13.05- Os livros ditos sagrados

Prolegômenos
20 de junho de 2018 Pamam

Em 1600, Barnaby Rich escreveu que “É a multidão de livros, a qual sobrecarrega de tal forma o mundo que o impossibilita de digerir a abundância de matéria inútil que todo dia é produzida e apresentada”. Em 1628, Robert Burton escreveu que “Já vamos ter um imenso caos e uma confusão de livros; eles nos tiranizam; nossos olhos sofrem com a leitura, e nossos dedos, de folhear”. O fato é que, apesar disso, esses dois queixosos escreveram os seus livros.

É comum, é fato notório alguém se dispor a escrever um livro. Mas esse livro tem que trazer em seu teor algo que eleve a alma do ser humano, que traga esclarecimentos ao seu espírito, que esteja em inteiro acordo com as leis morais, com os princípios éticos e com tudo aquilo que venha de encontro aos preceitos educacionais dos agrupamentos humanos, e, com a globalização, da nossa humanidade. O livro, pois, deve trazer o belo em seu conteúdo.

Em se tratando de livros sérios e que são úteis aos seres humanos, existem aqueles que tratam acerca da Filosofia, assim ainda denominada, onde em seus conteúdos existe uma mescla entre a Saperologia e a até então ainda desconhecida Veritologia, que tratamos de separá-las, fazendo surgir a Ratiologia, para que assim, no futuro, possam vir de forma abundante os livros veritológicos, saperológicos e ratiológicos.

Existem também os livros que tratam de religiões — as quais são todas falsas, pois já é sabido que as religiões são as fontes das ciências, e que elas tratam dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, enquanto que as ciências tratam das experiências físicas acerca da sabedoria, com ambas se ocupando das parcelas do Saber, com isso ocorrendo até aos dias de hoje —; de ciências positivas, sempre apenas efeituadoras, como a Biologia, a Física, a Química, etc., que ainda deverão ser desenvolvidas com base nas causas, quando a comunidade científica se conscientizar do verdadeiro papel a ser exercido pelas autênticas religiões; e de ciências humanas, com base nos fatos postos à nossa frente, que dizem respeito à História, à Psicologia, à Sociologia, à Administração, à Economia, etc. E existem ainda os livros que tratam de literatura, de romance, de biografia, de tratados políticos, de contos infantis e adultos, de crônicas, e tantos outros que nos enchem as prateleiras das nossas bibliotecas. Uns escritos com verdadeira maestria, outros com a duvidosa capacidade que deveria se encerrar no espírito do verdadeiro escritor, que por ser escritor deveria voltar as suas atenções com mais vigor para o belo.

Excluídos desse rol, encontram-se os denominados livros “sagrados”, que tantos males trazem à nossa humanidade. Destes, podemos destacar três livros que ainda hoje fazem um malefício medonho a todos os seres humanos, os quais remontam desde priscas eras: a Bíblia, o Talmude e o Alcorão; como que a dizer que na rebarbarização do Império Romano, somente uma moral e uma ética sobrenaturais poderiam restabelecer a ordem na sociedade e na alma. Todos os três livros são semitas e preponderantemente judaicos. O drama da história medieval seria a competição espiritual dessas escrituras e os conflitos sangrentos dos seus credos.

São tão nocivos e tão perigosos esses livros tidos como sendo sagrados pela perniciosa classe sacerdotal, aceitas essas sagrações pelos ignorantes e falhos de raciocínio, em suas mediocridades, como sendo simples credulários arrebanhados, que os próprios filmes vêm retratar a toda essa nocividade e periculosidade, como é exemplo o filme intitulado de O Livro de Eli, que narra uma história em que a Terra estava quase toda destruída, em que nessa desolação um líder mau caráter queria de todas as maneiras um exemplar da Bíblia, expressando-se assim:

Não é um livro, p…! É uma arma apontada para o coração dos fracos e desesperados, e com ele, nós os controlaremos. Para dominarmos mais de uma cidadela, precisamos dele. Virá gente de toda a parte, e fará o que eu mandar, se as palavras vierem do livro. Já aconteceu antes e vai se repetir. Só precisamos daquele livro”.

A BÍBLIA

É sabido que a maior ação dos judeus, quanto a efeitos nos dias de hoje, foi a composição da Bíblia. Como o povo estivesse derivando da adoração de Jeová para a de deuses de fora, cujos deuses de fora eram outros espíritos obsessores idênticos a Jeová, os sacerdotes ponderaram se não era tempo de uma última tentativa contra a desintegração da fé credulária nacional. Agindo como os profetas, que atribuíam a Jeová a ardente paixão de suas próprias almas, os sacerdotes resolveram dar ao povo uma comunicação de seu deus em pessoa, um código de leis que revigorasse a vida moral da nação e, ao mesmo tempo, atraísse o apoio dos profetas por meio da incorporação de seus sentimentos e pensamentos menos extremados. Prontamente conquistaram para o plano a aquiescência do rei Josias. E no 18º ano do seu governo, o sacerdote Hilkiah anunciou que havia “encontrado” nos arquivos secretos do templo, um maravilhoso rolo no qual o próprio Moisés, sob o direto ditado de Jeová, regulara, de modo definitivo, todos os problemas em perpétuo debate. O “achado” causou grande sensação. O rei Josias reuniu no templo os mais velhos de Judá e lhes deu o “Livro da Lei”, na presença de mil pessoas, segundo dizem. E solenemente jurou que dali por diante respeitaria as leis encontradas. E fez com que toda a assistência se conformasse com aquilo.

Os seres humanos a quem a palavra profeta — traduzido pelos gregos como pro-fe-ta, com o significado de anunciador — primeiro se aplicou, não eram do caráter que a reverência associa a Amoz e a Isaías. Alguns não passavam de adivinhos, que por dinheiro liam os segredos da alma e do passado, e previam o futuro. Outros eram fanáticos que se entregavam com frenesi a estranhas danças e a bebida, e quando em transe pronunciavam palavras inspiradas, isto é, serviam de instrumentos aos espíritos obsessores, como verdadeiros médiuns. Com desprezo, disse Jeremias que “cada homem que é louco faz de si um profeta”.

Foi sobre o judaísmo posterior aos tempos do Exílio que os profetas impuseram o seu vinco. Em Amoz e em Isaías, esses dois profetas constituem a fonte da primitiva concepção judaica do Messias, que se assegurava no governo, restabelecia o poder temporal dos judeus e inaugurava a ditadura do proletariado. Foram os primeiros a empreender a dura tarefa de reformar o deus das hostes em deus do amor. Aliciaram Jeová para o humanitarismo. Ofereciam aos infelizes deste planeta uma visão completamente distorcida de fraternidade que se tornou a preciosa e sempre alerta herança de muitas gerações.

A lenda persa narra como — muitas centenas de anos antes do nascimento de Jesus, o Cristo, — um grande profeta apareceu no Airyana-vaejo, o antigo “lar dos arianos”. O povo lhe dava o nome de Zaratustra, mas os gregos, que não suportavam com paciência a ortografia dos “bárbaros”, chamavam-lhe de Zoroastro. A concepção de Zaratustra era divina, pois o seu anjo da guarda entrara na planta haoma e passara com a seiva para o corpo de um sacerdote, quando este oferecia um sacrifício “divino”, no mesmo instante um raio da glória celeste entrou no seio de uma virgem de alta linhagem. O sacerdote desposou a virgem, o anjo assimilado pelo seu corpo se misturou com o raio aprisionado, e então surgiu Zaratustra.

Dário I, a partir do acesso ao trono da Pérsia, declarou guerra aos velhos cultos e aos seus sacerdotes, fazendo do zoroastrianismo o credo oficial do Estado, vendo nessa nova doutrina uma fé credulária capaz de inspirar o povo e fortalecer o seu governo. A “Bíblia” dessa nova fé credulária recebeu o nome de Avesta, e devido ao erro de um erudito chamado Anquetil-Duperron, que introduziu o prefixo Zend, que os persas haviam usado para denotar apenas uma tradução e uma interpretação do Avesta, o mundo ocidental o conhece como Zend-Avesta. Os alentados volumes que sobreviveram, embora menores que a Bíblia, não passam de pequena fração da revelação feita pelo deus a Zaratustra.

O Avesta, em seus trechos, mostra a influência babilônica na história da criação do mundo em seis períodos: céu, água, terra, planta, animais e seres humanos; na descendência do homem de um casal primitivo, tipo Adão e Eva; no estabelecimento de um paraíso terreal; no descontentamento do criador com as criaturas; e na destruição delas com um dilúvio. Havia os anjos da guarda, um para cada ser humano. Mas, do mesmo modo que esses anjos e os sagrados seres ajudavam aos seres humanos na virtude, assim também demônios pairavam no ar, sempre induzindo aos seres humanos ao crime e ao pecado, em guerra eterna contra Ahura-Mazda e todas as formas de justiça. O chefe desses diabos era Angro-Mainyus, ou Arimã, Príncipe das Trevas e rei do mundo subterrâneo, protótipo daquele operoso Satã que os judeus parecem ter tomado da Pérsia e legado ao falso cristianismo. Depois de quatro épocas de três mil anos cada uma, com alternada predominância de Ahura-Mazda e Arimã, as forças do mal seriam por fim destruídas, tal como no apocalipse bíblico. Então todos os seres humanos bons se juntariam a Ahura-Mazda no paraíso, e os maus cairiam em um abismo de trevas, onde seriam eternamente alimentados de veneno.

Na Bíblia, o código nos Dez Mandamentos decretava que era esse deus codificador o rei invisível que ditava as leis e impunha as penas. E o nome de Israel dado ao povo queria dizer “defensores de deus”. Os sacerdotes autores do código, como os “piedosos” inquisidores, acreditavam que a unidade credulária era condição social primordial. Vale-se aqui ressaltar que era algo usual a divindade dos códigos. As leis do Egito foram dadas pelo deus Thoth, e as leis de Hamurabi pelo deus Shamash. Do mesmo modo a deidade deu ao rei Minos, sobre o monte Dicta, as leis de Creta. Os gregos representavam Dionísio, o Legislador, com duas tábuas de pedra em que nelas as leis estavam escritas. E os persas nos contam como, um certo dia, estando Zoroastro a orar na montanha, Ahura-Mazda lhe apareceu em um trovão e lhe entregou o “Livro da Lei”. Diz então Deodoro que “Eles todos faziam assim, porque acreditavam que uma concepção capaz de ajudar a humanidade só podia ser divina, ou porque achavam que desse modo as leis seriam mais respeitadas”. Como se pode constatar, a Bíblia é inspirada pelos espíritos obsessores aos médiuns, tidos por profetas, com base nos livros ditos sagrados mais antigos ainda.

As cidades da Fenícia se ergueram à plana das mais ricas e poderosas do mundo. Biblos se tinha na conta da mais velha de todas as cidades fenícias. O deus El a fundara no começo dos tempos, e até o fim ela permaneceu a capital da Fenícia. Pelo fato do papiro ser um dos seus principais artigos de comércio, os gregos tomaram o nome dessa cidade como sinônimo de livro, e daí saiu o nome do livro dito sagrado dos falsos cristãos: a Bíblia.  Os textos eram escritos em colunas sobre uma tira de papiro ou pergaminho de duzentos e quarenta a trezentos e sessenta polegadas de comprimento, enrolada em um rolete de madeira. A isso davam o nome de biblos, como já mencionado, por causa da cidade fenícia assim batizada desde a introdução do papiro na Grécia. Aos rolos menores denominavam de biblion. A Bíblia foi, em origem, ta bíblia, os rolos. Quando um rolo era parte de uma obra maior, recebia a denominação de tomos, ou pedaço. A primeira tira de um rolo tinha o nome de protokolon, isto é, a primeira tira colada ao rolete.

O consenso dos eruditos pende a admitir que os mais velhos elementos da Bíblia sejam as lendas do Gênesis, chamadas de “J” e “E”, respectivamente, porque uma fala desse criador como Jeová, Yahveh, e outra se refere a ele como Elohim. Supõe-se que a primeira foi escrita em Judá e a segunda em Efraim, e que as duas histórias se fundiram depois da queda de Samaria. Um terceiro elemento, conhecido como “D”, e corporificando o Código Deuteronômio, provém de um autor diferente. Um quarto elemento, “P”, compõe-se de seções inseridas mais tarde pelos sacerdotes. Este “Código Sacerdotal” forma a substância do “Livro da Lei”, promulgado por Ezra. A quarta composição tomou forma mais ou menos em 300 a.C.. O fato é que essas incríveis e absurdas histórias da criação, da tentação e do dilúvio foram tiradas das lendas da Mesopotâmia e outras, que datam de 3.000 anos a.C.

A lenda do Éden aparece em quase todos os folclores, tais como no Egito, na Índia, no Tibé, na Babilônia, na Pérsia, na Grécia, na Polinésia, no México, etc. Muitos desses jardins do Éden possuem árvores proibidas e serpentes ou dragões que roubam a imortalidade do ser humano, ou envenenam o paraíso. Tanto a serpente como o figo foram símbolos fálicos. Atrás do mito está a opinião de que o sexo e a ciência destroem a inocência e a felicidade, e são, pois, a origem do mal, como que a querer projetar o mal para fora da alma humana, recusando-se a admitir que o mal se encontra na própria alma humana.

Quando Antíoco IV marchou sobre Jerusalém, em 167 a.C., chacinou aos milhares os judeus de ambos os sexos, profanou e saqueou o templo, apossou-se do altar de ouro, dos vasos e dos tesouros, reempossou Menelau no poder supremo e decretou a helenização compulsória. Proibiu a continuação do sábado ou dos festivais judaicos e tornou a circuncisão crime punível com a pena de morte. Por toda a Judeia o antigo credo foi interditado, e o ritual grego se tornou compulsório, sob a pena de morte.

Muitos judeus fugiram para as cavernas, os esconderijos nas montanhas, e com espírito resoluto perseveraram nas tradicionais práticas da vida judaica. Um destacamento de tropas reais, tendo descoberto alguns desses esconderijos, com milhares de judeus, homens, mulheres e crianças, ordenou-lhes que abandonassem o local. Os judeus se recusaram a obedecer, e porque se achassem no sábado, não colocaram as pedras que tapavam as entradas das cavernas. Os soldados os atacaram a espada e a fogo, matando muitos dos refugiados e asfixiando com fumaça aos restantes. As mulheres que haviam submetido à circuncisão os seus filhos recém-nascidos foram lançadas, juntamente com eles, do alto das muralhas da cidade. Os gregos se mostraram surpresos diante do vigor da antiga fé credulária. Há séculos não viam tão grande lealdade para com uma doutrina. As histórias do martírio passaram de boca em boca, encheram livros, como o Primeiro e o Segundo livros dos Macabeus, e deram ao falso cristianismo os protótipos dos seus mártires.

Após o primeiro milênio da era cristã, a Igreja se assustou muito ao descobrir que os valdenses e os albigenses estavam fazendo e espalhando as traduções que eles mesmos haviam feito dos livros das Escrituras. Um concílio da Igreja, realizado em Narbonne, no ano de 1227, proibiu que os leigos possuíssem qualquer parte de tais Escrituras. Geralmente, porém, antes do século XIV, a Igreja não se opunha a que os leigos lessem a Bíblia. Ela não os encorajava a que o fizessem, porque receava as interpretações do povo sobre os “mistérios” das Escrituras.

Em 1484, Inocêncio VIII, em uma bula que expediu, a Summis Desirantes, proibiu que se recorresse a feiticeiras. Admitiu a realidade de alguns poderes que asseveravam ter, atribuiu-lhes algumas tempestades e pragas e se queixou de que muitos “cristãos”, tendo-se afastado do culto ortodoxo, haviam feito a união carnal com demônios e, por meio de encantamentos, fantasias e outras artes diabólicas, causando mal a homens, mulheres, crianças e animais. O papa advertiu aos oficiais da Inquisição que se mantivessem alertados contra tais práticas.

Nessa bula, o papa foi fiel ao Antigo Testamento, o qual ordenava: “Não toleres que viva uma feiticeira”. A Igreja admitiu, durante séculos, a possibilidade da existência de influências demoníacas sobre os seres humanos. Contudo, a suposição do papa, quanto à realidade das feitiçarias, encorajou nelas a crença popular, e a sua advertência aos inquisidores exerceu certo papel nas perseguições que se levaram a efeito. No ano que se seguiu à promulgação da bula, somente em Como foram queimadas quarenta e uma mulheres por feitiçarias. Em 1486, os inquisidores de Bréscia condenaram à morte várias outras que se alegava serem feiticeiras, mas o governo se recusou a executar a sentença, o que deixou Inocêncio VIII bastante irritado — e o povo ainda se mantém admirador desse papado. Tem-se notícia de que, em 1510, 140 pessoas foram queimadas em Bréscia por exercerem aquelas práticas, e, em 1514, no pontificado de Leão X, trezentas mais foram queimadas em Como.

Em relação aos Evangelhos, os quatro que chegaram até nós são os sobreviventes de um número muito maior, que circularam entre os cristãos dos dois primeiros séculos. O termo inglês gospel, quer dizer, godspel, ou as boas novas no velho inglês, equivale a uma tradução do euangelion grego, que é a palavra de abertura do de Marcos e que significa “Boas Novas”, isto é, que o Messias tinha vindo e o reino do céu estava próximo.

As mais velhas cópias dos Evangelhos que sobreviveram são do século III. As composições originais foram escritas entre os anos 60 e 120, ficando, portanto, sujeitas a dois séculos de erros nas transcrições e a possíveis alterações para o ajeitamento à Teologia ou alvo da seita dos copistas ou dos tempos. Os escritores cristãos anteriores ao ano 100 citam o Velho, nunca o Novo Testamento.

Os Evangelhos são constituídos de quatro livros, contendo quatro biografias de Jesus, o Cristo, cada qual relatada por autores diferentes, chamados de evangelistas. Não devemos aceitar o Jesus descrito nos Evangelhos, porque o seu comportamento relatado nesses livros discorda fundamentalmente do perfil de um espírito superior, que o bom senso aceita e a razão percebe e compreende, calando na consciência.

O escritor Burton Mack, considerado como sendo uma autoridade bíblica, no seu livro intitulado de O Evangelho Perdido, disse que “Os evangelhos narrativos não podem almejar serem relatos históricos, visto que os mesmos são criações imaginárias”. Esses livros são atribuídos a alguns discípulos de Jesus, o Cristo, que também eram chamados de apóstolos. Os autores dos Evangelhos são Mateus, Marcos, Lucas e João. Em geral, considera-se o que Marcos escreveu o mais antigo e que serviu de base para os evangelhos de Lucas e de Mateus. Já o evangelho de João é uma redação original. Ressalte-se que os Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram escritos entre os anos 60 e 80, já o de João foi escrito por volta de 100 a 120. Embora todos os Evangelhos não mereçam qualquer credibilidade, o Evangelho de João é o que menos credibilidade merece, por estar todo impregnado de influência grega e de ter sofrido várias revisões para adaptá-lo aos objetivos credulários e místicos da Igreja Católica. Estes Evangelhos incorporam o Novo Testamento do falso cristianismo e foram redigidos, inicialmente, em grego.

A doutrina de Jesus, o Cristo, por ele ensinada até a data da sua crucificação, foi deturpada por Paulo de Tarso, o qual criou um credo, o catolicismo, apoderando-se da figura de Jesus, o Cristo, que era respeitado pelo povo humilde da Palestina. Mais tarde, o catolicismo de Paulo de Tarso foi consolidado pelos evangelistas, em cujos escritos foram inseridos, além do dogma de Paulo de Tarso, a “salvação” e outras imposturas contrárias à lógica e ao bom senso, como a adoração, o temor ao deus bíblico, o céu, o inferno e outras fantasias mais, impedindo aos seres humanos de raciocinarem com acerto, tornando os católicos escravos mentais subjugados pelas rezas, em busca do perdão e das graças “divinas”.

Os essênios eram ascetas e místicos de uma antiga seita judaica. Viviam em pequenas comunidades localizadas no lado ocidental do Mar Morto e no Lago Maoris, no Egito, onde eram conhecidos como terapeutas. Em 1947, alguns mercadores beduínos descobriram rolos de manuscritos, dos quais o principal é o “Manual de Disciplina”. Esses documentos remontam, pelo menos, ao segundo século pré-cristão. Essas fontes apresentavam os essênios vivendo uma vida simples, meditativa e contemplativa. Eram frugais, vegetarianos, castos, contrários aos sacrifícios de animais e à escravatura, e mantinham os seus bens em comum. Foi um estilo de vida que não teve analogia com qualquer outro, baseado em leis e princípios que são diversamente interpretados como cabalistas, pitagóricos, orientais, maçônicos, além de judaicos. Ensinavam as doutrinas da preexistência da alma e da reencarnação. Os seus membros mais eruditos expunham as escrituras por meio de símbolos e parábolas. Estudavam a Torá, isto é, os primeiros cinco livros da bíblia, que contêm a essência da lei mosaica. A filiação ao estilo de vida não dependia da raça, mas sim da livre escolha do pretendente, o que denota não terem tido ligação com as sinagogas dos fariseus. Foi entre eles que Jesus, o Cristo, conviveu durante vários anos da sua mocidade.

Entre os anos de 1947 e 1956, mais pergaminhos foram descobertos em onze cavernas, nas vizinhanças do Mar Morto, onde hoje fica a Cisjordânia, perfazendo, aproximadamente, mil textos escritos em pele de carneiro. Ficaram sendo conhecidos como os Pergaminhos do Mar Morto. Esses pergaminhos registram fatos ocorridos entre os anos 250 a.C. e 68 d.C., justamente na época, segundo os evangelhos, em que viveu Jesus, o Cristo. A partir de 1991, um acervo de aproximadamente 800 manuscritos foi liberado aos pesquisadores, e, aproximadamente, 250 estão em poder de autoridades israelenses e de estudiosos católicos.

Os pesquisadores constataram que os pergaminhos escritos pelos essênios, pelo menos aqueles que foram liberados ao público, não mencionam, em uma primeira constatação, nenhum dos apóstolos, nem a figura de Jesus, o Cristo, conforme a descrita nos evangelhos. Em compensação, fornecem um quadro completo das crenças e do modo de vida de várias seitas judaicas que se confrontavam na época do Nazareno.

Luiz de Mattos diz que é dever dos verdadeiros cristãos provar a falsidade dos Evangelhos, a contradição destes, e arrancar deles as poucas parábolas racionais e dignas de serem pronunciadas por Jesus, o Cristo. Em sua obra intitulada de Cartas ao Chefe do Protestantismo no Brasil, Luiz de Mattos dá o exemplo da verdadeira racionalidade, ao falar sobre a Bíblia, quando diz o seguinte:

A Bíblia NÃO CONTÉM EM SI A VERDADE, É UM AMONTOADO DE DESPROPÓSITOS, PRODUTOS DE MÉDIUNS OBSEDADOS, aos quais se apresentou, como ainda hoje se apresenta, o astral inferior, em corpo astral de espavento, enfeitado à maneira concebida pelos seres humanos fanatizados, ignorantes, inventores dos milagres, do sobrenatural, do maravilhoso, simples produtos de tais seres, de tais abraães e magna caterva, de ambiciosos vulgares e materiais, salteadores de bens e governo dos povos mais fracos, como ainda hoje continuam a fazer, eles e outros da sua categoria e estado psíquico, e a falar-lhes ao ouvido, como sendo tal FALAR A VOZ DE DEUS. Foi intrujice, desse astral inferior, transmitida por esses médiuns que passou à história bíblica como sendo certa; quando é verdade que a alma sendo em sua maioria luz, partícula da Inteligência Universal, não sendo carne, não tendo lábios nem órgãos humanos, não pode articular palavras, falar a quem quer que seja, nem mesmo a Jesus, o Cristo, que foi dos médiuns antigos o mais perfeito”.

O certo é que a Bíblia foi escrita em uma época em que a evolução geral no planeta era consideravelmente menor, e naquele tempo algo podia ser escrito e merecer crédito, mas hoje cai no ridículo quem pretender sustentar as suas preposições. Além disso, o véu que separa a humanidade deste para o outro lado da vida, não havia ainda sido rompido, como rompeu agora o Racionalismo Cristão, razão por que a imaginação tinha que trabalhar à solta e compor imagens fantasiosas, que nos dias presentes não se podem mais sustentar.

O escritor John Dominic Crossan, um especialista em Bíblia, em seu livro intitulado de Jesus, Uma Biografia Revolucionária, escreveu que o pensamento de Jesus, o Cristo, era similar ao dos filósofos gregos da Escola Cínica, vigente na época. Na realidade, os cínicos não eram filósofos, ou seja, saperólogos, mas sim veritólogos gregos antigos, como Diógenes, que em 327 a.C. professava uma moral ascética e um desdém absoluto às conveniências sociais da época. Pregavam os cínicos a libertação em face do mundo e de todas as paixões humanas. Afirmavam que o bem ideal estava na virtude, que era colocada acima dos bens materiais.

Segundo John Dominic Crossan, Jesus, o Cristo, ensinava a igualdade de condições para todos os membros da sociedade. Era radical nesse igualitarismo. Ele também exigia que os seus discípulos fossem itinerantes. Em face dessa pregação libertadora, as adesões à sua doutrina aumentavam diariamente. Isto contrariava muito os doutores da lei do Sinédrio, ou seja, do tribunal dos judeus em Jerusalém, composto de sacerdotes, os quais julgavam tanto as questões criminais como as políticas. No auge da sua pregação na Galileia, Jesus, o Cristo, entrou definitivamente em conflito com os seus contemporâneos, autoridades judaicas, governo romano e sacerdotes hebraicos. As autoridades consideravam que a doutrina ensinada pelo Nazareno implicaria em uma transformação política radical. Muitas autoridades romanas acreditavam que os seus ensinamentos espalhariam sutilmente a subversão entre o povo. Em face dessa situação, o Sinédrio, manobrado por Hanã, insuflou o procurador romano Pôncio Pilatos e este prendeu, condenou e crucificou a Jesus, o Cristo, como se ele fosse um malfeitor. Então afirmar que o nosso Redentor veio, especificamente, para morrer na cruz e nos salvar, é uma falácia.

Em 1456, Gutenberg, com dinheiro emprestado, instalou uma imprensa. Com esta publicou, nesse ano ou no ano seguinte, o que se tem considerado comumente o seu primeiro livro impresso, a célebre “Bíblia de Gutenberg”, um fólio de 1.282 grandes páginas de duas colunas. Tornou a imprensa a Bíblia propriedade comum, e preparou o povo para o apelo de Lutero e dos papas para os Evangelhos.

Quase todos os cristãos medievais, através da instrução da infância e do próprio ambiente, acreditavam que a Bíblia tinha sido ditada em todas as palavras por um deus, o deus bíblico, e que o filho desse deus, Jesus, o Cristo, fundara diretamente a Igreja Católica, tida como sendo cristã, quando o Racionalismo Cristão prova que ele nunca foi filho desse deus bíblico, assim como todos os demais seres humanos, mas sim o espírito humano mais evoluído que neste mundo encarnou. Dessas premissas, parecia se inferir que esse deus bíblico desejava que todas as nações fossem “cristãs”, e que a prática dos credos não cristãos devia ser um insulto grosseiro à divindade. Ainda mais, uma vez que qualquer heresia substancial devia merecer o castigo eterno, os seus perseguidores podiam acreditar que, extirpando um herege, estariam salvando os seus convertidos em potencial, e talvez ele mesmo, do inferno sem fim.

Era tão forte a simpatia por Lutero, que o confessor de Frederico, o monge franciscano Jean Glapion, aproximou-se secretamente do capelão do imperador, Georg Spalatin, e, em uma tentativa de conciliação entre Lutero e o papa, observou que nenhuma doutrina credulária se poderia basear solidamente nas Escrituras, visto que “a Bíblia é como cera mole, que qualquer ser humano pode torcer e esticar ao seu bel-prazer”.

Não se pode aceitar a Bíblia e a razão, uma ou outra deve ceder, disse Lutero estupidamente, da seguinte maneira:

A Razão é a maior inimiga que a fé possui, ela é a maior amante do Diabo, uma prostituta comida pela sarna e pela lepra, que deveria ser calcada aos pés e destruída, ela e a sua Sabedoria, por isso atirai-lhe esterco na cara e afogai-a no batismo”.

Ele também condenava os veritólogos escolásticos, por fazerem tantas concessões à razão, por tentarem provar racionalmente os dogmas, por tentarem harmonizar o “cristianismo” com a filosofia daquele “amaldiçoado, presunçoso, velhaco e pagão Aristóteles”. Que ser humano intolerante e ignorante! Mas pelo menos era um dos poucos sacerdotes honrados.

Lutero repeliu como uma forma de ateísmo as tentativas de Erasmo e outros de harmonizar as Escrituras e a razão por interpretações alegóricas. Como ele mesmo conseguira paz espiritual, não através da Veritologia ou da Saperologia, mas sim através da fé credulária em Jesus, o Cristo, como era oferecida nos Evangelhos, apegava-se à Bíblia como o último refúgio da alma.

Em diversas traduções, mas sempre interpretada como sendo a palavra de um deus, de um deus iracundo, vaidoso, vingativo, carnívoro, limitado, visto que estava e ainda está a perambular por este mundo e por um céu quimérico, e tantos outros defeitos mais que os seres humanos que o inventaram em tempos idos tinham arraigados em seus espíritos, portanto, um simples deus bíblico, a Bíblia continuou a sua carreira como o mais popular de todos os livros e o de maior influência na doutrina e na língua e, até mesmo, na conduta, pois, nas piores brutalidades contidas nas guerras e nas perseguições, citavam-se as Escrituras para justificá-las.

Sendo contrária a todas as lógicas do bom senso, ferindo gravemente a qualquer juízo prudencial, e, como se não bastasse, alcançando o cúmulo do ridículo, e, por isso, chegando até a provocar risos por se tornar engraçada, a passagem bíblica contida em Números 22: 26 a 35, afirma o seguinte:

“O anjo de Jeová passou então novamente e ficou de pé num lugar estreito, onde não havia meio de se desviar nem para a direita nem para a esquerda. Quando a jumenta chegou a ver o anjo de Jeová, então se deitou debaixo de Balaão; de modo que se acendeu a ira de Balaão e ele foi espancar a jumenta com seu bordão. Por fim, Jeová abriu a boca da jumenta e ela disse a Balaão: ‘Que te fiz para me teres espancado estas três vezes?’. Então disse Balaão à jumenta: ‘Foi porque me trataste cruelmente. Se tão-somente houvesse uma espada em minha mão, eu já te teria matado!’. A jumenta disse então a Balaão: ‘Não sou a tua jumenta em que montaste toda a tua vida até o dia de hoje? Procedi alguma vez deste modo?’. A isso ele disse: ‘Não!’. E Jeová passou a desvendar os olhos de Balaão, de modo que viu o anjo de Jeová parado na estrada, tendo sua espada desembainhada na mão. Inclinou-se imediatamente e prostrou-se com o seu rosto em terra. O anjo de Jeová disse-lhe então: ‘Por que espancaste tua jumenta estas três vezes? Eis que eu é que saí para fazer oposição, porque teu caminho tem sido temerariamente contrário à minha vontade. E a jumenta pôde ver-me e procurou desviar-se de mim estas três vezes. Suponhamos que ela não se tivesse desviado de mim! Pois agora eu já te teria matado, mas a ela eu teria preservado viva’. Em vista disso, Balaão disse ao anjo de Jeová: ‘Pequei, porque eu não sabia que estavas parado na estrada ao meu encontro. E agora, se isso é mau aos teus olhos, deixa-me voltar’. Mas o anjo de Jeová disse a Balaão: ‘Vai com os homens; e nada a não ser a palavra que eu te falar é a que podes falar’. E Balaão seguiu com os príncipes de Balaque”.

Assim como o deus bíblico abriu a boca da jumenta e a fez falar, parece que da mesma maneira ele também age com os sacerdotes: abre a boca desses seres humanos infelizes e mentirosos e os fazem falar tudo aquilo que provém da própria ignorância! E com essa tremenda estupidez da jumenta falante, recuso-me a continuar a tecer qualquer comentário sobre esse livro ridículo e estúpido, findando com o último parágrafo.

Como se pode facilmente constatar, a Bíblia não pode ser livro divino, não pode conter a palavra de Deus, a não ser a de um deus bíblico inexistente, porque é um composto perverso de estupidez e absurdos, por ser um espírito trevoso quedado no astral inferior. É por isso que o grande poeta Guerra Junqueiro a arremessou longe, assim murmurando:

Há mais fé e há mais verdade

Há mais Deus com certeza

Nos cardos secos de um rochedo nu

QUE NESSA BÍBLIA ANTIGA… Ó Natureza

A ÚNICA BÍBLIA verdadeira és tu...”.

O TALMUDE

No templo, nas sinagogas e nas escolas da Palestina e da Babilônia, os escribas e os rabinos compuseram esses enormes corpos de leis e comentários, conhecidos pelo nome de Talmudes Palestino e Babilônico. Sustentavam que Moisés não havia deixado ao seu povo somente uma lei escrita no Pentateuco, mas também uma lei oral, que fôra transmitida e ampliada de mestre a discípulo, de geração a geração. Tinha constituído o principal ponto de discussão entre os fariseus e os saduceus da Palestina, se essa lei oral era também de origem divina e se possuía, portanto, obrigatoriedade. Como os saduceus desapareceram depois da Dispersão de 70 d.C. e os rabinos herdaram a tradição dos fariseus, a lei oral foi aceita por todos os judeus ortodoxos como mandamento de um deus e acrescentada ao Pentateuco para constituir a Torá, ou lei pela qual eles viviam e a qual, literalmente, era a sua razão de ser. O processo milenar por que a lei oral foi organizada, formada e escrita com o nome de Mishna; os oito séculos de debate, julgamento e elucidação que aumentaram os dois Gemaras como comentários sobre o Mishna; a união do Mishna com o mais curto desses Gemaras para constituir o Talmude palestino e com o mais longo para formar o babilônico; eis uma das complexas e espantosas histórias da História dos seres humanos. A Bíblia era a literatura e a religião dos antigos hebreus, a Torá constituía a vida e o sangue dos judeus medievais.

Somente porque fôra escrita, a Lei do Pentateuco não podia satisfazer a todas as necessidades e circunstâncias de uma Jerusalém sem liberdade, ou de um judaísmo sem Jerusalém, ou de uma judiaria sem a Palestina. Era a função dos mestres do Sinédrio, antes da Dispersão, e dos rabinos, depois dela, interpretar a legislação de Moisés para uso e orientação de uma nova era. Suas interpretações e discussões, com a opinião da maioria e da minoria, foram transmitidas de uma geração de mestres a outra. Talvez para manter a essa tradição oral flexível, possivelmente para tornar obrigatória a sua memorização, não foi ela escrita.

À medida que se acumulavam as decisões rabínicas, a tarefa de guardá-las de memória se tornava desarrazoada. A desordem na transmissão da Lei se tornou a ordem do dia. O número de seres humanos que sabiam de cor toda a Lei oral se reduziu perigosamente e a Dispersão estava espalhando esses poucos para terras distantes. Por volta do ano 189, em Seforis, na Palestina, o rabi Jehuda Hanasi se encarregou de transformar o trabalho de Akiba e Meir, reajustou a Lei oral e a escreveu com algumas adições pessoais, dando o nome de “Mishna do Rabi Jehuda”. Foi tão amplamente lido que se tornou, o Mishna, a forma autorizada da Lei oral dos judeus.

Na forma em que o temos hoje, o Mishna, ou seja, ensino oral, constitui o resultado de muita revisão e interpolação desde Jehuda. Assim mesmo é um resumo compacto destinado à memorização pela repetição e, portanto, atormentadoramente sucinto e obscuro a todo aquele que não esteja familiarizado com a vida e as histórias judaicas. Os judeus da Babilônia, da Europa e da Palestina o aceitaram, mas cada escola deu às suas máximas uma interpretação individual. Como seis gerações, de 10 a 220, de rabinos interpretadores haviam participado da formulação do Mishna, também agora seis gerações, de 220 a 500, de rabinos expositores aumentaram essas duas massas de comentários, os Gemaras palestino e babilônico.

Em fins do século IV, as escolas da Palestina coordenaram os seus comentários na forma conhecida como Gemara palestino. Mais ou menos, na mesma época, em 397, o rabino Ashi, chefe do colégio de Sura, iniciou a codificação do Gemara babilônico e trabalhou nele durante uma geração. Cem anos depois, em 499, Rabina II bar que quer dizer filho de Samuel —, também em Sura, completou a essa obra. Se considerarmos que o Gemara babilônico é onze vezes mais longo do que o Mishna, começaremos a compreender que a sua compilação levou um século.

O termo Talmud significa ensinar. Entre os amoraim ele era aplicado somente no Mishna. No emprego moderno esse termo inclui tanto o Mishna como o Gemara. O Mishna é o mesmo nos talmudes palestino e babilônico, os dois diferem apenas no Gemara ou comentário, que é quatro vezes mais longo no babilônico do que na forma palestina.

O Talmude babilônico enche 2.947 folhas de fólio, ou cerca de 6.000 páginas de 400 palavras cada uma. O Mishna está dividido em seis ordens, cada uma destas em tratados, totalizando 63, cada um destes em capítulos, em ensinamentos. As edições modernas do Talmude incluem, geralmente, o seguinte:

  1. O comentário de Rashi (1040-1105), que aparece nas margens interiores do texto;
  2. Os aditamentos, discussões do Talmude pelos rabinos franceses e germânicos dos séculos XII e XIII, que aparecem nas margens exteriores do texto.

Muitas edições acrescentam o Suplemento, remanescente da Lei oral omitido no Mishna de Jehuda Hanasi.

O Talmude não é apenas uma enciclopédia da história, teologia, ritual, medicina e folclore judaicos, é ainda um tratado sobre agricultura, jardins, indústria, profissões, comércio, finanças, tributação, propriedade, escravidão, herança, roubo, processos legais e direito penal. É um código diferente do “cristão” e semelhante ao muçulmano. As três falsas religiões concordavam em não admitir a praticabilidade de uma moral natural, não cedulária. Acreditavam que a maioria dos seres humanos pode ser persuadida a uma conduta tolerável somente pelo temor de um deus.

Na parte mais pitoresca do Talmude, o pequeno tratado Pirke Aboth, um editor desconhecido reuniu as máximas dos grandes rabinos dos dois séculos anteriores e dois posteriores a Jesus, o Cristo. Muitos desses pensamentos aplaudem a sabedoria e alguns a definem. Disse assim Bem Zoma:

Quem é sábio? Aquele que aprende de todos os homens. Quem é poderoso? O que domina a sua má inclinação, pois aquele que governa o seu espírito é melhor do que quem toma uma cidade. Quem é rico? Aquele que se contenta com a sua sorte, pois quando tu comes do labor de tuas mãos, deves ser feliz. Quem é honrado? Aquele que honra os seus semelhantes. Não desprezes qualquer homem ou coisa, pois não há nenhum ser humano que não tenha a sua hora, nem nenhuma coisa que não tenha o seu lugar. Vivi todos os meus dias entre os sábios e nada encontrei melhor para um ser humano do que o silêncio”.

O ALCORÃO

Durante o mês santo do Ramadã, Maomé se retirava, às vezes em companhia da família, para uma caverna no sopé do monte Hira, a quase seis quilômetros de Meca, e passava muitos dias e noites em jejum, meditação e oração. Uma noite, no ano 610, quando se achava sozinho na caverna, aconteceu-lhe a experiência base de toda a história maometana. Segundo o que foi relatado pelo seu principal biógrafo, Maomé ibn Ishaq, Maomé contou o acontecimento da seguinte maneira:

Enquanto estava dormindo, com uma colcha de brocado de seda, em que havia alguns escritos, o anjo Gabriel me apareceu e disse: ‘Leia’. Repliquei: ‘Não leio’. Ele me apertou com a colcha tão fortemente que pensei fosse morrer. A seguir, soltou-me e disse de novo: ‘Leia’. Então li em voz alta e ele se foi, finalmente. Acordei do meu sono e era como se aquelas palavras estivessem escritas no meu coração. Saí e comecei a andar, e, a meio caminho da montanha, ouvi uma voz do céu que dizia: ‘Ó Maomé, és o mensageiro de Alá e eu sou Gabriel’. Levantei a cabeça na direção do céu para ver, e ei-lo, Gabriel, em forma de homem, de pés juntos na extremidade do céu, dizendo: Ó Maomé, tu és o mensageiro de Alá e eu sou Gabriel”.

Voltando para junto de Khadija, colocou-a a par das visões, ela as aceitou como verdadeira revelação do céu e o animou a anunciar a sua missão.

Se como diz o espírito obsessor chamado de anjo Gabriel, que Maomé é o mensageiro de Alá, então queria dizer que ele era o mensageiro de um deusinho qualquer, visto que não podia desconhecer que a palavra Alá é uma contração de al-ilab, um deus da antiga Caaba, uma construção que é reverenciada pelos muçulmanos.

Em sendo verdade a narrativa dessa sua visão, na hipótese dele não ser um mentiroso contumaz e perigoso como são os sacerdotes, Maomé demonstra que não passa de um médium vidente e ouvinte, obsedado terrivelmente pelos espíritos obsessores quedados no astral inferior, que lhes aparecendo como o anjo Gabriel, que por hipótese alguma existe, por ser pura invencionice desses espíritos obsessores, que assim povoam a imaginação humana, ignorante e atrasada, ainda mais com aspectos humanos, vem lhe dizer que ele é o mensageiro de Alá.

E como prova de que Maomé era um médium vidente e ouvinte, muito perturbado, teve depois desse acontecimento muitas visões semelhantes. Frequentemente, quando isso acontecia, ele caía no chão em convulsões ou desmaios, com o suor lhe cobrindo a fronte. E era tão forte essa sua mediunidade, que mesmo o camelo, no qual estava montado, sentia a excitação e se movia agitadamente, em função da presença dos espíritos obsessores. Quando era compelido a descrever o processo de revelação, dizia que todo o texto do Alcorão estava no céu, e que um fragmento por vez lhe era comunicado, geralmente pelo anjo Gabriel. Perguntado como podia se lembrar dessas orações “divinas”, respondia que o arcanjo o fazia repetir palavra por palavra. Mas o fato é que os outros que se achavam perto do profeta, no momento, não viam e nem ouviam o arcanjo, mais uma prova da sua mediunidade de vidência e auditiva.

A palavra qur’ân significa leitura ou discurso, e é aplicada pelos muçulmanos ao conjunto ou qualquer seção das suas sagradas escrituras. Tal como a Bíblia judaico-“cristã”, o Alcorão é um amontoamento e os maometanos ortodoxos afirmam que é inspirado, em todas as suas sílabas, por Alá. Diferindo da Bíblia, o Alcorão é obra quase exclusiva de um homem e, portanto, constitui, sem dúvida alguma, o livro mais influente saído de uma só mão. Em variadas ocasiões dos últimos 23 anos de sua vida, Maomé ditou fragmentos dessa sua revelação. Nenhuma coleção desses fragmentos foi feita enquanto o profeta viveu. Mas vários muçulmanos sabiam-nos de cor.

O califa Abu Bekr ordenou ao principal amanuense — aquele que copia textos ou documentos à mão — de Maomé, Zaid ibn Thabit, que buscasse o Alcorão e o reunisse em um só conjunto. Do manuscrito assim completado de Zaid ibn Thabit foram feitas várias cópias, mas como elas não tinham vogais, os leitores públicos interpretavam algumas palavras de várias maneiras, e assim diversos textos aparecem em diferentes cidades do crescente reino muçulmano. A fim de acabar com essa confusão, o califa Otmã encarregou Zaid ibn Thabit e mais três estudiosos coraixitas — que eram os integrantes da tribo árabe dominante na cidade de Meca durante o surgimento do islamismo — de proceder à revisão do manuscrito de Zaid ibn Thabit, em 651. E desde então o texto vem sendo conservado com pureza sem par e cuidado reverente.

Assim como o estilo do Alcorão está modelado no dos profetas hebraicos, assim também os seus conteúdos, em grande parte, são uma adaptação das doutrinas, histórias e temas judaicos. O Alcorão que condena os judeus constitui a lisonja mais sincera que eles jamais receberam. As suas ideias básicas, monoteísmo, profecia, fé credulária, arrependimento, Juízo Final, céu e inferno, parecem judaicas de origem próxima, mesmo na forma e aparência. Generosamente aceita as Escrituras hebraica e “cristã” como revelações divinas, em III, 48. Alá fez ao ser humano 104 revelações, das quais somente quatro foram preservadas: o Pentateuco a Moisés, este também médium obsedado, os Salmos a Davi, o Evangelho a Jesus e o Alcorão a Maomé. Aquele que rejeitar qualquer uma delas, segundo Maomé, é um infiel, o que o sou honradamente com o mais distinto prazer. Mas as primeiras três sofreram tamanha deturpação que não podem mais merecer confiança, e o Alcorão agora as substitui.

Em uma sociedade em que o governo, o direito e a moralidade se acham vinculados a uma crença credulária, qualquer ataque à sua fé credulária é considerado uma ameaça aos próprios alicerces da ordem social, mas o Alcorão, mesmo assim, foi controvertido e ridicularizado. Em 784, um poeta persa foi decapitado por proclamar a superioridade de seus versos sobre o Alcorão. Nessa época, toda a estrutura do islamismo, apoiada no Alcorão, parecia prestes a ruir. Nessa crise, três fatores concorreram para a vitória da ortodoxia: um califa conservador, a subida dos guardas turcos e a lealdade natural do povo às crenças herdadas.

Subindo ao trono, em 847, Al-Mutawakkil baseou o seu apoio na população e nos turcos. E os turcos recém-convertidos ao maometismo, hostis aos persas e estranhos ao pensamento grego, entregaram-se de corpo e alma à política de salvar a fé credulária pela espada. Al-Mutawakkil anulou e revogou o liberalismo de al-Mamun. Os mutazilitas, que foram os primeiros muçulmanos a adotar os métodos saperológicos gregos para difundir as suas ideias, juntamente com os heréticos, foram expulsos dos cargos públicos e das posições educacionais. Qualquer expressão de ideias heterodoxas na literatura ou saperologia era proibida. A eternidade do Alcorão foi restabelecida por lei.

É bom saber que os muçulmanos se sentem ofendidos quando são chamados de maometanos, pois isto implica a ideia de um culto pessoal a Maomé, o que é proibido no Islã.

 

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