10.04- Chuang-Tsé

A Era da Sabedoria
24 de setembro de 2018 Pamam

Chuang-Tsé encarnou em 369 a.C., na província de Sung, China, e desencarnou em 286 a.C., aos oitenta e três anos de idade. Embora tenha visitado as mesmas cortes que Mêncio visitou, nas obras de um não há qualquer referência ao nome do outro. Era um adepto dos ensinamentos taoistas, tendo ele sido muito influente no desenvolvimento do zen-budismo. Existe uma obra clássica antiga com o seu nome, que os estudiosos afirmam ser dele pelo menos os primeiros sete capítulos, os denominados Capítulos Interiores, mas quanto aos demais capítulos, os denominados Capítulos Exteriores, ou Capítulos Heterogêneos, os estudiosos afirmam que foram adicionados posteriormente por mãos desconhecidas.

Como Chuang-Tsé não era propriamente um saperólogo, mas sim um veritólogo, logicamente que pendia mais por cultivar a moral, ao invés da ética, embora fosse detentor de ambas, mas escorregava nesta segunda quando era impelido a utilizá-la. E isto é devidamente comprovado quando o duque de Wei lhe ofereceu o lugar de primeiro ministro, em que Chuang-Tsé despediu os seus mensageiros de maneira bastante grosseira, ao se dirigir a eles da seguinte maneira:

Ide embora, rápidos, não me sujeis com a vossa presença. Eu antes me rebolcaria em um chiqueiro do que me sujeitar às restrições e regras da corte de um soberano”.

Em outra vez, quando estava pescando, aproximaram-se dois mensageiros do rei de Khu, dizendo-lhe que o rei queria agraciá-lo com o encargo de todos os territórios. Chuang-Tsé, sem desviar a atenção da vara de pescar, respondeu da seguinte maneira:

— Ouvi dizer que em Khu há uma casca de tartaruga já falecida há três mil anos, que o rei guarda em seu templo ancestral, em uma redoma. Teria sido melhor para a tartaruga morrer e deixar a sua casca para assim ser honrada? Ou ter-lhe-ia sido melhor viver e se conservar arrastando a cauda na lama?

— Seria melhor viver e arrastar a cauda na lama. — respondeu um dos mensageiros.

— Pois ide, prefiro continuar arrastando a minha cauda na lama. — concluiu Chuang-Tsé.

A sua dedicação à forma de governar se assemelhava à do seu antecessor Lao-Tsé, também veritólogo. Era um crítico mordaz dos governantes. Deleitava-se em revelar em quantos pontos os reis e governadores se igualam aos ladrões. Adepto da natureza, afirmava que se um sábio viesse a chefiar um Estado, o que faria era não fazer nada, deixando assim aos homens a liberdade de construir os seus próprios órgãos de direção. Entendia por deixar o mundo fluir e de exercer a tolerância, pois não entendia a pretensão de se governar o mundo. Dizia que na idade da virtude perfeita os homens viviam em comum com as aves e os animais de pelo, em perfeita igualdade, como em família, então como podiam conhecer entre si a distinção entre os homens superiores e os inferiores?

Geralmente os homens que cultivam uma grande moral, deixam de cultivar a ética em uma proporção razoável, daí o fato de Chuang-Tsé declarar que o homem de sabedoria gira nos calcanhares ao primeiro sinal de governo, indo viver o mais afastado possível, tanto dos filósofos como dos reis, ignorando que a sabedoria é própria da Filosofia, agora Saperologia. E como aqueles que buscam a verdade tendem para a ermitania, em busca de locais despovoados para a meditação, alçando-se ao Espaço Superior em busca dos conhecimentos, tal como Buda e outros, ele diz que o homem de “sabedoria” apenas cortejará a paz e o silêncio da floresta, deixando que o seu ser, sem nenhum impedimento do artifício ou da ideia, siga o divino Tao, ou seja, a lei e o fluir da inexplicável vida da natureza. Será econômico de palavras, porque as palavras mais transviam os homens do que os guiam, e o Tao, que é o caminho e a essência da natureza, nunca pode ser reduzido a palavras ou formulado em pensamento, pois só pode ser sentido pelo sangue. Repelirá a máquina, preferindo os processos manuais, singelos, antigos, porque a máquina traz a complexidade, a turbulência, a desigualdade, e o homem não pode ao mesmo tempo viver entre máquinas e ter paz. Evitará possuir propriedades, e não procurará empregos para o ouro, como Timão, deixará que o ouro fique oculto nas montanhas e as pérolas escondidas no fundo do mar. E o mérito do homem está em compreender que todas as coisas pertencem a todos, e que a vida e a morte devem ser vistas do mesmo modo, como medidas harmônicas no ritmo da natureza, como as ondas do mar.

O sentimento central de Chuang-Tsé, como o de Lao-Tsé, ao qual dava mais valor do que aos pensamentos de Confúcio, pelo fato de ambos serem veritólogos, era uma projeção individual do ser humano em relação ao todo humano, descaracterizando a unidade pessoal, uma das principais distinções do veritólogo em relação ao saperólogo, daí o fato dele ser tão propício aos ensinamentos de Buda e dos Upanishads, cujos ensinamentos se infiltraram em seu espírito, apesar dele ser um tanto quanto cético, mas orientado pelo Tao. O seu ceticismo é refletido em uma história, através de um diálogo entre a penumbra e a úmbria:

— Ora te moves, ora estás em repouso; ora te sentas, ora te levantas. Por que essa instabilidade de propósito? — disse a penumbra, ao mesmo tempo indagando à úmbria.

— Eu dependo de algo que me faz proceder assim; e esse algo depende de outro algo que o faz proceder assim. Como posso dizer por que faço uma coisa e não outra? — disse a úmbria, também ao mesmo tempo indagando à penumbra.

Desse diálogo, Chuang-Tsé tira a seguinte conclusão:

Quando o corpo se decompõe, o intelecto se decompõe com ele. Não é um caso deplorável? A mudança, o surto e a dissolução de todas as coisas prossegue continuamente, mas nós não sabemos quem ou o que mantém a continuidade do processo. Que sabemos do começo? Que sabemos do fim? Só nos cumpre então esperar, e nada mais”.

Para Chuang-Tsé todos esses problemas se referem menos à natureza das coisas do que aos limites dos nossos pensamentos, por isso não é de se admirar que o esforço do nosso intelecto para compreender o cosmos, do qual o ser humano é uma partícula, termine em contradições, confusões e antinomias, que é uma contradição real ou aparente entre duas leis, ou uma ideia contrária ao princípio das leis. A tentativa para explicar o todo à luz da parte revela uma grande falta de modéstia, só aceitável em vista do divertimento que a pesquisa tem provocado, porque tal pesquisa saperológica é a visualização da parte em relação ao todo, e um não é possível sem o outro. O intelecto nunca poderá compreender as coisas últimas, no caso os conhecimentos metafísicos, que são as causas, ou qualquer coisa profunda, como, por exemplo, o crescimento da criança. A disputa de argumentos é prova da falta de uma visão clara, e para compreender o Tao devemos severamente suprimir o nosso conhecimento, no caso aqui a experiência física, temos de esquecer as nossas teorias e sentir o fato. A educação em nada ajuda a essa compreensão, o que importa submergir no mar da natureza.

Esse Tao é algo inexprimível por meio de palavras, que só imperfeitamente o podemos definir como a unidade de todas as coisas, o calmo fluir do mundo e a lei que a esse fluir obedece. Antes que houvesse terra e céu já o fluir existia. Nesta unidade cósmica todas as contradições se fundem, todas as distinções desaparecem, todos os opostos se unem, dentro dela não há mal e nem bem, nem branco e nem preto, nem belo e nem feio, nem grande e nem pequeno. Quem percebe que o Universo é pequeno como uma sementinha de joio e que a ponta de um cabelo é tão grande como a montanha, esse aprendeu a relatividade das coisas.

Referindo-se diretamente ao grande processo da evolução dos seres, em que nenhuma forma é permanente, e que apesar de ser único, ninguém pode se isolar e deixar de se transmitir a outro, no lento ciclo evolutivo, ele assim se expressa:

As sementes das coisas são numerosas e minúsculas. Na superfície das águas elas formam uma textura membranosa. Quando chegam ao ponto em que terra e água se juntam, tornam-se as plantículas nutridoras das rãs e ostras. Emergindo para a vida em lugares altos, tornam-se a erva, e recebendo o esterco aparece como o ranúnculo. As raízes do ranúnculo se tornam vermes e as folhas borboletas. Esta borboleta se muda em larva e vem à vida em um casulo. E então tem a forma de mariposa, e depois de mil dias a mãe se torna ave. O ying-hsi, ligando-se ao bambu, produz o khing-ning, e este, a pantera. A pantera produz o cavalo e o cavalo produz o homem. O homem então entra na grande engrenagem da evolução da qual todas as coisas retornam para a morte”.

Dada a época, logicamente que Chuang-Tsé ainda não reunia as condições criptoscópicas necessárias para captar todo o processo evolutivo dos seres a partir do átomo, o qual somente foi descoberto na Grécia, através de Demócrito, Leucipo e Epicuro. No entanto, ele consegue nos fornecer uma ideia bastante clara, se não muito precisa, da evolução dos seres, cuja vida realmente se inicia na água. Ele quase consegue ainda antever que o corpo material do ser humano também passará por grandes transformações. E que a morte, ou seja, a desencarnação é apenas uma mudança de forma, em que o ser humano liberto da matéria, assume uma outra, que é geométrica, a qual o espírito, juntamente com o seu corpo fluídico, ou perispírito, e com o seu corpo de luz, são inconfundíveis.

Com relação à desencarnação, quando se processa essa transformação, estava Tze Lai moribundo, devidamente assistido pela mulher e os filhos, que se encontravam em prantos, quando veio Chuang-Tsé visitá-lo e disse:

Fora! Saiam todos do caminho! Não lhe perturbem o processo de transformação!”.

A seguir, apoiando-se à porta, falou ao moribundo o seguinte:

As relações de um homem com o Yin e o Yang são mais importantes do que as com os seus parentes. Se eles estão apressando a minha morte e eu não lhes obedeço, estou fora da regra. Há a natureza que me faz carregar este corpo, laborar nesta vida, afrouxar na velhice e descansar na morte. Por isso, o que tomou ao seu cuidado o meu nascimento tomará o cuidado da minha morte. Aqui está um grande fundidor, fundindo o seu metal. Se o metal, pulando na caldeira, diz que quer ser transformado em uma espada, o grande fundidor certamente considerará esse metal um mau metal. Assim, se apenas porque nós assumimos a forma humana, insistimos em ser homem, e só homem, o autor da transformação certamente que nos considerará um mau ser. Encaremos o céu e a terra como um grande cadinho, e o autor da fundição como um grande fundidor, para onde quer que formos, não estaremos em casa? Calmo é o nosso sono e calmo o nosso despertar”.

As palavras de Chuang-Tsé correspondentes ao Yin e ao Yang dizem respeito à espiritualidade, cujas relações são realmente mais importantes do que os laços familiares, que são de natureza material. Carregar o corpo neste mundo diz respeito à encarnação. Quem toma o cuidado no nascimento e na morte é o Astral Superior. Se apenas porque assumimos a forma humana, insistimos sempre em permanecer nesta forma, somos ignorantes, porque ainda não nos espiritualizamos. A Terra é um cadinho depurador, onde evoluímos mais rapidamente para corrigirmos as nossas imperfeições. E o céu é onde se encontram os Mundos de Luz, para qualquer um deles aonde formos, segundo o nosso estágio evolutivo, por isso podemos indagar: não estaremos em casa?

Chegada a sua hora da desencarnação, os seus discípulos ensaiaram a realização de um funeral pomposo. Chuang-Tsé, porém, solicitou que abdicassem de tal pretensão, dizendo a seguir:

Com o céu e a terra como o meu caixão, com o Sol, a Lua e as estrelas como os meus círios, e com toda a criação para me acompanhar ao túmulo, não estarão já prontos os meus funerais?”.

Os discípulos protestaram, afirmando inocentemente que não enterrado ele seria comido pelos abutres. Ao que ele sorriu com ironia e disse:

Não enterrado serei comido pelos abutres, enterrado serei comido pelos vermes, toupeiras e formigas. Porque lesar a uns para proteger a outros?”.

Demonstrando uma certa influência budista e, ao mesmo tempo, referindo-se ao estágio evolutivo em que cada ser humano se encontra, para Chuang-Tsé cada ser humano é o que deve ser e assim pode viver com igual felicidade, enquanto viver ajustado à sua própria natureza, pois quanto a esta não há seres humanos superiores e outros inferiores. Há sim, seres humanos cujos tirocínios os tornam aptos a assumir cargos de chefia, outros cujos tirocínios os fazem serem bons negociantes, bons artesãos, ou bons funcionários. Mas há aqueles que têm vocação para dedicar as suas vidas a ajudar aos outros e que possuem o pendor para pensar e para investigar tudo. No entanto, desde que respeitem os seus tirocínios e os seus pendores, todos os seres humanos podem fazer aquilo que vieram para fazer, com igual felicidade e sucesso.

Então ele diz que existe um limite próprio para cada um a partir do qual tudo o mais que possa ser desejado apenas levará a lamentações. Quem quer mais do que lhe é dado sofre inutilmente sem que ninguém o esteja a castigar. Quando nos prendemos demasiadamente às coisas, sentimos perdas e ganhos, com a alegria e o sofrimento sendo os resultados dessas perdas e ganhos. Somente quem consegue se livrar dessas amarras é quem pode se sentir verdadeiramente feliz. A única liberdade a que os seres humanos podem aspirar tem que estar inserida dentro dos limites naturais da sua condição humana e da sua natureza evolutiva. Só devemos tentar fazer aquilo que podemos realmente fazer, pois a nossa liberdade de ação tem limites. Quem não gosta do que tem, porque pensa que podia ser melhor, é mal-agradecido e é estúpido. Abdica da única liberdade que um ser humano pode ter para optar, ao invés disso pela ansiedade constante de tentar ter o que nunca vai ter. Quem não gosta do que é, acabará por passar toda a sua vida frustrado, tentando ser aquilo que nunca vai ser. Aqueles que aceitam o curso natural da vida ficam sempre tranquilos, quer nas ocasiões alegres, quer nas ocasiões tristes. Quem apenas gosta da felicidade, sofrerá com a tristeza. Quem aceita com tranquilidade a inevitabilidade da desencarnação, sabe tirar melhor proveito da vida. De que serve não a aceitar? Querer ter aquilo o que se não pode ter é ficar preso para sempre. Aquele que gosta apenas da vida, sofrerá com a desencarnação. Aquele que gosta apenas do poder, sofrerá com a sua perda.

Para ele, quando um arqueiro faz tiro ao alvo, sem nenhum objetivo, consegue empregar toda a sua perícia. Mas se o objetivo é ganhar um prêmio qualquer, nem que seja uma taça sem valor, fica nervoso. E se o prêmio é de ouro, então fica meio cego ou vê dois alvos, pois tende a ficar fora de si mesmo. A sua perícia não mudou. Mas o prêmio o divide. Preocupa-se. Pensa mais em ganhar do que em atirar. E a necessidade de ganhar o impede de se utilizar de toda a sua perícia.

Tais palavras desse Mestre nos levam a efetuar um paralelo com os grandes espíritos que encarnam com o objetivo de ajudar aos demais seres humanos, já que eles não visam a qualquer recompensa, a qualquer troféu, a qualquer retribuição pelo bem que conseguem realizar em prol dos seus semelhantes. Não visam sequer serem retribuídos com pelo menos um “muito obrigado”, pois tudo aquilo que eles realizam é em nome da solidariedade humana, impelidos pela produção inicial dos espíritos, que é a amizade espiritual.

Como que querendo penetrar na sabedoria excelsa existente apenas lá nos páramos da espiritualidade, em que cada coisa tem a sua função específica e a sua devida importância para o Todo, Chuang-Tsé diz que cada ser humano, ou cada coisa, tem a sua virtude, pois a sua utilidade ou inutilidade depende do uso que se lhe dá, e a inutilidade é capaz de trazer muitas vantagens para aqueles que sabem utilizá-la.

 

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