11.03-Os deuses

Prolegômenos
3 de junho de 2018 Pamam

O medo, disse Lucrécio, foi o grande criador dos deuses primitivos. Medo, sobretudo, da morte. Daí não crer o homem primitivo que a morte fosse natural, pois a atribuía a manobras de agentes sobrenaturais. Por aqui logo se pode observar que desde o início das civilizações relativas à nossa humanidade, inclusive desta nossa última civilização, a imaginação já corria à solta em nosso meio, com os seres humanos já sentindo em si a existência de Deus, mas a imaginação os faziam projetar para fora de si uma imagem divina, com eles projetando essa imagem para os espíritos desencarnados, os elementos da natureza, os astros, ou mesmo então para o sobrenatural.

Temos depois os deuses — que no começo não passavam de homens mortos e representados na imaginação, pois o aparecimento dos mortos nos sonhos era motivo bastante para estabelecer a adoração do morto, porque o adorar se não é filho, é pelo menos irmão do medo, ou então parente muito próximo do temor ao desconhecido — passando a ser representados pelos espíritos quedados no astral inferior, sendo posteriormente imaginados de outra maneira, quando os seres humanos passaram a ser obsedados de um modo mais dirigido por esses espíritos obsessores, sendo esta a verdadeira razão pela qual, ainda hoje, os seres humanos adoram aos deuses sobrenaturais, como são exemplos clássicos Jeová, o deus bíblico, que não passa de um homem morto, desencarnado, portanto, de um espírito inferior, que aparecia para os médiuns videntes e auditivos, tais como Abraão e Moisés, e Alá, o deus alcorânico, que aparecia a Maomé, em forma de anjo.

Mas no começo, os homens que haviam sido poderosos em vida e, por isso, temidos, passavam a ser adorados depois de mortos. A razão disso é que estando desencarnados, eles passavam a ser cientes de que eram imortais, e tomando por base as suas imortalidades, sabendo que eram mais poderosos do que os demais espíritos que com eles se encontravam quedados no astral inferior, mesmo ignorando a esta realidade astral, passavam a alimentar as suas pretensões de serem deuses, pois que como tais sabiam que tinham os mortais como sendo os seus instrumentos, geralmente dóceis, uma vez que estes os obedeciam, através das suas intuições ou de outras mediunidades.

A comprovação disso, é que todos os mortos eram temidos e tinham que ser propiciados, para que não viessem perturbar a vida dos vivos, em que essas propiciações iam tornando o ambiente cada vez pesado, favoráveis às ações dos espíritos obsessores. Essa adoração dos antepassados de tal modo se adaptava à manutenção da autoridade social, que em breve se espalhou por sobre toda a Terra. À medida que a compulsão ia sendo substituída por uma maior consciência, o medo se elevava ao falso amor, e digo falso amor porque não se pode amar ao desconhecido e nem pode o amor vir acompanhado do medo, do temor. O ritual da adoração dos antepassados, certamente que gerado pelo terror, sublima-se por fim em devoção, com essa herança sendo passada para os períodos seguintes, como é prova disso a adoração do deus bíblico, gerada pelo tremendo medo provocado pela sua famosa e temida ira, mas temida pelos fracos, sublimada destarte pelos seus devotos através das seguintes expressões: “Eu temo a deus”, ou, “Eu temo somente a deus”; ou “Temei a ira de deus”. Mas a tendência dos deuses é começarem como papões e terminarem como pais, em imitação grotesca e estúpida a Jesus, o Cristo, que chamou ao verdadeiro Deus de Pai. E assim, o lento progresso desta nossa civilização foi se refletindo na senil amabilidade dos deuses.

A representação imaginativa de um deus humano, feito à imagem e semelhança do homem, como no caso do deus bíblico e outros mais, constitui o último passo de um longo desenvolvimento desta nossa civilização. Isto comprova que Deus se encontra contido em nós mesmos, em conformidade com o nosso estágio evolutivo, por isso a razão do deus humano, como o deus bíblico, o deus alcorânico e outros. Esse deus bíblico, por exemplo, foi-se diferenciando lentamente, através de muitos estágios, saído da imaginação de um mar de espíritos e fantasmas, pois os espíritos quedados no astral inferior sempre existiram, mas foram somente revelados por intermédio de Luiz de Mattos, sendo por mim comprovadas, cientificamente, as suas existências e as suas ações maléficas. Do medo e da adoração de espíritos sem forma, os homens passaram à adoração dos astros, da vegetação, do sexo, dos animais e dos antepassados.

Os sacrifícios humanos parecem ter sido realizados em quase todas as épocas e em todos os povos, como propiciação aos deuses, ou seja, em função dos espíritos obsessores, que assim se ligavam mais diretamente ao canibalismo que era praticado, pois os homens achavam que os deuses possuíam os mesmos gostos que eles. Lentamente, porém, os atributos que formam a moral e a ética em evolução foram mudando os ritos, os deuses imitavam a crescente desbarbarização dos seus adoradores, e se resignavam a aceitar os sacrifícios de animais, em vez dos sacrifícios humanos. Mais tarde, nem animais pilhavam os deuses, pois os sacerdotes que sempre foram velhacos e espertalhões, que já existiam desde as épocas mais remotas, para a infelicidade geral da nossa humanidade, comiam a carne boa e só levavam aos altares os ossos e as tripas.

No Egito, o próprio faraó era deus, sempre filho de Amon-Ra, e governava não só por direito divino, como por nascimento divino, como deidade de ligação entre o céu e a terra. Em sua cabeça se assentava o uraeus, ou serpente, símbolo da sabedoria e comunicadora das virtudes mágicas. O rei era o sacerdote supremo da fé credulária e caminhava soberbo à frente das grandes procissões do credo que era praticado. Foi graças a essa associação com os deuses, que não passavam de espíritos inferiores, que os faraós dominaram por tanto tempo no Egito e com tão pouco uso da força bruta.

Daí o fato dos sacerdotes serem os sustentáculos do trono e a polícia secreta da ordem social, pois que foram sempre obsedados. Eram a indispensável ponte ligadora dos homens aos deuses. O cargo sacerdotal passava de pais para filhos, de modo que se foi erigindo em classe, a qual, em virtude da piedade do povo e da liberalidade dos reis, acabou se tornando mais opulenta do que a aristocracia feudal e a própria família real.

Ikhnaton, ou Amenotep IV, consegue imaginar um deus único para todas as nações e chega a mencionar antes do Egito o nome de outros países, como dentro do governo de Aton, denominação dada a esse único deus. Note-se que a imaginação de Aton aparece em todas as formas do desenvolvimento vital, pois não é um deus limitado pela forma humana, causa da influência fecundadora revelada em tudo.

Dois anos depois da morte de Ikhnaton, o seu genro Tutancamon, um favorito dos sacerdotes, elevou-se ao trono. Mudou o nome de Tutancamon que o seu sogro lhe dera, restaurou Tebas como capital e o poder do sacerdócio, e anunciou ao povo jubiloso a volta dos velhos deuses. As palavras Aton e Ikhnaton foram raspadas dos monumentos e os sacerdotes proibiram que os fiéis as pronunciassem, o povo passou a se referir ao grande Ikhnaton, vejam só, como “O Grande Criminoso”. E assim, tudo voltou a ser como dantes.

Na Babilônia, o povo atendia com agrado aos sacerdotes e enchia os templos em busca do favor dos deuses, como ainda hoje faz quem segue o credo católico e as suas seitas protestantes, assim como também os demais credos e seitas, em busca dos favores, dos milagres, dos perdões, das bênçãos e das demais benesses do deus bíblico e outros. O mais interessante é que esse povo se mostrasse por tanto tempo leal a um credo que lhe dava tão pouco. Nada podia ser sabido, declaravam os famigerados sacerdotes, a não ser pela revelação, que somente poderia vir por intermédio deles.

Na Assíria, relevos em Ninive mostram homens sendo empalados ou esfolados, outros submetidos ao arrancamento da língua, um deles mostra um rei furando os olhos dos prisioneiros com a lança, enquanto mantém a cabeça da vítima segura por uma corda passada através dos lábios. O credo assírio nada fez no sentido de atenuar a essa tendência para a brutalidade exacerbada, tendo exercido menos influência no governo do que na Babilônia, e se orientava de acordo com as necessidades e gostos do rei. Assur, a deidade nacional, era um deus solar, belicoso e implacável para com os inimigos, criam os fiéis que ele se regalava com o espetáculo da execução dos prisioneiros diante do seu altar, em que aqui se pode constatar que os deuses denotavam a presença dos espíritos quedados no astral inferior, exteriorizando as suas maldades. A principal função do credo assírio consistia em treinar os futuros cidadãos para uma patriótica docilidade e lhes ensinar a arte de obter os favores dos deuses por meio de mágicas e sacrifícios. Os únicos textos credulários que chegaram ao nosso conhecimento são de exorcismos e presságios. Os sacerdotes, ignorantes da existência dos espíritos quedados no astral inferior que os atormentavam, como ainda hoje os atormentam, obsedando-os, descreviam o mundo como recheado de demônios, aos quais as criaturas mantinham afastados por meio de amuletos e cuidadosas encantações.

Quando penetraram no palco da história, os judeus não passavam de beduínos nômades, medrosos dos demônios do ar, como sempre os espíritos quedados no astral inferior atormentando aos encarnados, sendo adoradores das pedras, dos carneiros, dos bois, dos espíritos das cavernas e das montanhas. Os cultos do boi e do carneiro eram muito vivos. Moisés nunca pôde extirpar da sua gente a fé credulária no Bezerro de Ouro, porque a adoração egípcia do touro ainda estava muito fresca em sua memória, razão pela qual por longo tempo Jeová foi simbolizado por esse herbívoro. Lentamente, porém, a concepção de Jeová como o deus nacional tomou forma e deu à fé credulária judaica a unidade e a simplicidade que a elevou acima do caótico mosaico dos panteões mesopotâmicos.

Originariamente, de acordo com os historiadores, Jeová parece ter sido o deus do trovão, morando nas montanhas, mas, na realidade, ele não passava de um espírito trevoso, quedado no astral inferior, sendo chefe de falanges. E assim, Jeová, tido como se fosse enérgico, mas não passando de um simples mentiroso e fanfarrão, tornou-se predominantemente um imperialístico deus dos exércitos a lutar com ferocidade pelo seu povo. Diz Moisés: “O senhor é homem de guerra”. E Davi repete: “Ele instrui as minhas mãos para a peleja”. Jeová promete “destruir todo povo em cujas terras os judeus entrarem”, confirmando assim as suas mentiras e fanfarronices, e pouco a pouco expulsar os hivitas, os canaanitas e os hititas, e então declara ser seu todo o território conquistado pelos israelitas.

Assim, Jeová se assemelha a um animal irracional que marca o seu território, faltando apenas urinar em seu interior, não o fazendo porque na realidade não passa de um espírito preso à atmosfera terrena, e então não pode expelir urina pela via natural, como fazem os seres humanos e os outros animais, sendo o território, pois, marcado pelas palavras ignorantes do seu povo. Nada de pacifismo, Jeová sabe que mesmo a Terra Prometida só pode ser conquistada e conservada por meio da força, ele é um deus da guerra porque assim tem que ser realmente. Mas como ele demonstrou ser um deus derrotado e fracassado, pois que mentira e fanfarronice não ganha guerra alguma, somente depois de muitos séculos de derrota militar, de sujeição política e de algum desenvolvimento moral é que os judeus o transformariam no bondoso e amável pai de Hillel e de Jesus, o Cristo.

Além de mentiroso e fanfarrão, Jeová se mostra tão feroz e tão ciumento, que pensou na destruição de todos os judeus quando os viu adorando ao Bezerro de Ouro. Moisés teve que discutir firmemente com ele e chamá-lo à ordem, quando disse: “Arrefece a tua feroz ira”, e então o “senhor” se arrependeu do mal que pretendera fazer ao seu próprio povo. Vejam só, o deus bíblico se arrependendo, quando, na realidade, não é arrependimento, mas sim artimanha. Outra vez, quando os judeus se rebelaram contra Moisés, Jeová queria exterminá-los, mas Moisés apela para os seus “bons” sentimentos e acena com o que diria o povo se ouvisse tal fato. Tudo isso é obra do astral inferior, pois como Moisés era médium vidente e ouvinte, esse tal de Jeová aparecia a ele todo empavonado, para lhe dar a aparência de um deus.

Assim como Moisés, Abraão também era médium vidente e ouvinte, pelo que observando a essas suas mediunidades, o astral inferior se empavona na figura de Jeová e exige de Abraão um cruel sacrifício humano, quando então, procedendo tal como Moisés, ensina a Jeová alguns atributos individuais superiores formadores da moral, e assim, pouco a pouco, ele vai civilizando ao seu deus, que desta maneira vai sendo civilizado pelo próprio ser humano, o seu seguidor, e assim vai se revelando e demonstrando a maneira pela qual o desenvolvimento moral do homem leva a humanidade a uma periódica remodelação das supostas divindades.

Tudo quanto Jeová exigia no Primeiro Mandamento era que vaidosamente fosse colocado acima dos outros deuses. “Eu sou um deus ciumento”, confessa descarada e estupidamente Jeová, e induz os fiéis a “derrubar” os seus rivais e a “quebrar as suas imagens”. Em seu famoso cântico, Moisés conta: “Quem entre os deuses é semelhante a ti, Jeová?”. E Salomão diz: “Grande é o nosso deus acima de todos os deuses”. Por aqui, pode-se constatar claramente que tanto Moisés como Salomão aceitam a existência de outros deuses, mas que colocam Jeová acima de todos eles, já que todos eles são espíritos obsessores.

Com o desenvolvimento da unidade política nos reinados de Davi e Salomão, e com a centralização do ritual no Templo de Jerusalém, a Teologia refletiu a história e a política, e Jeová se tornou o único deus dos judeus. Além desse henoteísmo, palavra inventada por Max Müller para designar a adoração de um deus como supremo, combinada com a explícita, Índia, ou tácita, Judeia, admissão de outros deuses, como neste último caso se encontram os dizeres de Moisés e Salomão logo mais acima, não deram eles mais nenhum passo rumo ao monoteísmo, até o advento dos profetas, que eram seres extremamente perturbados.

A despeito dos esforços de Salomão para embelezar o culto de Jeová por meio da cor e do som, a adoração dessa tétrica divindade permaneceu por muitos séculos coisa mais de terror do que de amor. Jeová trouxe à humanidade mais terror do que consolação.

Na Índia, um dos valores que para nós tem os Vedas consiste em mostrar como nasce um credo. Podemos ver ali o berço, o crescimento e a morte de deuses e de fés credulárias. Esses deuses são humanos no aspecto, nos móveis e, particularmente, quase na ignorância, não o sendo pelo fato de não mais enxergarem com os olhos da cara. Varuna, que começou sendo o céu e cujo hálito era a tempestade, desenvolveu-se na imaginação dos seus adoradores como a mais ideal deidade dos Vedas.

A morte é a origem de todos os credos e se não houvesse morte talvez não houvessem deuses, pois que com a morte os espíritos desencarnados mais poderosos passam a assumir a pretensão de serem deuses, daí a razão pela qual Max Müller criou a palavra henoteísmo, em que se propicia a um determinado deus, considerado como sendo mais poderoso que os demais deuses. Para Buda essas visões foram o começo da “iluminação”. E assim, tal como ser humano, estando vencido pela conversão em prol da busca da verdade, subitamente deliberou deixar o seu pai, a sua esposa e o seu filho recém-nascido, e se tornar um asceta no deserto.

Nos deuses do hinduísmo aparece Vixnu, um deus do amor que repetidamente se faz homem a fim de ajudar a humanidade. A sua maior encarnação era Krishna, que na realidade foi uma das encarnações anteriores de Jesus, o Cristo, após a sua encarnação como Hermes, no Egito. Morreu, dizem alguns, de uma flechada; dizem outros, que crucificado em uma árvore. Desceu ao inferno, subiu ao céu, e voltará no último dia para julgar os mortos, igualmente como inventaram com ele mesmo, quando encarnou como Jesus, o Cristo, alguns séculos depois.

O panteão hindu conta trinta milhões de deidades, aproximadamente. A simples lista de todos os deuses encheria um catálogo com cem volumes. Muitos são o que chamaríamos anjos, outros o que chamaríamos diabos, outros são corpos celestes como o Sol, mascotes como Lakshmi, deusa da boa sorte, animais do campo, aves do ar, etc., sendo todos espíritos obsessores, que assumem tais formas ou se fazem representar por outras. O animal sagrado por excelência na Índia é a vaca. Não devemos nos impressionar com o jardim zoológico dos deuses hindus, pois outros povos também tiveram a serpente do Éden, o Bezerro de Ouro do Velho Testamento, o peixe sagrado das catacumbas e o sacrificado cordeiro do deus bíblico.

Na Grécia, em tempos mais primitivos, cada família tinha o seu deus particular, e a ele eram oferecidos o alimento e o vinho antes de cada refeição. De igual modo, a tribo e a cidade possuíam cada qual o seu próprio deus. Atenas adorava Atena; Eleusis, Demeter; Samos, Hera; Éfeso, Artemis; e Posseidônia, Posseidon. No centro e no alto da cidade ficava o altar do deus local, a participação no culto desse deus era o sinal, o privilégio e o requisito da cidadania. Quando a cidade marchava para a guerra levava consigo a imagem e o emblema do seu deus na vanguarda das tropas, e a vitória não era apenas a conquista de cidade por cidade, mas de um deus por um deus, o que implica em dizer que as guerras eram travadas no astral inferior, com os seus reflexos nos seres humanos. Assim como na família o pai era o sacerdote, também na cidade grega o supremo magistrado, ou arconte, era o mais alto sacerdote do credo do Estado, com todos os seus poderes e ações santificados pelo deus.

Todos os objetos, ou forças da terra e do céu, todas as bênçãos e todos os terrores, todas as qualidades do homem, e até mesmo os vícios, eram personificados em um deus, em geral de forma humana, assim como o deus bíblico. Nenhum outro credo foi tão antropomórfico quanto o grego, o que demonstra claramente que os deuses haviam sido humanos, e que depois passaram a se tornar apenas espíritos, por estarem desencarnados, sendo, portanto, imortais. Como se explica que Homero tenha se referido tanto aos Olímpicos? Pelo fato dos deuses do Olimpo haverem vindo com os aqueanos e os dórios, sobrepujaram as deidades miceneanas e ctônias e as dominaram os seus adoradores.

Diz-se que Zeus amou com grega imparcialidade ao gentil Ganímedes, roubando-o em menino para fazer dele o seu copeiro particular, no Olimpo. Como Apolo foi o ideal da juventude masculina, assim foi Artemis o modelo da moça grega: forte, atlética, graciosa e casta. E, além disso, a protetora das parturientes, as quais lhe pediam alívio para as dores do parto. Em Éfeso, Artemis manteve o seu caráter asiático, como a deusa da maternidade e da fecundidade. Tudo isso era repassado pelos espíritos obsessores aos seres humanos.

O fracasso da cidade-Estado da Grécia acelerara a decadência do credo ortodoxo, os deuses da cidade se haviam mostrado incapazes de defendê-la, e deste modo se desacreditaram aos olhos do povo.

Em 198 a.C., Antíoco III derrotou Ptolomeu V, e a Judeia passou a fazer parte do Império Seleucida. Cansados do domínio egípcio, os judeus suportaram Antíoco III e acolheram como uma libertação a sua captura de Jerusalém. Mas o seu sucessor, Antíoco IV, resolveu transformar a Judeia em fonte de renda, pois estava planejando grandes campanhas e precisava de fundos. Ordenou aos judeus que pagassem de imposto um terço das suas colheitas de trigo e a metade da produção dos pomares. Desprezando a tradicional hereditariedade do cargo, nomeou como Sumo Sacerdote o sicofântico Jasão, que representava o partido helenizador de Jerusalém. Jasão pediu licença para fundar instituições gregas na Judeia. Antíoco IV prontamente o satisfez, pois se sentia perturbado ante a diversidade e a persistência dos cultos orientais da Ásia Grega, e sonhava unir o seu império poliglota sob uma só lei e uma só fé credulária. Vendo Jasão demorar nessa obra, Antíoco IV o substituiu por Menelau, que era fácil em promessas e ainda mais fácil em gordas propinas. Sob Menelau, Jeová foi identificado como Zeus. É por isso que Antônio Cottas, em sua obra Cartas Doutrinárias – 1991, a página 24, afirma o seguinte:

Criaram os povos, pelo seu atraso, esse nome DEUS, que era empregado, como ainda hoje, para tudo, até para furtar e matar. Deus era o nome que se dava aos homens que exerciam influência sobre os povos, e veio da corrupção da palavra Zeus, que era a entidade suprema de certa tribo”.

Roma teve um credo com muitas divindades. Varro as calculava em 30 mil, e Petrônio se queixava de que em algumas cidades da Itália haviam mais deuses do que gente. Mas deus para os romanos significava ao mesmo tempo santo e deus, pois eles não podiam supor jamais que eram espíritos quedados no astral inferior. Às vezes punha Roma no Panteão o deus de uma cidade vencida como signo e segurança da conquista. Os romanos não duvidavam da existência desses deuses de fora, muitos acreditavam que trazida a imagem vinha com ela o deus, e outros queriam que a imagem fosse o próprio deus, um pouco diferente do simbolismo católico da atualidade. Na realidade, quando eles venciam uma cidade, o seu deus passava a ser bem mais propiciado do que o deus da cidade vencida, que passava a ser desacreditado, quando então, levado pelo ambiente fluídico favorável às suas ações, o deus da cidade vencedora subjugava o deus da cidade vencida, que geralmente passava a fazer parte integrante das suas falanges, por isso os romanos não duvidavam da existência dos deuses de fora e que trazida a imagem vinha também com ela o deus.

Como que a se referir aos espíritos habitando os seus Mundos de Luz, Lucrécio dizia que havia deuses, sim, mas que moravam muito longe, em feliz isolamento das preocupações humanas. Lá, “para além das flamantes extremas do mundo”, fora do alcance das nossas preces e dos nossos sacrifícios, lá vivem os deuses, contentes com a contemplação da beleza e a prática da amizade e da paz na Terra. Não são os autores da criação, nem a causa dos eventos, quão desassisado lhes atribuir as desordens, os sofrimentos e as injustiças do viver terreno! Não, dizia ele, o Universo infinito, composto de tantos mundos, contém-se a si mesmo, não se guia por outra lei que não as próprias leis universais.

A imaginação faz com que os seres humanos desenvolvam os atributos individuais inferiores e relacionais negativos, e com eles estando cativos aos seus próprios universos pessoais, todos eles imaginativos, consideram-se o centro de tudo, em que esses atributos individuais inferiores e relacionais negativos comandam as suas ações em busca dos seus próprios interesses pessoais, relevando e desprezando desta maneira os interesses legítimos dos seus semelhantes. Luiz de Mattos, em sua obra Pela Verdade, as páginas 236 e 237, referindo-se ao assunto, diz o seguinte:

O espírito humano, devido à sua natural perturbação causada pela diferença da atmosfera diáfana do mundo a que pertence, (e do qual veio) com a densa, gasosa, pesada, da Terra, e pela sua ligação fluídica à matéria, ao corpo, por ele próprio organizado, para nele se depurar pelo trabalho, pelo sofrimento derivado da ingratidão dos seres, com os quais é obrigado a conviver, fez o ser humano mais sobressair pelos instintos, especialmente o da conservação física, (a parte animalizada) e o hábito originário da sua vontade, só materialmente educada.

Desse imperar de instintos e hábitos animalizados, desenvolveu-se, cresceu e ficou nele predominando o egoísmo, motor de todos os seus atos, desejos e pensamentos terrenos, todos utilitários, todos materializados e bestiais.

Desse egoísmo, filho dos maus instintos, dos maus hábitos e da falta de educação da vontade, resultou o hábito pernicioso do ser humano se considerar superior a tudo, repleto de orgulho e prepotência.

Dessa errada noção de independência, de liberdade, do poder e do dever, resultou também a sua soberbia, o repúdio do seu semelhante, da disciplina e da obediência precisas para a harmonia e o progresso seu e de todos os seres.

Desse instinto, desse hábito, dessa má compreensão dos seres e das coisas sérias da vida, e assim dos seus deveres, resultou, por último, a revolta contra o seu semelhante e a invenção de um ser supremo, superior a todos os homens, engendrado à sua maneira, à sua semelhança, conforme o seu intelecto e a sua vontade, ao qual ele pudesse se dirigir nos seus momentos de fraqueza, de medo, de sofrimentos físicos”.

Com base no dizer de Luiz de Mattos, os famigerados sacerdotes, sendo todos obsedados, instrumentos dóceis dos espíritos obsessores, aproveitam-se para amoldar esse ser supremo aos gostos diversos dos seus arrebanhados, fazendo desse ser supremo um simples joguete que serve de instrumento para trazer todos encabrestados aos seus desejos intemperados, simulando diversas ações possivelmente praticadas por esse ser supremo, em favor ou desfavor dos infelizes fiéis, conforme sejam os seus objetivos inconfessáveis, tais como: “deus abençoa”, “deus é fiel”, “deus julga”, “deus condena”, “deus tem planos para a sua vida”, “deus obra milagres”, “deus quer ser adorado”, “deus ajuda na vida financeira”, “deus põe fim às dores”, “deus esteja contigo”, “deus é temido”, etc.; quando eles mesmos dizem em seus mandamentos que não é para tomar o seu santo nome em vão, e sem atentarem para o fato de que não adianta pedir proteção ou qualquer outra coisa ao verdadeiro Deus, porque Dele tudo se tem, como: o sentimento, o pensamento, os órgãos mentais, o raciocínio, o livre arbítrio, a vontade e todos os atributos morais e éticos. O que importa, pois, é o ser humano se abastecer de sentimentos superiores e de pensamentos positivos, para que as suas resoluções sejam acertadas para a prática de boas ações. Convencido disso, o ser humano não mais deixará se iludir pelas promessas sacerdotais relativas a um deus imaginado às suas conveniências, que não passa de um simples instrumento para as suas ânsias de poder e de enriquecimento ilícito.

Tratando do deus bíblico e outros, como que enojado pela subserviência e a ausência de moral em relação a eles, Will Durant, em sua obra Filosofia da Vida, as páginas 453 e 495, retrata toda essa sua repugnância da seguinte maneira:

As múltiplas formas de tratar aos deuses provêm do servilismo com que são implorados os favores dos grandes na Terra — mãos postas, genuflexão, humilhação, bajulação, etc.

Ainda hoje não há altar católico sem imagens de santos, isto é, de heroicos antepassados. Isto mostra que a adoração dos antepassados não se confina ao Japão e à China — está espalhada pelo mundo inteiro.

Os processos da decadência e morte dos deuses; vão eles ficando atrás do desenvolvimento moral humano, até que morram vítimas da sua divina imutabilidade”.

Toda essa criação dos deuses é proveniente do fato de que Deus se encontra em nós mesmos, mas os seres humanos ainda não adquiriram a devida consciência desta realidade, em função disso eles projetam para fora de si os deuses que se encontram neles mesmos, enquanto que os espíritos obsessores projetam para dentro de si mesmos, principalmente porque são cientes das suas imortalidades. É por isso que todo e qualquer deus possui as mesmas formas e as mesmas características humanas, com a diferença de que eles possuem poderes imaginados fora do contexto da realidade, daí a razão da existência do sobrenaturalismo, e daí a razão da existência do antropomorfismo, por conseguinte, do henoteísmo. Na realidade, ninguém pode se desassociar de Deus, porque Dele viemos e a Ele devemos retornar.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Romae