13.05.04.04.06- Marco Aurélio

A Era da Sabedoria
8 de outubro de 2018 Pamam

Seguindo ainda a mesma linha de raciocínio do que foi convencionado com Sêneca e Epiteto, mesmo estando neste capítulo a explanação do sentimento e do pensamento gregos, não devemos deixar de nos reportar ao sentimento de Marco Aurélio transmitido fora da Grécia, uma vez que ele representa a continuação do Estoicismo, que é originariamente grego, sendo importante a sua contribuição no rol dos estoicos, apesar de ele ter vivido em Roma.

Assim, Marco Ânio Vero encarnou no ano 121, em Roma, e desencarnou no ano 180, em seu acampamento em Viena, aos cinquenta e nove anos de idade. Os Ânios tinham vindo um século antes de Sucubo, perto de Córdova, onde por força da honestidade ganharam o cognome de Verus, ou seja, vero, verdadeiro. O nome de Aurélio veio do nome do clã de Antonino Pio, que ele havia tomado com a adoção. Três meses após o seu nascimento desencarnava o seu pai, e ele foi levado para a casa do avô, então cônsul, ao qual o imperador romano Adriano visitava frequentemente, e atentando no menino sentiu que ele tinha as qualidades de um rei.

Por ter levado em sua juventude uma vida muito privilegiada em termos educativos, iria ele dizer muitos anos mais tarde, o seguinte:

Tenho para com os deuses a grande dívida de ter nascido rodeado de bons avós, bons pais, uma boa irmã, bons professores, bons parentes e bons amigos, quase tudo bom”.

Na sua obra intitulada de Meditações ele realça as virtudes dessas pessoas e as lições que delas recebeu em modéstia, paciência, valor, sobriedade, piedade, benevolência e simplicidade de vida bem distantes dos hábitos da riqueza, mesmo com a riqueza o rodeando por todos os lados. Mas, infelizmente, os “deuses” não foram benevolentes para com ele em relação ao equilíbrio familiar, dando-lhe uma esposa e um filho péssimos de caráter.

Ele tinha dezessete professores na juventude: quatro gramáticos, quatro mestres de retórica, um jurista e oito professores versados em sabedoria, os quais dividiam entre si o desenvolvimento da sua mente e a elevação da sua alma. Na idade de doze anos vestia um áspero capote, dormia sobre o chão na palha e por muito tempo resistiu aos apelos da sua mãe para se utilizar da cama, o que demonstra claramente que ele já era um iniciado do Estoicismo antes mesmo de se tornar um adulto.

Apesar de ser dado a frequentar os templos e de se dedicar aos estudos da verdade e da sabedoria, não seguiu nem a um e nem a outro como profissão, pois os pequenos cargos políticos para os quais fôra nomeado fizeram brotar a sua capacidade administrativa, em detrimento da contemplação, além do mais foi muito influenciado na sua associação com Antonino Pio, que em 146 desejou um companheiro de governo, nomeando-o logo em seguida.

Com a desencarnação de Antonino Pio, Marco Aurélio ascende ao poder, quando toda a Itália, bem como todas as províncias, aclamaram-no como sendo a realização do sonho de Platão: o do filósofo-rei; apesar de ele não ser saperólogo, mas sim veritólogo, e, ainda mais, no sentido estoico. Mas ele também tinha muita sabedoria, como demonstra o seu pensamento seguinte:

Nunca esperes realizar a República de Platão. Basta que melhores de um pouco a humanidade, sem pensar que esse melhoramento seja matéria de escassa importância. Quem pode mudar a opinião dos homens? E sem mudança de sentimentos, que podemos fazer senão relutantes escravos ou hipócritas?”.

Mas se lembrando dos desejos de Adriano, imediatamente chamou Lúcio Vero para companheiro e lhe deu em casamento a sua filha Lucila, demonstrando uma bondade considerada até em excesso.

Os dissabores do reinado de Marco Aurélio surgiram com a sua própria fama de filósofo e o longo período de paz sob Adriano e Antonino Pio, que estimularam os rebeldes de dentro e os bárbaros de fora. Em 162, irrompeu a rebelião na Bretanha, ao mesmo tempo que os chatis invadiram a Germânia romana e Vologases III, rei da Pártia, declarava a guerra. Mas o imperador conseguiu vencer a tudo.

Nesse ínterim, Lúcio Vero, escolhido por Marco Aurélio para combater a Pártia, não havia passado da Antióquia, porque lá vivia a bela e perfeita Panteia, entregando-se ao prazer desenfreado, até se entregar completamente à orgia, enquanto os partos fustigavam a Síria. Marco Aurélio não fez qualquer comentário alusivo ao seu desleixo, apenas mandou a Avídio Cássio, o comandante logo abaixo de Lúcio Vero, um plano de campanha que pela sua excelência possibilitou não somente a expulsão dos partos para além da Mesopotâmia, como ainda reconquistar a Selêucia e Ctesifon.

Mas desta guerra contra a Pártia os romanos haviam trazido consigo um grande mal ocasionado por um efeito colateral: a peste. Esse mal irrompera nas tropas de Avídio Cássio, na capturada Selêucia, e tão rapidamente se espalhou que o general teve de retraí-la para a Mesopotâmia, enquanto os partos se rejubilavam com aquela vingança dos seus deuses. As legiões em retirada introduziram a peste na Síria, e como Lúcio Vero houvesse levado para Roma uma parte daquela tropa, a fim de tomar parte em seu triunfo, a infecção se foi alastrando. Galeno a identificou com a peste de Atenas no tempo de Péricles, pois nos dois casos os doentes eram cobertos de pústulas negras, sobrevinha horrível tosse e o hálito fedia. Imediatamente o mal se difundiu pela Ásia Menor, Egito, Grécia, Itália e Gália, e dentro de um ano havia desencarnado mais gente do que a própria guerra. Duas mil pessoas desencarnaram em Roma em um único dia, sem que o mal discriminasse o rico do pobre, o nobre do plebeu, com os cadáveres sendo levados aos montes. E agora é de se indagar: de que vale a discriminação entre as classes?

Marco Aurélio fez de tudo para minimizar os efeitos do mal, mesmo impotente em face daquele inimigo invisível, o qual somente cessou após ser criada a imunidade natural de todos os portadores do vírus. As consequências foram terríveis, muitas localidades se despovoaram de modo tão completo que a vegetação as invadiu, voltando ao estado natural anterior ao povoamento; a produção de cereais decaiu; o transporte se desorganizou; e as enchentes destruíram grandes quantidades de trigo. Após o mal da peste veio a fome. Então os homens entraram em um pessimismo sem precedentes na história romana, somente comparável à aproximação de Aníbal de Cartago, passando a recorrer a videntes, enchendo os altares com sacrifícios e incensos, procurando a consolação nos novos credos de uma paz celestial.

E se encontrava nesse estado o Império Romano, quando, em 167, chegam notícias de que ao longo do Danúbio os chatis, os quadis, os marcomanos, os iaziges e outras tribos haviam cruzado o rio e estavam sem oposição se espalhando na Dácia, na Récia, na Panônia e em Norico, que muitas forças haviam atravessado os Alpes e batido os exércitos mandados para combatê-las, e que estavam ameaçando Verona e sitiando Aquileia, devastando os verdes campos de cultura do norte da Itália. Nunca as tribos germânicas haviam se aproximado tanto de Roma.

O fato é que estava em início de formação a futura formação das nações mundiais, orquestrada pelo Astral Superior, em obediência ao plano elaborado para a nossa espiritualização, que tinha como chefe o espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa, com o objetivo de nos espiritualizar, o elaborador do plano, agora na condição do Cristo, em cuja formação o Império Romano era peça fundamental.

Então, intuído pelo Astral Superior, Marco Aurélio põe de lado os prazeres contemplativos da Veritologia, toma a peito a situação, que era a mais grave de todas quantas Roma enfrentara desde as Guerras Púnicas — quando Aníbal consegue assumir o controle do norte da Itália, somente não conquistando Roma em virtude de Cartago não lhe haver enviado homens e suprimentos por algum porto do Adriático e de Asdrúbal não haver ousado atender ao seu pedido de cruzar os Alpes e se juntar a ele, além de do entrave espiritual, que não cabe aqui revelar — e passa a agir com surpreendente decisão, abalando a Itália com a mobilização de todos os homens disponíveis, como polícia, gladiadores, escravos, bandidos e mercenários, a tudo incluindo nas legiões dizimadas pela guerra e pela peste, sendo tal mobilização benéfica à evolução espiritual de todos esses espíritos. Ciente da ignorância humana, o imperador mobiliza também os próprios deuses, ordenando aos sacerdotes de todos os credos que suplicassem em favor de Roma de acordo com os seus ritos. E para arrecadar dinheiro sem agravamento de impostos, pôs em leilão no Fórum todas as preciosidades e joias dos palácios imperiais.

Concomitantemente, tomou cuidadosas medidas de defesa: fortificando as cidades fronteiriças da Gália ao mar Egeu, bloqueando os desfiladeiros de passagem para a Itália, e subornando algumas tribos germânicas e citas para que atacassem os invasores pela retaguarda. Após essas salutares medidas, moldou o novo exército nos rigores da disciplina e o levou em uma dura campanha planejada com grande habilidade, derrotando os invasores de Aquileia e os perseguindo até o Danúbio, capturando ou desencarnando a quase todos.

No entanto, percebeu muito bem que tudo isso não representava o ponto final do perigo germânico, mas considerou que a situação estava sob controle por algum tempo. Então voltou com Lúcio Vero para Roma, o qual em viagem desencarnou de um ataque apoplético. De imediato, as más línguas, que assim como a má política não têm caráter, fez correr o boato de que Marco Aurélio o havia envenenado. Ora, o seu proceder para com o colega e genro, desde o começo do seu reinado, traz a todos a convicção de ser apenas uma tentativa de invectivar.

A sua esposa Faustina, cujo belo rosto foi retratado em várias esculturas, parece que não se agradava em compartilhar cama e mesa com o Estoicismo do marido, descontente com a vida que ele lhe proporcionava, que para ela era melancólica e por demais sóbria. Então o mexerico de Roma passou a lhe atribuir infidelidades, que deve proceder, pois os atores romanos satirizavam no palco o imperador enganado, chegando até a citar os nomes dos seus amantes. No tocante aos seus casos, o imperador ignorava completamente, pois a sua preocupação maior era com Roma, porém, no tocante aos outros setores ela procurava corresponder, tanto que Marco Aurélio dedicou a ela muita ternura e afeto, como que deixando aos cuidados da Providência Divina os encargos da sua regeneração. Dos quatro filhos que ela deu ao imperador, aos quais ele amou com imensa dedicação, conforme deixa transparecer nas cartas a Fronto, uma menina desencarnou ainda pequena, outra, amargurada pela vida de Lúcio Vero, enviuvou com a sua desencarnação, dois gêmeos nasceram em 161, com um deles desencarnando logo em seguida, e o outro foi Cômodo, o seu sucessor, em que o mexerico romano aponta como sendo o presente de um gladiador a Faustina, sem que ninguém possa negar que ele se esforçou toda a sua vida por confirmar tal paternidade.

No correr do ano 169, o grande imperador foi atacado por uma doença de estômago que às vezes o impedia até de falar, o que o levou a visitar por diversas vezes um dos médicos mais famosos de todos os tempos, Galeno de Pérgamo, agradecendo-lhe pelos remédios prescritos. Essa doença estomacal, os desapontamentos de família, as ações militares e as crises políticas levaram-no a um envelhecimento precoce, pois aos 48 anos ele já era considerado um velho.

Mas apesar das derrotas, os belicosos bárbaros estavam crescendo em poderio à medida que os romanos iam enfraquecendo. Marco Aurélio, então, percebeu que se tratava de uma luta de vida ou morte, daquelas que era obrigado a destruir completamente o inimigo, caso contrário iria sucumbir. Mas como ele era possuidor de um elevado senso de dever, já estava transformado inteiramente em um competente general, sendo bem-sucedido com o auxílio do Astral Superior, mas sem abandonar completamente o Estoicismo.

Então, por ocasião da Segunda Guerra Marcomânica, no período de 169 a 175, em seu acampamento às margens do rio Grana, um tributário do Danúbio, escreveu uma pequena obra intitulada Meditações, até hoje lida, em que pondera sobre os problemas da moralidade e do destino, enquanto chefiava os seus exércitos em uma guerra que iria decidir a sorte do Império, que representa os sentimentos de um dos grandes homens da nossa humanidade.

Em 176 volta para Roma e recebe um triunfo como o salvador do Império. Associa Cômodo à sua vitória e o nomeia como colega do trono, apesar do rapaz ter apenas quinze anos de idade. Assim, pela primeira vez em quase cem anos o princípio da adoção foi posto de lado e o princípio da hereditariedade reentrou em cena. Mas o fato é que Marco Aurélio não ignorava os perigos da mudança, tendo que escolher, obrigatoriamente, dos males o menor, porque caso não houvesse escolhido Cômodo, este e os seus amigos desencadeariam uma guerra civil.

Ao tomar tal decisão, Marco Aurélio ponderou o seguinte: que a peste já passara; que pouco sofrera a capital com as guerras, pois todas foram financiadas com a estrita economia nas finanças e uma irrisória taxação extraordinária; e que enquanto as batalhas se desenrolavam nas fronteiras, o comércio prosperava em Roma, com o dinheiro abundando por toda parte. Tal ponderação, condizente com a realidade, iria refletir um período que iria marcar o apogeu da prosperidade de Roma e da popularidade do imperador, com o mundo inteiro o aclamando como destacado general e como grande sábio.

Mas o veritólogo seguidor do Estoicismo era um instrumento das Forças Superiores. E como tal foi devidamente intuído para não se enganar com os triunfos obtidos, ao sentir que o problema germânico não havia sido resolvido de vez, e que para impedir novas invasões era necessário manter a política ativa de extensão das fronteiras até as montanhas da Boêmia.

Assim, em obediência às determinações do Astral Superior, partiu com o seu filho Cômodo, em 178, para a Terceira Guerra Marcomânica. Estava prestes a anexar os territórios dos quadis, marcomanos e sarmatas, quando a doença o fez cair ao leito em seu acampamento de Vindobona, em Viena. Ao sentir que estava próximo da desencarnação, chamou Cômodo à sua cabeceira e o aconselhou a seguir e a concluir a sua política já tão próxima do termo, realizando o ideal de Augusto de estender as fronteiras do Império até o Elba.

Após esse aconselhamento ao filho, passou a recusar qualquer alimento ou bebida que lhe foram oferecidos. Alguns dias depois, com as últimas forças que lhe ainda lhe restavam, levantou-se e apresentou o filho ao exército como o novo imperador. Voltando ao leito, deitou-se, cobriu a cabeça com o lençol e desencarnou em seguida, elevando-se de imediato ao seu Mundo de Luz.

Do alto das esferas superiores, lá para as bandas onde se situam os Mundos de Luz Puríssima, enquanto revisava o cumprimento da sua missão espiritualizadora no mundo Terra, quando encarnado, pôde assistir a glória do êxito alcançado através do próprio mundo que acabara de abandonar, na ocasião em que o seu corpo carnal chegou a Roma, quando o povo já havia começado a adorá-lo como a um deus, que por algum tempo consentira em viver na Terra como encarnado, no intuito de ajudar a toda a nossa humanidade, mas que agora, como espírito, iria continuar na mesma luta, só que em ambiente ameno e de felicidade.

Que isto sirva de lição para os seres humanos que não são cumpridores das suas obrigações e dos seus deveres neste mundo, que se desviam dos caminhos da virtude e do bem, estagnando lamentavelmente em suas trajetórias evolutivas, os quais, após as suas desencarnações, quando em seus Mundos de Luz, em estado de completa lucidez, irão constatar os grandes malefícios que fizeram a si mesmo e ao próximo, quando então terão que repará-los, planejando uma nova encarnação geralmente saturada de dores e de sacrifícios, em ambientes cada vez mais hostis ao desenvolvimento espiritual, pois normalmente não conseguem encarnar no mesmo agrupamento humano anterior, sendo remanejados para outros mais propícios aos desempenhos das suas ações.

Há ainda que se considerar que Marco Aurélio, por ser estoico, não era um veritólogo que especulava sobre os conhecimentos acerca da natureza, mas sim o seguidor de uma escola que seguia e pregava a virtude como uma meta de vida, com base na moral. Não se preocupava também em formar a sua concepção sobre Deus, mas acreditava convictamente na existência dos espíritos de luz, que para ele eram deuses, ao dizer: “De que me vale viver em um universo sem deuses ou Providência?”. Assim, ora falando da deidade no plural, ora no singular, pois em particular é um panteísta profundamente impressionado com a ordem do cosmos e a Sabedoria de Deus.

Para ele todas as coisas se ligam entre si, com o liame sendo sagrado, havendo uma razão comum em todos os seres, com Deus penetrando todas as coisas, pois que existe uma substância, uma lei, uma verdade, ao que indaga: “Poderia uma ordem clara subsistir em nós ao mesmo tempo que a desordem do Todo?”. É insolência nossa, e grotesca, pretender julgar o mundo, pois a sabedoria está em reconhecer as nossas limitações, em procurar nos harmonizar com a ordem universal, em tentar sentir o espírito por trás do corpo material e com ele cooperar voluntariamente, pois para quem chega a esta conclusão tudo quanto acontece, acontece justamente, isto é, segundo o curso da natureza, já que nada que está de acordo com a natureza pode ser mau, uma vez que tudo aquilo que é natural é belo para quem compreende. Todas as coisas são determinadas pela razão universal, a inerente lógica do Todo, de onde vem todas as coisas e para onde retornam todas as coisas, e cada parte deve se alegrar com o seu modesto papel e o seu destino. Daí o seu dizer seguinte:

Tudo o que harmoniza contigo também harmoniza comigo, ó Universo! Nada que contigo está em tempo, é muito cedo ou muito tarde para mim. Tudo o que as tuas estações trazem, ó Natureza, é fruto para mim. De Ti saem todas as coisas, em Ti estão todas as coisas, para Ti voltam todas as coisas”.

Para Marco Aurélio o conhecimento só tem valor como instrumento para a realização de uma vida perfeita, quando, na realidade, ele serve como fonte para a realização das experiências da vida, para que assim a sabedoria possa realmente dirigir a vida. Então se pode fazer lógica a sua indagação e resposta para o seguinte:

Que, portanto, pode dirigir um homem? Uma só coisa: a Filosofia”.

Ignorando a existência do criptoscópio, por intermédio do qual são percebidos e captados os conhecimentos metafísicos acerca da verdade; do intelecto, por intermédio do qual são compreendidas e criadas as experiências físicas acerca da sabedoria; e da consciência, que coordena aos outros dois órgãos mentais, via pela qual se alcança a razão; Marco Aurélio afirma que a cada homem Deus deu um daimon, um espírito guiador, a sua razão, vide o daimon socrático; sendo, pois, a virtude a vida da razão. Ele diz então o seguinte:

Estes são os princípios da alma racional. Ela perpassa todo o Universo e superintende a sua forma, e se projeta na infinidade do tempo, e abarca a renovação cíclica de todas as coisas, e compreende que os que vão vir depois de nós nada verão de novo, com os que vieram antes nada viram mais do que nós; mas de certo modo quem chegou aos quarenta anos, se tem boa compreensão, viu, em virtude desta uniformidade, todas as coisas que foram ou serão”.

Para Marco Aurélio a mente deve ser uma cidadela livre dos desejos corporais, das paixões, da cólera e do ódio, devendo estar de tal modo absorvida em seu trabalho que dificilmente perceba as adversidades da fortuna ou as farpas da inimizade, para que assim cada homem possa valer tanto quanto as coisas com as quais se ocupa.

A sua índole é provida de uma bondade tão intensa que o faz julgar os outros por si, relutando em conceder a existência de homens maus neste mundo, ao mesmo tempo em que concebe que o meio de lidar com eles é tendo em mente que são fracos e imbeles, vítimas dos seus próprios defeitos, por força do determinismo e das circunstâncias, então afirma o seguinte:

Se um homem te faz mal, o prejuízo é dele, sendo o teu dever perdoá-lo”.

Em contrapartida, procura o consolo na existência dos homens bons, quando afirma que se a existência do homem mau nos entristece, pensemos nas muitas pessoas boas que encontramos e nas muitas virtudes que se misturam em um caráter imperfeito, pois sendo bons ou maus, isso não deve muito importar, já que todos os homens são irmãos ou irmanados em um único Deus, além do mais, mesmo o mais rude bárbaro é um cidadão da pátria a que todos nós pertencemos, referindo-se diretamente à nossa humanidade, tanto que diz o seguinte:

Como Aurélio, tenho Roma como a minha pátria. Como homem, a minha pátria é o mundo”.

Para o estoico, nada é tão invencível como uma boa disposição, se é sincera, e um homem realmente bom nada tem a temer do infortúnio, porque ainda que todos os males lhe caiam em cima, a sua alma fica. Vejamos a sua elevada alma nas palavras seguintes:

Impede-te o mal que te acontece de ser justo, magnânimo, temperado, prudente, modesto e livre? Supõe que os homens te amaldiçoam, matam-te, picam-te em pedaços: podem essas coisas impedir o teu espírito de permanecer puro, alto, sereno e justo? Se um homem para diante de uma fonte e a amaldiçoa, nem por isso a água límpida cessa de fluir; se nela lança ele imundície, rapidamente a linfa a arreda e continua impoluta. Sempre que te sobrevier desgraça, lembra-te de aplicar este princípio: que isto não é infortúnio, mas que suportá-lo com nobreza é uma grande ventura. Bem pouco valem as coisas, de modo que o homem que as suporta vive uma vida que flui calma como a existência dos deuses”.

E a vida de Marco Aurélio fluiu calma como a existência dos deuses, os espíritos de luz que formam a plêiade do Astral Superior, mesmo tendo que desencarnar os bárbaros da Germânia enquanto escrevia o seu Quinto Evangelho, e mesmo tendo que enfrentar a desencarnação sem o consolo da esperança no filho que o iria suceder, mas com a esperança da vida além-túmulo, pois alma e corpo voltam aos seus elementos originais, este para a desintegração, aquela para o Mundo de Luz de origem. As suas palavras abaixo traduzem a sua grande admiração pela natureza:

Porque como a mutação e a dissolução dos corpos abrem caminho para outros corpos condenados a morrer, assim as almas que deixam os corpos depois da existência terrena se transmutam e se difundem na inteligência seminal do Universo e abrem caminho para novas almas. Exististe como parte, desaparecerás naquilo que te produziu. Isto também a natureza quer. Passa, então, através deste pequeno espaço de tempo que é a tua vida sempre em conformidade com a natureza, e termina os teus dias contente, como a azeitona que cai da árvore quando madura, abençoando a natureza que a produziu e agradecendo à árvore na qual cresceu”.

A nossa humanidade ainda se encontra na sua infância, pois que ainda não ultrapassou a fase da imaginação, apesar de todo o aparato tecnológico com que nos deparamos no nosso cotidiano da vida, que são todos ilusórios, posto que dizem respeito diretamente à ilusão da matéria, por isso os seres humanos ainda não são capazes de apreender em seus corpos mentais os poderes que se encerram nos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, através dos sentimentos, e nem tampouco as ações que se encerram nas experiências físicas acerca da sabedoria, através dos pensamentos, tendo a sabedoria como sendo a sua legítima fonte a verdade.

Ignora a nossa humanidade que já passamos pela Era da Sabedoria, a que ora estamos explanando, e que estamos no final da Era da Verdade, a que iremos explanar após a Cristologia, ainda neste site de A Filosofia da Administração; portanto, no limiar da Era da Razão. Mas, mesmo assim, a maioria dos seres humanos não desprendem esforços no sentido de estudar e aprender com as grandes mentalidades que vieram a este mundo com o intuito de alavancar a nossa evolução espiritual, não procurando seguir aos seus rastros luminosos.

Ora, se nós já passamos pela Era da Sabedoria, em que Jesus, o Cristo, veio decretar o seu final e estabelecer uma nova Grande Era, a Era da Verdade, somente uma mente excessivamente atrasada e renitente não pode levar em consideração o seu dizer de que “Somente a verdade poderá livrar a humanidade das garras da ignorância e levá-la ao cumprimento do dever”; podendo-se assim indagar: por que ele não se referiu à sabedoria? Ora, porque a sabedoria já estava posta neste mundo tanto em outros lugares como na Grécia. E somente uma mente de tal natureza não pode levar em consideração que a verdade se encontra no racionalismo do Cristo, portanto, no Racionalismo Cristão.

Não sabem os seres humanos que vivem no antro cavernoso deste mundo, na mais completa escuridão espiritual, e que, por ignorarem este fato, demonstram não ter medo do escuro, tais como crianças que se veem na claridade da luz do Sol ou mesmo de uma lâmpada. Mas, como disse Platão, a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz espiritual.

São poucos, muito poucos, os espíritos de luz que encarnam neste nosso mundo-escola com a finalidade precípua de alavancar a evolução espiritual da nossa humanidade, mas, de qualquer modo, todos nós devemos contribuir para essa alavancagem, para tanto nós temos que nos mover em direção à luz espiritual deixada no planeta por esses grandes espíritos. Somos todos nós que temos que mover este mundo para outras coordenadas universais, e o primeiro passo a ser dado é nos movermos em direção à luz espiritual, movendo-nos a nós mesmos.

 

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