13.05.04.01.02- Diógenes de Sínope

A Era da Sabedoria
7 de outubro de 2018 Pamam

Diógenes de Sínope encarnou no ano 412 a.C., em Sínope, uma colônia grega da Ásia Menor, e desencarnou no ano 323 a.C., em Corinto, aos oitenta e nove anos de idade. Era também conhecido como Diógenes, o Cínico. Os detalhes da sua vida são conhecidos através das anedotas ao seu respeito, especialmente as que foram reunidas por Diógenes Laércio em sua obra intitulada de Vidas e Opiniões de Filósofos Eminentes.

Ele foi exilado da sua cidade natal e se mudou para Atenas, onde teria se tornado um discípulo de Antístenes, que por sua vez havia sido discípulo de Sócrates. Muito antes mesmo da afirmativa do grande veritólogo Luiz de Mattos, que dizia que os seres humanos devem andar com os pés na Terra e a cabeça elevada às alturas, ou seja, ao Espaço Superior, já em sua época ele adotou tal procedimento veritológico, mas de maneira extremamente radical, já que se tornou um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema como se fôra uma virtude, vivendo na mais completa miséria, como se realmente estivesse com os pés na Terra e a cabeça nas alturas, mas sem estar.

Segundo a tradição popular, ele habitava em um grande barril, ao invés de habitar em uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina em plena luz do dia, alegando estar procurando por um homem honesto.

Eventualmente se estabeleceu em Corinto, onde lá continuou a buscar o ideal cínico da autossuficiência, através de uma vida que fosse em conformidade com a natureza e não dependesse das luxúrias da civilização. Por acreditar que a virtude era melhor revelada no poder, na simples teoria “a priori”, e não na ação cotidiana na sociedade, a vida consistiu em uma campanha incansável para desbancar as instituições e os valores sociais, os quais ele considerava como sendo uma sociedade corrupta. Por aqui se pode constatar uma reação contra a degeneração moral que tomou conta da Grécia Antiga.

Em suas perambulações pelas ruas, foi um dia aprisionado por piratas, sendo posteriormente vendido como escravo. Um homem detentor de uma boa índole chamado de Xeníades o comprou, e logo pôde constatar tanto a virtude como a inteligência do seu novo escravo, o que o levou a lhe confiar tanto a gerência dos seus bens como a educação dos seus próprios filhos.

O fato é que Diógenes de Sínope não era comedido como Antístenes, já que levou aos extremos os preceitos do seu mestre, tornando-se o exemplo vivo que perpetuou a indiferença cínica perante os valores da sociedade da qual fazia parte, desprezando por completo a opinião pública. E tanto era extremado que os seus únicos bens eram um alforje, um bastão e uma tigela, os quais simbolizavam o desapego e a autossuficiência perante o mundo.

Ele entendia a felicidade como sendo a extrema liberdade, que se realizava através do autodomínio, com tudo isso se tornando a verdadeira realização de uma vida. Assim, por intermédio da liberdade e do autodomínio combatia o prazer, o desejo, a luxúria, etc., os quais se revestiam de fatores impeditivos para o alcance da autossuficiência. E a virtude deveria ser praticada como em Aristóteles, com a sua prática sendo mais importante que as meras teorias “a priori” sobre a virtude.

Diógenes de Sínope é tido como sendo um dos primeiros homens a afirmar a sua condição de cidadão do mundo, como que antecipando em dezenas de séculos a formação de um Estado Mundial que no futuro certamente deverá se instalar em nossa humanidade, quando disse: “Sou uma criatura do mundo, e não de um Estado ou de uma cidade particular”, o que revela uma condição de um alto cosmopolitismo. Ele foi antecedido somente por Sócrates, como se constata com a sua célebre frase: “Não sou nem ateniense e nem grego, mas sim um cidadão do mundo”.

Parece que o veritólogo teria escrito várias tragédias ilustrativas da condição humana e, também, uma República, que teria influenciado bastante a Zenão de Cítio, o fundador do estoicismo, pois, de fato, a influência do cinismo sobre o estoicismo é bastante relevante.

É um fato que Diógenes de Sínope foi o mais folclórico entre todos aqueles militaram nas áreas veritológica e saperológica da antiguidade, quiçá de todos os tempos, pois são inúmeras as estórias que se contam sobre ele já naqueles tempos, sendo a mais famosa a da lanterna que ele carregava perambulando pelas ruas, conforme descrita acima.

Também muito famosa é a sua estória com Alexandre, o Grande, que, ao encontrá-lo sentado em uma das ruas, ter-lhe-ia perguntado o que poderia fazer por ele. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre impedia que o Sol chegasse até ele, fazendo-lhe sombra. O cínico, então, olhando para Alexandre, disse-lhe: “Não me tires o que não me podes dar”; frase esta que representa uma variante de “Deixa-me ao meu Sol”. Essa resposta impressionou a Alexandre de tal maneira que ele, na volta, ouvindo um dos seus oficiais zombar de Diógenes de Sínope, prontamente disse ao oficial zombador: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”.

Outra estória famosa é que certo dia ele foi flagrado pedindo esmola a uma estátua. Quando lhe perguntaram o motivo de tal conduta estranha, ele simplesmente respondeu:

“— Por dois motivos: o primeiro é que ela é cega e não me vê, o segundo é que eu me acostumo a não receber algo de alguém e nem depender de alguém”.

Outra ainda das suas estórias famosas é a de que tendo sido flagrado e repreendido por estar se masturbando em público, simplesmente exclamou: “Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!”. Mas ao que tudo indica esta estória não procede, em virtude de a prática da moral requerer também a prática do pudor, embora de Diógenes de Sínope tudo se possa esperar, pelo fato dele sempre querer chocar a sociedade. De qualquer modo, pelo sim e pelo não, por um lado fica evidenciada a sua falta de malícia, por outro lado fica o seu contrassenso em repudiar o prazer.

De todas as anedotas ao seu respeito, muitas se referem ao seu comportamento semelhante a um cão, como também ao seu elogio às virtudes de um cão. Não se sabe se ele realmente se considerava insultado pelo epíteto canino, mas parece que não, já que tentou fazer desse epíteto uma virtude, ou mesmo se assumiu ele próprio a temática do cão para si. O fato é que ele propagava que os humanos viviam artificialmente de maneira hipócrita e poderiam ter algum proveito caso resolvessem estudar o cão, pois este animal é capaz de realizar as suas funções corporais naturais em público sem qualquer constrangimento, comer qualquer coisa e não fazer estardalhaço sobre em que lugar dormir. Assim, os cães, como qualquer animal, vivem o presente sem ansiedade e não possuem as pretensões da saperologia abstrata, e que, somando-se ainda a estas virtudes, estes animais aprendem instintivamente quem é amigo e quem é inimigo, diferentemente dos humanos, que enganam e são enganados uns pelos outros, pois os cães reagem com honestidade frente a verdade. Esta associação de Diógenes de Sínope com o cão foi rememorada pelos coríntios, que erigiram em sua memória um pilar sobre o qual descansa um cão entalhado em mármore de Paros.

Como se pode claramente constatar, a falta de sabedoria de Diógenes de Sínope era notória, pois ele não atentou para o fato de que os cães são desprovidos de raciocínio e livre arbítrio, vivendo através dos instintos, sendo providos pela Providência Divina, cujos mal tratos a essa espécie têm como únicos culpados os seres humanos.

As suas reflexões desenvolvidas deixam reconhecer que ele tem por fim lançar as bases de um novo modelo social para realizar na Terra a ordem e a felicidade completas, tomando por base a virtude, para que todos vivam conforme a natureza, o que não deixa de ser uma espécie de socialismo, já que ele se julga capaz de assim socializar a humanidade. Mas, ao mesmo tempo, nesse seu desiderato, ele deixa antever a ausência da autoridade de governo a quem o povo obedeça, gerando desordem, confusão e inculcando os princípios da anarquia, o que é reconhecido pelo historiador inglês Donald R. Dudley, o qual afirma que em seu pensamento moralista podem ser identificados muitos elementos presentes no movimento anarquista da contemporaneidade.

O escritor norte-americano David Keyt, em seu artigo intitulado de Aristóteles e o Anarquismo, afirma que as sementes do anarquismo filosófico, agora saperológico, podem ser mais facilmente encontradas nas ideias de Diógenes de Sínope do que nas de Sócrates, no que está redondamente enganado, pois a sabedoria socrática nada tinha a ver com qualquer semente anarquista, já que ele apenas não abriu mão da sua vocação saperológica, mesmo em detrimento da própria vida, quando pressionado pelo Estado. Este mesmo autor confere também a Diógenes de Sínope a defesa do gérmen do primeiro internacionalismo na antiguidade, uma vez que o próprio, refutando a todas as identidades vinculadas às cidades-Estados e aos povos antigos, e, também, negando a imprescindibilidade da cidade, definia-se como cidadão do cosmos, no que continua redondamente enganado, pois o primeiro cosmopolita da antiguidade foi Sócrates, como visto mais acima. Por fim, este mesmo autor se faz lógico, mas não indicando que esteja absolutamente correto, já que se manifesta de maneira hipotética, quando afirma que o peso do pensamento acrático — no sentido de desordem social e anarquia — na antiguidade, faz-nos considerar a hipótese de Aristóteles estar em parte reagindo e se contrapondo às ideias de Diógenes de Sínope, quando em sua defesa da pólis.

Não se pode afirmar com certeza se Diógenes de Sínope desprezava mais a riqueza ou mais aos ricos. Mas ao que tudo indica era mais a estes, conforme comprova a sua frase a seguir:

Na casa de um rico não há lugar para se cuspir, a não ser em sua cara”.

Talvez em parte por causa do comportamento escandaloso, os seus escritos caíram no quase total esquecimento. Com efeito, a sua obra intitulada República ataca numerosos valores do mundo grego, preconizando, entre outros, a antropofagia, a total liberdade sexual, a igualdade entre homens e mulheres, a supressão da moeda, o repúdio à arrecadação em prol da cidade e de suas leis, a indiferença à sepultura, a negação do sagrado, a supressão das armas, estando certo nestes três últimos aspectos. E mais: considerava o amor como sendo absurdo, alegando que ninguém se deve apegar a outra pessoa.

Atualmente o nome Diógenes tem sido aplicado a um distúrbio comportamental caracterizado por autonegligência involuntária e acumulação de objetos. Este distúrbio comportamental afeta predominantemente aos idosos e não tem qualquer relação com a rejeição ascética de Diógenes de Sínope deliberada de conforto material.

No entanto, Diógenes de Sínope deve ser considerado como sendo um veritólogo atípico, e não um veritólogo autêntico que busca os conhecimentos metafísicos acerca da verdade. A razão dele estar sendo aqui considerado como sendo um veritólogo atípico, deve-se ao fato dele haver tentado por todos os meios exercer a moral através da própria natureza, sem qualquer alusão ao irracionalismo do sobrenatural e sem recorrer a qualquer misticismo ou dogma, mesmo sem conseguir alcançá-la a contento, apesar do imenso esforço ascético por ele desprendido na consecução de tal intento. Isso indica que o seu criptoscópio não havia ainda alcançado os páramos da espiritualidade, e nem o seu intelecto havia também alcançado um desenvolvimento apropriado para transmitir a verdade com a inserção de alguma sabedoria, e nem para uma convivência ética com os seus semelhantes e com o próprio governo a que estava subordinado. Mas deve ser evidenciada a sua grande influência exercida no estoicismo.

Apesar disso, ele é bastante diferenciado daqueles que possuem um criptoscópio bastante reduzido e um intelecto praticamente irrelevante, que se apegam desesperadamente ao sobrenaturalismo, ao misticismo e aos dogmas, que por isso se dispõem a viver à distância dos seus semelhantes, enclausurados em mosteiros e conventos, dedicando-se exclusivamente às rezas e orações, às vezes aos cânticos, adorando fervorosamente aos deuses inexistentes, nas figuras dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, totalmente submissos a tais práticas, que são totalmente inúteis e por demais lesivas à evolução do espírito. Às vezes se entregam à solidão no deserto ou ao ermo. A estes seres humanos ainda muito atrasados na escala evolutiva espiritual, dá-se a denominação de eremita.

Mas não se deve confundir os eremitas com outros ascéticos, principalmente com Buda, que adentrou na floresta em solidão à procura de paz, pois ele tinha em mente um nobre objetivo, que era a busca da verdade, da qual conseguiu transmitir algumas parcelas. Além do mais, ele tinha os seus discípulos.

 

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