13.05.04.04.04- Sêneca

A Era da Sabedoria
8 de outubro de 2018 Pamam

Como vimos, praticamente a explanação dos sentimentos e dos pensamentos são todos gregos, mas não devemos deixar de nos reportar ao sentimento de Sêneca transmitido fora da Grécia, uma vez que ele representa a continuação do estoicismo, que é originariamente grego, sendo importante a sua contribuição no rol dos estoicos, apesar de ele ter vivido em Roma.

Assim, Lúcio Aneu Sêneca encarnou no ano 4 a.C., em Córdoba, e desencarnou no ano 65 d.C., em Roma, com sessenta e nove anos de idade. Foi um dos mais célebres advogados e escritores do Império Romano, e, além de um grande estadista, foi também conhecido como Sêneca, o Moço, o Filósofo, ou, ainda, o Jovem, sendo a sua obra literária e veritológica considerada como sendo o modelo da doutrina estoica durante o período do Renascimento, pois foi ele quem inspirou o desenvolvimento da tragédia na dramaturgia europeia renascentista.

Sendo oriundo de família ilustre, era o segundo filho de Marco Aneu Sêneca, que era cognominado de Sêneca, o Velho, um orador eloquente e muito abastado, e de Hélvia. O seu irmão mais velho se chamava Lúcio Júnior Gálio e era procônsul, ou administrador público, na Acaia, onde, em 53, encontrou-se com Paulo, o doutrinador do falso cristianismo. E era ainda tio do poeta Lucano.

Ainda criança, com apenas três anos de idade, Sêneca foi enviado para Roma com o objetivo de estudar oratória, além de Veritologia e Saperologia, ambas sob a denominação imprópria de Filosofia. Posteriormente, com a saúde abalada pelo rigor dos estudos, resolveu passar uma temporada no Egito para se recuperar fisicamente, tendo depois regressado para Roma, por volta do ano 31. Foi quando, então, iniciou a sua carreira como advogado e orador, não demorando a chegar ao senado.

Todavia, em 41, foi acusado por Messalina, esposa do imperador romano Cláudio, de haver cometido adultério com Júlia Livila, sobrinha do imperador. Em consequência da acusação, foi exilado para a Córsega, onde, em meio a grandes privações materiais, dedicou-se com afinco aos estudos e redigiu várias das suas obras veritológicas, entre elas as três intituladas de Consolos, em que expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e a busca da tranquilidade da alma mediante o conhecimento e a contemplação.

Por influência de Agripina, a Jovem, sobrinha do imperador e uma das mulheres com quem este se casou, Sêneca retorna para Roma, em 49. Agripina, então, tornou-o preceptor do seu filho Nero, o futuro imperador que iria tocar fogo em Roma e que também iria mandar desencarná-lo, e o elevou a pretor, em 50. Ele contraiu matrimônio com Popeia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos.

Logo após a desencarnação do imperador Cláudio, ocorrida em 54, Sêneca lhe dedicou uma obra que foi considerada uma obra-prima das sátiras romanas, intitulada de A Transformação em Abóbora do Divino Cláudio. Nesta obra, ele critica o autoritarismo do imperador e narra como este é recusado pelos deuses, entendendo-se neste caso como ele foi recusado pelos espíritos de luz para ser transladado para o Astral Superior e ficou decaído no astral inferior. E não somente ele, pois até o seu irmão Lúcio Júnior Gálio também ridicularizou ao imperador Cláudio, fazendo uma analogia com as pessoas executadas, que eram levadas ao Fórum Romano puxadas por ganchos, dizendo que Cláudio havia sido elevado ao céu igualmente puxado por um gancho, neste caso o céu seria o astral inferior.

Quando Nero se tornou imperador aos dezesseis anos de idade, Sêneca continuou ao seu lado, porém não mais como pedagogo, mas sim como o seu principal conselheiro, sendo ajudado por Afrânio Burro, prefeito do Pretório. O veritólogo e o prefeito conseguiram orientar ao jovem imperador em adotar uma política justa e humanitária, cujo intento logrou êxito nos primeiros sete anos de governo, o qual chegou, inclusive, a lembrar o governo de Augusto, sendo de Sêneca e de Afrânio Burro todo o mérito, já que, na realidade, eles governaram ao lado do jovem imperador, abrandando, corrigindo e freando a sua índole tresloucada.

Sob a liderança do veritólogo-ministro, o Império Romano prosperou em todos os setores. As fronteiras estavam todas bem guardadas; o Mar Negro se viu varrido da pirataria; a Armênia e a Pártia foram submetidas a assinar um tratado de paz que iria durar meio século; a corrupção nos tribunais e nas províncias foi reduzida substancialmente; a burocracia da organização foi diminuída com uma melhor administração do pessoal; e os recursos públicos eram gastos com parcimônia e economia. Por sugestão de Sêneca, foi decretada a abolição de todas as taxas indiretas cobradas nas fronteiras e nos portos, como modo de fomentar o comércio em todo o Império, mas a medida encalhou no senado graças a influência das corporações arrecadadoras de taxas, uma considerável derrota imposta ao imperialismo, mas ao mesmo tempo significativa de que o principado ainda reconhecia os limites constitucionais romanos.

Mas acontece que Agripina, a mãe de Nero, era detentora de um temperamento dominador e tentava por todos os meios administrar os negócios do Império, tanto que recebia as embaixadas e figurava nas moedas com a sua efígie ao lado do filho. Sêneca e Afrânio Burro reagiram a esse matriarcado, levando Nero a tomar de Agripina as rédeas do governo. A mãe ficou enfurecida e declarou que era Britânico o legítimo herdeiro do Império, ao mesmo tempo ameaçando destituir o filho do trono sobre o qual o havia colocado. A réplica de Nero foi instantânea, mandando envenenar Britânico.

Para que Nero não interferisse atabalhoadamente nos negócios públicos, Sêneca e Afrânio Burro o deixaram livre para se entregar aos prazeres sensuais e mundanos, foi quando o imperador adotou o hábito de se disfarçar para correr bordéis e de vaguear pelas ruas frequentando espeluncas noturnas com camaradas do seu quilate moral. E mais: roubava lojas, insultava mulheres e praticava atos lascivos em rapazes, despindo os que encontrava, espancando-os, ferindo-os e até os matando. Sêneca procurou refrear os instintos bestiais de Nero, tentando canalizar as suas atenções para a ex-escrava Cláudia Acte, que apesar de se mostrar muito fiel não conseguiu refrear a sua luxúria. Então foi trocada por Popeia Sabina, que pertencia a uma família nobre e de grande riqueza, e que, segundo Tácito, possuía tudo, exceto a honestidade, sendo uma dessas mulheres que passam o dia inteiro a se enfeitar e só existem realmente quando são desejadas. O seu marido era Sálvio Otão, o qual estupidamente lhe gabou a beleza diante do próprio Nero, que imediatamente o comissionou para o governo da Lusitânia e se pôs a cortejar Popeia Sabina, mas ela recusou o papel de amante, ao mesmo tempo declarando aceitar o de esposa, caso ele se divorciasse de Otávia.

De há muito que Otávia vinha tolerando as transgressões de Nero, mantendo-se sempre casta e modesta em contraposição ao ambiente de sexualismo e luxúria em que vivia desde a sua infância. Então Agripina se dispôs a lutar em defesa de Otávia contra Popeia Sabina, empregando nessa luta todos os esforços contra a efetivação do divórcio em causa, chegando até a oferecer ao filho os seus próprios encantos, segundo o dizer de Tácito. Mas Popeia Sabina conseguiu sobrepor os seus encantos aos de Agripina e venceu o confronto.

Sabedora de que Agripina era detentora de um temperamento dominador e que não se conformava em haver sido apeada do poder, Popeia Sabina logo começou a menosprezar Nero, acusando-o de ter medo da mãe, acabando por induzi-lo a crer em uma trama de sua mãe para abatê-lo. E tanto insistiu em uma e outra que Nero, no desvario da sua ardente paixão, consentiu em desencarnar a própria mulher que lhe dera a luz e que também lhe pusera no trono. Pensou logo em envenená-la, como fizera com Britânico, mas Agripina aprendera a se imunizar por meio de antídotos. Depois tentou afogá-la, mas Agripina, que sabia nadar, conseguiu se salvar de um naufrágio arranjado. Até que resolveu enviar alguns homens, que a perseguiram e foram alcançá-la na vila a que se acolhera, onde lá Agripina abriu a veste e lhes disse: “Mergulhai a espada no meu ventre”. Foram precisos muitos golpes para poderem matá-la. Posteriormente, vendo-lhe o corpo nu, Nero exclamou: “Nunca pensei que a minha mãe fosse tão bela!”. Que crápula!

É certo que Sêneca, em nenhum momento, tomou parte do crime. O fato dele haver redigido uma carta ao senado, na qual expunha as suas alegativas que justificaram a execução de Agripina, levaram os estudiosos a considerar como sendo uma página triste na história da Filosofia, mais propriamente Saperologia, no caso da Veritologia, uma vez que ele era veritólogo. Mas nesta carta justificadora, Sêneca nada mais fez do que exercer a sua função de advogado, já que todos têm direito a uma ampla defesa e ao contraditório, além do mais ele poderia estar ciente de que grande parte da culpa pela morte de Agripina havia sido causada por ela própria, que conspirava para imperar e que se tornara hostil por ambição, capricho e corrupção, tendo a sua raiva crescente só fazendo aumentar a vingança matricida de Nero, que por isso não deu mais ouvidos às palavras severas dos seus conselheiros.

No entanto, Sêneca e Afrânio Burro não conseguiram maiores progressos com o matricida, pois a índole malvada e perversa de Nero se sobrepôs a todos os ensinamentos elevados, sendo ambos forçados a adotarem atitudes de complacência para com os seus desatinos, mas nem tanto. Em 62, dois anos após a desencarnação de Afrânio Burro, Nero havia esgotado o Tesouro, então decidiu confiscar a todos os bens dos cidadãos em cujos testamentos não constassem grandes legados ao imperador, ao mesmo tempo despojando muitos templos das ofertas inerentes ao voto, fundindo-lhes as imagens de ouro e prata. Sêneca protestou com firmeza contra os seus atos confiscatórios, reprovando-lhe tal conduta, e sem se contentar com isso criticou duramente os seus versos, dos quais Nero tanto se gabava. Deveras ofendido, o imperador o afastou da corte, obrigando o veritólogo a passar os seus três últimos anos de vida em uma vila, afastado da vida pública.

Em 65, os espiões de Nero descobrem um plano para colocar no trono Calpúrnio Pisão, a famosa Conspiração de Pisão. Os agentes imperiais prendem alguns conspiradores e empregando torturas e ameaças conseguem deles extrair várias confissões que implicaram entre outros Sêneca e o seu sobrinho, o poeta Lucano. Pouco a pouco, todo o plano foi desvendado. A vingança de Nero foi tão atroz que Roma ficou convencida de que toda a classe senatorial estava condenada. Sem qualquer julgamento e sem qualquer chance de defesa, Sêneca recebeu a ordem de se suicidar, embora tenha discutido bastante a respeito dessa ordem, mas resolveu obedecê-la. O epicurista foi desencarnando vagarosamente, abrindo e fechando as veias, conversando de maneira habitual com os seus amigos, com o semblante puro e calmo de quem nada deve e que por isso nada teme, convicto da doutrina que praticava, mas logo após um curto passeio lhe veio um sono, então ele abriu novamente as veias e se deixou ir serenamente para o seu Mundo de Luz, onde lá iria contemplar com clareza toda a sua obra em prol da nossa humanidade. Popeia Paulina, a sua esposa, também cortou os pulsos, mas com medo da repercussão negativa dessa dupla desencarnação, Nero ordenou que os médicos a tratassem, e ela sobreviveu ao marido por alguns anos. O poeta Lucano, seu sobrinho, igualmente teve de abrir as veias e desencarnou recitando os seus próprios versos.

Entre os últimos textos de Sêneca, está a compilação de algumas parcelas do Saber, intitulada de Problemas Naturais, os tratados Sobre a Tranquilidade da Alma, Sobre a Vida Beata e a sua obra mais elevada intitulada de Epistolae Morales, dirigidas a Lucílio, na qual reúne conselhos estoicos e elementos epicuristas na pregação de uma fraternidade universal, que mais tarde foi considerada como sendo próxima aos ensinamentos de Jesus, o Cristo.

Em sua obra intitulada de De Beneficiis, Sêneca justifica haver contrariado os ideais estoicos, quando afirma o seguinte:

Às vezes, mesmo contra a nossa vontade, devemos aceitar um benefício, quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injúria que tu desdenhaste o seu presente. Não deverei aceitar?”.

Assim, bem mais importante que saber se ele vivia ou não na riqueza, é indagar o seguinte: era ele ávido por riquezas e viveu no fausto e na opulência?

Nós vamos encontrar a resposta dessa indagação em suas Epistolae Morales ad Lucilium, através do seu pensamento a respeito, em que ele considera lícito ser rico, contudo é preciso viver de tal modo que se possa, em cada contingência, bastar a si próprio e renunciar a qualquer bem que a sorte pode dar, mas também tirar.

É lógico que ser rico é lícito, mas a solidariedade humana exige implacavelmente que o rico venha a ser liberal ou magnânimo, caso contrário ele será desgraçadamente um mero acumulador de riquezas, mais um a pôr em risco a perda da sua encarnação, que irá constatar logo após a sua desencarnação, ao ascender ao seu Mundo de Luz, caso não fique decaído no astral inferior, sem levar um centavo deste mundo, já que nada daqui realmente lhe pertence, a não ser as parcelas das propriedades da Força, da Energia e da Luz que aqui conseguiu incorporar ao seu acervo espiritual, quando então poderá constatar com lucidez o tamanho da sua falta de solidariedade espelhada na sua ambição e no seu egoísmo, desejando ardentemente retornar a este mundo para reparar o mal praticado, realizando o bem que deixou de realizar, geralmente com muito sacrifício no intento de sobreviver neste mundo, em encarnações bastante precárias. Porém, sendo bem afortunado, Sêneca viveu com um certo conforto, mas sempre de maneira modesta, conforme acreditava e apregoava.

Apesar de haver sido contemporâneo de Jesus, o Cristo, Sêneca não fez qualquer relato de um único milagre que aparentemente pudesse anunciar o despontar de um novo e poderoso credo. Entretanto, segundo Jerônimo, em sua obra intitulada de De Viris Illustribus, o veritólogo teria trocado correspondências com Saulo, o conhecido apóstolo Paulo, que também tinha cidadania romana. Constata-se assim que os falsos cristãos assimilaram os ensinamentos estoicos por intermédio de Sêneca, utilizando, inclusive, as mesmas metáforas estoicas na mentirosa e perigosa Bíblia.

Alguns estudiosos consideram como sendo curioso o fato de Sêneca haver se interessado por todos os fenômenos da natureza, resultando nas cartas intituladas posteriormente de Questões da Natureza, como observou Edward Gibbon, historiador do Iluminismo do século XVIII, perito na história do Império Romano e autor da obra intitulada de História do Declínio e Queda do Império Romano. Mas o que esperavam esses estudiosos de um veritólogo, que ele ao invés da natureza se interessasse por fenômenos ditos sobrenaturais? Ora, tais fenômenos não existem!

Ao analisarmos as obras de Sêneca, torna-se possível perceber a forma pela qual ele conseguiu alcançar o conhecimento e o desenvolvimento da concepção do fluxo de energia, que advém, segundo ele próprio, de algum princípio ativo, cujo termo é utilizado em sua obra intitulada de Questões Naturais, o qual sujeita todas as coisas à lei geral de causa e efeito, lançando por terra o acaso ou a coincidência, que na realidade nunca existiram.

Ele também se destacou como estilista literário, como demonstrado em uma prosa coloquial em que os seus trabalhos exemplificam a maneira de escrever retórica e declamações, com frases curtas, conclusões epigramáticas, através de palavras mordazes introduzidas nas conversações, e utilização de metáforas, empregando palavras em um sentido diferente dela própria que somente por semelhança pode ser subentendida. Consequentemente, utiliza-se da ironia como arma, a qual emprega com maestria, principalmente nas tragédias que escreveu, que são as únicas do gênero na literatura da antiga Roma.

Na qualidade de estoico, Sêneca se preocupava com a forma correta de viver a vida tendo por base a moral. Seguia serenamente o estoicismo por considerá-lo como sendo o propagador maior da virtude, o que lhe permitiu alcançar a serenidade espiritual, a qual é denominada de ataraxia, como já visto em tópicos anteriores neste site de A Filosofia da Administração.

Apesar de não ser esclarecido acerca da espiritualidade, por isso não ser muito versado nas obrigações naturais, nos deveres e nas missões que competem aos espíritos quando encarnam cá neste mundo, Sêneca, no entanto, conseguiu alcançar uma elevada noção acerca do cumprimento do dever, ao declará-lo como sendo um serviço que se presta à nossa humanidade. Assim, em cumprimento do seu dever, procurava aplicar a sua doutrina na prática de vida, vivendo modestamente, bebendo apenas água, por não ser dado a bebidas alcoólicas, comendo pouco e dormindo sobre um colchão duro, apesar de ser afortunado, mas, mesmo assim, vivendo confortavelmente.

Ele não via nenhuma contradição entre os bens materiais que possuía e a sua doutrina estoica, pois afirmava que o sábio não estava obrigado a viver na pobreza, desde que o seu dinheiro e os seus bens tivessem sido auferidos de forma honesta. No entanto, devia ser capaz de abdicar da riqueza. Mas o veritólogo, pelo fato de não ser tão sábio, estava equivocado em seu pensamento, pois muito mais recomendável do que abdicar da riqueza é ser solidário para com os seus semelhantes, utilizando-a parcimoniosamente na liberalidade e na magnanimidade, tornando-se um ser humano útil a si mesmo e à comunidade em que vive, às vezes até extrapolando ao âmbito da sua própria comunidade.

Sêneca trazia em sua alma o ideal de um padrão de vida mais perfeito do que a da própria vida que levava, sinal de que o estoicismo, apesar de louvável, não deve ser considerado como sendo o modelo de vida para a nossa humanidade, já que o ideal é que todos vivam com bastante conforto e despreocupação com a sobrevivência na vida, mas sem nunca chegar ao ponto do exagero, pois viver com certa modéstia, sem abrir mão do conforto, demonstra desapego aos bens materiais, renúncia aos prazeres mundanos e uma elevada espiritualidade, daí a crítica que todos os seres humanos sensatos fazem aos que se apegam em demasia à riqueza. Isto explica a razão pela qual o veritólogo dizia o seguinte:

Eu elogio a vida, não a que levo, mas sim aquela que sei deve ser vivida”.

Para o veritólogo, na sua condição de estoico, os afetos que fazem parte da vida, tais como a relutância, o desejo, a cobiça, o egoísmo, a ambição e outros, devem ser ultrapassados por outros que sejam mais condizentes com o viver humano. Para ele, o objetivo não é a perda dos sentimentos, pois ele ainda não sabia a natureza dos sentimentos, mas a superação dos afetos. E como quase todos os seres humanos somente se preocupam com os bens materiais, ele dizia que os bens materiais podem ser adquiridos, mas na condição de não deixarmos que se estabeleça uma dependência em relação a eles.

Somente os espíritos bastante atrasados, principalmente aqueles que são acretinados pela classe sacerdotal, não conseguem compreender e aceitar sem renitências o divino processo pelo qual evoluem todos os seres, o qual foi estabelecido pela Inteligência Universal, para que todos possam, aos poucos, ir adquirindo a consciência da Sua Grandeza, tal como aconteceu com Jesus, o Cristo, que o chamou de Pai, termo este muito utilizado pela classe sacerdotal para impressionar e ludibriar aos seus arrebanhados, na ânsia incontida por praticar o estelionato com base na crença ingênua das suas vítimas, sem terem a mínima noção do seu real significado, somente acessível à consciência do próprio Cristo.

Podemos então constatar em Sêneca, assim como em todos os veritólogos e saperólogos, estendendo-se aos religiosos e cientistas, o imenso desnível evolutivo que existe entre eles e os demais seres humanos, já que os seres humanos vão se elevando às alturas, no decorrer do processo evolutivo, por intermédio dos seus próprios esforços individuais, e nunca por intermédio de alguma graça sobrenatural, que a própria lógica afirma não existir, pois não existe qualquer privilégio no âmbito espiritual. Então devem ser lançadas ao chão todas as tentativas sacerdotais de se autointitularem ministros de Deus, arvorando-se do recebimento de uma graça sobrenatural, a não ser que tenham recebido o ministério do deus bíblico, ou então de outro deus do seu mesmo quilate, da sua natureza inventada pela imaginação dos ignorantes, que eles manipulam com a mais vil e tacanha artimanha que se possa imaginar, sempre com o intuito de impressionar e ludibriar, na mais abominável tentativa de arrebanhar e acretinar aos seus prosélitos. Podemos constatar também o desnível evolutivo que existe entre os próprios seres vulgares, em que muitos demonstram possuir um bom caráter e ótimas qualidades, enquanto outros demonstram o contrário, para a nossa imensa tristeza.

Daí a manifestação do professor G. D. Leoni, da Sedes Sapientiae, no seu estudo introdutivo ao volume XLIV da Biblioteca Clássica da Atena Editora, São Paulo, em 1957, em defesa de Sêneca, cujo espírito era muito evoluído, quando afirma que, sem dúvida, a posteridade foi injusta para com ele, pois que preferiu recolher da sua vida somente as invejosas acusações dos seus inimigos, mas que a perfeita intuição dos poetas vem definir aquilo que os críticos se esforçam por esclarecer, mas somente fazem ofuscar. Deixemos registrado o reconhecimento da grande evolução de alguns espíritos e de Sêneca, por intermédio de um comentário a respeito da afirmativa deste professor, conforme abaixo:

Dante, no limbo, vê, entre os sumos escritores e heróis antigos: Sócrates, Platão, Demócrito, Diógenes, Anaxágoras, Tales de Mileto, Empédocles, Heráclito, Zenão, Dioscórides, Orfeu, Cícero, Lino e Sêneca. Este diferente de um filósofo, é um entusiasta da Filosofia, estudioso apaixonado, informado de todas as correntes filosóficas do seu tempo, mas contrário a se encerrar em qualquer sistema ou fórmula. Nele, a filosofia era viva, era a própria vida. A prosa adere ao pensamento, uniformiza-se, adapta-se a ele; e muitas vezes um subentendido produz um jogo de luzes e sombras cheio de profunda beleza, amiúde a frase breve produz inesperadas imagens pictóricas, outras vezes antíteses, ou as anedotas enriquecem as sentenças austeras, a argúcia atenua a trágica solenidade do assunto. Poeta, humanista, mais que filósofo, pois o elemento preponderante em suas obras são os sentimentos, mais do que as ideias, com as quais, na origem, pouco contribuiu. Entretanto, na história do pensamento, nunca ninguém foi tão compenetrado do sentimento da nobreza do espírito humano, e soube tão bem e poderosamente transmitir esse sentimento em palavras. A sua prosa é vivaz, variada, alegre, moderna, eterna; como quando procura mostrar como as desventuras pelas quais passam os bons, devem ser encaradas como provas para melhor evidenciar as suas virtudes, como ajudar ao próximo. Os deuses põem à prova a virtude e exercitam a força de espírito dos bons, que devem seguir o seu destino preestabelecido: o sábio, por isso, nunca será infeliz”.

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