13.05.02.03- Hípias de Élis

A Era da Sabedoria
3 de outubro de 2018 Pamam

Hípias de Élis encarnou no ano 460 a.C., em Élis, cidade próxima de Olímpia, e desencarnou no ano 400 a.C., com a idade de apenas sessenta anos, cuja desencarnação teve relação com a guerra que os exilados democratas elisinos fizeram aos oligarcas que detinham o poder de Élis. Foi contemporâneo de Sócrates e casado com uma mulher cujo nome era Platané, com a qual teve três filhos.

A maior parte das informações sobre o sofista são provenientes dos Diálogos de Platão, os quais contam que ele tinha uma boa memória e que era dado a se gabar por ser o sofista que mais dinheiro ganhou com as suas aulas, já que os sofistas, ao contrário dos pitagóricos, costumavam cobrar pelos seus trabalhos intelectuais. Nos Memorabilia de Xenofonte ele é descrito como sendo alguém cheio de si, que se considera profundo conhecedor de tudo, passando pela História e Literatura e englobando ciências e até artesanato, já que se iniciou na vida nos ofícios manuais, mais especificamente com os trabalhos de tecelão e de sapateiro.

Na realidade, tal gabarolice tem a sua real procedência, pois se o conjunto dos sofistas formava uma espécie de universidade dispersa entre eles, Hípias de Élis sozinho era quase que uma própria universidade, representando um tipo de polímata — aquele que estuda ciências diversas — em um mundo em que os conhecimentos ainda pouco amplos permitiam que um mesmo espírito os abarcasse a quase todos. Foi em razão da sua grande erudição que ele ensinou Astronomia e Matemática e enriqueceu a Geometria com contribuições originais. Era também poeta, músico e orador. E ainda dissertava sobre literatura, moral e política. Além disso, foi historiador e lançou os alicerces da cronologia grega, compilando uma lista de vencedores nos jogos olímpicos. Conhecia tantas artes e profissões ao ponto de fazer com as suas próprias mãos todas as roupas e acessórios que usava.

Em virtude da sua alta erudição e da sua elevada intelectualidade, além do seu imenso talento oratório e da sua grande destreza, desempenhando uma atividade dupla de mestre e de político, foi enviado por Élis a outras cidades em missões diplomáticas. No desempenho dessas suas missões diplomáticas percorreu toda a Grécia e as suas colônias, além de visitar os povos tidos como sendo bárbaros, cuja língua parece haver aprendido.

Pouca coisa restou dos seus numerosos escritos. Contudo, as suas obras podem ser divididas em três categorias, a saber:

  1. Os discursos de circunstância, dentre as quais se sabe da existência do Diálogo Troiano;
  2. As obras eruditas, dentre as quais se sabe da existência das Nomes dos Povos, Lista dos Vencedores nos Jogos Olímpicos e Coleção;
  3. As obras poéticas, dentre as quais se sabe da existência de Elegias.

Existem ainda outras obras que lhe são atribuídas, dentre as quais Anônimo de Jâmblico, que já faz parte da coleção dos textos sofísticos. Mas a sua obra no campo da Saperologia foi muito pequena, uma vez que ele não era um saperólogo, mas teve certa importância, já que protestou contra o artificialismo degenerador da vida nas cidades, demonstrou o contraste entre a natureza e as leis positivadas, as quais denominou de “os tiranos da humanidade”.

É um fato que os sofistas em geral se apoiavam geralmente nos estudos veritológicos e saperológicos, inclusive Hípias de Élis, que exaltava a natureza face ao nomos, palavra grega que entra na composição de algumas palavras e que também significa lei, regra ou norma, daí a exaltação às leis da natureza. Assim, bem apoiado pela Veritologia e pela Saperologia, ele consegue conceber a natureza como sendo uma totalidade natural, não monolítica, ou seja, tal como uma rocha agregada uniformemente com os mesmos materiais aplicados, mas muito pelo contrário, formando o Universo composto por seres múltiplos e variados, os quais são particularizados e qualificados, ao que ele denomina acertadamente de coisas, faltando apenas completar que todas as coisas são provenientes da Coisa Total. Estas coisas existem independentemente do conhecimento que o homem delas adquire e da expressão linguística que lhes fornece.

A intuição que esse grande intelectual recebe do Astral Superior o fez conceber que o Grande Todo vibra em uníssono, faltando apenas a complementação de que Ele também radia e radiovibra, o que explica a sua rejeição por toda a forma de separatismo e, principalmente, da cisão entre o ser concreto e a essência, ou seja, entre a alma, formada pelos corpos fluídicos e de luz, e o espírito.

A sua concepção acerca da continuidade dos seres é exprimida pela adoção do grande princípio de Empédocles. A semelhança une os seres e realiza uma espécie de sutura para unir ou juntar as partes de um todo, o que hoje denominamos de lei da afinidade e princípio da atração. O conhecimento intelectual ou sensível é um encontro entre as coisas, porque somente o Universo que proporciona uma continuidade das coisas pode se dar a conhecer. Em consequência, o verdadeiro saber deverá estabelecer a imagem e a semelhança do cosmos, como um todo.

Para Hípias de Élis, o conhecimento deve se desenhar pela estrutura da realidade posta pela natureza. Por aqui se pode compreender claramente que os veritólogos do Período Doutrinário, que trataram acerca da natureza e do cosmos, exerceram uma imensa influência na mente do sofista. Deste modo, ele vai solidificando um realismo natural, isento de sobrenaturalismos e de misticismos, dando início à formação de um ambiente propício a um otimismo epistemológico, ou seja, de um estudo crítico aos conhecimentos metafisicos que haviam sido transmitidos pelas escolas veritológicas do Período Doutrinário. Assim, o fundamento da racionalidade vai nele encontrar uma base sólida.

No caso de ligarmos a Hípias de Élis a história natural do ser humano, estudado anatômica e fisiologicamente, como fazendo parte da série animal, e também tanto o estudo das raças e das variedades humanas como o estudo do homem como ser moral, iremos constatar que todos esses aspectos antropológicos se encontram no prolongamento direto da sua teoria da natureza, já que ele estabelece uma diferenciação entre a natureza e a lei, com esta regendo e agindo em benefício daquela, razão pela qual a lei positivada é duramente posta em causa, em virtude de ser incapaz de instaurar uma verdadeira justiça.

Assim, ele considerava a lei positivada como sendo um disfarce para os homens poderem exercer o poder. E sendo ele um dos criadores do aspecto científico que estuda a divisão da humanidade em raças com as suas origens, distribuições, relações e traços característicos, ou, simplesmente, etnologia, como diplomata e professor itinerante, teve contato com muitas legislações positivas, o que lhe possibilitou verificar os desacordos e as contradições. Então ninguém era mais apto do que ele para poder avaliar a relatividade daquilo que as diferentes culturas denominavam de “justo” e de “bom” para o povo. É por isso que ele destrona as leis positivadas e as denomina de “os tiranos da humanidade”.

E não somente a lei positivada tiraniza a humanidade, mas também tiraniza a própria natureza, violentando-a, pois para ele a natureza engloba ou desempenha o papel das leis morais universais, as quais devem ser exercidas, por ultrapassarem o particularismo das leis positivadas. Hípias de Élis se utiliza desta concepção para poder explicar a existência de uma benevolência espontânea que existe do ser humano para com o seu semelhante, por intermédio da qual a natureza cria uma socialidade, mas que precisamente a própria sociedade destrói. Então ele adentra na seara do direito natural, por intermédio do qual a natureza humana pode estabelecer uma sociedade digna. A sua invocação da natureza tem a pretensão de obter como resultado a sua exigência de igualdade entre os seres humanos.

A explicação para esse pensamento de Hípias de Élis é que existem as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais. Mas acontece que os seres humanos vivem presos ao ambiente fluídico terreno, sendo cativos das suas próprias imaginações, então eles não conseguem transcender a esse ambiente fluídico terreno em busca do Espaço Superior, para que lá possam adquirir a percepção da busca pelas leis espaciais, não conseguem transcender a esse ambiente fluídico terreno em busca do Tempo Futuro, para que lá possam adquirir a compreenção da busca pelos princípios temporais, assim como não conseguem transcender a esse ambiente fluídico terreno em busca do Universo, para que lá possam adquirir a consciência da busca pelos preceitos universais, desconsiderando o fato de que o planeta Terra faz parte integrante do Universo.

Deste modo, os seres humanos procuram estabelecer as suas próprias leis e os seus próprios princípios, olvidando dos preceitos. Assim, eles procuram estabelecer as suas próprias legislações, codificando-as, que servindo para regular as vidas dos cidadãos em sociedades, tornam-se positivadas. Tudo isso não passa de um simples arremedo da legislação universal, daí a razão da crítica de Hípias de Élis à legislação positivada, que para ele deveria ser naturalista.

Hípias de Élis era favorável à democracia, mas pretendia que ela fosse reformada, baseado na ideia de que o cosmopolitismo é movido pelo regime democrático, ao qual os grupos humanos mais competentes devem integrar e não serem excluídos. Com efeito, protestou contra o seu sistema de acesso às magistraturas, o qual podia permitir, temporariamente, o poder aos incompetentes. Constata-se que o seu grande intelectualismo se inclina em favor da democracia esclarecida.

Enquanto detentor de um intelecto bastante desenvolvido, muito poderoso em comparação com a quase totalidade dos demais intelectuais da sua época, e em face ao seu cosmopolitismo, ele se globaliza e se torna aberto a todas as técnicas que lhe surgem, provando que a posse de ofícios particulares não prejudica necessariamente aos conhecimentos intelectuais em geral, por isso ele não era de modo algum uma espécie de generalizador superficial que muitos julgam ver nele, pois era detentor de um espírito aberto que construiu um sistema do qual, infelizmente, só podemos entrever através de escassos fragmentos que nos foram legados, mas que evidenciam as suas amplas perspectivas e a sua autêntica originalidade.

A afirmação da continuidade natural, ou seja, da ligação não interrompida das partes de um todo, parecem explicar as investigações matemáticas de Hípias de Élis quanto à retificação do círculo, quer dizer, torná-lo reto ou em alinhamento, através da criação da quadratriz, uma curva que serve para resolver o problema da trissecção do ângulo, a sua divisão em três partes, e o da quadratura aproximada do círculo. A quadratura em geometria é a redução geométrica de alguma figura curvilínea a um quadrado equivalente em superfície, podendo ser a quadratura do círculo ou a quadratura de qualquer curva. A realidade será contínua se não há vazio no Universo, o que logicamente não há. Para isso, ele considera o Universo como sendo esférico, que por isso deve conter em si volumes com arestas retilíneas, enchendo estas totalmente a esfera. Isto implica na possibilidade de se passar de um volume cúbico a um volume esférico, problema que se reduz, em geometria plana, ao da quadratura do círculo.

Papo de Alexandria, no livro IV da sua obra intitulada de Synagoga, coleção matemática, menciona uma das mais antigas curvas conhecidas, a primeira depois da reta e da circunferência. Proclo e outros estudiosos da antiguidade atribuem a sua descoberta a Hípias de Élis. A trissetriz de Hípias de Élis, que determina a trissecção, em que cada uma das duas linhas formam a trissecção, encontra-se representada na figura abaixo:

No quadrado ABCD da figura, seja o lado AB deslocado para baixo uniformemente a partir da sua posição inicial até coincidir com DC. Suponhamos que esse movimento leve o mesmo tempo que o lado DA leva para girar em sentido horário da sua posição presente até coincidir com DC. Se as posições dos segmentos são dadas em um instante fixado qualquer por A’B’ e DA’’, respectivamente, e se P é o ponto de interseção de A’B’ e DA’’, o lugar descrito por P durante esses movimentos será a trissetriz de Hípias de Élis, a curva APQ na figura. A curva permite a trissecção de um ângulo com facilidade, pois se PDC é o ângulo a ser trissectado, dividimos em três os segmentos B’C e A’D com os pontos R, S, T e U. Se os segmentos de reta TR e US cortam a trissetriz em V e W, respectivamente as retas VD e WD dividirão o ângulo PDC em três partes iguais.

A descrição fornecida por Papo de Alexandria sobre a principal propriedade desta curva torna bastante admissível que ela tenha sido captada durante as tentativas de trissecção do ângulo. Os estudiosos do assunto conjecturam que Hípias de Élis sabia que a curva poderia ser utilizada na quadratura do círculo, mas que não podia prová-lo. Posteriormente, a curva foi utilizada por Dinóstrato para realizar a quadratura e por isso ela também é denominada de quadratriz. Deve-se notar que o processo de construção da trissetriz envolve uma definição por via cinemática, que estuda os movimentos através de uma mecânica racional.

 

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