13.05.03.02- Platão

A Era da Sabedoria
4 de outubro de 2018 Pamam

Platão encarnou no ano 428 a.C., em Atenas, e desencarnou no ano 348 a.C., também em Atenas, com a idade de oitenta anos. Foi um saperólogo do Período Sistemático da Grécia Antiga, tendo sido o autor de diversos diálogos saperológicos e fundador da Academia, em Atenas, uma das primeiras instituições de educação superior do mundo ocidental. Foi discípulo de Sócrates e preceptor de Aristóteles, sendo o grande responsável por construir os alicerces da saperologia sistemática e das ciências.

Era Platão proveniente de uma família muito antiga, filho de Aristão e Perictíone. Do lado paterno ia até os primeiros reis de Atenas e do lado materno a sua linhagem chegava até Solon, famoso ateniense legislador e poeta lírico. Perictíone era irmã de Cármides e sobrinha de Crítias, sendo ambos cidadãos proeminentes na época da Tirania dos Trinta, a breve oligarquia que se seguiu sobre o colapso de Atenas nos anos 404 e 403 a.C., no final da Guerra do Peloponeso, de modo que a oposição à democracia demagógica se achava na alma do saperólogo. Além do próprio Platão, Aristão e Perictíone tiveram outros dois filhos, que foram Adimanto e Glauco, e ainda uma filha, que foi Potone, a mãe de Espeusipo, então o sobrinho e sucessor de Platão como chefe da sua Academia. De acordo com a República, Adimanto e Glauco eram mais velhos que Platão, mas em Memorabilia Xenofonte apresenta Glauco como sendo mais novo que Platão, o que pouca ou nenhuma relevância tem para o contexto da vida do notável saperólogo.

Aristão parece ter desencarnado na infância de Platão, embora a data exata da sua desencarnação seja ainda desconhecida. Perictíone então se casou com Perilampes, irmão da sua mãe, que tinha servido muitas vezes como embaixador para a corte persa e que era amigo de Péricles, líder da facção democrática em Atenas.

Platão muitas vezes introduziu os seus ilustres parentes em seus diálogos, ou a eles referenciou com alguma precisão, pois o seu tio Cármides tem um diálogo com o seu nome. Crítias fala tanto em Cármides quanto em Protágoras, e Adimanto e Glauco têm trechos importantes na República. Estas e outras referências sugerem uma quantidade considerável de orgulho da família, que devia ser muito bem estruturada, e que nos permite reconstruir a árvore genealógica do saperólogo.

Nascido com o nome de Arístocles, que significa melhor e famoso, nome dado pelo seu avô, o saperólogo se distinguiu em quase todas as áreas, brilhando no estudo da sabedoria, da retórica, da Matemática, da música e da poesia. Com a sua grande beleza física encantava ao sexo oposto. Lutou nos jogos ístmicos e foi apelidado de Platão, ou largo, devido a sua compleição atlética. Combateu em três batalhas e conquistou o prêmio de bravura. Escreveu epigramas, versos amorosos e uma tetralogia trágica. Hesitou entre a poesia e a política como carreira, mas a sua missão neste mundo era outra bem diferente, tanto que na idade de vinte anos sucumbiu ao fascínio de Sócrates, que já era amigo do seu tio Cármides, passando então a compreender os ensinamentos da Saperologia, já muito conhecidos da sua grande alma, ao assistir pessoalmente o espetáculo do velho sábio questionando e lançando ideias da sabedoria no ambiente cultural da Grécia. Platão então queimou os poemas que havia escrito, que na prática não servem para coisa alguma, a não ser para desenvolver um pouco o intelecto, esqueceu-se de Eurípedes, do atletismo, das mulheres, e passou a seguir o mestre, como que hipnotizado por ver tanta sabedoria.

Contava Platão com vinte e três anos de idade quando sobreveio a revolução de 404 a.C., após a guerra em Atenas, chefiada por seus parentes, que foram auxiliados pelo reinado espartano vitorioso. Seguiram-se os tensos dias do terror oligárquico e o bravo desafio de Sócrates à Tirania dos Trinta, que incluía os familiares de Platão, já que os parentes da sua mãe, Crítias e Cármides, participaram do governo. Ele foi convidado a participar da vida política, mas recusou porque considerou o então regime criminoso. Porém, as desencarnações de Crítias e Cármides, a restauração da democracia, o julgamento e a desencarnação de Sócrates, tudo isso parecia desabar em sua volta, que ele avaliou como sendo uma depravação moral e uma evidência de um sistema político defeituoso, o que o fez abandonar Atenas como se esta fosse uma cidade hostil à sua presença.

Ele foi então para Megara, juntamente com alguns outros socráticos, como hóspedes de Euclides, ao que parece para evitar possíveis perseguições que lhe poderiam sobrevir pelo fato de ter feito parte do círculo socrático. Diógenes Laércio conta que ele depois foi a Cirene, juntar-se com Teodoro, o matemático, e depois a Itália, com os pitagóricos Filolau e Eurito. E daí foi para o Egito, onde lá estudou Matemática e folclore com os seus sacerdotes.

Mais ou menos em 395 a.C. estava de volta a Atenas. Um ano mais tarde combatia pela cidade em Corinto. Lá pelo ano 387 a.C. partiu de novo, estudou a veritologia pitagórica com Arquitas, em Taras, com Timeu, em Locros, e depois empreendeu a sua primeira viagem para a Sicília, para visitar o Monte Etna. Travou amizade com Dion de Siracusa e com Dionísio I, o tirano de Siracusa. Platão esperava influenciar o tirano sobre o ideal do rei-saperólogo, cujo escrito se encontrava exposto em Górgias, obra anterior à sua viagem, mas logo entrou em conflito com o tirano e a sua corte, mas mesmo assim cultivou uma grande amizade com Dion, que era parente do tirano, a quem pensou que este pudesse ser um discípulo capaz de se tornar um rei-saperólogo. Dionísio I se irritou tanto com Platão, em face da sua extrema sinceridade, que chegou ao ponto de vendê-lo como escravo a um embaixador espartano de Egina, mas felizmente ele foi resgatado por Anicérides de Cirene, que estava em Egina, não por obra do acaso, mas devidamente intuído pelo Astral Superior.

Em 386 a.C. regressou a Atenas. Com as três mil dracmas levantadas para reembolso de Anicérides de Cirene, que o havia resgatado e que se recusou a recebê-las, os amigos de Platão, então, compraram um ginásio perto de Colona, ao nordeste de Atenas, nas vizinhanças de um bosque de oliveiras, denominado de Academo, em homenagem a um herói grego. Ele amplia a propriedade e constrói alojamentos para os estudantes, fundando então a universidade que estava destinada a ser o centro intelectual da Grécia durante novecentos anos. No entanto, não foi a primeira universidade do ocidente, como assim pensam os estudiosos, pois a escola pitagórica de Crotona, já em 520 a.C., havia proporcionado uma variedade de cursos para uma comunidade escolar, e, também, a escola de Isócrates precedeu em oito anos a Academia.

Os estudantes da Academia não eram estudantes no sentido moderno da palavra, pois aos jovens se juntavam também os anciãos. Ademais, o objetivo último da Academia era o saber pelo seu valor ético e político. Os estudantes não pagavam taxas, mas como em regra vinham de famílias ricas, os seus pais podiam fazer substanciosos donativos à instituição, e, segundo nos conta Suídas, em relação aos donativos:

Os ricaços, de quando em quando incluíam a Academia em seus testamentos, deste modo permitindo aos seus membros viver uma vida filosófica sem maiores preocupações pecuniárias”.

Consta que Dionísio II, o tirano de Siracusa, teria dado a Platão oitenta talentos, o que talvez explique a paciência do notável saperólogo para com ele. Os poetas cômicos da época satirizavam os estudantes da Academia, taxando-os de afetados nas maneiras e excessivamente pelintras no vestir, ou seja, pessoas pobres, mas com pretensões, pois que eles usavam elegantes barretos, bengala e manto curto, ou bata acadêmica, o que demonstra o quão velhas são as modas das becas escolares. As principais matérias eram a Matemática e a Saperologia. No portal figurava a seguinte inscrição: Que Ninguém Transponha Esta Porta, Sem Geometria; indicando que talvez a admissão dependesse de considerável conhecimento de Matemática. A maioria dos progressos matemáticos do século IV a.C. foram conseguidos pelos homens que passaram pela Academia. O curso incluía aritmética, teoria dos números, geometria adiantada, Astronomia, música, literatura, História, leis e, naturalmente, a Saperologia. Durante duas décadas Platão assumiu as suas funções na Academia e escreveu, nesse período, os seus diálogos. Os trinta e seis Diálogos não podem ser datados ou autorizadamente classificados. No entanto, os estudiosos arbitrariamente os dividem da seguinte maneira:

  1. Grupo primário: Apologia, Crítias, Lísis, Ion, Cármides, Crátilo, Eutifro e Eutidemo. Este grupo foi provavelmente composto antes dos trinta e quatro anos de idade;
  2. Grupo Médio: Górgias, Protágoras, Fédon, Simpósio, Fedro e República. Este grupo foi composto antes dos quarenta anos de idade;
  3. Último Grupo: Parmênides, Tetetos, Sofista, Estadista, Filebo, Timeu e Leis. Este grupo foi composto depois dos sessenta anos de idade, sendo os intervalos desses escritos dedicados à Academia.

Platão e os seus colaboradores ensinavam por meio da leitura, do diálogo e de problemas propostos aos estudantes. Um desses problemas consistia em encontrar os movimentos uniformes e ordenados cuja admissão explicam o movimento dos planetas. Eudóxio e Heráclides encontraram estímulos para tais tarefas. As leituras eram técnicas e às vezes decepcionavam aos que tinham em vista proveitos práticos. Mas discípulos como Aristóteles, Demóstenes, Licurgo, Hipérides e Xenócrates foram decisivamente influenciados por elas e, em muitos casos, publicaram as notas tomadas. Disse Antífanes, com muito espírito, que, do mesmo modo como em uma longínqua cidade do norte as palavras se congelavam no ar ao serem pronunciadas, vindo a ser ouvidas no verão ao se degelarem, assim as palavras dirigidas por Platão aos seus jovens discípulos só vinham a ser compreendidas quando envelheciam.

Em 366 ou 367 a.C., com a desencarnação de Dionísio I e encorajado por Dion, Platão transmite a direção da Academia a Eudóxio e retorna à Sicília. O filho do tirano, Dionísio II, sucedeu-lhe ao trono e Dion era o seu conselheiro. Dion teve certo trabalho em convencer Platão a voltar a Siracusa, mas com grande esforço, insistindo com argumentos, tal como a paixão do jovem tirano pela Saperologia e pela educação, e ainda, que a desencarnação do velho tirano poderia ser o destino divino necessário para que enfim se realizasse a felicidade de um povo livre sob boas leis. Convencido, Platão embarcou enfim, em 366 ou 367, para a sua segunda viagem à Sicília. No início, a salutar influência de Platão sobre Dionísio II teve algum progresso. Mas pouco durou, uma vez que o jovem era um tanto quanto rude e não possuía o vigor mental para suportar um prolongado treinamento educacional. Além disso, era pessoalmente desagradável, e ainda alimentava inveja da influência de Dion e da sua grande amizade com Platão, obrigando este a se exilar, provocando o seu regresso a Atenas.

Em seguida, Platão viaja novamente a Siracusa com os seus alunos Espeusipo e Xenócrates, em um navio enviado por Dionísio II, em uma tentativa final de pôr ordem entre as suas relações. Platão passou quase um ano tentando elaborar algumas medidas práticas para unir os gregos da Sicília em face do perigo cartaginês. No final, a má vontade da facção conservadora provou ser um obstáculo insuperável. Ele, então, resolveu partir para Atenas, não sem antes correr algum perigo de vida. Mas, ao mesmo tempo, Dion conseguiu recuperar a sua posição à força, contudo, apesar das advertências de Platão, mostrou-se um governante um tanto quanto imprudente e por isso acabou sendo assassinado. Mesmo assim, Platão incitou aos seguidores de Dion a prosseguirem com a antiga política, mas os seus conselhos não foram ouvidos. Como consequência, o destino da Sicília foi ser conquistada pelos estrangeiros, tal como Platão antes previra. O saperólogo escreveu sobre a desencarnação do seu amigo Dion, comparando-o a um navegante que antecipa corretamente uma tempestade, mas subestima a sua força de destruição.

A literatura platônica era em forma de diálogos, e não em forma de poemas didáticos ou tratados, como eram escritos a maioria dos assuntos saperológicos da época, com a exceção da Epístolas e da Apologia. Esta contém passagens ocasionais de diálogos, onde há um personagem principal, Sócrates, e diferentes interlocutores em debates saperológicos separados por inserções e discursos indiretos, digressões ou passagens mitológicas. Além disso, outros alunos de Sócrates como Xenofonte, Ésquines, Antístenes, Euclides e Fédon de Elis têm obras escritas na forma de diálogo socrático.

Platão foi o legítimo representante desse gênero literário, que era muito superior a todos os outros. E ao que parece o seu único representante, pois nele se pode conhecer a natureza autêntica do saperologar socrático, enquanto que nos outros escritores houve uma degeneração em maneirismos, ou seja, uma monotonia e uma afetação no processo de escrever, prejudicando deste modo o estilo. Assim, o diálogo em Platão é muito mais que um gênero literário, é a sua forma própria de fazer Saperologia.

Mas não era a primeira vez neste mundo que alguém escrevia em forma de diálogos. Zenão de Eleia e vários outros já haviam anteriormente adotado o método, e Simão de Atenas, um correeiro, ou seja, que fazia obras de couro, como arreios, malas, etc., publicara em diálogo a reprodução das palestras de Sócrates em sua oficina. No entanto, Platão lhes deu forma literária e não histórica, pois não foi o seu intento registrar com exatidão as conversações travadas trinta ou cinquenta anos antes, nem lhes atender a sequência. Górgias, tanto quanto Sócrates, muito se admirou ao ver as palavras que o jovem saperólogo lhe pusera na boca. Os diálogos foram escritos independentemente uns dos outros, e talvez a longos intervalos, então não devemos nos chocar ante qualquer deslize de memória e muito menos com alterações de pensamentos. Como a verdade não havia sido alcançada pelos veritólogos do Período Doutrinário que o antecederam, não existe um sistema unificador do todo e nem uma finalidade, a não ser o seu próprio método por uma busca contínua da sabedoria.

Na maioria dos Diálogos platônicos se revela uma ausência de interlocutores mais vigorosos capazes de dirigir a Sócrates outras respostas além do “sim” ou equivalentes. Mas isto se explica pelo fato de os mesmos estarem muito aquém da intelectualidade socrática. Além do mais, estas falhas se perdem no luminoso brilho da linguagem platônica, no humor das situações, das expressões e das ideias, na cultura grega de variados personagens concebidos e na constante reflexão de um nobre e elevado espírito. Podemos assim avaliar o conceito em que os antigos, inconscientemente, colocavam esses Diálogos, quando consideramos que constituem a única obra de um autor grego que nos chegou na íntegra. O seu teor lhe dá o direito a um lugar tão alto nos anais da literatura, quanto o que, pela essência, conquistou na história do pensamento da nossa humanidade.

O ápice dos Diálogos se evidencia na descrição de Sócrates com o mais belo idealismo na sua concepção de amor. O Fédon é um tanto mais atenuado e belo em seu conteúdo, demonstrado pela sinceridade do argumento central, fornecendo aos seus oponentes uma oportunidade leal, com o estilo fluindo calmamente em uma cena cuja nobre serenidade se sobrepõe à própria tragédia, imprimindo à desencarnação de Sócrates a suavidade de algo que, sendo mais leve que o ar, alça-se aos locais mais elevados. Mas é na República que vamos encontrar a mais completa exposição da saperologia platônica, em que se reflete na primeira parte a dramática luta entre as personalidades e as ideias.

Platão rejeita a conclusão sofista de que os sentidos são o melhor teste da verdade, que o homem em si é a medida de todas as coisas, pois caso assim fosse, argumenta ele, a descrição do mundo feita por qualquer ser vulgar seria tão boa quanto qualquer outra.

É certo que em seu corpo mental prevaleciam os pensamentos intelectuais relativos à sabedoria, mas de todos os saperólogos do Período Sistemático, os sentimentos criptoscópicos de Platão relativos à verdade eram os mais desenvolvidos, o que se comprova pela fato dele considerar que os conhecimentos metafísicos não se tornam possíveis através das ideias, e muito menos através das imagens e das formas generalizadas que moldam o caos da sensação, com estes últimos servindo apenas para emprestar às ideias a ordem do pensamento. Isto indica que ele era perfeitamente ciente de que, na realidade, os conhecimentos metafísicos acerca da verdade não se criam, já que sempre existiram no Espaço Superior, tendo que ser captados através da percepção oriunda do criptoscópio, por isso eles não podem ser provenientes das ideias ou de qualquer imagem ou forma, e muito menos dos pensamentos, embora após serem percebidos e captados se possa fazer uma ideia ao seu respeito.

É certo que o Universo é formado pelo espaço e pelo tempo. O espaço é o lado metafísico, que se caracteriza como sendo o repositório dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, os quais devem ser percebidos e captados pelo órgão mental denominado de criptoscópio. E o tempo é o lado físico, que se caracteriza como sendo o campo das experiências físicas acerca da sabedoria, as quais devem ser compreendidas e criadas pelo órgão mental denominado de intelecto. Assim, em se coordenando o espaço e o tempo formadores do Universo, também se coordena os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e as experiências físicas acerca da sabedoria, única via pela qual se alcança a razão, cuja coordenação deve ser realizada pelo órgão mental denominado de consciência. Temos assim que o criptoscópio se liga diretamente ao espaço, que o intelecto se liga diretamente ao tempo, e que a consciência é universal.

Então tudo aquilo que Platão aborda em relação lado metafísico do Universo, que são os conhecimentos acerca da verdade, quando assim deixa de discorrer sobre o seu lado físico, que são as experiências acerca da sabedoria, volta-se sempre para o âmbito das ideias. E como as suas ideias são transcendentais, quer dizer, transcende ao ambiente terreno, argumenta corretamente que Deus, a Primeira Causa Não Causada, ou a Alma do Universo, move e organiza todas as coisas de acordo com as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais, demonstrando assim uma ideia quase perfeita acerca da constituição do Logos.

Daí a explicação de que para Platão a mais alta de todas as ideias é o bem, que às vezes ele identifica como sendo o próprio Deus, em virtude do bem ser o instrumento orientador de toda a criação, de onde emergem todas as coisas que existem e para o qual convergem, ou seja, tudo vem de Deus e para Ele retorna. Assim, perceber a esse bem, visualizar o molde ideal do processo criador, é a mais alta mira do conhecimento, consequentemente o movimento e a criação não são puramente mecânicos, pois exigem no mundo, como em qualquer outro lugar, quer dizer, em quaisquer outros mundos que rolam pelo Universo, em nós mesmos, uma alma, o princípio da vida, como força inicial. Era sim Platão, verdadeiramente um espiritualista.

Nota-se aqui perfeitamente a sua diferenciação em relação a Sócrates, pois este se restringe unicamente a mais pura sabedoria, afirmando a sua própria ignorância em relação a verdade, já Platão vai mais além, pois traça o caminho a ser seguido na busca da verdade, aproximando-se cada vez mais da razão. Daí se poder concluir a grande superioridade do seu estágio evolutivo em relação ao de Sócrates, pois que este trabalhava, sobretudo, com o seu intelecto, olvidando um tanto do seu criptoscópio, o que é perfeitamente normal, enquanto que Platão trabalhava, sobremaneira, com o seu intelecto, mas também fazia valer o seu criptoscópio, procurando assim coordenar a verdade e a sabedoria, na busca por alcançar a razão.

E tanto isto procede, que para Platão a matéria não é fundamentalmente real. Ora, se a matéria não é fundamentalmente real, isto implica em dizer então que ela é irreal, o que é óbvio, não passando de uma mera ilusão, no que o grande saperólogo se encontra absolutamente correto, uma vez que a matéria é constituída de átomos, que são considerados por outras grandes mentalidades como sendo seres, como é o caso do alemão Haeckel, que foi um biólogo, naturalista, médico e professor, um dos grandes expoentes do cientificismo positivista, tido por muitos como sendo materialista, no entanto esse “materialista” afirmou que os átomos não são simplesmente pequenas massas de matérias mortas, mas sim partículas elementares vivas, dotadas de força, no que vem Farias Brito, uma dos maiores saperólogos do mundo, interpretar a essa afirmativa do naturalista, quando em sua obra Finalidade do Mundo – 3° Volume, as páginas 153 e 154, afirma o seguinte:

Nós aí apoiamos a nossa convicção de que já os átomos possuem, sob a sua forma mais simples, uma alma universal”.

E como foi Haeckel quem ajudou a popularizar o trabalho de Charles Darwin, pode-se concluir então, convictamente, que ele era partidário da teoria evolucionista, com esta estando voltada para o âmbito da espiritualidade, o que implica em dizer que o estágio inicial da evolução de todos os seres começa na atomicidade, sendo por isso que Platão completa magistralmente a sua ideia ao dizer que ela, a matéria, ou os seres atômicos, são apenas princípios de inércia, uma possibilidade a aguardar o momento em que Deus lhes dê outras formas e existências mais específicas, de acordo com alguma ideia, ideia esta que diz respeito diretamente à evolução.

É por isso que para Platão a alma é a força automotriz do ser humano e a força automotriz de todas as coisas que existem, a partir do átomo, sendo, pois, pura vitalidade, incorpórea e imortal. E aqui o saperólogo faz funcionar também o seu fabuloso criptoscópio, quando afirma que a alma humana já existia antes do corpo material e trouxe com ela, das encarnações anteriores, muitas recordações que, ao despertarem para a nova vida, são tomadas erroneamente como novos conhecimentos. E aqui temos a confirmação plena da real existência do preceito da reencarnação.

Então todos os conhecimentos e todas as experiências são percebidos e captados e compreendidos criados, respectivamente, pelo espírito, com os ensinos transmitidos tendo apenas a função de despertar a lembrança das coisas, dos fatos e dos fenômenos que já eram conhecidos pelo espírito há muitas vidas atrás.

Para Platão, então, após a desencarnação, a alma, ou o princípio da vida, vai para outro estágio superior ou inferior, de acordo com os merecimentos a que fez jus em sua vida, sendo que a alma pecadora vai para um local de expiação e a alma virtuosa vai para um local de bem-aventurança, querendo com isso dizer que as almas atrasadas, indignas, vão para o astral inferior, permanecendo lá até serem arrebatadas para os seus Mundos de Luz, e que as almas mais adiantadas, dignas, vão diretamente para os seus Mundos de Luz, sem que precisem estagiar no astral inferior.

E ainda mais esclarecimentos nos fornece esse espírito notável, um verdadeiro baluarte integrado à nossa humanidade, já que ele veio da humanidade que seguimos na esteira evolutiva do Universo, tendo sido a encarnação anterior de Jesus, o Cristo, quando afirma que através de várias existências a alma se encontra finalmente purificada de todos os seus erros, quando então se liberta da reencarnação e se eleva a um paraíso de eterna felicidade.

Ao contrário daquilo que eu não posso e nem devo admitir em relação aos meus queridos leitores, Platão admitia que muitos dos seus leitores seriam céticos em relação às suas ideias. Em razão disso, lutou bravamente para encontrar uma moral e uma ética naturais que dispensassem os recursos irracionalmente sobrenaturais do céu paradisíaco, do purgatório e do inferno, todos inventados pela classe sacerdotal, a maior semeadora da ignorância neste mundo, por isso a que mais malefícios trouxe aos seres humanos. E esse papa sagaz e mentiroso, adepto do marketing sacerdotal, ainda pousa com ares de autoridade mundial.

Assim, grande parte dos seus Diálogos se volta mais e mais para a moral e a ética, em busca da educação, ressaltando o cumprimento do dever neste mundo para com os deuses, que são os espíritos de luz que integram a plêiade do Astral Superior, assim como para a política, quando assim se expressa:

A maior e a mais honesta espécie de sabedoria é a que se relaciona com a organização dos Estados e das famílias”.

Em complemento ao cumprimento do dever neste mundo, Platão considera a justiça como sendo a cooperação das partes para com o todo, cujos elementos evidenciam o caráter do povo em um Estado, com cada parte exercendo convenientemente a função que lhe compete. Em resumo: a justiça é alcançada com cada um cumprindo com as suas obrigações e deveres neste mundo, às vezes com a sua missão, com todos sendo solidários uns para com os outros, para que então se possa modificar e fortalecer o ambiente terreno.

Assim, o bem somente pode praticado de acordo com que a vida esteja em conformidade com a razão. O bem supremo está no mais elevado cumprimento das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais. Vinculando a moral com a verdade, já que a ética está vinculada com a sabedoria, ele diz que moralmente o bem mais alto é o poder ou a faculdade da alma de amar a verdade e de fazer todas as coisas por amor a ela, pois aquele que possui esse amor à verdade não procura pagar o mal com o mal, uma vez que preferirá sofrer uma injustiça a praticá-la, flutuando por terras e mares em procura de homens incorruptíveis, cujo convívio não tem preço. Assim, os que amam verdadeiramente a verdade e são devotos da sabedoria se abstêm de todos os desejos puramente carnais, e quando ingressam em ambas, purificados e libertados, sabem que não devem resistir à influência e aos ditames da razão, para onde devem se inclinar e seguir por onde quer que ela os conduzam. Em função disso, à medida que envelhecia, Platão não contemplava beleza alguma fora da verdade e da sabedoria, já que ingressava no âmbito da razão.

O famoso amor platônico se inicia magnificamente com a própria beleza que ele mesmo encerra em si, pois a beleza, assim como a virtude, está no adequado, na simetria e na ordem. A verdadeira beleza é mais intelectual, dizia ele, quando na realidade ela é também criptoscópica, e ainda se torna cada vez mais bela quando alumiada pela luz esplendorosa da consciência. Então, para ele, as figuras da geometria são eternas e absolutamente belas, mas as leis e os princípios pelos quais se formam os firmamentos são mais belos que as estrelas. O amor é a busca da beleza e se divide em três estágios, conforme seja o amor do corpo, da alma e da verdade. O amor do corpo entre o homem e a mulher é legítimo como o meio da geração, que é uma espécie de imortalidade humana, mas esta forma de amor, entretanto, é rudimentar e indigna de um saperólogo, que deve buscar o amor espiritual. O amor do corpo entre homem e homem, ou entre mulher e mulher, é antinatural pela própria natureza, devendo ser suprimido, por ser contra a natureza e frustrar a reprodução. O amor, porém, torna-se natural quando se sublima ao estágio espiritual. Neste caso, o homem mais velho, ama ao mais jovem, porque os encantos deste são o símbolo e a evocação da beleza pura e eterna, e o jovem ama ao mais velho porque a sabedoria deste lhe abre o caminho para a compreensão e para a honra. O mais elevado amor, porém, é o amor da eterna posse do bem, o amor que procura a absoluta beleza das ideias ou das formas perfeitas e eternas. Este, e não a simples afeição espiritual entre o homem e a mulher, é o amor platônico, que alcança ao ponto em que o saperólogo que existe em Platão se manifesta ao âmbito mais elevado da compreensão intelectual, visando alcançar as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais, bases da estrutura universal e da vida de todos os seres, enfim, o objetivo do mundo. Ele, então, expressa-se da seguinte maneira:

Pois te digo, Adimanto, que quando o nosso espírito se encontra na contemplação da essência das coisas, não nos é agradável baixar os olhos para a conduta dos homens, fazer-lhes guerra, odiá-los ou invejá-los nessa luta. Pelo contrário, à força de olhar e considerar os princípios fixos e imutáveis, os quais, longe de se prejudicarem uns aos outros, movem-se de acordo com as leis da ordem e da razão, acabamos por imitá-los, procurando moldar por eles a nossa vida até onde isso é possível”.

Como a Veritologia tem por escopo desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, através dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, servindo de fonte para que a Saperologia resolva os magnos problemas do mundo, através das experiências físicas acerca da sabedoria, Platão, na qualidade de saperólogo, não deixa de se interessar por resolver os problemas do mundo. Nesse afã, ele visualiza uma regeneração social e idealiza uma sociedade em que não exista a demagogia, a corrupção, a pobreza, a tirania, a guerra e outras imperfeições provenientes da ignorância humana. Tudo isso porque ele reprovava o facciosismo político de Atenas, que girava em torno de um círculo vicioso de lutas estéreis, inimizades advindas pela ânsia do poder, que despertavam o ódio e as mais diversas suspeitas. Então ele desdenha a oligarquia plutocrática, dizendo o seguinte:

Os homens de negócios… fingindo se interessar pelos que eles já arruinaram, enterrando o ferrão, o seu dinheiro, em todos os incautos e reavendo o principal muitas vezes aumentado, é desse modo que incrementam a vadiagem e a miséria do Estado. E então surge a democracia, depois que os pobres dominam os seus oponentes, chacinando uns, banindo outros e dando aos restantes uma igual parcela de liberdade e poder”.

Em Atenas, os democratas provaram valer tanto quanto os plutocratas, pois se serviam do poder do número para votar subvenções públicas e abocanhar os cargos mais importantes, bajulavam e empanturravam a multidão até que a liberdade se transformasse em anarquia, com os padrões de valores se vendo solapados pela vulgaridade presente em todos os setores e os costumes embrutecidos pelo abuso e pela insolência descontrolada. Assim, do mesmo modo que a dolorida perseguição da riqueza destrói a oligarquia, igualmente também os excessos de liberdade destroem a democracia. Vejamos um trecho do diálogo entre Sócrates e Adimanto, em relação ao fato:

SÓCRATES — Em semelhante estado a anarquia cresce e penetra nos lares, acabando por se insinuar entre os animais, contaminando-os… O pai se habitua a se rebaixar ao nível dos filhos… e o filho a se considerar no mesmo nível que o pai, tendo perdido a vergonha e o temor à autoridade paterna… O mestre teme e lisonjeia os discípulos e estes desdenham os seus mestres e tutores… Jovens e velhos se tornam iguais, os jovens se nivelam com os velhos e se mostram dispostos a concorrer com eles em palavras e feitos; e os homens maduros… imitam os moços, Não devo esquecer de me referir à liberdade e à igualdade entre os dois sexos em relação mútua… Na verdade, as coisas chegam a tal ponto que os cavalos e asnos conseguem trotar com todos os direitos e dignidade dos homens livres… a liberdade é tanta que ameaça explodir em todas as coisas…

ADIMANTO — E qual é a etapa seguinte?…

SÓCRATES — Todo excesso provoca uma reação no sentido oposto… O excesso de liberdade, seja em Estados ou em indivíduos, não é mais do que uma passagem para a escravidão… e a mais abusiva forma de tirania nasce da mais extrema forma de liberdade.

Era tamanho o pendor de Platão pela Saperologia, em função do seu elevadíssimo intelecto, embora tivesse também seguido pelas searas da Veritologia, diferentemente de Sócrates, pois que também tinha um criptoscópio bastante vigoroso, apesar do seu intelecto se sobressair sobre o seu criptoscópio, que assim considerava:

Enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis e príncipes deste mundo não possuírem o espírito e a força da Filosofia… as cidades e a raça humana não conseguirão se livrar do mal”.

Pode-se assim compreender, que enquanto os três tratados superiores não se fizerem valer plenamente neste mundo, com a Veritologia transmitindo os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, através de um corpo de doutrina, a Saperologia transmitindo as experiências físicas acerca da sabedoria, através de um corpo de sistema, e com a Ratiologia coordenando a Veritologia e a Saperologia, para que assim se possa alcançar a uma grande finalidade para a nossa humanidade e para os demais seres infra-humanos, os seres humanos não conseguirão se livrar dos males que os assolam, em função da extrema ignorância em que medram.

O amor platônico nos ensina que o espírito é peregrino neste mundo e prisioneiro da caverna do ambiente terreno, do qual deve se libertar, espiritualizando-se, para realizar o seu grandioso fim, ou seja, transcender a este mundo e chegar à contemplação do transcendental, que é inteligível à inteligência humana, para o qual é atraído por um amor nostálgico, que nada mais é do que a saudade do seu Mundo de Luz. Devendo, pois, o espírito se libertar do corpo carnal e do ambiente terreno que o aprisiona, como a se libertar de um cárcere, em que esta libertação, durante a vida terrena, começa e progride mediante a Saperologia, devendo-se aqui acrescentar também mediante a Veritologia, que é a separação espiritual da alma do corpo carnal para que se possa transcender a este mundo, cuja separação se realiza definitivamente com a desencarnação. Esse transcender ao ambiente terreno, Platão explica através do diálogo entre Sócrates e Glauco, ao que os estudiosos denominam de A Alegoria da Caverna, que deve aqui ser reproduzido, para o esclarecimento geral dos leitores, da seguinte maneira:

SÓCRATES — Figura-te agora o estado da natureza humana em relação à ciência e a ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda a extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só veem os objetos que lhes estão adiante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um clarão cuja luz os alumia; entre o clarão e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para lhes ocultar as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO — Imagino tudo isso.

SÓCRATES — Supõe ainda homens que passam ao longo desse muro, com figuras e objetos que se elevam acima deles, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam silêncio.

GLAUCO — Singular quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES — Pois são a nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmo e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do clarão, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO — Não, uma vez que são forçados a ter imóvel a cabeça durante toda a vida.

SÓCRATES — E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

GLAUCO — Não.

SÓCRATES — E, se no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passavam, não julgariam certo que os sons eram articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO — Claro que sim.

SÓCRATES — Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilavam.

GLAUCO — Necessariamente.

SÓCRATES — Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatados, obrigado a se levantar de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre lhe ser dolorosa, o deslumbraria, impedindo-o de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhes desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, persuadiria-se de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO — Sem dúvida alguma.

SÓCRATES — Obrigado a fitar o clarão, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO — Certamente.

SÓCRATES — Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o libertar quando estivesse lá fora, à plena luz do Sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe-ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por seres reais?

GLAUCO — Em princípio nada veria.

SÓCRATES — Precisaria de tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois as imagens de homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente, erguendo os olhos para a Lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO — Não há dúvida.

SÓCRATES — Mas, ao cabo de tudo, estaria, de certo, em estado de ver o próprio Sol, primeiramente refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO — Fora de dúvida.

SÓCRATES — Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações do ano, o que tudo governa no mundo visível e invisível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e os seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO — É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES — Recordando-se, então, da sua primeira morada, dos seus companheiros de escravidão e da ideia que lá tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO — Evidentemente.

SÓCRATES — Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO — Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES — Atenção ainda para este ponto. Supõe que o nosso homem volte ainda para a caverna e vá se assentar em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO — Certamente.

SÓCRATES — Se, enquanto tivesse a vista confusa — porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade —, tivesse ele que dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda preso em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e lhes dar a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO — Por certo que o fariam.

SÓCRATES — Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicares com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O clarão que o ilumina é a luz do Sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto a mim, a coisa é como passo a te dizer. Nos extremos limites do mundo inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, uma vez conhecida, se nos impõe a razão como sendo a causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do Sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

Fácil se torna agora compreender a Alegoria da Caverna de Platão.

A caverna é o ambiente fluídico formado neste mundo, a sua atmosfera, ou a sua aura, no qual todos os seres humanos se encontram cativos, cujas cadeias que os aprisionam são os seus próprios corpos carnais, através dos quais eles interagem diretamente com as coisas que aqui se encontram, ignorando completamente que todas essas coisas são também seres, ignorando, inclusive, que os seres hidrogênios são os formadores originais deste mundo, portanto, os seus anfitriões, por isso eles somente veem as sombras, posto que os sentidos não podem obter qualquer conhecimento acerca da realidade universal, principalmente os olhos da cara, o que implica em dizer que os seres humanos vivem fora da realidade.

Em sendo assim, no decorrer do processo da evolução, quando o ser humano se encontra apto a romper com o ambiente terreno, ele passa por um processo gnosiológico, em que os estudiosos consideram a Gnosiologia como sendo a teoria geral do conhecimento no âmbito saperológico, voltada para uma reflexão em torno da origem, natureza e limites do ato cognitivo, apontando as suas distorções e os condicionamentos subjetivos, em um ponto de vista tendente ao idealismo, ou a sua precisão e veracidade objetivas, em uma perspectiva realista.

Na realidade, o processo gnosiológico é uma situação que o Astral Superior faz passar o espírito que se encontra encarnado, para que ele possa romper a atmosfera terrena, transcendendo ao seu ambiente fluídico, pondo-o em contato com a realidade universal. Daí a razão pela qual Platão afirma o seguinte:

Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o libertar quando estivesse lá fora, à plena luz do Sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe-ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por seres reais?”.

Ressaltando-se aqui, que o Sol é uma estrela, e que, portanto, fornece uma das coordenadas universais, assim como as demais estrelas fornecem outras coordenadas universais, por que sendo elas partículas combinadas das propriedades da Força, que contém o espaço, e da Energia, que contém o tempo, torna-se óbvio que elas formam todo o Universo, como os seres o habitando, formando os mundos, que ficam sob as égides das estrelas.

Quando os grandes espíritos passam por um processo gnosiológico, o Astral Superior atua no sentido de que eles subam pelo caminho áspero e escarpado que representa a atmosfera terrena, somente o libertando quando eles conseguem enxergar nitidamente o caminho da espiritualidade, ao transcenderem a este mundo. Daí a razão pela qual eles ficam deslumbrados pelo esplendor ambiente, ficando um tanto confusos por discernir os objetos que o comum dos homens tem por seres reais, como assim afirma Platão. Sócrates considerava a Gnosiologia da seguinte maneira, ao assim afirmar:

Havia esses segredos impenetráveis aos homens e considerava ofensa aos deuses sondar os mistérios que não lhes aprouve no revelar. Aditava que, enfronhando-se em tais especulações, corria-se o risco de perder a razão, como a perdera Anaxágoras com as suas cerebrações para explicar os mecanismos divinos”.

É tão forte a ligação que existe entre a alma e o corpo carnal, que os seres humanos chegam a pensar que são somente corpos carnais. Assim, essa estreita união entre a alma e o corpo carnal faz com que eles passem a ignorar as suas próprias naturezas espirituais, sentindo-se propensos a desfrutar dos prazeres deste mundo, para os quais se sentem inclinados, pois que os mesmos elementos que formam os seus corpos carnais são os mesmos elementos que se encontram em interação neste mundo. É, pois, através do processo gnosiológico, que o espírito é forçado a transcender a este mundo, elevando-se ao Espaço Superior, em busca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, ou se transportando ao Tempo Futuro, em busca das experiências físicas acerca da sabedoria, ficando ligado ao corpo carnal apenas pelos cordões fluídicos. Vejamos um trecho do diálogo entre Sócrates e Glauco:

SÓCRATES — As razões, pois, que acabamos de expor, além de muitas outras, demonstram irrefutavelmente a imortalidade da alma. Mas, para bem conhecer a sua verdadeira natureza, não se deve considerá-la, como fazemos, no estado de degradação em que a põem sua união com o corpo e todos os outros males consequentes desta união; convém, sim, contemplá-la atentamente com os olhos do espírito, tal qual é em si mesma, despejada de tudo o que lhe é estranho. Então se verá que é infinitamente mais formosa, e se distinguirá com mais nitidez a natureza da justiça bem como das outras coisas de que havemos de falar… Para conhecê-la, amado Glauco, vê o que é mister nela constatar?

GLAUCO — Quê?

SÓCRATES — O seu amor à verdade. Cumpre considerar a que coisa se inclina, que companhias e tratos apetece, em quão estreita correspondência se acha com tudo que é divino, imortal e eterno; e que é o que vem a ser, quando, entregando-se inteira a esta sublime contemplação, eleva-se por um nobre esforço do fundo do pélago em que está submersa, e sacode de si os seixos e conchas que se lhe pegaram, pela necessidade de se alimentar do que é terreno, crosta espessa e grosseira de terra e areia, que vem desses festins celebrados como regalos por tanta gente. Então, sim, se verá claramente qual a sua verdadeira natureza, se é simples ou composta; em suma, qual a sua essência e a maneira de ser. Quanto à sua situação presente, entendo que havemos explicado bastante bem as paixões e impulsos a que está sujeita.

Mas como o Astral Superior atua no sentido de que os grandes espíritos venham a subir pelo caminho áspero e escarpado que representa a atmosfera terrena, somente o libertando quando eles conseguem enxergar nitidamente o caminho da espiritualidade, ao transcenderem a este mundo? Ora, através da intuição. Tratando acerca do intuicionismo, de Bergson, Umberto Padovani e Luís Castagnola, em sua obra conjunta intitulada de História da Filosofia, as páginas 458 a 460, afirmam o seguinte:

A filosofia de Bergson toma o nome de intuicionismo porque afirma consistir o verdadeiro conhecimento não nos conceitos abstratos do intelecto raciocinante, mas na apreensão imediata, na intuição, como é evidenciado pela experiência interior e pela análise de nós mesmos.

A intuição é um ato que exige violência (grifo meu), esforço laborioso pelo qual o filósofo, deixando de lado todos os meios intelectuais, tenta penetrar dentro da essência das coisas e chegar ao verdadeiro conhecimento, à verdadeira filosofia que não pode admitir opiniões contrastantes. O fato de existirem doutrinas científicas, filosóficas e religiosas opostas entre si, é devido ao método do conhecimento pelos conceitos, do qual se serviram até agora as ciências, a filosofia e a religião. A ciência e a filosofia cultivadas até agora são como pontes entre cujos pilares escapa a corrente viva da realidade; a intuição, ao invés, mergulha-se dentro das águas do rio da vida e da realidade, apanhando destarte a realidade fluente mediante a experiência imediata. Por conseguinte, nenhuma língua pode exprimir essa realidade apanhada pela intuição, pois a palavra é o termo, o sinal do conceito, que nada mais é que uma expressão simbólica, extrínseca, mecânica, das coisas. Por isso, ‘as teorias científicas, as doutrinas filosóficas, os dogmas religiosos são unicamente símbolos obscuros, sombras muito imperfeitas da verdade objetiva. Essas doutrinas, teorias e dogmas têm sido elaborados pela inteligência para a finalidade prática e possuem só verdade relativa’ (Klimke, Historia de la Filosofia). Somente a intuição é o tipo de conhecimento concreto e absoluto, isto é, metafísico (grifo meu)”.

Se a intuição em um processo gnosiológico é um ato que exige violência e se corre o risco de perder a razão, como a perdera Anaxágoras com as suas cerebrações para explicar os mecanismos divinos, deve aqui ser esclarecido que não se perde realmente a razão, pois que o espírito passa a agir em inteira conformidade com aquilo que lhe está sendo intuído pelo Astral Superior, portanto em inteira conformidade com a mais alta espiritualidade, em que nesse agir as suas ações são totalmente diferente das ações que são próprias deste mundo, tidas como sendo normais, dando a impressão que ele perdeu realmente a razão, mas isto é apenas impressão, nada mais que impressão, pois que essas ações são todas virtuosas, já que têm em vista alcançar a uma grande finalidade. O grande Aristóteles tentou explicar a esse processo gnosiológico, ressaltando a nobreza de caráter dos que praticam essas ações virtuosas aparentemente sem razão, fazendo alusões aos atos voluntários e involuntários, da seguinte maneira:

Visto que a virtude se relaciona com paixões e ações, e é à paixões e ações voluntárias que se dispensa louvor e censura, enquanto as involuntárias merecem perdão e às vezes piedade, é talvez necessário a quem estuda a natureza da virtude, distinguir o voluntário do involuntário. Tal distinção terá também utilidade para o legislador no que tange à distribuição de honras e castigos.

São, pois, consideradas involuntárias aquelas coisas que ocorrem sob compulsão ou por ignorância; e é compulsório ou forçado aquilo cujo princípio motor se encontra fora de nós e para o qual em nada contribui a pessoa que age e que sente a paixão — por exemplo, se tal pessoa fosse levada a alguma parte pelo vento ou por homens que dela se houvessem apoderado.

Mas, quanto às coisas que se praticam para evitar maiores males ou com algum nobre propósito (por exemplo, se um tirano ordenasse a alguém um ato vil e esse alguém, tendo os pais e os filhos em poder daquele, praticasse o ato para salvá-los de serem mortos), é discutível se tais atos são voluntários ou involuntários. Algo de semelhante acontece quando se lançam cargas ao mar durante uma tempestade; porque, em teoria, ninguém, voluntariamente, joga fora bens valiosos, mas quando assim o exige a segurança própria e da tripulação de um navio, qualquer homem sensato o fará.

Tais atos, pois, são mistos, mas se assemelham mais a atos voluntários pela razão de serem escolhidos no momento em que se fazem e pelo fato de ser a finalidade de uma ação relativa às circunstâncias. Ambos esses termos, ‘voluntário’ e ‘involuntário’, devem, portanto, ser usados com referência ao momento da ação. Ora, o homem age voluntariamente, pois nele se encontra o princípio que move as partes apropriadas do corpo em tais ações; e aquelas coisas cujo princípio motor está em nós, em nós está igualmente em fazê-las ou não as fazer. Ações de tal espécie são, por conseguinte, voluntárias, mas em abstrato, talvez, sejam involuntárias, pois que ninguém as escolheria por si mesmas.

Por ações dessa espécie os homens são até louvados algumas vezes, quando suportam alguma coisa vil ou dolorosa em troca de grandes e nobres objetivos alcançados; no caso contrário são censurados, porque se expor às maiores indignidades sem qualquer finalidade nobre ou por um objetivo insignificante é próprio de um homem inferior”.

É sabido que os nossos órgãos mentais são todos comandados pelos nossos atributos individuais, superiores ou inferiores, e pelos nossos atributos relacionais, positivos ou negativos, que fazem com que nós venhamos alcançar a uma finalidade, consoante as naturezas dos atributos. Se a intuição é um ato que exige violência em que o Astral Superior coloca o espírito em uma certa situação, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o libertar quando estiver lá fora, em contato com a luz da mais alta espiritualidade, é certo que ele agirá em inteira conformidade com os seus atributos, que lhe apontarão a finalidade a ser alcançada, demonstrando assim toda a sua nobreza de caráter. Em sendo assim, vem novamente Aristóteles reforçar o seu dizer em relação ao fato de um espírito estar passando por uma Gnosiologia, quando assim se expressa:

O fim de toda atividade é a conformidade com a correspondente disposição de caráter. Ora, a coragem é nobre; portanto, o seu fim também é nobre, pois cada coisa é definida pelo seu fim. Donde se conclui que é com uma finalidade nobre que o homem bravo age e suporta conforme lhe aponta a coragem”.

A Gnosiologia difere fundamentalmente da Epistemologia.

A Gnosiologia trata da real possibilidade de se transcender a este mundo, com os veritólogos tendo que se elevar ao Espaço Superior em busca de perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, tendo como condição básica para tanto os atributos individuais superiores que formam a moral; e com os saperólogos tendo que se transportar ao Tempo Futuro em busca de compreender e criar as experiências físicas acerca da sabedoria, tendo como condição básica para tanto os atributos relacionais positivos que formam a ética. A moral e a ética formam a educação, assim como o espaço e o tempo formam o Universo, o que implica em dizer que somente pode se tornar um ratiólogo, universalizando-se, aquele que se tornou realmente educado.

Já a Epistemologia deve ser tratada à luz da Gnosiologia, uma vez que a sua problemática compreende a questão de a possibilidade do conhecimento ser realmente possível, quer dizer, do ser humano poder alcançar o conhecimento total e genuíno, para que a partir dele possa haver realmente uma distinção entre o mundo cognoscível e o mundo considerado como sendo incognoscível, evidenciando a origem do conhecimento, por conseguinte, explicando por quais faculdades alcançamos o conhecimento, e afirmando haver o conhecimento certo e seguro em alguma concepção a priori.

E isto tudo tem o seu fundamento lógico, pois, na realidade, a Epistemologia representa o elo que deve servir de ligação entre a Veritologia e a Saperologia, o qual deve possibilitar a que esta possa certificar os conhecimentos metafísicos transmitidos por aquela, para que após esta certificação o saperólogo possa unir, irmanar, congregar, a ambas, e então adentrar no âmbito da Ratiologia. Assim, ela trata realmente da natureza, das origens e da validade do conhecimento, que é metafísico. Ignorando completamente a existência dos três tratados superiores, Washington Vita faz a distinção entre a Gnosiologia e a Epistemologia da seguinte maneira:

Epistemologia é a teoria do conhecimento científico-natural ou saber das ciências, cabendo à Gnosiologia indagar das origens, do valor e dos limites da faculdade de conhecer (grifo meu), e à Epistemologia o estudo crítico dos princípios, das leis, dos postulados e das hipóteses científicas. Em suma, a primeira é a teoria abstrata, a priori, do conhecimento; a segunda, a teoria concreta, a posteriori, do conhecimento, caracterizando-se a Gnosiologia por ser mais filosófica e a Epistemologia por ser mais científica”.

É por isso que Platão considera o espírito como sendo um peregrino neste mundo, posto que ele vem do seu Mundo de Luz, e estando aqui encarnado, torna-se um prisioneiro do ambiente deste mundo, aprisionado por intermédio do seu próprio corpo. Que se libertar do corpo para realizar o seu fim, ou seja, para que possa alcançar a contemplação do inteligível, para o qual se sente atraído por um amor nostálgico, é condição que se impõe. Esta libertação do corpo, como se liberta de um cárcere, durante a vida terrena, começa e progride mediante os tratados superiores, que é a separação espiritual da alma do corpo, em que a alma transcende a este mundo e fica ligada ao corpo pelos cordões fluídicos, cuja separação se realiza definitivamente com a desencarnação.

Para Platão, o verdadeiro e grande político não é o homem prático e empírico, mas o que conquistou a sabedoria, o que pensa com elevação, que por isso não deve se preocupar em realizar apenas obras exteriores, mas, sobretudo, ser preocupado em espiritualizar a nossa humanidade. Estando espiritualizada a nossa humanidade, os seres humanos, após as suas desencarnações, não mais estagiarão no astral inferior, de onde praticam toda a sorte de crimes e são responsáveis por todos os tipos de misérias que campeiam neste mundo, retardando consideravelmente as suas evoluções espirituais, indo direto para os seus Mundos de Luz, pois segundo o pensamento platônico, o destino das almas, após a desencarnação, depende da sua saperologia, da razão, que é justamente o esclarecimento espiritual.

Apesar da sua popularidade ter se estendido ao longo dos anos, as obras de Platão nunca ficaram sem leitores, desde o tempo em que foram escritas. Os seus pensamentos são muitas vezes comparados com os do seu aluno mais famoso, que foi Aristóteles, cuja reputação eclipsou a de Platão durante a Idade Média no Ocidente, já que os escolásticos se referiam a ele como “o filósofo”. Mas isso porque os escolásticos medievais não tinham acesso à maioria das obras de Platão, nem o conhecimento necessário do grego para lê-las. No entanto, no Império Bizantino, o estudo de Platão teve a sua continuidade. As suas obras originais estavam quase que completamente perdidas para os povos ocidentais, até que foram trazidas de Constantinopla, no século da sua queda, por Gemisto Pletão, o qual passou uma cópia dos diálogos platônicos para Cosme de Médice, em 1438, durante o Conselho de Ferrara, quando foi chamado para unificar as Igrejas grega e latina, e então foi transferido para Florença, onde ministrou uma palestra sobre a relação e as diferenças entre Platão e Aristóteles, tendo nessa ocasião influenciado Cosme de Médice com o seu entusiasmo.

Durante o período pré-islâmico, estudiosos persas e árabes traduziram muito dos escritos de Platão para o árabe e escreveram comentários e interpretações sobre ele, Aristóteles e outros saperólogos do Período Sistemático, como Al-Farabi, Avicena, Averróis e Hunayn ibn Ishaq. Muitos desses comentários e interpretações foram traduzidos do árabe para o latim e, como tal, influenciaram os escolásticos medievais. Os estudiosos ocidentais continuaram a recorrer às obras de Platão desde essa época, com as suas influências tendo sido especialmente marcantes em Matemática e ciências, pois ele ajudou a fazer a distinção entre a matemática pura, que é religiosa, e a matemática aplicada, que é científica, ampliando o fosso entre a aritmética, agora denominada de teoria dos números, e a logística, agora denominada de aritmética.

Segundo Stephen Korner, o platonismo é a tendência natural do matemático, o que pode ser confirmado por nomes destacados de matemáticos que se reconhecem platônicos, como Gottlob Frege, Bertrand Russel, A. N. Whitehead, Heinrich Scholz, Kurt Godel, Alonzo Church, Georg Cantor e outros. Partindo de Galileu, existe uma extensa tradição do platonismo fisicalista que vai até Werner Heisenberg, Roger Penrose, Frank Tipler, Stephen Hawking e outros, entendendo-se como fisicalista os conhecimentos metafísicos explanados pela experiência física, tornados assim acessíveis à compreensão.

O já citado austríaco Kurt Godel, por exemplo, sendo o responsável por alguns dos mais importantes resultados da lógica matemática do século XX, foi um platonista da velha escola, pois, tal como Platão, ele acreditava na existência independente de formas matemáticas que identificou aos conceitos matemáticos, como os conjuntos, número real, etc.

Leo Strauss é considerado por alguns estudiosos como sendo o principal investigador envolvido na recuperação dos pensamentos platônicos, em sua forma mais política e menos metafísica, sendo influenciado por Nietzsche e por Heidegger. No entanto, ele rejeita a condenação de Platão e olha para os seus diálogos como uma solução para o que todos reconhecem como “a crise do Ocidente”.

Hobbes considerou Platão como sendo o maior saperólogo da Antiguidade clássica, no que está absolutamente correto, pela razão da sua sabedoria ter as ideias como ponto de partida, enquanto que Aristóteles partia apenas de palavras, já que a sua missão era dar início às ciências neste mundo.

E Orígenes, que era um bom homem, cujo maior defeito era ser extremamente fanático pela desvirtuada Bíblia, procura demonstrar que Platão é o maior precursor do cristianismo e alcançou a alma e a quintessência do Evangelho de Jesus. Isto se explica em razão dele haver encarnado como Platão e depois como Jesus, o Cristo.

Em seu regresso das suas viagens, Platão voltou a ensinar e a escrever na Academia, permanecendo lá como um autor ativo até o fim da sua vida. Dizem alguns que foi sepultado no terreno da Academia, para dentro do muro de demarcação da propriedade. Dizem outros que foi sepultado no jardim da Academia. Com a sua desencarnação a Academia passou a ser dirigida por Espeusipo, seu sobrinho, filho de sua irmã Potone, um forte simpatizante do aspecto matemático da sabedoria platônica.

E se Platão voltou a escrever na Academia, nós devemos ressaltar toda a espiritualidade que havia em seu espírito, espiritualidade essa que é do conhecimento de todos os estudiosos do assunto, mas que eles se limitam apenas a registrar, sem que demonstrem o mínimo interesse em demonstrar para os seus leitores a realidade daquilo que o notável saperólogo buscou com todo o ardor do seu evoluidíssimo espírito: a razão.

Todos aqueles que fazem parte da comunidade cientifica somente investigam e pesquisam aquilo que os seus olhos da cara podem observar, estando eles armados com aparelhos ou não, que não passam de extensões dos sentidos, caso contrário, eles dizem que a coisa, o fato ou o fenômeno em questão não é verificável, já que não aceitam os métodos que devem ser empregados, pois que fogem à apreensão das suas inteligências, por isso todas as ciências assim postas neste mundo têm que ser reformuladas em sua base, a começar pela teoria atômica. Em razão disso, eles passam a afirmar que a espiritualidade não é verificável, quando, na realidade, tudo é verificável, como será devidamente demonstrado no decorrer desta obra intitulada de A Filosofia da Administração. Em relação a esse proceder equivocado dito científico, vejamos o que Platão afirmou a respeito:

E agora, dize-me: quando se trata de adquirir verdadeiramente a sabedoria, é ou não o corpo um entrave, se na investigação lhe pedimos auxílio? Quero dizer com isso, mais ou menos, o seguinte: acaso alguma verdade é transmitida aos homens por intermédio da vista ou do ouvido, ou quem sabe se, pelo menos em relação a estas coisas não se passem como os poetas que não se cansam de no-lo repetir incessantemente, e que não vemos nem ouvimos com clareza? E se dentre as sensações corporais estas não possuem exatidão e são incertas, segue-se que não podemos esperar coisa melhor das outras que, segundo penso, são inferiores àquelas. Não é também este o teu modo de ver?

Quando é, pois, que a alma atinge a verdade? Temos de um lado que, quando ela deseja investigar com a ajuda do corpo qualquer questão que seja, o corpo a engana radicalmente.

Não é, por conseguinte, no ato de raciocinar, e não de outro modo, que a alma apreende, em parte, a realidade de um ser?

E, sem dúvida alguma, ela raciocina melhor precisamente quando nenhum empeço lhe advém de nenhuma parte, nem do ouvido, nem da vista, nem de um sofrimento, nem, sobretudo, de um prazer, mas sim quando se isola o mais que pode em si mesma, ABANDONANDO O CORPO À SUA SORTE, QUANDO, ROMPENDO TANTO QUANTO LHE É POSSÍVEL QUALQUER UNIÃO, QUALQUER CONTATO COM ELE, ANSEIA PELO REAL (grifo e realce meus)?

E não é, ademais, nessa ocasião que A ALMA DO FILÓSOFO, ALÇANDO-SE AO MAIS ALTO PONTO, DESDENHA O CORPO E FOGE DELE (grifo e realce meus), enquanto por outro lado procura se isolar em si mesma?

...

E quem haveria de obter em sua maior pureza esse resultado, senão aquele que usasse no mais alto grau, para se aproximar de cada um desses seres, unicamente o seu pensamento, sem recorrer no ato de pensar nem à vista e nem a um outro sentido, sem levar nenhum deles em companhia do raciocínio; quem senão aquele que, utilizando-se do pensamento em si mesmo, por si mesmo e sem mistura, lançasse-se à caça das realidades verdadeiras, também em si mesmas, por si mesmas e sem mistura? E isto só depois de se ter desembaraçado o mais possível da sua vista, do seu ouvido e, em uma palavra, de todo o seu corpo, já que é este quem agita a alma e a impede de adquirir a verdade e exercer o pensamento, todas as vezes que está em contato com ela? Não será este o homem, Símias, se a alguém é dado fazê-lo neste mundo, que atingirá o real verdadeiro?“.

E como que mandando um recado para os cientistas de hoje, que julgam saber de tudo, mas que de nada sabem, Platão assim se expressa:

Logo todo espírito verdadeiramente ávido por ciência, deve, desde a mocidade, amar e procurar a verdade”.

Pode-se assim compreender clara e perfeitamente a razão pela qual os conhecimentos metafísicos acerca da verdade têm o seu repositório no Espaço Superior, enquanto que as experiências físicas acerca da sabedoria têm o seu campo no Tempo Futuro, para que assim a alma do ser humano possa se elevar às alturas em busca da verdade e se transportar à época na qual os eventos devem se suceder, em função do progresso humano, em busca da sabedoria, uma vez que o ambiente terreno não contêm nem a verdade e nem a sabedoria, apenas imagens que fazem os seres humanos raciocinar através das suas representações, pois que toda a nossa humanidade ainda se encontra na fase da imaginação.

É por isso que os veritólogos cultivam tanto a moral, pois que para que eles possam se elevar em espírito ao Espaço Superior, a moral é condição sine qua non para esse desiderato. E é por isso que os saperólogos cultivam tanto a ética, pois que para que eles possam se transportar ao Tempo Futuro, a ética é condição sine qua non para esse desiderato. Em sendo assim, como realmente é assim, e como jamais poderia ser diferente, é a moral, juntamente com a ética, que tornam o ser humano verdadeiramente educado, e somente estando o espírito verdadeiramente educado, é que ele pode se elevar ao Espaço Superior em busca da verdade e se transportar ao Tempo Futuro em busca da sabedoria, simultaneamente, quando então ele pode se universalizar, alcançando enfim a razão. É por isso que, embora Platão venha sendo considerado como sendo um saperólogo, ele era, na realidade, um ratiólogo, pois que se ocupava tanto da Veritologia como da Saperologia, embora o seu pendor maior recaísse sobre a Saperologia.

E tanto isso procede, que mesmo naquela época Platão já era ciente do destino das almas, após as suas desencarnações, em função da lei da afinidade e do princípio da atração, em que as almas dos seres humanos dignos e honrados iam diretamente para o Astral Superior, para o que era divino, e as almas dos seres humanos indignos e desonrados iam diretamente para o astral inferior, para o que era o lodo. Vejamos, pois, como ele se expressa em relação a esta realidade da vida:

… no outro mundo irei encontrar, não menos do que aqui, outros bons donos como outros bons companheiros. O vulgo, na verdade, é incrédulo a respeito dessas coisas (grifo meu).

Suponhamos que seja pura a alma que se separa do corpo, deste ela leva consigo, pela simples razão que, longe de ter mantido com ele durante a vida um contato voluntário, ela conseguiu, evitando-o, concentrar-se em si mesma, e, também, pela razão de que foi para esse resultado que ela tendeu. O que equivale exatamente a dizer que ela se ocupa, no bom sentido, com a Filosofia, e que, de fato, sem dificuldade se prepara para morrer. Poder-se-á dizer, pois, de uma tal conduta, que ela não é um exercício para a morte?

Ora, se tal é o seu estado, é para o que se lhe assemelha que ela se dirige, para o que é invisível, para o que é divino, imortal, sábio; é para o lugar onde a sua chegada importa para ela na posse da felicidade, onde divagação, irracionalidade, terrores, amores tirânicos e todos os outros males da condição humana cessam de lhe estar ligados, e onde, como se diz dos que receberam a iniciação, ela passa na companhia dos Deuses o resto do seu tempo!

Segundo me parece, pode-se também supor o contrário, que esteja poluída e não purificada a alma que se separa do corpo, do corpo cuja existência ela compartilhava, do corpo que ela cuidava e amava, e que a trazia tão bem enfeitiçada por seus desejos e prazeres, que ela só considerava real o que corpóreo, o que se pode tocar, ver, beber, comer e o que serve para o amor (leia-se sexo, digo eu); ao passo que se habituou a odiar, a encarar com receio e a evitar tudo quanto aos nossos olhos é tenebroso e invisível, inteligível, pelo contrário, pela Filosofia e só por ela apreendido! Se tal é o seu estado, crês que essa alma possa, ao se destacar do corpo, existir em si mesma, por si mesma e sem mistura?

Muito ao contrário, julgo eu, tu a crês mesclada de qualidades corpóreas que a sua familiaridade com o corpo, de cuja existência partilhou, tornou-lhe íntimas naturais, pois que jamais cessou de viver em comunhão com ele e até mesmo procurou multiplicar as suas ocasiões de contato?

Sim, mas isso tem peso, meu caro, não o duvidemos: é denso, terroso, visível! E uma vez que é este o conteúdo de tal alma, por ele é que ela se torna pesada, atraída e arrastada para o lugar visível, devido ao medo que lhe inspira o que é invisível e o que chamamos de país do Hades. Essa alma ronda os monumentos funerários e as sepulturas, ao redor dos quais de fato foram vistos certos espectros sombrios de almas, imagens apropriadas das almas de que falamos. Elas, por terem sido libertadas em estado de impureza e de participação com o visível, são assim elas também visíveis!

E o que certamente não o é, é pretender que essas almas sejam as almas dos bons. São as almas dos maus, que se veem obrigadas a vaguear nesses lugares, que recebem assim o castigo da sua maneira de viver anterior, que foi má. E vagueiam desse modo até o momento em que encontram o companheiro desejado, algo corporiforme, e tornam a entrar em um corpo (mediunidade de incorporação, digo eu)! Ora, aquilo a que elas assim novamente se juntam, deve ser, como é natural, possuidor dos mesmos atributos que as distinguiram no curso da vida.

Os mais felizes serão aqueles cujas almas hão de ter um destino e lugar mais agradáveis, serão aqueles que sempre exerceram essa virtude social e cívica, que nós denominamos de temperança e de justiça e nas quais eles se formaram pela força do hábito e do exercício, sem o auxílio da Filosofia e da reflexão?

E quanto à espécie divina, absolutamente ninguém, se não filosofou, se daqui partiu sem estar totalmente purificado, ninguém tem o direito de atingi-la, a não ser unicamente aquele que é amigo do saber!”.

Deve aqui ser ressaltado novamente, que quando Platão afirma que quando as almas “vagueiam desse modo até o momento em que encontram o companheiro desejado, algo corporiforme, e tornam a entrar em um corpo”, isto significa que os espíritos quedados no astral inferior possuem os seus companheiros encarnados que têm afinidades e atrações com eles, que são os médiuns de incorporação, os quais se deixam atuar por esses espíritos atrasados, portanto, trevosos, vindo daí os mais diversos tipos de loucura que presenciamos no dia a dia deste mundo, e por ignorarem propositalmente a espiritualidade, os psiquiatras e os psicólogos andas às tontas, sem saberem as causas dos desequilíbrios mentais.

É certo que os seres humanos são extremamente materializados, e que em função desse materialismo exacerbado relutam em acreditar que existam os órgãos mentais do espírito com as suas próprias funções e finalidades, para que assim ele possa alcançar o Saber, por excelência. O criptoscópio é o órgão mental que tem a função de perceber e a finalidade de captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, tendo por base a moral, que possibilita a elevação espiritual ao Espaço Superior. O intelecto é o órgão mental que tem a função de compreender e a finalidade de criar as experiências físicas acerca da sabedoria, tendo por base a ética, que possibilita o transporte ao Tempo Futuro. E a consciência é o órgão mental que tem a função de coordenação e a finalidade de coordenar o criptoscópio e o intelecto, portanto, de coordenar a moral e a ética, tornando o espírito verdadeiramente educado, que possibilita a sua plena universalização, para que assim ele possa tanto perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, como compreender e criar as experiências físicas acerca da sabedoria, para que então possa alcançar o Saber, por excelência.

E como Platão possuía a esses três órgãos mentais extremamente desenvolvidos, mesmo que sobre eles se sobressaísse o intelecto, já que detinha em si a sabedoria, mas que se esforçava por buscar a verdade, a fim de alcançar a razão, ele evidenciava a existência dos órgãos mentais do espírito com as suas próprias funções e finalidades, embora não tivesse chegado ao ponto de especificá-los, quando assim dizia:

Mas se tudo isso é verdade, deve-se concluir que a ciência não é o que imaginam certos homens, que se gabam de poder fazê-la penetrar na alma onde não existe, quase da mesma maneira pela qual se comunica a vista aos cegos.

Mas, este discurso que nos faz ver que cada qual tem na alma a faculdade de aprender com o órgão a isto destinado (grifo meu), e que, à semelhança dos olhos que não podem passar das trevas para a luz sem que todo o corpo se volte nessa direção, também o órgão da inteligência se deve voltar, com toda a alma, da visão do que nasce para a contemplação do que é, até que se possa fixar sobre o que há de mais luminoso no ser, e que é o próprio bem. Não é assim?

Nesta evolução que se obriga a alma a fazer (grifo meu), toda a arte consiste em fazê-la se voltar do modo mais expedito para si mesma. Não se cogita de lhe dar a faculdade de ver, que ela já possui, somente o seu órgão não está bem dirigido, não se volta para onde se deve voltar, e isto é o que cumpre corrigir.

Quanto às outras chamadas faculdades da alma (grifo meu), dá-se o mesmo que com as do corpo, quando não recebidas da natureza, adquirem-se à força de educação e exercício. Mas, pelo que foca à faculdade de pensar, por isso mesmo que é de natureza mais excelente e, de certo modo, mais divina, jamais perde a sua virtude. Apenas se torna útil ou inútil, proveitosa ou nociva, conforme os objetos para os quais se volta. Não advertiste ainda a que ponto chega a sagacidade dos homens a quem se dá o nome de hábeis malfeitores? Com que penetração a sua mesquinha alma vê o que os interessa! Com que presteza discerne os objetos para os quais volta a atenção! A sua vista não é fraca e nem embotada; mas, como é obrigada a servir de instrumento à malícia, torna-se tanto mais maléfica, quanto mais sutil e penetrante”.

Para aqueles que são mais céticos e renitentes, é bom saber que não foi somente o grande Platão que se referiu aos órgãos mentais de natureza espiritual, pois que eles constam também dos Upanixades, cujo termo deriva das palavras sânscritas upa, que significa perto, ni, que significa embaixo, e chad, que significa sentar, representando o ato de se sentar no chão, próximo a um mestre espiritual, para receber as suas instruções. Os Upanixades são partes das escrituras Shruti hindus, que discutem assuntos transcendentais, os quais contêm transcrições de vários debates de natureza espiritual, tendo surgido como comentários sobre os Vedas, as quatro obras compostas em idioma denominado de sânscrito védico, de onde se originou posteriormente o sânscrito clássico. Estas obras se tornaram conhecidas no mundo ocidental, pela primeira vez, no início do século XIX, através de uma tradução feita do persa para o latim, tendo elas influenciado fortemente o sentimento do veritólogo alemão Arthur Schopenhauer.

A primeira lição que os mestres dos Upanixades ensinam é a da insuficiência do intelecto, pelo que se indaga: como pode este fraco cérebro, que dói pela ação de um pequeno cálculo, intentar compreender a complexa imensidade da qual ele é tão transitório fragmento? Embora obviamente o intelecto não fosse considerado como sendo inútil, para esses mestres ele ocupava um modesto lugar e servia bem quando defrontado pelas relações entre as coisas, sabendo-se que a ética é a arte do relacionamento, portanto, das experiências físicas acerca da sabedoria; no que os mestres completavam: mas como ele vacila diante do eterno, do infinito, ou do elementarmente real! No que se deve assim compreender: mas como ele vacila diante dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade! É assim que os mestres dos Upanixades nos ensinam que na presença da silenciosa realidade, silenciosa por ser metafísica, que se encontra por trás de todas as aparências, como também afirmou o grande Pe. Antônio Vieira, que não era propriamente um sacerdote, como veremos no decorrer desta obra, e bem acima de todo e qualquer conhecimento deste mundo, necessitamos de um outro órgão da percepção, além da compreensão dos sentidos. Spinoza, que era um veritólogo e não um saperólogo, estando envolvido na mescla que sempre existiu entre a Veritologia e a Saperologia, vem afirmar que a mais alta compreensão é a percepção direta, o discernimento imediato, ou, como viria a dizer Bergson, a intuição, a visão interior, quando o espírito deliberadamente fecha as portas aos sentidos externos, algo que as ciências até hoje ainda não fizeram, pelo contrário, direcionam todas as suas investigações e pesquisas diretamente para os sentidos.

Todos os estudiosos a respeito do assunto sabem perfeitamente que as grandes mentalidades da antiguidade, e até as dos dias de hoje, são todas unânimes em afirmar a existência da espiritualidade, da reencarnação e da evolução espiritual, estando alheias a qualquer sobrenaturalismo credulário; mas, infelizmente, esses estudiosos preferem considerar a toda esta realidade universal como sendo apenas algo dado, simplesmente isto, sem que tenham a coragem de romper com o véu da materialidade e adentrar firmemente no âmbito da Espiritologia, principalmente porque a comunidade científica afirma que a espiritualidade não é verificável, por isso eles têm medo de irem contra essa maré avassaladora tida como sendo científica, para que não possam ser banidos dessa comunidade assaz ignorante, que ignora a própria ignorância em que medra, ignorando que todo o mal deste mundo é proveniente unicamente da ignorância, como assim afirmou a maior das mentalidades que a este mundo já veio: Jesus, o Cristo.

O fato é que todos nós somos espíritos, e todos os espíritos possuem as suas próprias almas, cuja diferença entre espírito e alma já foi devidamente explanada neste site de A Filosofia da Administração, na categoria que diz respeito aos Prolegômenos. Em razão disto, em tudo e por tudo, nós não devemos jamais esquecer da espiritualidade para priorizar, ignorantemente, a este corpo carnal com que nos apresentamos neste mundo, que não passa de um mero invólucro provisório da nossa alma, para que neste mundo possamos habitar, com vistas à nossa evolução espiritual. Para que o assunto relativo a este tópico não venha a se estender além do necessário, vejamos o que Platão nos ensinou acerca da espiritualidade:

Eis aqui, meu caro Glauco, em meu sentir, a grande e arriscada prova para a humanidade. Por isso, deve cada um de nós, descurando-se das outras ciências, procurar obter a única que lhe fará descobrir e discernir as condições felizes e infelizes, e escolher sempre a melhor, repassando na mente a verdade de quanto havemos dito, as semelhanças e distinções estabelecidas para o que interessa à moralidade da vida. Deve também saber que grau de beleza, misturado com certa porção de riqueza ou de pobreza, torna o homem mau ou virtuoso; que efeito deve produzir o merecimento ilustre e o obscuro, as dignidades públicas e a vida privada, a força e a fraqueza do corpo, a facilidade e a dificuldade de aprender; em uma palavra, as diferentes qualidades naturais ou adquiridas, associadas umas às outras; de sorte que, depois de haver feito todas essas reflexões, E SEM PERDER DE VISTA A NATUREZA DA ALMA (grifo e realce meus), possa distinguir o gênero de vida que lhe for vantajoso do que lhe seria funesto, entendendo-se por funesto o que lhe tornasse injusta a alma, por vantajoso o que a fizesse virtuosa, sem nenhuma referência a tudo o mais. Porque já vimos que é este o melhor partido a tomar, quer para esta vida, quer para a outra (grifo meu). Cumpre-nos, pois, a cada um de nós, conservar a alma inabalável e firme neste propósito, A FIM DE QUE NÃO SE DEIXE FASCINAR NEM PELA RIQUEZA (grifo e realce meus), nem por outros males desta espécie; nem se exponha, arrojando-se, ansiosa, sobre a condição de tirano ou sobre qualquer outra semelhante, a cometer grande número de males sem remédio e a sofrê-los ainda maiores; antes, pelo contrário, quando estiver de sua parte, deve saber se fixar para sempre em uma condição medíocre e evitar com cuidado os dois extremos, JÁ NA PRESENTE VIDA, JÁ EM QUALQUER OUTRA POR ONDE HAJA DE PASSAR (grifo e realce meus). Porque disto é que depende a maior felicidade do homem”.

Chegou por último a vez da alma de Ulisses escolher. Pela memória dos trabalhos passados e já isenta de ambições, andou buscando longo tempo a condição do seu gosto e a custo acabou por encontrar a da vida tranquila de um homem particular e sem cuidados, condição essa oculta em um recanto, onde a haviam deixado todas as outras almas. E, vendo-a, exclamou que se tivesse sido a primeira a escolher, não teria preferido qualquer outra”.

Para o leitor um tanto mais atento às palavras que são proferidas, Platão adverte que os homens não devem se deixar fascinar pela riqueza, nem por outros males desta espécie, o que indica claramente que a riqueza é um grande mal, que faz os seres humanos seguirem por caminhos outros, que não o da virtude. Porém, ressalte-se aqui, desde que os homens que são detentores da riqueza não cumpram com os seus papéis cívicos para com os seus semelhantes, olvidando da magnanimidade e da liberalidade, que veremos no tópico a seguir, em Aristóteles.

 

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