13.05.04.05.01- Pirro de Élida

A Era da Sabedoria
9 de outubro de 2018 Pamam

Pirro de Élida encarnou no ano 360 a.C., em Élida, uma das três unidades em que se divide a periferia da região da Grécia Ocidental, situada na costa ocidental do Peloponeso, tendo desencarnado no ano 270 a.C., ao que parece também em Élida, com a idade de noventa anos. É o primeiro saperólogo cético, sendo o fundador da escola que veio a ser conhecida como pirronismo, cuja doutrina tem por base a dúvida sobre a captação dos conhecimentos metafísicos acerca verdade, os quais dizem respeito às coisas, aos fatos e aos fenômenos universais, em virtude da incapacidade do intelecto humano para tal desiderato.

Por aqui se pode constatar claramente o quão correto se encontrava Jesus, o Cristo, quando afirmou que “A ignorância é o grande mal da humanidade”; pois caso os seres humanos já fossem esclarecidos espiritualmente, notadamente em relação aos órgãos mentais que formam a nossa inteligência, que são o criptoscópio, o órgão mental com a função de perceber e com a finalidade de captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade; o intelecto, o órgão mental com a função de compreender e com a finalidade de criar as experiências físicas acerca da sabedoria; e a consciência, o órgão mental com a função de coordenação e a finalidade de coordenar o criptoscópio e o intelecto; cujos órgãos mentais são comandados pelos atributos individuais e relacionais; não haveria ceticismo algum neste nosso mundo-escola.

É sabido que no ambiente terreno não existem conhecimentos metafísicos acerca da verdade, por isso os veritólogos e os religiosos têm que lançar mão dos seus fabulosos criptoscópios e da moral para que possam se elevar ao Espaço Superior, que é o repositório dos verdadeiros conhecimentos; e nem tampouco existem as experiências físicas acerca da sabedoria, por isso os saperólogos e os cientistas têm que lançar mão dos seus fabulosos intelectos e da ética para que possam se transportar ao Tempo Futuro, que é o campo das verdadeiras experiências. E como a consciência coordena aos dois outros órgãos mentais, são os graus de desenvolvimentos dos órgãos mentais, dos atributos individuais e relacionais, portanto, da educação, que vão proporcionar o nível de universalização dos espíritos. Para que possamos alcançar a verdade, a sabedoria e a razão, nós temos que transcender ao ambiente fluídico deste mundo, necessária e obrigatoriamente.

O ambiente fluídico deste mundo proporciona apenas o desenvolvimento da imaginação, o raciocínio através das representações de imagens, em cuja fase a nossa humanidade atualmente se encontra, e a fase da imaginação já alcançou por inteiro o seu estágio final, para que então os seres humanos possam ingressar de vez na fase da concepção, raciocinando através das associações de ideias, deixando de viver na irrealidade da vida, sendo por isso que quase tudo com que nos deparamos neste mundo é considerado como sendo mera aparência, daí a razão da palavra ceticismo ser também empregada, por extensão, como o costume ou a prática de se duvidar de tudo, mas sem aleivosia, e a palavra pirronismo ser empregada popularmente como teimosia ou mesmo obstinação contra as razões ou os argumentos apresentados por aqueles que não advogam a suspensão das opiniões e dos julgamentos acerca de qualquer assunto que diga respeito à verdade.

Citando Apolodoro de Atenas, Diógenes Laércio vem afirmar que Pirro de Élida foi um pintor e que existiam pinturas suas no ginásio de Élida, mas que depois foi atraído pela Filosofia, quando o certo é pela Saperologia, levado pelas obras de Demócrito, travando ainda contato com o pensamento dialético por intermédio de Bríson, aluno de Estílpon. Como se pode constatar, o saperólogo não considerou o veritólogo Demócrito como sendo a sua legítima fonte, tal como assim procedeu Aristóteles em relação a este e aos demais veritólogos.

Pirro de Élida, juntamente com Anaxarco, viajou com Alexandre, o Grande, em suas conquistas pelo Oriente, o que possibilitou que estudasse na Índia com os gimnosofistas, nome que os gregos e os romanos deram aos brâmanes, por viverem praticamente nus, e, também, na Pérsia com os magis ou magos, termo este utilizado desde o século IV a.C. para caracterizar os seguidores de Zoroastro, mas deturpando os seus ensinamentos, pois que se dedicavam a ler as estrelas e os destinos que elas previam, por isso a palavra mago atualmente denota aquele que pratica a magia ou o ocultismo, podendo ainda indicar alguém que possui habilidades superiores, como, por exemplo, quando se diz que alguém é um “mago do piano”, por tocar com perfeição a esse instrumento musical.

A influência oriental fez com que o saperólogo viesse a adotar uma vida de reclusão. Voltando para Élida, viveu na pobreza, mas foi muito reconhecido pelos seus habitantes e, também, pelos de Atenas, com estes últimos lhe concedendo a cidadania. Em virtude de ser muito modesto para escrever uma obra, o seu sistema é conhecido principalmente pelos escritos satíricos do seu discípulo Timon, o Silógrafo, sabendo-se que a silografia é a arte de escrever poesias satíricas. O seu sistema cético é expresso através de três princípios:

  1. Pela palavra acatalepsia, que significa a impossibilidade de compreender, possibilitando a dúvida e a negação de qualquer certeza de conhecer as coisas, os fatos e os fenômenos universais, sendo que qualquer afirmação neste sentido pode ser contraditada por argumentos igualmente válidos;
  2. É necessário preservar uma atitude de suspensão intelectual, ou, como Timon expressa, nenhuma afirmação pode ser considerada melhor que outra;
  3. Estes resultados são aplicados na vida em geral, pois dado que nada pode ser conhecido, a única atitude adequada é viver em ataraxia.

Para Pirro de Élida, nem os sentidos e nem a razão podem nos dar conhecimentos certos, mesmo com ele ignorando o que seja realmente a razão, confundindo-a com o argumento, embora assim ela também possa ser utilizada; pois que os sentidos deturpam o objeto ao percebê-lo, e a razão é simplesmente a serva sofista do desejo, pois toda razão tem uma outra razão correspondente que a ela se opõe, então a mesma experiência pode ser agradável ou desagradável, conforme seja a circunstância ou a predisposição, já que o mesmo objeto pode parecer pequeno ou grande, feio ou belo, como também a mesma ação pode ser moral ou imoral, conforme o lugar e a época, como ainda os mesmos deuses existem ou não existem, em conformidade com as diferentes nações da humanidade. E como tudo é opinião, não pode ser completamente verdadeiro.

Grande tolice, pois, é tomar partido em disputas, procurar mudar de vida ou de lugar, ou mesmo invejar o futuro ou o passado, pois todo desejo é ilusão. A própria vida é um bem incerto, e não se pode afirmar que a morte seja um mal, então não devemos alimentar preconceito algum contra uma ou contra outra. O ideal consiste em aceitar tudo com calma, sem tentar reformar o mundo, mas apenas tolerá-lo pacientemente, sem sucumbir à febre do progresso, contentando-se com a paz. Pirro de Élida tentou sinceramente pôr em prática a essa sua “sabedoria” com um tanto de influência hindu, já que se conformou humildemente com os costumes e os cultos de Élida, sem combatê-los e sem fazer o mínimo esforço para evitar os perigos ou prolongar a sua vida, apesar de haver desencarnado com noventa anos de idade. Os seus concidadãos se admiraram a tal ponto com ele, que em sua homenagem isentaram de impostos a todos que eram considerados como sendo filósofos, na realidade, veritólogos ou saperólogos, em função da mescla que sempre existiu entre ambos.

Para Pirro de Élida, a impossibilidade do conhecimento, mesmo em relação à nossa própria ignorância ou dúvida, deve induzir o homem sábio a se resguardar da vida, evitando as fortes emoções que acompanham os debates sobre as coisas imaginárias. Aqui ele reconhece por inteiro toda a força que existe na imaginação. Este ceticismo pioneiro é a primeira e a mais completa exposição do agnosticismo na história desta civilização. Mas os seus resultados morais e éticos podem ser até comparados com a tranquilidade idealizada pelos estoicos e pelos epicuristas, o que implica em dizer que mesmo sendo cético, o saperólogo procurava a moral e a ética, esta última acima de tudo o mais.

Mas apesar de duvidar da capacidade do seu próprio corpo mental em alcançar o conhecimento, mais propriamente o seu intelecto, o saperólogo conseguia revelar a sua própria inteligência, pois que mesmo assim não deixava de ser um pesquisador da natureza, o que demonstra ao apontar o caminho do sábio através de três quesitos básicos, quais sejam:

  1. Em primeiro lugar, deve perguntar o que são as coisas e de que são constituídas;
  2. Em segundo lugar, como estamos relacionados a elas;
  3. Em terceiro lugar, perguntar qual deve ser a nossa atitude em relação a elas.

Isso tudo é pesquisa saperológica. Ao mesmo tempo em que realiza a sua pesquisa, diz que sobre o que as coisas são na realidade, podemos apenas responder que não sabemos de nada, apenas da sua aparência, mas que somos ignorantes da sua substância íntima. Por aqui se constata claramente que esse seu ceticismo se caracteriza realmente pela dúvida em relação à percepção e a captação dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, pois que ele declara abertamente a sua ignorância em relação às substâncias íntimas das coisas. Ora, como disse Aristóteles, quem faz uma afirmação também faz outras em outros sentidos, o que implica em dizer que o saperólogo reconhecia tacitamente a existência das substâncias das coisas, mas considerando impossível a sua percepção e captação dos conhecimentos das suas naturezas.

Mas qual seria a causa desse ceticismo de Pirro de Élida?

O fato é que Pirro de Élida se deparou com outras grandes mentalidades do mundo grego, deixando-se impressionar tanto por elas como com outras mentalidades existentes no Oriente. Essas impressões calaram fundo em seu corpo mental, com ele não fazendo uso da sua força mental intelectual para ao menos analisar as especulações sobre as coisas, os fatos e os fenômenos universais, preferindo se tornar isento a essas especulações, às opiniões alheias e ao famoso “achômetro”, em que as pessoas geralmente iniciam as frases com o “Eu acho”, como que à procura de representar as imagens que se encontram em suas imaginações; o que se comprova através do seu pensamento, pois que para ele a mesma coisa aparece de modo diverso a diferentes pessoas, e assim se torna impossível saber qual é a opinião correta, já que a diversidade de opiniões tanto entre os sábios como entre os leigos é prova disso.

E como os conhecimentos metafísicos acerca da verdade ainda não haviam sido transmitidos pelos veritólogos, para ele, então, a cada afirmação se podia contrapor uma outra contraditória, com base igualmente boa, e qualquer que fosse uma opinião, inclusive a sua, a opinião contrária poderia ser defendida por alguém que fosse tão inteligente e competente para julgar quanto ele. Assim, podemos ter opiniões, mas a certeza e o conhecimento são impossíveis. Daí a nossa atitude frente às coisas deve ser a completa suspensão do julgamento. Não se pode ter a certeza de nada, mesmo das afirmações mais triviais.

O ceticismo um tanto exacerbado de Pirro deu origem a algumas estórias, em virtude de ele ser levado a agir de maneira insensata. Segundo Diógenes Laércio, ele não se guardava de risco algum que estivesse em seu caminho, tais como carroças, precipícios ou cães. Dizem que certa vez, quando Anaxarco caiu em um poço, Pirro se manteve imperturbável, seguindo à risca o seu modo de vida, por isso não socorreu o companheiro. No entanto, Enesidemo vem argumentar de modo contrário o seguinte:

Pirro filosofava segundo o discurso da suspensão do juízo, mas que não agia de maneira inaudita”.

 

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