13.05.04.06.02- Cícero

A Era da Sabedoria
10 de outubro de 2018 Pamam

Seguindo a mesma linha de raciocínio do que foi convencionado com os estoicos, mesmo estando neste capítulo a explanação do sentimento e do pensamento gregos, não devemos deixar de nos reportar ao pensamento de Cícero transmitido fora da Grécia, uma vez que ele representa a continuação do Ecletismo, que é originariamente grego, sendo importante a sua contribuição no rol dos ecléticos, apesar dele ter vivido em Roma.

Marco Túlio Cícero encarnou no ano 106 a.C., em Arpino, uma cidade situada em uma colina, a 100 quilômetros ao sul de Roma, e desencarnou no ano 43 a.C., em Fórmias, na Itália, aos sessenta e três anos de idade. Em virtude do local em que encarnou, ainda que fosse um grande mestre de retórica e de composição latina, ele não era romano no sentido tradicional da palavra, e sempre se sentiu constrangido disto durante toda a sua vida.

Durante este período da história romana, caso alguém quisesse ser considerado uma pessoa com cultura, era necessário falar o grego e o latim. A classe alta romana até preferia falar a língua grega em correspondência privada, tanto pelo fato dela conter expressões mais precisas e até mais refinadas, sendo ainda mais sutil, como por causa da grande variedade de nomes abstratos. Cícero, como grande parte dos seus contemporâneos, foi educado com os ensinamentos dos antigos veritólogos, saperólogos, historiadores, literatas e poetas gregos. Em função disso, ele utilizou o seu conhecimento da língua grega para traduzir muitos dos conceitos teóricos provenientes dos sentimentos e dos pensamentos gregos para o latim, apresentando-os desta forma em benefício de uma maior expansão da cultura romana. Foi justamente essa sua educação que o ligou à elite romana tradicional.

O cognome Cícero em latim significa grão-de-bico, apesar dos romanos normalmente escolherem nomes mais realistas. Plutarco explica que o nome foi originalmente dado a um dos antepassados de Cícero, porque ele tinha uma covinha na ponta do nariz que parecia um grão-de-bico, e diz que também ele foi aconselhado para mudar esse nome depreciativo quando decidiu entrar na política, mas que recusou, dizendo que iria fazer o nome Cícero mais glorioso do que o nome Escauro, que significa com  tornozelos  inchados, e do que Catulo, que pitorescamente significa cachorrinho.

Em 79 a.C., ele se casou com Terência, quando então tinha vinte e sete anos de idade. De acordo com os costumes da classe alta da época, foi um casamento de conveniência, mas perdurou harmoniosamente durante trinta anos. A família de Terência era abastada, mas embora tivesse origem nobre, tinha ligações com a plebe, eram os Terenti Varrones, que preenchiam os requerimentos das aspirações políticas de Cícero, tanto em termos econômicos como em termos sociais. Terência tinha ainda uma parente, não se sabe se meia-irmã ou prima, que em criança tinha se tornado uma virgem-vestal, o que era uma grande honra. Ela era também uma mulher independente que não deixava o marido se imiscuir nos assuntos domésticos, porém tinha muito interesse na carreira política do marido.

Lá pelos anos 40 a.C., as cartas de Cícero a Terência se tornaram mais curtas e frias, com ele se queixando aos amigos que ela o havia traído, mas não explicou em que sentido, já que ela tinha muito interesse em sua carreira política. Ao que parece, o seu casamento não suportou a enorme pressão da tumultuada vida política em Roma, dado o envolvimento de Cícero com esta política e as várias disputas entre o casal. O divórcio ocorreu por volta do ano 45 a.C., e logo depois ele se casou com uma jovem moça patrícia chamada de Pubília, de quem ele tinha sido o guardião. Dizem as más línguas que Cícero se casou novamente porque precisava do dinheiro da segunda esposa, especialmente porque tinha que reembolsar o dote de Terência, daí a razão pela qual este casamento não durou muito tempo. Mas a verdadeira razão da sua separação reside no fato desta mulher não simpatizar com a sua filha Túlia, à qual ele adorava.

Cícero tinha uma grande afeição pela sua filha Túlia, tida com Terência. Quando ela ficou subitamente doente, em fevereiro de 45 a.C., desencarnando logo em seguida, depois de aparentemente haver se recuperado ao dar à luz uma criança, em janeiro do mesmo ano, ele ficou completamente arrasado, como comprovam as suas palavras, quando diz ao seu amigo Tito Pompônio, o Ático, o seguinte:

Perdi a única coisa que me ligava à vida”.

Este seu amigo então lhe convidou para visitá-lo durante as primeiras semanas depois deste evento, para que pudesse consolá-lo. Atendendo ao convite, Cícero passou a maior parte do seu tempo na biblioteca do amigo, lendo tudo o que os grandes espíritos gregos haviam escrito sobre como vencer a tristeza, e inconformado declarou:

Mas a minha dor derrota toda a consolação”.

Nessa ocasião, Júlio César, Brutus e Sérvio Sulpício Rufo lhe mandaram algumas cartas de condolências.

Com relação ao seu filho Marco, Cícero esperava que ele se tornasse um saperólogo como o pai, mas Marco preferia a carreira militar, tanto que se juntou ao exército de Pompeu contra Júlio César, em 49 a.C., com aquele tendo sido derrotado na Farsália, em 48 a.C., mas apesar disso foi perdoado por Júlio César. Logo em seguida, Cícero o enviou para Atenas com o intuito dele estudar como discípulo do peripatético Catipo, mas o jovem não tinha qualquer pendor para a labuta saperológica, muito pelo contrário, pois ciente da ausência dos olhos vigilantes do pai, decidiu “aproveitar” o tempo para beber, comer e outras prática do gênero, considerando que assim seria feliz. Depois do assassinato do seu pai, Marco se juntou ao exército dos liberatores, nome pelo qual ficou conhecida a facção do senado romano que organizou o assassinato de Júlio César nos idos de março de 44 a.C., mas foi mais tarde perdoado por Augusto, que estava bastante arrependido e com remorsos por haver posto Cícero na lista de proscrição durante o segundo triunvirato, o que o fez ainda a dar uma considerável ajuda à carreira de Marco, tornando-o um augure, sendo nomeado cônsul em 30 a.C., e mais tarde eleito procônsul da Síria e da província da Ásia.

Segundo Plutarco, Cícero era um estudante extremamente talentoso, cuja aprendizagem atraiu a atenção de toda a Roma, dando-lhe a oportunidade de estudar a lei romana sob os cuidados de Quinto Múcio Cévola. Outros estudantes eram Caio Mário, o Jovem, Sérvio Sulpício Rufo, o qual se tornou advogado e um dos poucos que Cícero considerava serem superiores a ele próprio em assuntos legais, e Tito Pompônio, que mais tarde recebeu o apelido de Ático, por causa do seu amor pela cultura helênica. Os dois últimos se tornaram amigos de Cícero por toda a vida, e Tito Pompônio, o Ático, iria ser o maior conselheiro e suporte emocional de Cícero.

Antes de tudo, Cícero era um intelectual, daí a sua propensão para a Saperologia. Ele começou a sua carreira de advogado em 83 ou 81 a.C., mas o seu primeiro caso importante de que se tem registro aconteceu em 80 a.C., na defesa de Sexto Róscio, que foi acusado de parricídio, e aceitar este caso foi um ato corajoso, pois o parricídio é um crime hediondo. Neste caso, ao que parece, ele acusou algumas pessoas, todas favoritas do ditador Sula, sendo Crisógono a mais famosa entre elas. Seria, então, fácil para Sula mandar alguém assassinar o ainda desconhecido advogado, em cuja defesa ainda se revestiu de um desafio indireto ao ditador. No entanto, a sua defesa deve ter sido brilhante, pois conseguiu absolver o acusado.

Em 79 a.C., ele partiu para a Grécia, Ásia Menor e Rodes, ao que parece para evitar alguma represália por parte de Sula. Em Atenas, onde visitou os lugares memoráveis dos veritólogos e dos saperólogos, encontrou-se com Tito Pompônio, o Ático, que tinha se tornado um cidadão honorário desta cidade, que o apresentou a alguns atenienses importantes. Resolveu, então, consultar alguns retóricos diferentes para aprimorar o seu estilo de oratória, tendo como o seu maior instrutor Apolônio Mólon, de Rodes, que o ensinou uma forma de oratória mais expansiva e menos intensa, que iria caracterizar o seu estilo individual no futuro.

Mas, antes disso, no fim dos anos 90 e início dos anos 80 a.C., Cícero se inclinou para as bandas da Saperologia, o que iria ter grande importância para a sua vida. E, de fato, ele iria introduzir a veritologia e a saperologia gregas aos romanos e criaria um vocabulário latino próprio. Em 87 a.C., Filão de Larissa, então o chefe da Academia fundada por Platão, em Atenas, chegou a Roma, sendo inspirado por um extraordinário zelo pela Saperologia, Cícero se sentou entusiasticamente aos seus pés e absorveu toda a sabedoria platônica, chegando a declarar que Platão era o seu deus, admirando, especialmente, tanto a seriedade moral, ética e política de Platão, como também o seu elevado poder criativo. Mas, mesmo assim, Cícero rejeitou algumas das suas ideias, ao que tudo indica em razão do seu ecletismo.

Cícero é considerado normalmente como sendo uma das mentes mais versáteis da Roma Antiga, plenamente justificado com a sua apresentação das escolas da veritologia e da saperologia gregas aos romanos, criando ainda um vocabulário próprio em latim, distinguindo-se como sendo um saperólogo, tradutor e linguista. Além disso, era um orador notável, um advogado de grande sucesso e um grande político. Para quem ainda não conseguiu apreender o infalível processo da evolução dos seres, deve se esforçar para responder o seguinte: como se explica a imensa diferença das qualidades de Cícero em relação aos seres considerados vulgares?

Mas ao que parece, ele pensava que a sua carreira política era a sua maior proeza. No entanto, hoje em dia, ele é apreciado em primeiro plano pelos seus trabalhos saperológicos, e depois pelo seu desempenho político e pelo seu humanismo. O seu elevado poder de compreensão pode ser avaliado por intermédio das suas correspondências, muitas das quais são dirigidas ao seu amigo Tito Pompônio, o Ático, em que o biógrafo deste, Cornelius Nepos, comenta que elas continham tal riqueza de detalhes sobre as inclinações de homens importantes, as falhas dos generais e as revoluções no governo, que os seus leitores tinham pouca necessidade de uma história do período.

Com relação à carreira política de Cícero, o seu primeiro cargo foi como um dos vinte questores anuais, um trabalho de treino para a administração pública em áreas diferentes, mas com ênfase na administração e na contabilidade rigorosa do dinheiro público, sob a orientação de um magistrado veterano ou de um comandante provincial.

Ele serviu como questor na Sicília Ocidental, em 75 a.C., demonstrando uma grande honestidade e uma impoluta integridade na forma como lidava com os habitantes, em razão da sua elevada ética. Como resultado do seu desempenho, os sicilianos agradecidos pediram ao saperólogo que processasse Caio Verres, um governador da Sicília, que havia roubado a ilha. Atendendo ao pedido, a sua acusação de Caio Verres foi um grande sucesso forense para Cícero. Após este caso, ele tomou o lugar de Hortênsio, advogado de Caio Verres, como sendo o maior orador de Roma, pois a oratória era considerada uma grande arte em Roma, por ser uma ferramenta importante para a divulgação do conhecimento e para se promover a si próprio em eleições, já que não havia meios de comunicação regulares. Mas apesar do seu grande sucesso como advogado, Cícero não tinha uma genealogia que respaldasse a sua reputação, pois não era nem nobre e nem patrício. No entanto, foi edil, em 69 a.C., e pretor, em 66 a.C., onde serviu como presidente do Tribunal de Reclamação, e depois foi eleito cônsul, em 63 a.C.

Neste último cargo exercido, ele destruiu uma conspiração para derrubar a República, liderada por Lúcio Sérgio Catilina. O Senado deu a Cícero o direito de usar o Senatus de Re Publica Defenda, uma declaração de lei marcial, e ele fez Catilina deixar a cidade com quatro discursos, as famosas Catilinárias, que até hoje são exemplos notáveis do seu estilo retórico. As Catilinárias enumeraram os excessos de Catilina e dos seus seguidores, e denunciaram os seus simpatizantes senatoriais como sendo patifes e devedores dissolutos, que viam Catilina como uma esperança final e desesperada. Após o primeiro discurso, Catilina saiu do templo de Júpiter Stator. Nos próximos discursos, entregou mais provas contra Catilina, que fugiu e deixou para trás outros conspiradores para começarem a revolução de dentro, enquanto iria atacar a cidade com um exército, tentando a ajuda dos alóbroges, uma tribo da Gália Transalpina. Mas Cícero, trabalhando com os gauleses, conseguiu recuperar cartas que incriminavam cinco conspiradores e os forçaram a confessar os seus crimes em frente ao Senado. Catão defendeu a pena de morte e todo o Senado concordou. Cícero recebeu o honorífico Pater Patriae por ter suprimido a conspiração, mas desde então viveu receoso de ser julgado ou exilado por haver condenado cidadãos romanos à morte sem julgamento, uma vez que o Senado não era um poder judicial.

Em 60 a.C., Júlio César convidou Cícero para ser o quarto membro do grupo que era formado por ele, Pompeu e Crasso, que mais tarde seria denominado de O Primeiro Triunvirato. Mas ele recusou, porque suspeitava que isto iria prejudicar a República. Em 58 a.C., Públio Clódio Pulcro, o tribuno dos plebeus, elaborou uma lei denominada de Leges Clodiae que penalizava com o exílio aquele que tivesse executado um cidadão romano sem julgamento pelo poder judiciário. Tal lei era destinada especificamente a Cícero, pelo fato dele haver executado os membros da conspiração de Catilina quatro anos antes sem um julgamento formal, em virtude de ele ter atraído a ira de Clódio por haver arruinado o seu álibi em um caso, daí o fato dele ser o alvo da nova lei. Em sua defesa, Cícero alegou que o Senatus de Re Publica Defenda o protegia do castigo, tentando ao mesmo tempo angariar o apoio dos senadores e cônsules, especialmente o de Pompeu. Mas o apoio não se materializou, então ele foi exilado, em 58 a.C., indo para Tessalônica, na Grécia. O exílio o fez cair em depressão, como demonstra uma carta em que diz a Tito Pompônio, o Ático, que foram os pedidos deste último que o impediram de se suicidar. Logo após, um novo tribuno, Tito Ânio Papiano Milão, interviu junto ao Senado, que foi unânime no seu voto em favor de chamar Cícero de volta, com a exceção de Clódio. Cícero voltou para a Itália em 57 a.C., sendo acolhido em Brundísio por uma multidão e pela sua querida filha Túlia.

Cícero tentou se reintegrar na política, mas não obteve sucesso ao atacar uma lei de César. A conferência em Luca, em 56 a.C., forçou-o a mudar a sua posição e a dar o seu apoio ao Primeiro Triunvirato. Então ele voltou à sua atividade saperológica, em razão do seu grande pendor para a sabedoria.

Em 50 a.C., a luta entre Júlio César e Pompeu ficou mais intensa, com Cícero escolhendo o lado do segundo, mas ao mesmo tempo tomando o cuidado de evitar em tornar Júlio César alheio ao lado que escolheu. Quando Júlio César invadiu a Itália, em 49 a.C., Cícero fugiu de Roma. Entretanto, Júlio César querendo legitimar o seu poder tentou atrair o grande Cícero para o seu lado, mas este saiu da Itália e viajou para a Ilíria, onde se encontrava o pessoal de Pompeu, viajando após para a Farsália, em 48 a.C., apesar de estar perdendo a esperança na competência e nas intenções do grupo de Pompeu. Consolidada a vitória de Júlio César, ele voltou para Roma, mas conservando a cautela, embora esta fosse desnecessária, pois foi perdoado, fato que o levou a tentar se ajustar à situação e manter o seu trabalho político, na esperança de que Júlio César fizesse retornar a República e as suas instituições.

Em uma carta a Varro, em 46 a.C., Cícero elaborou a sua estratégia sob a ditadura de Júlio César. Contudo, ele foi completamente surpreendido pela ação dos liberatores, que assassinaram Júlio César, em 44 a.C., através de uma conspiração, na qual Cícero não estava incluído, apesar dos conspiradores terem a certeza de que ele era simpático ao movimento. Daí a razão pela qual Brutus o chamou e lhe pediu que restaurasse a República, quando levantou o punhal ensanguentado após o assassinato. Cícero se tornou um líder popular durante esse período de instabilidade, sem demonstrar qualquer consideração por Marco Antônio, que queria se vingar dos assassinos de Júlio César. Em troca da anistia dos assassinos, Cícero fez com que o Senado concordasse em não considerar Júlio César um tirano, o que permitiu aos cesarianos terem um suporte legal.

Cícero e Marco Antônio se transformaram nos dois homens mais importantes de Roma, com este sendo o cônsul, líder da facção cesariana e executor oficial do testamento de Júlio César, e aquele o porta-voz do Senado. No entanto, os dois homens nunca haviam estado em termos amigáveis, tendo a situação entre ambos piorado ainda mais com a afirmativa de Cícero que Marco Antônio estava a tomar liberdades com a sua interpretação dos desejos e intenções de Júlio César. Quando Otaviano, o herdeiro e filho adotivo de Júlio César, chegou a Itália, Cícero começou a atacar Marco Antônio em uma série de discursos intitulados de Filípicas, em honra das denunciações de Demóstenes contra Filipe II da Macedônia, mas elogiando Otaviano, dizendo que o jovem queria apenas honra e não iria cometer o mesmo erro que o seu pai adotivo cometeu. Nesta época, a popularidade de Cícero não tinha par entre os romanos.

Continuando a sua cruzada contra Marco Antônio, apoiou Décimo Júnio Brutus Albino como governador da Gália Cisalpina e influenciou ao Senado para declará-lo como sendo um inimigo do Estado. O discurso de Lúcio Pisão, o sogro de Júlio César, atrasou tal decisão senatorial, o que somente foi se concretizar quando Marco Antônio se recusou a acabar com o cerco de Mutina, que estava nas mãos de Décimo Brutus. Mas o plano de Cícero não deu certo, pois Marco Antônio se juntou a Otaviano e se tornaram aliados, juntamente com Lépido, formando assim O Segundo Triunvirato, após as batalhas sucessivas de Forum Gallorum e Mutina.

Esse Segundo Triunvirato começou a usar proscrições para se livrar dos seus inimigos e rivais potenciais, imediatamente após legislarem a aliança e a legalizarem por intermédio de um termo de cinco anos com império consular. Cícero e todos os seus contatos e apoiantes estavam entre aqueles considerados inimigos do Estado. Segundo Plutarco, Otaviano discutiu durante dois dias contra colocar Cícero na lista dos proscritos.

Apesar de ser procurado por toda a parte, Cícero era visto com simpatia pela maioria da população, que se recusava a apontá-lo. Foi preso no dia 7 de dezembro de 43 a.C., ao deixar a sua vila em Fórmias, em uma liteira, quando se dirigia à costa para embarcar em um barco a caminho da Macedônia. Quando os assassinos, Herênio, um centurião, e Popílio, um tribuno, chegaram, os escravos de Cícero disseram que não o tinham visto, mas um deles chamado de Filólogo, que havia sido libertado pelo seu irmão Quinto Cícero, denunciou ao saperólogo. Após ser descoberto, antes do assassinato, diz-se que as últimas palavras de Cícero foram as seguintes:

Não há nada correto no que estás a fazer, soldado, mas tenta me matar corretamente”.

Fez uma vênia aos seus captores e inclinou a cabeça para fora da liteira, em um gesto para facilitar a tarefa. Ao mostrar o seu pescoço e a sua garganta aos soldados, estava a indicar que não iria resistir. Segundo Plutarco, Herênio primeiramente o matou e depois lhe cortou a cabeça. Seguindo as ordens de Marco Antônio, as suas mãos, que tinham escrito as Filípicas, também foram cortadas e pregadas, juntamente com a sua cabeça, na Rostra do Fórum Romano, de acordo com a tradição de Mário e Sula, que tinham feito a mesma coisa com a cabeça dos seus inimigos. Cícero foi a única vítima das proscrições a ter este tratamento. Em uma história atribuída a Plutarco, mas que é narrada por Dião Cássio, Fúlvia, a esposa de Marco Antônio, pegou a cabeça de Cícero, arrancou-lhe a língua e a trespassou com o seu gancho de cabelo, tal como uma vingança final contra o seu grande poder de oratória.

Mas em 30 a.C., Marco, o filho de Cícero, vingou a morte do pai quando foi cônsul, ao anunciar a derrota naval de Accio, em 31 a.C., contra Otaviano e Agripa. Na mesma reunião, o Senado votou para proibir aos futuros descendentes de Marco Antônio de usarem o nome Marco. Otaviano iria mais tarde encontrar um dos seus netos a ler uma obra escrita por Cícero. O rapaz tentou esconder o livro, temendo a reação do avô, mas Otaviano, agora Augusto, tirou-lhe o livro, leu parte dele, e o devolveu dizendo:

Ele era um homem sábio, cara criança, um homem sábio que amava a sua pátria”.

Cícero foi declarado pela Igreja Católica como sendo um pagão justo, por essa razão muitos dos seus trabalhos foram preservados. Santo Agostinho citava as suas obras intituladas de Da República e Das Leis, devido a essas citações é que se podem recriar diversos dos seus trabalhos utilizando os fragmentos que restam. Ele também articulou um conceito abstrato de Direito, baseado em leis antigas e nos costumes. Das suas obras, seis sobre retórica sobreviveram, assim como parte de oito livros sobre Saperologia. Dos seus discursos, oitenta e oito foram registrados, mas apenas cinquenta e oito sobreviveram. Ele alimentou o sonho de que somente na Saperologia se encontrava o sucedâneo da Teologia, por isso resolveu sumariar os ensinamentos dos sábios gregos para oferecê-los como um último presente ao povo, em razão disso a sua obra que discute Teologia foi considerada por Voltaire como sendo o melhor livro de toda a antiguidade, e segundo os estudiosos a sabedoria não se expressava de forma tão bela desde o tempo de Platão.

Era sobretudo de Platão que as ideias de Cícero decorriam, mas ele rejeitava o dogmatismo dos epicuristas, entendendo-se como dogmatismo a tendência para afirmar alguns sentimentos como sendo verdadeiros, ao dizer assim:

Que falam das coisas divinas com igual segurança de quem acaba de chegar de uma reunião de deuses”.

De igual modo rejeitava os veritólogos estoicos, que repeliam os desígnios ao ponto de “dar-nos a impressão de que até os deuses foram feitos para o uso humano”. O ponto de partida para o seu ecletismo era o da Nova Academia, que adotava um ceticismo mais brando, que negava todas as certezas e tinha a probabilidade como o bastante para a vida humana.

Como a verdade ainda não havia sido estabelecida no seio da nossa humanidade, ele dizia corretamente o seguinte:

Na maioria das coisas, a minha filosofia é a da dúvida. Como posso te ensinar o que não sei? Os que procuram apreender as minhas concepções pessoais revelam um desassisado grau de curiosidade”.

Cícero moteja dos sacrifícios, oráculos e augúrios, em que estes últimos eram as profecias feitas pelos áugures, sacerdotes romanos, a partir do canto e dos voos dos pássaros, pelo que consagra todo um tratado ao combate da adivinhação. Sobre o tão divulgado culto da Astrologia, indaga se todos os soldados mortos em Canes haviam nascido sob a mesma estrela, duvidando que o conhecimento do futuro venha a ser um bem, dizendo que o futuro pode ser tão desagradável como a verdade que tão tenazmente perseguimos. Aqui se nota claramente que veritólogos devem transmitir a verdade para que ela possa ser explanada pelos saperólogos.

Estando ciente de que a verdade ainda não havia sido transmitida pelos veritólogos, ele passa a se referir na tribuna às velhas verdades do povo, que louvavam aos seus deuses, que não passavam de espíritos obsessores quedados no astral inferior, dizendo assim:

Quando ao trigo chamamos Ceres e ao vinho chamamos Baco, estamos empregando uma figura de retórica, pois haverá tonto que admita serem o trigo e o vinho deuses que o alimentam”.

Ao analisar as concepções atomistas de Lucrécio e Demócrito, ele chega a refutá-las, pois sem qualquer conhecimento das leis, dos princípios e dos preceitos da Química e da Física, bem como de que maneira se processam as evoluções dos seres atômicos e moleculares, até a formação dos seres celulares, considera improvável que os átomos sem nenhum guia, mesmo no infinito do tempo, tenham-se arranjado na atual disposição do mundo, tal como se as letras do alfabeto, espontaneamente, tivessem se arranjado nos Annales de Ênio.

Afirma que a nossa ignorância dos deuses não lhes assegura a existência, considerando que o consenso humano em geral dá probabilidades em favor da Providência Divina. Então afirma que o credo é indispensável à moral e a ordem pública, não devendo ser atacada por nenhum homem de bom senso. Daí o fato de continuar nas funções de augur oficial, após haver escrito contra a adivinhação. A moral romana, a sociedade e o governo estavam atados ao velho credo e não podiam deixá-la perecer, pois foi justamente assim como raciocinaram os imperadores que perseguiram o falso cristianismo.

Quando a sua amada filha Túlia desencarnou, Cícero se inclinou mais do que nunca para a admissão da imortalidade da alma. Muitos anos depois, no Sonho de Cipião, em que fecha o Da República, toma de Pitágoras, Platão e Eudóxio uma complexa e eloquente concepção da vida após a morte, na qual os bons gozam de eterna bênção, como que prevendo o translado para os Mundos de Luz. Mas na sua correspondência particular, mesmo nas cartas de consolação aos amigos, não há referência à vida do além.

Como era conhecedor do ceticismo das grandes mentalidades que em todos os tempos influenciaram a cultura humana, Cícero baseava os seus tratamentos morais, éticos e políticos em alicerces seculares, os quais independiam de quaisquer sanções sobrenaturais. Em De Finibus começa indagando sobre o caminho da felicidade e concorda com os estoicos que para atingi-la basta apenas a virtude, mesmo que tal concordância seja marcada pela hesitação. No De Officiis examina o caminho da virtude e consegue interessar ao leitor no cumprimento do dever, graças ao encanto do seu estilo.

É impressionante o alto grau de espiritualidade alcançado pelo saperólogo, o que se pode comprovar facilmente por intermédio das suas seguintes palavras:

Todos os homens são irmãos, o mundo deve ser considerado a cidade comum dos deuses e dos homens”.

E ainda pela sua concepção de que a mais perfeita moralidade seria uma conscienciosa lealdade para com o todo, em que se encerra a noção do compromisso firmado com as obrigações naturais e do cumprimento dos deveres inerentes a todos os seres humanos, como também da realização das missões destinadas aos espíritos mais elevados. Cumpre ao ser humano ser leal a si próprio e à sociedade, dar boa base econômica à sua vida e depois desempenhar os compromissos de cidadão. No entanto, ele considera que uma sábia política é mais nobre que a mais sutil saperologia, dada a sua imensa militância política.

Para ele a monarquia é a melhor forma de governo, desde que o soberano seja bom, mas é a pior quando o soberano é mau, o que em breve seria demonstrado na prática por Roma. A aristocracia é boa quando aqueles que são realmente os melhores governam, mas como ele era membro da classe média, não admitia que as velhas famílias de Roma fossem realmente as melhores. A democracia é boa quando a virtude é geral, situação que para ele não existia, em que a regra se vicia com a falsa admissão da igualdade, mas o saperólogo se equivoca, pois sendo o governo do povo, pelo povo e para o povo, possibilita a que os espíritos que encarnam em situações adversas, no meio do povo mais humilde, possam se elevar aos mais altos degraus da vida, contribuindo com a sua parcela para alavancar o meio. Em sua concepção, a melhor forma de governo está em uma constituição mista, como a romana anterior aos Gracos, quando havia o poder democrático das assembleias, o poder aristocrático do senado e o poder quase de rei dos cônsules eleitos por um ano. Sem freios e sem contrapesos, a monarquia degenera em despotismo, a aristocracia passa a oligarquia, a democracia se torna demagógica, caótica, ditatorial. Escrevendo depois sobre o consulado de César, lança um ataque em sua direção, através das seguintes palavras:

Diz Platão, que da exagerada soltura que o povo chama de liberdade brotam os tiranos como de uma raiz, e que no fim tal liberdade reduz o país à escravidão. Tudo em excesso passa ao oposto. Da desenfreada populaça um homem usualmente emerge como chefe… um homem intrépido e sem escrúpulos… que corteja o favor popular à custa da propriedade alheia. E tal homem, que muitas razões tem para não permanecer como simples cidadão, abroquela-se no cargo e nele se reelege. Rodeia-se de guardas e vira o tirano da própria gente que o elevou ao poder”.

Mas como César venceu, Cícero optou por minimizar o seu descontentamento, promovendo a justiça nas plenitudes da lei, evoluindo ainda mais o seu corpo de luz no cultivo da amizade espiritual, para que assim pudesse eternizar o seu nome na história desta nossa civilização, ciente de que as leis se calam em tempo de guerra, mas pelo menos podia se absorver na sabedoria da lei. Assim, seguindo os estoicos, definiu a lei como sendo “a razão em acordo com a natureza”, ou seja, as leis procuram ordenar e estabilizar as relações criadas pelos impulsos sociais do ser humano, e complementa dizendo que “a natureza nos inclina a bem querer os homens e aqui está o fundamento da lei”. Porque a amizade não deve se basear em vantagens recíprocas, mas em compreensão de interesses comuns, ligados e limitados pela justiça e pela virtude, as leis da amizade não devem se prestar a propostas desonestas e nem à sua realização.

Uma vida honrada é a melhor garantia para se obter uma velhice agradável, pois a vida de dissipações entrega à velhice um corpo gasto antes do tempo, mas um viver bem conduzido pode nos levar aos cem anos, como Masinissa. A dedicação ao estudo nos distrai da sub-reptícia aproximação da velhice. Tanto a velhice como a mocidade têm as suas glórias, que se revelam em uma tolerante sabedoria, na respeitosa afeição dos filhos e no arrefecimento dos desejos e ambições. A velhice pode temer a morte, mas só se não estiver enfibrada de Saperologia. Para além do túmulo, na melhor das hipóteses, está uma vida mais feliz, e na pior, a paz eterna.

Com a sua intelectualidade, Cícero remodelou a língua latina, aumentando-lhe o vocabulário, proporcionando a que ela fosse o instrumento da Veritologia e da Saperologia e o veículo das religiões, as verdadeiras, das ciências e das letras na Europa ocidental, durante dezessete séculos. A posteridade deverá relembrá-lo mais como saperólogo do que como jurista, político ou mesmo estadista, louvando-o pela conquista das letras. Entre todos os romanos, Cícero gozou de uma fama somente abaixo da de César, e talvez da de Augusto, exceções que hoje estão sendo devidamente reparadas.

Por fim, temos que fazer justiça ao saperólogo, esclarecendo que a Veritologia é a fonte da Saperologia, por isso os saperólogos procuram investigar todas as doutrinas veritológicas, bem como todos os sistemas saperológicos, com a finalidade precípua de explanar a verdade, a fim de que a nossa humanidade possa se esclarecer sobre a vida fora da matéria e, por conseguinte, espiritualizar-se, para que os seres humanos possam dar um novo rumo às suas vidas.

E foi justamente isso que Cícero procurou fazer. Mas quando os estudiosos do assunto se ocupam dos seus pensamentos, no âmbito da saperologia antiga, ignorando totalmente esta acepção, alegam que é mais por motivos culturais do que teoréticos. Assim, chegam a afirmar que o saperólogo oferece apenas o mais belo paradigma da mais pobre Saperologia, que mendiga em cada escola migalhas da verdade, como se os conhecimentos metafísicos acerca da verdade fossem da seara dos saperólogos. Um desses estudiosos é C. Marchesi, que equivocadamente assim se expressa:

Cícero não deu novas ideias ao mundo… O seu mundo interior é pobre pelo fato de dar ouvidos a todas as vozes”.

Mas este estudioso, por força das circunstâncias, passa de qualquer maneira a reconhecer a importância do saperólogo, quando também assim se expressa:

Também aqui se manifesta a força divulgadora e animadora do engenho latino, porque nenhum grego teria sido capaz de difundir o pensamento grego pelo mundo como fez Cícero”.

Mas o fato é que este autor que ora rabisca atualmente estas linhas está procedendo da mesma maneira que Cícero, com a diferença fundamental que encontrou a verdade na doutrina do Racionalismo Cristão, mas que também não deixou de “mendigar” as migalhas da verdade em cada escola veritológica, e nem tampouco deixou de “mendigar” as migalhas da sabedoria em todos os pensamentos saperológicos.

Se assim procedessem esses estudiosos, bem como o restante de toda a nossa humanidade, o mundo seria outro, muito mais evoluído. A ética recomenda a adoção de boas maneiras e um comportamento adequado para com os veritólogos e os saperólogos, pois a crítica aos mesmos não cabe àqueles que ainda não conseguiram alcançar a tais estágios evolutivos.

 

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