11.01.01- As coisas

Prolegômenos
3 de junho de 2018 Pamam

Em alemão, o termo ding correspondente a coisa, relaciona-se com denken, pensar, e, portanto, significa “o pensado”. Em latim, o termo res também correspondente a coisa, filia-se à mesma raiz do verbo reor, pensar, significando, igualmente, “o pensado”. Em referência a essa correlação entre a coisa e “o pensado”, a obra básica do Racionalismo Cristão, a página 123, vem afirmar o seguinte:

O espírito cria a imagem pelo pensamento e só depois a materializa para um determinado fim… De toda a obra humana — toda, sem exceção — criou o espírito a imagem pela ação do pensamento, e só depois a materializou. E se assim ocorre na Terra, muito mais no Espaço, onde o poder do pensamento criador é incomparavelmente maior”.

Luiz de Souza, em sua obra Ao Encontro de Uma Nova Era, a página 21, com relação ao pensamento, faz a seguinte afirmativa:

“O pensamento pode transformar, pelo seu poder, qualquer composição material, por serem todas elas por ele criadas.

Os Seres do Astral Superior, em hierarquia espiritual ascendente, rumo ao Poder Total, transformam a matéria com o poder do pensamento, em toda e qualquer composição, sem restrições, sempre que essa transformação obedeça a injunções da Mecânica Universal, ditadas pelas leis da evolução”.

Ainda na mesma obra, a página 64, o autor assim continua:

“O pensamento criador está envolvido pela força de vontade, e saturado dela. Assim, a imagem concebida pelo Grande Foco (Deus, digo eu), revela-se automaticamente”.

E José Amorim, em sua obra, Energia Programada – A  Mecânica do Perispírito, a página 64, afirma o que se segue:

“… um espírito deverá se conhecer como componente da Força Cósmica Total que movimenta o Universo Infinito. Precisa, pois, ter consciência, a mais clara possível, do elemento em que se movimenta, e saber que ‘são esses movimentos’ — como diz ainda o Racionalismo Cristão… — ‘irradiados de um núcleo de Força, que é o espírito, no oceano de uma essência idêntica, que é o Todo, assinalando o poder atrativo que faz com que esses atributos desse Todo convirjam para o núcleo, desenvolvendo-o, e dando-lhe maior potencialidade’. Isto faz com que o ser humano sinta em si, de forma intensa, o Ser Real, que é pura e unicamente aquela ‘força de vontade dotada de pensamentos’ indicada por muitos filósofos, ou, como diz ainda o Racionalismo Cristão…: ‘O espírito é Luz, é inteligência, é vida, é poder criador. Nele não há matéria em nenhum dos seus estados. É, portanto, imaterial. Partícula individualizada, assim se conserva em toda a trajetória que faz no processo de sua evolução’. Força que tem poder, através do pensamento, de gerar energia e, com a energia, a matéria (ou a ilusão da matéria) (grifo meu)”.

De fato, nós devemos conceber o significado do termo coisa como sendo tudo aquilo que existe como ser, o qual vai adquirindo cada vez mais as parcelas das propriedades da Força e da Energia, posteriormente a da Luz, ao alcançar a condição de espírito, mediante o processo natural da evolução. Este estabelece que em todo e qualquer momento em que o ser vai adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, ainda não da propriedade da Luz, em que aquelas são as primeiras a serem adquiridas, enquanto que fluídica, deve sofrer a ação do poder do pensamento espiritual para que se crie uma imagem, em decorrência, como se fosse uma materialização para um determinado fim. Assim, cada ser, com as suas respectivas parcelas das propriedades da Força e da Energia, representa uma e apenas uma coisa, em decorrência uma imagem que lhe é própria. E, à medida que ela vai evoluindo, ao adquirir cada vez mais essas parcelas, vai também sendo transformada pelo poder do pensamento espiritual em outras coisas, ou em outras composições ditas materiais mais evoluídas, adquirindo outras imagens.

É por essa razão que todos os seres, tais como coisas, encontram-se ligados uns aos outros, representando um todo como se fosse realmente material, com essa representação se estendendo ao âmbito de tudo aquilo que se oferece à produção das sensibilidades, posteriormente à produção dos sentimentos, e à produção dos sentidos, posteriormente à produção dos pensamentos, no caso dos seres humanos, em que estes possuem, além do corpo fluídico, o corpo de luz, ambos ligados ao espírito, mesmo com a presença do corpo carnal.

As coisas menos evoluídas, então, passam a se ligar às coisas mais evoluídas, com a recíproca sendo também verdadeira, para que assim possam se formar as imagens, pois é óbvio que na hierarquia da evolução ascendente, os seres menos evoluídos necessitam, obrigatoriamente, dos seres mais evoluídos para deles serem componentes, assim como os seres mais evoluídos necessitam, obrigatoriamente, dos seres menos evoluídos para compô-los, pelo menos até um determinado estágio de evolução. E assim, nesta simbiose, ambos evoluem. Podemos encontrar este exemplo na simplicidade da composição da água, onde três seres menos evoluídos, dois seres hidrogênios e um ser oxigênio, compõem um ser mais evoluído, que é o próprio ser molecular água.

A generalização filológica da concepção de coisa por parte dos estudiosos, de que ela seja tudo aquilo que não é designado pelo nome que a identifica, faz-na ser confundida com os fatos e os fenômenos, sendo este o motivo pelo qual os seres humanos, até hoje, ainda não conseguiram formar uma ideia satisfatória ao seu respeito. Deste modo, ao contrário daquilo que trazem todos os compêndios, inclusive os dicionários, os fatos e os fenômenos não são coisas, já que os seres, como tais, são quem se apresentam como sendo os grandes responsáveis pelas suas causas e pelos seus efeitos. As causas, por intermédio dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, contidos nas parcelas da propriedade da Força, e os efeitos, por intermédio das experiências físicas acerca da sabedoria, contidas nas parcelas da propriedade da Energia, ambas as propriedades adquiridas no decorrer do processo da evolução. É por isso que os fatos e os fenômenos não podem, jamais, ser confundidos com as coisas.

Assim, e somente assim, pode-se conceber que Deus é o Criador de todas as coisas que existem, ou também que podem existir, dado o processo contínuo e ininterrupto da evolução, e nunca, de modo algum, dos fatos e fenômenos universais. Pois não se pode conceber o Ser Total como sendo um mero habitante do Universo, como se fôra um simples ser ligado a parcelas das propriedades da Força, da Energia e da Luz, sujeito a ações do pensamento para que se forme uma imagem, e, em decorrência, a ilusão da matéria, tal como uma coisa qualquer ligada a outras coisas, dando origem a determinados fatos e fenômenos das mais diferentes naturezas, já que o princípio de causa e efeito o limitaria a um mero originador desses fatos e fenômenos, em virtude da correspondente relação de união, natural e obrigatoriamente, o restringir a isso, ou seja, a um simples ser.

Toda coisa simples, ainda não racional, como se fosse matéria, é formada de um ser, que é a essência, mais parcelas da propriedade da Força e parcelas da propriedade da Energia. O ser é a substância principal, sempre individualizado, que além de representar a essência da coisa, utiliza-se das parcelas das propriedades da Força e da Energia que adquiriu para gerar as causas e os efeitos de todos os fatos e fenômenos. A parcela da propriedade da Força é uma substância secundária, que representa uma mera propriedade da coisa, através da qual o ser vai adquirindo o poder para gerar todas as causas dos fatos e dos fenômenos. A parcela da propriedade da Energia é outra substância secundária, que representa outra propriedade da coisa, através da qual o ser vai adquirindo a ação para gerar todos os efeitos dos fatos e dos fenômenos. Já a ilusão da matéria é o imaginário da coisa formado pela ação do pensamento, que fornece uma imagem, e, à medida que o ser evolui, ao adquirir cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, vai, juntamente com estas, sendo transformado em outras coisas, sempre mais complexas, mudando a sua imagem, para que assim cada coisa possa utilizar e ser utilizada por outras, para diversos fins, consoante o sentimento poderoso e o pensamento criador que convergem de Deus. Por isso, todos dizem que a matéria é plasmável.

Sabendo-se que qualquer ser atômico é uma coisa, e que os seres atômicos são os seres menos evoluídos que existem no Universo, não importando a hierarquia evolutiva que existe ou que possa existir entre eles, podemos então afirmar que ele é constituído do seguinte: de uma partícula individualizada do Ser Total, que podemos denominar simplesmente de ser, que é a sua essência; e das menores parcelas de duas das Propriedades do Ser Total que adquiriu em sua evolução, as quais podemos denominar simplesmente de propriedades da Força e da Energia, parcelas essas que também passam a ser as suas propriedades.

Assim, por exemplo, um ser hidrogênio é uma coisa, outro ser hidrogênio é outra coisa, e um ser oxigênio é também outra coisa, como também o ser molecular água que eles compõem é ainda outra coisa. A grande diferença entre eles, os seres atômicos e o ser molecular, não se encontra na essência, na individualidade do ser, como todos assim pensam, uma vez que todos são iguais em essência, mas sim nas propriedades que adquiriram, as quais indicam o valor que cada ser possui, uma vez que o valor deve ser considerado em inteira conformidade com que o ser se encontra em seu estágio evolutivo.

Considerando-se um ser molecular água, que todos sabem ser composto por dois seres hidrogênios e de um ser oxigênio, deve-se, mesmo assim, considerá-lo como sendo uma única coisa, porém já mais evoluída que qualquer um dos seres atômicos que a compõem, e não como sendo quatro coisas, pois que a coisa realmente considerada é o ser molecular água como essência, o qual adquiriu as parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes ao ser molecular água, embora ele, tal como essa coisa, encontre-se estreitamente ligado a outras três coisas que adquiriram partes das parcelas das propriedades da Força e da Energia que ele antes já adquiriu, as quais correspondem a um ser atômico cada uma, pois já foi dito que as coisas menos evoluídas se ligam às coisas mais evoluídas, já que os seres menos evoluídos necessitam, obrigatoriamente, dos seres mais evoluídos para poderem evoluir, com a recíproca sendo também verdadeira, sendo por isso que todas as coisas se encontram ligadas umas às outras, para que assim elas possam representar um todo como se fosse material, com essa representação se estendendo ao âmbito de tudo aquilo que se oferece à produção das sensibilidades, posteriormente à produção dos sentimentos, e à produção dos sentidos, posteriormente à produção dos pensamentos, isto no caso dos seres humanos, proporcionando assim uma variedade incomensurável de utilidades, sendo por isso que as ciências conseguem manipular e transformar o todo tido como se fosse material. A isto nós podemos denominar de interação universal, que ocorre nos mundos-escolas.

O ser, então, que adquiriu as parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes ao ser molecular água, é uma e apenas uma coisa, pois somente ele pode gerar as causas e os efeitos pertinentes às relações que existem com as outras coisas com as quais se encontra ligado, inclusive as causas e os efeitos decorrentes das suas estreitas ligações com as duas coisas que representam os seres hidrogênios e com a coisa que representa o ser oxigênio, mesmo que outros seres que adquiriram parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a outros seres moleculares água, como coisas semelhantes, possam também proporcionar causas e efeitos idênticos com as outras coisas com as quais se encontram estreitamente ligados.

A segunda coisa, assim denominada para simples efeito didático, é aquela que existe como sendo um dos dois seres hidrogênios, a qual se encontra estreitamente ligada ao ser molecular água, pois o ser que constitui a sua essência adquiriu as parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a apenas um ser hidrogênio, embora tais parcelas representem uma parte das parcelas das propriedades da Força e da Energia do ser molecular água, por isso somente ela pode gerar as causas e os efeitos pertinentes às relações que existem com todas as outras coisas com as quais se encontra ligada, inclusive as suas estreitas ligações com o outro ser hidrogênio, com o ser oxigênio e com o ser molecular água, mesmo que outros seres que adquiriram parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a outros seres hidrogênios, como coisas semelhantes, possam também proporcionar as causas e os efeitos idênticos com as outras coisas com as quais se encontram estreitamente ligados.

A terceira coisa, assim também denominada para simples efeito didático, é aquela que existe como sendo o outro ser hidrogênio, a qual se encontra, da mesma maneira, estreitamente ligada ao ser molecular água, pois o ser que constitui a sua essência igualmente adquiriu as parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a apenas um ser hidrogênio, embora tais parcelas, de igual modo, representem uma parte das parcelas das propriedades da Força e da Energia do ser molecular água, por isso somente ela pode gerar as causas e os efeitos pertinentes às relações que existem com todas as outras coisas com as quais se encontra ligada, inclusive as suas estreitas ligações com o outro ser hidrogênio, já considerado, com o ser oxigênio e com o ser molecular água, mesmo que outros seres que adquiriram parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a outros seres hidrogênios, como coisas semelhantes, possam também proporcionar as causas e os efeitos idênticos com as outras coisas com as quais se encontram estreitamente ligados.

A quarta coisa, assim ainda denominada para simples efeito didático, é aquela que existe como sendo o ser oxigênio, a qual se encontra, ainda da mesma maneira, estreitamente ligada ao ser molecular água, pois o ser que constitui a sua essência adquiriu as parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a apenas um ser oxigênio, embora tais parcelas, ainda de igual modo, representem uma parte das parcelas das propriedades da Força e da Energia do ser molecular água, por isso somente ela pode gerar as causas e os efeitos pertinentes às relações que existem com todas as outras coisas com as quais se encontra ligada, inclusive as suas estreitas ligações com os dois seres hidrogênios, já considerados, e com o ser molecular água, mesmo que outros seres que adquiriram parcelas das propriedades da Força e da Energia correspondentes a outros seres oxigênios, como coisas semelhantes, possam também proporcionar causas e efeitos idênticos com outras coisas com as quais se encontram estreitamente ligados.

Claro está, então, que um ser molecular água representa uma coisa diferente de todas as outras coisas com as quais ele se encontra estreitamente ligado, inclusive diferente dos outros seres moleculares água. Que cada uma das coisas com as quais ele se encontra estreitamente ligado são também diferentes entre si e de outras coisas que se encontram estreitamente ligadas a outros seres moleculares água. Isto implica em dizer que cada ser molecular água representa apenas uma coisa que tem de ser considerada em sua natureza individual, ainda que ela se apresente ligada a outras coisas que, mesmo na aparência, possa apresentá-la representando quatro coisas.

E que cada um dos seres atômicos que estão ligados a um ser molecular água representa uma coisa diferente da coisa com a qual eles se encontram estreitamente ligados, inclusive diferentes entre si e de todos os outros seres atômicos de outros seres moleculares água. Que aquela coisa com a qual eles se encontram estreitamente ligados é também diferente das coisas com as quais outros seres atômicos semelhantes se encontram, igualmente, estreitamente ligados. Isto implica em dizer, que cada ser atômico que esteja ligado a uma coisa tem que ser considerado em sua natureza individual, assim como esta coisa à qual ele se encontra ligado também representa apenas uma coisa, mesmo que esta, na simples aparência, possa apresentá-los representando uma única coisa.

No entanto, caso a inteligência de alguns seres humanos ainda não consiga se elevar ao âmbito desta compreensão, então podemos considerar, no simples modo de tratar, mas somente nele, determinadas coisas como sendo iguais umas às outras, desde que elas estejam de acordo com a ordem das suas naturezas. Assim, neste simples modo de tratar, podemos considerar todos os seres moleculares água como sendo iguais uns aos outros, todos os seres hidrogênios como sendo iguais uns aos outros e todos os seres oxigênios como sendo iguais uns aos outros.

Porém, a partir de um determinado estágio de evolução, quando as coisas alcançam uma determinada ordem de grandeza na natureza, esse modo de tratar deve ter a sua extinção decretada, pois que cada coisa deve ser tratada, obrigatoriamente, em sua natureza individual, como ser, principalmente no caso dos seres humanos, que é o exemplo de maior alcance e que mais acessa a compreensão humana, já que eles, além de continuarem a adquirir o corpo fluídico ou perispírito, através das propriedades da Força e da Energia, passam também a adquirir o corpo de luz, através da propriedade da Luz, sendo todos espíritos.

A concepção de coisa como sendo tudo aquilo que existe como ser e que vai adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, faz-nos compreender que quanto mais o ser evolui, quer dizer, quanto mais ele ascende ao Criador, desligando-se cada vez mais da imagem da ilusão da matéria à qual se encontrava ligado, e se ligando a outras porções físicas de natureza mais diáfana, através do seu corpo fluídico, principalmente quando passa a adquirir a propriedade da Luz, ao alcançar, como ser humano, o raciocínio e o livre arbítrio, portanto, a espiritualidade, tanto mais sentimos o desconforto e a consequente recusa em tratá-lo como coisa, embora ele não deixe de sê-lo, pois, habitualmente, opomos o mundo das coisas ao ser humano, porque, dada a sua qualidade de um ser espiritual, não o contamos comumente entre as simples coisas.

Isto se justifica pelo fato das coisas mais evoluídas, cujos seres que as integram, que são as substâncias que constituem as suas essências, em maior ascendência ao verdadeiro Deus, dados os seus valores, trazerem-nos as lembranças do Criador — que também pode ser denominado de Coisa Total, pois que todas as coisas Dele vêm e para Ele vão, já que uma coisa somente pode advir de outra e para outra ir, uma vez que não pode advir do nada e para o nada ir, porquanto o nada não existe —, despertando em nossos espíritos recordações abstratas dos nossos Mundos de Luz, onde temos a plena consciência de que cada uma delas é parte integrante do verdadeiro Deus, e que cada uma delas representa uma de suas partículas, enquanto que, aqui, no mundo Terra, ainda não adquirimos esta consciência em sua plenitude.

A expressão “coisa em si”, utilizada por Kant, designa a coisa tal como existe, o ser ou o ente mais as parcelas das propriedades da Força e da Energia que adquiriu, em oposição ao fenômeno, que não existe em si, mas apenas em função das coisas. Mas assim, então, os fatos não são levados em consideração, pois que olvidados. Kant chama a “coisa em si” também de númeno, porquanto a opõe ao fenômeno, pois que para ele o seu entendimento é objeto apenas da percepção através da sensibilidade, e não da compreensão através dos sentidos. Ainda para ele, infelizmente, a “coisa em si” só pode ser por nós pensada de maneira indeterminada, não podendo nunca ser conhecida, isto é, ser determinada em sua essência, no que se encontra totalmente equivocado, já que aqui está demonstrado que a podemos conhecer. É por isso que se diz que o seu criticismo é fenomenalista, em oposição ao realismo. Mas, de qualquer maneira, tendo como ponto de partida a distinção entre a “coisa em si” e o fenômeno, não deixa de ser um grande passo para o esclarecimento da nossa humanidade, e o próprio Schopenhauer reconhece e confessa que o maior mérito de Kant foi ter realizado esta distinção.

Platão, que foi a encarnação imediatamente anterior à encarnação de Jesus, o Cristo, afirma que cada ser humano deve por si examinar bem o que cada coisa representa na sua essência, e não confiar naquilo que os intermediários dizem, pois que posto fora da realidade, já que eles dizem por intermédio dos sentidos, quando afirma o seguinte:

É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que a sua alma, quando foi tomada pelos cuidados da Filosofia, encontrava-se completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para alma uma espécie de prisão, através da qual ele deveria forçosamente encarar as realidades (grifo meu), ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si mesma; que, enfim, ela estava submersa em uma ignorância absoluta. E o que é maravilhoso nesta prisão, a Filosofia bem o percebeu, é que ela é obra do desejo, e quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria pessoa! Assim, digo, o que os amigos do saber não ignoram é que, uma vez tomadas sob os seus cuidados as almas cujas condições são estas, a Filosofia entra com doçura a lhes explicar as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos olhos, tanto como o que se faz pelo ouvido e pelos outros sentidos (grifo meu), persuadindo-as ainda a que se livrem deles, a que evitem deles se servir, pelo menos quando não houver a imperiosa necessidade; recomendando-lhes que se concentrem e se voltem para si, não confiando em nada mais do que em si mesmas, qualquer que seja o objeto do seu pensamento. Que não creiam, enfim, senão no próprio testemunho, desde que tenham examinado bem O QUE CADA COISA É NA SUA ESSÊNCIA e que se persuadam de que as coisas que são examinadas por meio de um intermediário qualquer (no caso em questão, as ciências, digo eu) nada possuem de verdadeiro, e pertencem ao gênero do sensível e do visível, enquanto o que elas veem pelos seus próprios meios é inteligível e, ao mesmo tempo, invisível (grifo e realce meus)!

Eis como, sem dúvida, refletirá a alma de um filósofo: ela não irá pensar que, sendo o trabalho da Filosofia libertá-la, o seu possa ser, enquanto a Filosofia a liberta, o de se entregar voluntariamente às solicitações dos prazeres e dos sofrimentos, para tornar a se colocar nas cadeias, nem o de realizar o labor sem fim de uma Penélope (a esposa de Ulisses, figura da Odisseia, que na ausência do marido, perseguida por muitos pretendentes que desejavam com ela se casar, prometeu desposar um deles quando houvesse acabado de tecer um pano em que estava trabalhando, mas desfazia durante a noite a parte que tecera durante o dia, de modo que jamais concluiu o trabalho, nem casou com nenhum pretendente, digo eu) que trabalhasse de maneira contrária àquela com que trabalhou aquela. Não! Ela acalma as paixões, liga-se aos passos do raciocínio e sempre está presente nele; toma o verdadeiro, o divino, o que escapa à opinião, por espetáculo e também por alimento, firmemente convencida de que assim deve viver enquanto durar a sua vida, e que deverá, além disso, APÓS O FIM DESTA EXPERIÊNCIA, ir-se para o que lhe é aparentado e semelhante, desembaraçando-se destarte da humana miséria! (grifo e realce meus)”.

Tratando de Deus e, ao mesmo tempo, das coisas, Huberto Rohden, em sua obra O Pensamento Filosófico da Antiguidade, a página 31, afirma o seguinte:

Deus não equivale a este ou aquele fenômeno, mas sim à essência eterna de cada um. O íntimo ser de cada coisa é Deus (grifo meu), mas não o seu existir perceptível pelos sentidos ou concebível pelo intelecto.

Um vez que a suprema e única Realidade, Deus é a essência e o íntimo de todas as coisas (grifo meu), segue-se que essas coisas não podiam começar nem continuar a sua existência fenomenal sem que a eterna Realidade lhes desse e conservasse essa existência individual, graças à permanente imanência da Divindade em todos os seres”.

Desde a antiguidade que as grandes mentalidades já sabiam que todas as coisas são provenientes da Coisa Total, ou de Deus. Anaxágoras de Clazomena encarnou na Jônia por volta do ano 500 a.C., tendo sido discípulo de Anaxímenes, porém aceitando o infinito de Anaximandro. Em Atenas, onde morou por cerca de 30 anos, tornou-se amigo de Péricles e de Fídias, onde viu levantar o Partenão. No entanto, tendo sido acusado de ateísmo, fugiu para Lâmpsaco, na Ásia Menor, onde fundou a sua escola, desencarnando três anos depois, em 428 a.C., tendo dedicado a sua vida na investigação da verdade. Esse veritólogo era indiferente aos interesses terrenos, tendo descuidado do seu patrimônio por amor da verdade, por isso costumava dizer que o céu e a missão na sua vida era a contemplação das estrelas, entendendo-se com isso que ele procurava se elevar ao Espaço Superior, como que antevendo as coordenadas universais, daí a razão da minha afirmativa de que eu vivo no âmbito das estrelas, e não no mundo da Lua, tal como os seres humanos. Nessa sua elevação, ele consegue conceber a realidade como sendo constituída por uma infinidade de partículas mínimas eternas e imutáveis, de qualidades diversas, mas semelhantes umas às outras. Daí vem afirmar que todas as coisas vêm sendo constituídas graças a uma inteligência imanente ordenadora, que é Deus.

As religiociências das coisas, então, são aquelas que têm como finalidade precípua o ser, que vai adquirindo parcelas das propriedades da Força e da Energia, através das quais o pensamento vai criando imagens, por conseguinte, a ilusão da matéria, até que ele inicie a adquirir tais parcelas adquirindo também parcelas da propriedade da Luz, quando então ingressa no âmbito da espiritualidade. Por isso, elas são diferentes das religiociências dos fatos e dos fenômenos. As religiociências dos fatos têm como finalidade os casos ou os acontecimentos decorrentes das relações de trocas de conhecimentos, de experiências e de atributos, portanto, de acervos, que ocorrem entre as coisas mais evoluídas que se cruzam direta e temporariamente, mas sem que jamais ocorram quaisquer modificações tidas como sendo materiais nas mesmas. E as religiociências dos fenômenos são aquelas que têm como finalidade as modificações tidas como sendo materiais operadas nas coisas que se ligam direta e temporariamente, com a interveniência das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais, tanto físicos como químicos, provenientes das propriedades da Força e da Energia, com tais modificações sendo controladas pelas ações dos pensamentos conscientes advindos da propriedade da Energia, mas iluminados pela propriedade da Luz.

 

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