltado pelo fato do seu irmão ter sido arrancado do governo de Siena e isso com a conivência do papa. Ele tinha planejado primeiro matar Leão X com as suas próprias mãos, porém persuadiram-no a que, em vez disso, subornasse o médico do papa para que desse um veneno a este último, na ocasião em que fosse tratar da sua fístula. Descobriu-se a conspiração. O médico e Alfonso Petrucci foram executados e vários cardeais, seus cúmplices, depostos alguns, encarcerados outros. Alguns foram postos em liberdade mediante o pagamento de apreciável multa. Como se pode constatar, os sacerdotes cardeais eram iguais ou bem piores do que a maioria dos papas, o que estende até aos dias de hoje.

As dádivas e parentes de Leão X, como também os seus amigos, artistas, escritores e músicos, a dispendiosa manutenção de uma corte sem precedentes na história do papado, os insaciáveis pedidos de dinheiro para a construção da nova basílica de S. Pedro, as despesas com a guerra contra Urbino e os preparativos para uma Cruzada o estavam levando à bancarrota. As suas rendas regulares de 420.000 ducados por ano, provenientes de taxas, anatas e dízimos eram insuficientes e cada vez mais se ia tornando difícil colhê-las de uma Europa que se ressentia de vê-las fluir para Roma. A fim de reabastecer o tesouro, Leão X criou 1.353 novos cargos para serem vendidos, vendia ainda os cargos mais elevados, como o de camareiro do papado. Em julho de 1517, nomeou trinta e um novos cardeais, o cardeal Ponzetti, médico, erudito e autor, pagou 30.000 ducados pela sua nomeação. Leão X, com a sua pena, arrecadou para o tesouro, naquela ocasião, meio milhão de ducados. Na Alemanha, a história de tais transações muito contribuiu para avivar a revolta de Lutero, que já estava revoltado com as indulgências, em outubro de 1517.

Uma crítica mordaz expressou a opinião de Roma: “Leão X devorou três pontificados: o tesouro de Júlio II, as rendas de Leão X e as do seu sucessor”. Roma experimentou uma das piores derrocadas financeiras da sua história, quando à meia noite ele desencarnou, de 1º para 2 de dezembro de 1521, dez dias antes de completar quarenta e cinco anos. Muitos dos serviçais e alguns membros da família dos Médici levaram do Vaticano tudo o que puderam lançar mão. Guicciardini, Giovio e Castiglione julgaram que ele tivesse sido envenenado por instigação, talvez de Alfonso ou de Francesco Maria; mas, ao que muitos afirmam, Leão X morreu de malária, como acontecera também com Alexandre VI.

Leão X se habituara em demasia ao ouro. Tendo sido criado em um palácio, conheceu de perto o luxo e a arte, nunca trabalhara para ter a sua renda, as rendas do papado, quando eram colocadas sob a sua guarda, deslizavam facilmente das suas mãos, não via a Reforma Protestante que começava a se corporificar além dos Alpes, não deu atenção a um sem-número de informações que lhe enviaram a respeito, e continuou a pedir sem qualquer noção das consequências ouro e mais ouro de uma nação já em revolta.

Para se ter uma leve noção sobre a moral dos sacerdotes é preciso que se saiba que mais da metade do Colégio dos Cardeais mantinha uma conduta “cristã” e tão cheia de devoção às patifarias mundanas que faziam corar aos seus próprios colegas que eram considerados simplesmente alegres e mundanos.

Em meio a essa devoção às patifarias mundanas, no entanto, havia tanto relaxamento moral entre os sacerdotes que se poderia acrescentar centenas de testemunhos como prova. As freiras, que hoje são tidas como anjos e ministras da bondade, partilhavam daquela orgia. Verificava-se isso mais acentuadamente em Veneza, onde os conventos delas e os mosteiros ficavam suficientemente próximos uns dos outros para permitir que os seus moradores, de vez em quando, participassem do mesmo leito. Os arquivos dos Proveditori sopra monasteri contêm vinte volumes de julgamentos referentes à coabitação entre sacerdotes e freiras. Repugna-nos deverasmente transcrever o que Aretino diz a respeito das freiras de Veneza, como a seguir:

Para qualquer lado que viremos, seja para o clero secular de sacerdotes e bispos, seja para as ordens religiosas, seja para pequenos ou grandes prelados, velhos ou jovens… apenas vemos o mal, e tudo vem caracterizado pelo pecado mortal. Mesquinhos, ambiciosos e avarentos… eles abandonaram a sua tarefa de cuidar das almas… Endeusando os seus estômagos, comendo e bebendo em festas cheias de orgias, entregam-se imediatamente à sordidez, vivendo na lascívia… alimentando os filhos com a substância dos pobres… Fogem do serviço do coro como se fosse um veneno.

Podemos, no entanto, aceitar um resumo que faz um historiador católico, muito sincero:

Não causa surpresa, quando as altas camadas do clero se achavam em tal estado, que, entre as ordens regulares e o clero secular, os vícios e as irregularidades de toda espécie se tivessem tornado cada vez mais comuns. O sal da terra perdeu o seu sabor… Foram sacerdotes como aqueles que deram motivo às descrições mais ou menos exageradas que Lutero e Erasmo fizeram quando visitaram Roma durante o pontificado de Júlio II. Mas é erro supor que a corrupção do clero em Roma foi pior que em outras partes; há provas documentadas sobre a imoralidade dos sacerdotes em quase todas as cidades da península italiana. Em muitos lugares — Veneza, por exemplo — a situação era muito pior do que em Roma. Não é de se admirar, conforme depõem tristemente os escritores contemporâneos, que se haja demonstrado pouco respeito para com os sacerdotes. A imoralidade deles era tão chocante, que já se começavam a ouvir sugestões de se permitir que se casassem… Muitos dos mosteiros se acham em condições deploráveis. Os três essenciais votos de pobreza, castidade e obediência eram, em alguns conventos, quase inteiramente desprezados… a disciplina em muitos conventos de freiras era igualmente muito fraca.

Podemos concluir, então, que a Itália era mais imoral porque era mais rica, mais fraca em matéria de governo e de leis e bem mais adiantada no desenvolvimento intelectual, o que geralmente provoca certo abandono da moral, uma vez que o desenvolvimento do criptoscópio se liga diretamente à moral, enquanto que o desenvolvimento do intelecto se liga diretamente à ética.

Alguns poucos papas, porém, até que chegaram a investir contra a imoralidade, mas eram, em alguns casos, arrastados pela corrente deletéria. As suas tentativas de dar paradeiro aos abusos na Igreja ficavam anuladas pela inércia ou pelos próprios interesses dos sacerdotes, pois eles viviam mais preocupados em restabelecer o poder político do papado do que em restabelecer a integridade moral da Igreja, se é que restabelecer possa ser o termo adequado. Guicciardini disse o seguinte:

Em nossos tempos corruptos, louva-se a bondade de um sumo pontífice quando ele não sobrepuja em maldade aos demais homens”.

É de certa importância que se ressalte agora a Liga de Cambrai, que vigorou no período de 1508 a 1516.

Grande parte da Itália ficou depois sob o domínio dos estrangeiros, da seguinte maneira: a parte sul passou para a Espanha; a do noroeste, de Gênova, passando por Milão, até as imediações de Cremona, ficou sob o domínio da França; os pequenos principados se tinham sujeitado também ao domínio desta última; apenas Veneza e o papado se achavam relativamente independentes e viviam em guerras intermitentes pela posse das cidades da Romagna. Veneza se aproveitou da desencarnação de Alexandre VI e da doença de César Bórgia para conquistar Faiença, Ravena e Rímini. O papa Júlio II se propôs a reconquistar essas cidades. Em 1504, ele persuadiu Luís XII, da França, e Maximiliano, da Alemanha, a dar paradeiro às suas desavenças e a se aliarem a ele a fim de atacarem Veneza e partilharem entre si as possessões desta última no continente. Como se pode constatar, esse papado belicoso é realmente o legítimo representante do deus bíblico!

Em 10 de dezembro de 1508, tramou-se uma grande conspiração em Cambrai contra Veneza. O imperador Maximiliano, da Alemanha, a ela se associou porque Veneza havia arrebatado ao domínio do império as cidades de Gorizia, Trieste, Pordenone e Fiume, desprezando também os seus direitos sobre Verona e Pádua e recusando, tanto a ele como ao seu pequeno exército, passagem livre para Roma, por ocasião da coroação do papa. Luís XII, da França, por sua vez, ingressou na Liga por causa das disputas entre a França e Veneza sobre a partilha do norte da Itália. Fernando da Espanha a ela se associou porque Veneza insistia em reter consigo Bríndisi, Otranto e outros portos da Apúlia, os quais, durante séculos, haviam sido parte do reino de Nápoles. Em 1495, Veneza se tinha apoderado daquelas cidades durante a situação crítica de Nápoles. Em 1509, Júlio II ingressou na Liga em virtude de Veneza ter se recusado a abandonar a Romagna, demonstrando também claramente a sua ambição de adquirir Ferrara, um feudo reconhecidamente papal.

Essas potências europeias planejaram absorver todas as possessões de Veneza no continente, da seguinte maneira: a Espanha recuperaria as suas cidades no Adriático; o papa reconquistaria a Romagna; Maximiliano apoderar-se-ia de Pádua, Vicenza, Treviso, Friuli e Verona; e Luís XII receberia Bérgamo, Bréscia, Crema, Cremona e o vale do rio Adda. A Itália teria deixado de existir; a França e a Alemanha teriam se estendido até ao rio Pó; a Espanha até quase ao rio Tibre; e os Estados papais teriam ficado encurralados; o baluarte de Veneza contra os turcos teria sido destruído. E aqui se pode constatar facilmente o plano de espiritualização da nossa humanidade, em que a nação italiana teria que ser preservada, em função do seu relevante papel no contexto mundial.

Júlio II havia percebido que a vitória completa da Liga de Cambrai seria a derrota do papado, uma vez que ela deixaria os papas à mercê das potências do norte, nas quais a voz da Reforma já começava a encontrar ressonância. Em 1510, quando Veneza se prontificou novamente a lhe ceder tudo o que pedisse, modificou a sua atitude, ele que dissera que jamais a modificaria. Tendo conseguido o que considerava pertencer de justiça à Igreja, viu-se livre para lançar a fúria do seu espírito contra os franceses que dominavam a Lombardia e a Toscana e se mostravam agora vizinhos desagradáveis para os Estados papais. Em Mirandola, jurou que não se barbearia enquanto não tivesse expulsado os franceses da Itália. Foi assim que cresceu majestosamente aquela barba que aparece no retrato que dele fez Rafael. Lançou depois, demasiado tarde, na Itália, um lema vibrante, que diz: Fora os bárbaros! Em outubro de 1511, formou a Liga da União Sagrada com Veneza e a Espanha, conseguiu logo depois a adesão da Suíça e da Inglaterra.

Leão X desencarnou em 1º de dezembro de 1521.

Adrian Dedel, ou Adriano, teve a fama das suas virtudes chegadas a Roma, e Leão X o fez cardeal. No conclave que se realizou depois da desencarnação de Leão X, foi o seu nome indicado como candidato ao papado. Foi eleito sumo pontífice em 2 de janeiro de 1522. Desde 1378, era a primeira vez que se elegia um papa que não era italiano e, também, desde 1161, a primeira vez que se elegia um teutônico, que era descendente de um antigo povo germânico que vivia no centro e norte da Europa.

No conclave que se realizou em 1º de outubro de 1532, travaram-se debates, durante sete semanas, para a escolha do sucessor de Adriano. Elegeu-se, finalmente, um homem que, na opinião geral, era o mais acertado para o cargo. Giulio de Médici era filho ilegítimo do amável Giuliano, que caíra vítima da conspiração dos Pazzi e de uma sua amante. Lourenço o acolheu, quando criança, em sua família, e o criou juntamente com os filhos, entre os quais figurava o que mais tarde iria ser Leão X. Este, como papa, dispensou os empecilhos canônicos que pesavam sobre Giulio, fê-lo arcebispo de Florença e depois administrador de Roma, que recebeu a sua eleição com grande alegria como sendo a volta da idade de ouro de Leão X.

Carlos V, chefe do Sagrado Império Romano, que se achava ainda na Espanha, regozijou-se ao receber a notícia da conquista de Roma. Ficou depois chocado quando soube da selvageria ocorrida nos saques. Eximiu-se de qualquer responsabilidade naqueles excessos e tratou de tirar partido da fraqueza do papa. Em 6 de junho, os seus representantes, possivelmente sem seu conhecimento, obrigaram Clemente VII a assinar uma paz humilhante.

Clemente VII ofereceu a sua rendição completa a Carlos V, e, em 6 de outubro, teve permissão de entrar novamente em Roma. Parece que Carlos V cogitara algum tempo em depor Clemente VII, anexando os Estados papais ao reino de Nápoles, tornando Roma a sede do seu governo e reduzindo o papa ao seu primitivo papel, o de bispo de Roma e súdito do imperador. Isso seria lançar o próprio Carlos V nos braços dos luteranos da Alemanha e cortejar a guerra civil na Espanha e, mais ainda, levaria a França, a Inglaterra, a Polônia e a Hungria a lhe resistirem com todas as suas forças. Abandonou o plano e voltou a cultivar o desejo de transformar o papado em um aliado dependente dele e em um auxiliar espiritual na divisão da Itália entre eles dois. Clemente VII concordou em instaurar Carlos V formalmente em Nápoles.

Em 25 de outubro de 1534, com a morte de Clemente VII, a Dinamarca, a Suécia, metade da Alemanha e parte da Suíça se separaram definitivamente da Igreja, e a Itália se submeteu ao domínio da Espanha, que foi fatal à liberdade do pensamento e da própria vida, liberdade essa que, bem ou mal, assinalava a era da Renascença.

O único consolo da Itália era que, tendo sido conquistada por Carlos V, ficara provavelmente salva de ser espoliada pelos turcos.

Em 1530, com o acordo de Bolonha, a Itália passou a ser dominada pela Espanha, excetuando-se a cautelosa Veneza, que reteve a sua independência, e o castigado papado, cuja soberania sobre os Estados da Igreja fôra confirmada. Nápoles, Sicília, Sardenha e Milão se tornaram Estados que eram vassalos da Espanha, governados por vice-reis espanhóis. Saboia, Mântua, Ferrara e Urbino, que geralmente haviam apoiado ou conluiado com Carlos V, tiveram permissão para manter os seus próprios duques, contanto que observassem uma boa conduta. Gênova e Siena retiveram as suas formas republicanas, porém como protetorados espanhóis. Florença foi obrigada a aceitar outra dinastia dos Médici, a qual, para sobreviver, teve que cooperar com a Espanha.

A vitória de Carlos V assinalou outro triunfo dos Estados modernos sobre a Igreja. As potências da Europa Setentrional não somente haviam descoberto a fraqueza da Itália como também haviam perdido o temor pelo papado.

A partir de 1517, a Reforma Protestante desconsideraria diversas doutrinas e dogmas católicos, e provocaria os maiores cismas do falso cristianismo. Muitos reformadores afirmaram que o papa seria o Anticristo, tais como Lutero, que argumentou que a violência deveria ser utilizada para derrotar a sua autoridade. E Calvino despertou revolta, inclusive entre os seus próprios seguidores, ao chamar de papistas muitos “cristãos” considerados respeitados. Os papas, por sua vez, com a bula Exsurge Domine, fizeram a seguinte comparação com os reformadores, tais como:

Raposas que avançam procurando destruir a vinha… que entregastes ao cuidado, norma e administração… a Pedro, como cabeça e vosso vigário e aos seus sucessores. O javali da floresta procura destruí-la e toda fera selvagem vem devastá-la”.

Como retaliação, os papas instituíram a Reforma Católica, período de 1560 a 1648, que lutou contra as contestações protestantes e instituiu reformas internas. O evento mais significativo da Reforma Católica foi a convocação do Concílio de Trento, período de 1545 a 1563, pelo papa Paulo III, período de 1534 a 1549.

Em meados do século XVI, portanto, havia três variedades de credo estatal no Ocidente: o catolicismo, o protestantismo luterano e o calvinismo. As três variedades tinham um objetivo universalista, esforçando-se para que as suas crenças fossem impostas a toda a falsa cristandade. Tanto os católicos, como os luteranos e os calvinistas perseguiam ativamente os extremistas contrários, mas todos eles se odiavam entre si, vejam só, embora pregassem o amor do Cristo. Quanta incoerência! Mas, com efeito, desde o começo, cada um dos três grupos rivais procurou lançar mão de todo o aparato do Estado, na tentativa de controlá-lo, com o objetivo de impor um monopólio credulário. Afinal, são ou não são os sacerdotes extremamente perigosos ao manejarem a fé credulária e os seus credos e seitas, como base no sobrenaturalismo?

No século XVIII, após a ascensão de Napoleão Bonaparte e a eclosão das Guerras Napoleônicas, os Estados papais foram ocupados e extintos pela França, as revoltas dos romanos contra os franceses foram esmagadas, e o papa Pio VII, período de 1800 a 1823, foi preso em Savona e depois na França.

Com o Congresso de Viena — que foi uma conferência entre os embaixadores das grandes potências europeias, realizado em Viena, capital da Áustria, entre 2 de maio de 1814 e 9 de junho de 1815, cuja intenção principal era a de redesenhar o mapa político do continente europeu, após a derrota da França napoleônica —, os Estados Pontifícios foram recriados, mas novamente foram extintos, em 1870, por Vitor Emanuel II, primeiro rei da Itália, após a unificação, no período de 1861 a 1878, no âmbito da unificação da Itália, iniciando-se a Questão Romana. No mesmo ano, o Concílio Vaticano I proclamou o primado e infalibilidade do papa como dogma.

A Questão Romana se refere à disputa territorial ocorrida entre o governo italiano e o papado, durante os anos de 1861 a 1929, que culminou na criação do Vaticano pelo Tratado de Latrão, durante o governo de Benito Mussolini. Os chamados Estados Pontifícios, que compunham a parte central da península itálica, pertenciam à Igreja Católica desde os tempos medievais, tendo sido doados por Pepino, o Breve, ao papa. No ano de 1754, o papa Estêvão II recebeu do rei franco, Pepino, o Breve, o ducado de Roma e as terras conquistadas dos lombardos com o título de Patrimônio de São Pedro. Em 1861, os italianos promoveram a unificação política da península, mas não conseguiram anexar Roma, dada a forte presença militar francesa em apoio ao papa. Em 1870, os alemães, liderados pela Prússia, declararam guerra à França, durante o processo da unificação alemã. Napoleão III retirou as tropas francesas de Roma. Aproveitando este momento, os italianos anexaram Roma à Itália. O papa Pio IX não aceitou a perda do “Patrimônio de São Pedro” e se declarou prisioneiro do governo italiano, dando origem à Questão Romana.

A Revolução Industrial foi a transição para os novos processos de manufatura, no período entre 1760 e 1840. Esta transformação incluiu a transição dos métodos de produção artesanais para a produção por máquinas, a fabricação de novos produtos químicos e dos processos da produção de ferro, a maior eficiência da energia da água, o uso crescente da energia a vapor e o desenvolvimento das máquinas-ferramentas, além da substituição da madeira e de outros biocombustíveis pelo carvão. Teve início no Reino Unido e em poucas décadas se espalhou para a Europa Ocidental e os Estados Unidos. Ela marca um divisor de águas na história e quase todos os aspectos da vida cotidiana da época foram influenciados de alguma forma por esse processo. Em particular, a renda média e a população começaram a experimentar um crescimento sustentado sem precedentes históricos.

Em resposta aos desafios sociais da Revolução Industrial, o papa Leão XIII, período de 1878 a 1903, publicou a encíclica Rerum Novarum, estabelecendo a doutrina social da Igreja, em que rejeitava o socialismo, mas que defendia a regulamentação das condições de trabalho, o estabelecimento de um salário mínimo e o direito dos trabalhadores de formar sindicatos.

Em 1929, o Tratado de Latrão, assinado entre a Itália e o papa Pio XI, estabeleceu a independência do Vaticano, como cidade-Estado soberana sob o controle do papa, utilizada para apoiar a sua independência política.

Depois de violações da Reichskonkordat, que é a concordata que estabelece os direitos sobre a liberdade credulária católica entre a “Santa” Sé e a Alemanha, assinada em 20 de julho de 1933 pelo cardeal Eugênio Pacelli e Franz von Papen, em nome do papa Pio XI e do presidente Paul von Hindenburg, respectivamente, sendo válido na Alemanha, o papa Pio XI emitiu a encíclica Mit Brennender Sorge, que condenou publicamente a perseguição da Igreja pelos nazistas e a sua ideologia do neopaganismo e da superioridade racial.

Depois que a Segunda Guerra Mundial começou, em setembro de 1939, a Igreja condenou a invasão da Polônia e as subsequentes invasões nazistas de 1940. No Holocausto, o papa Pio XII chegou a dirigir a hierarquia da Igreja para ajudar a proteger aos judeus nazistas, mas apenas na aparência, como estratégia mercadológica, pois, segundo alguns historiadores, apesar de Pio XII ter ajudado a salvar muitos judeus, ele também foi acusado de não fazer o suficiente para impedir as atrocidades nazistas, e o debate sobre a validade dessas críticas continua atualmente.

O Concílio Vaticano II, o XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de dezembro de 1961, através da bula papal Humanae Salutis, pelo papa João XXIII. Este mesmo papa, em ritmo extraordinário, o inaugurou no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado em quatro sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI. Nestas quatro sessões, mais de 2.000 autoridades sacerdotais convocados de todas as partes do mundo discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica. As suas decisões estão expressas nas 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e aprovadas pelo Concílio. Apesar da sua boa intenção em tentar atualizar a Igreja, os resultados deste Concílio, para alguns estudiosos, ainda não foram totalmente entendidos nos dias de hoje, enfrentando por isso vários problemas que perduram até aos dias de hoje.

Após a sua conclusão, o papa Paulo VI e os seus sucessores, especialmente o papa João Paulo II, passaram a ser conhecidos como os “papas peregrinos”, viajando para as diversas partes do mundo e se dedicando inutilmente ao ecumenismo, ou seja, ao processo de busca da unidade, ou ainda, aos esforços em favor da unidade entre as igrejas “cristãs”, ou até mesmo entre todos os demais credos e seitas que pululam por esse mundo afora. O que, convenhamos, não se trata apenas de uma dedicação para chamar a atenção da mídia, pois a Igreja Católica almeja, acima de tudo, poder e dinheiro, e as seitas protestantes almejam, acima de tudo, não tanto o poder, mas apenas o dinheiro, que arrancam dos seus arrebanhados se utilizando de mil e uma artimanhas derivadas da crendice dos seus prosélitos, notadamente em apelo a Jesus, o Cristo, e ao seu deus bíblico.

Caso o papado viesse a conseguir a esse seu intento de unificar todos os credos se seitas em nome de Jeová, o deus bíblico, iria se formar um ambiente fluídico tão trevoso na atmosfera terrena, que seria favorável à destruição da vida na Terra pelo fogo, através do próprio Jeová e das suas falanges de anjos negros.

Além do mais, a Igreja hoje em dia se vê atolada de escândalos por todas as partes do mundo, com os seus sacerdotes praticando cotidianamente o sexo desenfreado com as mulheres casadas ou não, o homossexualismo nos recintos das próprias igrejas em que rezam as suas missas e fazem as suas indevidas confissões, e a pedofilia, com o estupro de menores sendo o carro-chefe de todas as orgias vaticânicas, valendo-se ignominiosamente das posições que ocupam perante as suas comunidades de fiéis, que não passam de uns verdadeiros cretinos, pois que não leem, não estudam e não raciocinam, e assim, de uma maneira estúpida e ignorante, não atentam para os malefícios causados pelos sacerdotes, tanto os pertencentes ao catolicismo, como também os pertencentes das suas inúmeras seitas e dos demais credos, que atravancam o progresso da nossa humanidade.

 

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