13.05.01.04.02- Demócrito

A Era da Sabedoria
3 de outubro de 2018 Pamam

Demócrito encarnou no ano 460 a.C., em Abdera, na Trácia, e lá desencarnou no ano 370 a.C., com a idade de noventa anos. Ele é tradicionalmente considerado pelos estudiosos como sendo um filósofo pré-socrático, apesar de não ser um filósofo, quer dizer um saperólogo, mas sim um veritólogo. No entanto, cronologicamente, os estudiosos consideram um equívoco, já que foi contemporâneo de Sócrates, mas didaticamente está correta a colocação, já que todos os pré-socráticos eram veritólogos, não importando a contemporaneidade. Há anedotas segundo as quais o veritólogo ria e gargalhava de tudo o que dizia, dizendo que o riso torna o ser humano sábio, o que o levou a ser conhecido na Renascença como “o filósofo que ri”.

Sendo filho de um homem abastado e de alta posição em Abdera, recebeu a herança paterna que foi quase toda consumida em viagens para lugares longínquos, como o Egito, a Etiópia, a Babilônia, a Pérsia, a Índia e Tebas, absorvendo assim a cultura de todos esses povos, quando finalmente se estabeleceu em Abdera. Em Tebas se demorou mais tempo para que pudesse absorver o atomismo numérico de Filolau. Fez ele a seguinte afirmativa:

Entre os meus contemporâneos, nenhum percorreu maior extensão de terras em busca das mais remotas coisas, nem visitou mais países, conheceu maior variedade de climas, ou ouviu maior número de pensadores. A pátria do homem sábio e bom é o mundo inteiro (grifo meu)”.

Em sendo esse veritólogo tradicionalmente considerado como pertencente ao Período Doutrinário, ou Período Pré-socrático, mais especificamente da Escola Atomista, não importando a cronologia, mesmo tendo sido ele contemporâneo de Sócrates, pois isto se justifica em razão de Sócrates haver praticado a sabedoria mais pura que já existiu neste mundo, diferentemente de Aristóteles, que compilou a todos os conhecimentos transmitidos pelas escolas pré-socráticas, ou seja, os seus corpos de doutrina, e sistematizou a todas essas doutrinas, dando início assim às ciências propriamente ditas. Nota-se claramente aqui que os conhecimentos metafísicos formam um corpo de doutrina, enquanto que as experiências físicas formam um corpo de sistema, tendo aquelas como sendo as suas legítimas fontes.

Sendo Demócrito um veritólogo por natureza, portanto, mais afeito à moral, passou a viver na maior simplicidade, dedicando-se inteiramente ao estudo e a contemplação da natureza, que era uma das características dos veritólogos do Período Doutrinário. Ele era discípulo e depois sucessor de Leucipo, sendo tão dedicado aos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que evitava a dialética e as discussões, tendo em sua grandeza veritológica declarado o seguinte:

Eu preferiria descobrir uma única demonstração a conquistar o trono da Pérsia”.

Diógenes Laércio nos fornece uma longa lista das suas publicações, que versavam sobre Matemática, Física, Astronomia, Navegação, Geografia, Música e Arte. Em razão dos seus conhecimentos variados, ou seja, da sua imensa erudição, em analogia Trasilo lhe chamou de pentatlo, que entre os gregos antigos era o conjunto dos cinco exercícios dos atletas: luta, corrida, salto, disco e dardo. E alguns dos seus contemporâneos lhe deram o próprio nome da sabedoria, pelo que se pode constatar desde então a mescla que sempre existiu entre a verdade e a sabedoria, mescla esta que se perpetua até aos dias de hoje.

O campo das especulações de Demócrito acerca dos conhecimentos era tão vasto quanto o das hipóteses acerca das experiências levantadas por Aristóteles, levando-se em consideração que este se utilizou dos conhecimentos que foram transmitidos pelos veritólogos do Período Doutrinário. E tanto isto procede que Francis Bacon o considerou o maior de todos os filósofos da antiguidade, pelo que assim se pode repetidas vezes constatar a mescla que sempre existiu entre a verdade e a sabedoria, ou seja, entre os conhecimentos e as experiências.

Assim como Parmênides, Demócrito principia com a crítica aos sentidos, dada a sua natureza de veritólogo, que trabalha mais com a percepção do que com a compreensão, afirmando que para fins práticos, ou seja, experimentais, podemos confiar nos sentidos, mas do momento em que começamos a lhes analisar as evidências, vemo-nos a retirar do mundo externo, uma após outra, as camadas de cor, de temperatura, de aroma, de sabor, de doçura, de amargor e de som, com que os sentidos os envolvem. Em sendo assim, para ele estas qualidades secundárias se encontram em nós mesmos, mas não devem ser consideradas no processo da percepção, nas coisas que são objetivas, pois em um mundo de surdos, a derrubada de uma floresta não causaria o menor barulho, e o oceano, ainda que agitado, seria silencioso.

Para ele, por convenção, o doce é doce, o amargo é amargo, o quente é quente, o frio é frio, a cor é cor, mas na verdade só existem átomos e vácuo. Por isso, os sentidos só nos proporcionam conhecimentos obscuros, ou opinião. O verdadeiro conhecimento só se adquire por meio da investigação, acrescentando-se aqui que a verdadeira experiência só se adquire por meio da pesquisa, pelo que afirma que nada sabemos, pois que a verdade está enterrada fundo, o que implica em dizer que ela sempre existiu, por isso não sabemos de nada certo, além das mudanças produzidas em nosso corpo pelas forças que com ele se chocam. Todas as sensações são produzidas pelos átomos projetados pelos objetos que tocam os nossos órgãos sensoriais. Todos os sentidos são formas de tato.

Para que possamos compreender mais a contento as teorias “a priori” transmitidas por esse notável veritólogo, torna-se necessário que antes venhamos a repisar o caminho da verdadeira teoria atômica, para que assim o seu pioneirismo possa ser devidamente avaliado.

Deus é o Todo, o que implica em dizer que nenhuma existência pode ser possível que venha a ser alheia à existência do Todo, pois, caso fosse assim, Ele não poderia ser o Todo. Deus, portanto, é formado de Substâncias, que se dividem em Essência e Propriedades. A Essência é o Ser Total, enquanto que as Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total. Neste raciocínio, Deus é Infinito, Perfeito e Ilimitado. Mas, em sendo assim, Ele não poderia ser o Todo, pois que Lhe faltariam os atributos da Finitude, da Imperfeição e da Limitação, o que se completa por intermédio dos seres, que são as partículas do Ser Total, ou, como queiram, as criaturas do Criador. Em sendo Deus o Todo, Ele então pode ser considerado como sendo a Inteligência Universal, em decorrência, os seres são também inteligências da Inteligência Universal, como não poderia jamais ser diferente.

Em sendo assim, os seres saltam do seio do Ser Total em busca das suas próprias individualizações pelo Universo, evoluindo por intermédio das propriedades da Força e da Energia, passando assim a formar os seus corpos fluídicos, quando então ingressam na atomicidade, tal como sendo seres hidrogênios, os seres mais finitos, imperfeitos e limitados que existem no Universo. Note-se aqui, que além de serem partículas do Ser Total, eles também já possuem parcelas das propriedades da Força e da Energia. Deste modo, Deus pode ser contemplado sob o ponto de vista da finitude, da imperfeição e da limitação desses seres. E em sendo eles inteligências da Inteligência Universal, torna-se óbvio que são seres inteligentes, apesar das suas inteligências serem imperceptíveis para aqueles que ainda não são esclarecidos e espiritualizados.

E tanto os seres hidrogênios possuem inteligência, que para o seu mundo vão outros seres atômicos interagir com eles, para as trocas dos seus acervos, que são as parcelas das propriedades da Força e da Energia que foram adquiridas. É sabido que a propriedade da Força contém o espaço e o magnetismo, onde no espaço se encontram os conhecimentos, e por onde os seres vão adquirindo os atributos individuais. Que a propriedade da Energia contém o tempo e a eletricidade, onde no tempo se encontram as experiências, e por onde os seres vão adquirindo os atributos relacionais. E que as combinações de ambas as propriedades contêm o Universo e o eletromagnetismo, onde se encontra o Saber, por excelência, e por onde os seres vão adquirindo ambos os atributos. Como se pode compreender com bastante clareza, isto é a inteligência em seus rudimentos.

Nessas suas interações, os seres atômicos passam a fornecer aos demais seres atômicos os seus acervos que foram adquiridos no decorrer do processo da evolução, cujos acervos se desagregam dos seus corpos fluídicos, sem desfalcá-los, e se dirigem para as suas auras, sabendo-se que a aura é o campo que circunda o corpo fluídico de todos os seres, através da qual os seres interagem uns com os outros, justamente para as trocas dos seus acervos.

Esses acervos que são fornecidos e que se dirigem para a suas auras formam os prótons, de onde se dirigem para as formações dos elétrons, em razão dos fornecimentos serem de natureza específica para os demais seres atômicos a quem se destinam, não sendo, portanto, de natureza geral. Por outro lado, esses acervos que são recebidos, naturalmente que em forma de elétrons, dada a sua especificidade, dirigem-se para a formação dos nêutrons, de onde finalmente se dirigem para os corpos fluídicos dos seres atômicos recebedores.

Temos assim, pois, que as auras dos seres atômicos são aquilo que as ciências denominam de núcleos atômicos, pelo que se pode comprovar claramente que as teorias atômicas se encontram todas equivocadas, pelo fato incontestável de ignorarem completamente os corpos fluídicos dos seres e as suas auras. E mais: Demócrito estava absolutamente correto quando afirmou que os átomos são indivisíveis, pois que a divisão atômica posta em prática pelas ciências modernas altera apenas os acervos que se encontram nas auras dos seres atômicos, tanto os destinados para os fornecimentos como os destinados para os recebimentos, ao que eles denominam de núcleos atômicos. A imagem posta logo abaixo mostra claramente essas trocas de acervos por parte dos seres atômicos.

Voltando agora ao assunto acerca do notável veritólogo, após haver captado com o seu fabuloso criptoscópio o conhecimento acerca da menor porção da matéria, Demócrito ensinou que se ele pegasse uma pedra ou algum outro material e o esmagasse até que ele não fosse mais capaz de corte, então teria um átomo. A palavra grega tomo significa corte, e o prefixo a grego é privativo, significando ausência, neste caso, o átomo é privativo de corte, ausente de divisão. Ora, não se pode dividir um ser, em razão da sua imperecibilidade. O resultado do corte de uma pedra para o seu estado sem cortes seria um átomo, ou, no plural, vários átomos. As concepções modernas dos átomos são tomadas a partir desta concepção antiga, mas são qualitativamente diferentes, o que comprova que a matéria é apenas uma ilusão.

Para Demócrito havia no cosmos uma miríade de átomos diferentes, com alguns sendo pequenos e suaves como o rolamento de esferas pequenas, outros eram pegajosos como o velcro, enquanto outros eram ásperos como os ganchos, e ainda alguns muito pequenos que se dissipavam rapidamente como perfume. Para a sua percepção, até os deuses eram feitos de átomos, movendo-se no vórtice do cosmos, que apareceram para os antigos como sendo a Via Láctea. As coisas materiais no cosmos tinham sido criadas por átomos, e uma miríade destes átomos em combinações ficava se movendo no vórtice. A configuração do cosmos, que para os gregos inclui tudo o que é, foi o resultado dos ingredientes acidentais produzidos pela união e pela separação dos átomos em diferentes miríades.

Assim, para Demócrito o cosmos é formado por um turbilhão de infinitos átomos de diversos formatos que jorram de modo espontâneo e se chocam. Com o tempo, alguns se unem por suas características, pois às vezes as formas dos átomos coincidentemente se encaixam tão bem como peças de um quebra-cabeça, e muitos outros se chocam sem nada formar, porque as formas não se encaixam ou se encaixam fracamente. Desta maneira, alguns conjuntos de átomos que se aglomeram tomam consistência e formam todas as coisas que conhecemos, que depois se dissolvem no mesmo movimento turbilhonar dos átomos do qual surgiram.

A consistência dos aglomerados de átomos que faz com que uma coisa pareça sólida, líquida, gasosa ou até anímica, o estado de espírito, seria então determinada pelo formato, ou pela figura e arranjo dos átomos envolvidos. Deste modo, os átomos do aço possuem um formato que se assemelha a ganchos, que os prendem solidamente entre si; os átomos da água são lisos e escorregadios; os átomos do sal, como demonstra o seu gosto, são ásperos e pontudos; os átomos do ar são pequenos e pouco ligados, penetrando todos os outros materiais; e os átomos da alma e do fogo são esféricos e muito delicados.

Aristóteles diz que o raciocínio que guiou Demócrito e Leucipo para afirmarem a existência dos átomos foi o seguinte: o movimento pressupõe o vazio no qual a matéria se desloca, mas se a matéria se dividisse em partes sempre menores infinitamente no vazio, ela não teria consistência, nada poderia se formar porque nada poderia surgir da diluição sempre cada vez mais infinitamente profunda da matéria no vazio. Daí concluiu que, para explicar a existência do mundo tal como o conhecemos, a divisão da matéria não pode ser infinita, ou seja, que há um limite indivisível, que é justamente o átomo. Há apenas átomos e vazio, disse ele.

Observando um raio de Sol que penetrou em uma fresta de um recinto escuro, Demócrito viu partículas de poeira em um movimento de turbilhão, levando-o à ideia de que os átomos se comportariam da mesma maneira, colidindo aleatoriamente, alguns se aglomerando, outros se dispersando, outros ainda nunca se juntando com outros átomos.

O epicurismo, cujos representantes principais foram Epicuro e Lucrécio, que teve uma ampla difusão na antiguidade, foi influenciado pelo atomismo de Demócrito, mas com grandes mudanças. A principal diferença foi o abandono da ideia de turbilhão de átomos e a afirmação de que os átomos possuem peso e que, por isso, os átomos percorrem linhas retilíneas paralelas, tais como os objetos em queda livre. Ocasionalmente, cada átomo exibe espontaneamente um desvio mínimo da linha reta, indeterminado e imprevisível, desvio esse denominado de clinâmen. Esse desvio mínimo é o que explicaria o choque e o encontro entre os átomos.

Como na concepção de Demócrito o cosmos não é determinado por um poder que estivesse acima dele e o submetesse a algum plano ou finalidade, como que se referindo às divindades credulárias, mas sim pelo movimento imanente e autocriador do próprio cosmos, a sua concepção de necessidade era avessa à do acaso, e a de ordem, avessa à do caos. Esse seu sentimento pode ser encontrado amplamente difundido desde o Renascimento e permeia tanto a Veritologia como as religiões e as ciências modernas, desde Giordano Bruno, Galileu Galilei e Spinoza, até a física quântica e a cosmologia atual, passando pela teoria da evolução das espécies, mesmo que a sua concepção do átomo tenha se tornado obsoleta desde o século XVIII. Apenas com o advento do Racionalismo Cristão os conhecimentos racionais acerca da formação da matéria, em sua ilusão, puderam ser realmente compreendidos e explanados, tal como se encontra explanado no site pamam.com.br, na obra relativa ao Sistema.

Demócrito foi um veritólogo bastante produtivo naquilo que se dispôs a realizar neste nosso mundo-escola, sendo prolífico e fecundo em seu pioneirismo, que deu origem a uma larga sucessão de outros conhecimentos, já que Diógenes Laércio o menciona como sendo o autor de cerca de noventa obras. Dentre estas se destacam as seguintes:

  • Pequena Ordem do Mundo;
  • Da Forma;
  • Do Entendimento;
  • Do Bom Ânimo;
  • Preceitos.

Demócrito tinha um criptoscópio tão desenvolvido que conseguiu perceber e captar os conhecimentos acerca da existência de um Universo que fosse infinito, embora não o seja, pois que o Infinito existe somente Deus, e o Universo Nele se encontra contido, onde existem muitos outros mundos semelhantes ao nosso, no que se encontra absolutamente correto nesta sua elevada concepção. Faltou apenas dizer que existem também muitas outras humanidades semelhantes à nossa, o que se pode deduzir em relação à existência dos mundos, e isto, ressalte-se, naquela época.

Utilizando-se da sua extraordinária percepção, mesmo se levando em consideração a sua época e o seu pioneirismo, Demócrito considerou que os átomos constituem o mundo, diferindo-se em aspecto, tamanho e peso, com todos tendendo a cair, o que se explica em função da força de gravidade, e que no movimento rotatório resultante, os átomos se combinam como os seus semelhantes, produzindo os planetas e as estrelas, sabendo-se que as estrelas são formadas pelas combinações entre as propriedades da Força e da Energia, e não por átomos, como assim até hoje as ciências consideram. Para ele, nenhum Nous, ou Inteligência, dirige os átomos, assim como nenhum “amor” ou “ódio”, afirmado por Empédocles, exerce a função das suas coordenações, mas sim a necessidade, que possibilita a operação natural das causas inerentes, o que se explica por intermédio das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais, mas todos são estabelecidos pela Inteligência Universal.

Para Demócrito o acaso não existe, no que o veritólogo se encontra absolutamente correto, sendo ele apenas uma ficção inventada para disfarçar a nossa ignorância. A quantidade de matéria permanece sempre a mesma, matéria alguma se cria ou se destrói, apenas mudam as combinações dos átomos. Entretanto, as formas são inumeráveis, por isso os próprios mundos que existem talvez sejam em número infinito, tendo se formado e desaparecido de um modo interminável. Deve-se aqui ser esclarecido que os mundos não são em quantidade infinita, pois que o infinito não é quantidade, e que não ocorrem os seus desaparecimentos, mas sim as suas reintegrações a Deus, posto que os mundos são formados por seres.

O veritólogo considera que os seres orgânicos foram formados originalmente da terra úmida, como que a querer antecipar o processo da evolução universal, uma vez que tudo no corpo humano é composto por átomos, pelo que aqui passa a incidir no erro de que a alma se compõe também de pequeninos átomos, lisos e redondos como os do fogo. E que o espírito, a alma, o calor vital, o princípio vital, são uma e a mesma coisa, quando a seguir corrige a sua percepção, ao afirmar que tudo isso não se confina apenas nos homens ou nos animais, mas se difundem por todo o mundo, no entanto, no homem e na animalidade os átomos mentais, com que pensamos, distribuem-se por todo o corpo. Assim, os belos átomos que formam a alma constituem a mais nobre e maravilhosa parte do corpo. É assim, mesmo que seja por tentativa e erro, que as grandes mentalidades buscam incessantemente o esclarecimento espiritual.

É em razão dessa busca incessante pelo esclarecimento espiritual, que Demócrito considera oportunamente que o homem sábio cultiva o pensamento, liberta-se das paixões, das superstições e do medo, procurando na contemplação e na percepção a modesta felicidade que se pode alcançar entre os homens, uma vez que a felicidade não provém das coisas externas, pelo que assim afirma:

O homem deve se habituar a encontrar dentro de si próprio as fontes da sua alegria. A cultura vale mais do que a riqueza, pois não há poder ou tesouro mais valioso do que a extensão do nosso saber. A felicidade é inconstante, e os prazeres sensuais apenas nos oferecem breves satisfações. Só alcançaremos o duradouro contentamento por meio da paz e da serenidade da alma, do bom humor, da moderação e de uma certa ordem e simetria de vida.

Podemos aprender muito com os animais, a tecer com as aranhas, a construir com as andorinhas, a cantar com o rouxinol e o cisne. Mas a força física só é nobreza nos animais de carga, ao passo que a força do caráter é a nobreza do homem”.

E aqui fica bem ressaltado o pendor de Demócrito para a moral, que se alicerça em sua metafísica, uma vez que a moral é individual, mas nem tanto para a ética, que se alicerça no físico, uma vez que a ética é relacional. Como a bondade é um atributo individual superior, é tomando por base a bondade e a individualidade do espírito diante do mundo, que o veritólogo vem afirmar o seguinte:

As boas ações não devem ser praticadas por obrigação, mas sim por convicção, não com a esperança de recompensa, mas pelo simples amor à bondade. É mais diante de si mesmo do que diante do mundo, que o homem deve se envergonhar das suas más ações”.

Note-se que os veritólogos se ocupam mais com os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, cujo repositório é o espaço, mais especificamente o Espaço Superior, haja visto que no espaço que compreende o ambiente terreno não existe propriamente a verdade; enquanto que os saperólogos se ocupam mais com as experiências físicas acerca da sabedoria, cujo campo de atuação é o tempo, mais propriamente o Tempo Futuro, haja visto que no tempo que compreende o ambiente terreno não existe propriamente a sabedoria.

Em razão disso, Demócrito consegue a percepção de algo muito original para a época, como que atribuindo ao vazio uma espécie de ser, em que o vazio se transforma em espaço, que não é propriamente um não ser, tal como se fôra um ser relativo, um ser espacial, mas por comparação com o pleno, que são os átomos, fazendo com que assim o problema do ser e do não ser venha a se tornar mais brando, mas não resolvido, considerando-se a relação entre o espaço e os átomos.

Sendo mais perceptivo e menos compreensivo, e ainda ignorando a existência das vibrações magnéticas que são produzidas por todas as coisas, Demócrito considera que a percepção se realiza através das coisas, que emitem uma espécie de espectro, tal como se fosse uma imagem incorpórea, de natureza sutil, composta de átomos mais finos, que penetram nos órgãos dos sentidos, sendo recebidos pela mente, que assim recebe uma imagem da coisa que está sendo investigada, sendo nisto que consiste o conhecimento. Aqui se pode constatar que as vibrações magnéticas são percebidas de aura para aura.

Ressaltando-se aqui, que assim como as coisas produzem vibrações magnéticas, que são próprias para o conhecimento metafísico, elas também produzem radiações elétricas, que são próprias para a experiência física, assim como também produzem radiovibrações eletromagnéticas, que são próprias tanto para o conhecimento metafísico como para a experiência física, portanto, para o saber. E assim como os conhecimentos metafísicos nos dão as causas de tudo quanto existe, as experiências físicas nos dão os seus correspondentes efeitos, pois em tudo sempre há uma relação entre causa e efeito.

Dentre as obras escritas por Demócrito, nenhuma delas sobreviveu para a posteridade. Em função disso, tudo aquilo que se sabe ao seu respeito vem de citações e comentários de outros autores. No entanto, da sua imensa obra restaram alguns dos seus fragmentos, que totalizam trezentos, os quais dizem respeito diretamente àquilo que ele nos transmitiu. A coletânea de fragmentos mais conhecida é a que foi organizada por Hermann Alexander Diels, em sua obra intitulada de Os Fragmentos Pré-socráticos.

Sabendo-se que os veritólogos põem acima de tudo os atributos individuais superiores que formam a moral, eles também não deixam relevar os atributos relacionais positivos que formam a ética, uma vez que é a moral e a ética coordenadas que tornam os homens verdadeiramente educados. O mesmo acontecendo em relação aos saperólogos, obviamente que na ordem inversa. Em sendo assim, vejamos alguns dizeres desse grande veritólogo que se encontram em seus fragmentos, para que então possamos avaliar a sua elevada educação.

SOBRE A AGRESSIVIDADE

Toda belicosidade é insensata, pois enquanto se busca prejudicar o inimigo, esquecemos dos nossos próprios interesses”.

CONTRA A EDUCAÇÃO AUTORITÁRIA

O melhor educador para a virtude mostra-se-á aquele que usar o encorajamento e a palavra persuasiva, do que o que se servir da lei e da coerção. Pois quem evita o injusto apenas por temor a lei, provavelmente cometerá o mal em segredo; quem, ao contrário, for levado ao dever pela convicção, provavelmente não cometerá o mal nem em segredo e nem abertamente. Por isso, quem agir corretamente com compreensão e entendimento, mostrar-se-á corajoso e correto de pensamento”.

COMPARANDO O HOMEM AO ANIMAL

Bem mais sensato do que o homem é o animal que, em sua necessidade, sabe quanto necessita. O homem, ao contrário, quanto necessita não o sabe”.

SOBRE A MEDIDA DAS NOSSAS FORÇAS

É preciso que aquele que quer se sentir bem não faça muitas coisas nem em particular e nem publicamente, e que aquilo que faz não assuma além da sua força e natureza; ao contrário, é preciso que, mesmo que a sorte lhe seja hostil e, pela aparência, o leve pouco a pouco ao excesso, tenha cuidado bastante para renunciar e não procurar mais que as suas forças permitem, pois uma plenitude razoável é coisa mais segura que uma superplenitude”.

SOBRE OS INSENSATOS

Os insensatos desejam as coisas ausentes, mas desperdiçam as coisas presentes, ainda que mais valiosas que as passadas”.

SOBRE A MODERAÇÃO

A moderação aumenta o gozo e acresce o prazer”.

SOBRE O COMPORTAMENTO DO SÁBIO COM A CARÊNCIA

“Sábio é aquele que não se aflige com o que lhe falta e se alegra com o que possui”.

 

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A Cristologia

01- INTRODUÇÃO

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03- A VERDADEIRA UNÇÃO

A verdadeira e autêntica unção consiste na contemplação direta de Deus, cuja contemplação permite a própria comunicação com a Inteligência Universal, já que não mais existe um ser que...

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