13.05.01.01.04- Heráclito, o Obscuro

A Era da Sabedoria
26 de setembro de 2018 Pamam

Heráclito foi um veritólogo natural de Éfeso, cidade da Jônia, atual Turquia, tendo encarnado em 535 e desencarnado em 475 a.C., aproximadamente, em que dos seus escritos restaram poucos fragmentos, encontrados em obras posteriores, os quais geraram um grande número de obras explicativas. Ele recebeu a alcunha de o Obscuro, em razão da sua obra intitulada Da Natureza, em estilo obscuro, próximo ao das sentenças oraculares, que foi a ele atribuída por Diógenes Laércio. Isto se explica em função dos veritólogos transmitirem os seus conhecimentos metafísicos de forma sintética, restringindo-se aos seus teores, sem maiores explicações que envolvam os níveis dos detalhes, uma vez que os maiores detalhes são da alçada dos saperólogos, quando das suas explanações acerca desses conhecimentos metafísicos.

Sendo de estirpe real, caracterizava-se como sendo um homem de sentimentos elevados, solitário e desdenhoso, considerado por muitos como sendo orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros, mas isto não procede, não passando de uma interpretação equivocada, pois, na realidade, o que ele tinha era excesso de pressa na realização de algum trabalho, por isso não admitia ser atrapalhado pelo vulgo. Além do mais, os veritólogos são mais afeitos à moral do que propriamente à ética, daí a razão dessas considerações equivocadas.

E isso se comprova pelo seu desprendimento em relação ao poder e pelo desapego que ele tinha em relação aos bens materiais, sendo então antipatizado pelos efésios, por se recusar em participar da política e por desdenhar do credo, que eram essenciais para os gregos, em razão dele assim se comportar exatamente de modo oposto aos seus conterrâneos, tendo sido muito criticado pelos seus concidadãos, quando conseguiu convencer ao tirano Melanoma a abdicar do poder para ir viver nos bosques, em contato livre com a natureza.

Levando uma vida reservada no templo de Artemisa, a deusa grega da vida selvagem e da caça, Diógenes Laércio nos conta o seguinte:

Retirado no templo de Artemisa, divertia-se em jogar com as crianças e, acercando-se dele os efésios, perguntou-lhes:

— De que vos admirais, perversos: o que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?”.

Heráclito considera que a essência, o elemento primordial, portanto, o ser, encontra-se em um perpétuo fluxo, uma vez que tudo se encontra em movimento, já que nada pode permanecer parado, por isso tudo flui, tudo se move, para vir a ser, em que a realidade é um vir a ser contínuo. Ora, vir a ser pressupõe logicamente a transformação das coisas em outras coisas, e a transformação das coisas em outras coisas, por sua vez, pressupõe a evolução.

Assim, para o veritólogo, é unicamente a razão que tem por objeto o universal, que colhe esse preceito do devir universal. Isto se explica em função da verdade se referir diretamente ao espaço, onde se encontra o repositório dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, à disposição para serem percebidos e captados por aqueles que detêm a moral. Enquanto que a sabedoria se refere diretamente ao tempo, onde se encontra o campo das experiências físicas acerca da sabedoria, à disposição para serem compreendidos e criados por aqueles que detêm a ética. Ora, o espaço e o tempo formam o Universo, e como a razão coordena a verdade e a sabedoria, conclui-se logicamente que ela é universal, por isso somente aqueles que possuem a moral e a ética, sendo, portanto, educados, podem se universalizar, estando aptos para que possam perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e compreender e criar as experiências físicas acerca da sabedoria, para que assim venham a ser detentores do Saber, por excelência.

O devir é um conceito saperológico que diz respeito às mudanças pelas quais passam as coisas, em suas transformações contínuas, cujo conceito nasceu justamente através de Heráclito, quando afirmou que nada neste mundo é permanente, exceto a mudança e a transformação.

Partindo do pressuposto do devir, Heráclito considera que a mudança que acontece em todas as coisas é sempre uma alternância dos contrários, como, por exemplo, as coisas quentes esfriam, as coisas frias esquentam; as coisas úmidas secam, as coisas secas ficam úmidas; etc. O devir, portanto, é antítese, caracterizando-se como sendo uma luta entre os contrários, ou seja, uma guerra contínua entre os opostos.

É nessa guerra contínua entre os opostos que Heráclito tenta perceber a realidade da vida, quando afirma que a doença faz da saúde algo bom e agradável, pois se não houvesse a doença, não haveria por que se valorizar a saúde, por exemplo. É nessa guerra entre os opostos, que o veritólogo considera a existência da harmonia, como, por exemplo, o princípio é o oposto do fim, mas que funciona como se fosse um círculo, ou mesmo como se fosse uma descida e uma subida, uma vez que o caminho seguido pelos seres é de descida e de subida, assim, o quente é o mesmo que o frio, pois o frio é quente quando muda, ou seja, o quente é o frio depois de mudar, e o frio é o quente depois de mudar, sendo versões diferentes da mesma coisa. Por aqui se pode constatar claramente a importância do estudo das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais.

O lema de Heráclito é o panta rei, cuja expressão surge da noção de que todas as coisas fluem em um perpétuo movimento de transformação. No entanto, a expressão panta rei não se encontra nos fragmentos da obra do veritólogo, sendo atribuída ao seu discípulo Crátilo, que desenvolveu o pensamento do mestre, tendo sido cunhada e utilizada pela primeira vez somente por Simplício, em seu comentário sobre Physica Auscultatio, derivada de um fragmento da obra de Heráclito intitulada Da Natureza. Tornou-se famosa a seguinte frase de Heráclito:

Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, em que esta se recolhe, vem e vai”.

Heráclito considera o fogo como sendo a substância primária de todas as coisas, a partir do qual todas as coisas eram feitas. Assim, contrapondo-se a Tales de Mileto e a Anaxímenes, que consideravam a água e o ar como sendo a substância primária de todas as coisas, respectivamente, ele considera o fogo como sendo um princípio que se encontra em todas as coisas, como que a dizer que todas as coisas se transformam em fogo e que o fogo se transforma em todas as coisas, ao se expressar assim:

Todas as coisas são uma troca do fogo, e o fogo uma troca de todas as coisas, assim como o ouro é uma troca de todas a mercadorias e todas as mercadorias são uma troca do ouro”.

Para Heráclito, quando o fogo é condensado se umidifica e, com mais consistência, torna-se água, e esta, solidificando-se, transforma-se em terra, quando a partir daí nascem todas as coisas do mundo, sendo este o caminho que o veritólogo define como sendo para baixo. Por outro lado, derretendo-se a terra, obtém-se a água, a água se transforma em vapor, tal como vemos na evaporação do mar, e se rarefazendo o vapor, ele se transforma novamente em fogo, sendo este o caminho para cima.

Mesmo em sua época, Heráclito já percebia a existência de um conhecimento verdadeiro de âmbito universal, mas que para se chegar a esse conhecimento se tornava necessário que o ser humano se desvencilhasse dos sentidos, pois que o verdadeiro conhecimento não pode ser percebido pelo nosso campo sensorial, mas sim percebido, algo que até hoje os cientistas ainda não conseguiram apreender, pois que eles consideram como sendo inverificável tudo aquilo que não venha se referir aos sentidos.

Deve-se aqui ressaltar que nessa época todas as cidades gregas adoravam aos seus deuses, ou seja, aos espíritos obsessores que alimentavam a pretensão de serem deuses, mas essas grandes mentalidades não se deixavam levar por esse ambiente fluídico, místico e sobrenatural, o que ocorreu com Heráclito, que não era dado ao antropomorfismo, assim como são dados bilhões de credulários nos dias de hoje.

Para essa grande mentalidade, Deus não tinha a aparência de um homem e muito menos de outro animal qualquer, pelo que assim procurava identificá-Lo com os opostos, em que todas as coisas persistiam nas suas existências, apesar das suas mudanças em suas transformações, em suas próprias unidades, assim dizendo:

O Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, saciedade e fome; mas se alterna como o fogo, quando se mistura a incensos, e se denomina segundo o gosto de cada um”.

Embora tenha encontrado no fogo uma consoladora substância para constituir a essência de todas as coisas, Heráclito se vê obrigado em se deparar com a evolução dos seres que se processa em todos os níveis, por intermédio das propriedades da Força, da Energia e da Luz. Assim, posto diante de suas inúmeras transformações, o seu sentimento é obrigado a se voltar para a eternidade e para a ubiquidade das coisas, ou seja, para as suas multipresenças que se encerram no processo da evolução. Em sendo assim, ele não consegue encontrar nada estático no Universo, ou na alma, em que esta representa o corpo fluídico. Então ele chega à conclusão correta, diga-se de passagem, que nada é, que tudo se transforma, que condição alguma permanece inalterada, nem mesmo por um instante, já que tudo está deixando de ser o que era e se transformando no que virá a ser.

Aqui se encontra um novo passo na Veritologia, pois Heráclito já não se limita a indagar, como Tales de Mileto, o que são as coisas, embora tal indagação seja fundamental para o conhecimento metafísico, mas, como Anaximandro, Lucrécio e até Spencer, de que maneira vieram a ser o que são, como que querendo adentrar ao âmbito da evolução, e sugere, tal como sugeriu Aristóteles, que um estudo profundo acerca da segunda pergunta é a melhor aproximação da primeira.

Sendo firmemente convicto em suas concepções, ele sorri diante dos homens que em vão procuram se purificar lavando com sangue as culpas do sangue, como se deste fossem provenientes as culpas, tais como hoje em dia os católicos e os protestantes querem porque querem se purificar com o sangue de Cristo; ou que em vão emitem rezas, orações ou preces a estátuas como alguém que tentasse conversar com a divindade, pois tais homens nada sabem a respeito da natureza dos deuses, entendendo-se como tais os espíritos de luz que se encontram no Astral Superior.

Para Heráclito, Deus é o Fogo imorredouro, a energia indestrutível do mundo. É a unidade que liga todos os contrários, a harmonia de todas as tensões, o resultado e a significação de toda a luta. Esse Divino Fogo — que ele relaciona com a vida, pois ambos são um só e estão em toda parte — está sempre alterando a própria forma, sempre subindo ou descendo a escala da mudança, sempre consumindo e refazendo as coisas. Em verdade, algum dia muito distante, o Fogo julgará e condenará a todas as coisas, destruindo-as e abrindo caminho para novas formas no Julgamento Final ou catástrofe cósmica. Entretanto, os processos do Fogo Imorredouro não são desprovidos de sentimento e ordem, pois se pudéssemos compreender o mundo como um todo, nele veríamos uma vasta sabedoria impessoal, um Logos, uma Razão ou uma Palavra, e deveríamos tentar amoldar as nossas vidas de acordo com esse método da natureza, essa lei do Universo, essa sabedoria ou energia coordenadas, que é Deus. Aqui, como se vê, a energia é Deus. Ele diz que a sabedoria está não em lhe ouvir, mas na Palavra, para procurar e seguir a infinita razão do Todo.

Ao aplicar à moral essas quatro concepções básicas do seu sentimento: energia, mudança, unidade dos contrários e razão do Todo; Heráclito consegue iluminar parte da sua verdade. A Energia sob a coordenação da razão e unida à ordem para ele é o maior bem, faltando apenas a propriedade da Força, já que a da Luz está representada pela razão.

Para ele a mudança não é um mal, mas sim um grande bem, quando diz assim:

Na mudança encontramos o repouso, pois é fatigante trabalhar sempre nas mesmas coisas e ter sempre que recomeçar”.

Ele diz que a necessidade mútua dos contrários torna compreensível e, portanto, perdoável a luta e os sofrimentos da vida, dizendo assim:

Obter tudo quanto se deseja não é o melhor para o homem, pois é a doença que torna a saúde agradável, o mal valoriza ao bem, assim como a fome a fartura, o trabalho o descanso”.

Heráclito condena aqueles que almejam pôr termo à luta no mundo, pois sem essa tensão dos opostos não haveria a afinação, ou a harmonia, a teia da vida deixaria de oscilar e cessaria o desenvolvimento. A harmonia não é o fim do conflito, mas uma tensão na qual nenhum dos elementos jamais chega a vencer definitivamente, já que ambos funcionam indispensavelmente. A luta pela existência é necessária para que o melhor possa ser separado do pior, e assim possa ser gerado o mais elevado. A luta é o pai e o rei de tudo, pois escolheu alguns para deuses e outros para seres humanos, a alguns transformou em escravos, a outros deu a liberdade. Por fim, a luta é a justiça, a concorrência de indivíduos, grupos, espécies, instituições e impérios, constitui a suprema corte da natureza, contra cujo veredito não há qualquer tipo de apelação.

Com relação à influência dos sentimentos de Heráclito, os estudiosos chegaram à conclusão seguinte: a especulação do Divino Fogo passou para o estoicismo; a noção da conflagração final foi transmitida pelo estoicismo ao falso cristianismo; o Logos, ou a razão da natureza, tornou-se na teologia do falso cristianismo a Palavra Divina, a sabedoria de um deus personificado, por meio da qual ou com a qual ele criou e dirige todas as coisas, mas que de certo modo constituiu uma preparação para a futura visão moderna da lei natural; a virtude, como obediência à natureza, tornou-se o modo comportamental do estoicismo; a unidade dos contrários ressurgiu muito mais tarde com Hegel; a ideia da mudança renasceu com Bergson; a concepção da luta como determinativa de todas as coisas reaparece em Darwin, Spencer e Nietzsche, os quais continuam, depois de vinte e quatro séculos, a guerra de Heráclito contra a democracia.

Nós vamos depois encontrar Aristóteles, que era saperólogo por natureza, analisando e tentando explanar a doutrina de Heráclito. Mas como a verdade não conseguiu ser estabelecida por esse veritólogo, em sua obra Do Céu, ele apenas se expressou da seguinte maneira:

Concordam todos em que o mundo foi gerado, mas, uma vez gerado, alguns afirmam que é eterno e outros que é perecível, como qualquer outra coisa que por natureza se forma. Outros, ainda, que, destruindo-se, alternadamente é ora assim, ora de outro modo, como Empédocles e Heráclito de Éfeso… Também Heráclito assevera que o Universo ora se incendeia, ora de novo se compõe do fogo, segundo determinados períodos do tempo, na passagem em que diz ‘acendendo-se em medidas e se apagando em medidas’”.

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