13.05.02.02- Górgias

A Era da Sabedoria
3 de outubro de 2018 Pamam

Górgias encarnou em Leontino, uma colônia grega na Sicília, local que frequentemente é denominado de terra natal da retórica grega, em 480 a.C., e desencarnou no ano 380 a.C., em Larissa, na Tessália, com a idade de cem anos. Juntamente com Protágoras de Abdera, formou a primeira geração de sofistas. Diversos doxógrafos relatam que teria sido discípulo de Empédocles, embora tenha sido apenas alguns anos mais jovem do que ele. Como outros sofistas, estava continuamente mudando de cidade, praticando e fornecendo demonstrações públicas de suas habilidades em diversas cidades, como também nos grandes centros pan-helênicos como Olímpia e Delfos, cobrando por suas apresentações e por aulas. Uma característica especial das suas apresentações consistia em ouvir questões da plateia sobre todos os assuntos e respondê-las sem qualquer preparo. O seu principal legado foi ter levado a retórica desde a sua Sicília natal para a Ática, e contribuir com a difusão do dialeto ático como idioma da prosa literária. Antístenes, fundador do Cinismo, foi seu ouvinte e Platão escreveu um diálogo intitulado de Górgias, onde discute a função e a validade da retórica.

Górgias levou avante a revolução cética de Protágoras, mas teve o bom senso de passar a maior parte da sua encarnação fora de Atenas. Tornou-se na Sicília tão célebre como orador e professor de retórica, que em 427 a.C. foi enviado a Atenas pelos seus compatriotas na função de embaixador, acabando por se fixar permanentemente lá, devido a enorme popularidade do seu estilo de oratória e dos benefícios financeiros que obteve com as suas apresentações e aulas de retórica. Nos jogos olímpicos de 408 a.C. arrebatou uma grande multidão com um apelo em que concitava os belicosos gregos a fazerem a paz entre si, a fim de enfrentarem com união e confiança o renascido poder da Pérsia.

Viajando de cidade em cidade, expunha os seus pontos de vista em estilo oratório tão cheio de requinte, tão simetricamente antitético em ideias e frases, tão delicadamente situado entre a poesia e a prosa, que não lhe foi difícil atrair um grande número de discípulos, os quais lhe ofereceram cem minas por um curso de instrução. De acordo com Aristóteles, entre os seus discípulos estava Isócrates. Outros dos seus estudantes foram indicados em tradições posteriores. A compilação bizantina Suda, lista Péricles, Polo e Alcídamas. Diógenes Laércio menciona Antístenes. E, de acordo com Filóstrato, o sofista atraiu a atenção dos homens mais admirados, como Crítias e Alcebíades, entre os jovens, e Tucídides e Péricles, entre os mais velhos. Até Agatão, o poeta trágico, a quem a Comédia considera sábio e eloquente, frequentemente “gorgianiza” em seu verso iâmbico na forma.

Ignorando logicamente a formação da inteligência humana, em que os seus três órgãos mentais são capazes de tudo o que seja humanamente possível, já que eles são espirituais, com o criptoscópio captando os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, através da percepção, com o intelecto criando experiências físicas acerca da sabedoria, através da compreensão, e com a consciência coordenando a ambos, em sua obra intitulada de Da Natureza, Górgias procurou provar três proposições, a saber:

  1. Que nada existe;
  2. Que se alguma coisa existisse seria incognoscível;
  3. Que se alguma coisa fosse cognoscível, o seu conhecimento não poderia ser transmitido de uma pessoa para outra.

Ao que tudo indica, essas proposições visavam desacreditar os conhecimentos veritológicos de Parmênides, já que com elas o sofista queria dizer o seguinte:

  1. Nada existe para além dos sentidos;
  2. Se alguma coisa existisse para além dos sentidos seria incognoscível, visto que todo conhecimento nos chega através dos sentidos;
  3. Se alguma coisa suprassensorial fosse cognoscível, o seu conhecimento seria incomunicável, desde que toda comunicação é feita por meio dos sentidos.

Esta última proposição é totalmente demolida pelo nosso grande Pe. Antônio Vieira, o qual não era sacerdote por natureza, como será devidamente explanado, ao adentrarmos na categoria A Era da Verdade, ainda neste site de A Filosofia da Administração, afirmando que o melhor retrato de cada um é aquilo que escreve, expressando-se da seguinte maneira:

O corpo se retrata com o pincel. A alma, que é tudo, retrata-se com a pena”.

Górgias foi o grande responsável pelas inovações retóricas envolvendo a estrutura e a ornamentação das palavras, como também da introdução da paradoxologia, o tratado acerca dos paradoxos, além da expressão paradoxal, proposição que é ou que parece contrária à opinião comum, o que proporcionou com que fosse chamado de O Pai da Sofística.

As obras de retórica de Górgias ainda em existência, como Encômio de Helena, Defesa de Palamedes, Sobre a Não Existência e Epitáfio, foram preservadas através de uma obra intitulada de Technai, um manual de instrução retórica que consistia de modelos a serem memorizados e demonstrava diversos princípios da prática retórica. Embora alguns estudiosos tenham alegado que cada uma dessas obras apresenta afirmações contrastantes, os quatro textos podem ser lidos como contribuições interrelacionadas à arte technai e à teoria da retórica, então promissora. Mas o certo é que apenas o Encômio de Helena e a Defesa de Palamedes se encontram em sua forma integral. Diversas de suas obras políticas, retóricas e discursos foram referenciadas e citadas por Aristóteles, incluindo um discurso sobre a unidade helênica, uma oração fúnebre pelos atenienses mortos na guerra e uma citação curta de um Encômio Sobre os Eleenses. Além destes, existem também paráfrases, ou seja, explicações desenvolvidas do texto de uma obra mantendo as ideias do original. Estas obras fazem parte da coleção Diels-Kranz e, embora os estudiosos considerem esta fonte confiável, muitas delas estão em estado fragmentário, ou mesmo corrompido, pois diversas questões foram levantadas a respeito da autenticidade e da exatidão dos textos que lhe são atribuídos.

Mas os escritos de Górgias são tanto retóricos como cheios de absurdidades, já que o autor desprende um grande esforço para exibir as suas habilidades de fortalecer uma posição argumentativa contra o senso. Consequentemente, cada uma das suas obras defende pontos de vista que eram impopulares, paradoxais e até mesmo absurdos, posto que são exemplificados pela maneira como ele aborda, jocosamente, cada argumento, com estratagemas estilísticos como a paródia, a figuração artificial e a teatralidade. O seu estilo argumentativo pode ser descrito como poesia sem a métrica.

Górgias argumentava que as palavras persuasivas tinham uma força equivalente às palavras dos deuses, e o mesmo impacto da força física. No Encômio de Helena, ele comparou o efeito da fala sobre a alma ao efeito das drogas sobre o corpo, quando disse o seguinte:

Assim como diferentes  drogas trazem à tona os diferentes humores do corpo, com algumas interrompendo uma doença, outras a vida, o mesmo ocorre com as palavras, já que algumas causam dor, outras alegria, algumas provocam o medo, algumas instilam em seus ouvintes a ousadia, outras tornam a alma muda e enfeitiçada com crenças más”.

Ele também acreditava que os seus “encantamentos mágicos” trariam cura à psiquê humana ao controlar as fortes emoções. Dedicava atenção especial aos sons das palavras, que, como na poesia, podiam cativar plateias. O seu estilo florido e rimado parecia hipnotizar aqueles que o ouviam. O seu lendário poder de persuasão sugere que tinha uma influência fora do comum sobre o seu público e as suas emoções.

Ao contrário de outros sofistas, especialmente Protágoras, Górgias não professava ensinar a aretê, a excelência ou virtude, pois acreditava não haver uma forma absoluta de aretê, mas que o conceito era relativo a cada situação, como na virtude de um escravo, que não equivalia à virtude de um estadista. Desta maneira ele confundia as virtudes com as qualidades. A sua crença era de que a retórica, a arte da persuasão, é a rainha de todas as ciências, na medida em que é capaz de persuadir qualquer curso de ação. Embora a retórica existisse no currículo de cada um dos sofistas, ele lhe atribuiu maior proeminência do que qualquer um deles.

Depois de gozar da hospitalidade e do dinheiro de muitas cidades, fixou-se na Tessália e teve a sabedoria de gastar antes de morrer a maior parte do dinheiro que ganhou. Quando se tornou um velho centenário, o seu corpo material não se deixou enfraquecer pela velhice, e em seus últimos dias de vida se encontrava em perfeita condição de saúde, com os sentidos quase exatamente como na madureza.

 

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