13.05.04.01- A Escola Cínica ou o Cinismo

A Era da Sabedoria
7 de outubro de 2018 Pamam

A Escola Cínica, ou o Cinismo, foi uma corrente veritológica de natureza moral um tanto quanto exagerada, portanto, fora dos padrões normais, que ocorreu no Período Pós-socrático, justamente para combater a cultura degenerada da época. Essa corrente veritológica foi como que preparatória para o surgimento de outras escolas desse período, tal como se estivesse antevendo a época posterior que iria se desenhar na Grécia com a desencarnação de Alexandre, o Grande, em que a cultura grega iria decair do nível que antes foram determinados pelo Período Doutrinário e pelo Período Sistemático, através da degeneração da moral e da ética, assim como da implantação da monarquia na Grécia Antiga, que tanto lá como nos arredores iria se instalar.

O primeiro veritólogo a definir a Escola Cínica foi Antístenes, discípulo de Sócrates, no final do século V a.C., o qual foi seguido por Diógenes de Sínope, que levou o Cinismo a ultrapassar aos extremos da lógica e passou a ser visto como sendo o arquétipo do Cinismo, já que a sua autossuficiência e a sua indiferença demonstradas perante as vicissitudes da vida espelhavam os ideais do cinismo, que então se espalhou durante a ascensão do Império Romano, no século I, tornando-se quase um movimento de massa, já que os seus seguidores eram encontrados tanto pedindo esmolas como pregando ao longo das cidades do Império. A doutrina finalmente desapareceu no final do século V, com o falso cristianismo primitivo adotando muitos dos seus ensinamentos e das suas práticas ascéticas e retóricas.

A denominação de cínico é proveniente do grego antigo kynikos, que significa igual a um cão, sendo que em grego a palavra kyon significa cão, cujo genitivo é kynos, como acontece nas línguas em que os nomes se declinam por casos, sendo a manifestação com que se exprime em geral o complemento possessivo, limitativo e, às vezes, o circunstancial ou terminativo. Mas a explicação existente desde os tempos antigos do porquê dos cínicos serem denominados de cães, deve-se ao fato de Antístenes, que foi o primeiro cínico, ensinar no ginásio Cynosarges, ou Cinosargo, um ginásio e templo para os atenienses nothoi, ou seja, aqueles que não possuíam a cidadania ateniense por terem nascido de uma escrava, estrangeira, prostituta, de pais cidadãos mas não legalmente casados, ou, ainda, que fossem bastardos de hilotas, cujo nome designa uma raça escrava da antiga Esparta. A palavra Cynosarges sugere os significados de alimento de cão, cão branco ou cão rápido.

Mas ao que tudo indica, a denominação de cão foi também lançada aos primeiros cínicos como um insulto pelas suas rejeições exageradas quanto aos costumes adotados, o que implica em total desprezo em relação às convenções sociais, já que eles decidiram adotar os seus próprios costumes de natureza ascética, ao viverem nas ruas. O próprio Diógenes de Sínope, em particular, foi referido como o cão, ao ter afirmado que “os outros cães mordem os seus inimigos, eu mordo os meus amigos para salvá-los”, ao que tudo indica tentando transformar o significado da palavra em seu favor, como se através da mordida ele estivesse inoculando os atributos morais nas carnes dos seus amigos. Mas tal exagero de viver a vida em tais condições não condiz com a verdadeira moral, pois foge a ela, já que esse procedimento não condiz com a natureza, apesar dos cínicos considerarem que estavam vivendo em conformidade com ela. Mas, mesmo assim, um comentarista tenta dar uma explicação para o estilo de vida e a denominação canina aos cínicos, quando diz o seguinte:

Há quatro razões de porque os cínicos são assim chamados. A primeira razão por causa da indiferença do seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em banheiras nas encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto à falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os princípios da sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos aqueles que são adequados à sua filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles”.

Por aqui se pode constatar plenamente o exagero extremo em busca da moral, em que nesse extremo exagero a ética é quase que completamente esquecida, o que se leva a concluir que os cínicos não eram verdadeiramente educados, pois que para o ser humano ser educado verdadeiramente, ele deve possuir os atributos morais e éticos. Além do mais, nenhum ser humano deve olvidar de viver a vida em conformidade com a sociedade, mas tendo sempre como foco da sua vida aquilo que diga respeito à virtude, o que não implica em agredi-la.

Os cínicos, tanto os gregos como os romanos clássicos, consideravam a virtude como a única necessidade para realizar a felicidade, vendo-a como inteiramente suficiente para tanto. Mas nessa busca pela felicidade eles negligenciavam com rudeza a sociedade, a higiene, a família, o dinheiro, etc., denotando assim uma elevada dose de falta de ética. Assim, eles procuravam se libertar das convenções estabelecidas pela cultura local, na tentativa de se tornarem autossuficientes, em razão da crença equivocada de que estavam vivendo de acordo com a natureza. Como consequência desse desvirtuamento, eles rejeitavam todas as formas convencionais de felicidade que envolvessem dinheiro, poder, fama, etc., a fim de viverem asceticamente de maneira virtuosa e, portanto, feliz.

Mas se os cínicos antigos por um lado rejeitavam os valores sociais convencionais, por outro lado criticavam fortemente alguns tipos de comportamentos prejudiciais ao convívio humano, como a avareza, o egoísmo, a ganância, etc., que eram vistas como causadoras dos sofrimentos. Uma maior ênfase sobre este aspecto dos seus ensinamentos levou à compreensão moderna do que seja cinismo, já no final do século IX, considerado como sendo a manifestação de uma atitude de desdém negativo ou cansaço da vida, proveniente de uma desconfiança geral quanto à integridade ou motivos professos dos outros. Mas esta definição moderna se encontra em contraste marcante com o pensamento antigo, que destacou a virtude e a liberdade moral na libertação do desejo.

Na realidade, o propósito da vida para os cínicos era viver na virtude, na mais extremada virtude, de acordo com os ditames da natureza, a qual eles não sabiam interpretar nem o seu conteúdo e nem o seu objetivo para a vida, por lhes faltar a sabedoria necessária para tanto. Nas suas ignorâncias acerca da natureza, eles traçavam os objetivos essenciais para as suas vidas, em que predominava a virtude moral, que somente poderia ser obtida se eliminando o desejo de todos os bens supérfluos, assim como tudo aquilo que fosse exterior a eles.

Daí a razão deles defenderem a tese de que o ser humano dispunha de tudo aquilo que necessitava para viver, independente dos bens materiais. A isto denominavam de autarcia, uma variante com outra acepção mais difundida de autarquia, ou a qualidade de quem se basta a si mesmo, que pretendia exprimir uma condição de autossuficiência do sábio, algo que eles não eram, a quem basta ser virtuoso para ser feliz. Mas o termo grego original é autarkeia, que significa autossuficiência. Além dos cínicos, tal concepção se consagrou em uma proposição defendida também pelos estoicos, como veremos mais adiante em outro tópico, neste site de A Filosofia da Administração.

Os cínicos desacreditavam das conquistas obtidas por esta civilização, rejeitando as suas estruturas jurídicas, sociais e credulárias, estas últimas corretamente, pelo fato de serem todos os credos e as suas seitas sobrenaturais, afirmando que elas não trariam qualquer benefício ao ser humano. Considerando-se autossuficientes, eles rejeitavam tudo aquilo que naturalmente não é dado ao ser humano pelo nascimento, ao que parece se referindo até ao instinto, que é irracional, que não pode servir de base para a conceituação nem da moral e nem da ética. Em outros termos, este pensamento pode ser encontrado no mito Bom Selvagem, de Rousseau.

Os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, por serem provenientes da percepção criptoscópica, devem ser transmitidos por intermédio de uma saperologia, antes de uma filosofia, com a inserção de algumas experiências físicas acerca da sabedoria, para que assim possam ser acessíveis à compreensão intelectual. No entanto, o cinismo não conseguiu penetrar no âmbito da verdade, já que a sua saperologia partia do princípio de que a felicidade não dependia de nada externo ao próprio ser humano, tais como as coisas materiais, sem qualquer preocupação com a saúde, com o sofrimento doloroso e mesmo com a desencarnação, limitando-se estritamente ao âmbito da moral, mesmo sem atingi-la a contento, pois que dela o pudor faz parte integrante, mas preconizando a virtude para se atingir a felicidade, em que desponta a sua saperologia no ensinamento da libertação de todas as coisas materiais, para eles a única via pela qual se pode atingir a felicidade, que, assim obtida, nunca mais pode ser perdida. Assim, para os cínicos a virtude reside, sobretudo, na conduta moral do ser humano, naquilo que lhe é intrínseco, não nas conquistas materiais, e muito menos na aparência exterior.

Mas assim como Sócrates, os cínicos nada deixaram de escrito. O que se sabe sobre eles foi narrado por escritores alheios aos seus ensinamentos moralistas, que em geral eram críticos severos dos seus modos de vida, pelo fato de serem alheios à cultura e a sociedade.

Assim como a preocupação com o próprio sofrimento doloroso relativo ao seu ascetismo, tanto a saúde como a desencarnação, assim como o sofrimento doloroso dos seus semelhantes, representavam algo do qual os cínicos também almejavam se libertar. Em virtude disso, a palavra cinismo adquiriu a conotação que hoje em dia tem de indiferença e insensibilidade ao sentir e ao sofrer dos semelhantes, ou mesmo aquele que afronta ostensivamente as convenções e conveniências morais e sociais.

Por volta do século dezenove, a ênfase sobre os aspectos negativos da doutrina cínica levou ao entendimento moderno de cinismo a significar desfaçatez, tal como uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas, e também como a caracterização de pessoas que desprezam as convenções sociais.

 

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