13.05.04.03- O Epicurismo

A Era da Sabedoria
7 de outubro de 2018 Pamam

O epicurismo é uma doutrina veritológica que tem o prazer como sendo um soberano bem, condicionando-o, porém, ao domínio de si mesmo e a uma prudente moderação, para que assim possa se atingir a um estado de tranquilidade e de libertação do medo, com a ausência de sofrimentos corporais pelo conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos, pois quando os desejos são exacerbados eles podem ser a fonte de perturbações constantes, dificultando o encontro da felicidade, que é manter a saúde do corpo e a serenidade do espírito.

Esta doutrina foi ensinada primeiramente por Epicuro de Samos, veritólogo do século IV a.C., sendo seguida depois por outros veritólogos denominados de epicuristas. Epicuro é também conhecido como o Filósofo do Jardim, pois o Jardim foi como ficou sendo conhecida a escola por ele fundada, que consistia em uma comunidade de amigos e seguidores. E lá, escreveu com detalhes a doutrina que iria se tornar conhecida como epicurismo.

No Jardim, em Atenas, Epicuro escreveu mais de trezentos trabalhos, dos quais nenhum sobreviveu aos dias de hoje, restando deles apenas notícias através dos seus discípulos ou alguns fragmentos. O veritólogo acreditava que o maior bem era a procura de prazeres moderados de forma a atingir a um estado de ataraxia, a serenidade da alma, e de libertação do medo, assim como a ausência de sofrimento corporal, a aponia ou a analgesia, por meio do conhecimento do funcionamento do mundo e da consciência da limitação dos desejos. A combinação desses dois estados constituiria a felicidade na sua forma mais elevada.

A finalidade da doutrina de Epicuro não tratava de uma teoria “a priori” em relação aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, limitando-se a descrever uma prática de vida na moderação dos prazeres mundanos, o que não deixa de enfocar algum aspecto moral, que é próprio da Veritologia, buscando, sobretudo, encontrar a paz de espírito necessária para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a desencarnação estavam definitivamente eliminados, emprestando-lhe uma conotação empirista, de cunho um tanto materialista, ao que parece, mas nem tanto, já que havia a crença nos deuses. O foco principal da doutrina era a de que para ser feliz o homem necessitava de três fatores: liberdade, amizade e tempo para meditar.

Por todo o Mediterrâneo, na antiguidade, a doutrina epicurista conquistou grande número de seguidores, sendo por isso uma escola proeminente por um período de sete séculos, após a desencarnação do seu fundador. Posteriormente, porém, quase foi relegada ao esquecimento, devido ao início da Idade Média, período em que se perdeu a maioria dos escritos de Epicuro. Existia uma cidade na Grécia Antiga que em todas as paredes do mercado estava escrita a doutrina de Epicuro, em uma tentativa de conscientizar as pessoas que comprar e possuir bens materiais não as tornariam mais felizes como elas acreditavam.

A doutrina de Epicuro se opôs à metafísica de Aristóteles, cuja origem ele denomina de espiritualismo de Platão, que defendia a concepção de uma dimensão situada além do sensível, de natureza suprarreal, ou surreal, a qual seria o fundamento que constituiria o mundo que vemos, tocamos e participamos, com nada estando além dos nossos sentidos, não existindo nenhuma realidade que não possa ser compreendida com o auxílio dos nossos cinco sentidos. Os estudiosos denominam tal princípio de naturalismo radical. Para que se possa esclarecer a esse fundamento, que é compreendido por três tomadas de consciência do indivíduo e que funciona como um caminho para a felicidade, os estudiosos o dividiram em três postulados, que segundo Juvenal Savian Filho, são os seguintes:

  1. A compreensão dos deuses:
    • Segundo a crença dos gregos, os deuses estariam preocupados com o ser humano, sendo responsáveis por suas vitórias ou desgraças, o que acarretaria em um medo inerente ao homem, que temeria ser punido a qualquer momento por um dos seus atos. No entanto, Epicuro critica a esse pensamento, ao defender que os deuses existem, mas não estão preocupados conosco, pois, afinal, como afirma em sua metodologia do conhecimento, os juízos que temos dos deuses não se baseiam em imagens formadas pelas repetições, que produzem a veracidade, e nos permitem chegar em conclusões sobre o real. Para alguns estudiosos da doutrina de Epicuro, os deuses não tomam consciência dos humanos, pois que na perfeição não poderia caber a imperfeição, sequer por conhecimento. Então se os deuses não se encarregam do nosso destino, cabe a nós mesmos esta responsabilidade, em que a felicidade ou o sofrimento depende das escolhas de cada um. Neste caso, os deuses epicuristas seriam os espíritos integrantes do Astral Superior, enquanto que os deuses que diziam respeito às crenças dos gregos seriam os espíritos obsessores quedados no astral inferior, os quais acarretam medo aos homens.
  2. A compreensão da morte:
    • Para acabar de vez com o temor da morte, Epicuro defende o pensamento da morte como sendo o nada. A dor e o sofrimento residem nas sensações, na vida como fardo, e se a morte é o total aniquilamento do viver, o sábio nada tem a temer. Neste caso, a lógica é que se é a vida e as sensações que causam o sofrimento do ser humano, a morte existiria para cessar a vida e as sensações, ser o nada, a privação total. Portanto, inadmissível aceitar que ocorreria sofrimento, pois a morte ocasionaria o extermínio da vida e das sensações.
  3. A compreensão dos desejos:
    • É necessário compreender a distinção entre os desejos naturais e os desejos inúteis, infundados ou denominados de frívolos. Para Epicuro, o desejo se origina de uma falta, que pode partir tanto da natureza, que são os desejos naturais, como de uma opinião falsa, os desejos frívolos. Os desejos podem ser divididos nos seguintes:
      1. Desejos naturais e necessários:
        • São os desejos que livram o corpo das dores da fome e da sede.
      2. Desejos naturais e não necessários:
        • São os desejos que surgem da vontade de variar, por exemplo, o alimento ou a bebida, para também variar o prazer do corpo.
      3. Desejos não naturais e não necessários:
        • São os que nascem de uma opinião falsa sobre o mundo, incentivados por vaidade, orgulho ou inveja.

Epicuro tem uma finalidade concreta: a eliminação das dores e a busca dos prazeres. Embora ele não fosse propriamente um sábio, afirmava que o sábio deve desejar os objetos simples e naturais, pelo fato de que o homem, por ser imperfeito, sentirá a dor, inevitavelmente. Portanto, o sábio é aquele que toma a consciência da própria existência e do próprio destino, não aceitando o determinismo de nenhum deus, o que comprova claramente que ele não aceitava esses tipos de deuses que eram venerados pelos gregos, por se tratarem de espíritos inferiores decaídos no astral inferior. Para ele, o importante na busca é a saúde física e a serenidade interior, ocasionadas pela escolha de quais desejos deverão ser saciados. Assim, a felicidade passa a residir na saúde do corpo e da alma, que não pode ser entendida, obviamente, como metafísica, mas sim como parte fundamental da própria existência corpórea. Ser feliz é ter pleno domínio dos prazeres, o que pode ser alcançado com a compreensão da natureza dos deuses, neste caso os deuses são os espíritos integrantes do Astral Superior, da morte e dos desejos.

A teoria “a priori” do conhecimento epicurista se caracteriza pela valorização da experiência imediata, ou seja, para Epicuro todo conhecimento tem como origem as sensações e as impressões dos sentidos, sendo que todas as sensações são sempre verdadeiras. No caso de um remo, por exemplo, se visto dentro da água, possui uma imagem retorcida, porém, se visto fora dela, possui uma aparência reta e plana. Neste caso, qual das sensações estaria correta? Para Epicuro não existe erro, apenas uma precipitação, já que o remo sempre aparentará ser retorcido, caso visto de dentro da água. Para esclarecer a isso, o veritólogo se utiliza do termo prolepse, utilizado em retórica, cujo real significado é antecipação ou prevenção, mas que neste caso pode ser entendido como sendo percepções anteriores, as quais se encontram arquivadas em nossa memória, cujas repetições irão determinar qual a verdadeira forma do remo e construir o conhecimento por intermédio delas. Epicuro, então, deixou-se levar pelos sentidos, por conseguinte, debandou-se para o âmbito da imaginação, assim como até hoje todas as ciências se encontram debandadas nessa direção.

O epicurismo é uma doutrina muitas vezes confundida como o hedonismo, como visto anteriormente na Escola Cirenaica, já que declara o prazer como sendo o único valor intrínseco do ser humano, mas a sua concepção da ausência de dor como o maior prazer e a sua apologia da vida simples e regrada o torna completamente diferente, notadamente porque para os seus seguidores, o prazer possui papel passivo, na ausência de paixões e na eliminação de qualquer fator que cause o sofrimento ou o temor, como a morte e as sensações, já que o hedonismo, além de levar em conta todos os prazeres, inclusive os sexuais, incentiva-os intensamente.

Os que melhor expressaram o sentimento epicurista foi o próprio Epicuro e o romano Lucrécio, os quais serão destacados individualmente. Mas existiram outros, como Carneísco, Colotes, Dionísio de Lamptrai, Basílides, Alceu, Filisco, Apolodoro e Zenão de Sídon. Mas três mulheres estão indevidamente inseridas no rol epicurista, tais como se fossem veritólogas ou mesmo saperólogas, quando, na realidade, não as são. Senão vejamos:

Pela simples hipótese de alguns fragmentos de letras descobertos entre os papiros na Herculano poderem ter sido escritos por Batis de Lâmpsaco, os estudiosos a consideram como sendo uma saperóloga, quando, na realidade nem veritóloga ela era, uma vez que conhecer e experimentar o mundo, tomando por base a natureza é função do homem, enquanto que a mulher deve se ater aos domínios do lar, educando à sua prole e, às vezes, até ao próprio marido, o que não deixa de conter um universo em si. Ela foi aluna de Epicuro no início do século III a.C., sendo a irmã de Metrodoro e a esposa de Idomeneu. Quando o seu filho desencarnou, Metrodoro escreveu para ela oferecendo conforto espiritual, dizendo que “todo o bem dos mortais é mortal”, e “que há um certo prazer semelhante a tristeza, e que se deveria dar caça a esse em tempos como estes”. Epicuro, de sua parte, escreveu uma carta a Batis de Lâmpsaco sobre a desencarnação de Metrodoro, em 277 a.C.

O mesmo se dá com Leontina, que foi discípula de Epicuro e companheira de Metrodoro. As informações que existem sobre ela são escassas, advindo das más línguas antiepicuristas a difamação de que ela era hetera, ou seja, cortesã, mulher dissoluta na Grécia Antiga. No entanto, sendo ou não, o fato é que as heteras dispunham de uma independência que era negada à maioria das mulheres de uma sociedade dominada pelo machismo. Mas por que os estudiosos a consideravam como sendo uma saperóloga? Por três razões: a primeira, pelo fato de Diógenes Laércio haver preservado uma carta a qual Epicuro escreveu a Leontina, elogiando-a pelos argumentos bem escritos contra certas saperologias; a segunda, pelo fato de Plínio haver dito que ela foi retratada por Aristides de Tebas em um trabalho intitulado Leontina Pensando em Epicuro; e a terceira, pelo fato de Cícero haver dito que ela publicou argumentos criticando Teofrasto, manifestando ao mesmo tempo o seu espanto em virtude de uma mera cortesã ter a audácia de escrever uma resposta a Teofrasto, dizendo ainda: “acredite, ela escreveu elegantemente e em boa linguagem, sendo essa a liberdade que prevaleceu no Jardim de Epicuro”, com Plínio também refletindo sobre como seria possível uma mulher escrever contra Teofrasto. Mas o fato dela haver sido discípula de Epicuro explica todas as razões, uma vez que a mulher também possui o criptoscópio e o intelecto bastante desenvolvidos, só que toda a sua arte é voltada para o lado educativo, o qual ela prepara adredemente em seu Mundo de Luz, antes de encarnar com o sexo feminino.

Temos por fim Temista de Lâmpsaco, esposa de Leonteu, que foi uma discípula de Epicuro, considerada como sendo saperóloga, pelo fato dele mesmo haver escrito alguns volumes louvando a essa sua estudante. Este fato levou Cícero a ficar indignado, o que o levou a ridicularizar Epicuro por escrever vários volumes louvando Temista de Lâmpsaco, ao invés de escrever sobre homens mais valorosos como Miltíades, Temístocles ou Epaminondas.

 

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