11.13- O bem e o mau

Prolegômenos
6 de junho de 2018 Pamam

É sabido que Deus é a Inteligência Universal, sendo, portanto, o Todo. Em sendo Ele o Todo, é óbvio que tanto o bem como o mal Nele estão contidos, desprezando-se aqui os demais assuntos, uma vez que o bem e o mal estabelecem os assuntos deste tópico. Neste caso, todos tendem a pensar que o bem se situa no âmbito da perfeição e que o mal se situa no âmbito da imperfeição. Mas este é um pensamento equivocado, pois que ambos se situam rigorosamente dentro do âmbito da imperfeição.

A explicação para isso é que o mal aflora com toda a sua pujança quando os seres se tornam espíritos, não em seus Mundos de Luz, mas quando eles encarnam como seres humanos neste nosso mundo-escola denominado de Terra, à medida que eles vão desenvolvendo cada vez mais os seus raciocínios e vão alcançando o ápice de cada civilização, quando a imaginação mais se faz valer. Como os seres humanos são detentores dos atributos individuais inferiores e dos atributos relacionais negativos, e como estes comandam as suas condutas de vida, os seus sentimentos inferiores, que lhes dão o poder, e os seus pensamentos negativos, que lhes dão as ações, engendram inúmeras maneiras deles satisfazerem aos seus desejos intemperados. Em função disso, eles se deixam levar pela vaidade, pela mania de grandeza, pela conquista do poder, pela mania de riqueza, pela pretensão descabida, pela soberbia, pelo egoísmo, pela avareza, pelo sadismo, pela intolerância, e tantos e tantos outros atributos individuais inferiores e relacionais negativos mais, e não somente isso, pois eles também se deixam levar pelos desfrutes dos prazeres temporais, tais como pelos prazeres do luxo, do sexo, da comilança e das beberagens, sendo tudo isso desordenado, e ainda não satisfeitos se enveredam pelos caminhos das drogas, tudo isso porque ainda são extremamente materializados, e somente pensam através do corpo carnal, considerando-se eles mesmos que são os mais merecidos de todos, como se fossem o centro do Universo. E daí surgem as perversões que descambam para as depravações, com os seres humanos degenerando para as vilanias de todos os tipos, das mais amenas até as mais sórdidas.

Em cada uma das nossas civilizações, os seres humanos se perverteram e se depravaram além dos limites tolerados pela natureza, com as suas degenerações sendo tamanhas que em todas elas se pôde comprovar a existência da mais sórdida vilania. Quando no auge das suas depravações e degenerações, os seres humanos vibraram sentimentos tão inferiores, radiaram pensamentos tão negativos e radiovibraram as suas combinações tão intensas, que o ambiente terreno não mais suportou o peso ocasionado por essa lama infecta e deletéria, do que se aproveitou o astral inferior para provocar as catástrofes, ocasionando os maiores desastres por que já passamos, sendo todas essas civilizações extintas e obliteradas da face da Terra, para que assim o Astral Superior pudesse promover as modificações na estrutura terrena e o processo civilizatório se iniciasse novamente sobre novas bases.

Até que um espírito pertencente à humanidade que seguimos na esteira evolutiva do Universo, na condição de um dos seus dois expoentes, dela se deslocou e se integrou à nossa humanidade, com a finalidade precípua de elaborar um plano para a nossa espiritualização e agir intensamente no sentido de concretizá-lo, mas procurando interferir o mínimo possível em nosso meio, apenas o suficiente para a consecução do plano por ele elaborado, a fim de que nós mesmos fôssemos os grandes responsáveis diretos pelo seu sucesso. Daí o seu final estar agora sendo definitivamente completado com eficácia por intermédio do Racionalismo Cristão. E como nós podemos observar claramente a mais sórdida vilania estando instalada nesta nossa última e definitiva civilização, nos tempos atuais, seria de se supor que mais uma vez esta nossa civilização devesse ser extinta e obliterada da face da Terra, caso não fosse o Racionalismo Cristão, que deverá esclarecer e espiritualizar toda a nossa humanidade, redimindo-a do lamentável estado em que atualmente ela se encontra.

Todas as coisas, fatos e fenômenos têm que existir no Universo, caso contrário ele seria incompleto. Então o mal tem que existir. E em existindo o mal, o bem tem também que existir para que possa se contrapor a ele. O bem e o mal, então, são fatos universais. Se o mal é proveniente dos atributos individuais inferiores e relacionais negativos, situando-se rigorosamente no âmbito da fase da imaginação, o bem, então, em contrapartida, é decorrente dos atributos individuais superiores e relacionais positivos, situando-se inicialmente no âmbito da fase da imaginação, até que venha a ser realmente concebido.

O bem, então, é próprio da moral e da ética, portanto, da educação, por isso se diz do ser humano virtuoso, uma vez que a virtude é propensa ao bem, daí o fato de se denominar ao homem detentor da moral e da ética de uma pessoa de bem, de uma pessoa educada, por conseguinte, de uma pessoa proba, honesta, virtuosa, respeitosa, por isso dada às boas obras, às obras progressistas, pelo fato de ser bem intencionado e converter essa sua boa intenção em ações construtivas.

Já o mal é o contrário do bem, sendo tudo aquilo que concorre para o dano ou a ruína de uma pessoa, sendo tudo aquilo que se desvia do que é moral e ético, podendo ser considerado como sendo um achaque, uma doença, ou seja, uma enfermidade mental. E como o ser humano praticante do mal vibra sentimentos inferiores e radia pensamentos negativos que vão se alojando na atmosfera terrena, estes vão formar as correntes deletérias que se cruzam em todos os sentidos, sendo captadas por aqueles que vibram e radiam com afinidade, ensejando a que eles também pratiquem o mal, com ele sendo uma espécie de moléstia que se propaga pelo mundo, tal como se fosse uma epidemia. O mal, portanto, é uma calamidade pública, um infortúnio próprio do ser humano inferior, por ser mais atrasado em termos evolutivos, que se desgraça a si mesmo e procura por todos os meios desgraçar ao próximo, em busca constante dos seus próprios interesses e satisfações pessoais, em que nestas últimas a prática do próprio mal é uma forma de satisfação pessoal, quando se quer e se deseja o mal a alguém, quando se quer e se deseja que lhe aconteça algum mal, simplesmente por lhe ter ódio e má vontade, pois que existem seres humanos atrasados, mas tão atrasados, que às vezes desejam até o mal para si mesmos, desde que para aqueles a quem odeiam e tenham má vontade o mal lhes venha em maior intensidade. É incrível, difícil de se acreditar, mas é assim mesmo!

Para que se possa praticar o bem, faz-se necessário que o seu praticante aja em conformidade com a sua própria consciência, que coordenando o criptoscópio e o intelecto faz com que estes órgãos mentais obedeçam de pronto aos comandos dos atributos individuais superiores e dos atributos relacionais positivos, e como estes formam a ética e aqueles formam a moral, somente pode praticar o bem aquele que vai se tornando verdadeiramente educado. Por isso, o bem tem que ser praticado com sabedoria, e não sob as determinações dos impulsos e dos apelos da opinião pública. Todos os seres humanos são obrigados a aprender a praticar o bem com sabedoria, o que não ocorre atualmente. É por isso que muitas vezes eles consideram que estão praticando o bem quando fazem doações generosas aos institutos que se dedicam à caridade, e alardeiam a essas doações como se fossem pessoas caridosas, quando, na realidade, a caridade é desabonadora da natureza humana.

No entanto, são geralmente a vaidade e a tentativa de vender uma imagem do “bom samaritano” que impulsionam muitos seres humanos a realizar tais doações. Mas acontece que por trás desses institutos têm sempre os aproveitadores, que ficam com a maior parte dos recursos e aplicam a sua parte mínima em caridade, para que assim passem uma imagem de caridosos, quando não passam de esmoleres de luxo, portanto, de estelionatários, que são semelhantes aos sacerdotes, como é o grande exemplo no Brasil essa tal de LBV – Legião da Boa Vontade, em que se montou uma estrutura para angariar fundos com vistas à caridade, mas que os recursos vão quase todos para sustentar o luxo e a ostentação do seu presidente e dos seus comparsas, que não passam de patifes aproveitadores, pois, na realidade, ninguém faz cortesia com o chapéu dos outros, ainda mais se apropriando indevidamente desses recursos.

Por outro lado, para que se possa praticar o mal, faz-se necessário que o seu praticante aja às escondidas, na surdina, ou como se expressa o linguajar comum, que o seu praticante aja “na moita”, que o é mesmo que agir “por debaixo dos panos”, pois caso ele não aja desta maneira toda a comunidade irá reprová-lo e condená-lo, levando-o às barras da justiça, se não, pelo menos ao desprezo, inclusive aqueles que também praticam o mal, pois todos os maus são insinceros, portanto, mentirosos. Quando não assim às escondidas, de maneira traiçoeira e de surpresa, com a utilização de armamentos bélicos, ou ainda com a vantagem numérica, por isso sempre de maneira torpe. A torpeza, então, é própria dos criminosos, que também são todos covardes, ou então temerários, por isso eles procuram permanecer anônimos. Quanto mais indefeso for o ser humano, tanto mais ele se encontra propenso a ser vítima dos maus. Em razão disso, os órgãos mentais daqueles que praticam o mal, são requisitados constantemente em função dos comandos dos seus atributos individuais inferiores e dos seus atributos relacionais negativos, o que implica em dizer que eles são pouco desenvolvidos, e pode até ser que eles sejam considerados por muitos como sendo muito desenvolvidos, quando são considerados como sendo os gênios do crime, em virtude das suas maquinações. Mas acontece que praticar o mal é fácil para aquele que não tem consciência, pois que para praticar o bem a consciência é bastante exigida, e como é ela quem coordena o criptoscópio e o intelecto, assim como os atributos individuais superiores e os atributos relacionais positivos, a lógica vem determinar a imensa superioridade mental dos praticantes do bem em relação aos praticantes do mal, já que estes deixam obscurecer completamente as suas consciências, pois que os atributos individuais inferiores e relacionais negativos não podem ser coordenados pela consciência, já que se misturam e passam a se sobressair aqueles que são os mais maléficos.

Por incrível que pareça, muitas vezes o bem é confundido com o mal, e isto acontece sob diversos prismas, justamente porque se faz necessário que o bem seja praticado pelo menos com certa sabedoria, em conformidade com a consciência, e como assim não é, o seu resultado geralmente tem que ser de agrado da opinião pública, caso contrário ele será considerado como sendo um mal, e as suas ações podem ser até combatidas pelo povo. Senão vejamos pelo menos dois exemplos clássicos:

Na Grécia Antiga, quando Megara enviou reforços a Corinto, Péricles ordenou que todos os produtos megaros fossem boicotados nos mercados da Ática e do Império. Megara e Corinto então apelaram para Esparta, que propôs a Atenas a suspensão desse boicote. Péricles concordou com a suspensão do boicote, sob a condição de Esparta permitir aos Estados estrangeiros o comércio efetivo e constante com a Lacônia. Esparta recusou tal condição. Não contente, estabeleceu uma nova imposição para que houvesse a paz: Atenas deveria reconhecer a absoluta independência de todas as cidades gregas, ou seja, Atenas deveria desistir do Império. Péricles persuadiu aos atenienses a repelir essa exigência. Esparta, então, declarou a guerra.

Quase todos os gregos cerraram fileiras de um lado ou de outro. Os Estados do Peloponeso, exceto Argos, deram apoio a Esparta, e o mesmo fizeram Corinto, Megara, Beócia, Locros e Fócida. Atenas, no início, teve o dúbio auxílio das cidades jônias e euxinas, e das ilhas do Egeu. No início da guerra, tal como a nossa 1ª Guerra Mundial, a primeira fase da luta foi de competição entre as forças navais e terrestres. A esquadra ateniense arrasava as cidades costeiras do Peloponeso, enquanto o exército espartano invadia a Ática, apoderava-se das colheitas e inutilizava o solo. Péricles reuniu a população da Ática dentro das muralhas de Atenas, recusou-se a permitir que as suas tropas entrassem em combate e aconselhou aos excitados atenienses a se conterem e a esperar que a esquadra vencesse a guerra.

Os seus cálculos foram lógicos e estrategicamente perfeitos. Mas o valoroso estadista, o grande responsável pela primeira experiência democrática em nossa humanidade, não contou com um fator que quase decidiu a luta, o qual era impossível de se prever tal acontecimento, humanamente falando. Em 430 a.C., o acúmulo de população em Atenas trouxe a peste para quase todos eles, provavelmente uma epidemia de malária, que durou quase três anos, dizimando um quarto dos seus soldados e grande parte da população civil.

Desesperado com os horrores da epidemia unidos aos da guerra, desconsiderando todo o bem que estava sendo praticado por Péricles, o povo atribuiu a este seu grande governante a responsabilidade de todo o mal que estava sendo vítima. E não ficou apenas nisto, pois Cleon e outros o processaram sob a acusação de má administração dos dinheiros públicos, e como, ao que se supõe, Péricles houvesse empregado fundos públicos para subornar aos reis espartanos, na esperança de conduzi-los à paz, o que justifica plenamente esses gastos, pois que é preferível a paz com subornos do que a guerra sem eles, já que dos males o menor, não pôde mesmo assim prestar contas satisfatórias desses seus gastos, e o resultado dessa confusão entre o bem e o mal foi a sua condenação, seguida da deposição do cargo.

Entretanto, a justiça se fez valer, pois não encontrando alguém que pudesse substituir a contento ao notável líder deposto, os atenienses entregaram novamente o governo a Péricles, e para lhe provar a estima e a simpatia compensadoras dos dissabores que lhe haviam imposto, ignoraram uma lei que era da autoria do próprio Péricles, e assim conferiram a cidadania ao filho que Aspásia lhe dera. Mas o velho estadista fôra contaminado pela peste, tornando-se cada dia mais fraco, e desencarnou poucos meses depois de readmitido no cargo.

Quando a febre amarela estava se alastrando no Rio de Janeiro, o Presidente da República, Rodrigues Alves, encarregou o Ministro da Justiça, Dr. Seabra, de nomear o Dr. Oswaldo Cruz para o cargo de Diretor da Saúde Pública, pois que este era considerado como sendo o único capaz de acabar com a epidemia, em virtude do seu imenso valor, tanto como médico quanto como homem de bem.

O Dr. Oswaldo Cruz começou logo se impondo, não admitindo que lhe nomeassem o secretário, que era cargo de confiança, pois ele é que tinha de o escolher. Em razão disso, o Dr. Seabra teve que tornar sem efeito a nomeação de um jovem médico baiano, há pouco chegado ao Rio de Janeiro. E só assim o Dr. Oswaldo Cruz tomou posse, afirmando que não era político, e nem queria saber de política.

Em 1903, considerava-se um absurdo a ideia de que a febre amarela fosse transmitida pela picada de um mosquito, que era denominado de Stegomia faciata. Em sua maioria, os cientistas brasileiros julgavam insuficientes as razões sustentadas por Finlay, na Conferência Médica de Havana, defendendo semelhante ponto de vista. Sendo partidário de Finlay, o Dr. Oswaldo Cruz estava convencido de que somente acabaria com os focos onde se criavam as lavras, limpando a cidade, pois nessa época o Rio de Janeiro era uma das cidades mais sujas do mundo. E assim realmente foi feito.

De um dos boletins sanitários, assinado pelo Dr. Oswaldo Cruz, foram extraídos os seguintes dados:

  • 5 isolamentos;
  • 264 expurgos, sendo 150 em casas particulares;
  • 92 focos de lavras destruídos;
  • 20 visitas de vigilância sanitária;
  • 347 calhas foram limpadas;
  • 347 telhados foram limpados;
  • 622 ralos foram desinfetados;
  • 862 tinas foram limpadas;
  • 036 caixas automáticas e registros foram lavados;
  • 751 caixas de águas foram lavadas;
  • 845 tanques foram lavados;
  • 231 sarjetas foram lavadas.

E mais: das casas e dos quintais foram retiradas 92 carroças de lixo, e foram gastos 1.890 litros de petróleo. Isso tudo em apenas um mês!

Era tanta a quantidade de lixo, que chegou deveras a impressionar ao grande poeta Olavo Bilac, que nessa época escrevia uma crônica todos os dias no jornal Gazeta de Notícias, pelo que o poeta se expressou da seguinte maneira:

O que o amor da limpeza pode conseguir, já o estamos vendo. A Diretoria da Saúde tem retirado dos quintais e dos telhados tanto lixo, que a gente chega a estranhar que, no meio de tanta imundície, não se hajam manifestado epidemias horríveis na cidade, matando cem ou duzentas pessoas por dia. Estou disposto a crer que a febre amarela está desaparecendo pela extinção dos mosquitos; mas creio firmemente, desde já, que o combate à porcaria, sejam ou não sejam os mosquitos os únicos transmissores da pirexia horrenda, ela há de ser posta fora daqui — sem bilhete de volta”.

No entanto, ao se iniciar o combate sistemático à febre amarela, com as famosas brigadas de mata-mosquitos, iniciou-se uma campanha terrível contra o Dr. Oswaldo Cruz, em princípio sendo o grande sanitarista apenas motivo de deboche, mas depois o deboche passou a se transformar em ódio. Tudo isso se encontra nos jornais da época, nos discursos da Câmara dos Deputados e do Senado, nas caricaturas e até nas modinhas de carnaval. Houve um momento em que toda a cidade se virou contra o governo, que apoiava e dava mão forte para o Dr. Oswaldo Cruz, o que ocasionou uma revolta, a qual ficou lamentavelmente célebre, conhecida pela denominação de “Quebra-Lampião”, em virtude de não haver ficado um só lampião iluminando as ruas da cidade. E assim os grandes espíritos praticam sempre o bem com base nas suas consciências, mesmo que contra tudo e contra todos, como se eles tivessem praticando o mal, em função da notória ignorância do povo.

Foi uma luta tremenda que o Dr. Oswaldo Cruz travou pelo saneamento da cidade do Rio de Janeiro, mesmo sendo constantemente ameaçado, inclusive de morte, como se pode comprovar uma dessas ameaças em representação anônima, própria dos covardes, enviada através de uma folha de papel almaço, escrita em tinta verde, com letras bem elaboradas. O texto da baixa representação é tal qual como vai transcrito abaixo:

Sociedade de Salvação Pública

Aos 29 de Maio de 1905.

A Sociedade de Salvação Pública, fundada em 10 de novembro de 1904, nesta Capital, onde secretamente funciona, em sua sessão de hoje do seu Supremo Conselho, composto dos Delegados das Freguesias Urbanas e Suburbanas, unanimemente aprovou a seguinte resolução:

Considerando que os atuais Presidente da República, Prefeito Municipal e Diretor da Saúde Pública, por seus atos têm provocado o povo à revolução;

Considerando que a reprodução de cenas de reação operada pelo povo em novembro do ano p.p., será prejudicial tão somente àqueles que responsabilidade alguma têm dos atos dessas três autoridades. E que, portanto, os exclusivos opressores do povo são essas três autoridades.

Resolve que sejam assassinados o presidente da República, o prefeito Municipal e o diretor da Saúde Pública, único recurso que resta ao povo para terminação da perseguição que o vitima.

Nada temendo esta Sociedade, tanto que leva ao vosso conhecimento essa resolução para que como chefe de família, determineis vossas últimas disposições em tempo, porque vossos dias estão contados.

O extremo recurso de que lança mão a Sociedade há de ser executado.

Aqueles que nos sobrevierem o verão.

Pela Sociedade

X.F.

Fazendo o bem a toda a população de uma cidade, salvando a vida de muitos dos seus habitantes, a própria população se revolta contra o seu grande benfeitor, como se ele estivesse praticando o mal. E muito me honra o fato da filha desse valoroso espírito, Dona Lizeta, haver declarado que o seu pai votou somente uma única vez na vida, cujo voto foi em meu favor, quando encarnado como Ruy Barbosa fui candidato à presidência da República.

Há também muitos outros exemplos que comprovam sobejamente a grande ignorância dos seres humanos, em que nessa tremenda ignorância eles confundem o bem com o mal, pois eles procuram entender o bem como sendo tudo aquilo que concorra para os seus desejos terrenos e ambições desmedidas, além da vaidade exacerbada, e como o mal tudo aquilo que se oponha a esses desejos, ambições e vaidades, tais como:

  1. Ganhar na loteria é tido para todos como sendo um bem, além do ganhador ser detentor de muita sorte, pois que ter muito dinheiro é a meta primordial de quase todos os seres humanos, já que eles ignoram completamente que os espíritos não encarnam para serem jogadores, pois que caso eles quisessem experimentar o usufruir da riqueza, teriam planejado a sua aquisição em plano astral, já que a quase tudo temos que experimentar em nossas encarnações, além do mais não existe a sorte, e muito menos o azar, pois que tudo na vida é regido pelo determinismo;
  2. Muitos pais que são detentores de recursos monetários costumam geralmente encher os bolsos dos filhos de dinheiro, e também de presenteá-los com carros, motocicletas e outros objetos luxuosos, para que assim, vaidosamente, possam ter o prazer estúpido de vê-los se sobressaindo em relação aos demais, sem que se apercebam de que, ao invés do bem, estão lhes fazendo um grande mal, pois que também passam as suas vaidades para eles, além de contribuir para uma maior extensão de outros defeitos, como a irresponsabilidade e a desvalorização da luta pela vida, com eles se despreocupando em relação a esta;
  3. Através do procedimento de fornecer esmolas em espécie não se está praticando o bem, mas sim o mal, pois esse procedimento geralmente contribui para o ócio e para o hábito de pedinte, muitas vezes alimentando os vícios dos esmoleres, quando o correto é incentivá-los para a luta da sobrevivência através do trabalho, seja de que tipo for, uma vez que o trabalho enobrece ao ser humano;
  4. Quando as pessoas são famosas e abastadas, muitas vezes elas fundam os seus institutos para ajuda aos mais carentes, fazendo questão de que eles sejam propagados e se tornem do conhecimento de todos, pelo que até realizam festas de inauguração com muitos convidados, inclusive a imprensa, para que assim possam ser considerados como caridosos e humanitários, e até benfeitores da humanidade, quando, neste caso, deveriam estudar o que é ser verdadeiramente liberal e magnânimo, pois que a vaidade, a imagem vendida, a provocação de elogios e tudo o mais do gênero somente traz o mal para si mesmos, anulando o valor do bem que julgam estar praticando, pois que este não é decorrente das próprias consciências, e não somente isto, pois que Jesus, o Cristo, ensinou-nos que não devemos propagar o bem que fazemos, uma vez que o Astral Superior de tudo sabe, já que a tudo contempla;
  5. Muitos seres humanos são afeitos a dar conselhos, considerando que estão fazendo o bem, quando estão fazendo o mal, pois ignoram que todos sentem os problemas, os obstáculos e os entraves da vida, com todos os seus percalços, de fáceis ou difíceis resoluções, de modos diferentes uns dos outros, por isso aquilo que é fácil para uns é dificílimo para outros, em razão disso os caminhos a serem seguidos têm que ser em função do discernimento de cada um que se encontra em dificuldades, e não em função dos conselhos dos outros, justamente por isso se diz que dar conselhos é a coisa mais fácil do mundo, o que qualquer idiota pode fazer, mas se diz isso porque todos ignoram que primeiro têm que se ajudar a si mesmos, para que somente depois possam ajudar ao próximo, quando então podem avaliar o potencial de cada um para resolver os seus próprios problemas, além do mais ninguém possui encargos mais pesados do que a sua própria capacidade em suportar os pesos.

Todos os seres humanos teriam as suas condutas de vida regidas por leis espaciais, princípios temporais e preceitos universais, caso detivessem os atributos individuais superiores que formam a moral e os atributos relacionais positivos que formam a ética, os quais comandariam os seus poderes e as suas ações, respectivamente, que representam a vida, tornando-os verdadeiramente educados. Mas assim não é, pois que os seres humanos têm as suas condutas de vida regidas por leis e por princípios humanos, os quais são estabelecidos com base no próprio viver terreno, que é impróprio para a vida espiritual, por isso eles não são obedecidos e nem seguidos, com todos se dando ao esforço por burlar as normas segundo os seus próprios interesses pessoais, mas que os legisladores e os estudiosos do Direito julgam que lhes sejam impostas, daí a razão pela qual se diz que as normas são impostas coercitivamente pela sociedade, quando, na realidade, elas não são impostas coisa nenhuma, pois que sempre prevalecem as leis e os princípios dos mais fortes, mas dos mais fortes materialmente falando, pois que até os legisladores, principalmente estes, burlam as próprias leis e princípios que estabelecem para o povo, inclusive os integrantes dos demais poderes do Estado, já que tudo gira sempre em torno dos interesses pessoais e de grupos.

Em tudo isso ocorre uma privação de liberdade, no sentido puramente terreno, e não no sentido real da acepção da palavra, pois que toda a legislação estabelecida neste mundo visa a conter o mal, antes de tudo, pois que os legisladores possuem apenas algumas noções do bem e do mal, em seus aspectos mais gritantes, mas não possuem a noção verdadeira dos atributos individuais superiores e relacionais positivos que formam a moral e a ética, respectivamente, por isso não podem estabelecer as normas que regulem a conduta humana, em conformidade com os requisitos universais, notadamente porque ainda não são espiritualizados. Mas, de qualquer maneira, toda e qualquer legislação que tenha como finalidade reprimir o mal, mesmo cerceando a liberdade e sem se referir ao bem para adotá-lo e incentivá-lo perante a sociedade, é benéfica ao povo. Luiz de Souza, em sua obra Ao Encontro de Uma Nova Era, a página 93, afirma o seguinte:

O cerceio da liberdade é um bem, sempre que usado no sentido de conter o mal. E por mal se compreende tudo aquilo que contraria as boas normas de viver, pautadas pelas suas leis Supremas e Universais.

Todos devem, por isto, satisfazer-se com a liberdade relativa que possuem, procurando viver uma existência controlada e pacífica. As leis foram criadas, precipuamente, para regular a liberdade, para impedir que qualquer um tome o freio dela e pratique o que quiser. Um mundo sem leis, seria um mundo selvagem. Logo, uma vez que as leis são indispensáveis, a liberdade tem de ser dosada e limitada nas suas manifestações”.

Na minha encarnação passada como Ruy Barbosa, apesar de ser muito estudioso e por isso ser considerado como sendo um autêntico erudito, tanto no Brasil como no exterior, eu ainda não era espiritualizado, por isso todo o meu conhecimento era apenas terreno, não ultrapassando a sua atmosfera, então toda a minha experiência correspondente era também própria do ambiente terreno, mesmo sendo eu um cientista, mas que estava em preparação para nesta minha encarnação atual como Pamam realizar as verdadeiras experiências científicas acerca da espiritualidade. Assim, sendo um completo ignorante acerca da espiritualidade, sem qualquer noção a respeito da verdade, portanto, de Deus, do Astral Superior e do astral inferior, principalmente acerca da evolução espiritual, eu não conseguia compreender a razão pela qual os homens sem valor, sem erudição, pouco raciocinadores, de índole má, desprovidos de nobres ideais e sem qualquer preocupação com o bem-estar do povo, sem demonstrarem o verdadeiro caráter e a legítima honra, sempre prosperavam em suas vidas perante a sociedade. E mesmo sendo um paladino da justiça, por mais que lutasse em seu favor, eu nada podia fazer para impedir que a injustiça prevalecesse neste mundo. Como que esgotado pelas batalhas travadas nesta minha guerra considerada como sendo inglória em prol da justiça, veio-me um certo cansaço provocado pelo desestímulo, era somente lutar, lutar e lutar, sendo tudo isso como se fosse em vão. O resultado disso tudo foi um profundo desalento que se instalou e se apoderou da minha alma, o qual se manifestando me fez escrever o seguinte:

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Mas acontece que tudo isso são os contrastes próprios da vida, os quais são decorrentes do processo natural da evolução, pois que a evolução é o preceito primeiro do Universo, então o espírito pode lançar mão de todos os recursos que estejam disponíveis e ao seu alcance para que possa evoluir, e nisto se encontra o x da questão em relação ao processo evolutivo, pois que tanto ele irá realizar as suas próprias experiências, como os demais espíritos irão conviver com ele e tirar as suas próprias conclusões em relação às suas ações, ao seu proceder, com ambos adquirindo um cabedal de experiências cada vez maior para que elas possam ser aproveitadas em seus acervos espirituais, desde que sejam raciocinadores e consigam incorporar a essas experiências nos acervos das suas sabedorias. Em relação a esses contrastes que são próprios da vida neste mundo, o notável Luiz de Souza nos dá uma verdadeira lição sobre o assunto, quando em sua valiosíssima obra A Felicidade Existe, as páginas 55 e 56, esclarece-nos da seguinte maneira:

“CONTRASTES APARENTES

Observam-se na vida verdadeiros contrastes no comportamento dos seres humanos.

Há indivíduos maldosos, incorretos, imorais, vingativos, desonestos, que em lugar de serem colocados nos seus lugares, pelas inferioridades que apresentam, são, quando ricos e influentes, cortejados, tratados cerimoniosamente, acolhidos com suposta simpatia e olhados com reverência, pela notável posição que desfrutam.

Quadros como esse são vistos por aí, em toda parte. Então o que acontece é ficarem aqueles que estão propiciando os seus estudos espirituais, estarrecidos, por notarem o contraste, que é apenas aparente, quando se reafirma que ‘cada um tem o que merece’, ‘quem planta colhe’, ‘quem mal faz para si o faz’, etc., etc., parecendo que essas verdades não se ajustam à realidade.

Ficam esses estudiosos incipientes intrigados, ao constatarem que tudo corre bem para tais bisbórrias, pois ganham rios de dinheiro, são eleitos, com grande maioria de votos nas pugnas eleitorais para os cargos aos quais se candidatam, desfrutam de grandes privilégios, vivem, nababescamente, cercados do maior conforto, têm tudo o que precisam do melhor e do mais caro, são contemplados com generosos favores, a maioria diante deles se curva, e vivem como se fossem os escolhidos da ‘grei celestial’.

Como é então — pensam — que tais indivíduos, tão falhos em virtudes espiritualistas, conseguem na vida uma situação preferencial de soberania sobre os que palmilham pela estrada do dever, da honra e do trabalho?

Parece realmente um paradoxo; mas é preciso não esquecer de que na vida tudo obedece a leis naturais. Não há, nem pode haver, injustiça na aplicação dessas leis sábias. Assuntos dessa natureza só encontram explicação na órbita dos estudos espiritualistas”.

As experiências de vida, então, são fundamentais para a evolução do espírito, pois que é unicamente através delas que ele pode adquirir a sabedoria, que é fundamental para que se possa explanar a verdade, quando esta é estabelecida, como realmente o foi por intermédio da doutrina do Racionalismo Cristão, em que com ambas sendo coordenadas se alcança a razão. É por isso que nos vem novamente Luiz de Souza na mesma obra, as páginas 57, 58, 70 e 76, esclarecer a todos sobre o seguinte:

“O indivíduo, na cadeia imensa de suas encarnações, faz as experiências de pobre, de rico, de servidor braçal, de mentor intelectual, de patrão, de empregado, de homem, de mulher, e cumpre milhares de atribuições inerentes àqueles exercícios. Por esta razão se encontra na Terra, para cursos experimentais, toda essa variedade de misteres e afazeres, cada qual correspondendo às necessidades adequadas.

As imperfeições humanas estão no espírito embotadas, enclausuradas, latentes, e é preciso que seja provocada a sua exteriorização, a fim de serem reconhecidas e aniquiladas.

A víbora peçonhenta escondida na toca, na moita ou no entulho, precisa ser descoberta, para que a defesa contra ela possa se operar, sendo necessário que se conheça o mal de que está acometido o enfermo, para se promover a sua cura. Assim, a vaidade, a presunção, o orgulho, a índole vingativa e perversa, as inclinações desonestas e toda sorte de atributos negativos que se acham ocultos no próprio âmago do indivíduo, precisam ser descobertas para que se lhes possa dar combate mortal.

Cada qual tem de ser leal consigo mesmo, não procurando se iludir nem se julgando melhor do que realmente é. A maneira mais sábia de se destruir o mal, é reconhecê-lo.

Há numerosas pessoas que têm apreciável cabedal de conhecimentos adquiridos nas milhares de existências terrenas, mas que estão ocultos, não revelados, em estado latente, por conveniência do espírito, para que sejam obrigados a viver à custa do trabalho manual, e aí colham as experiências imprescindíveis”.

Há o caso em que os seres humanos são infelizes e fracassam nos negócios, para que através desses fracassos adquiram as experiências necessárias de vida em relação aos fatos que os levaram ao fracasso. Assim, muitas vezes, em face desses infortúnios, eles se entregam aos vícios, como a bebida e até às drogas, por se sentirem infelizes e sem ânimo para tocarem as suas vidas para frente, por lhes faltar a fortaleza necessária para que através dela possam vencer os percalços da vida. Nestas situações, eles têm que ser ajudados, pois que merecem que o bem lhes seja feito por outrem. Mas caso não seja assim, se fracassaram por malandragem, por boemia, entregues aos prazeres terrenos, aqueles que se dispõem a ajudá-los pensam que estão fazendo um bem, mas que estão fazendo o mal. Vejamos o que afirma sobre este fato o grande Antônio Cottas, em sua obra Cartas Doutrinárias de 1964 e 1965, a página 36, quando o consolidador do Racionalismo Cristão diz assim:

Se o noivo fosse possuidor de bom caráter e os pais dele dessem satisfação aos pais da noiva, expondo os motivos que levaram o filho ao cometimento de atos condenáveis ainda se poderia pensar na reabilitação do jovem noivo. Mas, nesse caso, era preciso saber o que ele fez ao dinheiro pedido. Se o envolveu em negócios e foi infeliz e, por ignorância e fraqueza, entregou-se à bebida, seria o caso de amparar esse jovem. Se, porém, fez mau uso do livre arbítrio, jogou, malandrou, entrou em convívios desabonadores e farras, tudo condenável, então, varra-se o pensamento, porque, no fundo espiritual, permanece o germe da maldade e fará a infelicidade da sua filha”.

Na realidade, o mal somente existe porque tudo no Universo tem que existir, e o ser humano tem que praticá-lo, para que dele possa sentir as dores decorrentes, e então possa praticar o bem, passando de um lado para o outro, pois que o mal é o contrário do bem. E como o mal é produto da ignorância humana, fruto da imperfeição, decorrente da imaginação, o bem, então, é o abandono gradativo da ignorância, em que o ser humano parte em busca da perfeição, imaginando a prática do bem. José Amorim, em sua obra A Saúde Com a Limpeza Psíquica ou Psiquismo Prático do Racionalismo Cristão, a página 41, afirma o seguinte:

A Justiça — A Lei de causa e efeito toma nesta posição outro aspecto e pode ser explicada assim: as forças cósmicas universais, impulsionadas pela ação constante, estão efetuando o permanente reajustamento do Todo, para evitar que os elementos negativos ultrapassem os seus próprios limites (grifo meu). O mal, como o comum dos homens o concebe, não existe. Ele é produto da ignorância, que gera efeitos negativos enquanto for ignorância. Porque logo em seguida os efeitos negativos geram, por sua vez, consequências dolorosas. A dor, então, trabalha para despertar o ser errante para o sentido real da vida. Assim a ação juntamente das forças cósmicas universais é sempre no sentido de evitar que os elementos negativos, produtos da ignorância, ultrapassem os seus reduzidos limites. Queremos dizer, então, que o ser está sempre na posição que merece, preso ao campo correspondente a tudo o que somos e o que nos rodeia é consequência dessa infalível Justiça. Neste ponto, devemos nos lembrar de que, se alguma injustiça acontecesse, o Todo Poderoso perderia a sua característica primordial, que é a Suprema Perfeição. Isso, dirá o incauto, é puro determinismo, ao que teremos que responder que, nesse caso, o determinismo é criado pelo uso do livre arbítrio, posto que vivemos sempre os efeitos das causas que geramos”.

É sabido que desde os tempos mais antigos, o medo da morte, a admiração diante das causas das coisas, dos fatos e dos fenômenos que geravam os seus respectivos efeitos e que a tudo isso os seres humanos ignoravam, deu-lhes alguma consciência a respeito do bem e do mal, por isso eles alimentaram a esperança do auxílio divino e a sua respectiva gratidão pelo bem que acontecia, com tudo cooperando fundamentalmente para gerar a fé credulária. Essa fé credulária deu origem aos mais diferentes tipos de credos e seitas, sempre com uma guerra travada entre os deuses do bem e os deuses do mal, em que nessa guerra as forças do bem sempre sairiam vencedoras, destruindo as forças do mal, sem nunca atentarem para a possibilidade da conversão do mal em bem, através da regeneração. Foi por intermédio desse dualismo do bem e do mal que surgiram os paraísos e os infernos quiméricos, como podemos constatar na Pérsia, que depois de quatro épocas de três mil anos cada uma, com alternada predominância de Ahura-Mazda e de Arimã, as forças do mal seriam por fim destruídas, então todos os homens bons se juntariam a Ahura-Mazda no paraíso, e os maus cairiam em um abismo de trevas, onde seriam eternamente alimentados de veneno. Toda essa baboseira se encontra exposta em analogia na perigosa e mentirosa Bíblia, no Apocalipse.

Mas de modo permanente, em todos os tempos, sempre existiram os homens raciocinadores que repeliam e combatiam os males gerados pelos credos e as suas seitas. Lucrécio foi um desses homens raciocinadores, que argumentava assim: “A tantos males os credos persuadiram o homem”. Nesse seu argumento ele se referia aos inumeráveis sacrifícios humanos e de animais, tais como vemos ainda hoje nos sacrifícios bíblicos, em que o astral inferior sendo sedento por sangue, aparecendo na figura desse tal de Jeová, o deus bíblico, quase fez Abraão assassinar ao próprio filho, caso não fosse a intervenção do Astral Superior, e exige o sacrifício de animais, em função do seu sangue; a hecatombe aos deuses imaginados à imagem da voracidade humana; o terror gerado e a juventude perdida em uma congérie de divindades vingativas; o medo ao raio e ao trovão, à morte e ao inferno. Em tudo isso Lucrécio incrimina a humanidade por preferir os sacrifícios rituais à compreensão filosófica. Então ele dizia, devo aqui repetir:

Ó miserável raça humana, que imputas aos deuses atos tais e lhes atribui tamanha ira! Quanto sofrimento por meio de tais credos os homens preparam para si mesmos, que feridas para todos nós, quantas lágrimas para nossos filhos! Porque a devoção não consiste em voltar para as pedras um rosto velado, nem em se aproximar de cada altar, nem em se prostrar diante dos templos dos deuses, nem em espargi-los com o sangue de animais, mas na capacidade de olhar para todas as coisas com paz de espírito”.

Essa dualidade entre o bem e o mal, serviu de anteparo para os credos e as suas seitas desde esses tempos antigos. Em função disso, ao invés de combater racionalmente ao mal, os credos e as suas seitas contribuíram significativamente para propagá-lo cada vez mais, tendo a Igreja Católica Apostólica Romana alcançado o auge da maldade humana. E como esse credo foi apeado de todo o poder que outrora detinha, estando hoje em dia praticamente inoperante, nos tempos atuais as suas maldades foram repassadas para as suas seitas protestantes, que se tornaram as maiores assaltantes da bolsa do povo, tendo como base o instituto da fé credulária e o afastamento dos demônios, que representam o mal, além de outras baboseiras mais, com os seus inescrupulosos e artimanhosos líderes credulários ignorando que eles mesmos são os maiores malfeitores da nossa humanidade, e talvez até sem ignorarem a esta realidade.

No falso cristianismo estabelecido neste mundo pelo catolicismo, já que em nossa humanidade ninguém ainda é realmente cristão, sendo quase todos anticristãos, a heresia de Manes ou Maniqueu introduziu no século III nesse falso cristianismo o princípio do dualismo, de dois poderes independentes do bem e do mal, portanto, do deus bíblico e do Diabo. O maniqueísmo é a seita dos maniqueus, e, por extensão, qualquer doutrina que opõe os dois princípios do bem e do mal.

Ainda no âmbito do falso cristianismo, Agostinho foi profundamente impressionado pelo problema do mal, mas conseguiu se afastar da solução dualista dos maniqueus, uma vez que o seu pensamento se caracteriza fundamentalmente com base no pensamento grego e no pensamento dito cristão. Assim, como que negando a metafísica da existência do mal, apesar de ignorar o que seja a metafísica, considera como se o mal fosse a privação do ser, como a obscuridade é a ausência da luz, assim como se o ser humano que pratica o mal enegrecesse a sua consciência e não conseguisse atentar para o fato de que Deus se encontra contido em si mesmo, mas que mesmo assim esse mal praticado não retira dos seres aquilo que lhe é devido por natureza, o que para ele é o mal metafísico. Quanto ao mal físico, esse contraste entre os seres humanos contribui para a harmonia do conjunto. Em relação ao mal moral, este reside na má vontade que proporciona a prática do mal, por isso ele é proveniente unicamente do homem, e não de Deus, que é puro Ser e produz unicamente os seres. No entanto, ele descamba para o sobrenatural, ao afirmar que o mal moral foi introduzido na humanidade por intermédio do pecado original, por isso a humanidade foi punida com os sofrimentos, físico e moral, além da perda dos dons gratuitos de Deus, tendo Jesus, o Cristo, remediado esse mal, ao restituir à humanidade os dons sobrenaturais e a possibilidade do bem moral, deixando permanecer o sofrimento, consequência do pecado, como meio de purificação e expiação. Por fim, como que em um rasgo de racionalidade, ele afirma que é mais glorioso para Deus tirar o bem do mal, do que não permitir a existência do mal.

Mas o fato é que sendo por demais conhecedores do mal e tendo sentido os efeitos de quase todos os males em suas almas, os seres humanos adquiriram um potencial fantástico para a prática do bem, mas que este, infelizmente, ainda se encontra latente em suas almas, à espera de um grande acontecimento que o faça emergir de vez, por isso eles não procuram praticar o bem no cotidiano da vida, apenas nos momentos cruciais. Reconhecendo a tudo isso, Will Durand, em sua obra Filosofia da Vida, as páginas 128 e 129, afirma o seguinte:

Ainda nascem entre nós santos; homens de boa vontade frequentemente se cruzam conosco; raparigas modestas podem ser encontradas, se soubermos procurá-las; em milhares de lares existem mães pacientíssimas; e a imprensa diária nos mostra com que frequência o heroísmo aparece ao lado do crime. Quando uma inundação sobrevém, milhares de pessoas se apresentam para ajudar, e milhões contribuem com auxílio financeiro; se um povo está na agonia da fome, até de nações inimigas lhe advém socorro; se exploradores se perdem, outros se apresentam para procurá-los. Ninguém ainda mediu a potencialidade do homem para o bem. Atrás do nosso caos e do nosso crime, permanece a bondade fundamental da alma humana. Essa bondade espera que o tumulto chegue ao fim e que por meio do processo de experiência e erro outra ordem social, mais nobilitante do homem, surja (grifo meu)”.

É óbvio que nós, espíritos de luz integrantes da plêiade do Astral Superior, sabemos acerca da potencialidade do homem para o bem, e o quanto esse potencial fantástico se encontra latente em suas almas, que somente poderá emergir de vez por intermédio da espiritualização, e a esta apenas o Racionalismo Cristão é capaz de proporcionar.

A nossa humanidade sempre viveu cativa do ambiente terreno, e agora são chegados os tempos para que ela abandone a esse cativeiro e se universalize. Assim, ela terá que abandonar esse modo de vida em conformidade com os padrões terrenos e adotar um novo padrão de vida com base no Universo, já que todos os seres humanos são espíritos, e não aglomerados de carne e osso. Então todos os seres humanos serão forçados a transcender a este mundo Terra e por intermédio dessa transcendência erguer um novo edifício social, o qual será erguido de cima para baixo, ou seja, partindo dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que se encontram no Espaço Superior, e das correspondentes experiências físicas acerca da sabedoria, que se encontram no Tempo Futuro, para que assim esse novo edifício social tenha por base a verdade e a sabedoria, as quais são coordenadas pela razão.

Foi justamente por isso que eu reencarnei, para explanar o Racionalismo Cristão e fixar os meus ideais na face da Terra, e assim decretar o final de uma Grande Era e estabelecer o início de uma nova Grande Era. Com a nossa humanidade sendo obrigada a transcender a este mundo, ela automaticamente abandonará a fase da imaginação, por onde se raciocina através das representações e combinações de imagens, e ingressará na fase da concepção, por onde se raciocina através das formulações de ideias. E é justamente aqui, na fase da concepção, que a nossa humanidade irá se deparar com a verdade e a sabedoria, portanto, com a razão, universalizando-se. É, pois, no Universo, que os seres humanos poderão fazer valer a luz astral que cada um possui em sua alma, quando então poderão praticar o bem em relação aos seus semelhantes no cotidiano da vida. E se é praticando o bem de maneira constante e ininterrupta que o corpo de luz se manifesta, produzindo a amizade espiritual.

A amizade espiritual, então, será o grande passo dado pela nossa humanidade para a formação do novo edifício social a ser construído neste mundo Terra, até que todos estejam convictos da produção dos raios de luz que são provenientes da amizade espiritual, quando então estarão prontos para a formação de um Estado Mundial, em que todas as nações se unirão para a formação de um único governo, livre de todos os tipos de crimes, uma vez que o mal deverá ser extintos da alma de todos os seres humanos.

Platão foi uma das encarnações de Jesus, o Cristo, por sinal a sua última encarnação antes de alcançar a condição do Cristo, daí a razão pela qual ele é o espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa com a finalidade de elaborar um plano para a nossa espiritualização, que agora chega ao seu final através do Racionalismo Cristão, que deverá espiritualizar toda a nossa humanidade. Então toda a nossa humanidade deverá passar por uma gnosiologia, em que o processo gnosiológico irá consistir em que todos sejam obrigados a deixar de olhar para o ambiente terreno com os olhos da cara e a contemplar o Universo com a luz astral que cada um possui em sua alma. Desta maneira, o ambiente terreno assume o ambiente de uma caverna e o Universo a luz do Sol, com esta luz sendo estendida às demais estrelas, que fornecem as coordenadas universais.

Assim, aquilo que os estudiosos dos assuntos transcendentais julgam seja apenas uma simples alegoria, ou o Mito da Caverna, na realidade, é o processo gnosiológico pelo qual irá passar toda a nossa humanidade, o qual foi previsto por Platão alguns séculos antes desse espírito encarnar na condição do Cristo. Em sua obra A República se encontra o diálogo entre Sócrates e Adimanto, e entre Sócrates e Glauco, através do qual ele nos transmite esse processo gnosiológico pelo qual a nossa humanidade irá passar, da seguinte maneira:

SÓCRATES — Assim, pois, meu amigo, ser-lhe-á necessário tomar pelo caminho mais longo e nunca cessar de se esforçar até haver plenamente desenvolvido tanto o corpo como o espírito. De outra sorte, como acabamos de ver, jamais alcançará o grau mais elevado da ciência sublime, na qual lhe compete, mais que a qualquer outro, instruir-se com perfeição.

ADIMANTO — Pois quê! Não é este, então, o conhecimento superior? Haverá outro mais sublime que o da justiça e demais virtudes de que havemos tratado?

SÓCRATES — Sem dúvida que há. Digo mais, com referência a estas virtudes, que não basta que nos limitemos, como até aqui, ao esboço traçado, mas importa lhes completar o quadro. Pois não seria ridículo empregar todos os esforços em coisas de somenos importância, a fim de lhes dar a máxima limpidez e brilho possíveis, olvidando, ao mesmo tempo, que as mais importantes também reclamam a maior exatidão?

ADIMANTO — Mui judiciosa reflexão. Mas pensas, acaso, que te deixaremos passar adiante sem primeiro te perguntar o que é essa ciência superior e qual seja o seu objeto?

SÓCRATES — Não o creio: podem me perguntar. Ademais, já me ouvistes, por mais de uma vez, tratar desta questão; e, se ora de novo me interpelas, ou é porque não refletes, ou, como me parece mais verossímil, apenas procuras me entalar em tuas novas objeções. Sim, insisto, frequentes vezes já me ouviste dizer que a ideia do bem era o mais elevado objeto dos conhecimentos e que desta ideia promanavam a utilidade e vantagem da justiça e das outras virtudes (grifo meu). Sabes muito bem que é isto, pouco mais ou menos, o que ora vou te responder, acrescentando que não conhecemos perfeitamente esta ideia e que, se não a conhecemos, saibamos embora tudo quanto em torno dela gira, tudo isso de nada nos valerá, assim como sem a posse do bem, inútil nos será a posse de tudo o mais. Crês, por ventura, que haja vantagem em conhecer alguma coisa, se essa não for boa, ou conhecer tudo, menos o que é honesto e justo?

Agora o diálogo com Glauco:

SÓCRATES — Figura-te agora o estado da natureza humana em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda a extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só veem os objetos que lhes estão adiante. Presos pelas caldeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para lhes ocultar as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO — Imagino tudo isso.

SÓCRATES — Supõe ainda homens que passam ao longo desse muro, com figuras e objetos que se elevam acima deles, figuras de homens e animais de toda espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam silencio.

GLAUCO — Singular quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES — Pois são a nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e dos seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO — Não, uma vez que são forçados a ter imóvel a cabeça durante toda a vida.

SÓCRATES — E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

GLAUCO — Não.

SÓCRATES — E, se no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passavam, não julgariam certo que os sons eram articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO — Claro que sim.

SÓCRATES — Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilavam.

GLAUCO — Necessariamente.

SÓCRATES — Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a se levantar de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre lhe ser dolorosa, o deslumbraria, impedindo-o de discernir os objetos cuja sombra antes via. Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, persuadiria-se de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO — Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES — Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO — Certamente.

SÓCRATES — Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o libertar quando estivesse lá fora, à plena luz do Sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe-ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por seres reais?

GLAUCO — Em princípio nada veria.

SÓCRATES — Precisaria de tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas: finalmente, erguendo os olhos para a Lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO — Não há dúvida.

SÓCRATES — Mas, ao cabo de tudo, estaria, de certo, em estado de ver o próprio Sol em si mesmo, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO — Fora de dúvida.

SÓCRATES — Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e os seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO — É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES — Recordando-se, então, da sua primeira morada, dos seus companheiros de escravidão e da ideia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO — Evidentemente.

SÓCRATES — Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO — Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES — Atenção ainda para este ponto. Supõe que o nosso homem volte ainda para a caverna e vá se assentar em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita de pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO — Certamente.

SÓCRATES — Se, enquanto tivesse a vista confusa — porque bastante se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade — tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e lhes dar a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO — Por certo que o fariam.

SÓCRATES — Pois agora, meu caro Glauco, é só aplicares em toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do Sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla, é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto a mim, a coisa é como eu passo a te dizer. Nos extremos limites do mundo inteligível está a ideia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se nos impõe à razão como a causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do Sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.

GLAUCO — Mas se tudo isso é verdade, DEVE-SE CONCLUIR QUE A CIÊNCIA NÃO É O QUE IMAGINAM CERTOS HOMENS (grifo e realce meus), mas se gabam de poder fazê-la penetrar na alma onde não existe, quase da mesma maneira pela qual se comunica a vista aos cegos.

SÓCRATES — Mas, este discurso que NOS FAZ VER QUE CADA QUAL TEM NA ALMA A FACULDADE DE APREENDER COM O ÓRGÃO A ISTO DESTINADO (grifo e realce meus), e que, à semelhança dos olhos não podem passar das trevas para a luz sem que todo o corpo se volte nessa direção, também o órgão da inteligência se deve voltar, com toda a alma, da visão do que nasce para a contemplação do que é, até que se possa fixar sobre o que há de mais luminoso no ser, e que é o próprio bem. Não é assim?

GLAUCO — Sem dúvida.

SÓCRATES — Nesta evolução que se obriga a alma a fazer (grifo meu), toda a arte consiste em fazê-la se voltar do modo mais expedito para si mesma. Não se cogita de lhe dar a faculdade de ver, que ela já possui; SOMENTE OS SEUS ÓRGÃOS NÃO ESTÃO BEM DIRIGIDOS, pois não se voltam para onde devem voltar, e isto é o que cumpre corrigir (grifo e realce meus).

GLAUCO — Assim me parece.

SÓCRATES — Quanto às outras faculdades da alma (os atributos individuais superiores e relacionais positivos, digo eu), dá-se o mesmo que com as do corpo: quando não recebidas da natureza, adquirem-se à força de educação e exercício. Mas, pelo que toca à faculdade de pensar, por isso mesmo que é de natureza mais excelente e de certo modo mais divina, jamais perde a sua virtude. Apenas se torna útil ou inútil, proveitosa ou nociva conforme os objetos para os quais se volta. Não advertiste ainda a que ponto chega a sagacidade dos homens a quem se dá o nome de hábeis malfeitores? Com que penetração a sua mesquinha alma vê o que os interessa! Com que presteza discerne os objetos para os quais volta a atenção! A sua vista não é fraca e nem embotada; mas, como é obrigada a servir de instrumento à malícia, torna-se tanto mais maléfica, quanto mais sutil e penetrante.

SÓCRATES — Não é consequência verossímil, ou, antes, necessária, de quanto temos dito, que os que não recebem nenhuma educação, nem possuem conhecimento algum da verdade (grifo meu), nem os que passaram toda a vida na meditação e estudo, são aptos para o governo do Estado — uns, porque não têm na sua conduta objeto fixo ao qual devem refletir tudo quanto fazem, na vida privada ou pública; outros, porque jamais consentirão em sopesar semelhante carga, porquanto se imaginam transportados em vida para as ilhas dos bem-aventurados?

GLAUCO — Tens razão.

SÓCRATES — A nós outros, pois, que fundamos uma república, incumbe obrigar os bons engenhos a se dedicar à mais sublime de todas as ciências e a se elevar à contemplação do bem em si mesmo, galgando a encosta escabrosa a que nos referimos (grifo meu). Uma vez, porém, que sejam ali chegados e o hajam contemplado assaz longo tempo, guardemo-nos de lhes permitir o que hoje se lhes permite.

GLAUCO — Quê?

SÓCRATES — Fixar lá nas alturas a sua morada e recusar descer de novo a estes desgraçados cativos, tomar parte em seus trabalhos, em suas honras mesmo, ora mais vis mais preciosas.

GLAUCO — Como lhes seremos assim injustos? Porque condená-los a uma vida miserável quando podem desfrutar condição mais feliz?

SÓCRATES — Mais uma vez te esqueces, meu caro amigo, de que ao legislador não compete se propor a felicidade de certa classe de cidadãos com a exclusão de outras, senão procurar, por todos os meios ao seu alcance, a felicidade pública, unindo-os entre si pela persuasão e autoridade, levando-os a repartir uns com os outros as vantagens e proveitos que cada um possa trazer à comunidade. Esqueces que, se o legislador cuida de formar tais cidadãos para o Estado, não será para deixá-los com liberdade de fazer de suas faculdades o uso que lhes convier, senão para fazê-los contribuir ao bem comum da sociedade.

Note-se que o Sol é formado pelas propriedades da Força e da Energia, pelo fato de ser uma estrela, por isso ele fornece uma das coordenadas do Universo. Todo aquele que a isto consegue reconhecer, ao contemplar o seu clarão, consegue também contemplar o clarão das demais estrelas, situando-se em outras coordenadas universais. Assim, o clarão do Sol, embora ilumine diretamente a este mundo, ainda não reúne as condições propícias para que os seres humanos possam contemplá-lo, em função destes se encontrarem presos ao ambiente terreno, sendo cativos da sua atmosfera, e aqueles que se dispõem a contemplá-lo, como no caso dos cientistas, projetam para ele o resultado das suas imaginações, concluindo que essa estrela é formada pelos mesmos elementos deste mundo, no caso os seres hidrogênios, acrescidos dos seres hélios, descaracterizando assim a sua natureza, pelo que imaginam as diversas maneiras de integração desses dois seres para justificar o seu clarão, chegando ainda a concluir que ele é feito de plasma. Aquele que chegar a compreender a natureza do Sol, chegará a compreender também a natureza das demais estrelas, para que assim consigam contemplar o Universo, estande ciente das suas coordenadas estelares.

Em relação ao assunto em pauta, meu nobre e caro leitor, aqueles que leram com um pouco mais de atenção e refletiram em todo o seu teor, com esta reflexão estando em conjunto com tudo o que ora foi exposto, poderão, em resumo, chegar às seguintes conclusões:

  1. A nossa humanidade ainda se encontra cativa ao ambiente terreno, como se estivesse presa a uma caverna na mais completa escuridão, com os pés e a cabeça fixos em seu solo, sem que os seus corpos mentais consigam se voltar para contemplar nem ao menos a luz do Sol, o qual é formado pelas propriedades da Força e da Energia, e que os ilumina através da abertura cavernosa, que é a sua atmosfera, em uma das coordenadas do Universo, por isso, com os olhos da cara voltados unicamente para o ambiente da caverna, só veem sombras, e nada mais, por isso reina a mais completa ignorância, em que as ciências são cativas da ilusão da matéria, e os credos cativos do devaneio do sobrenatural, em que nem um dos dois existem, na realidade, não passando apenas de sombras;
  2. Luiz de Mattos, na qualidade de conhecedor, foi o primeiro desses cativos a se levantar de repente, sem jamais se misturar com o ambiente cavernoso, a volver a cabeça para o Espaço Superior, elevando-se a ele, e a olhar firmemente para as suas luzes estelares, contemplando a verdade, captando-a e a transmitindo para a nossa humanidade, em todo o seu esplendor, mostrando a existência da baixa espiritualidade no ambiente da caverna e da alta espiritualidade fora do seu ambiente de sombras;
  3. Eu, sendo o explanador do Racionalismo Cristão, na qualidade de experimentador, realizei as experiências científicas necessárias para comprovar experimentalmente a existência da baixa espiritualidade no ambiente da caverna, chafurdando na lama infecta desse ambiente cavernoso, a seguir volvi a cabeça para o Tempo Futuro, transportando-me a ele, olhando firmemente para as suas luzes estelares, contemplando a sabedoria, criando-a em correspondência com a verdade, em todo o seu esplendor, certificando a esta, comprovando experimentalmente a existência da alta espiritualidade, para, logo depois, de posse da verdade e da sabedoria, coordenando a ambas e alcançando a razão, ocupar cada uma das coordenadas do Universo, em que o espaço e o tempo são também fornecidos pelas estrelas, fazendo dessas coordenadas os meus postos de observações, pelo que pude observar as ruínas deixadas por Luiz de Mattos no antro cavernoso, obrigando-me a mim mesmo, então, a explanar a verdade e a reconstruir tudo sobre novas bases, e também a fixar os meus ideais por toda a caverna, fazendo a luz resplandecer em todo o seu interior, afastando de vez as sombras que a envolviam, que não passam de simples ignorância acerca da realidade espiritual;
  4. Em função disso, após as minhas experiências científicas no antro cavernoso, ao me transportar ao Tempo Futuro, não pude fazê-lo sem grande pena, pois que habituado com a lama infecta decorrente das suas sombras, em que nela havia chafurdado, não poderia contemplar as luzes da sabedoria e da verdade, ao mesmo tempo, sem grande pena, sem que fosse doloroso, pois que fiquei deslumbrado, o que me impediu de ver os objetos da caverna do modo como antes via, passando de repente a vê-los de outro modo, em razão disso tudo a caverna me causou uma certa confusão mental, por isso quando me indagavam a respeito das minhas ideias, eu ainda não era totalmente preciso, mas sendo extremamente sincero, mesmo estando ciente das consequências;
  5. Finalmente, porém, encontrando-me no Universo, pude contemplar o clarão do Sol, assim como os clarões das demais estrelas, que são formadas pelas propriedades da Força e da Energia, e depois estas propriedades em mim mesmo, assim como também a propriedade da Luz, e sendo uma partícula da Essência de Deus, pude enfim constatar que Ele se encontrava em mim mesmo, em conformidade com o meu estágio evolutivo, tendo então formulado uma ideia precisa acerca do Universo, que por se encontrar em Deus se encontrava também proporcionalmente em mim mesmo, através da minha concepção, estendendo a minha ideia universal para o próprio planeta Terra, que é parte integrante do Universo;
  6. Como na caverna não existem elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente conseguiu distinguir as sombras dos seus objetos para as luzes da realidade, em que tudo isso é dedicado geralmente aos potentados que se encontram ainda mais envolvidos nas sombras, eu jamais poderia deixar que existisse em mim qualquer inveja em relação a esses tais, que no cativeiro são considerados os mais poderosos e honrados, sendo ou não, por isso eu prefiro mil vezes, e muito, muito mais do que apenas isto, levar a vida de um pobre ser humano, vivendo às custas de uma pequena pensão fornecida pela minha querida mãe, cujo valor é igual ao soldo de um soldado da Polícia Militar do meu Estado — eu não estou os desqualificando, apenas comparando a ambos os aspectos de cultura e erudição —, e sofrer tudo nessa caverna, a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que todos levam em seu ambiente cavernoso;
  7. É justamente por essa razão, por haver me alçado às regiões excelsas do Universo, tendo me universalizado, que quando entro em qualquer discussão com os meus familiares e companheiros ainda presos em cadeias, não companheiros da minha jornada missionária, pois que a esta eu sigo sozinho, sem qualquer companhia, por certo os faço rir, pelo que também sorrio das suas ignorâncias, em contrapartida, por isso me denominam de doido e outros adjetivos mais, mas que, na realidade, eles é quem são os verdadeiros loucos, em que se evidencia o contraste entre a imaginação e a concepção, mas eu não os forço a proceder a esta minha elevação superior, pois bastam apenas os adjetivos de doido e outros mais, já que não quero correr o risco de ser agarrado e morto, assim como fizeram com Jesus, o Cristo, embora eu seja ciente de que este risco praticamente não existe, mas, de qualquer maneira, deve-se se esperar tudo de quem apenas imagina, em sua crassa ignorância;
  8. Os tempos são chegados, então toda a nossa humanidade vai ser obrigada a volver a cabeça e a fitar com os olhos da razão a luz que a todos ilumina, desviando-se das sombras que são projetadas na caverna em que ela ainda vive, o que será um processo gnosiológico bastante penoso, principalmente para os mais atrasados, pois que tudo será modificado neste mundo Terra, não ficando pedra sobre pedra, daí a razão pela qual Luiz de Mattos afirma que haverá uma peste de loucura;
  9. É nessa forma encontrada por Platão para descrever o processo gnosiológico pelo qual irá passar toda a nossa humanidade, tido como apenas alegórico pelos estudiosos, que ele vem comprovar a existência dos nossos órgãos mentais, que são o criptoscópio, o intelecto e a consciência, já que afirma “que cada qual tem na alma a faculdade de apreender com o órgão a isto destinado”, o que implica em dizer que o fruto já se encontra maduro, ou seja, que todos já se encontram desenvolvidos o suficiente para passar das sombras para a luz, ou ainda, que todos já se encontram bastante evoluídos para que possam contemplar a luz que é proveniente da espiritualidade, onde se encontra a razão;
  10. Essa luz proveniente da espiritualidade é que permite extinguir com o mal que se encontra nas almas dos seres humanos mais renitentes, que são considerados como sendo o joio, proporcionando as suas regenerações, e o emergir do bem, que somente pode ser praticado através da concepção, por onde se formulam as ideias acerca da realidade da vida, e não da imaginação, por onde se combinam as imagens representadas acerca da irrealidade da vida;
  11. Segundo afirma o próprio Platão, “nesta evolução a que se obriga a alma, toda a arte consiste em fazê-la se voltar do modo mais expedito para si mesma”, o que implica em dizer que todos os seres humanos deverão se conhecer a si mesmos, devendo ter a consciência plena de que Deus se encontra contido em cada um, em conformidade com os estágios evolutivos em que se encontram, pois que é assim, e somente assim, que todos podem apreender em suas almas que são iguais em essência, diferenciando-se uns dos outros apenas em relação às propriedades que adquiriram, as quais dão o valor que cada um merece, pelo fato de havê-las conquistado com honra e com esforço, por isso as suas vibrações magnéticas, as suas radiações elétricas e as suas radiovibrações eletromagnéticas, produzidas através dos seus órgãos mentais, que emanam das suas auras, têm que ser bem dirigidas, voltando-se para onde devem se voltar, que é o bem comum, diferentemente para onde estão se voltando, que são os interesses pessoais e egoístas, e isto é o que cumpre corrigir, por intermédio da espiritualização;
  12. Assim, estando todos vibrando, radiando e radiovibrando para o bem comum, a prática do bem por fim pode ser uma constante em nossa humanidade, com a progressiva extinção do mal, pois que é com a prática do bem que se pode estabelecer a amizade espiritual entre todos os seres humanos, fazendo emergir a solidariedade fraternal, e com ambas o novo edifício social a ser erguido com base na espiritualidade, cujo edifício social será um verdadeiro marco para o estabelecimento de um único Estado na Terra, o Estado Mundial, que deverá abrigar toda a nação humana.

Todos são unânimes em afirmar que não há um mal que não traga um bem. Mas esse dizer próprio da nossa humanidade pode ser amplamente estendido, assim: é de todo o mal praticado que se pode conceber todo o bem que deve existir, sendo de todo o bem que deve existir que se pode conceber a existência da amizade espiritual; e é concebendo a amizade espiritual que se pode praticar verdadeiramente a solidariedade fraternal.

É somente por intermédio da produção da amizade espiritual que os seres humanos poderão praticar o bem, pois que somente ela pode ser capaz de fazer emergir a solidariedade fraternal. Tantas vezes venha a ser possível, quantas vezes eu deverei repetir a tudo isso, pois que dentre outras finalidades que trago cá comigo em relação à minha humanidade, destaca-se em primeiro plano o estabelecimento da amizade espiritual entre todos os seres humanos, para que todos venham a ser solidariamente fraternos uns com os outros, esforçando-se sempre por praticar o bem, pois que é através do esforço que tudo se consegue, e quanto mais se desprender esforços na prática do bem, tanto mais a produção da amizade espiritual se fará aumentar, por conseguinte, a solidariedade fraternal, até que o bem venha a se estabelecer com toda a sua pujança por todo o orbe terrestre, decretando de vez a extinção do mal, que ora impera com todas as suas forças em todos os recantos do mundo.

 

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