13.05.04.03.02- Lucrécio

A Era da Sabedoria
8 de outubro de 2018 Pamam

Seguindo aqui a mesma linha de raciocínio do que mais adiante deverá ser convencionado com Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio, quando adentrarmos na Escola Estoica ou Estoicismo, mesmo estando neste capítulo a explanação do sentimento e do pensamento gregos, não devemos deixar de nos reportar ao sentimento de Lucrécio transmitido fora da Grécia, uma vez que ele representa a continuação do epicurismo, que é originariamente grego, sendo importante a sua contribuição também no rol dos estoicos, apesar de ele ter vivido em Roma.

Tito Lucrécio Caro, ou, simplesmente, Lucrécio, encarnou no ano 99 a.C., em Roma, e desencarnou no ano 55 a.C., em Roma, com a idade de apenas quarenta e quatro anos. A única biografia que temos sobre ele é retirada através dos seus poemas, pois fora deles, além de algumas poucas alusões, a literatura romana silencia lamentavelmente sobre um dos maiores expoentes da sua cultura.

Por haver vivido toda a sua vida em meio a revolução romana, em que predominava a Guerra Social, os massacres de Mário, as proscrições de Silas, a conspiração de Catilina e o consulado de César, estando ainda em decadência a aristocracia da qual ele fazia parte, tanto o seu mundo como os dos demais romanos se situavam em um caos de insegurança e inquietação constantes, tanto que ele escreveu o seguinte:

Há um peso em todos os espíritos e uma montanha de miséria em todos os corações, porque cada um, não sabendo o que quer, procura sempre mudar de posição, como se quisesse lançar de si a carga. Aqui, um mortalmente entediado em casa, afasta-se dela de quando em quando, mas não se sentindo melhor fora, volta. Ou vai a galope para a sua vila de campo. Mal lhe cruza a soleira e já abre a boca, bocejante, ou procura o esquecimento no sono, ou volta apressado para a cidade. E assim cada homem foge de si mesmo; mas, como era de esperar, o eu de que ele não pode fugir se lhe impõe ainda mais, contra a sua vontade. O homem se detesta a si mesmo porque, doente, não sabe a causa do seu mal. Mas o homem que vê claro lança de si os negócios e procura antes de tudo compreender a natureza das coisas”.

Como afirma Lucrécio, o homem não sabe a causa do seu mal porque ignora completamente as ações dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, que nessa época e em outras se faziam passar por deuses, sendo venerados e cultuados pela mentalidade reinante no ambiente, que, hoje em dia, em função do monoteísmo, esses espíritos obsessores ainda são venerados, cultuados e temidos, sendo até adorados, como são os casos de Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico.

Assim, Lucrécio busca o seu refúgio na tentativa de perceber a natureza, através das suas poesias. Nessas suas poesias, ele fala das florestas, dos campos, das plantas, dos animais, das montanhas, dos rios e do mar, encontrando um deleite somente rivalizado pela sua tendência aos pendores veritológicos. Antes dele, nenhum outro poeta expressou tão bem a grandeza do mundo em sua minuciosa variedade de coisas e em seu poder total.

O certo é que quando os conhecimentos metafísicos se destacam da Veritologia, ou quando as experiências físicas se destacam da Saperologia, passam a ser especializados, sendo aprofundados segundo as suas próprias especializações, formando as mais diversas parcelas do Saber, tais como a Matemática, a Física, a Química, a Biologia, a Medicina, o Direito, a Sociologia, a Administração de Empresas, a Economia, etc. Nessas especializações, as religiões se ocupam dos conhecimentos metafísicos relativos a cada parcela do Saber, enquanto que as ciências se ocupam das suas correspondentes experiências físicas, sabendo-se que os conhecimentos são as fontes das experiências, pois que a verdade é a fonte da sabedoria.

Mas para Lucrécio o que era a religião, na realidade o credo?

Como ele era um espírito altamente perceptivo às vibrações magnéticas das coisas da natureza, que, na realidade, são seres, ficou deveras impressionado com os mistérios e os ritos dos credos. Verificava que a velha fé credulária, a qual já havia servido à família e a ordem social, perdera o domínio sobre as classes mais cultas de Roma. O próprio César sorria tolerantemente quando se apresentava como pontífice máximo, e os banquetes dos sacerdotes eram as grandes festas daqueles que se diziam epicuristas romanos. Uma boa parte do povo, ainda que em sua minoria, mostrava-se ateísta, chegando, inclusive, a mutilar à noite as estátuas dos deuses. Como os ritos oficiais já não faziam mais efeitos, muita gente da classe mais baixa ocorria aos santuários sangrentos da Grande Mãe frígia, ou da deusa Ma dos capadócios, ou ainda de alguma das deidades orientais introduzidas na Itália pelos soldados ou pelos cativos vindos do Oriente. O Sol e a Lua os romanos os concebiam como sendo deuses, voltando às concepções bem mais antigas, com cada eclipse espalhando o terror pelas aldeias e cortiços superpovoados. Os ledores da sorte caldaicos, os nascidos da Caldeia, naturais dessa antiga região asiática, e os astrólogos, percorriam a Itália tirando horóscopos tanto aos pobres como aos milionários, revelando tesouros ocultos ou futuros acontecimentos, interpretando presságios e sonhos com cautelosa ambiguidade e proveitosa lisonja. Cada ocorrência natural que fosse incomum era considerada como sendo advertência dos deuses.

A esse ambiente cultural de sobrenaturalismo, superstição, ritualismo e até hipocrisia, medrado na mais completa ignorância, era o que Lucrécio conhecia como sendo religião, agora denominada ajustadamente de credo, com as religiões sendo retiradas das garras aduncas da classe sacerdotal. Então não é de se admirar que ele se rebelasse com tudo isso e a atacasse com os pendores de um reformador religioso. Buscando uma alternativa que substituísse a esse quadro cultural de natureza mística e sobrenatural que se lhe apresentava, passou do ceticismo de Ênio ao poema em que Empédocles expõe a evolução e o conflito dos contrários. Nessa busca constante, ele encontra os escritos de Epicuro, em que neles lhe pareceu haver encontrado a resposta para todas as suas indagações, através de uma abordagem de libertação aos terrores postos nos âmbitos do misticismo e do sobrenatural, revelando a onipotência das leis naturais, a natureza que se encerrava em si mesma e a naturalidade da morte.

Lucrécio, então, resolveu transformar essa doutrina, advinda da sóbria prosa de Epicuro, para a graciosa forma de poesia, e oferecê-la à sua geração, quiçá à posteridade, como se fosse o caminho, a verdade e a vida, tal como iríamos encontrar alguns anos após, própria na vida e nas palavras de Jesus, o Cristo, só que nas palavras do Nazareno de maneira real e verdadeira. Dotado de um criptoscópio até poderoso e de um intelecto bastante desenvolvido, ele sentia em si mesmo um raro e duplo poder: a percepção objetiva de um verdadeiro religioso e a criatividade subjetiva do poeta. Assim, ele conseguiu captar um conhecimento geral que demonstrava a sublimidade da existência de uma ordem total na natureza, cuja beleza o impulsionava a realizar uma união justificada da Veritologia com a poesia. Esse grande propósito de Lucrécio lhe deu forças e o elevou a uma rara manifestação criptoscopial e intelectual, de maneira única, mas que, infelizmente, todo o esforço empregado o deixou exausto, antes de completada a obra. Mas esse seu imenso esforço lhe deu a felicidade de se consolidar cada vez mais a sua condição de veritólogo, afastando-se cada vez mais da sua condição de um profundo religioso.

Para a sua obra, Lucrécio escolheu um título mais veritológico do que poético, denominado Da Natureza das Coisas, tomando como metro o hexâmetro. Mas esquecendo a remota preocupação dos deuses para com este mundo, começa com uma figura que consiste em o orador se interromper de súbito, dirigindo a palavra a alguém ou coisa presente ou ausente, real ou fictícia, ou em apenas uma palavra: uma apóstrofe; ao se referir a Vênus, símbolo do desejo criador e dos caminhos da paz, que podemos considerar acertadamente como sendo a Providência Divina, quando assim se expressa:

Mãe da raça de Eneias, deleite dos homens e deuses, ó dadivosa Vênus! Através de ti, todas as formas de vida são geradas e nascem e vivem sob o Sol; diante de ti os ventos fogem e as nuvens do céu se apagam; para ti a milagrosa terra se abre em flores; para ti as ondas do mar sorriem, e os céus calmos brilham na difusão da luz. Porque logo que a primavera sobrevém, e o fertilizante vento sul refresca e enverdece tudo, começam os pássaros do ar a te proclamar, e o teu advento, ó divina, transparece em todos os corações; e então os rebanhos de animais selvagens brincam nas pradarias alegres e cruzam as correntezas rápidas; e, cativos do teu encanto, todos te seguem para onde quer que os conduzas. E através dos mares, montanhas e rios precípites, e nas copadas moradias das aves, e nos campos viridentes, tu acendes o amor no seio de todas as criaturas, e fá-las propagar todas as espécies. Assim, pois, só tu governas a natureza das coisas; e como sem ti nada se ergue para a luz, nada alegre ou belo nasce, eu sonho contigo como inspiradora destes versos. Dá às minhas palavras, ó deusa, a beleza imperitura. Faze que se detenha em sono e silêncio o feroz trabalho da guerra. Quando Marte se reclinar sobre tuas formas sagradas, cobre-o, inebria-o com as doces palavras de tua boca e pede para os teus romanos o presente da paz”.

A tese inicial dos desordenados argumentos de Lucrécio, em aparência, pode ser expressa no seguinte verso muito famoso:

A tantos males a religião persuadiu o homem”.

Ele se refere aos inumeráveis credos e seitas de onde provinham os sacrifícios humanos, as hecatombes aos deuses concebidos à imagem da voracidade humana, ao recordar a simplicidade e a juventude perdidas no terror de uma congérie de divindades vingativas, o medo ao raio e ao trovão, à morte e ao inferno, e os terrores subterrâneos descritos na arte etrusca e nos mistérios orientais. Incrimina toda a humanidade por preferir os sacrifícios dos rituais à percepção veritológica, que ele entende como sendo compreensão filosófica, ou mais precisamente como sendo compreensão saperológica. E esses cultos aos deuses iracundo, vingativos, ciumentos, etc., nós vemos nos tempos atuais, como são exemplos Jeová, o deus bíblico, e Alá, o deus alcorânico. Então o veritólogo diz o seguinte:

Ó miserável raça humana, que imputas aos deuses atos tais e lhes atribui tamanha ira! Quanto sofrimento por meio de tais credos os homens preparam para si mesmos, que feridas para todos nós, quantas lágrimas para os nossos filhos! Porque a devoção não consiste em voltar para as pedras um rosto velado, nem em se aproximar de cada altar, nem em se prostrar diante dos templos dos deuses, nem em espargi-los com o sangue de animais, mas na capacidade de olhar para todas as coisas com paz de espírito”.

E tal como outros já fizeram, como que concebendo a existência dos espíritos de luz que integram a plêiade do Astral Superior, os quais vivem em seus Mundos de Luz, ao alcance unicamente das nossas vibrações magnéticas, radiações elétricas e radiovibrações eletromagnéticas, dirigidas a Deus e a eles, confirma a existência dos deuses, mas afirmando que moram muito longe, em feliz isolamento das preocupações humanas, para além das flamantes extremas do mundo, fora do alcance das nossas preces, orações e sacrifícios. É lá onde vivem os deuses como seguidores de Epicuro, evitando os negócios humanos, contentes com a contemplação da beleza e praticando a amizade espiritual em paz. Não são eles os autores da criação, nem a causa dos fatos e dos fenômenos, quão desassisado lhes atribuir as desordens, os sofrimentos, as injustiças do viver terreno! Não, o Universo infinito, composto de tantos mundos, contém-se a si mesmo, não se guia por outra lei que não a sua própria, pois a natureza tudo faz por si mesma. Ao que indaga:

“— Por que, quem bastante forte para governar a soma das coisas, há de manter na mão as rédeas do insondável mar? E conservar todos os céus em giro, sacudindo o espaço com trovões, lançando o relâmpago que às vezes sacode templos e o raio que mata o inocente e não toca no criminoso?”.

Para ele o único Deus é a lei, considerando-se que as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais foram estabelecidas por Deus, pela Inteligência Universal, pelo Todo, e que a verdadeira adoração, bem como a única paz, é aprender a lei e a amá-la, tanto que afirma o seguinte:

Esse sombrio terror da mente deve ser dissipado não pelos raios do Sol, mas pelo aspecto e a lei da natureza”.

Com relação aos ensinamentos de Demócrito, apesar de nunca se utilizar da palavra átomo, dando às partículas primordiais a denominação de primórdia, elementa ou semina, Lucrécio estabelece como a sua premissa básica que nada existe senão os átomos e o vácuo, ou seja, matéria e espaço, faltando apenas substituir o espaço pela palavra Força, uma das propriedades que vamos adquirindo no decorrer da nossa evolução pelo Universo, para se antecipar ao maior de todos os veritólogos, o maior moralista entre todos nós, que foi Luiz de Mattos. Em seguida, ele firma um princípio até hoje fundamental para a ciência moderna, que a quantidade de matéria não muda e que e o movimento não varia nunca, que nada sai do nada, pois que o nada não existe, e a destruição é apenas mudança de forma.

Na concepção de Lucrécio, os átomos são indestrutíveis, imutáveis, sólidos, elásticos, sem som, sem cheiro, sem gosto, incolores e infinitos. Interpenetram-se para produzir infindáveis combinações e qualidades, movendo-se sem cessar na aparente imobilidade das coisas imóveis. O seu notável criptoscópio consegue perceber e captar o conhecimento metafísico de que os átomos possuem partes mínimas, com cada mínimo sendo sólido, indivisível, último, cuja indeterminação pode ser atribuída aos elétrons, que são menores do que os prótons e os nêutrons. Por causa dos diferentes arranjos dessas partes, os átomos variam de tamanho e forma, tornando assim possível a variedade das coisas da natureza. Os átomos não se movem em linhas reta ou uniforme, há em seus movimentos uma incalculável declinação ou desvio, uma espontaneidade elementar que perpassa em todas as coisas e culmina no livre arbítrio do ser humano. Por aqui, pode-se claramente constatar que a evolução de todos os seres tem o seu início nos átomos, aos quais nós podemos denominar de seres atômicos, podendo concluir assim que a matéria não existe, sendo apenas uma mera ilusão.

Para ele, tudo no começo foi disforme, mas o gradual ajustamento por tamanho e forma dos átomos produziu o ar, a água, o fogo e a terra, por conseguinte, a Lua e os planetas. É espantoso como o seu criptoscópio consegue perceber e captar os conhecimentos metafísicos mais profundos que existem, notadamente na sua época ainda muito atrasada, pois ele concebe que no espaço infinito novos mundos estão sempre nascendo, o que é uma realidade, e velhos mundos se desintegrando, quando na realidade estão evoluindo e se tornando Mundos de Luz, com estes se reintegrando a Deus, quando todos os seus integrantes se encontrarem devidamente preparados para essa reintegração.

Mas para ele as estrelas são fogos acesos no anel de éter, tal como um nevoeiro dos menores átomos que principiam a formação dos mundos, que envolve cada sistema planetário, cuja muralha cósmica de fogo constitui as flamantes extremas do mundo. Parte do nevoeiro primordial se destacou da massa, revolveu-se separadamente, resfriou-se e deu origem à Terra. Os terremotos não são roncos dos deuses, mas a expansão de gases e águas subterrâneos. Trovão e raio não são a voz e o sopro de um deus, mas os naturais resultados da condensação e do choque das nuvens. A chuva é um retorno à terra da umidade que se evaporou por ação do Sol. Na realidade, os terremotos e outros desastres da natureza são causados pelas falanges de espíritos obsessores, conforme se encontra demonstrado no site pamam.com.br.

Lucrécio tenta penetrar na formação do nosso corpo mental, o qual é formado pelo criptoscópio, pelo intelecto e pela consciência, embora logicamente não o tenha conseguido, em razão da sua extrema complexidade, algo que os estudiosos do assunto, hoje em dia, vivem como que às apalpadelas, mas arremeda quando diz que a mente é um órgão precisamente como os pés ou os olhos, e como tais é um instrumento ou uma função da alma. Que veritólogo encantador! E sobre os extremamente sensíveis átomos formadores do cérebro, caem as imagens perpetuamente emanadas da superfície das coisas. E aqui temos que todas as coisas vibram magneticamente, radiam eletricamente e radiovibram eletromagneticamente, para alcançar as nossas sensibilidades e os nossos sentidos, posteriormente os nossos sentimentos e os nossos pensamentos, tudo respectivamente. Então ele passa a considerar que o sabor, o cheiro, a audição, a vista e o tato são causados por partículas vindas das coisas e dando de encontro com a nossa língua ou pele, aos nossos ouvidos, olhos, nariz ou paladar, fornecendo as formas dos sentidos.

Ignorando a natureza dos fluidos formados pelas combinações entre as propriedades da Força e da Energia, em seus inúmeros estágios, aos quais os estudiosos denominam de éter, e que também formam a nossa alma, ou o nosso corpo fluídico, ou o nosso perispírito, à medida que vamos evoluindo pelo Universo, Lucrécio chega a materializar a alma, ao afirmar que ela não é nem espiritual e nem imortal, pois não poderia mover o corpo carnal se ela também não fosse material. Assim, a alma se desenvolve e envelhece com o corpo carnal, e como este é afetada por doenças, por drogas e pelo vinho, com os seus átomos aparentemente se dispersando quando o corpo carnal morre. Alma sem corpo não tem sentido nem significação: que uso teria uma alma sem órgãos para sentir a matéria?

Referindo-se à encarnação humana, ele concebe que a vida nos é dada não como propriedade absoluta, mas como empréstimo, e pelo tempo que possamos dela fazer uso. Esgotadas que sejam as nossas forças, temos de nos levantar da mesa da vida, tão gentilmente como um hóspede grato se levanta de uma festa. Então, em si, a morte não é terrível, o nosso medo do além é que a faz terrível. Mas não há além. O inferno é aqui, nos sofrimentos que brotam da ignorância, da paixão, da pugnacidade, da cobiça. E o céu é aqui, nos calmos templos da sabedoria, mesmo com ele sendo um seguidor da verdade.

Para Lucrécio a virtude não está no temor aos deuses, nem no tímido repúdio do prazer, mas na harmoniosa operação dos sentidos e faculdades, guiados pela razão. Ele critica aos homens que gastam a sua vida em busca de fama ou que erguem estátuas em suas homenagens, afirmando que a verdadeira riqueza consiste em viver com simplicidade e em paz de espírito. Melhor que viver vaidosamente em salões de ouro é reclinar com amigos na grama fofa, à margem de um regato, à sombra das árvores, ou ouvir uma música agradável, ou mesmo esquecer o ego no amor ao cuidar das nossas crianças. O casamento é útil e agradável, mas o amor proveniente da paixão perturba a claridade do espírito e da razão. Se alguém é atingido pelas hostes da paixão, podendo ser um rapaz de formas femininas ou uma mulher a radiar desejos por todo o corpo, sentem-se arrastados e anseiam pela consumação. Desta maneira, nenhum casamento e nenhuma sociedade encontrarão alicerces sólidos nessa ebriedade erótica. Como se vê, sendo um seguidor da verdade, a moral se encontrava sólida em seu espírito.

Com relação ao desenvolvimento desta nossa civilização, o grande veritólogo diz que no começo os homens moravam em cavernas sem fogo, uniam-se sem casamento, matavam sem lei, ou pereciam de fome com a frequência com que hoje tanta gente perece de comer demais. A organização em sociedade deu ao homem o poder de sobreviver aos animais muito mais fortes. E o homem descobriu o fogo na fricção da madeira, desenvolveu gestos em linguagem, domesticou animais para o seu uso e domesticou a si mesmo com o casamento e a lei. Posteriormente, lavrou o solo, vestiu o corpo, moldou metais em instrumentos, observou os céus, mediu o tempo, aprendeu a navegar, melhorou a arte de matar, conquistou os fracos e construiu cidades e Estados. A História é um desfile de Estados e civilizações que se erguem, prosperam, decaem e morrem, mas ao seu turno transmitem a herança de costumes, moral e artes, tal “como corredores que entregam a outros o archote da vida”.

Referindo-se à evolução, mas sem saber interpretá-la em toda a sua pujança, o epicurista diz que todas as coisas que crescem decaem: órgãos, organismos, famílias, Estados, raças, planetas e estrelas, somente os átomos não morrem nunca. As forças da criação e do desenvolvimento são equilibradas pelas forças da destruição em uma vasta sístole, ou movimento de contração, e diástole, ou movimento de dilatação, de vida e de morte. Na natureza coexistem o bem e o mal, e o sofrimento, ainda que imerecido, é de cada vida, e a desintegração segue os passos de cada evolução. A própria Terra está morrendo, pois terremotos a rompem. O solo vai se exaurindo, rios e chuvas o corroem e levam para o mar as montanhas. Um dia todo o nosso sistema estelar sofrerá uma semelhante morte, com as muralhas dos céus sendo varejadas de todos os lados e se desmoronando em ruínas. Mas no próprio momento da morte se trai a invencível vida do mundo. O vagido da criança que nasce se mistura com o canto fúnebre do morto. Novos sistemas se formam, novas estrelas, novos planetas, outra Terra e vida mais fresca. A evolução sempre prossegue.

A interpretação da natureza em forma de lei, em que a matéria, em sua ilusão, e o movimento não aumentam e nem diminuem, a grande percepção criptoscópica que tenta conhecer aquilo que as coisas encerram em si, a elevação da visão de Empédocles, da religiosidade de Demócrito e da moral de Epicuro aos mais altos páramos a que em qualquer época a poesia jamais alcançou, tudo isso podemos encontrar nos sentimentos e nos pensamentos de Lucrécio, transmitidos sem a utilização dos termos mais complexos da Veritologia e das religiões, enquanto dá ao hexâmetro uma original sutileza de masculinidade.

No ressurgimento da fé credulária depois de Sêneca, Lucrécio foi praticamente esquecido no mundo, sendo redescoberto apenas em 1418, por Poggio, quando então começou a influenciar o sentimento e o pensamento europeus. Um médico de Verona, Girolamo Fracastoro, que viveu no período de 1483 a 1553, tomou de Lucrécio a teoria das moléstias como causadas por “sementes” nocivas flutuantes no ar. Em 1647, Gassendi reviveu a teoria atômica. Voltaire leu com grande atenção o De Rerum Natura e concordou com Ovídio que aqueles versos rebeldes durariam tanto quanto duraria a nossa humanidade.

Mas afinal, de que modo desencarnou o veritólogo? Tertuliano, um dos primeiros sacerdotes da Igreja, inventou a história de que Demócrito teria furado os próprios olhos por não suportar o desejo sexual despertado pela visão de jovens mulheres, assim como também São Jerônimo inventou que o epicurista teria bebido um filtro de amor, enlouquecido e escrito o seu poema nos intervalos de lucidez, terminando por se suicidar.

O que a classe sacerdotal deve é tomar vergonha na cara e parar de pregar tantas mentiras e ignorância no seio da nossa humanidade, dispondo-se a ler as obras dos grandes homens e aprender com elas, e não inventar estórias sobre as suas desencarnações, atentando para o fato de que uma obra como essa jamais poderia ter sido escrita em intervalos de lucidez, em razão da sua sobriedade contínua.

 

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