13- A CLASSE SACERDOTAL

Prolegômenos
11 de junho de 2018 Pamam

A minha posição ao lado da justiça é irredutível, e dela eu não me desloco um milímetro sequer, assim como também a minha posição ao lado dos mais fracos e oprimidos. Posta então esta minha posição do modo inabalável e sem qualquer retrocesso ou desvio, caso alguém venha a tentar conduzir os seres humanos pelos caminhos tortuosos da mentira e da ignorância, forçosamente será obrigado a se defrontar comigo, pois, fatalmente, posicionar-me-ei em local estratégico para proceder aos devidos resgates, adotando sempre uma ação severa para cada reação contrária à libertação humana, não me importando se em alguma dessas reações, ou mesmo em todas elas, as forças reacionárias vierem todas reunidas em uma ou várias corjas ou cambadas para o confronto, pois pronto eu já estou, não importando se sozinho ou não. Reafirmando o dizer do nosso Cristo que “muitos serão chamados, poucos serão os escolhidos” para a obra remodeladora da nossa humanidade, que é a nossa Grande Causa.

Por isso, em cumprimento a essa minha afirmativa, pois o que eu digo eu faço, custe o que custar, trago aqui neste tópico à parte o assunto que trata da classe sacerdotal, para que tais seres humanos sejam devidamente desmascarados das suas supinas petulâncias e das suas temerárias ousadias em se considerarem ministros de Deus, geralmente apoiados em utópicos livros ditos sagrados, tendo por base a fé credulária, mas sempre semeando a mentira e a ignorância para que assim possam viver em comodidade, explorando o povo que acredita em suas balelas e lorotas. Tais seres humanos que assumem as figuras de sacerdotes, não convêm, por hipótese alguma, àqueles que sentem, pensam e raciocinam com elevação, devendo as suas perniciosas e más companhias ser totalmente descartáveis.

E a mais nefasta atuação da classe sacerdotal se dá justamente no seio das famílias, a inquestionável célula da humanidade, quando os seus integrantes, esses verdadeiros malfeitores da humanidade, intervêm na vida conjugal do casal e na educação dos filhos, sem que muitos sequer constituam família, uma vez que sempre exercem preponderância nas decisões cotidianas familiares, tanto dentro como fora do lar, notadamente quando são confessores dos erros e das dúvidas por que passam todos os seus arrebanhados.

A nossa humanidade nunca atentou para o fato, mas desde os tempos mais remotos da história desta nossa última e definitiva civilização, que os sacerdotes vêm intervindo negativa e prejudicialmente na evolução dos povos. Senão vejamos:

Filhos da mágica, a qual não existe e é invenção daqueles que lidam com espíritos obsessores quedados no astral inferior, foram os sacerdotes, em todos os tempos, desde os tempos idos mais remotos. Gradualmente eles foram suplantando os seres humanos comuns em determinados conhecimentos e habilidades, em função das intuições recebidas e das atuações constantes dos espíritos obsessores quedados no astral inferior em suas vidas, até que passaram a constituir uma classe considerada como se fosse especial, preposta a conduzir as cerimônias credulárias. Assim, por meio da inspiração inferior, do transe mediúnico e da prece esotérica, os sacerdotes mágicos passaram a influenciar e a serem influenciados pelos espíritos inferiores, que eram os seus deuses, todos eles espíritos obsessores, e os colocavam ao serviço dos propósitos humanos. E como esses conhecimentos e habilidades pareciam aos primitivos algo mais valioso do que tudo que de bom e útil existia, o poder dos sacerdotes passou a ser tão grande quanto o próprio poder do Estado. E até nos tempos modernos, mais recentemente, e hoje, em algumas nações, os sacerdotes se vêm alternando com o Estado e até com a própria família na dominação e disciplina dos seres humanos vulgares. Que cafajestes!

Os sacrifícios humanos parecem ter sido praticados em quase todas as épocas e em todos os povos da antiguidade. Provavelmente essa prática se liga ao canibalismo, pois sempre os seres humanos consideravam que os deuses possuíam os mesmos gostos que eles, do mesmo modo como ainda hoje consideram que são a própria imagem e semelhança de um deus bíblico, que não passa de um espírito inferioríssimo, como é prova o sacrifício humano que ele pretendeu fazer com Abraão, determinando a que este sacrificasse a vida do seu próprio filho, o que realmente não ocorreu por interveniência do Astral Superior. Através de médiuns videntes e ouvintes, esse tal de Jeová, o deus bíblico, vem afirmar ser o verdadeiro Deus, o Criador, sem que tenha a mínima noção do que seja realmente a Inteligência Universal, que representa o Todo, sendo, portanto, o verdadeiro Deus, o legítimo Criador; mesmo se apresentando de modo individualizado e restrito a uma simples imagem formada pelo seu corpo fluídico para esses médiuns videntes e ouvintes. Lentamente, porém, a moral e a ética em evolução foram mudando os ritos, os deuses, que eram espíritos obsessores, imitavam a crescente desbarbarização dos seus adoradores, e se resignavam a aceitar sacrifícios de animais, em vez de sacrifícios humanos. Mais tarde, nem animais pilhavam os deuses, os sacerdotes espertalhões comiam a carne boa e só levavam aos altares os ossos e as tripas.

É sabido que os sacerdotes não criaram as religiões, pois as verdadeiras existem e hão brevemente de emergir por intermédio do Racionalismo Cristão, como sendo as legítimas e autênticas fontes das ciências, apenas se utilizaram delas, apropriando-se indevidamente da denominação, velhacamente, criando as falsas religiões, que não passam de simples credos e seitas, assim como os estadistas se utilizam dos impulsos e costumes dos povos. Os credos e as suas seitas das invenções e das chicanas sacerdotais nascem da persistente admiração, do medo, da insegurança e da fraqueza dos seres humanos neste planeta ainda muito atrasado para o meu gosto. Os sacerdotes causaram e ainda causam males e muitos males ao que enveredarem pelos caminhos do devaneio do sobrenatural, da superstição, do mito, e com o monopolizar certas formas de conhecimentos, cujos conhecimentos são totalmente alheios aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade.

De algumas maneiras os credos e as suas seitas suportam a falsa moral, a famosa moral utilitária, destacando-se entre estas maneiras o mito, o tabu e o sobrenaturalismo. O mito cria a fé credulária de onde decorrem as sanções estabelecidas para as normas de conduta socialmente, ou melhor, sacerdotalmente desejáveis, as esperanças de um suposto céu e os terrores de um inventado inferno levam os seres humanos a tolerarem as restrições que lhes são impostas pelos seus dominantes, uma vez que o ser humano, antes de uma formação mais adiantada da consciência, nada o refreia tanto como o medo dos deuses. Os polinésios criaram a palavra tabu para as proibições sancionadas pelos credos e as suas seitas, e os tabus tomavam o lugar do que sob a civilização passou a se tornar lei, assim certos atos e objetos eram declarados sagrados ou impuros, com as duas palavras sugerindo o mesmo aviso: isso era intocável. O sobrenaturalismo, por sua vez, apregoa a existência de algo que se situa além da naturalidade da natureza, assim, situado em tudo aquilo que é contrário e fere frontalmente às leis espaciais, aos princípios temporais e aos preceitos universais.

Surge então a tensão entre os credos e as suas seitas e a sociedade, nos estágios mais altos de cada época desta nossa civilização. Os credos e as seitas sacerdotais começam pelo oferecimento da ajuda mágica ao ser humano cansado e desnorteado pelas intempéries e vicissitudes da vida. Mas como os conhecimentos e as experiências crescem de contínuo, chocam-se de encontro à mitologia e a Teologia, as quais mudam com uma lentidão geológica. O controle sacerdotal sobre as artes e as letras se torna repugnante, e a história da consciência humana assume o aspecto de um conflito eterno entre o credo e as suas seitas e a ciência, tal como se fosse entre religião e ciência, sendo este último conflito indevido. Instituições que em princípio estavam nas mãos dos sacerdotes, como as leis e os castigos, a educação e a moral, o casamento e o divórcio, tendem a fugir a esse controle. Aqueles mais evoluídos, após alguma hesitação, abandonam a velha teologia e, também, o código moral por ela apoiado, cujo código da moral aparente e utilitária não lhes satisfaz. A literatura e a Saperologia, esta última sob a denominação de Filosofia, tornam-se correta e necessariamente antissacerdotais. O movimento de libertação se expande em uma exuberante tendência para a aproximação da razão, e por fim cai em uma paralisante desilusão de todos os dogmas e de todas as representações imaginativas não racionais. A conduta, então, privada dos seus falsos esteios morais, rola por um caos epicurista. E a própria vida, podada da fé credulária, tida como se fosse consoladora, torna-se uma carga, tanto para a pobreza consciente como para a riqueza saciada. Por fim, a sociedade e os seus credos tendem a cair juntos, como um corpo desprovido de alma, em uma harmoniosa desencarnação. No entanto, surgem no seio oprimido novas formas à esperança humana, novas coragens aos esforços humanos pelo esclarecimento espiritual, e, após séculos de caos, emerge outra civilização, mais consciente, que se esforça por alcançar ao âmbito da razão.

Uma tableta litúrgica, com estranha advertência teológica, dizia o seguinte: “O carneiro é o substituto da humanidade, pelo homem o carneiro deu a sua vida”.  Que estupidez! Graças a essas oferendas diversas, os sacerdotes se tornaram a mais rica e poderosa classe das cidades sumerianas. Em muita coisa eles eram o governo, torna-se difícil determinar em que extensão era o sacerdote rei e o rei sacerdote. Urukagina, tal qual Lutero, levantou-se contra as exações dos sacerdotes, denunciou-lhes a voracidade, acusou-os de suborno e fixou as taxas a serem pagas aos templos, que eram exorbitantes. Protegeu assim os fracos e oprimidos ignorantes contra a extorsão clerical, que hoje em dia é mais amena, sobrepondo-se o estelionato. É de se presumir que os sacerdotes recobrassem o poder quando esse rei desencarnou, do mesmo modo que no Egito depois da morte de Ikhnaton. Os seres humanos não discutem o preço da mitologia. Os grandes mitos dos credos e das suas seitas estavam tomando forma. Os sacerdotes transmitiam a educação juntamente com a mitologia, sempre orientados pelos seus interesses de classe.

Haviam mulheres adstritas aos templos sacerdotais sumerianos, algumas como servas e outras na qualidade de concubinas dos deuses, mas na realidade de seus representantes na Terra: os sacerdotes. Servir desse modo ao credo não era desonra para nenhuma mulher da Suméria, já que os pais se sentiam orgulhosos de que os encantos das suas filhas aliviassem o monótono do viver “divino”, e lhes celebravam a admissão nos templos sacerdotais com grandes cerimônias e a entrega do dote aos sacerdotes. Quanta safadeza, quanta patifaria, quanta sordidez, cometiam esses terríveis e astuciosos seres humanos!

A literatura egípcia está cheia de mágicos. Diz Heródoto que “Cada dia e mês é consagrado a algum deus”. No fim, até mesmo a ligação entre a moral utilitária e o credo desaparece. O caminho para a salvação não é a vida perfeita, virtuosa, honrada, mas sim a mágica, o ritual, a generosidade pecuniária para com os sacerdotes. Um grande egiptólogo diz que “Os perigos do além se multiplicavam, e para cada situação crítica os sacerdotes entravam com um encantamento infalível. Assim o desenvolvimento moral do Egito foi sustado pela ganância e pela corrupção da classe sacerdotal. Tal era o estado do credo no Egito quando Ikhnaton, ou Amenotep IV, poeta e tido pelos historiadores como herético, mas que não era herético coisa nenhuma, subiu ao trono e inaugurou a revolução credulária que destruiu o Império do Egito. Eis uma das atuações de um dos poucos grandes espíritos que encarnam com o fim de restabelecer a moral e a ética no seio de uma nação desprovida dos seus atributos.

No Egito, no ano 1380 a.C., Amenotep III, sucessor de Tutmés III, desencarnou depois de uma vida de grande ostentação e foi substituído pelo seu filho Amenotep IV, ou seja, Ikhnaton.

Mal subiu ao poder, ele começou a se revoltar contra o credo e as práticas dos sacerdotes. No grande templo de Carnac havia um grande harém, pretensamente destinado ao deus, mas, na realidade, destinado aos sacerdotes. O jovem imperador, cuja vida era um modelo de fidelidade conjugal, não aprovou aquela “sagrada” prostituição, e muito menos a traficância sacerdotal dos amuletos e rezas para manter o obscurantismo e a corrupção. Disse ele que “Mais perversidade há nas palavras dos sacerdotes, do que em quantas ouvi até o ano IV do meu reinado”. O seu espírito moço se revoltou contra a sordidez em que o credo e o povo tinham caído, e corajosamente anunciou que todos aqueles deuses e aquelas cerimônias não passavam de uma vulgar idolatria e o deus era um só: Aton.

Ikhnaton proibiu aos artistas de representar qualquer imagem de Aton, com a mais elevada ideia de que o verdadeiro Deus não tem forma. Quanta evolução espiritual não tinha esse grande estadista! Quanto ao mais, ficaram as artes inteiramente livres, ele só pedia aos seus artistas prediletos, que eram Bek, Auta e Nutmés, que descrevessem as coisas como as viam, e esquecessem as convenções sacerdotais.

No Egito, Ikhnaton sonhou o absoluto e tentou destruir de golpe toda a velha estrutura credulária de um povo, tornando-se ciente desse extremo devaneio. Despojou e afastou a opulenta classe dos sacerdotes e proibiu a adoração das velhas divindades, cujas divindades, ou deuses, não passavam de espíritos obsessores decaídos no astral inferior.

Mas Ikhnaton não avaliou devidamente a força e a pertinácia da classe sacerdotal, e admitiu no povo uma certa capacidade de compreensão do novo credo, a qual ainda não existia. Nos bastidores os sacerdotes entraram a conspirar, e às ocultas o povo persistia na adoração dos antigos e inumeráveis deuses. Eis como é difícil o esclarecimento espiritual dos seres vulgares! Enquanto isso, o jovem vivia na simplicidade e na confiança. Tinha sete filhas e nenhum filho. E apesar de pela lei egípcia estar autorizado a gerar um herdeiro em outra esposa, preferiu se manter fiel a Nofretete. Uma pequenina obra de arte que chegou até nós, mostra-nos Ikhnaton abraçando a rainha. Ele permitia que os artistas o representassem de carro pelas ruas, recreando-se alegre em companhia da esposa e das crianças. Nas cerimônias públicas, Nofretete se sentava ao seu lado, pegando-lhe a mão, enquanto as crianças brincavam aos pés do trono.

Infelizmente, dois anos após a morte de Ikhnaton, o seu genro, Tutancamon, um favorito dos sacerdotes, elevou-se ao trono. Mudou o nome de Tutancamon que o seu sogro lhe dera, restaurou Tebas como a capital e o poder do sacerdócio, e anunciou ao povo jubiloso a volta dos velhos deuses. As palavras Aton e Ikhnaton foram raspadas dos monumentos, e os sacerdotes proibiram que os fiéis as pronunciassem. O povo passou a se referir a Ikhnaton como “O Grande Criminoso”. E tudo voltou a ser como dantes. Como é difícil combater a maldade e a ignorância sacerdotal! Mas não impossível, como assim o demonstrarei!

Rameses II foi o último dos grandes faraós. Raramente a história se refere a um monarca de tanto pitoresco. Sendo belo e bravo, acrescentava aos seus encantos a juvenil consciência que deles tinha. As suas façanhas na guerra, que ele nunca cessava de comemorar, só foram igualadas pelas suas façanhas no amor, quero dizer, no sexo. Empreendeu a reconquista das províncias que se haviam libertado. Três anos lhe custou a retomada da Palestina. Depois defrontou um grande exército de asiáticos em Kadesh, no ano de 1228 a.C., e graças à coragem e ao engenho transformou uma derrota em vitória. Deve ter sido como resultado desta campanha que grande número de judeus foi trazido para o Egito, como escravo ou imigrante. E Rameses II é dado como o faraó que a Bíblia se refere no Êxodo.

Em 1225 a.C., Rameses II desencarnou aos noventa anos de idade, depois de um dos mais notáveis reinados da história. No entanto, um só poder foi maior que o seu no Egito: o da classe sacerdotal. Ali, como em toda a história, desdobrava-se a luta sem fim entre a igreja e o Estado. No reinado de Rameses II e dos seus imediatos sucessores, os despojos de todas as guerras, e a parte do leão nos tributos foram para os templos e os sacerdotes, que alcançaram o zênite do poder no reinado de Rameses III. Nesse tempo, os sacerdotes estavam na posse de 107.000 escravos, cujo número representava um trigésimo da população total do Egito; detinham um sétimo de todas as terras aráveis; meio milhão de cabeças de gado; recebia as rendas de 169 cidades egípcias e sírias; e todas as suas propriedades eram isentas de impostos. O “generoso” e “tímido” Rameses III doou riquezas sem paralelo aos sacerdotes, inclusive 32 mil quilos de ouro e um milhão de quilos de prata, entregando-lhes a cada ano 185 mil sacos de trigo. Esvaziou o tesouro ao ponto de não poder pagar aos funcionários da administração. O povo ia afundando na miséria para que os sacerdotes pançudos assim engordassem.

Com tal política, era inevitável a servidão dos reis aos sacerdotes. No reinado do último ramesida, o Sumo Sacerdote de Amon usurpou o trono e governou como autoridade suprema. O império se tornou uma teocracia estagnada, em que só floresciam a arquitetura e a superstição. Tudo o mais decaiu, desmoronando por completo. Manipulavam-se presságios para dar sanção divina a cada interesse dos sacerdotes.

Na Babilônia, o poder do rei era limitado não só pela lei e pela aristocracia, como também pela classe sacerdotal. Tecnicamente, o rei era apenas o agente do deus da cidade. As taxas vinham em nome do deus, mas iam direta ou indiretamente para os tesouros dos templos sacerdotais. Aos olhos do povo, o rei só era rei depois de investido na autoridade pelos sacerdotes, tendo tal prática sido copiada astuciosamente pelo papado séculos depois. Assim, ”tomava as mãos de Bel” e conduzia a imagem de Marduk em solene procissão pelas ruas. Nessas cerimônias, vestia-se sacerdotalmente, como símbolo da união entre a igreja e o Estado, e talvez da origem sacerdotal da realeza. O temor ao sobrenatural era um pálio sobre o trono, que fazia da rebelião a maior das impiedades, castigada não só com a perda da vida, como ainda com a da alma. Mesmo o poderoso Hamurabi recebia as suas leis da divindade. Desde o tempo dos patesis, ou sacerdotes-governadores da Suméria, até a coroação de Nabucodonosor, a Babilônia permaneceu um Estado teocrático, permanentemente nas garras dos sacerdotes.

E os reis, sempre necessitados de especiais indulgências, idênticas àquelas que fizeram surgir a Reforma de Lutero, construíam templos, dotavam-nos de mobiliários, alimentos, escravos e grandes áreas de terra, e ainda de subvenções anuais. Não podendo por si mesmos consumir todas essas riquezas, os sacerdotes procuravam empregá-las, tornando-se assim os maiores negociantes da Babilônia.

Às vezes o rei requisitava alguma dessa riqueza dos templos, nos casos de emergência, mas era coisa perigosa, porque os sacerdotes lançavam terríveis maldições sobre quem desfalcasse na mínima importância os templos. Além disso, a influência dos sacerdotes no povo era maior que a dos reis, aos quais podiam até depor. Tinham ainda a vantagem da permanência. O rei morria, mas o deus não. O conselho dos sacerdotes, livre dos perigos da eleição, da doença, dos homicídios e das guerras, formava uma corporação perpétua, que tornava possível as políticas de longo alcance, como ainda hoje acontece. A supremacia dos sacerdotes era, pois, inevitável. A ignorância de um povo permitiu que os comerciantes fizessem a Babilônia e os sacerdotes a gozassem.

Os deuses, que eram espíritos obsessores, não se distanciavam grandemente dos homens, já que eles viviam nos templos, obsedando aos sacerdotes, que comiam com excelente apetite e com as suas visitas noturnas às damas piedosas davam inesperada prole aos sempre atarefados maridos da Babilônia, tal como assim ainda fazem os sacerdotes de hoje em dia, notadamente os da igreja católica e os das suas inúmeras seitas protestantes, que a título de evangelização e outros interesses ditos das igrejas, frequentam indevidamente aos lares nos horários em que os maridos estão trabalhando, para com isso seduzirem as suas mulheres, dando inesperada prole aos maridos tolos e ausentes.

Eram necessárias muitas oferendas para que os simples da Babilônia pudessem manter bem gordos os seus deuses, logicamente que por intermédio dos respectivos sacerdotes. A oferenda usual consistia em alimento e bebida, porque nisto havia uma vantagem: o que não era consumido pelos “deuses“ ia para o lixo. Vítima frequente dos altares babilônicos sempre foi o cordeiro, e uma velha encantação babilônica antecipa o simbolismo judaico e falso cristão: “O cordeiro como substituto do ser humano, o cordeiro que por ele dá a vida”. O sacrifício era um ritual complicado, que exigia a técnica do sacerdote, pois cada ato ou palavra da cerimônia estavam fixados pela tradição. Em geral, o credo babilônico se resumia na estrita observância do ritual, assim como na “santa” missa, e não na vida perfeita, virtuosa, honrada. E para cumprir os seus deveres para com a divindade, era indispensável o sacrifício no templo e a repetição das mesmas orações, que hoje em dia, com base na mentirosa Bíblia, os sacerdotes das seitas protestantes pregam que devem ser sempre diferentes umas das outras. Quanto ao resto, podia o fiel arrancar os olhos do adversário caído, cortar os pés e as mãos dos escravos, ou mesmo assá-los vivos em fornalhas. Nada disso ofendia ao céu. Tomar parte nas procissões, ungir os ídolos com óleos perfumados, queimar diante deles incenso, vesti-los ricamente, adorná-los de joias, oferecer a virgindade das filhas nas grandes festas a Ishtar, às vezes amante e às vezes mãe de Tammuz, nunca faltar com alimentos e bebidas diante dos altares e ser generoso para com os sacerdotes, isso era o essencial para a devota alma da Babilônia.

A Babilônia nunca chegou a ter alfabeto próprio, contentou-se com o silabário de trezentos sinais. A memorização dessas sílabas, juntamente com a instrução credulária e matemática, formavam o curso das escolas do templo, em que os sacerdotes transmitiam aos moços o que lhes convinham transmitir. Que pouca vergonha! Uma escavação revelou uma classe de escola, em que as tabletas dos meninos, com cópia de máximas virtuosas, ainda estavam no chão, como se súbito desastre houvesse interrompido a aula. Isso, ressalte-se, há dois mil anos antes de Cristo, quando se findava e se iniciava uma Nova Era, sabendo-se que esse ciclo se dá de dois em dois mil anos.

Na Babilônia, o povo atendia aos sacerdotes e enchia os templos em busca dos favores dos deuses, exatamente tal e qual o povo de hoje enche os templos, notadamente os das inúmeras seitas protestantes, em busca dos favores do deus bíblico, iracundo e vingativo, além de restrito e limitado a um simples ser, como se fôra de carne e osso. O “maravilhoso” é que se mostrasse por tanto tempo leal a um credo que lhe dava tão pouco. Nada podia ser sabido, declaravam os sacerdotes, a não ser pela revelação, assim como pela revelação os sacerdotes apregoam o conhecimento acerca da vida fora da matéria, em detrimento da capacidade humana para perceber e captar a verdade, e todos os conhecimentos somente podiam vir por intermédio deles.

Na Assíria, depois do exército, o principal apoio do monarca estava na igreja, e por isso se pagava a ela generosamente. A cabeça formal do Estado era a ficção do deus Assur. Tudo se fazia em seu nome. As leis eram emanações da sua divina vontade, todas as taxas eram coletadas para o seu tesouro, todas as campanhas eram para cumulá-lo de riquezas e glórias, assim como glorificado é o deus bíblico, que formou o seu exército. O seu próprio rei era descrito como um deus, usualmente a encarnação de Shamash, o deus-sol. O credo da Assíria, assim como a língua, fôra importada da Suméria e da Babilônia, sofrendo na passagem as necessárias adaptações a um Estado militar.

Relevos em Ninive, na Assíria, mostram homens sendo empalados ou esfolados, outros submetidos ao arrancamento da língua. Um deles mostra um rei furando os olhos dos prisioneiros com a lança, enquanto mantém a cabeça da vítima segura por uma corda passada através dos lábios. O credo nada fez no sentido de atenuar a essa tendência para a brutalidade. Exerceu menos influência no governo do que na Babilônia, e se orientava de acordo com as necessidades e gostos do rei. Assur, a deidade nacional, um espírito obsessor chefe de falanges, era um deus solar, belicoso e implacável para com os inimigos. Criam os fiéis que ele se regalava com o espetáculo da execução dos prisioneiros diante do seu altar, exatamente o que o astral inferior adora fazer. A principal função do credo assírio consistia em treinar os futuros cidadãos para uma patriótica docilidade, e lhes ensinar a arte de obter favores dos deuses por meio de mágicas e sacrifícios. Os únicos textos credulários que chegaram ao nosso conhecimento são de exorcismos e presságios. Os sacerdotes descreviam o mundo como recheados de demônios, tal qual hoje ainda o fazem, que nada mais são do que os espíritos obsessores quedados na atmosfera da Terra, que ainda não ascenderam aos seus Mundos de Luz, os quais fazem parte integrante do astral inferior, e que sempre os acompanharam, assim como os acompanham até aos dias de hoje, aos quais os seres humanos mantinham afastados por meio de amuletos e cuidadosas encantações.

Na teologia judaica, somente os sacerdotes podiam oferecer sacrifícios, ou explicar os mistérios e os ritos da fé credulária. Assim, eles formavam uma casta fechada, para a qual só tinham ingresso as pessoas da tribo de Levi, um dos filhos de Jacó. Não podiam herdar propriedades, mas estavam isentos de taxas e impostos. Percebiam o dízimo das colheitas e rebanhos, e se utilizavam pessoalmente das oferendas ao templo não consumidas pelos deuses, que obviamente nada consumiam, por se tratar de espíritos obsessores. Depois do Exílio a riqueza dos sacerdotes cresceu com a riqueza pública, e com a boa administração se conservou em aumento ao ponto de fazer os sacerdotes do Segundo Templo ainda mais poderosos do que os reis, como sucedera em Tebas e na Babilônia.

A maior ação dos judeus, quanto aos efeitos nos dias de hoje, foi a composição da Bíblia. Como o povo estivesse derivando da adoração de Jeová para a adoração dos deuses de fora, todos espíritos obsessores decaídos no astral inferior, os sacerdotes ponderaram se não era tempo de uma última tentativa contra a desintegração da fé credulária nacional. Agindo como os profetas, que atribuíam a Jeová a ardente paixão das suas próprias almas, os sacerdotes resolveram dar ao povo uma comunicação de um deus em pessoa, um código de leis que revigorasse a vida moral da nação e, ao mesmo tempo, atraísse o apoio dos profetas por meio da incorporação dos seus pensamentos menos extremados. Prontamente conquistaram para o plano a aquiescência do rei Josias. E no 18º ano do seu governo, o sacerdote Hilkiah anunciou que havia “encontrado” nos arquivos secretos do templo, um maravilhoso rolo no qual o próprio Moisés, sob o direto ditado de Jeová, regulara, de modo definitivo, todos os problemas em perpétuo debate. O “achado” causou grande sensação. O rei Josias reuniu no templo os mais velhos de Judá e lhes deu o “Livro da Lei”, na presença de mil pessoas, segundo dizem. E solenemente jurou que dali por diante respeitaria as leis encontradas. E fez com que toda a assistência se conformasse com aquilo.

O código nos Dez Mandamentos decretava que era esse deus o rei invisível que ditava as leis e impunha as penas. E o nome de Israel dado ao povo queria dizer “defensores de deus”. Os sacerdotes autores do código, assim como os “piedosos” inquisidores, acreditavam que a unidade credulária era condição social. Vale-se ressaltar que era algo usual a divindade dos códigos. As leis do Egito foram dadas pelo deus Thoth, e as leis de Hamurabi pelo deus Shamash. Do mesmo modo a deidade deu ao rei Minos, sobre o monte Dicta, as leis de Creta. Os gregos representavam Dionísio, o Legislador, com duas tábuas de pedra em que as leis estavam escritas. E os persas nos contam como, um dia, estando Zoroastro a orar na montanha, Ahura-Mazda lhe apareceu em um trovão e lhe entregou o Livro da Lei. Diz então Deodoro o seguinte:

Eles todos faziam assim, porque acreditavam que uma concepção capaz de ajudar a humanidade só podia ser divina, ou porque achavam que desse modo as leis seriam mais respeitadas”.

A lei credulária, portanto, era a única lei de Israel. Os sacerdotes e os templos faziam às vezes tanto de juízes como de cortes. E os que se recusavam a aceitar a decisão dos sacerdotes recebiam a pena de morte.

Na Pérsia, ofereciam-se sacrifícios de flores, pães, frutas, perfumes, bois, carneiros, camelos, cavalos, jumentos e veados a Ahura-Mazda. E anteriormente até de vítimas humanas. Os deuses só percebiam o cheiro das vítimas, pois as partes comestíveis eram guardadas para os sacerdotes, porque, como eles aos seus modos bem explicavam, os deuses só queriam os espíritos das vítimas.

As crianças da Pérsia ficavam ao cargo da mãe até aos cinco anos, e ao cargo do pai dos cinco aos sete. Depois dos sete entravam para a escola. A educação consistia privilégio dos abastados, e sempre era conduzida pela classe sacerdotal, que assim, desde priscas eras, já se danava, ardilosa e astuciosamente, a moldar o corpo fluídico, ou perispírito, dos seres humanos em formação educacional. As classes se reuniam no templo ou na casa dos sacerdotes. Os textos escolares estavam no Avesta, os temas eram credo, medicina e lei.

Na Índia, como o credo crescesse em importância e complexidade de rituais, e requeresse hábeis intermediários entre os homens e os deuses, os brâmanes foram subindo de número, de riqueza e de poder. Como educadores da infância e transmissores orais da história da raça, da literatura e das leis, tornavam-lhes possível remodelar o passado e preparar o futuro à sua própria imagem, afeiçoando cada nova geração na alta reverência ao sacerdócio e construindo para a classe um prestígio que lhes iria dar a situação suprema na sociedade indiana.

No antigo credo védico indiano, os altares se improvisavam a cada sacrifício. Esse sacrifício era concebido em termos mágicos. Se adequadamente realizado, traria recompensa, fossem quais fossem as virtudes morais do adorador. Os sacerdotes cobravam caro a ajuda aos fiéis na realização desses complicados sacrifícios. Mas se não viam o dinheiro na mão, recusavam-se a recitar as necessárias fórmulas, por isso tinham que ser pagos antes dos deuses. Haviam regras estabelecidas por eles quanto à remuneração de cada serviço, quantos cavalos ou quantas vacas, ou quanto ouro. O ouro era a remuneração mais adequada a comover os sacerdotes ou o deus. Os Brahmanas, escrito pelos brâmanes, instruíram os sacerdotes quanto aos meios de inverter as orações e sacrifícios feitos sem o devido pagamento. Haviam também regras prescrevendo as cerimônias adequadas para cada ocasião da vida, e sempre com a obrigatória presença dos sacerdotes. Lentamente os brâmanes se tornaram em casta privilegiada e hereditária, mantendo a vida espiritual e mental da Índia sob um controle ameaçador de sufocar qualquer sentimento ou pensamento e qualquer mudança.

Buda, esse grande espírito, não perdoa aos sacerdotes do seu tempo, despreza-lhes a admissão de serem os Vedas inspirados pelos deuses, mas que eram sim, pois que os deuses eram espíritos obsessores decaídos no astral inferior, e escandaliza a casta bramânica com o aceitar em sua ordem membros de qualquer casta. Ele denuncia os sacrifícios aos deuses e olha com horror a chacina de animais nesses ritos, cujos ritos fazem as delícias dos espíritos obsessores quedados no astral inferior. Rejeita o culto e a adoração de entidades sobrenaturais, bem como todos os mantras e encantações, todo ascetismo e prece. Calmamente, sem controvérsia, ele oferece uma doutrina absolutamente livre do dogma e do sacrifício, e proclama um caminho na evolução aberto igualmente para os fiéis e os infiéis. Charles Eliot afirma o seguinte a respeito de Buda:

O mundo não foi concebido como o trabalho manual de uma personalidade divina, nem a moral como a vontade dessa personalidade divina; O FATO DE UMA RELIGIÃO PODER EXISTIR SEM ESSAS IDEIAS É DA MAIOR IMPORTÂNCIA (grifo e realce meus).

Rahula, o filho de Buda, acompanhou-o e o amou, dizendo ser agradável a sua sombra ascética, que de início ele havia adotado. Embora a mãe de Rahula o quisesse ver no trono, o Mestre aceitou o filho na ordem budista, essa doutrina original sem sacerdócio, no seu início.

Nenhum código de leis tinha aplicação em toda a Índia. Nos negócios comuns da vida o lugar da lei era ocupado pelos dharmas hastras, compêndios com os regulamentos das castas e obrigações, compostos pelos brâmanes, em um estrito ponto de vista bramânico. O mais velho desses dharmas era o chamado Código de Manu. Manu era um mítico ancestral da tribo Manava, ou escola, dos brâmanes vizinhos de Delhi. Sendo filho de um deus, recebera as leis das mãos do próprio Brama. Esse código de 2.685 versículos era tido como datado de 1.200 a.C., mas hoje anda vagamente posto nos primeiros séculos da era cristã. Embora no começo não passasse de um guia de conduta da tribo Manava, foi gradualmente se espalhando como o código moral de toda a Índia. E mesmo sem nunca ter sido aceito pelos reis muçulmanos, adquiriu força de lei dentro do sistema de castas.

A partir do século II da nossa era, encontramos menções de grandes donativos, sobretudo de terras à casta dos brâmanes. Essas terras, como todas as propriedades bramânicas, permaneceram isentas de taxas até a chegada dos ingleses. O Código de Manu adverte o rei a nunca taxar um brâmane, mesmo quando todas as outras fontes de renda estejam esgotadas, porque um brâmane irado pode imediatamente destruir o rei e todo o seu exército apenas com a recitação das maldições dos textos místicos. Ora, mas os bíblicos também não são temerosos da ira de Jeová? Que absurdo mais idiota!

Tanto nos milagres como nas milhares de superstições havia outra excelente mina para a exploração sacerdotal. Porque o brâmane podia tudo. Podia tornar fecunda a mulher estéril ou, por meio de oráculos, conduzir negócios. Homens de loucura simulada confessavam ao povo que aquilo era castigo por se terem mostrado pouco generosos em relação aos sacerdotes.

O poder dos brâmanes se baseava no monopólio do conhecimento. Eram eles os guardiões e os reformadores das tradições, os educadores das crianças, os compositores de literatura e os editores, os inspirados intérpretes dos infalíveis Vedas.

Segundo o Código de Manu, um brâmane estava por direito divino sobreposto a todos os seres humanos, na qualidade de um ser sagrado. A sua pessoa e os seus bens eram invioláveis. E em função da sua “divindade”, segundo o Código de Manu, “tudo o que existe no universo é propriedade dos brâmanes”. Esses seres humanos infelizes tinham de ser mantidos por meio de doações públicas e privadas, não como caridade, mas como obrigação sagrada. A hospitalidade a um brâmane constituía alto dever credulário, e o que não era bem recebido se retirava levando todo o mérito das boas obras do hospedeiro. Além de estúpido, ingrato!

O mais terrível é que não havia condições sexuais nos grupos bramânicos. Os brâmanes Nambudri exerciam o jus primae nocti sobre todas as noivas do seu território. E os sacerdotes Pushtimargiya, de Bombaim, mantiveram estes privilégios até aos tempos recentes. E como se não bastasse, os sacerdotes do templo de Tirupati se ofereciam para curar a esterilidade das mulheres que passassem uma noite no templo.

Quem tentasse bater em um brâmane sofreria cem anos no inferno, e mil anos quem de fato batesse.

O brâmane não agia apenas como sacerdote, mas também se educava para as funções de pedagogo e literato. Tinha de estudar leis e aprender os Vedas. E tudo o mais se subordinava a isto. O simples repetir os Vedas assegurava aos brâmanes a beatitude, independentemente de ritos e obras. E, se soubesse de cor o Rig-Veda, poderia destruir o mundo sem incorrer em nenhuma falta.

Na Índia a moralidade era dharma, e a regra de vida de cada ser humano determinada pela sua casta. Em adição ao dharma de cada casta, o hindu reconhecia um dharma geral, ou uma obrigação que afetava a todas as castas: respeito aos brâmanes e reverência pelas vacas.

Os brâmanes confiavam no conservantismo do pobre como força preservadora da ortodoxia credulária, e não se enganavam; como ainda hoje não se enganam os sacerdotes católicos e protestantes, assim como todos os demais.

Tanto quanto podemos penetrar na história indiana, encontramos um sistema educacional ativo, sempre nas mãos dos sacerdotes, aberto no começo somente aos filhos dos brâmanes.

No Japão, os imperadores do período Quioto fizeram piedosos esforços para impor as leis budistas contra a matança de animais, mas quando o povo verificou que secretamente os sacerdotes violavam a essas leis, passaram a considerar a carne como um petisco e sempre que podiam usavam-na com excesso.

Expressos pelas excelentes caricaturas em madeira e marfim feitas pelos japoneses, os sacerdotes, que antes haviam transformado a doutrina de Buda em credo, pois que somente no âmbito do sobrenatural é que eles conseguem se sobrepor aos homens comuns, arrebanhando-os e os encabrestando, tornando-os dóceis como se fossem uns verdadeiros cordeirinhos, tais como sacerdotes budistas, tornaram-se indolentes e ávidos pelo poder e pela riqueza, tanto que alguns se afastaram dos ensinamentos de Buda ao ponto de organizarem exércitos poderosos para a conquista do poder político, tais como os papas iriam fazer no futuro. Esses sacerdotes davam ao povo artigos de primeira necessidade: consolação e esperança. E, portanto, as suas indústrias prosperavam enquanto outras decaíam. A riqueza dos sacerdotes budistas foi em plena ascensão, enquanto a pobreza do povo permanecia a mesma. Eles asseguravam aos fiéis que os homens de 40 anos podiam obter mais dez anos de vida, se pagassem missas em quarenta templos; os de 50 anos, se as pagassem em 50 templos; os de 60 anos, se as pagassem em 60 templos; e assim por diante. Sob o regime de Tokugawa, os sacerdotes bebiam regaladamente, sustentavam amantes, praticavam a pederastia e a pedofilia, e ainda vendiam a quem mais dava os melhores lugares hierárquicos. Sobre isso, Murdoch diz o seguinte:

Era justamente nos tempos da fome, ou quando os homens morriam de peste aos milhares, que os sacerdotes dos grandes mosteiros de Quioto e Nara se regalavam mais suntuosamente, porque nos tempos de calamidade os donativos afluem.

Em 1454, meninos eram frequentemente vendidos aos sacerdotes, os quais os vestiam de mulher, raspavam-lhes as sobrancelhas, empoavam-nos e deles usavam como se mulheres fossem. Desde os dias de Yoshimitsu, que dera o mau exemplo neste e em outros pontos, a prática da pederastia se tornara muito comum, especialmente nos mosteiros”.

Em Corinto, foi o comércio que serviu de base à riqueza sacerdotal, também auxiliada pelas devotas de Afrodite, pois muito comum em Corinto era ofertarem ao templo de Afrodite mulheres que para servir a deusa se davam à prostituição, entregando a renda aos famigerados sacerdotes, que assim viviam a expensas da mulher pública a quem simulavam proteger, agindo como verdadeiros e autênticos rufiões, ou, em uma linguagem mais popular, como autênticos e verdadeiros gigolôs.

Enquanto no Egito e no Oriente Próximo o sacerdócio dominava o Estado, felizmente na Grécia o Estado dominava o sacerdócio, tomava para si o governo do credo e reduzia o clero a simples funcionários dos templos. Os bens pertencentes aos templos, mesmo que fossem propriedades imóveis, dinheiro ou escravos, eram devidamente fiscalizados e administrados por funcionários do Estado. Não existiam seminários para a formação de sacerdotes, e qualquer pessoa podia ser escolhida para tal, bastando que conhecesse os ritos do deus. Em muitas localidades o posto cabia a quem oferecesse melhor lance, assim como muitos davam os melhores lances para se tornarem papas ou cardeais na Igreja Católica Apostólica Romana. Nada de hierarquia sacerdotal. Os sacerdotes de um templo ou Estado, em geral, não tinham a mínima ligação com os dos outros.

Em Atenas, a hospitalidade continuava sendo uma das suas maiores virtudes. Estranhos eram acolhidos mesmo sem apresentação. Caso trouxessem cartas de algum amigo comum, eram-lhes oferecidos leito e mesa, e por vezes presentes de despedida. Um convidado tinha sempre o direito de trazer consigo alguém que não o fosse. Essa liberdade de ingresso criou com o tempo uma classe de parasitas, em grego parasitoi, termo originalmente aplicado aos sacerdotes que comiam o trigo em excesso ao consumo do templo.

A Macedônia era ainda em grande escala um país bárbaro, habitado por montanheses, mas analfabetos, quando Filipe subiu ao trono em 359 a.C.; e, realmente, até ao fim da sua carreira, e embora se servisse do grego como idioma oficial, a Macedônia não contribuiu com um só autor, artista ou saperólogo para a vida da Grécia.

Alexandre, o Grande, filho de Filipe, tornou-se um dos maiores conquistadores da História. Após a sua desencarnação, o menor, porém o mais rico bocado da herança de suas conquistas, coube ao mais hábil e ao mais sábio dos seus generais, o intrépido Ptolomeu. Com característica lealdade e como visível sensação da sua autoridade, Ptolomeu, filho de Lago, levou o corpo do rei morto para Mênfis e o sepultou em um sarcófago de ouro. Era um soldado simples e rude, capaz de sentir generosamente e de pensar com realismo. Enquanto os outros herdeiros do reino de Alexandre viviam em guerra e sonhavam com uma soberania absoluta, Ptolomeu tratou de consolidar a sua posição em um país estrangeiro que ele herdou do grande conquistador, o Egito, e incentivar a agricultura, o comércio e a indústria. Construiu uma grande esquadra e tornou o Egito tão protegido contra os ataques navais quanto o era naturalmente inacessível por terra. Auxiliou Rodes e as Ligas a se conservarem independentes da Macedônia, e por essa forma conquistou o título de Soter, Salvador, daí a razão pela qual os nascidos em Salvador, a capital da Bahia, recebem a denominação de soteropolitanos, que é a helenização do nome da cidade, pois que o nome é derivado do grego.

Em 305 a.C., após dezoito anos de muitos esforços, somente quando viu firmemente organizada a vida política e econômica do seu pequeno reino, é que resolveu adotar o título de rei. Graças a ele e ao seu sucessor, o Egito Grego pôs sob o seu domínio Cirene, Creta e as Cíclades, Chipre, Síria, Palestina, Fenícia, Samos, Lesbos, Samotrácia e o Helesponto. Em sua velhice, ainda encontrou tempo para escrever comentários prodigiosamente verdadeiros sobre as suas campanhas e para fundar, por volta de 290 a.C., o museu e a biblioteca que iriam dar fama a Alexandria. Em 285 a.C., sentindo o peso dos oitenta e dois anos, indicou para ocupar o trono o seu segundo filho, Ptolomeu Filadelfo. Entregou-lhe o governo e passou a simples súdito do jovem monarca. Dois anos depois desencarnaria. Ptolomeu Filadelfo fez remover o sarcófago de Alexandre para Alexandria e Ptolomeu Coces derreteu o ouro para se servir dele e expôs os restos mortais de Alexandre em um esquife de vidro.

Os sacerdotes egípcios, privados da antiga riqueza e força que antes detinham, e dependentes agora do dinheiro do Estado para se manterem, esperaram pacientemente que a onda grega recuasse. No fim, não foi o helenismo que venceu em Alexandria, mas sim o misticismo oriundo da mistura dos cultos prometedores do céu, que disputaram a alma alexandrina nos últimos tempos antes de Cristo. Osíris e Serapis se tornaram os deuses favoritos dos egípcios e de muitos egípcios de origem grega. Ísis readquiriu a antiga popularidade, como deusa das mulheres e da maternidade. Quando o falso cristianismo entrou em cena, nem os sacerdotes e nem o povo encontraram a menor dificuldade em substituir Ísis por Maria.

Os ptolomeus gostavam da guerra, e mais a mais empatavam as reservas do povo em exércitos, esquadras e campanhas. O fato dos exploradores serem estrangeiros nunca foi esquecido pelos egípcios, e muito menos pelos sacerdotes, pois estes sonhavam com os regabofes em que viviam antes dos domínios persa e grego.

Em 216 a.C., os egípcios se revoltaram, mas foram dominados. Em 189 a.C., tornaram a se rebelar e o motim durou cinco anos. Os ptolomeus venceram temporariamente com a força dos seus exércitos e com a elevação das contribuições que davam aos sacerdotes. Mas a situação se tornou insustentável.

Por volta do século II, os gregos haviam deixado de ser a raça dominante, até mesmo no terreno político. Os ptolomeus, a fim de preservarem a própria autoridade, haviam adotado a crença e o ritual egípcios, e ampliado o poder dos sacerdotes. Enquanto os reis iam vivendo em folgada vida, os sacerdotes retomavam a liderança e reconquistavam de ano para ano as terras e os privilégios que os primeiros ptolomeus lhes haviam retirado. A Pedra de Roseta, datada de 196 a.C., descreve as cerimônias da coroação de Ptolomeu V quase seguindo completamente as regras egípcias. Sob Ptolomeu V, que reinou entre 203 a 181 a.C., e sob Ptolomeu VI, que reinou entre 181 a 145 a.C., as disputas dinásticas absorveram as energias da casa real, enquanto a agricultura e a indústria decaíam vertiginosamente. A ordem e a paz só foram restauradas quando César tomou o Egito de um só golpe e Augusto o transformou em província de Roma, em 30 a.C.

Em Roma, os magistrados dispunham de um sistema de leis com base nas Doze Tábuas dos Decenviros. Antes deste grande feito, a lei romana havia sido uma mistura de costumes tribais, éditos reais e ordenações sacerdotais. A praxe dos antigos permaneceu até ao fim da Roma pagã a fonte da lei e o padrão da moral. No restante, a primitiva lei era sacerdotal, um ramo do credo rodeado de sanções sagradas e ritos solenes. A lei era a um só tempo lex e ius: comando e justiça; uma relação não só entre os homens, como entre os homens e os deuses. O crime perturbava essa relação da paz dos deuses. Em tese, lei e penalidade tinham por fim manter ou restabelecer essa relação e essa paz. Os sacerdotes declaravam o que era certo e o que era errado, em que dia as cortes podiam ser abertas e a Assembleia ser reunida. Todas as questões relativas a casamento e divórcio, celibato e incesto, testamento ou doações, ou direito da prole, requeriam os sacerdotes, como hoje essas mesmas questões requerem o advogado. Somente os sacerdotes conheciam as leis, sem as quais nada de legal podia ser feito. Eram eles em Roma os primeiros jurisconsultos, ou conselheiros em leis. Foram também os primeiros a dar responsa, ou opinião legal. As leis eram guardadas em seus livros, e estes livros se mantinham tão ocultos aos olhos dos plebeus, que a suspeita acusava os sacerdotes de alterar os textos a fim de se favorecerem a si mesmos e à aristocracia, o que era de fato.

As Doze Tábuas realizaram uma dupla revolução jurídica: a secularização e, por conseguinte, a publicação da lei romana. Como outros códigos do sexto e do quinto séculos, tais como os de Carondas, Zaleuco, Licurgo e Solon, as Doze Tábuas representavam a passagem do costume incerto e não escrito para a bem definida lei escrita. Era a evolução humana concebendo a democracia posta desde o tempo de Péricles e o aumento da cultura, em consonância com o plano de espiritualização da nossa humanidade. Nas Doze Tábuas, a lei dos cidadãos se libertou da lei dos sacerdotes. Roma abandonava a teocracia. O monopólio sacerdotal foi mais tarde novamente podado, quando o secretário de Ápio Cláudio Cego, em 304 a.C., publicou um calendário dos dias da corte e um “formulário” do processo legal, algo até então só do conhecimento de poucos, fora os hediondos sacerdotes. Essa secularização deu mais um passo quando Coruncânio, em 280 a.C., iniciou o ensino público da lei romana. Daí por diante o advogado substituiu o sacerdote e passou a dominar a mentalidade e a vida de Roma. Em breve as Doze Tábuas se tornaram a base da educação, já que até os dias de Cícero, que depois encarnou como Pedro, sendo apóstolo de Jesus, o Cristo, como veremos mais adiante, todos os meninos de escola tinham de aprendê-las de cor. E não há dúvida que isso teve parte na formação da severa e ordenada, litigiosa e legalística, cultura romana. Emendadas e acrescidas várias vezes pela legislação nova, pelos editos dos pretores, pelos senatus consulta e decretos imperiais, as Doze Tábuas permaneceram por novecentos anos a lei básica de Roma.

No lar romano o pai era o sacerdote, mas a adoração pública tinha para conduzi-la diversas associações de sacerdotes, sob a chefia de um pontifex maximus eleito pelas centúrias. Os sacerdotes não formavam nenhuma ordem separada ou casta, e nada valiam politicamente, exceto como instrumentos do Estado. No entanto, recebiam a renda de certas propriedades e dispunham de escravos para servi-los. E assim, através de gerações, foram se enriquecendo em virtude do acúmulo de legados pio.

Uma procissão fazia volta em redor do purificando romano, com preces e sacrifícios para que as más influências fossem afastadas e com elas o infortúnio. A prece ainda estava muito ligada aos encantamentos mágicos. A palavra latina para prece, carmen, significa ao mesmo tempo canto e encanto. E Plínio admite as rezas e orações como formas verbais de magia. Se a carmen era corretamente recitada a certo deus, de acordo com o rol dos deuses, compilado e conservado pelos sacerdotes, o pedido feito recebia deferimento, e se assim não era, a culpa cabia a qualquer erro no ritual.

O senado romano cumulava César de adulações e títulos. Permitiu-lhe usar a coroa de louro com que disfarçava a calvície, e, mesmo em tempo de paz, usar os poderes de imperador. Desse modo, controlava o Tesouro, e na qualidade de pontifex maximus controlava os sacerdotes. Como cônsul, podia propor e executar leis. Como tribuno, tinha a pessoa inviolável. Como censor, podia fazer e desfazer senadores. As assembleias conservavam o direito de votar sobre as medidas apresentadas, mas os lugares-tenentes de César, Dolabela e Marco Antônio, manipulavam as reuniões, transformando o senado apenas em órgão de conselho.

Vale aqui registrar um fato pitoresco que aconteceu com Calígula, um dos imperadores romanos. Perturbado com o imenso poder que detinha, tal como se fosse Jeová, com a diferença que este se encontrava desencarnado, quedado no astral inferior, resolveu também se proclamar deus, no seu caso igual a Júpiter, determinando que as famosas estátuas de Júpiter e de outros deuses fossem decapitadas e coroadas com a sua cabeça. Em tal estado de perturbação mental, em função dos espíritos obsessores que o assediavam, conversava às vezes com uma imagem de Júpiter, frequentemente em tom de censura, comprovando assim a sua mediunidade de incorporação. E o mais interessante e pitoresco nessa sua perturbação mental, é que resolveu nomear um dos seus cavalos favoritos para o corpo de sacerdotes, ensejando que assim, pelo menos, menores males fossem praticados contra o seu povo, pois que o cavalo é útil, enquanto que o sacerdote, além de inútil, pratica o mal, por semear a ignorância e cometer outros crimes. Então, certa vez, pretendendo que a deusa Lua houvesse descido para beijá-lo, perguntou a Vitélio se não a estava vendo, comprovando assim a sua mediunidade de vidência e de audição. A essa indagação imperial, o astuto artesão respondeu que não, complementando a resposta dizendo que os deuses só podiam se ver uns aos outros. Como se pode facilmente constatar, toda essa perturbação era porque o imperador era detentor de várias mediunidades.

Após todas essas patifarias praticadas pelos sacerdotes nesses tempos idos, surge então a encarnação de Jesus, o Cristo, e, alguns séculos depois, a de Maomé, em que este era apenas um espírito deveras obsedado que muito mal neste mundo praticou, além de pedófilo, como adiante provarei, pelo fato de ser também médium vidente e ouvinte, tremendamente avassalado, e aquele foi o espírito mais evoluído que por este mundo já passou. Os sacerdotes, então, espertos e perigosos como sempre foram, mudam de tática, pautando agora as suas ações, principalmente, em nome desses dois espíritos, mas continuando a praticar as suas mesmas patifarias, só que com base em outros ardis e artimanhas, ainda bem mais capciosos. Foi assim que surgiram os sacerdotes que seguem e pregam o falso cristianismo e os que seguem e pregam o belicoso e intolerante islamismo, que abrigam os principais credos e seitas que se perpetuam até os dias de hoje.

Adiantando-se no tempo, já que mais adiante, em outro tópico, eu irei abordar o assunto acerca do falso cristianismo e do maometismo, em virtude das suas histórias e das suas doutrinas serem autodestruidoras, pelo simples fato de ninguém conseguir compreender ao racionalismo de Jesus, o Cristo, e de Maomé ser um médium tremendamente obsedado, vamos ao primeiro dos reformadores ingleses, que nasceu em Hipswell, perto da aldeia de Wyclif, no Yorkshire do Norte, por volta de1320. Revoltado com tanta sordidez dos sacerdotes, Wyclif diz:

Os sacerdotes iludem os homens com indulgências ou falsos perdões, e lhes roubam grosseiramente o dinheiro; são grandes tolos os seres humanos que pagam tão caro a essas bulas de perdão. Se o papa tinha o poder de arrancar as almas do purgatório, por que é que, em nome da caridade cristã, não as arrancava de vez?”.

Com veemência crescente, Wyclif também dizia:

Muitos sacerdotes corrompem esposas, donzelas, viúvas e freiras por todos os meios lascivos”.

E pedia que os crimes dos sacerdotes fossem punidos por cortes seculares, além do que afirmava o que se segue:

Rezam apenas na aparência, e recebem pagamento por todos os serviços religiosos (leia-se credulários, digo eu) que executam. Vivem no luxo, cavalgando gordos cavalos, com arreios de ouro e de prata, são ladrões, raposas malignas, lobos vorazes, glutões, diabos, macacos”.

E até a compreensiva revolta de Lutero é antecipada, quando ele profetiza o seguinte:

A simonia reina em todos os estados da Igreja. A simonia da corte de Roma faz o maior mal, pois é muito frequente, e sob muita capa de santidade, e despoja a nossa terra de homens e de tesouros. A escandalosa rivalidade dos papas, no Cisma, as suas trocas de excomunhões, as suas lutas desavergonhadas pelo poder, deveriam levar os homens a acreditar nos papas somente caso eles seguissem realmente a Cristo. Cristo era humilde, o papa se senta no seu trono e faz os senhores lhe beijarem os pés”.

Por volta de 1528, um indivíduo que era chamado de Simon Fish, publicou um panfleto de seis páginas que foi lido por Henrique VIII, rei da Inglaterra, que até hoje não se sabe se protestou contra a publicação ou não. O que realmente se sabe é que muitos o leram francamente deleitados com a verdade que ali estava contida, em todo o seu teor. Denominava-se esse panfleto A Súplica dos Mendigos, e pedia ao rei que confiscasse, no todo ou em parte, as riquezas da Igreja na Inglaterra. Eis o seu teor:

Nos tempos dos vossos nobres predecessores, conseguiram entrar ardilosamente em vosso reino, mendigos e vagabundos veneráveis, bispos, abades, diáconos, arquidiáconos, sufragâneos, sacerdotes, monges, cônegos, frades, vendedores de indulgências e convocadores. E quem pode dizer o número dessa classe vadia e ruinosa que, desprezando toda espécie de trabalho, tem mendigado de modo tão importuno que conseguiu reunir em suas mãos mais de uma terça parte dos bens de todo o vosso reino? As melhores propriedades, mansões, terras e territórios lhes pertencem. Além disso, têm a terça parte de todo o trigo, capinzal, pastos, alfafa, lã, potros, vitelos, ovelhas, porcos, gansos e galinhas. Sim, e são tão gananciosos em seus lucros que as pobres esposas têm que lhes prestar contas de toda a dízima, caso contrário não poderão elas gozar de seus direitos na Páscoa. Qual delas poderá trabalhar por três pences por dia, quando pode ganhar, pelo menos, vinte para dormir uma hora com um frade, um monge ou um padre?”.

Voltaire, que era ferino e sarcástico como poucos, sendo plenamente ciente da esperteza e da safadeza sacerdotais, faz a seguinte indagação:

— Quem inventou a arte sacerdotal?

E ele mesmo responde:

— O primeiro espertalhão que encontrou o primeiro tolo.

E, de acordo com o já dito anteriormente, que os sacerdotes não criaram as religiões, mas sim os credos e as suas seitas, pois que as verdadeiras existem e hão de emergir para este mundo como sendo as legítimas e autênticas fontes das ciências, que eles apenas delas se utilizaram, como os estadistas se utilizam dos impulsos e costumes dos povos, então podemos afirmar que os sacerdotes é que criaram os credos e as suas seitas, e nunca, jamais, as verdadeiras religiões que realmente existem. Em sendo assim, podemos também afirmar que aquilo que os sacerdotes criaram, em toda a sua exponenciação, foi a Igreja Católica, além dos muitos outros malefícios.

Mas nesta exponenciação, organizaram-se em uma poderosa hierarquia financiada de baixo para cima, mas governada de cima para baixo. Converteram o imperador Constantino, dele obtiveram aquela famosa doação, aceitaram legados opulentos, e, por fim, a Igreja Católica se transformou na mais rica e forte organização que o mundo ainda viu. Por ocasião da Reforma, a Igreja Católica era a dona de um terço de todas as terras aráveis da Europa, e tinha os seus cofres transbordantes de dinheiro. E foi assim, na mais alta riqueza relativa ao mundo, mas na mais baixa pobreza relativa à espiritualidade, que ela degenerou na prática de todas as mundanidades e simonias que um ser humano pode imaginar, além dos mais terríveis crimes. Por isso é de se indagar: como pode um ser raciocinante seguir tal espelunca mundana, cujo antro vaticânico abriga as maiores depravações do mundo, em todos os tempos?

E todas essas patifarias não são exclusivas da Igreja Católica, sendo também praticadas pelas igrejas protestantes, as suas seitas, que são as suas filhas, assim como também pelos demais credos e seitas. Causa muita repulsa, um verdadeiro asco, tratar acerca dos crimes cometidos pelos sacerdotes, em nome dos credos e das suas seitas, principalmente os crimes sexuais. Por isso, torna-se absolutamente necessário que se esclareça a respeito de todas as patifarias sacerdotais, para que assim essa classe nociva seja exposta aos olhos de todos como realmente ela é na realidade, e não como se apresenta com todas as suas mentiras.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Romae