11.10- A adoração

Prolegômenos
5 de junho de 2018 Pamam

A adoração é o ato de adorar, através do qual se presta um culto a uma divindade, uma reverência exacerbada, uma veneração em demasia, uma idolatria infundada. Tudo isso pode ser considerado como se fosse um amor excessivo, descontrolado, não sendo, portanto, o verdadeiro amor, pois que tal idolatria excede ou ultrapassa ao legal, ao normal, ao permitido pela lógica, com base na racionalidade, sendo, pois, imoderado, exagerado, descomedido, então não pode jamais se situar no âmbito da concepção, pois não se tem a mínima ideia do objeto da adoração, mas sim situado no âmbito da imaginação, pois que o objeto da adoração não passa de uma imagem representada no corpo mental do adorador, e toda imagem é falsa.

O ato de adorar é muito mais antigo do que se pensa, pois tão logo principia a raciocinar, nas primeiras fases das suas encarnações como espírito, em forma humana, o ser humano sente, ainda que de maneira vaga e confusa, a existência de uma Inteligência Superior, que ainda não pode ser capaz de definir, então passa a imaginar. Daí, nasce a sua inclinação adorativa, que as condições de extrema ignorância em que vive plenamente justificam.

Nesta nossa última e definitiva civilização, o sentido da adoração começou com os primitivos, que se maravilhavam diante dos fantasmas que viam durante o sono e se aterrorizavam quando lhes apareciam em sonhos as imagens dos parentes e amigos mortos. Tais experiências convenceram o homem primitivo de que cada criatura tinha uma alma, ou uma vida secreta dentro de si, a qual se separava do corpo carnal no sono ou na morte. Um dos Upanichades da antiga Índia diz o seguinte: “Não desperteis ninguém abruptamente, porque pode acontecer que a alma não encontre o meio de voltar ao corpo”. Não somente o ser humano, mas todas as coisas tinham alma, pois o mundo externo não era insensível ou morto, mas sim intensamente vivo, uma vez que se não fosse assim, pensavam os antigos, a natureza seria incompreensível, no movimento do Sol, no raio, no murmúrio das árvores e nas demais manifestações da natureza.

Desde que todas as coisas têm alma, a consequência inevitável é que os objetos de adoração não têm fim. Não podemos saber qual foi o primeiro objeto de adoração, mas um dos primeiros foi certamente a Lua. Não podemos saber exatamente quando o Sol substituiu a Lua na adoração dos seres humanos. Ao que tudo indica quando a agricultura substituiu a caça e o trânsito do Sol passou a determinar as estações de semear e de colher, com o calor sendo reconhecido como se fosse uma bênção para o solo. A Terra se tornou a deusa fertilizada pelos raios do Sol e o homem passou a adorar o grande astro como o pai de todas as coisas vivas. E sendo ele formado pelas propriedades da Força e da Energia não deixa de sê-lo, em parte.

O selvagem nada sabe acerca do óvulo e do esperma, só vê as estruturas externas do sexo e as diviniza, pois que assim o sexo encerra espíritos e deve ser adorado, uma vez que ainda mais do que no solo, nos órgãos sexuais aparece o milagre da fecundidade e do crescimento, portanto, devem ser materializações de uma potência divina.

Os índios de Ojibwa davam o nome de totem ao seu animal sagrado, ao clã que o adorava e a qualquer membro do clã, e essa confusa palavra entrou na antropologia como totemismo, para designar a vaga adoração de um objeto qualquer, animal ou planta, que era sagrado para um determinado grupo. Variados totemismos ainda se encontram em muitos pontos da Terra, mesmo sem ligações entre si, como a pomba, o peixe e o cordeiro, que no nascente simbolismo dito cristão eram relíquias da adoração totêmica, e mesmo o porco que hoje é considerado degradado havia sido totem dos judeus pré-históricos, assim como também o bezerro de ouro, que era adorado. Provavelmente o medo está na origem do totemismo, assim como de tantos e tantos outros cultos que pululam por esse mundo afora.

Temos, pois, como já visto mais acima, o fato de que os deuses não passaram no começo de homens mortos e idealizados. O aparecimento dos mortos nos sonhos era motivo bastante para estabelecer a adoração do morto, porque o adorar se não é filho, é, pelo menos, irmão do medo. Homens que haviam sido poderosos em vida e, por isso, temidos, passavam a ser adorados depois de mortos. Todos os mortos eram temidos e tinham de ser propiciados, para que não viessem perturbar a vida dos vivos. Essa adoração dos antepassados de tal modo se adaptava à manutenção da autoridade social, que em breve se espalhou por toda a Terra. À medida que a compulsão ia sendo substituída por uma maior consciência, o medo ia se elevando ao amor imaginado, pois que sem qualquer referência à amizade espiritual, que é o prenúncio do verdadeiro amor e que faz emergir a solidariedade fraternal, e assim o ritual da adoração dos antepassados, tendo sido gerado pelo terror, sublima-se por fim em devoção. A tendência dos deuses é começar como sendo papões e terminar como sendo pais, o que denota perfeitamente uma mentalidade ainda muito infantil e imatura por parte dos seres humanos. E assim, nessa infantilidade e imaturidade, o lento progresso desta nossa última e definitiva civilização passa a se refletir na senil amabilidade dos deuses.

A imaginação de um deus humano constitui o último passo de um longo desenvolvimento, em que esse deus foi se diferenciando lentamente dos demais deuses, através de muitos estágios, saído da concepção de um mar de espíritos e de fantasmas, que nada mais é do que o astral inferior. Do medo e da adoração de espíritos sem forma, os homens passaram à adoração dos astros, da vegetação, do sexo, dos animais e dos antepassados. A noção de Deus como Pai deriva do pronunciamento de Jesus, o Cristo, na cruz. Mas ninguém deve se dispor a imitar ao Nazareno, dada a sua elevadíssima superioridade, e nem mesmo segui-lo é recomendado, pois que somente se deve seguir ao que se compreende, e ninguém consegue compreender o que se encontra contido nos rastros luminosos deixados pelo nosso Redentor, daí a razão da existência do Racionalismo Cristão, que vem esclarecer a todos acerca da espiritualidade, explanando tudo o que se encontra contido nesses rastros luminosos por ele deixados neste nosso mundo-escola.

Uma multidão de crenças mágicas saiu do animismo, dando origens a inúmeras fórmulas, ritos e cultos. A crença na feitiçaria começou cedo na história humana, e nunca desapareceu. O fetichismo, do português feitiço, a adoração de ídolos e objetos de poder mágico é ainda mais antigo e quase indestrutível. Como há um amuleto para cada fim, algumas pessoas trazem muitos consigo, a fim de enfrentarem várias emergências. A cada passo a história desta nossa civilização nos ensina como é ela superficial e como é precário o seu equilíbrio sobre o vulcão nunca extinto do barbarismo, da superstição e da ignorância. A modernidade não passa de um adereço enfeitando o corpo da Idade da Fé, da Idade das Trevas e até da Renascença.

No entanto, mesmo muito antes de Jesus, o Cristo, muitos espíritos iluminados encarnaram neste mundo, como é um grande exemplo Buda, que mesmo na sua época ordenou muitos ensinamentos a respeito da conduta humana, pois que visava, antes de tudo, estabelecer os atributos individuais superiores que formam a moral, por isso nada em relação a adoração, rituais ou cultos, ou mesmo sobre a Teologia. O seu conceito de religião era puramente moral, no que estava absolutamente correto. Quando certa vez um brâmane lhe falou do ritual que consistia em se purificar dos pecados com um banho em Gaia, Buda lhe disse o seguinte:

Toma aqui mesmo o teu banho, ó brâmane. Sê bom para com todos os seres. Se não falas falsidades, se não destróis a vida, se não tiras o que te não é oferecido, que coisa ganharás indo a Gaia? Qualquer água para ti vale a de Gaia”.

Mas o certo é que a virtude está no meio, como dizia Aristóteles, então tanto a ação de adorar como também o culto ou a homenagem que se rende a alguma divindade, não representa jamais uma demonstração de afeto e respeito, mas sim uma demonstração de subserviência exagerada, proveniente de um amor imaginado, por isso sendo excessivo e exacerbado, que os seres humanos apenas imaginam possuir pelo seu deus, o qual, por ser a imagem e a semelhança do homem, portanto, de quem o criou, é por demais vaidoso, ciumento, vingativo e detentor de tantos e tantos outros atributos individuais inferiores e relacionais negativos mais, por isso deseja ser constantemente reverenciado e propiciado por aqueles seres humanos ignorantes, ainda muito atrasados, os quais são temerosos do desconhecido e almejam para si, sobretudo, a imaginária e esdrúxula salvação, que ainda acreditam na existência desse tipo de deus posto no sobrenatural, portanto, posto na irrealidade da vida.

Os judeus já praticavam a adoração antes mesmo do culto a Jeová, como prova a sua adoração ao bezerro de ouro. No entanto, como os seres humanos sempre foram ignorantes acerca da espiritualidade, sempre ignoraram a existência da mediunidade e dos espíritos obsessores, que são zombeteiros e galhofeiros, estando decaídos no astral inferior. Jeová, o deus bíblico, não passa de um desses espíritos atrasados quedados no astral inferior, que aparecia a Abraão e a Moisés todo empavonado, e que até hoje é adorado por todos os ignorantes que seguem a Bíblia. Contudo, em regiões circunvizinhas, na mesma época em que o povo judeu habitava Israel e adorava a Jeová, o seu deus eterno, existiam diversos povos tidos como sendo pagãos, que não adoravam ao deus de Israel, depositando as suas crenças em diversos deuses, na forma de imagens e esculturas. Para o povo judeu, esses deuses eram cultuados em substituição ao seu deus eterno, por isso o povo de Israel buscava se distanciar do povo pagão, obtendo assim costumes e hábitos diferentes, pois que sendo ambos ignorantes, diferenciando-se apenas nos objetos das suas adorações, haveria um risco menor de se juntarem e partilharem da mesma cultura, com ambas sendo ainda muito atrasadas. Entre o povo pagão, era costume se ajoelhar e beijar aquilo que era objeto da adoração, com esse costume passando para outras culturas e se perpetuando até os dias de hoje, como é grande exemplo o catolicismo.

No Antigo Testamento, os deuses eram representados por ídolos que geralmente eram feitos de esculturas, salientando-se que todo ídolo é imagem de escultura, mas nem toda imagem de escultura é ídolo. O exemplo disso vamos encontrar no próprio Jeová, que pediu que se fizessem anjos querubins, os quais, tal como Jeová, eram também espíritos quedados no astral inferior, com ambos formando uma falange de espíritos, tendo Jeová como sendo o chefe do bando, para serem colocados nas duas extremidades da tampa da Arca da Aliança, bem como uma serpente de bronze, sendo ambos as imagens de esculturas, no entanto, não era ídolos, e aqui vemos claramente o exemplo de totemismo.

Na Roma antiga, a adoração se caracterizou como sendo um ato de homenagem ou de culto, em que o devoto mantinha a cabeça coberta e, após o ato da adoração, realizava uma volta da esquerda para a direita, geralmente beijando os pés ou os joelhos das imagens dos próprios deuses, assim como hoje em dia ainda fazem com Jesus, o Cristo, em que lá Saturno e Hércules eram adorados com a cabeça descoberta. Em função da transição dessa homenagem aos deuses, esse ritual se estendeu aos monarcas, por isso os imperadores gregos e romanos foram adorados, com os seus súditos se curvando ou se ajoelhando, lançando mão do manto imperial.

A adoração na Igreja Católica é o culto a Jeová, o deus bíblico, o mesmo deus dos judeus, cuja adoração assume formas diferentes, em que uma delas é a adoração simples desse deus, através das rezas e orações pessoais ou comunitárias, e também da forma litúrgica, como é exemplo a missa e os cultos das seitas protestantes. A adoração assume também a forma de adoração eucarística. A crença católica na transubstanciação é que o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Jesus, o Cristo, durante a consagração realizada na missa pelo sacerdote católico, em nome de Jeová, o deus bíblico, que sendo ávido por sangue justifica assim essa transubstanciação carnívora e sanguinária.

Resta agora, então, apenas explicar de modo racional como surgiu a adoração no seio da nossa humanidade, partindo-se do princípio de que o antropomorfismo é uma crença que atribui a um certo deus a forma e os atributos humanos.

A nossa humanidade sempre conservou fortemente em si o egoísmo, sendo por isso que os seres humanos tratam apenas dos seus próprios interesses pessoais, em detrimento dos interesses dos seus semelhantes, em que muitos são legítimos. O egoísmo é considerado como sendo uma espécie de amor terreno excessivo ao bem próprio, manifestado de modo exclusivista, sem consideração aos interesses alheios, que a tudo se refere ao próprio “eu”, alheio ao ensinamento de Jesus, o Cristo, quando afirmou: “Amai ao próximo como a ti mesmo”. Todo aquele que é egoísta possui o mau hábito de sacrificar tudo ao proveito próprio, pois que não prescinde das suas comodidades, não passando de um mero e fútil comodista.

Em muito se fala na psicanálise do id, do ego e do superego, apesar dos próprios psicanalistas não saberem do que realmente se trata. O id se refere aos instintos que foram adquiridos quando na irracionalidade, e que os seres humanos ainda conservam em si mesmos. O ego se refere aos atributos humanos que foram adquiridos já na racionalidade, mas que foram adquiridos com base na ignorância acerca da espiritualidade, por isso representa o próprio “eu” do indivíduo. E o superego se refere aos atributos humanos que foram adquiridos em sociedade, em que os mais evoluídos ensinam aos menos evoluídos as normas de conduta geralmente aceitas para com os semelhantes, cujas normas de conduta servem para refrear o id e o ego que se encontram em cada um dos seres humanos.

O id é regido pelo inconsciente, fazendo com que os seres humanos ajam automaticamente, em conformidade com os instintos que trazem consigo. O ego é regido pelo consciente, mas os seres humanos não se esforçam o suficiente para sopitar aos seus atributos individuais inferiores e relacionais negativos, deixando-se levar por eles. E o superego é regido pelo consciente adquirido de que todos devem agir em conformidade com as normas de conduta geralmente aceitas e que são impostas pela sociedade, que quando são infringidas ocorrem as repressões de todas as naturezas, em conformidade com o grau da infringência, por isso elas refreiam o ego.

Como o egoísmo é considerado uma espécie de amor terreno excessivo ao bem próprio, manifestado de modo exclusivista, sem consideração aos interesses alheios, que a tudo se refere ao próprio “eu” de cada um, todos os seres humanos que são egoístas possuem a tendência exagerada em referir tudo a si próprios, considerando-se como se cada um fosse o centro do Universo, pois que eles mesmos passam a orbitar em função dos universos pessoais que criaram para si próprios, tendo por base a imaginação, por conseguinte, a tudo e a todos eles incluem nesses seus universos pessoais imaginativos, como se existissem apenas para servi-los. Essa consideração excessiva da própria personalidade, essa importância exagerada no trato consigo mesmo, enseja a que os seres humanos venham a monopolizar a atenção, mostrando desconsideração pela opinião alheia. Isso tudo gerou, inclusive, um método literário, em que se toma o próprio “eu” por centro de investigações e experimentos psicológicos.

Assim, sendo egoístas, os seres humanos são também egocêntricos, de onde surge então a egolatria. A egolatria, portanto, é a adoração de si mesmo, o culto do “eu” por parte dos egotistas. Os egotistas, então, como são medrosos e submissos aos que consideram mais fortes, projetam para fora os seus egoísmos e os seus egotismos, criando um deus à sua imagem e semelhança, invertendo todo o processo, afirmando que foi esse deus que os criou à sua imagem e semelhança, como podemos constatar nos dias de hoje.

No caso de Jeová, o deus bíblico, trata-se de um ser humano que após a desencarnação ficou quedado no astral inferior, que demonstra todo o seu egoísmo e egotismo ao aparecer a Abraão e a Moisés, os quais eram médiuns videntes e ouvintes, principalmente a Moisés, dizendo: “ego sum qui sum”; na tradução latina do Velho Testamento, que em português significa “eu sou quem sou”, e, em outras palavras, esse seu “eu sou quem sou” significa que ele é um espírito trevoso chefe de uma falange de espíritos quedados no astral inferior, tremendamente egoísta, egocêntrico, egotista e vaidoso, além de outros atributos individuais inferiores e relacionais  negativos mais, e também extremamente mentiroso e fanfarrão.

Ao verdadeiro Deus, que é a Inteligência Universal, portanto, o Ser Total, juntamente com as Suas propriedades da Força Total, da Energia Total e da Luz Total, as quais vão sendo adquiridas parceladamente por todos os seres, que são as suas partículas individualizadas, por intermédio do natural processo de evolução, em Sua Infinitude, Ilimitação e Perfeição, não pode aparecer a quem quer que seja, principalmente com mentiras e fanfarronices, manifestando o desejo infundado de ser amado e adorado acima de todas as coisas, mostrando-se também iracundo e ciumento, por isso não se pode atribuir jamais ao verdadeiro Deus a humana vaidade, o egoísmo, o egotismo, o egocentrismo, que são os atributos próprios do um ser individualizado e ainda muito atrasado, que medra na ignorância, sendo, pois, vão, inútil, sem solidez e sem duração, com o desejo imoderado e infundado de merecer a admiração das criaturas, portanto, a sua adoração, que representa a projeção dos defeitos humanos.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Prolegômenos

11.12- O inferno

Segundo os compêndios, a palavra inferno é proveniente da palavra latina infernu, sendo um termo da mitologia que significa lugar subterrâneo, onde se encontram as almas dos mortos. Mas...

Leia mais »
Prolegômenos

12- A INTELIGÊNCIA

Formar um conceito de inteligência em termos absolutos é algo que não está ao alcance de quem quer que seja, justamente por isso a própria doutrina do Racionalismo Cristão...

Leia mais »
Romae