10.03- Mêncio

A Era da Sabedoria
24 de setembro de 2018 Pamam

Mêncio, que seria quase tão famoso quanto Confúcio, pertencia à antiga família Mang, tendo encarnado em 370 e desencarnado em 289 a.C. O seu nome era Mang Co, sendo mudado por um decreto imperial para Mang-tze, o Mestre, ou filósofo, mas os europeus latinizados o transformaram em Mencius, em português Mêncio, assim como também transformaram Kung-fu-tze-Kung em Confúcio.

Os historiadores chineses ressaltam com muita justiça o papel da sua mãe como sendo uma grande educadora, fazendo dela o modelo das mães, por isso narram muitas histórias ao seu respeito, o que aqui deve ser evidenciado, para que sirva de modelo e lição para as mulheres de hoje, que querem porque querem abandonar aos seus lares, insistindo lamentavelmente em se tornar mundanas, deixando assim de serem as autênticas educadoras e as grandes responsáveis pela remodelação educacional do mundo.

Segundo essas histórias, ela mudou por três vezes de residência. A primeira vez, porque estando a morar próximo a um cemitério, o seu filho começou a se comportar como alguém estabelecido em casa mortuária. A segunda vez, porque estando a morar perto de um matadouro, o seu filho passou a imitar muito bem os gritos dos animais sacrificados. E a terceira vez, porque estando a morar perto de um mercado, o seu filho começou a agir como um negociante. Por fim, ela se estabeleceu próximo a uma escola, e lá ficou satisfeita. E assim, quando o seu filho negligenciava os estudos, ela cortava propositalmente o fio da roca, e quando o seu filho indagava a razão de tal atitude, ela respondia estar agindo exatamente como ele estava a agir na escola, cortando a continuidade do trabalho.

Sendo devidamente assistido pela sua honrada mãe, Mêncio se tornou um assíduo estudante, casou-se e pensou em se divorciar, mas resistiu a essa tentação, abriu uma escola de Saperologia, angariou muitos estudantes e recebeu o convite de vários príncipes para ir expor os seus ensinamentos de governo. Ele hesitou em deixar a sua mãe já idosa, mas a valorosa senhora lhe mandou um discurso que serve de exemplo a todas as mulheres do mundo, utilizando-se das palavras seguintes:

Não pertence a uma mulher determinar qualquer coisa por si mesma, mas está ela sujeita à regra das três obediências. Quando moça, tem de obedecer aos pais; quando casada, tem de obedecer ao marido; e quando viúva, tem de obedecer ao filho. Tu és um homem feito e eu uma velha. Ages tu de acordo com a regra de justiça que segues, e eu agirei de acordo com a regra que me pertence. Por que te mostrares inquieto ao meu respeito?”.

Mêncio então partiu para cumprir com a sua missão traçada em plano astral, porque a sua vontade de ensinar era proporcional à sua vontade de governar. Para ele, a forma monárquica era preferível à forma democrática, porque nesta é necessário educar a todos, enquanto que naquela basta apenas que o saperólogo eduque a um único homem, o monarca, para que assim o governo possa ser satisfatório. Ao que dizia:

Corrigir aquilo que se encontra de errado na mente do príncipe. Retificado o príncipe, o reino caminhará em ordem”.

Seguindo a essa linha de raciocínio, Mêncio se dirigiu primeiramente para Chi, e lá procurou retificar o príncipe Hsuan. Aceitou um cargo honorário, mas com a recusa do salário correspondente. No entanto, constatando que o príncipe não se interessava pela Saperologia, retirou-se para o pequeno principado de Tang, cujo governante se tornou um dos seus grandes admiradores, apesar de ser um mau aluno. Mêncio então voltou para Chi, demonstrando que estava evoluindo em termos de sabedoria, ao aceitar um rendoso cargo oferecido pelo príncipe Hsuan.

Nesse período a sua mãe desencarnou. Em reconhecimento ao grande papel de educadora exercido pela sua amada genitora, ele a enterrou com tanta pompa que os seus discípulos se escandalizaram.

Alguns anos depois, o príncipe Hsuan se dispôs a promover uma guerra de conquista. Mêncio logicamente foi contra, dada a sua natureza de pacifista. Considerando-o inoportuno, Hsuan lhe demitiu. Mas vindo a saber que o príncipe de Sung havia manifestado a intenção de governar como um saperólogo, Mêncio se encaminhou para lá. No entanto, veio a constatar que a informação era falsa.

Mêncio então se afastou da vida pública e passou a dedicar os seus últimos anos de vida à instrução e à composição de um trabalho em que descreve os seus diálogos com os príncipes. O Livro de Mêncio passa então a ser um dos mais celebrados de todos os livros clássicos da China. Na qualidade de saperólogo, ele não se dedica à metafísica, mas sim à sabedoria, já que aquilo que lhe interessava era alcançar a vida perfeita, e assim estabelecer o governo dos homens perfeitos. Como ele ignorava o processo da evolução, em que uns seguem à frente, enquanto outros ficam para trás, com estes conservando em seus espíritos a maldade e outras mazelas mais, mantinha a ideia equivocada de que os homens por natureza são bons, em consequência, que o problema social não surge da natureza do homem, mas sim da má administração dos governos. Daí a sua afirmativa de que os saperólogos devem se tornar reis ou os reis devem se tornar saperólogos.

Em um dos seus diálogos com os príncipes vamos encontrar as palavras seguintes:

— Se V. Majestade instituir um governo benevolente, todos os oficiais do reino quererão ficar na corte, todos os agricultores quererão lavrar as terras de V. Majestade, todos os mercadores quererão ter as suas mercadorias nos mercados de V. Majestade e todos os viajantes estrangeiros quererão fazer viagens pelas estradas de V. Majestade, e por todo o reino os que se sentirem agravados quererão vir se queixar a V. Majestade. E depois que o fizerem, quem os farão recuar?

O rei, então, mentalmente atrasado, respondeu da maneira seguinte:

— Sinto-me estúpido e incapaz de fazer tudo isso.

Para Mêncio o bom governante não declarará guerra a outro Estado, mas apenas ao inimigo comum: a pobreza; porque é da pobreza e da ignorância que o crime e a desordem fluem. Punir os homens por crimes cometidos em consequência da falta de oportunidade educativa ou de emprego é covardemente trair o povo. O governo é o grande responsável pelo bem-estar do povo e deve regular o processo econômico de acordo com essa responsabilidade. Deve taxar de preferência a terra, em vez daquilo que o homem nela constrói, pois isso aboliria todos os impostos e desenvolveria a educação universal de maneira obrigatória, como sendo a mais alta base da civilização. O que separa o homem dos animais irracionais é pouco, com muita gente lançando fora esse pouco, e somente os homens superiores o preserva.

Mêncio denunciou o lucro como sendo o móvel de tudo na sociedade humana, como hoje em dia continua sendo, lastimavelmente, do mesmo modo. Então repeliu a ideia de Sung Kang de conquistar os reis para o pacifismo com os prejuízos financeiros da guerra, quando assim se expressa:

Vosso objetivo é grande, mas o argumento não é bom. Se, partindo do ponto do lucro, ofereceis os vossos persuasivos conselhos aos reis de Chin e Chi, e se esses reis aceitarem as condições do lucro e detiverem o movimento dos seus exércitos, então todos os que formam esses exércitos se rejubilarão com o fim da guerra, e encontrarão prazer na caça ao lucro. Os ministros servirão ao rei pelo lucro que o cargo proporciona; os filhos servirão aos pais, e os irmãos mais novos aos mais velhos, pela mesma consideração; e o resultado será que ministro e soberano, pai e filho, irmãos júnior e sênior, todos abandonarão a benevolência e a retidão, e nada mais farão, senão norteados pelo lucro. Mas nunca uma sociedade ou Estado nestas bases escapou à ruína”.

Mêncio reconhecia o direito de revolução e até o pregava. Denunciou a guerra como sendo um crime lesa humanidade e chocou aos admiradores de heróis militares do seu tempo quando se pronunciou da seguinte maneira:

Há homens que dizem: sou perito em adestrar tropas e conduzi-las à batalha! Mas esses homens não passam de grandes criminosos, pois jamais houve uma guerra boa”.

Neste quesito ele estava equivocado, pois o ser humano tem que se adestrar em todos os setores da vida, para que assim possa galgar a todos os estágios requeridos pela evolução humana. Mas acertadamente ele condena o luxo das cortes e censura severamente o rei que engorda aos seus cães e porcos, enquanto a fome vai lhe consumindo os seus súditos. Assim, quando um rei declara que não pode evitar a fome, ele o intima a resignar, quando diz:

O povo é o elemento de maior importância em uma nação, e o soberano é o menor”.

E como ele reconhecia o direito de revolução e até o pregava, considerava que o povo tinha o direito de depor aos seus governantes, e mesmo, até de matá-los, caso se fizesse necessário para o bem geral.

O seguinte diálogo foi travado entre Mêncio e o rei Hsuan:

— Qual a sua ideia a respeito dos altos ministros? — indagou o rei Hsuan.

— Se os príncipes cometem grandes faltas, devem ser advertidos; e se não atendem, devem ser destronados. Suponhas que o chefe de um tribunal não pode governar os seus subalternos, que farias com ele?

— Demitia-o. — disse o rei.

— Se dentro dos limites do reino não há um bom governo, que deve ser feito? — indagou Mêncio ao rei.

O rei ficou desconfiado, olhou para os lados e mudou de conversa, indagando:

— É verdade que Tang baniu Chieh e Yu matou Chou?

— Está na história. — respondeu Mêncio.

— Pode o ministro dar morte ao soberano? — indagou o rei.

— Aquele que ultraja a benevolência é chamado de ladrão, aquele que ofende a justiça é chamado de rufião. O ladrão e o rufião são trastes. A história fala na execução do traste Chou, mas nada diz de ter sido levado à morte um soberano. — respondeu Mêncio.

O sistema saperológico de Mêncio em muito influenciou a cultura chinesa para o estabelecimento do princípio de que, quando um rei se tornava nocivo ao seu povo, ele perdia o mandato do céu e podia ser deposto. Daí a razão pela qual Hung-Wu, o fundador da dinastia Ming, tendo lido com grande indignação o diálogo travado entre Mêncio e o rei Hsuan, houvesse ordenado a sua degradação do templo de Confúcio, onde um edito real de 1084 a.C. colocara a sua tábua. Mas antes mesmo de um ano a tábua voltava para o templo, e até a revolução de 1911 Mêncio permaneceu como sendo um dos grandes heróis da China, considerado o segundo nome na história da saperologia chinesa, pois o primeiro é Confúcio. Foi graças a ele e a Chu Hsi que Confúcio pôde influenciar a cultura chinesa por mais de dois mil anos.

 

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