13.05.02- O Período Sofista

A Era da Sabedoria
3 de outubro de 2018 Pamam

Muitos consideram a Grécia como sendo sinônimo de Atenas, mas o fato é que nenhum dos grandes veritólogos helênicos que pertenceram ao Período Doutrinário, o qual precedeu ao Período Sistemático, que se inicia com o grande saperólogo Sócrates, pertenceram a essa cidade, e depois dele somente o notável saperólogo Platão. A sorte de Anaxágoras, acusado de impiedade, tendo por isso partido para a Jônia, e de Sócrates, acusado de três crimes, quais sejam: 1) Não acreditar nos costumes e nos deuses gregos; 2) Unir-se a deuses malignos que gostavam de destruir as cidades; 3) Corromper os jovens com as suas ideias; indicam que o conservantismo credulário era mais forte em Atenas do que nas colônias gregas, onde a separação geográfica havia rompido uma parte desses laços tradicionais. E talvez Atenas houvesse se mantido um tanto quanto obscura, caso não fosse o desenvolvimento da cosmopolita classe mercante e a afluência dos sofistas.

Os debates na assembleia, os cidadãos repartidos em distritos territoriais que elegiam o Aerópago, o grande conselho de supervisão, que julgava os acusados de subverter a Constituição, e a crescente necessidade de uma intelectualidade mais acentuada e de uma clareza de expressão voltada para a intelectualidade, cujo órgão mental denominado de intelecto faz sobressair a compreensão e a criação, conspiraram com a riqueza e a curiosidade para criar a exigência de algo que ainda era desconhecido na Atenas anterior a Péricles: um sistema de educação superior em literatura, oratória, ciência, estadismo e, principalmente, em Saperologia; uma vez que os corpos de doutrina relativos aos conhecimentos metafísicos já se encontravam posto pelos veritólogos que formaram as quatro escolas veritológicas do Período Doutrinário, não importando se eles diziam respeito realmente à verdade.

Em princípio, essa exigência intelectual não foi atendida pela criação de universidades, mas por defensores ambulantes que alugavam salas de preleções, dispensando nelas os seus ensinamentos e passando em seguida a outras cidades, onde as repetiam. Alguns desses intelectuais, como Protágoras, denominavam-se a si próprios de sophistai, cujo termo é derivado da palavra sophia, que significa sabedoria, como se eles fossem realmente professores da sabedoria. Essa palavra era aceita em sentido equivalente ao que hoje damos ao nosso professor universitário, e não implicou em nenhum desdouro antes que o conflito entre a Saperologia e o credo desencadeasse sobre os sofistas os ataques dos conservadores, e o comercialismo de alguns dos atacados levasse Platão a lhes obscurecer o nome com a acusação de venalidade, hoje ligada à palavra sofista.

Como em toda a Grécia só haviam encarnado geralmente os espíritos dedicados à Veritologia, fazendo valer a supremacia dos seus criptoscópios, era preciso que, após essa leva de percepções criptoscópicas, viesse a emergir a intelectualidade humana, fazendo-se valer a compreensão na cultura grega. Era assim uma espécie de Renascença da Grécia!

Os seres vulgares alimentavam um vago desapreço por esses professores, pois o preço elevado do ensino da lógica e da retórica que dispensavam somente era acessível aos que detinham posses, aos quais davam grandes vantagens no julgamento das suas causas nas cortes. É verdade que os mais célebres sofistas, assim como acontece hoje em dia em qualquer campo com os profissionais de maior habilidade, exploravam aos seus clientes o mais que lhes fosse possível, já que, infelizmente, essa é a grande lei humana que em toda a parte rege o preço. Protágoras e Górgias exigiam dez mil dracmas pela educação de um único aluno. Mas os sofistas menos importantes se contentavam com remunerações mais razoáveis. Pródico, famoso em toda a Grécia, exigia de uma a cinquenta dracmas pela admissão em seus cursos. Mas valia a pena pagar o preço exigido por ensinamentos tão peculiares.

Os maiores sofistas foram Protágoras, Górgias, Hípias e Pródico, pois, segundo os estudiosos, os outros sofistas não se mostravam tão piedosos, já que os estudiosos afirmam que Antífon de Atenas seguiu Demócrito na senda do materialismo e do ateísmo, como se o grande veritólogo realmente os fosse, e definiu a justiça em termos de oportunismo, enquanto que Trasímaco da Calcedônia, ao darmos crédito à autoridade de Platão, identificou o Direito com o poder, e observou que o êxito dos maus põe em dúvida a existência dos deuses.

Em resumo, podemos afirmar que os sofistas devem ser classificados entre o Período Doutrinário e o Período Sistemático gregos, pois foram eles os criadores da gramática e da lógica na Europa, desenvolveram a dialética, analisaram as formas de argumento e ensinaram aos homens como perceber e praticar a falácia. Graças aos seus estímulos e exemplos, o raciocínio se tornou o ponto dominante entre os gregos. Com a aplicação da lógica à linguagem, promoveram a clareza e a precisão do pensamento, facilitando assim a exata transmissão dos conhecimentos provenientes do Período Doutrinário. Foi por intermédio deles que a prosa passou a ser uma forma de literatura e a poesia apenas um veículo da linguagem. Analisavam tudo aquilo que lhes vinha às mãos, recusando-se a aceitar as tradições que não resistiam à prova dos sentidos ou a lógica da dialética, colaborando decisivamente no movimento racionalista que, entre as classes intelectuais, destruiu a antiga credulariedade da Helade.

Por outro lado, o papel dos sofistas nas deteriorações da moral e da ética foi mais contributivo do que básico, já que a riqueza por eles propalada, sem os auxílios da Veritologia e da Saperologia, põe termo à virtude e ao estoicismo, acelerando a desintegração. Mas apesar dos sofistas serem homens de bom caráter e de vida honrada, não transmitiam aos seus discípulos as tradições da verdade e da sabedoria que os fizeram ou os conservaram virtuosos, a despeito de terem descoberto a origem secular e a geográfica mutabilidade da moral.

Definir a moral e a ética em termos de religião e de ciência, respectivamente, ou mesmo o valor humano, como fez Protágoras uma geração antes de Sócrates, equivalia a um forte estímulo ao pensamento, mas abalava o caráter, pois a acentuação do saber elevou o nível educacional dos gregos, mas não desenvolveu a inteligência como um todo tão rapidamente quanto libertou o intelecto. A proclamação da relatividade dos conhecimentos não tornou os homens modestos, como seria de se esperar, mas predispôs cada um deles a se considerar a si próprio a medida de todas as coisas, já que todo jovem inteligente passou a se sentir capaz de julgar o código moral e ético do povo, e até de rejeitá-lo se não pudesse compreendê-lo ou aprovar, conquistando assim a liberdade de racionalizar os seus desejos como virtudes de uma alma emancipada.

Esse individualismo um tanto inescrupuloso transformou a lógica e a retórica dos sofistas em um instrumento de chicana legal e demagogia, e fez com que o largo cosmopolitismo inicial descambasse para uma prudente relutância na defesa da pátria, ou uma pronta e descarada facilidade para vendê-la a quem mais desse. Até mesmo alguns saperólogos se juntaram ao ataque contra os sofistas. Sócrates os condenou, do mesmo modo que Aristófanes iria condenar Sócrates, por darem aos erros a sedução da lógica e a persuasão da retórica, e os desprezou pelo comercialismo. Sócrates justificou a sua própria ignorância gramatical, alegando que não pudera se matricular no curso de cinquenta dracmas de Pródigo, mas apenas no de uma dracma, o qual só dispensava rudimentos daquela matéria, então, em um instante talvez de mau humor, empregou uma impiedosa e reveladora comparação da seguinte maneira:

É crença entre nós, Antífon, ser possível dispor da beleza ou da sabedoria tanto honrosa como desonrosamente, pois se alguém vende a sua beleza por dinheiro a quem quer que se disponha a comprá-la, os homens o classificam de prostituído, mas se se torna amigo de uma pessoa que o honra e admira, nós o consideramos prudente. De igual modo, aquele que vende o seu saber por dinheiro a quem o queira comprar, recebe a pecha de sofista, ou seja, prostituidor da sabedoria, mas se se torna amigo de uma pessoa meritória e lhe ensina tudo o que sabe de bom, nós o consideramos um cidadão honrado e bondoso”.

Os sofistas tinham a sua aretê. Aretê é uma palavra de origem grega que expressa o conceito grego de excelência, que se liga à noção de cumprimento de uma função ou de um propósito a que a pessoa se destina, no que diz respeito à perfeição ou a virtude de uma pessoa. Assim, o termo aretê se identifica com aquilo que permite uma pessoa viver bem ou de modo bem sucedido. Para Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a cada um se destina, ou seja, aquilo que no âmbito objetivo é a realização da própria essência do ser, e no âmbito subjetivo deve coincidir com a própria felicidade. Para Aristóteles, as várias virtudes consistem em saber como alcançar um meio termo entre os atributos opostos que se situam no escasso ou no excesso. Assim, na Grécia Antiga, de um modo geral, aretê significava também a coragem e a força para enfrentar as vicissitudes da vida, transpondo a todos os obstáculos, sendo, portanto, uma virtude a que todo aspiravam; ou mesmo a qualidade de um determinado objeto que era capaz de funcionar a contento. Pode-se, assim, fazer as comparações entre os termos aretê e resiliência.

As promessas de ensino por parte dos sofistas sofreram também ataques veementes de outros saperólogos, em que nesses ataques eram expressos que todo cidadão que pudesse pagar, poderia aprender uma técnica de argumentação para as suas teses e pontos de vista, tornando-se assim um orador eficaz. Porém, para Platão a aretê em si não pode ser ensinada, como que a dizer que ela somente pode ser aprendida no decorrer da existência, nas longas jornadas da vida, através do estudo, do sofrimento e do raciocínio, que são as modos de se evoluir, desta maneira os saperólogos, nas suas lutas constantes em busca da sabedoria, argumentavam contra a aretê dos sofistas.

Aristóteles prosseguiu no ataque, definindo o sofista como um homem ansioso por enriquecer à custa da sua aparente sabedoria, e acusou Protágoras de prometer emprestar à pior razão a aparência da melhor, haja visto que a paidea — denominação do sistema de educação e formação moral e ética da Grécia Antiga — sofista, para os saperólogos, não passava de uma mera aparência, em que Aristóteles deixa isso bem claro em suas Refutações Sofísticas, ao afirmar que os sofistas eram negociantes de uma sabedoria que não era a real.

Outro que expressa o seu descontentamento com os sofistas é Isócrates, em que a sua obra intitulada de Contra os Sofistas já deixa revelar todo o seu descontentamento, quando se referindo aos sofistas diz que todos querem dizer a verdade no ramo da educação, e por fazerem promessas que não podem cumprir são difamados pelos cidadãos.

Já o comediógrafo Aristófanes procurou mostrar a corrupção dos sofistas, que ensinavam o uso da palavra com o intuito de manipulá-la, degradando assim os valores morais e éticos da sociedade. Em sua peça As Nuvens, critica a nova educação da pólis, enfatizando a satisfação dos imediatismos pelos interesses pessoais dos seus interlocutores, o que acabava por formar cidadãos propensos a contrariar as leis e a justiça. Nessa sua peça, o sofista é representado pelo personagem “raciocínio injusto”, o qual promete ensinar a maior das artes, a defender as razões mais fracas e fazê-las prevalecer.

Toda essa crítica dos saperólogos em relação aos sofistas era baseada no fato de que eles faziam raciocínios capciosos, uma espécie de raciocínio falacioso, através dos quais havia uma refutação aparente, em que assim havia também um silogismo aparente, um silogismo sofístico, em cujos raciocínios se procurava defender uma tese, um ponto de vista, mesmo que não fosse verdadeiro, mas considerado como se o fosse, através de argumentos ardilosos, aparentemente corretos, com a intenção de induzir ao erro, enganando ou silenciando o oponente. Não se deve confundir o sofismo com o paralogismo, que é apenas um raciocínio falso, mas realizado de boa fé, pela falta da consciência de sua falsidade.

É certo que as queixas relativas às taxas do ensino cobradas pelos sofistas eram injustas, já que não haviam subsídios estaduais, então não havia outro meio de financiar a instrução superior. Se os sofistas criticavam as tradições morais e éticas, por certo que o faziam sem má intenção, pois eles julgavam estar libertando as pessoas da escravidão da cultura reinante. Eram, pois, os representantes intelectuais da época, compartilhando do anseio geral pela liberdade do pensamento. Por força da inevitabilidade da evolução, sempre chega em todas as nações o momento em que os velhos costumes hão que ser revistos, pois que as sociedades devem se reajustar às irresistíveis modificações culturais e econômicas.

Os sofistas foram os instrumentos dessa modificação cultural da Grécia, em que prevaleceu o intelecto no meio da cultura do povo, mas deixaram de fornecer a sabedoria e a cultura moral e ética, necessárias a esse reajustamento, notadamente com os reflexos nos estadistas. No entanto, os sofistas têm ao seu favor o fato de haverem estimulado vigorosamente o hábito do pensamento intelectual, que antes era mais dedicado ao sentimento criptoscópico, por conseguinte, a maneira de analisar os conhecimentos transmitidos pelos veritólogos do Período Doutrinário. De todos os recantos do mundo grego trouxeram para Atenas novos pensamentos e novos desafios, despertando-a para a consciência da razão e para a maturidade saperológica.

No âmbito da intelectualidade, sem os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles não teriam sido os grandes saperólogos que realmente foram, pois que foram eles que forneceram os parâmetros entre uma intelectualidade altamente desenvolvida, mas desprovida de sabedoria, e uma outra intelectualidade ainda mais desenvolvida, porém provida de sabedoria.

 

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