13.05.03.03- Aristóteles

A Era da Sabedoria
5 de outubro de 2018 Pamam

Aristóteles encarnou no ano 384 a.C., em Estagira, uma pequena colônia da Trácia, e desencarnou no ano 322 a.C., em Cálcis, na ilha Eubeia, com a idade de apenas sessenta e dois anos. Era filho de Nicômaco, amigo e médico pessoal do rei macedônio Amintas III, pai de Felipe II, o que explica o seu interesse demonstrado por Biologia e Fisiologia, já que a atividade médica exercida pelo pai, como também pelo tio, remontava a dez gerações.

Com aproximadamente dezesseis anos de idade partiu para Atenas, que na época era o maior centro intelectual e artístico da Grécia. Como muitos outros jovens da sua época, foi para lá com o intuito de prosseguir nos estudos. Duas grandes instituições disputavam a preferência dos jovens: a escola de Isócrates e a academia de Platão. Mas a escola de Isócrates visava preparar o aluno apenas para a vida política, enquanto que a academia de Platão tinha como preferência as ciências como fundamento da realidade da vida. Aristóteles, então, decidiu-se pela Academia platônica e nela permaneceu durante vinte anos, até a desencarnação de Platão.

Com a desencarnação de Platão, a direção da Academia passou para o seu sobrinho, Espeusipo, que começou a imprimir ao estudo acadêmico da Saperologia um viés matemático, que Aristóteles considerou inadequado, o que se justifica pelo fato da Matemática pura ser da alçada do criptoscópio, que é religião, enquanto que a Matemática aplicada é da alçada do intelecto, que é ciência, a qual não tinha muita aplicação científica para a época, e como ele era intelectual e não criptoscopial, considerou acertadamente inadequado tal estudo para ele, embora não tivesse deixado de lhe ser útil, pois embora o seu intelecto prevalecesse sobre o seu criptoscópio, ele teria que trabalhar com ambos, assim como todos os demais seres humanos. Então decidiu deixar Atenas e se dirigiu primeiro para a corte do ditador Hermeias, o qual estudara com ele na Academia e passara de escravo a ditador de Atarneu e Assos, na alta Ásia Menor. De Atarneu ele foi para Assos, cidade que fôra doada pelo tirano aos platônicos Erasto e Corisco, pelas boas leis que lhe haviam elaborado e que obtiveram grande sucesso.

Em 344 a.C., Aristóteles se casa com Pítias, filha de Hermeias, com quem teve uma filha, também denominada de Pítias, e passa a dirigir uma escola em Assos, junto com Xenócrates, Erasto e Corisco. Nesse tempo, Hermeias foi assassinado pelos persas, que estavam suspeitosos de que o ditador estivesse planejando auxiliar Filipe II na sua projetada invasão da Ásia. Ele então foge com Pítias para as vizinhanças da ilha de Lesbos, em Mitilene, aonde conhece Teofrasto e com a sua colaboração dirige uma escola nessa cidade. Pítias desencarna e ele se liga à cortesã Herpilis, mas conservando até ao fim da vida uma terna dedicação à memória de Pítias, pois ao desencarnar pediu para que o seu corpo repousasse junto ao dela, como se o corpo carnal descansasse, após a desencarnação, ao invés de se desintegrar.

Em 343 a.C., Felipe II, que provavelmente o conhecera quando menino na corte de Amintas III, ou influenciado por Hermeias, talvez ambos, convidou-o para mestre e educador de Alexandre, então com treze anos de idade, que mais tarde iria ser cognominado de o Grande, sendo considerado o maior conquistador da história, mas não o maior general, que para mim é Aníbal de Cartago. Aristóteles resolveu partir para Pela, e durante quatro anos se dedicou a essa tarefa de mestre e educador. Em 340 a.C., Felipe II o encarregou de dirigir a restauração e a repovoação de Estagira, arrasada pela guerra com Olinto, bem como de elaborar um código de leis para a cidade. Aristóteles desempenhou a contento as suas tarefas, tendo a cidade lhe comemorado a obra com um feriado anual.

Em 334 a.C., regressou para Atenas e abriu uma escola de Saperologia e retórica, ao que parece haver sido auxiliado por Alexandre, o Grande. Escolheu para o local o mais elegante dos ginásios de Atenas, um grupo de edifícios dedicado a Apolo Liceu, o deus dos pastores, cercando-o de sombreados jardins e alamedas cobertas. Pela manhã, ensinava matérias adiantadas a estudantes regulares, durante a tarde dava preleções a um auditório mais popular, ao que parece sobre retórica, poesia, ética e política. Formou ali uma grande biblioteca, um jardim zoológico e um museu de história natural. A escola passou a se chamar Liceu e a saperologia nela ensinada se denominou de peripatética, devido as alamedas cobertas que eram denominadas de peripatoi, ao longo das quais ele costumava passear com os seus discípulos enquanto dissertava.

Nessa época, uma forte rivalidade cultural nasceu entre o Liceu, fundado por Aristóteles, cujos alunos vinham sobretudo das classes médias, a Academia, que havia sido fundada por Platão, cujos alunos vinham sobretudo da classe aristocrática, e a escola de Isócrates, que tinha a preferência dos gregos das colônias. Mas a rivalidade cessou por completo depois que o Liceu se dedicou às ciências naturais, a Academia à Matemática, a metafísica e a política, e a Escola de Isócrates à retórica.

Como já é sabido que a Veritologia é a fonte legítima da Saperologia, ou seja, que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade são as fontes legítimas das experiências físicas acerca da sabedoria, únicas vias pelas quais se alcança a razão, em sendo Aristóteles um autêntico saperólogo, ele induzia aos seus discípulos a reunir e a coordenar os conhecimentos de todos os campos, os quais eram do seu próprio interesse, tais como: Biologia, Física, Matemática, Astronomia, Medicina, Cosmologia, História, Psicologia, e outros tantos saberes, como botânica, lógica, música, metafísica, ética, retórica, teoria política, artes e história da Filosofia, ainda sob esta denominação, pois que mesclada com a Veritologia. Em todas essas áreas o Liceu coletou manuscritos e assim, de acordo com alguns relatos antigos, criou-se a primeira grande biblioteca da antiguidade. Essa biblioteca reunia um tesouro de dados ao qual o grande saperólogo recorria com grande confiança, ao escrever os seus inúmeros tratados, principalmente aos escritos dos veritólogos das quatro escolas que pertenciam ao Período Doutrinário.

Aristóteles compôs cerca de vinte e sete diálogos, que Cícero e Quintiliano, em Roma, consideravam iguais aos de Platão, contudo não eram assim tão elevados, pois que Platão, além do seu intelecto, fazia trabalhar também o seu criptoscópio, fazendo sobressair a sua consciência, em busca da razão. Foi principalmente através desses diálogos que ele se tornou conhecido na antiguidade, mas esses diálogos foram sequestrados pelos bárbaros na conquista de Roma. O que nos ficou das suas obras não vai além de um amontoado de obras técnicas, um tanto quanto abstratas, compostas com o auxílio das notas tomadas para as suas preleções, ou destas tiradas pelos seus discípulos, sendo que tais compêndios técnicos não se tornaram conhecidos fora do Liceu senão no século I a.C., depois de publicados por Andrônico de Rhodes. Quarenta deles sobrevivem, mas Diógenes Laércio menciona mais trezentos e sessenta. É nesse amontoado de obras que devemos procurar o pensamento aristotélico, que posteriormente iria conquistar para ele o título de “o Filósofo”. Mas não devemos encontrar em seu pensamento o mesmo brilho e a mesma elevação do pensamento de Platão, principalmente porque eram de naturezas diferentes, já que enquanto Platão retia em si a sabedoria, mencionava ou queria perceber e captar a verdade e tentava se aproximar da razão, Aristóteles buscava mais o aspecto técnico das coisas, dos fatos e dos fenômenos, dando início às ciências propriamente ditas.

Aristóteles tem sido tradicionalmente considerado mais como saperólogo, ou filósofo, na denominação antiga, do que como cientista, com esta consideração sendo absolutamente correta, uma vez que cada parcela do Saber, como a Matemática, a Física, a Biologia, a Química e tantas outras, tem o seu lado religioso, que trata dos conhecimentos metafísicos especializados acerca da verdade, e o seu lado científico, que trata das experiências físicas especializadas acerca da sabedoria, sendo que praticamente todas as parcelas do Saber tiveram os seus estudos iniciados pela Veritologia, em sua forma doutrinária, ou pela Saperologia, em sua forma sistemática, quando então se destacaram e passaram para as mãos dos seres religiosos e dos seres cientistas, respectivamente, que levaram avante os seus estudos e as suas pesquisas, aprofundando acentuadamente os conhecimentos e as experiências a respeito de cada uma delas, apesar de nenhum dos dois serem capazes de apreender a verdade e a sabedoria para incluí-las em suas investigações e pesquisas respectivas, pois que as religiões e as ciências ainda se encontram mescladas umas com as outras, mas mesmo assim se arvorando de serem os únicos responsáveis em termo de explicações acerca das coisas, dos fatos e dos fenômenos universais, quando não os são, por hipótese alguma, pois sempre ficam limitados ao aspecto material dos seus próprios campos de investigações e pesquisas, daí a razão pela qual sejam incapazes de fornecer maiores esclarecimentos transcendentais aos seres humanos. E foi Aristóteles quem verdadeiramente deu início às pesquisas e aos estudos científicos de várias parcelas do Saber, que mais tarde se destacaram da Saperologia e ganharam vida própria.

E para começar as suas pesquisas e os seus estudos saperológicos acerca das várias parcelas do Saber, o seu espírito curioso se mostrava interessado no processo e na técnica do raciocínio lógico, e tal é a agudeza com que analisa a esses pontos, que o Organon, ou Instrumento, denominação dada após a sua desencarnação aos seus tratados de lógica, tornou-se a obra de texto da lógica durante dois mil anos. Aristóteles consumiu a maior parte do seu tempo definindo os seus termos, considerando que conseguiu resolver o problema, em que define a própria definição como sendo a especificação de um objeto ou de uma ideia pela determinação do gênero ou classe a que pertence, o que comprova quando diz que o homem é um animal e que a diferença específica que o distingue de todos os outros membros dessa classe é que o homem é um animal racional. Por aqui logo transparece o longo processo evolutivo dos seres pelo Universo, mais especificamente quando alcança a animalidade.

É característico do seu metódico sistema o fato dele ter disposto em dez categorias os aspectos básicos sob os quais qualquer coisa pode ser considerada, que são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, posse, atividade e passividade; classificação esta que alguns estudiosos consideram de valor para fixar os seus pensamentos.

Tendo os pensamentos mais vigorosos do que os sentimentos, por conseguinte, o intelecto mais desenvolvido do que o criptoscópio, voltava-se Aristóteles mais para o lado físico do que para o lado metafísico do Universo, fazendo sobressair a sua natureza de um espírito compreensivo, criador e experimentador, que assim encara os sentidos como sendo a única fonte dos conhecimentos. Deste modo, ignorando a existência dos órgãos mentais que formam a nossa inteligência, ele critica aos seus predecessores, que eram os veritólogos do Período Doutrinário, por terem tirado das suas próprias cabeças os conhecimentos metafísicos acerca da natureza, como se assim realmente tivesse sido, que são as especulações ou as teorias “a priori” dos veritólogos a respeito dos conhecimentos que foram por ele e pelos seus discípulos compilados, em lugar de se dedicarem a pacientes observações e experimentações.

Como são diferentes os veritólogos e os saperólogos, assim como são diferentes os seres religiosos e os seres cientistas, e como a Providência Divina capacita a nossa inteligência, em nossa evolução espiritual, para podermos desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, servindo estes de fonte para que possamos resolver os problemas do mundo.

Aristóteles acumula em seus estudos e pesquisas científicos uma grande quantidade de observações específicas, e de quando em quando registra as suas experiências ou as dos outros. E a despeito de todos os seus equívocos, que são naturais para quem desbrava as regiões inóspitas e ainda desconhecidas, em razão do pioneirismo, foi ele o precursor do método científico experimental e o primeiro a organizar as pesquisas científicas cooperativas.

Os estudiosos afirmam que Aristóteles era mais fraco em Matemática e Física, no que estão equivocados, já que essas parcelas do Saber eram limitadas à percepção e a captação dos conhecimentos que antes haviam sido transmitidos pelos veritólogos, que podem ser considerados como sendo o lado metafísico dos seus estudos, cujos conhecimentos esses estudiosos consideram ser matérias que se limitam ao estudo dos princípios primeiros, quando, na realidade, não existem princípios primeiros, uma vez que princípios são princípios, em que os mais evoluídos partem dos princípios que sejam mais adiantados em relação ao Tempo Futuro, enquanto que o saperólogo procurava fazer valer a sua natureza de intelectual, limitando-se a compreender e a criar experiências, as suas partes físicas.

Por isso, na sua Física, ele procura dar vazão à sua compreensão e ao seu poder criador, buscando definições claras dos termos utilizados, tais como matéria, movimento, espaço, tempo, continuidade, infinito, mudança e fim, apesar de não conseguir resolvê-los, devendo-se sempre louvar o pioneirismo dessas grandes mentalidades, que encarnaram com o fim precípuo de alavancar a evolução da nossa humanidade. O movimento e o espaço são contínuos, e não se compõem, como supôs Zenão, de pequenos momentos ou partes indivisíveis, olvidando do tempo. O infinito existe realmente, mas não é próprio deste mundo, encontrando-se somente em Deus, como se encontra devidamente demonstrado no capítulo específico que trata de A Realidade de Deus de Acordo com a Razão, contido neste site de A Filosofia da Administração, na categoria que trata dos Prolegômenos.

No entanto, ele não resolveu tais problemas em virtude de tais problemas deverem ser resolvidos pelos seres religiosos e pelos seres cientistas, que no futuro deverão se aprofundar em tais problemas, após as ciências de hoje haverem sido todas reformuladas em novas bases. Mas ele fez despertar esses problemas, que iriam motivar Newton, tais como a inércia, a gravidade, o movimento e a velocidade, bem como uma certa noção do paralelogramo de forças, teorema da mecânica pelo qual se encontra a resultante de duas ou mais forças, cuja intensidade e direção se conhecem, expondo ainda a lei da alavanca, dizendo que a força atuante moverá mais facilmente o objeto quanto mais distante se achar do fulcro, ou seja, do sustentáculo, do ponto que serve para amparar qualquer coisa.

Aristóteles possui um notável senso do tempo geológico, e naturalmente intuído pelo Astral Superior afirma que incontáveis civilizações apareceram e desapareceram, em consequência de súbitas catástrofes, que todas as artes e saperologias se desenvolveram várias vezes, chegando ao apogeu e perecendo, faltando apenas complementar que elas não conseguiram atingir a verdade e a sabedoria em suas plenitudes, alcançando a glória da razão, por conseguinte não conseguiram se espiritualizar, e não conseguindo se espiritualizar não tinham mais nenhum sentido para a continuidade da vida em estado de completa ignorância, já que esta tendia a se materializar cada vez mais, levando os seus povos a um estado de completo mundanismo. E como não se regride na evolução espiritual, uma vez que ela é sempre ascendente, apesar de existir a sua estacionalidade, todas essas civilizações foram extintas em função das ações dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, tendo que recomeçar novamente todo o processo civilizatório. Todo e qualquer estudioso do assunto, sabe que a Atlântida era um continente em que a sua menção reconhecida remonta a Platão, que em suas obras se refere diretamente a ela. Segundo Platão, a Atlântida era uma potência naval que conquistou muitas terras na Europa Ocidental e África há milhares de anos antes da época de Solon, que após uma tentativa fracassada de invadir Atenas afundou no oceano em um único dia e noite de infortúnio.

Ignorando naturalmente as leis da coesão, da afinidade e da expansibilidade, que são todas espaciais, os princípios da atração, da repulsão e do calórico, que são todos temporais, e os preceitos da polarização, da fermentescibilidade e da integração,  que são todos universais, Aristóteles considerava que o calor era o principal agente das mudanças geológicas e meteorológicas. Neste âmbito, ele arrisca explicações para as nuvens, a neblina, o orvalho, a geada, a chuva, a neve, o granizo, o vento, o trovão, o raio e o arco-íris, mas apesar das suas explicações serem equivocadas, o seu pequeno tratado de meteorologia teve muita importância na época, já que não invocava qualquer agente sobrenatural, atribuindo os aparentes caprichos do tempo a causas naturais, operantes em determinadas sequências e regularidades. É lógico que as ciências naturais neste aspecto não poderiam se ter adiantado mais do que isso, o que se deu apenas após as invenções lhe darem os instrumentos de grande alcance e precisão para os efeitos de observações e medições, mas mesmo assim elas ainda ignoram completamente as causas de tudo isso, pois que se atêm apenas aos efeitos.

É no campo da Biologia que Aristóteles parece se sentir mais à vontade, fazendo pesquisas e realizando observações nos mais diversos setores, mas sempre cometendo equívocos, em razão do seu pioneirismo. No entanto, conseguiu consolidar tudo em um corpo de ciência, o que constitui uma grande realização e uma valiosa colaboração para o progresso científico. Com o auxílio dos seus discípulos reuniu uma grande variedade de dados sobre a fauna e a flora das regiões do Egeu e formou a primeira coleção científica de animais e plantas, no que foi auxiliado por Alexandre, o Grande. Segundo Plínio, Alexandre deu ordens aos seus caçadores, couteiros, pescadores, etc., para fornecerem a Aristóteles todos os materiais e as informações que lhes fossem requisitados.

Como precursor das ciências, o notável saperólogo se encontrava absolutamente correto em demonstrar tanto interesse por coisas que eram aparentemente banais, ao contrário dos cientistas de hoje, que desprezam a aparente banalidade das coisas, dos fatos e dos fenômenos universais, afirmando não serem verificáveis, pelo que se pode indagar a esses estudiosos: a espiritualidade é banal? É óbvio que não. A espiritualidade é verificável? É óbvio que sim, como verificáveis são todas as coisas, fatos e fenômenos universais, por uma razão de pura lógica, desde que se obtenha um método que seja adequado para a suas verificações. E assim, o saperólogo se ocupava de algo aparentemente banal, ao invés de se ocupar exclusivamente da própria Saperologia em si. E isto se explica em razão da Veritologia ser a mãe de todas as religiões, assim como a Saperologia é a mãe de todas as ciências, uma vez que todas as parcelas do Saber são filhas genuínas da Veritologia e da Saperologia. E assim, sendo o seu intelecto extremamente desenvolvido, ele busca explicações saperológicas para tudo quanto se dispõe a pesquisar, pelo que assim afirma:

Em todos os objetos naturais se esconde alguma maravilha, e se alguém desdenha os animais inferiores, desdenhará a si próprio”.

Estava o saperólogo correto nessa sua afirmativa ou não? É lógico que estava. E para o leitor que possui o pensamento um tanto mais agudo, um tanto mais penetrante, pode perfeitamente compreender que a expressão “desdenhar-se a si próprio”, implica em dizer que no decorrer do processo da evolução nós já fomos animais irracionais, como é prova muitos seres humanos agirem ainda por instinto, como atavismo psíquico dessas encarnações pretéritas, apesar de já se encontrarem na racionalidade. Assim, é no decorrer do processo da evolução no âmbito da racionalidade, que nós devemos sopitar os instintos, assim como também os atributos individuais inferiores e os relacionais negativos que foram adquiridos quando ainda na irracionalidade ou mesmo na racionalidade, esforçando-nos por desenvolver cada vez mais os atributos individuais superiores, que formam a moral, e os atributos relacionais positivos, que formam a ética, para que assim possamos nos tornar verdadeiramente educados, pois somente os espíritos verdadeiramente educados podem se libertar dos grilhões que os tornam cativos do ambiente terreno em que se encontram, para que através da moral possam se elevar ao Espaço Superior, em busca da verdade, para que através da ética possam se transportar ao Tempo Futuro, em busca da sabedoria, e para que através da educação possam se universalizar, em busca da razão da existência, que é eterna e universal.

Na Biologia, Aristóteles classifica o reino animal em duas partes: sanguíneos e sem sangue; que hoje em dia corresponde aos vertebrados e invertebrados. Subdivide os animais sanguíneos em peixes, anfíbios, pássaros e mamíferos; e os animais sem sangue em testáceos, crustáceos, moluscos e insetos. Ele abrange um vasto campo de variedades, tais como órgãos digestivos, excretores, sensitivos, locomotores, reprodutores e defensivos; os tipos e hábitos dos peixes, pássaros, répteis, macacos e inúmeros outros grupos; as épocas de acasalamento e os métodos de reprodução e da criação dos filhotes; os fenômenos da puberdade, menstruação, concepção, gravidez, aborto, hereditariedade e geminação; os hábitos e as migrações dos animais, os seus parasitas e moléstias, as suas maneiras de dormir e hibernar; e uma minuciosa descrição da vida das abelhas. Mostra-se especialmente interessado nas estruturas e hábitos da reprodução dos animais, e se entusiasma perante a multiplicidade de métodos pelos quais a sábia natureza consegue a perpetuação das espécies, preservando o tipo, já que por força da evolução não se deve preservar o indivíduo, permanecendo neste campo a sua obra inigualada até ao século XIX.

Aliás, ele antecipa muitas teorias “a posteriori” relativas ao século XIX, afirmando que os órgãos e as características do embrião são formados por ínfimas partículas, as gêmulas da pangênese de Charles Darwin, que todas as partes dos adultos transmitem aos elementos reprodutores. Tal como Von Baer, que foi um biólogo, geólogo, meteorologista, médico e membro da Academia Russa de Ciências, fundador da embriologia, e que embora tivesse sido evolucionista, foi crítico das teorias evolucionistas de Charles Darwin, o saperólogo afirma que no embrião os caracteres pertencentes ao gênero aparecem em primeiro lugar, os da espécie em segundo, e os do indivíduo em terceiro. E expõe um princípio de que a fertilidade dos organismos varia na razão inversa da complexidade do seu desenvolvimento, do qual Herbert Spencer se vangloriava. Na qualidade de saperólogo, além do ser o precursor das ciências, portanto, de um experimentador inato, a sua descrição da embriologia do pinto é bastante interessante, consoante as suas próprias palavras:

Quem quiser faça esta experiência. Tome vinte ou mais ovos e os ponha a chocar em duas ou mais galinhas. Em seguida, do segundo dia em diante, retire e quebre diariamente um dos ovos deitados e lhe examine o embrião… O embrião se torna visível depois de três dias. O coração surge como uma mancha de sangue, a pulsar e a se mover como se fosse dotada de vida. Dele partem duas veias com sangue, e uma membrana com uma fina rede de veias envolve a gema… Quando o ovo completa o décimo dia de incubação, o pinto e todos os seus órgãos se acham distintamente visíveis”.

Por analogia, ele acredita que o embrião humano se desenvolve do mesmo modo que o do pinto, quando assim se expressa:

Do mesmo modo, a criança se gera no útero da mãe… pois a natureza dos pássaros pode ser comparada com a do homem”.

Sem ainda entrar propriamente no âmbito da evolução, a sua hipótese dos órgãos análogos o leva a ver o mundo animal como sendo único, quando diz assim:

A unha corresponde à garra, a mão corresponde ao ferrão do caranguejo, a pena corresponde à escama do peixe”.

No entanto, por vezes, ele se aproxima da evolução natural de todas as coisas, antecipando quase com perfeição as modificações ocorridas nas coisas, em suas evoluções, quando assim se expressa:

De tal modo a natureza passa das coisas inanimadas para a vida animal, que é impossível determinar a linha exata de demarcação… Assim, na escala progressiva, depois das coisas inanimadas temos as plantas, relativamente inanimadas em comparação com os animais, mas vivas em comparação com as coisas corpóreas. Há nas plantas uma contínua escala de progressão para o animal. Encontram-se no mar coisas que não sabemos determinar ao certo se são animais ou vegetais… A esponja, por exemplo, tem todo o aspecto de um vegetal… Certos animais têm raízes e morrem quando os arrancamos… Em relação à sensibilidade, certos animais não dão o menor sinal de possuí-la, enquanto outros a indicam de modo obscuro… E assim, através da escala animal, encontramos gradativa diferenciação”.

De um modo notável, Aristóteles considera acertadamente o macaco como sendo o intermediário entre o ser humano e os outros animais vivíparos. Rejeita com absoluta razão a conclusão de Empédocles sobre a seleção natural das mutações acidentais, afirmando não existir o acaso no processo evolutivo dos seres, com as linhas de desenvolvimento sendo determinadas pela inerente necessidade de cada forma, espécie e gênero, no sentido de se desenvolver, para atingir a completa realização da sua natureza.

Tanta sabedoria e tanto bom senso demonstrados em suas pesquisas e experimentações zoológicas, intercaladas com erros tão numerosos e primários, levaram os estudiosos a considerar que as suas notas sofreram mistura com as notas dos seus discípulos, já que a história dos animais revela uma grande quantidade de erros, tais como: que os ratos morrem quando bebem água no verão; que os elefantes sofrem apenas de duas moléstias, que são o catarro e a flatulência; que todos os animais, exceto o homem, contraem a raiva quando mordidos por um cão hidrófobo; que as enguias se geram espontaneamente; que só o coração dos homens palpita, em total contradição com a sua experiência com o pinto; que os ovos boiam em salmoura forte.

Aristóteles conhece com mais propriedade os órgãos internos dos animais do que os dos seres humanos, pois nem ele, e ao que se sabe, nem Hipócrates, violaram os tabus dos credos que proibiam a dissecação do corpo humano. Daí a razão dele considerar que o coração fica logo acima dos pulmões, e que ele, não o cérebro, é a sede da sensação, tal como hoje em dia muitos ignorantes o julgam como sendo a sede do amor, como demonstra a figura católica de Maria com o coração exposto ao peito, e que a função do cérebro é resfriar o sangue.

Apesar de tudo, a história dos animais se evidencia como sendo talvez a maior obra de Aristóteles, no entanto é com certeza a maior obra científica da Grécia do século IV a.C., e durante vinte séculos a Biologia esperou por outra do mesmo valor.

Mas Aristóteles, na qualidade de um autêntico saperólogo, por isso, um experimentador inato, não podia ficar restrito apenas aos aspectos científicos da natureza, então ele vai se dirigindo para as bandas da sabedoria, à medida que vai se voltando para o estudo do ser humano. Seguindo nessa direção, ele passa a definir a alma como sendo a enteléquia primária de um organismo, no pensamento de Aristóteles, a enteléquia é a forma inerente do organismo, a sua necessidade e direção de desenvolvimento, ou mesmo qualquer realidade que atingiu o seu ápice de perfeição. Isto se explica em função da existência do corpo fluídico, à medida que vai adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, quando passa a exigir novas formas de vida para que o ser possa prosseguir em sua jornada evolutiva, até alcançar a condição humana, quando então adquire as faculdades do raciocínio e do livre arbítrio, passando então a evoluir também por intermédio da propriedade da Luz, iniciando a formação do seu corpo de luz.

Mas como ele não era um veritólogo, mas sim um saperólogo, dispôs-se mesmo assim a discorrer mais profundamente sobre a alma, já que também tinha o seu criptoscópio bastante desenvolvido, mas não o bastante quanto o seu intelecto, o que o levou a suposições um tanto quanto fora dos conhecimentos metafísicos postos pela verdade, que somente foi estabelecida em definitivo no ano 1910, com a fundação do Racionalismo Cristão no seio da nossa humanidade.

Assim, ele diz que a alma tem três gradações, quais sejam: a nutritiva, a sensitiva e a racional. Com os seres humanos e os outros animais, as plantas compartilham da alma nutritiva, a capacidade de autonutrição e do desenvolvimento interno. Os seres humanos e os outros animais possuem, além da alma nutritiva, a alma sensitiva, a capacidade de sensação. E somente os seres humanos, que são os animais superiores, possuem a alma racional. Esta última faz parte da emanação, ou força criadora e racional do Universo, que é Deus, e sendo de tal natureza, não pode morrer, sendo a existência, portanto, eterna e universal.

Assim como a alma, através do corpo fluídico, determina a forma do corpo, Deus também determina a forma do mundo, a sua natureza, as suas funções e os seus objetivos inerentes. Então todas as causas acabam retornando para a Causa Primeira, que é Incausada, assim como todos os movimentos ao Primeiro Impulsionador Não Impulsionado, pois temos que supor alguma origem ou princípio para o movimento e a força do mundo, e essa fonte é Deus. E sendo Deus a soma e a mira de todos os objetivos da natureza, Ele é tanto a Causa Final como a Causa Inicial. Então Aristóteles faz uma analogia com as coisas que existem na natureza para os seus fins específicos, dizendo que os dentes da frente são cortantes para cortar os alimentos, os molares são achatados para moê-los, as pálpebras piscam para proteger os olhos, a pupila se dilata no escuro para deixar penetrar mais luz, a árvore lança as raízes para o fundo da terra e brota na direção do Sol. E assim como a árvore pela sua natureza, força e objetivos inerentes é impelida para a luz solar, assim também o mundo é levado pela sua natureza, força e objetivos inerentes para Deus.

Mas Aristóteles não considera Deus o Criador do mundo material, mas sim a sua forma de energia. Ele não o impulsiona por trás, mas de dentro, como um objetivo ou rumo interno, assim como o objeto amado move o amante. Por fim, ele diz que Deus é pensamento puro, alma racional, a se contemplar a si mesmo nas formas eternas que constituem ao mesmo tempo a essência do mundo e de Deus.

Em sua Ética, o saperólogo propõe não como tornar o homem bom, mas como torná-lo feliz, pois à exceção da felicidade, todas as outras coisas são procuradas com algum outro intuito em vista, mas somente a felicidade é buscada por si mesma. Certos fatores são necessários à felicidade duradoura, tais como o bom nascimento, a boa saúde, o bom aspecto, a boa sorte, a boa reputação, os bons amigos, o bom dinheiro e a bondade. Quanto a se dizer que aqueles que sofrem torturas ou grandes desgraças serão felizes somente se forem bons, isso não passa de puro absurdo. Mas o saperólogo ignorava que o sofrimento é uma das formas de evoluir o ser humano, que as torturas e as desgraças são decorrências de encarnações pretéritas, por isso eles não serão felizes se forem bons, mas os seus sofrimentos irão contribuir para que eles o sejam no futuro, caso se tornem virtuosos. Para ele, o segredo da felicidade é a ação, o exercício da energia de acordo com a natureza do homem e as circunstâncias. Como se pode constatar, para os saperólogos a ação, para os veritólogos o poder.

A virtude é uma sabedoria prática, uma inteligente apreciação do nosso próprio bem, por isso ela não é um ato, mas um hábito de se fazer aquilo que deve ser feito. Em princípio tem que ser imposta pela disciplina, desde que os jovens não sabem julgar com sabedoria tais assuntos, com o tempo o que fôra o resultado de uma obrigação se transforma em hábito, em uma segunda natureza, mais agradável que o desejo.

Com relação à riqueza e ao saber, cita Aristóteles com uma rara ironia a resposta de Simônides à esposa de Hierão, que perguntara o que é melhor, a riqueza ou o saber, da seguinte maneira:

A Riqueza, pois vemos os sábios sempre batendo às portas dos ricos”.

Mas ele esclarece a essa citação, quando diz que a riqueza é apenas um meio, que por si só não consegue satisfazer senão ao avarento, e sendo relativa, raramente consegue contentar por muito tempo a um homem.

Para o saperólogo a vida ideal é a vida do pensamento, pois o pensamento é a marca ou a especial qualidade do homem, sendo que a obra própria do homem é a obra da alma de acordo com a razão. O mais feliz de todos os homens é o que combina uma dose de prosperidade com sabedoria, pesquisa ou contemplação, em que esse homem é o que mais se aproxima da vida dos deuses. Aqui, ele esquece que um dos requisitos primordiais da elevação de um espírito superior é a coragem, e quem a possui não deve temer a nada, muito menos aos sofrimentos ocasionados pela pobreza. Mas ele diz acertadamente que os que buscam um prazer independente, devem procurá-lo na Saperologia, ou na Veritologia, que ele ignorava a existência, pois todos os outros prazeres requerem a assistência de outras pessoas.

Diferentemente dos seres religiosos e dos seres cientistas, que geralmente se ocupam apenas com os conhecimentos e as experiências que dizem respeito a uma única parcela do saber, respectivamente, Aristóteles debanda agora para o aspecto político da sociedade, quando considera que assim como a ética é a ciência da felicidade individual, quando, na realidade, a ética é relacional, sendo a moral individual, a política é a ciência da felicidade coletiva. Para ele, a função do Estado é organizar uma sociedade que proporcione a máxima felicidade para o maior número de indivíduos, dizendo assim:

Um Estado é um corpo coletivo de cidadãos que se bastam a todos os propósitos da vida”.

E que a política, pois, é um produto natural, uma vez que “o homem é naturalmente um animal político”, já que levados pelos seus instintos os homens se associam entre si. E como o Estado vem antecedendo ao indivíduo e a família, o homem nasceu em uma sociedade já organizada, que o moldou à sua imagem. Neste caso, o homem seria um produto do meio, mas somente o homem vulgar, e não as grandes mentalidades, que neste mundo encarnam justamente para alavancar o meio.

Aristóteles dividiu as constituições gregas em monarquia, governada pela força, aristocracia, governada pelo nascimento, e plutocracia, governada pelo valor monetário; sendo que qualquer destas formas de governo pode ser boa, de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias, desde que o poder governante procure o bem da coletividade e não o seu próprio bem, pois, caso contrário, todas são más. Cada tipo, portanto, tem o seu correspondente degenerado, quando passa a ser um governo para os governantes, e não para os governados. Assim, a monarquia descamba para o despotismo, a aristocracia para a oligarquia, e a plutocracia para a democracia, no sentido de governo pelo homem comum.

Quando a monarquia tem um chefe único e capaz, ela constitui a forma ideal de governo, mas quando, ao contrário, é um autocrata egoísta, temos a tirania, que é a pior forma de governo. Um governo aristocrático pode ser benéfico durante algum tempo, mas a tendência das aristocracias é para a deterioração, já que os caracteres nobres raramente se encontram hoje entre os nascidos nobres, que na maioria não prestam para nada, uma vez que as famílias altamente dotadas com frequência degeneram em maníacos, como, por exemplo, os descendentes de Alcibíades e de Dionísio, quando os equilibrados em geral degeneram em tolos e estúpidos, como os descendentes de Cimom, Péricles e Sócrates. Quando a aristocracia decai, é quase sempre substituída por uma oligarquia plutocrática, que é o governo pela riqueza, mas que é preferível ao despotismo de um rei ou da plebe, que dá o poder aos homens cujas almas não põem obstáculos na estreiteza dos cálculos comerciais, ou na mesquinhez da agiotagem, e se entregam à inconsciente exploração dos pobres.

Aristóteles não é muito chegado ao regime democrático, pois considera que ele, com significado de governo pelos demos, ou cidadãos comuns, é exatamente tão perigoso quanto a oligarquia, pois se baseia na efêmera vitória dos pobres sobre os ricos na disputa pelo poder, conduzindo a um caos suicida. A democracia toma a sua melhor forma quando dominada por proprietários rurais, mas quando, ao contrário, cai nas mãos de operários e mercadores urbanos, torna-se intolerável. Ele considera ser verdadeira a concepção de que a multidão julga muitas coisas melhor do que uma só pessoa, e que pelo seu número é menos sujeita a corrupção, como se dá com a água em quantidade. Mas ele também considera que a arte de governar exige capacidade e saber, sendo impossível aos que levam a vida de operário ou de servo assalariado, adquirir superioridade, através de um bom caráter, educação e discernimento nas coisas. Há que se ressaltar aqui que os seus pensamentos se referem ao ambiente cultural grego da época.

Mesmo ignorando que alguns seres humanos evoluem mais que os outros, Aristóteles considera acertadamente que os homens nascem desiguais, daí a sua afirmativa de que a igualdade é justa, mas apenas entre os iguais, daí a razão dele considerar que as classes superiores recorrerão às revoluções, caso lhes imponham uma igualdade antinatural, com a mesma presteza com que as classes inferiores se rebelam quando a desigualdade atinge a extremos antinaturais. Quando a democracia é dominada pelas classes inferiores, os ricos são taxados em proveito dos pobres, que recebem o produto da taxação e exigem mais, pois o dinheiro extraído dos ricos cai como água na peneira. Contudo, um conservador prudente não permitirá que o povo passe fome. Em uma democracia, o verdadeiro patriota deve zelar para que a maioria não sofra excessiva pobreza, deve também se esforçar para que o povo usufrua constante fartura; e como isto é igualmente vantajoso para o rico, o que sobrar do dinheiro público deverá ser dividido entre os pobres, em tal quantidade, que permita a cada um deles comprar um pequeno pedaço de terra.

Aristóteles nos fornece algumas recomendações um tanto quanto modestas, não para uma utopia, mas para uma sociedade moderadamente melhor, da seguinte maneira:

Em seguida indagaremos sobre qual a forma de governo e sistema de vida representa o ideal para as comunidades, adaptando-a, não a essa virtude superior que está acima do alcance da plebe, ou a essa educação que apenas todas as vantagens da natureza e da fortuna podem proporcionar, nem a esses planos imaginários que podem ser construídos a bel prazer, mas a esse padrão de vida que a maior parte da humanidade pode alcançar e a esse governo que a maioria das cidades pode estabelecer. Quem quer que pretenda estabelecer um governo sobre uma comunidade de bens, deverá consultar a experiência de muitos anos, a qual lhe dirá se tal projeto encerra alguma utilidade, pois quase todas as coisas já foram descobertas. Aquilo que é comum a muitos recebe dos homens menos cuidados, pois todos têm em maior consideração aquilo que é só seu, do que o que possuem em comum com os outros. É necessário começar com a admissão de um princípio de aplicação geral, como, por exemplo, o de que a parte do Estado que deseja a continuação da nova Constituição deve ser mais forte do que a que lhe é contrária. Torna-se claro, então, que os melhores Estados são aqueles em que classes médias são a parte maior e mais forte. Sempre que o número dos das classes médias é muito pequeno, os mais numerosos, sejam eles ricos ou pobres, acabam por dominá-las, tomando a si as rédeas da administração pública. Quando os ricos levam a melhor sobre os pobres, ou vice-versa, nenhum deles conseguirá estabelecer um Estado livre”.

Assim, com o fim de evitar essas ditaduras antiliberais vindas de cima ou de baixo, o saperólogo propõe uma Constituição mista, uma plutocracia, através de uma combinação entre a aristocracia e a democracia, na qual o sufrágio se restringirá aos proprietários de terras, com uma poderosa classe média sendo a reguladora do equilíbrio e o eixo-diretor do poder.

Como que antecedendo a elaboração de uma nova Constituição que o Racionalismo Cristão deverá estabelecer para o Brasil, constante do site pamam.com.br, devendo a sua base ser estendida a todas as demais nações, segundo os seus papéis no contexto da nossa humanidade e as suas próprias peculiaridades, Aristóteles afirma que o fim do Estado é espiritual, isto mesmo, espiritual, devendo promover principalmente a virtude e, consequentemente, a felicidade da nação mediante as parcelas do Saber. Compreende-se, então, como seja tarefa essencial do Estado a educação, que deve desenvolver harmônica e hierarquicamente a todas as faculdades humanas, antes de tudo as espirituais, desenvolvendo o intelecto, o criptoscópio e a consciência, sem que ele mencione os dois últimos, e, secundariamente, as riquezas materiais. Eis aqui as razões pelas quais Aristóteles, assim como Platão, condena o Estado que, ao invés de se preocupar com uma pacífica educação espiritual, não credulária, em que predomine a moral e a ética, para que assim se possa alcançar a verdadeira educação, visa a conquista e a guerra, e critica a educação militar de Esparta, que faz da guerra a tarefa precípua do Estado, pondo a conquista acima da virtude dos seus cidadãos.

A obra de Aristóteles intitulada de Lógica, que ocupa seis das suas primeiras obras, constitui o exemplo mais sistemático da Saperologia, em dois mil anos de história. A sua premissa principal envolve uma teoria de caráter semântico, ou seja, o estudo das mudanças que, no espaço e no tempo, experimenta a significação das palavras, consideradas como sinais das ideias, sendo essa teoria desenvolvida por ele para servir de estrutura para a compreensão da veracidade de proposições. Foi por meio da sua Lógica que se estabeleceu a primazia das lógicas indutiva e dedutiva. O saperólogo sistematizou a lógica, definindo as formas de interferências que eram válidas e as que não eram, quer dizer, aquilo que realmente decorre de algo e aquilo que só aparentemente decorre, dando nomes a todas essas diferentes formas de interferências. Como primeiro passo no desenvolvimento da lógica, a teoria do silogismo foi extremamente importante, por esta razão durante praticamente dois mil anos, estudar lógica, significou estudar a lógica de Aristóteles.

Como a homossexualidade não contribuía principalmente para a formação de famílias, Aristóteles a tinha em conta de desperdício, não sendo apenas inútil, mas até perigosa. Mas isso não significa que ele não fosse tolerante para tal prática, pois levava em consideração o fato onde havia um problema de superpopulação, como em Creta, onde a relação entre o mesmo sexo era bastante difundida. Então ele propôs que esse tipo de relação, apesar de desvirtuada, fosse regulamentada pelo Estado. Em um dos seus fragmentos sobre o “amor” físico entre seres humanos do mesmo sexo, embora se referindo ao tema com certa indulgência, ele faz corretamente a distinção entre a homossexualidade congênita, que hoje em dia se sabe ser proveniente de hormônios, e o vício adquirido na infância e na juventude, ambos passíveis de cura, esta pela vontade em largar o vício, aquela através dos recursos da medicina.

Já se passaram mais de vinte e três séculos da sua desencarnação, mas, mesmo assim, Aristóteles continua sendo um dos seres humanos mais influentes que já encarnaram neste mundo Terra, pois ele contribuiu para quase todos os campos de estudos da nossa humanidade, sendo o fundador de muitas áreas novas. O estudioso Bryan Magee afirma o seguinte: “É duvidoso que qualquer ser humano saiba o tanto quanto ele sabia”. Através das suas inúmeras contribuições para a nossa humanidade, ele deixa para os veritólogos, saperólogos, religiosos, cientistas e os demais estudiosos, um débito para com o seu elevado espírito.

Mas apesar de tudo isso, muitos estudiosos não atentam para fato de alguém desbravar regiões inóspitas, ainda não exploradas, e ser pioneiro na tremenda luta que se trava para evoluir neste mundo, em busca do esclarecimento espiritual, portanto, do Saber, por excelência, então passam a criticar dura e injustamente aos seus erros, que são naturais para quem segue à frente dos outros, dizendo terem sido eles de grande empecilho para o desenvolvimento das ciências. Quanta injustiça! Um desses estudiosos é Bertrand Russell, que se revela quando diz assim:

Quase todo o avanço intelectual sério teve de começar com um ataque a alguma doutrina aristotélica”.

Esse estudioso também se refere à ética de Aristóteles como sendo “repulsiva”, e sobre a sua lógica disse ser “definitivamente antiquada como a astronomia ptolomaica”. Agora, partindo do princípio da real existência das reencarnações, é de se indagar: onde se encontrava tal estudioso três séculos antes de Cristo, que não conseguiu criticar Aristóteles e imprimir novos rumos às ciências?

Por fim, em 323 a.C., desencarna Alexandre, o Grande, e em Atenas começa uma forte reação antimacedônica. Em virtude de sua forte ligação com Alexandre, Aristóteles foge de Atenas e se dirige para Cálcides, onde a sua mãe tinha uma casa. Ele justifica a sua fuga com inteira razão, explicando convincentemente o seguinte:

Eu não vou permitir que os atenienses pequem duas vezes contra a Filosofia”.

Logicamente que as suas palavras eram uma referência ao julgamento e a condenação de Sócrates à morte. Esse grande benfeitor da nossa humanidade desencarnou em Cálcis, na ilha Eubeia, de causas naturais nesse mesmo ano, mas não sem antes nomear como chefe executivo o seu aluno Antíparo e deixar um testamento em que pediu para ser enterrado ao lado de Pítias, a sua querida esposa.

Aristóteles nos deixou inúmeros ensinamentos que são úteis à nossa humanidade, mas, infelizmente, os seres humanos não são dados à leitura das obras que nos foram legadas pelas grandes mentalidades que encarnaram neste mundo Terra, que é o mundo-escola da nossa humanidade, pois que preferem ler romances, geralmente de péssima qualidade, sem que tenham ensinamentos morais e éticos, sendo, portanto, desprovidos da verdadeira educação, e outras obras de tal qualidade duvidosa. É de grande valor o seu ensinamento no campo da retórica e da hermenêutica, quando ele assim se expressa:

Aquele que tenha feito uma afirmação qualquer, em certo sentido, fez também várias outras afirmações, uma vez que cada afirmação tem um número de consequências necessárias, como, por exemplo, quem disse que X é um homem, também disse que ele é um animal, que é um ser animado e um bípede, e que é capaz de adquirir a razão e o conhecimento, de forma que, pela demolição de uma só destas consequências, seja ela qual for, a afirmação original é igualmente demolida”.

Torna-se muito difícil esclarecer aos seres humanos acerca dos segredos da vida e dos enigmas do Universo, uma vez que eles possuem fincados em suas mentes determinados conhecimentos e experiências que somente a muito custo conseguem modificá-los, pondo-se de frente com a realidade da vida, pois que não são afeitos às mudanças de vida, já que se satisfazem com os seus próprios cotidianos. Tudo isso os levam às recusas dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade e das experiências físicas acerca da sabedoria, quando nessas recusas eles tendem a porfiar, geralmente de má fé. Em relação a esse desequilíbrio mental, digamos assim, Aristóteles faz a seguinte afirmativa:

Se, portanto, um homem se recusa a conceder o universal quando apoiado em muitos exemplos, embora ele não tenha nenhum exemplo negativo para mostrar, evidentemente esse homem mostra possuir mau gênio ou mau caráter. Se, além disso, ele não tenta sequer demonstrar a falsidade do argumento, mais possibilidade terá de ser considerado um homem de má fé… Se, pois, um homem se recusa a admitir uma proposição sem ter sequer um exemplo negativo ou algum contra-argumento para apresentar contra ela, é evidente que se trata de um homem de má fé, pois a má fé na argumentação consiste em responder de maneiras diferentes das indicadas acima, com o propósito de introduzir a desordem no raciocínio”.

Os seres humanos estudiosos, que já são esclarecidos acerca da espiritualidade, sem que nesse esclarecimento tenham pendido equivocadamente para o âmbito do sobrenatural, ou mesmo que sejam esclarecidos acerca de outros determinados assuntos, são unânimes em afirmar que não devemos argumentar com os seres humanos vulgares, pois que a argumentação sempre leva à degeneração, geralmente incidindo em calorosa discussão. Assim como esses estudiosos, Aristóteles era perfeitamente ciente do fato, quando assim se expressa:

Não se deve argumentar com todo mundo, nem praticar a argumentação com o homem da rua, pois há gente com quem toda discussão tem por força que degenerar. Com efeito, contra um homem que não recua diante de meio algum para aparentar que não foi derrotado, é justo tentar todos os meios de levar a bom fim a conclusão que nós propomos; mas isto é contrário às boas normas. Por isso, a melhor regra é não se pôr levianamente a argumentar com o primeiro que se encontra, pois daí resultará seguramente uma má argumentação. Todos vemos, com efeito, que ao praticar umas com as outras, as pessoas não podem se refrear de cair em argumentos contenciosos”.

Então o saperólogo aconselha que se ouça as seguintes palavras de Hesíodo:

Ótimo é aquele que de si mesmo conhece todas as coisas; bom o que escuta os conselhos dos homens judiciosos. Mas o que por si não pensa, nem acolhe a sabedoria alheia, esse é, em verdade, uma criatura inútil”.

Não foi à toa que Aristóteles tanto compilou como instruiu aos seus discípulos a compilarem os conhecimentos que haviam sido transmitidos principalmente pelos veritólogos do Período Doutrinário, pois que ele possuía a noção em discernir o poder decorrente dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que representam as causas de tudo quanto existe, da ação decorrente das experiências físicas acerca da sabedoria, que representam os efeitos de tudo quanto existe, apesar de ignorar os órgãos mentais com as suas funções e finalidades, e como ele foi o precursor das ciências, é se referindo a elas que diz assim:

O fim da ciência especulativa (leia-se conhecimentos, digo eu) é, com efeito, a verdade, e o da ciência prática (leia-se experiências, digo eu), a ação; porque se os práticos consideram o como, não consideram o eterno, mas o relativo e o presente. E nós não podemos conhecer o verdadeiro sem conhecer as causas”.

Não se pode pôr em dúvida a espiritualidade de Aristóteles, a sua convicção acerca da existência da alma, sem a menção de qualquer coisa que a ligue ao sobrenaturalismo, para que assim esse esclarecimento de natureza espiritual venha a orientar aos homens, notadamente aos políticos, que detêm em si o poder de conduzir a sociedade. É se referindo diretamente à alma, que o notável saperólogo vem nos ensinar o seguinte:

É óbvio que o político deve saber de algum modo o que diz respeito à alma, exatamente como deve conhecer os olhos ou a totalidade do corpo aquele que se propõe a curá-lo; e com maior razão ainda por ser a política mais estimada e melhor do que a Medicina.

O político, pois, deve estudar a alma”.

Embora nós tenhamos os três órgãos mentais que nos capacitam a perscrutar o Universo, cada um deles com a sua função e finalidade específicas, eles são comandados pelos atributos individuais superiores que formam a moral e pelos atributos relacionais positivos que formam a ética, desprezando-se aqui as inferioridades e as negatividades. É por isso que para se elevar ao Espaço Superior o ser humano deve ter como requisito básico a moral, que para se transportar ao Tempo Futuro o ser humano deve ter como requisito básico a ética, e que para se universalizar o ser humano deve coordenar a moral e a ética, tornando-se assim verdadeiramente educado. Tendo uma boa noção a respeito de tudo isso, Aristóteles vem discorrer acerca dos nossos atributos e das nossas ações, quando assim nos ensina:

Não deliberamos acerca de fins, mas a respeito de meios. Um médico, por exemplo, não delibera se há de curar ou não, nem um orador se há de persuadir, nem um estadista se há de implantar a ordem pública, nem qualquer outro delibera a respeito da sua finalidade. Dão a finalidade por estabelecida e consideram a maneira e os meios de alcançá-la; e, se parece poder ser alcançada por vários meios, procuram o mais fácil e o mais eficaz.

A virtude também está em nosso poder, do mesmo modo que o vício, pois quando depende de nós o agir, também depende o não agir, e vice-versa; de modo que quando temos o poder de agir quando é vil, e se está em nosso poder o não agir quando isso é nobre, também está o agir quando isso é vil. Logo, depende de nós praticar atos nobres ou vis, e se é isso que se entende por ser bom ou mau, então depende de nós sermos virtuosos ou viciosos.

O Fim de toda atividade é a conformidade com a correspondente disposição de caráter. Ora, a coragem é nobre, portanto, o seu fim também é nobre, pois cada coisa é definida pelo seu fim. De onde se conclui que é com uma finalidade nobre que o homem bravo age e suporta conforme lhe aponta a coragem.

A covardia, a temeridade e a bravura se relacionam com os mesmos objetos, mas revelam disposições diferentes para com eles, pois, as duas primeiras, vão ao excesso ou ficam aquém da medida, ao passo que a terceira se mantém na posição mediana, que é a posição correta. Os temerários são precipitados e desejam os perigos com antecipação, mas recuam quando os têm pela frente, enquanto os bravos são ardentes no momento de agir, mas fora disso são tranquilos.

O homem corajoso escolhe e suporta coisas porque é nobre fazê-lo, ou porque é vil deixar de fazê-lo”.

Nós vimos que Platão considera a riqueza como sendo um mal, e realmente a riqueza é um grande mal, desde que o ser humano se preocupe apenas em acumulá-la, usufruindo-a, às vezes nem isso, em função da extrema mesquinhez e avareza que detém em sua alma, e assim não saiba utilizar com parcimônia os recursos que a Providência Divina colocou em suas mãos pelo curto período de apenas uma encarnação, fazendo valer todo o seu egoísmo e a falta de solidariedade para com o próximo, ignorando completamente os atributos da liberalidade e da magnanimidade, Vejamos, pois, o que Aristóteles pensa a esse respeito:

O intemperante almeja todas as coisas agradáveis ou as que mais o são, e é levado pelo seu apetite a escolhê-las a qualquer custo, por isso sofre não apenas quando não as consegue, mas também quando, simplesmente, anseia por elas, pois o apetite é doloroso. No entanto, parece absurdo sofrer por causa do prazer.

As pessoas que ficam aquém da medida em relação aos prazeres e se deleitam com eles menos do que deveriam são raras e quase inexistentes, pois uma tal sensibilidade não é humana.

O temperante ocupa uma posição mediana em relação a esses objetos. Com efeito, nem aprecia as coisas que são preferidas pelo intemperante, as quais chegam até a lhe desagradar, nem, em geral, as coisas que não deve, nem nada disso em excesso. Por outro lado, não sofre nem anseia por elas quando estão ausentes, ou só o faz em grau moderado e não mais do que deve, e nunca quando não deve, e assim por diante. Mas as coisas que, sendo agradáveis, contribuem para a saúde ou a boa condição do corpo, ele as deseja moderadamente e como deve, assim como também as outras coisas agradáveis que não constituam empecilho a esses fins, nem sejam contrárias ao que é nobre, nem estejam acima dos seus meios. Pois aquele que não atende a essas condições ama tais prazeres mais do que eles merecem, mas o homem temperante não é uma pessoa dessa espécie, e sim da espécie prescrita pela regra justa.

Falemos agora da liberalidade, que parece ser o meio termo em relação à riqueza. O homem liberal, com efeito, é louvado não pelos seus feitos militares, nem pelas coisas que se costuma louvar no temperante, nem por pedir com justiça em um tribunal, mas no tocante ao dar e receber riquezas, e, especialmente, ao dar.

Ora, por riquezas entendemos todas as coisas cujo valor se medo pelo dinheiro. A prodigalidade e a avareza, por sua vez, são um excesso e uma deficiência no tocante à riqueza.

As coisas úteis podem ser bem ou mal utilizadas, e a riqueza é útil, e cada coisa é utilizada da melhor maneira pelo homem que possui a virtude relacionada a ela. Quem melhor utilizará a riqueza, por conseguinte, será o homem que possui a virtude relacionada com ela, e esse homem é o liberal.

Ora, as ações virtuosas são praticadas tendo em vista o que é nobre. Por isso, o homem liberal, como as outras pessoas virtuosas, dá tendo em vista o que é nobre, e como deve; pois dá, às pessoas que convêm, as quantias que convêm e na ocasião que convém, com todas as demais condições que acompanham a reta ação de dar. E isso com prazer e sem dor, pois o ato virtuoso é agradável e isento de dor. O que menos pode ser é doloroso.

Tampouco o homem liberal receberá de fontes que não deve, pois isso não é próprio de quem não dá valor à riqueza. Nem será ele muito afeito a pedir, porquanto o homem que confere benefícios não os aceita facilmente. Mas tomará das fontes que convêm, das suas próprias posses, por exemplo, não como um ato nobre, mas como uma necessidade, a fim de ter algo que dar.

Por outro lado, não descurará ele os seus bens, com os quais deseja auxiliar a outrem. E se absterá de dar a todos e a qualquer um, a fim de ter o que dar às pessoas que convêm, nas ocasiões que convêm e em que é nobre fazê-lo.

É também muito característico de um homem liberal se exceder nas suas dádivas, de maneira a ficar com muito pouco para si: pois está na sua natureza o não olhar para si mesmo.

O termo liberalidade se usa relativamente às posses de um homem, pois essa virtude não consiste na multidão das dádivas, e sim na disposição de caráter de quem dá, e esta é relativa às suas posses. Nada impede, pois, que o homem que dá menos seja menos liberal, se tem menos para dar.

O homem liberal não dará às pessoas nem na ocasião que não convém, porque neste caso já não estaria agindo de acordo com a liberalidade, e se gastasse com esses objetos já não teria o que gastar com os que convêm. Porque, como dissemos, é liberal aquele que gasta de acordo com as suas posses, e com os objetos que convêm; e quem excede a medida é pródigo.

Sendo a liberalidade um meio termo no tocante ao dar e ao tomar riquezas, o homem liberal dará e gastará as quantias que convêm com os objetos que convêm, tanto nas coisas pequenas como nas grandes, e isso com prazer, e, também, tomará as quantias que convêm das fontes que convêm. Porque, sendo a virtude o meio termo em relação a ambos, ele fará ambas as coisas como deve, porquanto essa espécie de receber acompanha a reta ação de dar, e o que não é dessa espécie se opõe a ela, daí o dar e o receber que acompanham um ao outro estarem simultaneamente presentes no mesmo homem, o que evidentemente não acontece com as espécies contrárias.

É fácil tratar com o homem liberal em assuntos de dinheiro, não dá trabalho persuadi-lo, pois não tem grande estima pelo dinheiro, e fica mais aborrecido se deixou de gastar alguma coisa que devia do que se gastou algo que não devia.

A prodigalidade excede no dar e no receber, mostrando-se deficiente no receber, enquanto a avareza se mostra deficiente no dar e excede no receber, salvo em pequenas coisas.

Talvez convenha discutir agora a magnanimidade, que também parece ser uma virtude relacionada com a riqueza. Não se entende, porém, como a liberalidade, a todas as ações que têm que ver com a riqueza, mas apenas às que envolvem gasto; e nestas, ultrapassa a liberalidade em escala. Porque, como o próprio nome sugere, é um gasto apropriado que envolve grandes quantias. A magnanimidade, portanto, deve ser adequada tanto ao agente como ao objeto e às circunstâncias. O homem que em coisas pequenas e medianas gasta de acordo com os méritos do caso não é chamado de magnânimo, mas unicamente aquele que o faz em grandes coisas. Porquanto o magnânimo é liberal, mas o liberal nem sempre é magnânimo.

A deficiência desta disposição de caráter é chamada de mesquinhez e o excesso de vulgaridade, mau gosto, etc.

O homem magnânimo se assemelha a um artista, pois percebe o que é apropriado e sabe gastar grandes quantias com bom gosto. No princípio dissemos que uma disposição de caráter é determinada pelas suas atividades e pelos seus objetos. Ora, os gastos do homem magnânimo são vultosos e apropriados. Por conseguinte, tais serão também os seus resultados, e assim, haverá um grande dispêndio em perfeita consonância com o seu resultado. De onde se segue que o resultado deve corresponder ao dispêndio e este deve ser digno do resultado, ou mesmo excedê-lo.

O homem magnânimo, além disso, gastará dinheiro tendo em mira a honra, pois essa finalidade é comum a todas as virtudes. Mais ainda: ele o fará com prazer e com largueza, visto que os cálculos precisos são próprios dos avarentos. E considerará os meios de tornar o resultado o mais belo possível e o mais apropriado ao seu objeto, ao invés de pensar nos custos e nos meios mais baratos de obtê-lo. É necessário, pois, que o homem magnânimo seja também liberal.

Em geral, os grandes gastos ficam bem aos que, para começar, possuem os recursos adequados, adquiridos por seus próprios esforços, ou provenientes dos seus antepassados, ou dos seus amigos; e, também, às pessoas de nascimento nobre ou de grande reputação, e assim por diante; pois todas essas coisas trazem consigo a grandeza e o prestígio.

O magnânimo, portanto, é um extremo com respeito à grandeza das suas pretensões, mas um meio termo no que tange à justeza das mesmas, porque se arroga o que corresponde aos seus méritos, enquanto os outros excedem ou ficam aquém da medida.

Se, pois, ele merece e pretende grandes coisas, e estas acima de todas as outras, há de ambicionar uma coisa em particular. O mérito é relativo aos bens exteriores, e o maior destes, acreditamos nós, é aquele que prestamos aos deuses e que as pessoas de posição mais ambicionam, e que é o prêmio conferido às mais nobres ações. Refiro-me à honra, que por certo é o maior de todos os bens exteriores.

A magnanimidade parece, pois, ser uma espécie de coroa das virtudes, porquanto as torna maiores e não é encontrada sem elas. Por isso, é difícil ser verdadeiramente magnânimo, pois sem possuir um caráter bom e nobre não se pode sê-lo.

Os homens que, sem serem virtuosos, possuem tais bens nem têm por que alimentar grandes pretensões, nem fazem jus ao nome de magnânimos, porquanto essas coisas implicam a virtude perfeita. Isso não impede, porém, que se tornem desdenhosos e insolentes, pois sem virtude não é fácil carregar com elegância os bens da fortuna. Incapazes que são disso, e se julgando superiores aos demais, desprezam-nos e fazem o que bem lhes apraz. Imitam ao homem magnânimo sem serem semelhantes a ele, e o fazem naquilo que podem, pois que proceder como homens virtuosos está fora do seu alcance, mas desprezar aos outros, não.

É também característico do homem magnânimo não pedir nada ou quase nada, mas prestar auxílio de bom grado e adotar uma atitude digna em face das pessoas que desfrutam de alta posição e são favorecidas pela fortuna, enquanto se mostram despretensiosas para com os da classe mediana, pois é coisa difícil e grande marca de altivez se mostrar superior aos primeiros, embora seja fácil com os segundos, e uma conduta altiva no primeiro caso não é sinal de má educação, mas entre pessoas humildes é tão vulgar quanto uma exibição de força contra os fracos.

Deve ser incapaz de fazer com que a sua vida gire em torno de um outro, a não ser de um amigo, pois isso é próprio de um homem escravo, e daí o serem servis todos os aduladores, e aduladores são todos aqueles que não respeitam a si mesmos. Tampouco é dado à admiração, pois, para ele, nada é grande. Nem guarda rancor por ofensas que lhe façam, já que não é próprio de um homem magnânimo ter a memória longa, particularmente no que toca a ofensas, mas antes relevá-las. Tampouco é dado a conversas fúteis, pois não fala nem sobre si nem sobre os outros, porquanto não lhe interessam os elogios que lhe façam nem as censuras dirigidas aos outros. Por outro lado, não é amigo de elogiar nem maledicente, mesmo no que se refere aos seus inimigos, salvo por altivez. Quanto às coisas que correm necessariamente, ou que são de pouca monta, é de todos os homens o menos dado a se lamentar ou a solicitar favores, pois só os que levam tais coisas a sério se portam dessa maneira com respeito a elas. É ele o homem que prefere possuir coisas belas e improfícuas às úteis e proveitosas, por isso é mais próprio de um caráter que se basta a si mesmo.

Tal é, pois, o homem magnânimo. O que lhe fica aquém é indevidamente humilde e o que o ultrapassa é vaidoso. Ora, nem mesmo esses são considerados maus, pois não são maldosos, mas apenas equivocados. Com efeito, o homem indevidamente humilde, que é digno de boas coisas, rouba a si mesmo aquilo que merece, e parece ter algo de censurável porque não se julga digno de boas coisas e, também, parece não se conhecer, do contrário desejaria as coisas que merece, visto que elas são boas. E, contudo, tais pessoas não são consideradas tolas, mas antes, excessivamente modestas. Dir-se-ia, contudo, que semelhante reputação até as torna piores, porque cada classe de pessoa ambiciona o que corresponde aos seus méritos, enquanto esses se abstêm mesmo de nobres ações e empreendimentos, considerando-os indignos, e dos bens exteriores por igual forma.

O vaidoso, por outro lado, são tolos que ignoram a si mesmos, e isso de modo manifesto. Porquanto, sem serem dignos de tais coisas, aventuram-se a honrosos empreendimentos que não tardam a denunciá-los pelo que são. E se adornam com belas roupas, ares afetados e coisas que tais, e desejam que as suas boas fortunas se tornem públicas, tomando-as para assuntos de conversa, como se desejassem ser honrados por causa delas. Mas a humildade indébita se opõe mais à magnanimidade do que a vaidade, tanto por ser mais comum como por ser ainda pior do que esta”.

Se eu me demorei um tanto em transcrever a esses pensamentos aristotélicos a respeito da liberalidade e da magnanimidade, é porque este assunto tem como escopo a sabedoria, a qual deve ser devidamente aplicada neste site de A Filosofia da Administração, notadamente na Administração de Empresas, de um modo geral, pois, geralmente, são os empresários aqueles que detêm as maiores fortunas neste mundo, apesar de ignorarem completamente que o nosso maior tesouro diz respeito diretamente ao acervo que adquirimos no decorrer da nossa evolução espiritual, em que deve se sobressair os nossos órgãos mentais, que são o criptoscópio, o intelecto e a consciência, os quais são comandados pelos nossos atributos individuais superiores, que formam a nossa moral, e pelos atributos relacionais positivos, que formam a nossa ética, tornando-nos verdadeiramente educados, para que assim, e somente assim, nós possamos produzir a amizade espiritual em direção aos nossos semelhantes, fazendo emergir a solidariedade fraternal no seio da nossa humanidade, quando então se podem destacar a nobreza e a honra daqueles espíritos que são realmente educados, ou seja, que são realmente evoluídos, quando então poderá haver uma revolução social neste minúsculo planeta em que encarnamos para evoluir espiritualmente, e não materialmente, pois todos sabem que após a desencarnação nós não levamos nada deste mundo, a não ser as nossas boas ações, que são o espelho da nossa alma, as quais refletem com precisão o estágio evolutivo em que nos encontramos, daí a razão pela qual tanto os veritólogos como os saperólogos desprendem tantos esforços para pregar no seio da nossa humanidade a beleza da virtude.

Ao evoluírem por intermédio da propriedade da Luz, os espíritos devem produzir em primeiro plano a amizade, que faz emergir a solidariedade fraternal, com a prática do bem estando acima de tudo, até que todo mal que existe em nossas almas venha a ser totalmente sopitado, e, em segundo plano, o amor, que se situa acima do bem e do mal, sendo ambos de natureza estritamente espiritual. Essas produções espirituais ocorrem de auréola para auréola, por intermédio dos raios de luz, sabendo-se que a auréola é o campo que circunda o nosso corpo de luz, pois que contém parcelas da propriedade da Luz, assim como a aura é o campo que circunda o nosso corpo fluídico, que contém parcelas das propriedades da Força e da Energia, em que ambos os corpos formam a nossa alma, pois que evoluímos através dessas propriedades, uma vez que o espírito identifica o ser, e todos os seres são partículas do Ser Total.

O espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa, alcançou nessa sua humanidade a condição do Antecristo, sendo aquele que antecede ao Cristo, e lá estabeleceu a produção da amizade espiritual entre os seus companheiros de humanidade, no mundo-escola em que eles encarnam para evoluir, fazendo emergir a solidariedade fraternal nesse mundo-escola, e depois se integrou à nossa humanidade, com a finalidade precípua de formular um plano para a nossa espiritualização, tendo encarnado várias vezes neste nosso mundo-escola para a consecução desse seu fabuloso plano de espiritualização, quando finalmente encarnou como Jesus, o Cristo, para nos mostrar a existência do amor espiritual.

Com a encarnação de Luiz de Mattos, considerado como sendo o espírito da verdade, o detentor da mais elevada moral que se possa conceber neste mundo, por isso o nosso veritólogo maior, foi fundado o instituto do Racionalismo Cristão, em que através desse instituto foram transmitidos os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, tanto por ele como pelos seus seguidores, com estes sendo também detentores da mais elevada moral. Após a desencarnação de Luiz de Mattos, Jesus, o Cristo, retornou para a sua própria humanidade, tendo cumprido o seu papel para com a nossa, não sem antes nomear a Luiz de Mattos como sendo o chefe da nossa humanidade.

O Racionalismo Cristão é o embrião do instituto do Cristo em nossa humanidade, cujo Instituidor é Deus, pois que será através desse embrião que deverá ser formado o nosso próprio Cristo, e Jesus, o Cristo, afirmou que “Somente poderão chegar ao Pai através de mim”, não através dele, Jesus, mas sim através do instituto do Cristo. Mas, antes, o nosso futuro Cristo deverá alcançar a condição evolutiva do Antecristo, em que nesta condição evolutiva deverá explanar o Racionalismo Cristão e firmar a amizade espiritual no seio da nossa humanidade, fazendo emergir a solidariedade fraternal, através do estabelecimento dos seus mais elevados ideais.

Ressalte-se que a primeira encarnação neste nosso mundo-escola do espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa foi como Hermes, no Egito, quando então propiciou o início de uma Grande Era, a Era da Sabedoria, ou a Era da Saperologia, que ora estamos explanando, tendo encarnado posteriormente como Krishna, na Índia, como Confúcio, na China, como Platão, na Grécia, e, finalmente, como Jesus, o Cristo, quanto então decretou o final da Era da Sabedoria e estabeleceu o início de uma nova Grande Era, a Era da Verdade, ou a Era da Veritologia, que culminou com a verdade sendo implantada através do Racionalismo Cristão, cuja Grande Era nós iremos explanar, após a explanação da Cristologia.

Com a vinda do Antecristo, ele deverá decretar o final da Era da Verdade, pois que deverá unir, irmanar, congregar, a verdade e a sabedoria, quando enfim a nossa humanidade alcançará a razão, abandonando a fase da imaginação em que ainda se encontra, raciocinando através das representações de imagens, medrando na mais extrema ignorância, em que campeia todo o mal que existe neste nosso mundo-escola, de acordo com Jesus, o Cristo, que afirmou que “A ignorância é o grande mal da humanidade”. Então o Antecristo deverá estabelecer o início de uma nova Grande Era, a Era da Razão, ou a Era da Ratiologia. Como a Era da Sabedoria e a Era da Verdade compreenderam a um período de 2.000 anos cada uma, a Era da Razão deverá compreender um período de cerca de 4.000 anos, pois que ela coordena a verdade e a sabedoria.

Assim como o Antecristo da humanidade que seguimos na esteira evolutiva do Universo se deslocou dessa sua humanidade para a nossa, o Antecristo da nossa humanidade deverá se deslocar para a humanidade que nos segue na esteira evolutiva do Universo, com a finalidade precípua de formular um plano para a sua espiritualização, devendo encarnar várias vezes no seu mundo-escola, para a consecução e o pleno êxito do seu plano espiritualizador, quando lá alcançará a condição evolutiva do Cristo, devendo retornar para a nossa humanidade quando nessa humanidade for estabelecido o seu Racionalismo Cristão. Aí sim, com o retorno do nosso Antecristo, já na condição do nosso Cristo, todos poderão se considerar realmente cristão, mas, antes, todos deverão ser antecristãos, pois que não se pode colocar o carro diante dos bois, como se diz popularmente por esse mundo afora de meu Deus.

Posto tudo isso, pode-se claramente compreender que o cristianismo posto atualmente neste nosso mundo-escola é todo credulário, todo sobrenatural, pois que proveniente do catolicismo e das suas seitas, sendo, portanto, um falso cristianismo, por conseguinte, os seres humanos que seguem a esse falso cristianismo são todos falsos cristãos, mais propriamente anticristãos, pois que sequer praticam a amizade espiritual, em decorrência, a solidariedade fraternal, com o interesse próprio e o egoísmo reinando em todos os recantos do mundo.

Essa amizade praticada atualmente neste nosso mundo-escola é praticamente toda ela o que podemos denominar de moral utilitária, pois que à menor contrariedade, ao menor desgosto, ao menor descuido em sua reciprocidade, ela se desfaz, desabando sobre os “amigos” como nuvens pesadas que não suportam o peso das cargas que carregam sobre si.

E foi Aristóteles o primeiro saperólogo que se dispôs a nos ensinar acerca dessa amizade utilitária praticada na sua época, e que perdura até aos dias de hoje, mostrando em pequena monta a sua diferença para a verdadeira amizade, quando assim nos ensina:

… uma discussão da amizade, visto que ela é uma virtude ou implica em virtude, sendo, além disso, sumamente necessária à vida, porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens. E acredita-se, mesmo, que os ricos e aqueles que exercem autoridade e poder são os que mais precisam de amigos; pois de que serve tanta prosperidade sem um ensejo de fazer o bem, se este se faz principalmente e sob a forma mais louvável aos amigos? Ou como se pode manter e salvaguardar a prosperidade sem amigos? Quanto maior for a prosperidade, mais perigos se corre.

Por outro lado, na pobreza e nos demais infortúnios, os homens pensam que os amigos são o seu único refúgio. A amizade também ajuda aos jovens a se afastar do erro, e aos mais velhos, atendendo-lhes às necessidades e suprindo as atividades que declinam por efeito dos anos. Aos que estão no vigor da idade ela estimula à prática de nobres ações, pois na companhia de amigos — ‘dois que andam juntos’ — os homens são mais capazes tanto de agir como de pensar.

E, também, os pais parecem senti-la naturalmente pelos filhos e os filhos pelos pais, não só entre os homens, mas entre as aves e a maioria dos animais. Membros da mesma raça a sentem uns pelos outros, e especialmente entre os homens; por isso louvamos os amigos do seu semelhante. Até em nossas viagens podemos ver quanto cada homem é chegado a caro a todos os outros. A amizade também parece manter unidos os Estados, e dir-se-ia que os legisladores têm mais amor à amizade do que à justiça, pois aquilo a que visam acima de tudo é à unanimidade, que tem pontos de semelhança com a amizade; e repelem o facciosismo como se fosse o seu maior inimigo. E quando os homens são amigos não necessitam de justiça, ao passo que os justos necessitam também de amizade; e se considera que a mais genuína forma de justiça é uma espécie de amizade.

A amizade perfeita é a dos homens que são bons e afins na virtude (grifo meu), pois esses desejam igualmente bem um ao outro enquanto bons, e são bons em si mesmos. Ora, os que desejam bem aos seus amigos por eles mesmos são os mais verdadeiramente amigos, porque o fazem em razão da sua própria natureza e não acidentalmente. Por isso, a sua amizade dura enquanto são bons — e a bondade é uma coisa muito durável. E cada um é bom em si mesmo e para o seu amigo, pois os bons são bons em absoluto e úteis um ao outro. E da mesma forma são agradáveis, porquanto os bons o são tanto em si mesmos como um para o outro, visto que a cada um agradam as suas próprias atividades e outras que lhes sejam semelhantes, e as ações dos bons são as mesmas ou semelhantes.

Uma tal amizade é, como seria de se esperar, permanente, já que eles encontram um no outro todas as qualidades que os amigos devem possuir. Com efeito, toda a amizade tem em vista o bem ou o prazer — bem ou prazer, quer em abstrato, quer que tais possam ser desfrutados por aquele que sente verdadeiramente a amizade —, e se baseia em uma certa semelhança. E à amizade entre homens bons pertencem todas as qualidades que mencionamos, devido à natureza dos próprios amigos, pois em uma amizade desta espécie as outras qualidades também são semelhantes em ambos; e o que é irrestritamente bom também é agradável no sentido absoluto do termo, e essas são as qualidades mais estimáveis que existem. O amor e a amizade são, portanto, encontrados principalmente e em sua melhor forma entre homens desta espécie.

Mas é natural que tais amizades não sejam muito frequentes, pois que tais homens são extremamente raros.

A amizade entre os bons, e somente ela, também é invulnerável à calúnia, pois não damos ouvidos facilmente às palavras de qualquer um a respeito de um homem que durante muito tempo submetemos à prova; e é entre os bons que são encontradas a confiança, o sentimento expresso pelas palavras “ele nunca me faria uma deslealdade”, e todas as outras coisas que se requerem em uma verdadeira amizade.

… os maus serão amigos com vistas na utilidade e no prazer, e a esse respeito se assemelharão um ao outro; mas os bons serão amigos por eles mesmos, isto é, em razão da sua bondade. Estes, pois, são amigos no sentido absoluto do termo, e os outros, o são acidentalmente e por uma semelhança com os primeiros.

Já dissemos que o homem bom é ao mesmo tempo útil e agradável, mas um tal homem não se torna amigo de quem lhe é superior em posição, a menos que lhe seja superior também em virtude; e, mesmo assim, não poderia se estabelecer uma igualdade, por ser ele ultrapassado em ambos os respeitos. Entretanto, pessoas que o ultrapassam em ambos os respeitos não são assim tão fáceis de seres encontrados.

A maioria das pessoas parece, devido à ambição, preferir ser amada a amar. E é por isso que os homens, em geral, amam a lisonja. Com efeito, o lisonjeiro é um amigo em posição inferior, ou finge ser tal ao mesmo tempo que simula amar mais do que é amado; e ser amado parece ter bastante semelhança com ser honrado, e isso é o que a maioria das pessoas ambiciona.

As queixas e censuras surgem unicamente ou principalmente nas amizades que se baseiam na utilidade, e isso está conforme ao que seria de se esperar. Com efeito, os que são amigos com base na virtude anseiam por fazer o bem um ao outro, pois que isso é uma marca de virtude e de amizade (grifo meu), e entre homens que emulam entre si nessas coisas não pode haver queixas nem disputas. Ninguém é ofendido por um homem que o ama e lhe faz bem — e, se é uma pessoa de nobres sentimentos, responde fazendo o bem ao outro. E o homem que supera o outro nos serviços prestados não se queixará do seu amigo, visto que obtém aquilo que tinha em vista, pois, com efeito, cada um deseja aquilo que é bom. E tampouco nas amizades baseadas no prazer surgem muitas queixas, porque ambos recebem simultaneamente aquilo que desejam, se se comprazem em passar o tempo juntos; e mesmo o homem que se queixasse do outro por não lhe proporcionar prazer seria ridículo, uma vez que depende de ele não passar os seus dias em companhia desse outro.

Mas a amizade que se baseia na utilidade é repleta de queixas; portanto, como cada um se utiliza do outro em seu próprio benefício, sempre querem lucrar na transação, e pensam que saíram prejudicados e censuram os seus amigos porque não recebem tudo o que ‘necessitam e merecem’; e os que fazem bem a outros não podem ajudá-los tanto quanto eles querem.

… o homem que é beneficiado com respeito à riqueza ou à virtude deve retribuir com honra, compensando ao outro na medida das suas capacidades. Porquanto a amizade pede a um homem que faça o que pode e não o que é proporcional aos méritos do caso, já que isso nem sempre é possível, como, por exemplo, nas honras prestadas aos deuses ou aos pais. Com efeito, ninguém jamais lhes poderia pagar o equivalente ao que recebe, mas o homem que os serve na medida de suas capacidades é considerado um homem bom.

… quando o homem dedica amizade a outro com vistas ao prazer, enquanto este dedica a amizade ao outro com vistas na utilidade, e nenhum dos dois possui as qualidades que deles se esperam. Se tais são os objetivos da amizade, esta se dissolve quando os dois não obtêm as coisas que constituam os motivos da sua amizade; porquanto nenhum deles dedicava amizade ao outro por si mesmos, mas apenas as suas qualidades, e estas não eram duradouras. Eis aí porque essas amizades também são passageiras.

Surgem os desentendimentos quando o que as pessoas obtêm é algo diferente daquilo que desejam, pois é, então, como se nada tivesse obtido. Veja-se a história do homem que fez trato com um citarista, prometendo lhe dar tanto mais quanto melhor cantasse; mas pela manhã, quando o outro reclamou o cumprimento da promessa, ele respondeu que havia retribuído prazer com prazer. Ora, se fosse prazer o que ambos queriam, tudo estaria bem; mas se um queria prazer enquanto o outro queria ganho, e um recebeu o que queria, mas o outro não, os termos da transação não foram devidamente cumpridos, pois o que cada um necessita é aquilo a que se aplica, e é em troca disso que dá o que tem.

… unanimidade é encontrada entre os homens bons, pois estes são unânimes tanto consigo mesmos como uns com os outros, e têm, por assim dizer, um só pensamento, já que os desejos de tais homens são constantes e não estão à mercê de correntes contrárias como um estreito de mar; e desejam o que é justo e vantajoso, e esses são os objetos dos seus esforços comuns. Mas os homens maus não podem ser unânimes a não ser dentro de limites muito reduzidos, como tampouco podem ser amigos, visto que ambicionam mais que o seu quinhão justo de vantagens, enquanto, no trabalho e no serviço público, ficam muito aquém da parte que lhes compete (grifo meu). E cada homem, desejando vantagens para si mesmo, critica o seu vizinho e lhe faz obstáculo, porque, se as pessoas não forem vigilantes, o patrimônio comum não tardará a ser completamente demolido. Daí resulta se encontrarem em estado de luta, procurando coagir uns aos outros sem que ninguém se disponha a fazer o que é justo.

… todos os homens aprovam e louvam os que se ocupam em grau excepcional com ações nobres; e se todos ambicionassem o que é nobre e dedicassem o melhor dos seus esforços à prática das mais nobres ações, todas as coisas concorreriam para o bem comum e cada um obteria para si os maiores bens, já que a virtude é o bem maior que existe.

… os homens de natureza varonil se abstêm de fazer os seus amigos sofrer com eles e, a não ser que tenha uma extraordinária insensibilidade à dor, em tal homem não pode suportar a dor que causa aos seus amigos, e, em geral, não admite companheiros de aflição, porque ele próprio não é dado a se afligir”.

E mesmo assim muitos ainda criticam a esse notável saperólogo, simplesmente porque ele compilou os conhecimentos metafísicos transmitidos pelos veritólogos do Período Doutrinário, que não continham a verdade, pois que a verdade foi se formando ao longo da Era da Veritologia, sendo realmente transmitida por intermédio do Racionalismo Cristão, e os tomou como fontes para as suas experiências físicas. Ele realmente era um grande sábio.

 

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