13.05.03.01- Sócrates

A Era da Sabedoria
4 de outubro de 2018 Pamam

Sócrates nasceu em Atenas no ano 469 a.C. e desencarnou na mesma cidade no ano 399 a.C., com a idade de setenta anos. Nascido nas planícies do monte Licabeto, próximo a Atenas, era proveniente de família humilde, sendo filho de Sophroniscus, motivo pelo qual era chamado em sua juventude de Sokratesios Sofroniskos, ou seja, Sócrates, o filho de Sophroniscus, que era um escultor, especialista em entalhar colunas nos templos, e de Fainarete, uma parteira, e ambos eram parentes de Aristides, o Justo.

Durante a sua infância ajudou ao seu pai no ofício de escultor. No entanto, muitas vezes os seus amigos zombavam da sua incapacidade de trabalhar o mármore, o que explica a razão pela qual quando aparecia uma oportunidade de ajudar ao seu pai, sempre acabava atrapalhando. Porém, a sua missão neste mundo foi apontada por uma médium ao serviço do Astral Superior, uma Pítia do templo de Apolo, no oráculo de Delfos, como sendo um grande educador, mas foi somente pela influência da sua mãe que ele pôde então descobrir a sua verdadeira vocação, fazendo valer o imenso talento que possuía.

Sócrates foi casado com Xantipa, uma quérula mulher, que era bem mais jovem do que ele, e teve apenas um filho, Lâmprocles. Há relatos de que o casal possivelmente teve mais dois filhos, Sophroniscus e Menexenus. Porém, segundo Aristóteles, citado por Diógenes Laércio, Sophroniscus e Menexenus eram filhos da segunda esposa de Sócrates, Myrto, filha de Aristides, o Justo. No entanto, Sátiro e Jerônimo de Rodes, também citados por Diógenes Laércio, dizem que pela falta de homens em Atenas, foi permitido por lei a um ateniense casado ter filhos com outra mulher, e que Sócrates teria tido como esposas Xantipa e Myrto, ao mesmo tempo.

Dizem as más línguas que ele não tinha o hábito de tomar banho, o que não deve proceder, pois todo grande homem é ciente dos cuidados que deve ter para com o corpo carnal que toma por empréstimo durante o período de uma encarnação, notadamente no aspecto de higiene, sendo de boa ética conservá-lo limpo, e Sócrates era extremamente ético. Dizem também que ele costumava caminhar descalço e que em certas ocasiões parava o que quer que estivesse fazendo e ficava imóvel por horas, meditando sobre algum tema. Certa vez o fez descalço sobre a neve, segundo os escritos de Platão, o que demonstra o seu caráter um tanto quanto lendário.

O seu amigo Críton o criticou por ter abandonado os filhos quando se recusou a tentar fugir para evitar a sua execução. Este fato demonstra que Críton, assim como os outros discípulos, não teriam compreendido a contento a mensagem que Sócrates passa sobre a desencarnação, constante do diálogo Fedon.

Cláudio Eliano destaca Sócrates como sendo um dos grandes homens que gostavam de brincar com as crianças, já que certa vez Alcibíades o surpreendeu brincando alegremente com o seu filho Lâmprocles.

Diz-nos a tradição que um certo dia Sócrates foi levado junto com a sua mãe para ajudar em um parto um tanto quanto complicado. Vendo a sua mãe realizar o trabalho, ele logo principiou a expor a sua sabedoria, transmitindo o seguinte:

A minha mãe não irá criar o bebê, apenas ajudá-lo a nascer e tentará diminuir a dor do parto. Ao mesmo tempo, se ela não tirar o bebê, logo ele irá morrer, e igualmente a mãe morrerá”.

Através dessas suas palavras, Sócrates concluiu, então, que, de certa forma, ele também era um parteiro, pois considerava que a sabedoria se encontrava dentro das pessoas, que são capazes de aprender por si mesmas, mas que, no entanto, poderia ajudar no seu nascimento. Por aqui, logo se pode constatar com clareza que a sabedoria deve ser inerente a cada espírito, que uma vez sendo adquirida ela passa a pertencer ao próprio espírito, sendo, portanto, imprópria e inadequada a expressão: amigo da sabedoria; pois somente se é amigo de outro ser, e não da sabedoria, pois que ao ser conquistada ela passa a fazer parte integrante do espírito.

Em razão disso, os seus ensinamentos são conhecidos até hoje como maiêutica, que em grego significa parteira, tal como se ele quisesse fazer um parto da sabedoria, tirando-a da mente das pessoas. Assim, logo a sua vocação falou mais alto, com ele partindo em busca da sua fonte, a verdade, embora não a tivesse encontrado, para tanto foi discípulo dos veritólogos Anaxágoras e Arquelau. E o seu talento logo se destacou, tanto que foi considerado pela Pítia, uma médium do templo de Apolo, em Delfos, como sendo o mais sábio de todos os homens, justamente porque em sua alta sabedoria confessava a sua ignorância acerca da verdade. Em sendo ele ignorante acerca da verdade, pode-se concluir facilmente que detinha a mais pura sabedoria.

Não há qualquer evidência de que Sócrates tenha publicado alguma obra, já que os detalhes sobre a sua vida derivam de três fontes: os diálogos de Platão, os diálogos de Xenofonte e as peças teatrais de Aristófanes. Devendo-se ressaltar que as peças de Aristófanes retratam o saperólogo como sendo um personagem cômico, por isso a sua representação não deve ser levada ao pé da letra. Mas alguns estudiosos defendem a tese de que ele não deixou nada escrito, em virtude de na sua época a transmissão da sabedoria ser feita, essencialmente, pela via oral, o que não tem qualquer procedência, pois que Platão, Aristóteles e outros deixaram os seus escritos. Este fato é justificado justamente em função da sua maiêutica, que somente podia ser realizada através dos diálogos, para que assim esses diálogos pudessem ser transmitidos por outros, ressaltando assim toda a sua sabedoria.

Além do mais, ele assumia a condição de alguém que nada sabe, afirmando assim a sua total ignorância. Mas que nada sabe, ressalte-se bem, em relação aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, pois que das experiências físicas acerca da sabedoria ele sabia sim, e sabia muito, tanto que o grande Platão foi seu discípulo. Isto significa que os veritólogos que o precederam, aos quais os estudiosos denominam equivocadamente de filósofos pré-socráticos, não conseguiram estabelecer a verdade no seio da nossa humanidade, mas, de qualquer modo, evidenciando aqui os seus pioneirismos na busca incessante pela verdade.

Assim, para ele, a escrita saperológica deveria explanar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, deixando-os de forma mais evidenciada, através da união, da irmanação, da congregação, entre a verdade e a sabedoria, na tentativa por se alcançar a razão, vinculando o seu autor ao estrito contexto da razão, ou por sua busca, que engloba tanto os conhecimentos metafísicos acerca da verdade como as experiências físicas da sabedoria, com a escrita perpetuando a tudo isso. E tudo isso ficou sob o encargo de Aristóteles, enquanto que a Platão coube o encargo de deixar registrados os seus diálogos e ainda mais sabedoria, pois que não devemos esquecer que estamos tratando de A Era da Sabedoria.

Tendo sido Sócrates um saperólogo do Período Sistemático da Grécia Antiga, muitos estudiosos consideram a esse notável saperólogo como sendo uma figura enigmática, notadamente porque se tornou conhecido principalmente através das obras de Platão e de Xenofonte, bem como através de peças teatrais do seu contemporâneo Aristófanes. Alguns historiadores consideram que esses relatos que dizem respeito a Sócrates são obras da imaginação, por isso nenhum deles pode ser aceito como história, no que estão redondamente enganados, pois que esses relatos não têm nada de imaginativos, apenas retratam a mais pura sabedoria já havida em toda a história da nossa humanidade.

Sócrates foi creditado com inteira justiça como sendo um dos fundadores da saperologia ocidental, e como a natureza da sua inteligência era completamente diferente da natureza dos veritólogos que o precederam, isto também justifica ser considerado por muitos como sendo uma figura enigmática, já que muitos estudiosos defendem que os diálogos de Platão constituem o relato mais abrangente do saperólogo a ter perdurado da Antiguidade aos dias de hoje.

E tal fato realmente procede, pois foi através dos diálogos de Platão que ele se tornou renomado pela sua contribuição saperológica à nossa humanidade, revelando a mais pura sabedoria, principalmente no campo da ética, sendo justamente esse Sócrates platônico que legou o seu nome aos conceitos, como a ironia socrática e o método socrático, com este método permanecendo até hoje a ser uma ferramenta comumente utilizada em uma ampla gama de discussões, que consiste em um tipo peculiar de pedagogia, no qual uma série de questões são feitas, não apenas para obter respostas específicas, mas também para encorajar uma compreensão clara e fundamental dos assuntos em discussão. Foi o Sócrates revelado por Platão que fez contribuições importantes e duradouras aos campos da epistemologia e da lógica, em que as influências das suas ideias e do seu método continuam a ser importantes alicerces para boa parte dos veritólogos e saperólogos que se seguiram a ele.

Para Allan Kardec, em sua obra intitulada de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Sócrates e Platão são os precursores da ideia cristã e do espiritismo. Da ideia cristã sim, pode-se concordar com o estudioso fundador do espiritismo, mas do espiritismo tal como credo não, de modo algum, sendo simples a sua explicação. O espiritismo é todo sobrenatural, pois que se baseia na Bíblia, o livro mais mentiroso e perigoso do mundo, embora os seus adeptos afirmem ser científico, mesmo que na Bíblia nada se encontre que possa ser considerado como sendo científico. Ora, o ponto fundamental dos veritólogos do Período Doutrinário foi justamente o de não se deixarem levar pelo sobrenaturalismo, fixando-se nos ditames lógicos e racionais expostos pela natureza, a qual pode ser considerada como sendo o autêntico livro escrito por Deus, pelo verdadeiro Deus, que é a Inteligência Universal, o Todo, como já visto nos Prolegômenos, não por Jeová, o deus bíblico, pois não se deve aceitar a esse deus completamente revestido de antropomorfismo, pelo fato dele ser um espírito obsessor. Não se pode, jamais, confundir o espiritismo, que é um credo, com a Espiritologia, que é o tratado do espírito.

Na obra de Xenofonte, Sócrates aparece declarando que se dedicava àquilo que ele considerava a arte ou a ocupação mais importante de todas: a maiêutica; que no seu método é considerada como se fosse o parto das ideias. A maiêutica socrática funcionava a partir de dois momentos essenciais: o primeiro, em que Sócrates levava os seus interlocutores a pôr em causa as suas próprias imaginações, não concepções, pois que ambas são diferentes umas das outras, e teses acerca de algum assunto em pauta; e o segundo, em que conduzia os interlocutores a uma nova perspectiva acerca do assunto, fornecendo-lhes verdadeiramente as ideias acerca da realidade. Daí o fato de que a maiêutica socrática consistia realmente em um autêntico parto de ideias, pois mediante o questionamento dos seus interlocutores, Sócrates os levava a colocar em causa as suas imaginações acerca de determinado assunto, conduzindo-os a ideias verdadeiras acerca do tema em discussão, assim como se os interlocutores estivessem parindo as ideias, reconhecendo então as suas ignorâncias imaginativas, e assim formulando ideias, pelo menos que se situassem mais próximas da autêntica sabedoria.

Deve-se ressaltar aqui, que na maiêutica socrática, em todos os assuntos que são abordados e questionados entre Sócrates e os seus interlocutores, nada se questiona a respeito dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, notadamente porque o próprio saperólogo confessa com a máxima sinceridade a sua ignorância a respeito desses conhecimentos, pelo que se evidencia plenamente que a verdade é completamente diferente da sabedoria, sendo justamente por isso que ambas devem se unir, irmanar-se, congregar-se, para que assim, e somente assim, possa se alcançar a razão.

No âmbito exclusivo da sabedoria, portanto, o pensamento socrático consiste no fato de que se deve sempre dar ênfase à procura daquilo que não se sabe, já que o saperólogo desconsiderava totalmente aquilo que as pessoas julgavam saber, uma vez que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade não haviam ainda sido realmente transmitidos, apenas as especulações dos veritólogos do Período Doutrinário, e a sabedoria ainda engatinhava, posto que ele foi o primeiro e autêntico saperólogo da nossa humanidade, o mais puro, assim ele privilegiava, sobremaneira, as experiências físicas acerca da sabedoria, preferindo afirmar a sua ignorância a partir célere em busca da verdade, em função de trabalhar mais com o intelecto, revelando a sua compreensão e o seu poder de criação, ao invés de trabalhar mais com o criptoscópio, revelando a sua percepção e o seu poder de captação.

Para tanto, ele adquiriu o hábito deveras salutar de debater e dialogar com as pessoas da cidade de Atenas. Mas, ao contrário dos seus antecessores veritólogos e dos seus predecessores saperólogos, ele não fundou qualquer escola, preferindo sempre realizar os seus diálogos em locais públicos, principalmente nas praças e nos ginásios, agindo sempre de maneira descontraída e descompromissada, dialogando com todas as pessoas, sem qualquer distinção, o que atraía e fascinava os jovens, os homens, as mulheres e até os políticos da sua época. No entanto, ele não recebia qualquer pagamento pelas suas aulas de sabedoria, ao contrário dos sofistas em suas aulas de retórica, como assim comprova a sua tão decantada pobreza, razão pela qual ele era um autêntico saperólogo, e não um sofista.

E agora vejamos os grandes contrastes observados neste mundo. Aquele que era detentor de uma das maiores mentalidades de todos tempos cá neste mundo Terra, deu-nos uma prova cabal de que as grandes inteligências preferem cultivar o saber em detrimento da riqueza, assim como outras grandes mentalidades também vieram a nos fornecer a esta prova cabal, em que esta prova cabal vem se alicerçar ainda mais em Jesus, o Cristo, a maior das mentalidades que a este mundo já veio. No entanto, aqueles que são detentores das grandes fortunas deste mundo, consideram-se, ou são considerados, como se fossem grandes inteligências, quando, na realidade, não passam de meros ignorantes, em que o egoísmo reina em seus espíritos. Quanto contraste! Quando vão embora deste mundo, as grandes mentalidades levam consigo todo o acervo do saber que adquiriram neste mundo, principalmente as suas grandes obras. E o que levam deste mundo os grandes ricaços? Nada. Ou apenas as suas obras fincadas no mais profundo egoísmo, em que ficam reveladas apenas as suas preocupações para consigo mesmos, com a demonstração da plena e total falta de solidariedade para com o próximo. Que pena!

Muitos julgam que os veritólogos e os saperólogos são homens alheios às intempéries do mundo, como se fossem lunáticos. Muito pelo contrário, são homens verdadeiramente conhecedores da vida, que por isso evoluem os seus espíritos em todos os sentidos, sendo, aliás, grandes e incomparáveis guerreiros, como agora será comprovado por intermédio de Sócrates, que dedicava grande atenção aos exercícios corporais e se mantinha sempre em boas condições físicas, por isso adquiriu fama de bom soldado durante a Guerra do Peloponeso.

Mas antes disso, eu devo abordar aqui um assunto que se reveste de extrema importância para toda a nossa humanidade, que no decorrer de toda esta obra deverá ser explanado em seus detalhes mais precisos, pois que este assunto é quem deve esclarecer a realidade das nossas companhias no dia a dia das nossas vidas.

Existem os Mundos de Luz, dos quais todos os espíritos são originários, sendo, portanto, os mundos de origem de todos os espíritos que se distribuem pelo Universo, em conformidade com os estágios evolutivos em que eles se encontram; e os mundos-escolas, para os quais vão todos os espíritos que formam as humanidades, e que nestes mundos-escolas, estando encarnados, tais como seres humanos, procedem as suas evoluções espirituais, assim como para esses mundos-escolas vão também os seres infra-humanos, com o mesmo objetivo de evoluir, pois que existe uma interação universal entre todos os seres, cuja interação universal ocorre nos mundos-escolas. O mundo Terra, pois, é o mundo-escola da nossa humanidade.

Quando os seres humanos que formam a nossa humanidade desencarnam neste mundo Terra, eles têm necessariamente apenas dois caminhos a seguir, quais sejam:

  1. Retornarem para os seus Mundos de Luz, que são os seus mundos de origem, em conformidade com os seus estágios evolutivos, fazendo parte integrante do Astral Superior;
  2. Ficarem quedados na atmosfera do planeta, fazendo parte integrante do astral inferior.

Assim, como os espíritos que se encontram nos Mundos de Luz fazem parte integrante do Astral Superior, estes procuram por todos os modos ajudar aos encarnados, em conformidade com a natureza dos seus sentimentos e pensamentos; e como os espíritos que se encontram quedados na atmosfera terrena fazem parte integrante do astral inferior, estes procuram influir intensamente nas vidas dos encarnados, causando os mais diversos tipos de crimes e desastres, em que estes últimos os cientistas consideram como sendo naturais.

É por isso que os seres humanos que levam uma vida honrada, têm a companhia dos espíritos integrantes do Astral Superior, que intuem aos bem-intencionados para a prática do bem; enquanto que os seres humanos que levam uma vida desonrada, têm a companhia dos espíritos integrantes do astral inferior, que intuem aos mal-intencionados para a prática do mal, obsedando-os, além de praticarem outros tipos de males neste mundo.

E assim se explica a razão pela qual Sócrates afirmava que era sempre acompanhado por um daemon, cuja voz o aconselhava nos momentos capitais da sua vida. O daemon nunca afirmava peremptoriamente como ele deveria pautar as suas ações, mas nas ocasiões mais difíceis em que ele pudesse incidir no erro, era aconselhado a desviar a essas suas ações e se voltar para o procedimento correto, ao que os estudiosos interpretam como se fosse uma inspiração divina, como sendo uma voz da Divindade, quando, na realidade, eram intuições advindas dos espíritos superiores que se encontravam no Astral Superior.

O daemon é uma transliteração do grego daímôn, cuja palavra tem o significado de espírito, ou mesmo de divindade, cujo plural é daemones. Tendo se originado dos gregos, ao longo da história desta nossa civilização, esse termo deu origem a diversas significações, em face da extrema ignorância da nossa humanidade em relação à Espiritologia, ou seja, em relação aos espíritos integrantes do Astral Superior, os quais praticam somente o bem, e os espíritos quedados no astral inferior, os quais praticam somente o mal. E como são menos comuns os seres humanos realmente dignos e honrados, que têm a companhia dos espíritos superiores, e mais comuns os seres humanos indignos e desonrados, que têm a companhia dos espíritos inferiores, o termo em latim daemon veio a dar origem ao vocábulo em português demônio, pois que estes espíritos, por causarem as obsessões dos seres humanos mais fracos, em decorrência causam também a loucura, a ira, a tristeza, a depressão, etc.

É por isso que muitos consideram que um mesmo daemon pode se apresentar como sendo bom ou mau, conforme sejam as circunstâncias do relacionamento que se estabelece com aqueles que se encontram sujeitos à sua influência, o que não procede, uma vez que o espírito ou é bom ou é mau, não podendo ser ambos ao mesmo tempo. Mas no âmbito teleológico da Grécia Antiga, os gregos faziam a distinção entre os bons e os maus espíritos, tanto que para os bons espíritos eles utilizavam o termo eudaemon, com o prefixo eu significando bom, e o termo cacodaemon, com o prefixo kakos significando mau, sendo por isso que a palavra grega que designa o aspecto da felicidade é eudaimonia, pois que ser feliz para os gregos era viver sob a influência de um bom daemon. É assim a forma como Sócrates se refere ao seu daemon, ou às suas companhias astrais.

Como Sócrates era verdadeiramente um sábio, torna-se óbvio que as suas ideias prevaleciam por inteiro sobre as representações imaginativas dos seus semelhantes, além da sua bravura, o que proporcionou a que ele se tornasse um general e tivesse angariado a fama de um grande soldado.

Em 422, combateu em Anfípolis, quando Atenas consolidou o seu controle sobre a Trácia, que foi estrategicamente importante em função dos seus materiais primários, o ouro e a prata das colinas Pangaião e as suas densas florestas, que eram essenciais para a construção naval, pois que Atenas possuía a maior frota naval do mundo, e precisava dessas rotas marítimas consideradas como sendo vitais para as provisões atenienses de cereais provenientes da Cítia.

Em 424, combateu em Delium, em que nessa batalha foi o último ateniense a ceder terreno aos espartanos, tendo conseguido se salvar graças à intervenção do Astral Superior, pois que permaneceu encarando aos inimigos de frente, dizendo alguns, ao estilo da molecagem cearense, que até os espartanos se amedrontavam com a sua feiura.

Em 432, ele combateu em Potideia, em que lá salvou a vida e as armas do jovem Alcibíades, fazendo jus ao prêmio de coragem e bravura.

Em todos esses combates a todos o saperólogo excedeu em coragem, bravura e resistência, suportando estoicamente a fome, a fadiga e o frio. E assim fica definitivamente comprovado que os veritólogos e os saperólogos não são lunáticos, como muitos dizem, pelo contrário, são homens detentores dos mais nobres atributos.

Na Apologia, Sócrates compara o seu período no serviço militar aos seus problemas no tribunal, em que ele foi condenado à morte, dizendo que qualquer pessoa no júri que imagine que ele deveria se retirar da Saperologia deveria também imaginar que os soldados devessem bater em retirada quando era provável que pudessem morrer em uma batalha. Estrabão conta que, após uma derrota ateniense em que Sócrates e Xenofonte haviam perdido os seus cavalos, Sócrates encontrou Xenofonte caído no chão, tendo-o carregado nos ombros por vários campos, até que a batalha terminou.

Os estudiosos descrevem a sabedoria de Sócrates através de três grandes correntes de profundos pensamentos:

  1. A crítica aos sofistas;
  2. A arte de questionar;
  3. A compreensão intelectiva do ser humano.

Sócrates refutava a consideração sofista de que a aretê, ou seja, a virtude, podia ser transmitida e absorvida oral e diretamente para as pessoas, pois acreditava que a virtude era uma questão de inspiração, entendendo-se por inspiração a intuição do Astral Superior, e não de parentesco, pois pais que eram dignos não tinham filhos semelhantes a eles. Isto talvez tenha sido a causa de os estudiosos afirmarem, equivocadamente, que ele não se importava muito com o futuro dos seus próprios filhos. Ora, qual é o pai que seja realmente digno que não se importa com o futuro dos seus próprios filhos? Além do mais, o estudo da virtude ética se inicia praticamente com Sócrates, para quem a virtude é o fim da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana, assim como a virtude moral se iniciou praticamente com os veritólogos pré-socráticos, no âmbito da Grécia.

Ele acreditava que o melhor modo para as pessoas viverem era se concentrando no próprio desenvolvimento pessoal, quer dizer, na evolução espiritual, ao invés de buscarem a riqueza material. Deste modo, convidava a todos a se concentrarem na amizade e em um sentido de comunidade, pois acreditava que este era o melhor modo de se crescer com a população, no que estava absolutamente correto, já que a amizade é a produção do ser humano na propriedade da Luz, que depois se converte na produção do amor, ambos de natureza espiritual. As suas ações são provas incontestes disso, pois no fim da sua encarnação aceitou a sentença de morte quando todos acreditavam que fugiria de Atenas, uma vez que acreditava que não podia fugir da sua comunidade. Acreditava que os seres humanos possuíam certas virtudes latentes em seus espíritos, virtudes essas que diziam respeito diretamente à sabedoria, e não à verdade, tendo por base o órgão mental denominado de intelecto. E nesse afã, dizia que a virtude era a mais importante de todas as coisas.

E tanto isto procede, que Platão e Xenofonte concordam com a descrição da simplicidade dos seus hábitos, assim como da grandeza do seu caráter, uma vez que ele se contentava com uma simples túnica surrada para o ano inteiro, preferindo andar descalço a usar sandálias e sapatos, o que faz lembrar a Jesus, o Cristo. A total ausência da febre aquisitiva, que sempre agitou aos seres humanos em todos os tempos, para ele era algo estapafúrdio, uma vez que se sentia rico em sua pobreza, já que as maiores riquezas deste mundo são a verdade e a sabedoria, por onde se alcança a razão, e sabedoria ele tinha para dar e vender, como se diz comumente por aí, preferindo, no entanto, dar a vender, sendo assim completamente diferente dos sofistas, que preferiam vendar a dar. Em sua tão decantada pobreza, estava certa vez sem qualquer recurso a passear pelo mercado, e vendo lá a imensa quantidade de artigos expostos à venda, manifestou-se da seguinte maneira:

Como são numerosas as coisas de que eu não preciso!”.

Todos os relatos a respeito da sua vida comprovam que ele era um modelo de moderação e autodomínio, já que jamais preferiu o prazer à virtude, sendo tão sábio que jamais se enganou no distinguir o melhor do pior e nem em discernir o caráter alheio e, ao mesmo tempo, exortá-lo à virtude e a honra, o que dava a impressão de que nenhum homem poderia ser melhor ou mais feliz que ele. No tocante à sua simplicidade, Platão, que foi a encarnação imediatamente anterior à encarnação de Jesus, o Cristo, assim diz:

Foi ele, realmente, o mais sábio, o mais justo e o melhor de todos os homens que conheci”.

Na grandeza da sua sabedoria, sendo realmente um verdadeiro modelo de moderação e autodomínio, sabia beber como um gentleman, sem recorrer a nenhum ascetismo para se manter sóbrio. Em relação à bebida, vem Sócrates, em Xenofonte, afirmar o seguinte:

No que se refere à bebida, o vinho realmente umedece a alma e adormece os nossos desgostos… Mas desconfio que os corpos dos homens em muito se assemelham ao das plantas… Quando Deus dá de beber às plantas com água em excesso, elas não podem se manter eretas e deixar que as brisas as embalem, mas quando bebem o necessário para apreciar o gosto da água, crescem eretas e altas e frutificam com vigor e abundância”.

Sócrates não era dado ao isolamento, apreciando as boas companhias, consentindo até que os ricos o hospedassem de vez em quando, mas não lhes era subserviente e muito menos lhes prestava obediência, pois vivia muito bem sem eles, chegando até a recusar os convites dos magnatas e dos reis. E assim o grande saperólogo foi um homem realmente feliz, pois que a sabedoria lhe bastava, para que assim ensinasse sem rotina, bebesse sem ficar tonto e viesse a desencarnar antes da senilidade, praticamente sem qualquer sofrimento.

A sua moral e a sua ética eram as mais elevadas possíveis, sendo, portanto, um homem verdadeiramente educado, por isso era muito difícil se exaltar, embora houvesse ficado inflamado à frente de Carmides, tendo se controlado, limitando apenas a indagar se o formoso mancebo também seria dono de uma alma nobre. Mas a sua ética se sobressaía em relação à sua moral, pelo fato dele ser um saperólogo, e não um veritólogo, tanto que após haver desencarnado, Xenofonte a ele se referiu da seguinte maneira:

Tão justo, que jamais prejudicou homem algum no mais insignificante assunto… tão moderado, que jamais preferiu o prazer à virtude; tão sábio, que jamais se enganou em distinguir o melhor do pior; tão hábil no discernimento do caráter alheio e no exortá-lo à virtude e a honra, que dava a impressão de que nenhum homem poderia ser melhor ou mais feliz que ele”.

E Platão se referiu a ele da seguinte maneira:

Foi ele, realmente, o mais sábio, o mais justo e o melhor de todos os homens que conheci”.

Os seres humanos se encontram cá neste mundo Terra para que possam interagir uns com os outros, para que os menos evoluídos possam aprender com os mais evoluídos, quando conseguem reconhecer o valor daqueles que lhes são superiores em termos de evolução, embora todos que aqui se encontram encarnados sejam aparentemente iguais uns aos outros, em termos de valor, pois que em termos de importância todos são realmente iguais uns aos outros, sendo por isso que Sócrates gostava de ensinar, pois todos os homens dignos que realmente têm valor sentem prazer em repassar os seus acervos de valores para os seus semelhantes.

Em seus ensinamentos, Sócrates adotava um método: o método socrático; onde prevalece a arte de questionar, exigindo muito do raciocínio, que consiste em uma técnica de pesquisa saperológica, através da qual se faz uso de perguntas simples e, aparentemente, quase ingênuas, que têm por objetivo revelar as contradições que se apresentam na forma de pensar do seu interlocutor, quando este expõe as suas representações imaginativas relativas às perguntas, que são normalmente baseadas em valores e preconceitos oriundos da cultura local, para logo a seguir ele mesmo redefinir tais valores e preconceitos, ensinando a todos a pensarem por si mesmos, ministrando uma verdadeira educação mental, para que assim a nossa humanidade pudesse libertar as suas mentes do cotidiano da vida, ainda muito atrasado.

Desta maneira, o notável saperólogo agia de modo totalmente contrário ao modo de como sempre agiram os sacerdotes, os quais insistem em aprisionar as mentes dos seus arrebanhados, tornando-os dóceis “cordeirinhos”, para que assim, totalmente acretinados, possam servi-los humildemente em tudo aquilo que lhes agradem, já que possuem a pança bem maior e bem mais desenvolvida do que a consciência da razão de estar neste mundo para evoluir.

Para Sócrates, a compreensão intelectual do ser humano deveria ser limitada à sua própria ignorância acerca da verdade, que ainda não se estabelecera neste mundo, de onde deveria prevalecer a pura sabedoria, que se encontrava latente em cada um dos seres humanos, somente visível aos olhos da consciência, daí a sua célebre frase: “Só sei que nada sei”. Como que antecipando ao próprio Jesus, o Cristo, ele acreditava que os erros eram provenientes da ignorância humana, apesar de nunca haver se proclamado como sendo um sábio. Quanta simplicidade! Assim, a sua intenção era conduzir as pessoas a tomarem a consciência das suas próprias ignorâncias, dos seus próprios desconhecimentos acerca dos segredos da vida e dos enigmas do Universo, quando dizia: “Conhece-te a ti mesmo”.

Se algo pode ser destacado acerca do espírito de Sócrates é que ele foi moralmente, eticamente e intelectualmente extremamente evoluído, mas apresentando um certo desnível no desenvolvimento do seu criptoscópio em relação ao seu intelecto, o que não significa que este não fosse também bastante desenvolvido. A luz da sua consciência era também destaque nos seus predicados, já que ele considerava a imortalidade da alma como sendo o princípio da sua encarnação neste mundo, pela simples razão de haver afirmado acertadamente que teria recebido uma missão especial dos deuses para ser cumprida aqui na Terra, entendendo-se como deuses os espíritos que formam a plêiade do Astral Superior.

Na obra intitulada de O Banquete, de Platão, Sócrates revela que foi a sacerdotisa Diotima de Mantinea, uma médium, que o iniciou nos conhecimentos e na genealogia do amor, o que comprova a importância da mediunidade para transmitir mensagens importantes do Astral Superior, que não devem ser confundidas com mensagens provenientes do astral inferior manifestadas nas sessões do credo espírita, todas situadas no âmbito do sobrenatural. Assim, as mensagens mediúnicas de Diotima de Mantinea estão na origem do conceito socrático-platônico do amor. Também na mesma obra, no discurso de Alcibíades, descreve-se o amor entre Sócrates e Alcibíades, que nada tem a ver com a tão famosa “amizade” entre os gregos, já que se trata do amor puramente espiritual.

Como Sócrates era ciente da sua missão neste mundo, o que denota toda a sua espiritualidade, espiritualidade esta situada no mais elevado nível, a sua concepção era de que as ideias pertenciam a uma esfera do tempo que somente os sábios conseguiam compreender, compreendendo-se aqui a esse tempo socrático como sendo o Tempo Futuro, em decorrência, fazendo com que o saperólogo viesse a se tornar o perfeito governante para um Estado. Assim, ele se opunha à democracia aristocrática que era praticada em Atenas durante a sua época, cuja ideia surge nas Leis de Platão, que era seu discípulo. Como era completamente avesso à demagogia, supunha que ao se relacionar com os membros do parlamento, que eram demagogos, a própria pessoa estaria se fazendo de hipócrita.

Foi Sócrates a grande mentalidade que representou o divisor de águas entre a Veritologia surgida no Período Doutrinário, cujos veritólogos buscavam os conhecimentos acerca da verdade na natureza, e a Saperologia, cujos saperólogos buscavam as experiências físicas acerca da sabedoria no ambiente cultural da época, provocando assim uma ruptura sem precedentes na história da cultura grega. Daí a razão dos estudiosos haverem considerado a essa divisão entre o que eles consideram filósofos pré-socráticos e pós-socráticos, provocando assim também a mescla entre a Veritologia e a Saperologia, já que ainda hoje ignoram a existência daquela, somente estabelecida neste mundo por intermédio do Racionalismo Cristão, uma doutrina situada estritamente no âmbito espiritualista, agora completada por um sistema e por uma finalidade no site pamam.com.br, que são os pré-requisitos básicos para que a verdade e sabedoria coordenadas possam alcançar finalmente a razão no seio da nossa humanidade.

Por isso, enquanto os veritólogos do Período Doutrinário, também denominados de naturalistas, procuravam desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, tendo por base unicamente a natureza, através da própria natureza, no que estavam absolutamente corretos, já que desprezavam corretamente o irracionalismo proveniente do sobrenaturalismo, do misticismo e dos dogmas, os saperólogos do Período Sistemático, inclusive o próprio Sócrates, procuravam a realidade da vida do ser humano neste mundo, procurando resolver os seus problemas, mesmo ignorando os conhecimentos metafísicos acerca da verdade.

É certo que os sofistas deram as suas parcelas de contribuição para o desenvolvimento da intelectualidade grega, pois sendo originários de várias cidades, viajavam pelas pólis, onde discursavam em público e ensinavam as suas artes, como a retórica, sempre em troca de pagamento. Mas o grande problema dos sofistas é que eles faziam raciocínios capciosos, uma espécie de raciocínio falacioso, através dos quais havia uma refutação aparente, um silogismo sofístico, em cujos raciocínios se procurava defender uma tese, um ponto de vista, mesmo que não fosse verdadeiro, mas considerado como se o fosse, através de argumentos ardilosos, aparentemente corretos, com a intenção de induzir ao erro, enganando ou silenciando o oponente, em que Sócrates se assemelhava intelectualmente a eles, exceto no pensamento, que era muito superior, muito mais elevado, pelo fato dele ser um saperólogo, por isso ele buscava a realidade da vida, através da sabedoria, mesmo sem a verdade.

No pensamento sofista tudo deveria ser avaliado segundo os interesses do homem e da forma como ele via a realidade social, dentro da sua própria subjetividade, o que indica a máxima do sofista Protágoras, que assim se expressou:

O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”.

Essa corrente de pensamentos sofistas indica que as leis morais, os princípios éticos, as decisões políticas e os relacionamentos sociais deveriam ser voltados unicamente para a conveniência individual, em detrimento do que deveria ser a realidade social. Para alcançar a esse fim, os sofistas se valiam de discursos até convincentes, mesmo sendo falsos ou sem maiores conteúdos, utilizando-se de complicados jogos de palavras em seus discursos para demonstrar a certeza daquilo que pretendiam demonstrar. Nesse afã, os sofistas destruíam os fundamentos de tudo o que deveria ser a realidade social que havia sido alcançado, já que tudo seria relativo e os valores seriam meramente subjetivos, assim como também impediam o estabelecimento de um conjunto de normas de comportamento que garantisse os mesmos direitos para todos os cidadãos.

No pensamento socrático há o abandono da preocupação de simplesmente explicar com retórica e o engajamento de se concentrar no problema profundo do ser humano, o que o levou a travar uma polêmica acirrada com os sofistas, já que ele procurava um fundamento racional para as mais complexas interrogações humanas, tais como: O que é o bem? O que é a virtude? O que é a justiça? O que é a felicidade? Enquanto que os sofistas situavam as suas argumentações a partir dos dados empíricos, sem se preocuparem com o fundamento racional de pesquisa e investigação de uma essência do bem, da virtude, da justiça, da felicidade, etc., a partir do qual a própria realidade empírica pudesse ser devidamente avaliada.

Foi assim que Sócrates contribuiu, sobremaneira, com a Saperologia, estimulando aos seus interlocutores para que estes se apercebessem das exteriorizações das evidências que se manifestavam no interior das suas almas, questionando e sugerindo os assuntos que eram abordados. Conhecer-se a si mesmo seria conhecer ao deus que havia em cada um, já que todos nós somos partículas da Essência do Ser Total, embora ele próprio ignorasse a esta realidade universal. Assim, fazendo com que cada um procurasse se conhecer a si mesmo, foi o que mais evidenciou o destaque de Sócrates, através do seu método empregado para poder fazer valer o emergir da sabedoria a partir de questionamentos e sugestões acerca da realidade. O seu grande legado para a nossa humanidade reside, sobretudo, na sua convicção inabalável de que mesmo as questões mais abstratas admitem uma análise racional por parte do intelecto.

Não há qualquer prova de que Platão tenha criado os encontros de Sócrates com Parmênides, Górgias, Pródico, Hípias e Trasímaco, tanto quanto as palestras disso resultantes. Mas com toda certeza conheceu o veritólogo Anaxágoras, pois Arquelau, também veritólogo, discípulo de Anaxágoras, foi durante algum tempo o mestre de Sócrates, ao qual transmitiu a origem e a base da moral em linhas racionalistas, com ele apreendendo tudo e, posteriormente, bastante respaldado, transmitindo, por sua vez, a origem e a base da ética. Por estas duas veredas atingiu ele o auge da Saperologia, e daí por diante encontrou o seu maior bem nas conversas cotidianas sobre a virtude, examinando-se a si próprio e aos outros, pois que para ele uma vida não estudada e meditada se torna indigna de um homem de bem.

E assim lá se foi o notável saperólogo pela vida afora, imiscuindo-se nas crenças dos homens, crivando-os de perguntas, exigindo respostas precisas e argumentos coerentes, fazendo-se o terror daqueles que não sabiam raciocinar com clareza, já que assim fazia revelar quais eram os mais sábios e quais eram os mais néscios, protegendo-se sabiamente dos contra-ataques oponentes com a simples declaração de que nada sabia. Conhecia a todas as perguntas corretas, mas nenhuma resposta, o que o levava a criar os argumentos mais coerentes para as mais diversas respostas que a nossa humanidade jamais havia visto em toda a sua história, pelo menos nesta nossa civilização atual.

Foi quando tomou para si, em cumprimento à sua missão idealizada em plano astral, quando em seu Mundo de Luz, a procura pragmática das ideias claras e precisas, quando assim sabiamente se expressa:

Para benefício próprio provocava debates sobre tudo o que se relacionava com a humanidade, considerando o que era o piedoso ou o ímpio, o justo ou o injusto, o são ou o louco, a coragem ou a covardia, como também qual a natureza dos governos e quais as qualidades dos que governam os homens, e ainda sobre outros assuntos… cuja ignorância, em seu modo de pensar, reduzia os homens a escravos”.

Para cada representação imaginativa que fosse vaga e imprecisa, para cada generalização que fosse irrefletida, em que emergia um secreto preconceito, fruto da insipiência, o saperólogo tinha sempre um provocante para depois iluminar a tudo o que considerasse obscuro, com as suas sábias palavras.

Tornou-se-lhe um hábito salutar se levantar cedo e se dirigir ao mercado, aos ginásios, palestras ou oficinas, onde provocava discussões com todas as pessoas que lhe pareciam dotadas de alguma inteligência estimulante, ou mesmo de alguma estupidez divertida. Com o seu método denominado de maiêutica, começava sempre pedindo a definição de uma ideia, para a seguir analisar a definição, em geral para demonstrar a sua insuficiência, incoerência ou obscuridade, prosseguindo de pergunta em pergunta, até chegar a uma definição que fosse justa e completa, a qual, entretanto, sempre partia das suas argumentações. Às vezes prosseguia no debate até conseguir alcançar uma concepção geral, sempre expondo uma série de exemplos adequados ao caso, introduzindo uma certa dose de indução na lógica grega. Por vezes, com a célebre ironia socrática, revelava as pueris consequências da definição ou opinião que desejava demolir. Dominava-o a produção do pensamento metódico e costumava classificar as coisas individuais de acordo com os gêneros, espécies e diferenças específicas, preparando dessa forma o terreno para a teoria das ideias de Platão e para o método de definição de Aristóteles.

Quando alguém era detentor de um raciocínio mais agudo, como Crícias, tentava inverter os papéis, apenas o interrogando, e Sócrates, ao invés de responder, desviava a discussão com outra pergunta, e imediatamente reconquistava a superioridade do debate. Mas em Protágoras se dispõe a responder, ao invés de interrogar, mas a boa resolução não durou mais que um instante. Protágoras, entretanto, com a sua longa prática do jogo da lógica, calmamente fugia com a mente. Já Hípias se enfurece com a sutileza de Sócrates, quando assim se expressa:

Por Zeus! Não saberás a minha resposta enquanto tu mesmo não declarares o que pensas da justiça, porque não é bastante que te rias dos outros, interrogando e confundindo a todos, enquanto te recusas a dar explicações a quem quer que seja ou a declarar a tua opinião sobre qualquer assunto”.

A tais manifestações desse gênero, Sócrates replicava não passar de um parteiro, assim como a sua mãe, ao que dizia:

A queixa constantemente lançada contra mim de que faço perguntas aos outros e sou incapaz de respondê-las é muito justa. A razão está em que o deus me obriga a ser parteiro, mas me proíbe de dar a luz”.

Esse deus de Sócrates, deve-se sempre ressaltar, é o seu daemon, ou seja, refere-se diretamente aos espíritos de luz que formam a plêiade do Astral Superior, que o assistiam no cumprimento da sua missão neste mundo.

Mas apesar das queixas, os seus discípulos lhe dedicavam uma profunda amizade, ao que tudo indica até um amor espiritual, que foi por ele mesmo despertado, é o que se evidencia com as suas próprias palavras dirigidas a um deles, assim:

Talvez eu possa te ajudar no encontro da honra e da virtude, dada a nossa mútua disposição amorosa, pois sempre que concebo uma afeição por alguém, empenho-me com ardor, e com todo o meu espírito, em amar e ser amado, em lhe sentir a ausência e fazê-lo sentir a minha, em desejar a sua companhia e fazê-lo desejar a minha”.

Em sua obra intitulada de Nuvens, Aristófanes representa os discípulos de Sócrates como que formando uma escola e tendo um lugar certo para as reuniões. E um trecho de Xenofonte empresta algum colorido a esta informação. Mas geralmente descrevem Sócrates a ensinar onde quer que encontrasse um discípulo ou um ouvinte.

Mas nenhum sistema comum unia os seus seguidores, uma vez que diferiam tão amplamente entre si que se tornaram líderes das mais diversas escolas que posteriormente se fundaram na Grécia, como o platonismo, o cinismo, a cirenaica, o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo. Sobre Platão, Sócrates deixou vincos tão duradouros que os dois espíritos permaneceram para sempre fundidos na história da Saperologia. E para demonstrar a grandeza espiritual do saperólogo, cujas radiações dos mais elevados pensamentos afetavam beneficamente a todos que o rodeavam, Alcibíades assim se manifestou sobre o fato:

Quando ouvimos qualquer outro homem falar, ainda que seja tido como hábil dialético, as suas palavras, em comparação com as tuas, não produzem o mínimo efeito em nosso espírito. Entretanto, até os fragmentos das tuas palavras, Sócrates, ainda que de segunda mão e imperfeitamente transmitidos, assombram e arrebatam as almas de todos os homens, mulheres e crianças que os ouvem… E estou certo de que se eu não tivesse tapado os ouvidos e fugido à tua voz de sereia, ter-me-ia conservado preso aos teus pés até à velhice… Senti em minha alma a maior das ânsias, mais violenta na ingênua mocidade do que a picada de serpente: a ânsia da Saperologia… E vós, Fedro, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristódemo, Aristófanes, vós todos, sim, e não é necessário dizer que Sócrates também, todos vós haveis experimentado a mesma loucura e a mesma paixão pela Saperologia”.

Emergindo auspiciosamente, através do método socrático se revelava a própria realidade da Saperologia, que por ela desencarnou o seu autor. E era mesmo tão real a sua sabedoria, tão diferente da verdade, que Sócrates jamais ousou colocar o seu criptoscópio em ação para perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, e como esta ainda não havia sido percebida, captada e transmitida pelos veritólogos no seio da nossa humanidade, ele se recusou a dogmatizar e só tinha certeza de uma única coisa: da sua ignorância. No entanto, acreditava com convicção nas mensagens espirituais transmitidas pelas médiuns nos oráculos, bem como nas mensagens do Astral Superior que lhe eram dirigidas através das intuições e dos sonhos. Ele arguía existirem muitos exemplos do determinismo, para que não se possa atribuir o mundo ao acaso, à coincidência, ou mesmo a uma causa sobrenaturalmente irracional. Por isso, ele era convicto da imortalidade da alma, quando na Apologia diz o seguinte:

Se porventura eu me considerasse mais sábio que os outros homens, atribuiria isso à convicção que tenho da insuficiência dos meus conhecimentos do outro mundo, quando na realidade não tenho nenhum”.

No Cratylus, utilizando-se da expressão deuses, mas sempre se referindo aos espíritos de luz que formavam a plêiade do Astral Superior, ele diz que “Nada sabemos com respeito aos deuses”. E como era um saperólogo e não um veritólogo, aconselhava sabiamente aos seus discípulos a não discutirem sobre tais assuntos, pois que era ciente da insuficiência do intelecto para tanto, e tal como Confúcio, que também era um saperólogo, perguntava-lhes se já conheciam tão bem os problemas humanos para se considerarem aptos para resolver os do céu. A melhor coisa a fazer, dizia ele, é reconhecermos a nossa ignorância, e nesse meio tempo ir obedecendo ao oráculo de Delfos, cujas mensagens dos espíritos integrantes do Astral Superior eram transmitidas pela Pítia, uma médium, o que comprova a sua alta espiritualidade e a sua convicção nas mensagens espirituais transmitidas através da mediunidade.

O certo é que a Veritologia tem por escopo desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, servindo assim de fonte para que com base nesses profundos conhecimentos a Saperologia possa resolver os problemas da vida, fornecendo as diretrizes para o viver humano. Então, sem a sua fonte da verdade, Sócrates buscou se aprofundar ainda mais no estudo do caráter e dos objetivos humanos, tentando de qualquer maneira, ou melhor, ao seu modo, resolver ou atenuar os problemas humanos. Assim, a Saperologia vem se apresentar sem a Teologia, a mais inútil de todas as inutilidades, uma vez que neste mundo nós não podemos compreender a Perfeição, o Infinito, o ilimitado, que representam o Todo, que é a Inteligência Universal, ou Deus, como queiram, haja visto que tudo isso se situa acima da compreensão comum existente neste mundo, já que a Teologia se encontra carregada de antropomorfismo, geralmente voltada para Jeová, o deus bíblico, que não passa de um espírito trevoso que aparecia a médiuns videntes e ouvintes, como foram os casos de Abraão e Moisés. Não se pode admitir que o Todo venha a aparecer a quem quer que seja.

Como a moral na Grécia Antiga era artificial, comumente denominada de moral utilitária, por ter como esteio a crença no sobrenatural, Sócrates conseguiu apreender a grande influência sofista na história da cultura grega, que foi justamente o enfraquecimento da base sobrenatural da moral. Então procurou compensar a esse enfraquecimento da base moral sobrenatural, implantando as mais profundas questões que poderiam ser propostas pela ética, já que era possível a implantação de uma ética natural, com a moralidade, por outro lado, podendo sobreviver sem a crença no sobrenatural. Para tanto, argumentava que o bem não é bem porque os deuses o tenham aprovado, mas que os deuses o aprovaram por ser o bem, proporcionando assim uma revolução saperológica.

Então a sua concepção do bem não tinha nada de teológica, revelando-se humana e sumamente útil ao comportamento dos homens. O seu pensamento era que a bondade não tinha nada de geral e abstrata, mas específica e prática. Assim, a ignorância da virtude é que levava os homens ao egoísmo, já que eles nunca fazem aquilo que sabem ser errado, insensato e prejudicial a si mesmos, no entanto fazem aos outros, notadamente à coletividade, como a corrupção, que ainda hoje reina nos dias de hoje, para a grande tristeza dos homens dignos e honestos. O maior bem é a felicidade, e o grande meio de consegui-la se encontra na inteligência do espírito. Daí a grande importância da evolução espiritual, pois que é através dela que o espírito vai desenvolvendo a sua inteligência, já que somos inteligência da Inteligência Universal, e marchamos acelerado para a nossa plenitude inteligencial.

A dialética de Sócrates foi transmitida através de Platão para Aristóteles, o qual a transformou em um sistema de lógica tão bem concebido que permaneceu inalterado durante quase vinte séculos. Por intermédio dos seus discípulos, as inúmeras sugestões dos seus pensamentos se fizeram a substância de todas as escolas dos próximos dois séculos. Transformou-se para a história grega em um mártir, e todas as gerações que daí por diante buscaram um modelo de vida simples e de grande valor intelectual, voltaram-se para a sua memória, nela encontrando a inspiração para os seus ideais. Em relação à grande elevação espiritual de Sócrates, Xenofonte diz o seguinte:

Contemplando a sabedoria e a nobreza de caráter de Sócrates, considero além das minhas forças esquecê-lo e, recordando-o, não consigo deixar de louvá-lo. E se alguém dentre os que fizeram da virtude o objetivo da vida, jamais entrou em contato com pessoa superior a Sócrates, a esse alguém eu consideraria digno de ser chamado o mais feliz dos homens”.

Eis aqui mais uma comprovação incontestável da evolução espiritual!

Os pensamentos socráticos são posições éticas que vão frontalmente contra as posições comuns praticadas tanto naquela época como nos dias de hoje. Quando ele dizia que a virtude é um conhecimento, não queria se referir aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, mas sim à moral e a ética, que faz do ser humano alguém verdadeiramente educado. Quando ele dizia que ninguém faz o mal voluntariamente, estava se referindo à ignorância humana, que por desconhecer a virtude não sabia praticá-la, uma vez que a virtude e a sabedoria são inseparáveis uma da outra. Quando ele dizia que as virtudes constituem uma unidade, estava se referindo simultaneamente à moral e a ética, que tornam o ser humano verdadeiramente educado, conforme já posto anteriormente. Quando ele dizia que é preferível sofrer injustiça do que cometê-la, queria dizer que é preferível ser vítima do mal do que praticá-lo, daí a razão dele também dizer que jamais se deve responder a injustiça com a injustiça, nem fazer mal a outrem, nem mesmo àquele que nos fez mal. É ou não é o pensamento socrático um pensamento autenticamente cristão? Ressaltando-se que o pensamento autenticamente cristão nada tem a ver com o falso cristianismo praticado pelo catolicismo e pelas suas seitas protestantes.

Quando a Guerra do Peloponeso estourou na Grécia, todos os homens entre 15 e 45 anos de idade foram recrutados para a luta. Pela sua imensa habilidade em fazer as pessoas o seguirem, Sócrates foi escolhido como um dos generais, como já é sabido. Ao final da guerra, com a sábia intenção de salvar aos poucos soldados que ainda estavam vivos, o sábio ordenou que todos voltassem rapidamente para Atenas, mas deixassem os mortos no campo de batalha, contrariando assim a uma lei que obrigava ao general enterrar a todos os seus soldados mortos, ou morrer nessa tentativa. Assim, ao chegar ele é preso. Mas se utilizando de toda a sua capacidade de persuasão, consegue convencer a todos de que era preferível deixar alguns mortos do que morrerem todos, uma vez que se todos morressem, ninguém poderia enterrá-los. Desta maneira ele consegue a sua liberdade.

E assim ficou livre por mais trinta anos, quando então foi preso novamente, sendo acusado de três crimes, a saber:

  1. Não acreditar nos costumes e nos deuses gregos:
    • Sócrates não era adepto do sobrenatural e nem tampouco era submisso ao que quer que fosse, mas não era cético, tanto que seguia os oráculos de Delfos e tinha também o seu daemon, o que prova que ele era verdadeiramente um espiritualista.
  2. Unir-se aos deuses malignos que gostam de destruir as cidades:
    • Se Sócrates seguia tanto o oráculo de Delfos como tinha também o seu daemon, sendo, portanto, um espiritualista, torna-se óbvio que ele considerava aos deuses da cidade como sendo malignos, o que o eram na realidade.
  3. Corromper os jovens com as suas ideias:
    • Na realidade, o que Sócrates procurava era incutir nas mentes das pessoas com quem dialogava, a plena independência de pensamento, tornando-os sóbrios e altivos, não se deixando levar pela demagogia política da época.

Ora, o fato é que tão logo as ideias de Sócrates foram se espalhando pela cidade, ele angariava cada vez mais e mais discípulos. Assim, os antigos professores foram ficando revoltados, pois assim pensavam:

Como um homem poderia ensinar de graça e pregar que não se precisavam de professores como eles?”.

E mais: estando assim revoltados e com as suas mentes obscurecidas pela revolta, eles não concordavam com os pensamentos de Sócrates, o qual dizia que para se acreditar em algo, era preciso antes verificar se aquilo realmente era procedente, em conformidade com os ditames postos pela autêntica sabedoria, que faz valer também a consciência. Em razão disso, logo Sócrates começou a fazer vários inimigos, causando assim uma grande intriga.

Quando os seus inimigos o acusaram de não reconhecer os deuses do Estado, cujos deuses eram espíritos obsessores quedados no astral inferior, introduzir extravagâncias demoníacas e corromper aos jovens, Sócrates se adiantou e revelou a sua alta espiritualidade, através das instruções que recebia diretamente do Astral Superior e das mensagens mediúnicas oriundas dos templos, quando então disse:

E como pretender que eu introduza extravagâncias demoníacas, quando digo me advertir a voz de um deus do que deva fazer? Como também pela manifestação da pítia, na trípode, afirmando a vontade do deus? Que esse deus possui o conhecimento do futuro e o revela a quem lhe apraz, eis o que digo e comigo dizem e pensam todos”.

Os acusadores foram Anito, Meleto e Lícon. Anito era um líder democrático que tinha um filho discípulo de Sócrates, o qual ria dos deuses do pai e se voltava contra eles, e que representava a classe dos políticos, sendo também um rico tanoeiro, o que faz tonéis, barris e vasilhas semelhantes, que por isso representava os interesses dos comerciantes e industriais, sendo poderoso e influente. Meleto era um poeta trágico, ainda novo e desconhecido, sendo nomeado o acusador oficial, porém nada exigia que ele como acusador oficial fosse também o mais respeitável, o mais hábil ou o mais temível, mas apenas aquele que assinava as acusações, por isso representava a classe dos poetas e adivinhos. E Lícon era um retórico, e o seu nome teve pouca importância e autoridade no decorrer da condenação de Sócrates, em que representava a classe dos oradores e professores de retórica, mas ao que tudo indica pretendia a condenação do saperólogo em face do seu filho haver se deixado corromper moral e sexualmente por Callias, e este era um admirador de Sócrates, o qual nada tinha a ver com o fato, uma vez que a “amizade grega” era muito comum naqueles tempos.

Dada a Sócrates a chance de se defender das acusações, o notável saperólogo revela toda a sua capacidade intelectiva de pensamento, pois em sua defesa mostra que as acusações eram contraditórias, questionando assim:

Como posso não acreditar nos deuses e ao mesmo tempo me unir a eles?”.

Mas Sócrates se referia aos deuses que eram representados pelos espíritos de luz que integravam a plêiade do Astral Superior, e não aos deuses que eram representados pelos espíritos trevosos que se encontravam quedados no astral inferior, os quais eram reverenciados pelos cidadãos que habitavam Atenas. Logo a seguir, ele se proclama atado a uma divina missão, o que era certo, a de pregar o bem e a vida simples, através da Saperologia, e no cumprimento dessa sua divina missão ameaça alguma o deteria, quando assim se expressa:

Estranha seria a minha conduta, ó homens de Atenas, se eu que, sob as ordens dos generais que escolhestes para me comandar em Potideia, Anfípolis e Délio, permaneci, enfrentando a morte, no posto que me deram, hoje, convicto de que Deus me impõe a missão de filósofo e me ordena que investigue o meu próprio íntimo e o dos outros homens, desertasse, premido pelo medo da morte… Se me dissésseis: ‘Sócrates, por esta vez dar-te-emos a liberdade, mas sob uma condição, a de abandonares o teu sistema de pesquisa‘; eu responderia: homens de Atenas, eu vos amo e vos honro, mas prefiro obedecer as ordens de Deus, e enquanto me restar vida e força, jamais deixarei de seguir e pregar a Filosofia, exortando ao meu modo todo aquele que cruzar o meu caminho. Ó meu amigo, como é possível que, sendo como és, cidadão da grande, poderosa e sábia Atenas, tanto te preocupes em acumular a maior soma de dinheiro, de honra e de reputação, e te mostres tão indiferente diante da sabedoria e da verdade. E agora, ó homens de Atenas, digo-vos que deveis fazer o que Anito pede, condenai-me ou me absolvei, mas qualquer que seja a vossa sentença, lembrai-vos de que nada afetará a minha conduta, nem mesmo que eu tenha de morrer muitas vezes”.

Ao que tudo indica, os juízes o interromperam nesta altura, intimando-o a desistir de uma atitude que lhes parecia insolente, mas o sábio continuou ainda com maior altivez:

Convém saberdes que se condenardes à morte um homem como eu, prejudicareis mais a vós do que a mim… Pois se me matardes não encontrareis com facilidade quem me substitua, sendo eu, como sou, se me permitis usar tão grotesca figura de retórica, uma espécie de moscardo enviado por Deus a este povo, e o Estado se assemelha a um grande e nobre corcel que, lerdo de marcha justamente devido ao peso, necessita de ferroadas que o espertem… E como estou certo de que não tereis facilidade em encontrar quem me substitua, aconselho-vos a me poupar”.

Em Atenas, os prítanes eram cada um dos cinquenta delegados nomeados anualmente pelas dez tribos para o conselho dos quinhentos, e o Pritaneu era o palácio da residência dos prítanes, onde também se hospedavam os visitantes ilustres e os beneméritos da pátria. Sócrates, então, disse que nada tão adequado como ser sustentado no Pritaneu, muito mais do que a qualquer um que haja vencido nas Olimpíadas uma corrida de cavalos, de bigas ou de quadrigas, pois este dava apenas uma impressão da felicidade, ele, a própria felicidade, aquele não carecia de sustento, ele carecia. Se, pois, que o sentenciassem com justiça e em proporção ao mérito, propôs para ele o sustento no Pritaneu. E aqui vamos encontrar a tão decantada ironia socrática, que para os seus acusadores era ironia, mas que em seu próprio pensamento retratava a realidade da situação, no que ele estava absolutamente correto.

Mas, mesmo assim, o tribunal, que foi constituído por 501 cidadãos, condenou-o. Não de imediato a morte, pois sabiam que se o condenassem à morte, milhares de jovens iriam se revoltar. Em razão disso, condenaram-no a se exilar para sempre, ou a lhe ser cortada a língua, impossibilitando-o assim de ensinar aos seus semelhantes. Meu Deus, quanta ignorância! Como pode alguém querer impedir que um sábio venha a ensinar aos seus próprios semelhantes! Caso se negasse, ele seria morto. Após receber a sua sentença, olvidando do desterro, Sócrates assim se pronunciou:

Vocês me deixam entre duas escolhas: uma que eu sei ser horrível, que é viver sem poder passar os meus ensinamentos adiante; a outra, que eu não conheço, que é a morte… escolho, pois, o desconhecido”.

E aqui Sócrates vem demonstrar uma coragem impressionante, própria das grandes mentalidades que encarnam para alavancar o progresso humano, ao revelar que não temia de modo algum o desconhecido. Entretanto, deve-se aqui ressaltar, o notável saperólogo era plenamente ciente acerca da espiritualidade, pois que ele obedecia tacitamente às mensagens proferidas pela Pítia, uma médium, do oráculo de Delfos, que ele sabia eram advindas da mais alta espiritualidade. Além do mais, ele também ouvia vozes que eram provenientes da mais alta espiritualidade, orientando-o para pautar as suas ações em conformidade com a virtude, assim como também em sonhos, o que ocorreu também com Descartes e outros. E aqui eu indago: que tratamento os psiquiatras de plantão dariam para o fato do saperólogo ouvir vozes? E que tratamento eles dariam a Joana D’Arc, pelo fato dela ver e ouvir as suas “santas”?

Então as três acusações impróprias de que fôra acusado, foram proferidas por Meleto, um dos seus acusadores, da seguinte maneira:

… Sócrates é culpado do crime de não reconhecer os deuses pelo Estado e de introduzir novas divindades. Ele ainda é culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte”.

Ouvindo a sentença de morte, Sócrates logo a seguir assim se expressou:

Eu vos predigo, portanto, a vós juízes, que me fazeis morrer, que tereis de sofrer, logo após a minha morte, um castigo muito mais penoso, por Zeus, que aquele que me infligis me matando. Acabais de me condenar na esperança de ficardes livres de dar contas da vossa vida. Ora, é exatamente o oposto que vos acontecerá, asseguro-vos… Pois se vós pensardes que matando as pessoas impedireis que vos reprovem por viverem mal, estais em erro. Esta forma de se desembaraçarem daqueles que criticam não é nem muito eficaz e nem muito honrosa”.

Ele também afirmou aos atenienses que o julgaram que lhes era grato e que os amava, mas que obedeceria antes aos deuses do que a eles, pois enquanto tivesse um sopro de vida, poderiam estar seguros de que não deixaria de saperologar, tendo como a sua única preocupação andar pelas ruas, a fim de persuadir aos seus concidadãos, moços e velhos, a não se preocuparem nem com o corpo e nem com a fortuna, mas tão somente com a alma, a fim de torná-la tão boa quanto possível. Eis aqui uma prova incontestável acerca da evolução espiritual, que somente os cegos propositais não podem enxergar, assim como também uma prova incontestável da verdadeira fé, a fé racional, que de modo algum deve ser credulária.

Sócrates, então, deixou o tribunal e foi conduzido para a prisão. Mas como existia uma lei que exigia que nenhuma execução acontecesse durante a viagem votiva — pertencente ou inerente ao voto — de um navio sagrado a Delos, ficou a ferros por trinta dias, sob a custódia de onze magistrados encarregados, em Atenas, da polícia e da administração penitenciária.

Durante esses trinta dias recebeu os seus amigos e conversou bastante com eles, declarando não querer absolutamente desobedecer às leis da pátria, recusando de pronto a ajuda dos amigos para fugir. E passou o tempo se preparando para o passo extremo e definitivo que iria dar nessa sua vida, em palestras espirituais com os seus amigos.

Chegado o momento da execução, pouco antes de beber o veneno, Sócrates, com a sua famosa ironia, para não perder o hábito, proferiu as suas últimas palavras:

Críton, somos devedores de um galo a Asclépio; pois bem, pagai a minha dívida. Pensei nisso!”.

Após essas palavras próprias do cotidiano da vida, ele bebeu a cicuta e, diante dos amigos, aos setenta anos, desencarnou através de uma execução por envenenamento. Quanta ignorância humana, meu Deus!

Platão, no seu livro Fédon, narrou a desencarnação do seu mestre da seguinte maneira:

Depois de assim falar, levou a taça aos lábios e com toda a naturalidade, sem vacilar em nada, bebeu até a última gota. Até esse momento, quase todos tínhamos conseguido reter as lágrimas; porém, quando o vimos beber, e que havia bebido tudo, ninguém mais aguentou. Eu também não me contive, pois chorei à lágrima viva. Cobrindo a cabeça, lastimei o meu infortúnio. Sim, porém não era por desgraça que eu chorava, mas sim à minha própria sorte, por ver de que espécie de amigo me veria privado. Críton se levantou antes de mim, por não poder reter as lágrimas. Apolodoro, que desde o começo não havia parado de chorar, pôs-se a urrar, comovendo o seu pranto e as suas lamentações até ao íntimo de todos os presentes, com a exceção do próprio Sócrates, que assim se expressou: O que é isso, gente incompreensível? Mandei sair as mulheres para evitar esses exageros. Sempre soube que só se deve morrer com palavras de bom agouro. Acalmai-vos! Sede homens! Ouvindo-o falar dessa maneira, sentimo-nos envergonhados e paramos de chorar. E ele, sem deixar de andar, ao sentir as pernas pesadas, deitou-se de costas, como recomendara o homem do veneno. Este, a intervalos, apalpava-lhe os pés e as pernas. Depois, apertando com mais força os pés, perguntou se sentia alguma coisa. Respondeu que não. Em seguida, sem deixar de lhe comprimir a perna, do artelho para cima, mostrou-nos que começava a ficar frio e a enrijecer. Apalpando-o mais uma vez, declarou-nos que no momento em que aquilo chegasse ao coração, ele partiria. Já se lhe tinha esfriado quase todo o baixo-ventre, quando, descobrindo o rosto, pois o havia tapado antes, disse, e repetiu as suas últimas palavras: “Críton, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida! Assim farei, respondeu Críton. Vê se queres dizer mais alguma coisa. A essa pergunta já não respondeu. Decorrido mais algum tempo, deu um estremeção. O homem, então, o descobriu. Mas ele já tinha o olhar parado. Percebendo isso, Críton lhe fechou os olhos e a boca. Tal foi o fim do nosso amigo, que entre todos os que nos foi dado conhecer era o melhor e, também, o mais sábio e o mais justo”.

É muito difícil descrever os últimos momentos da encarnação de Sócrates, uma vez que ela somente é relatada por seus amigos. No entanto, digna de registro é a pérola seguinte:

Mas eis a hora de partir: eu para a morte, vós para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo ninguém o sabe, exceto os deuses”.

Eis talvez a melhor prova da espiritualidade do notável saperólogo, a sua firme convicção de que somos eternos e que nos encontramos neste mundo apenas temporariamente, comprovando por inteiro o preceito da reencarnação. Ele mesmo afirma que no curso da sua vida foi visitado por um mesmo sonho, embora não fosse da mesma maneira que ele sempre se manifestava, mas o que lhe dizia era invariável: “Sócrates”, dizia-me ele, “deves te esforçar para compor música”; e assim se expressou o saperólogo:

Palavra! Sempre entendi que o sonho me exortava, incitava-me a fazer o que justamente eu fiz na minha encarnação passada”.

E mais: no Fédon, Sócrates dá razões de ser convicto acerca da imortalidade da alma, pois quando foi condenado à morte, comentou alegremente que no outro mundo poderia fazer perguntas eternamente sem ser condenado a morrer, porque era imortal. Que grande homem! Por que tantos seres humanos de relativa inteligência ainda duvidam da evolução espiritual, pondo-se sujeitos ao arrebanhamento sacerdotal, tornando-se acretinados sem o serem no íntimo, na realidade?

O julgamento e a execução de Sócrates são eventos centrais das obras de Platão, que se evidenciam em Apologia e em Críton. Sócrates admitiu que poderia ter evitado a sua condenação, caso tivesse desistido da sua vida justa, e mesmo depois da condenação poderia ter evitado a sua desencarnação, caso tivesse escapado com a ajuda de amigos. Mas optou por não abdicar da vida justa e a não fugir, cumprindo assim a lei da sua cidade.

Ao que tudo indica, Platão considerou que Sócrates foi condenado por questões meramente políticas. Enquanto que Xenofonte, por seu lado, atribuiu as acusações a Sócrates a um fato de ordem puramente pessoal, mais especificamente pelo desejo de vingança. Mas, na realidade, o propósito não era simplesmente a morte de Sócrates, mas sim afastá-lo de Atenas. E se isso não ocorreu, deveu-se ao fato do saperólogo ser obediente às ordens superiores, seguindo à risca as determinações advindas do Astral Superior.

Vejamos o que diz o estudioso Jean Brun sobre todo esse episódio:

O processo e a condenação de Sócrates testemunham o perigo que a ignorância faz correr ao saber, que o mal faz correr à virtude. Mas este perigo não é senão aparente, pois, na realidade, é o justo que triunfa dos seus carrascos. Se bem que seja vítima deles, o triunfo de Sócrates sobre os seus juízes data do dia da sua execução”.

Sócrates sofrera a pena de morte, mas o estímulo que havia dado à Saperologia foi o suficiente para fazer de Atenas, daí por diante e a despeito de si própria, o centro e o zênite do pensamento grego. O que antes no Período Doutrinário, através das quatro escolas veritológicas, fôra informes tentativas de investigação que diziam respeito aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, iria amadurecer nos grandes corpos de doutrinas destinados a agitar a Europa dos séculos futuros, e o ensino superior dispensado a esmo pelos sofistas seria substituído pelas primeiras universidades da história, que fariam de Atenas, como Tucídides bem cedo a classificara, a escola da Helade.

Como se pode constatar plenamente, até com sobras, Sócrates foi um autêntico sábio, portanto, um verdadeiro saperólogo, que fazia valer plenamente o seu intelecto, ao transmitir as experiências físicas acerca da sabedoria, uma vez que ele preferiu confessar a sua ignorância, a medrar nos caminhos dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que não era propriamente a sua seara, o seu campo de atuação neste mundo. Ao contrário dos veritólogos que o antecederam, os quais enfrentaram a ignorância das suas épocas, repelindo o sobrenatural, buscando na própria natureza os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, revelando-se como sendo os pioneiros da Veritologia. Por isso não devem ser jamais criticados, pois que abrir as veredas na densa floresta da ignorância é missão para poucos, apenas para aqueles que são detentores de grandes mentalidades.

 

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